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domingo, 31 de agosto de 2008

1986-2008

1986. Abraçamos a Lagoa . Parecia divertido, mas havia um projeto ambicioso em jogo...
Éramos todos mutito jovens. Politicamente éramos umas crianças. Afinal, quase 25 anos de ditadura nos conduziram a uma infantilidade débil. E o pior: parece que resistimos bravamente em não deslocar esse automatismo obsessivo. E o tal do tempo, que não faz outra coisa senão passar, e está mais rápido e estou mais velho. Matematicamente isso é facilmente explicado: um ano para uma criança de 10 é muito significativo; já um ano para um adolescente de quarenta ou cinquenta é bem menos relevante.
Vinte e cinco anos em que ficou mais do que patente a ausência de um pensamento político brasileiro, e não é por falta de autores de alto nível, mas de aproveitamento das suas respectivas obras. Uma certa dose de Pragmatismo, ensinamento que Anísio Teixeira , através de seu mestre John Dewey, tentou aplicar nesse país , antes de morrer ( crime ou acidente?) no poço de um elevador cafajeste e analfabeto, no início dos anos 70.
Um método para ações, sem que se vise transcendências, metafísicas, sem olhar para passado algum , mas sim uma visada para frente, um “ Working Progress” permanente. Tal qual a análise. Freud talvez tenha sido um dos primeiros pragmatistas célebres.
Dificílimo , quase impossível, que isso haja ou se sustente num país com a marca e tradições religiosas como esse tal de Brasil.
Vivemos num populismo religioso escancarado. Que é indelével que não há condição para essa espécie de não conjecturar um tal de Deus, ou seja, lugar de exasperação e tentativa de salvação , que lamento e me resigno em repetir com os meus mestres , não advirá, mas há condição de se minorar tal mal estar, o mal estar por excelência, que na Psicanálise recebeu o nome de angústia. Exercitando nossas especificidades ao invés de imitarmos, tão somente, os outros bichinhos que por aqui transitam. Esse é o Pragmatismo , a Política Freudiana desde sempre. Tarefa dificílima, mas não impossível. Diferentemente de alguns também, carolas ao contrário , que supõem que seja possível a havência de um ceticismo radical. Como seria possível para um cético , daqueles convictos, discípulos de Pirro, não crer no seu próprio ceticismo? É preciso então apostar em algo. Ter fé , tal qual indica meu mestre MD Magno, não implica em crença ou conteúdo x ou y. Não há valoração ou desvaloração disso ou daquilo. É puro fluxo, puro movimento, pura aposta.
E esse movimento , que se iniciou muito antes de 1986, permanece insistindo. Ele amadureceu, ou seja, eternizou-se como adolescente. Aquele que está disponível para mudar. Durante um tempo , achei que isso era sinônimo de leviandade, mas dependendo do contexto o que há é flexibilidade. Fundamento para se sobreviver nos tempos de hoje e nos que estão por vir. Já que muitos fundamentos ruíram – e ainda bem- , faz-se necessário escolher estratégias menos estúpidas e/ou reacionárias. A tecnologia , prima irmã do inconsciente, com suas articulações imensuráveis, está varrendo o que estiver atrapalhando à sua frente. Sim, à sua frente, pois tal qual inspiração pragmática , o futuro é o caminho. Não há nem do que se lamentar. É inútil. Serve apenas como faxina, lamúria neurótica. A frase do meu mestre Magno que afeta os meus tímpanos , ecoando no meu coração: “ Aproveite , pois vai piorar”.
Temos que gozar agora e direitinho, pois não há garantia alguma do que advirá. Apenas suspeitas .....
Para quem pensava, até poucos dias atrás, em não comparecer às urnas, e sonhava com um boicote radical a esses pleitos perversistamente obrigatórios, mudei. Há uma razoável explicação....
A classe média brasileira, e sobretudo a carioca, é das mais cínicas e desorganizadas que se pode observar. A postura outorgando aos outros a responsabilidade por tudo o que lhes acossa , afeta, diz respeito – porém sem ser minimamente responsivo até mesmo por essa outorga-, é das mais neuróticas que se pode contemplar, na nossa famigerada sociedade civil.
Portanto, como não somos tão confiáveis assim, supor que mobilizações profícuas ocorreriam em tão curto prazo , a ponto de iniciar um movimento de forçação para , enfim, uma reforma política ocorrer, é da ordem da idealização e não daquilo que realmente há.
Fernando Gabeira surgiu sorrindo e de braços abertos. Passaram-se 22 anos e alguns votos, dentre os milhares que obteve, nesses anos todos. É uma presença. Verde, madura.
Quem sabe uma reversão se inicia. Aos poucos, pacientemente. Estamos sem saco, mas é bom apoveitar direitinho. Cuidado também é bom se ter. Vai piorar, mas melhorar também vai.....sempre.

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