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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O balançar de um Janeiro

Certa vez, Afonso Romano de Sant'Anna escreveu no Jornal O Globo sobre a queda do Muro de Berlim.Dizia então que algo se erguera nele com a queda do tal muro,com o fim do comunismo na União Soviética.Afonso Romano é poeta consagrado no Brasil.
Janeiro se encerra com o desmoronamento de um prédio que assassinou mais dois.Ele,o desmoronado primeiro,primeiro a cair,a beijar a lona (expressão comum nos lutadores,agora na moda,do UFC) impôs a sua compleição física avantajada e engoliu os oponentes menores.Nocaute.Correria ,pânico,perplexidade,vexame.
O que se ergue em mim (passados mais de 20 anos da poesia bela de Afonso Romano e cujo papel amarelado pela implacável passagem dos dias, trazendo a lembrança daquele ato que derruba para erguer em seguida) após o horror que a negligência estúpida e arrogante daquele gesto que a gente faz nos traz?
Vez ou outra resolvo responsabilizar a estação quente do ano, o verão tão celebrado nos trópicos,por certas estupidezes.Ora! Quanta estupidez,a minha?
A estação retrata tão somente momentos de um até logo, de uma voltinha, de um dar de ombros feito cabrocha bonita, do planeta em relação a certas estrelas que ardem de paixão.E que podem se apagar.Quem disse que era eterno?Eterno só pra mim enquanto eterno,enquanto vivo.
Yellowstone" não é ficção.Se naquele belo parque ,o mais antigo dos EUA,houver uma outra erupção vulcânica violenta,podemos mergulhar o haver numa nova era glacial.
Pois sim...Nada torna responsivo o verão ou o inverno pelas burrices da nossa espécie.Além do mais,narcisismos suspensos,o planeta não quer ser salvo não!Aí está 'yellowstone' e um certo movimento de quadril - nada que se possa comparar ao das mulheres- denominado terremoto.Placas tectônicas que enlouquecem ou pedem passagem de direito e surtam.Suas formações enlouquecem e gritam alto,rangem,desmoronando o que se pode.São cruéis os passos mal executados pelas tectônicas.Nos deixam ,na verdade,"atetctônicos",sem chão.O mesmo efeito depois do balançar da cabrocha que passa.
Não precisamos contudo abreviar a destruição do planetinha.Podemos agir civilizadamente por mais um bom tempo.Nosso Caetano Veloso já ensinou a letra.
Nas minhas tectônicas abaladas pelo prédio que cai e assassina a gente,ergueu-se tão somente essas linhas de agora.Tal e qual para Afonso,lá nos idos dos agora longínquos anos 80.Qual seria a idade da minha memória?
Ontem,ou seja,em 1989,1999 ou 2012,no meio daqueles escombros,revi um colega de infância.Ele fazia um curso para conversar melhor com os computadores.Pretendia alçar outros vôos.Era noite clara no planetinha azul (azul?) e a lua ,superego daquela estrela com quem nossa terra mantém romance antigo,exibia-se bela,feito moça do Rio, no verão que gosto de implicar.Implicar pra quê?Só para implicar.Sou deveras malcriado.
Não tanto quanto certas tectônicas que nos equivocam contundentemente.Sem perdões.
Ergue-se também ,naquilo que digo de mim, a incerteza naquele chão duro ,quente/frio,que é para todos e lugar algum.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Passarinho na gaiola.

Em tempos de Chico Buarque no Rio,saudades do Canecão, e do mate-limão na praia ,sabor de infância,reencontro um conhecido cuja vida correu paralela a minha.Estudamos no mesmo colégio,frequentamos o mesmo clube ,moramos no mesmo bairro e nunca nos vimos.
Tentei lhe perguntar sobre algumas almas penadas em comum,mas ele não havia sido assombrado por nenhuma delas.Já que não era muito afeito às fotos pessoais,minha máquina de época era uma Kodak Xereta e deformava os rostos alheios,não tínhamos provas irrefutáveis da nossa não-amizade ,apesar da trajetória tão próxima.
Passei uma parte do tempo entrevistando-o ,pois a minha presença parecia não lhe despertar nenhum interesse.Nada quis saber a meu respeito.Poderia eu então ser um espião ,um agente secreto....e ele ,talvez,um astro de rock in roll.
Passo parte do meu tempo tentando ser invisível ao me mostrar demais.
Calado,fiz-lhe uma última pergunta: "Você se lembra de um garçom, daquele nosso clube da vida toda em que jamais trocamos duas palavras sequer,e que se chamava Passarinho?"
A resposta que recebi foi a prova de quem ainda pode se surpreender,e muito, com as surpresas da vida.Tal qual aquela frase do ex-Beatle John Lennon " A vida é o que nos acontece enquanto planejávamos outras coisas".
Passarinho,homem tímido e gentil e que servia o melhor milk shake de chocolate do planeta,já que o planeta da minha época era meu clube e nada mais,tinha saído do emprego,há algum tempo.
Disse-lhe então que a última vez que o avistara tinha sido numa festa de reveillon,onde trabalhava num bar improvisado ,no segundo andar ,logo acima da quadra de esporte coberta.Era noite de bebedeira e ilusões.Desejávamos prosperidade até para os inimigos.Noite de cinismo estrelada e o espocar de fogos de artifícios compondo a cenografia.
Alguns poucos anos antes, eu voltara a frequentar o clube com certa assiduidade.Localizei-o e obviamente voltei aos sabores dos tempos em que comecei a sentir sabores pra valer.Reconheceu-me ou fez um belo teatro.Eu,entrando na Universidade, e ele ali,o mesmo.Ao menos para meus olhos não tão cansados.E era isso que importava.
Agora,Passarinho não se fez gavião.Assaltou bancos e foi preso.Vive numa outra gaiola.Confinado,humilhado.Não sei o que o levou a tal ato de herói.Em bancos não há alpiste,e sim muita grana e também desejos cínicos de prosperidade.
Passarinho não serve mais milk shake de chocolate, à beira da piscina dos burgueses do clube, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas,à beira do paraíso,sempre com o mesmo sorriso de canto de boca.
Está no centro do inferno.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Melancolia e bolo de carne.

Foi então que o Dinamarquês Lars Von Trier,diretor de cinema polemista e talentoso,avançou com a sua melancolia azul,arredondada,forma de bola que flutua,suavemente em direção ao nosso planetinha.
Fizeram cálculos ,os tais cientistas,e asseguraram que não havia risco maior de colisão.Ela,a melancolia,daria uma lambidinha no nosso prezado e insignificante planeta,para depois partir.
Sabe como é o cálculo preciso de um matemático.Ele quer explicar o mundo por aquela via.Aí vem um lógico,um pouco mais chegado aquilo que dizem ser abstrações , e bagunça tudo.Vem um Físico e bagunça um pouco mais:'Mas o nosso universo está em expansão....a velocidade da luz passa a ser questionada inclusive.Einstein se remove nas tumbas de um universo dito elegante..." E vem psicanalista meter o bedelho,falar sobre o comportamento dos personagens,vem o filósofo discorrer sobre o ser ,sobre a ontologia do planeta e do diretor, e tudo isto está valendo.Podemos falar com vontade.Até porque aquilo nos remete à certas falas.
O diretor já declarara que sofre de depressão,ou seja,é um homem contemporâneo do seu tempo. Depressão está na moda e isso pode ser preocupante ,já que os medicamentos - úteis e em alguns casos imprescindíveis- não são vitaminas e não deveriam ser prescritos de qualquer forma,pois afetam o sistema nervoso central e tem efeitos colaterais.Ganho de peso,impotência - nos meninos sobretudo-, alteração na qualidade do sono,aumento da pressão arterial - no caso dos hipertensos é preciso cuidado-, dentre outros sintomas.
No caso da película não melancólica, ao contrário, pois tenta reverter o sintoma não somente esclarecendo sobre os mecanismos que a compõem ,mas agindo sobre o mesmo,algumas sequencias no filme são exemplares. O cientista que supõe saber tudo e crê que o cálculo diz tudo sobre o que há.Decepcionado,não segura a peteca e é o primeiro a abandonar o barco;a criança cuja inscrição de um fim,de um término definitivo, não se dá enquanto tal, e tudo aquilo virá mais um sonho, repleto de tias heroínas a salvá-lo; a irmã salvacionista -companheira e gentil é bem verdade,mas insuportável no seu papel de salvacionista do outro e rainha do lar,rainha mãe,mulher dedicada e exemplar do tal cientista afortunado; e a melancólica cujo mundo já tinha sido faz tempo...apesar da farsa que sustenta,já que ainda vive,se alimenta,gosta de cavalgar um garanhão,dá uma trepadinha com o garotinho-aprendiz,para que os convidados se divirtam.E gosta também de bolo de carne.
Já o papai e a mamãe são malcriados do mesmo modo que o diretor.Mamãe de melancólica só diz coisas certas nas horas erradas.Comporta-se bem-mal.O papai é um taradinho inconsequente que coleciona talheres sofisticados. Ah! Existe o corno....E pediu para sê-lo.Fez questão de não sossegar na sua vocação para escravo amoroso de um desprezo anunciado desde sempre.
A festa é sofisticada,o local lindo.Comidas e bebidas e uma promoção no emprego.Demais não é?
É.
A farsa de quem finge não ter mais mundo é essa arrogância em supor que pode se atravessar o que não há,o abismo mais fundo.Até o garanhão e o carrinho de golfe não conseguiram cruzar aquela ponte.Aquela ponte vai a nenhum lugar,a um não lugar.É uma espécie de silêncio wittgenstaniano.Não há mais o que dizer.
Uma melancolia me parece feito menino mimado.Conheço bem ,pois fui um.Rebelei-me a tempo de não me ferrar um pouco mais. Se você banca o salvacionista ou o provedor incansável e oferece e oferece e oferece,esse massacre de ofertas e coisas e luxos só reforçará o sintoma paralisante ,quase catatônico.Na verdade,catatônico.
Criança mimada sabe correr atrás quando tem fome.Não precisa ficar empurrando nada goela abaixo,até porque nada já é muita coisa.Uma anorexia parece alimentar-se de coisa alguma.E o bolo de carne,sabor de infância ,passa a ter gosto de cinza.
Se bem que....Aquilo lá não é uma neurose um pouco mais apimentada,não?Aquele desinteresse não tem um certo charme histérico de quem quer todas as coisas ao mesmo tempo e que de algum modo já sacou que o que interessa é impossível,mas não quer se mancar quanto a isso?O que seria se mancar,por exemplo?
Num Seminário de 1992,intitulado Pedagogia Freudiana,MD Magno já nos ensinou que pode-se beber o vinho,a festa,o maldito casamento,enfim, a existência do dia a dia, com Nirvana.O capítulo se chama "Sorvete com Nirvana".Antídoto contra melancolias e cinismos
Lembram daquela anedota: quer eleger um mestre para em seguida destituí-lo,jogá-lo no lixo.
É disso que padecemos vez ou outra,vez e sempre.Discípulo é confiável?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um novo ano?

Esse ano não acabará.Decidi que ele continua.Será eterno.Mas
é preciso tão somente um movimento desejante próprio para que algo assim se
perpetue?Nas ilusões nossas de todo o dia, sim.De fato, não.
Todo ano é singular ,pois único,assim como cada um e seus tesões
particulares,únicos também.
O que há de genérico em cada coisa que habita por aí são as
intercessões que nos compõem.É essa coisa em comum e que nos vincula também.Mas
ela é uma só, numa miríade sem fim.
O que faz a cultura e os seus próceres senão nos catequizar
a todo momento. O curioso é que isso se
assemelha a uma posição opositiva,contrária,àquela que está no comando.Qualquer
um que se opõe ,por exemplo, a uma liderança política qualquer deve adotar tal
postura,ou seja, a da insistência na sua posição contrária àquela dominante de
momento.Mas a diferença reside no fato de que não se deve tentar convencer.É
inútil se do lado de lá tem alguém que raciocina um pouquinho só.É muita
pretensão achar que se convence alguém que não quer ser convencido,manipulado...por
aquilo.Visto que será pego por outra coisa ou outro alguém.Inarredavelmente.Porém,pode
operar juízos menos preconceituosos,mais abstratos.Conteúdo demais atrapalha.
Mas o que se faz mediante o fato bruto de que somos nós
também os comandantes dessa nau repleta de furos?Justamente por esse comando...
Engana-se quem crê no poder absoluto do que quer que haja
.Manipuladores,hipnotizadores,adivinhos,máfia branca ou de qualquer
coloração...Tudo isso são contribuições nossas.
A quem suponha – cínica ou ingenuamente- que o parlamento e
seus participantes são seres transcendentes e que não nos dizem respeito.Chegaram
lá por mera providência divina. Deve ter sido.....E o fato de não ter elegido
esse ou aquele candidato, ou então, não ter participado do jogo ,abstendo-se ou
anulando a sua decisão, não nos exime de responsabilidades.Estamos no mesmo
jogo.Não há como não estar no jogo!E ele é cada vez mais amplo e incomensurável.
As informações estão quantitativamente mais rápidas e mais numerosas.Um preço a
ser pago pela tecnologia vigente.Como filtrar tudo isso sem enlouquecer?Sem dar
razão às tentações egocêntricas, e ou histéricas, de querer dar conta de tudo?Haja
narcisismo para tanto. E é típico dos que transformam sua própria existência
enquanto fundamento para se olhar o mundo e ser olhado pelo mesmo. Aliás, quem
olha pra quem e para quê?
A minha questão diz respeito a uma vã tentativa de não
encerrar esse ano agora. Quero poder dizer não a esse calendário religioso,de
cepa gregoriana,vez ou outra,já que inteiramente é praticamente impossível.As
formações culturais – definidas pela Nova Psicanálise de um modo geral-
enquanto modos de existir dessa chamada espécie humana são poderosíssimas.São
hábitos ,costumes ,arraigados por milênios.
Portamos um organismo frágil na sua origem. Sim ou
não?Alguém se candidata a uma briguinha ,digamos um vale-tudo, contra um leão
ou um urso famintos?Uma corridinha na água,valendo medalha, contra um tubarão ?
Isso sem falar nos microorganismos,nos parasitas, que matam centenas
de milhares todos os anos,há tanto tempo.
Contudo ,temos uma mente capaz de avessar o que quer que
esteja posto para ‘nosotros’.E esse é o nosso maior poder.Ali,nas grimpas das
nossas oposições,nas nossas binariedades,similares ao computador, na verdade
para além dessas polaridades sim/não dia/noite/ morte/vida mania/depressão, 0/1
etc, temos a chance da novidade sempre em progresso,da chamada criação.Um salto
bem maior do que a já tão útil e relevante criatividade que mistura opostos
existentes,mesclando o que já está posto e decantado na vida, e inventa outra
coisa.Todavia, criar é fazer brotar algo radicalmente novo,jamais
pensado.Talvez estivesse até em potência,o que é muito comum,mas não havia
pintado e reverte o jogo jogado.
Esse organismo idiota pode sofisticar-se. Fez
roupa,remédio,residência,aprendeu a química dos alimentos,desenvolveu técnicas
de guerra,instrumentos para caça,bolsa de valores ,música ,cinema,tudo isso aí
junto que vem a ser arte.
Existe gente –gregoriana demasiadamente ou não- que acha que
a natureza humana é a das florestas,a dos botos.Não.Nada mais natural para essa
nossa espécie do que os artifícios que produzimos e de tantos outros que ainda
seremos capazes de gerar.O que não implica em ter que destruir a natureza outra
e que já estava aí desde sempre.Além do que ,necessitamos dela para sobreviver.Ao
menos enquanto a espécie permanecer feito carbono. E ela tem belezas extraordinárias,o
tal haver natureza. Nunca viram um ornitorrinco?Um Tsunami?Uma chacoalhada mais
irritadiça dos deuses das camadas mais profundas dessa terra, chamada Terra,
conceituada enquanto terremoto?
Certa vez o meu mestre indagou:”E se o verde for a
poluição?E se o tal Deus –que tantos conjecturam – não gostar da gente?”E não
há como não conjecturá-lo.O problema é que não se toma isso enquanto mais uma
prótese,uma criação da espécie,capaz de aplacar algumas angústias e
desamparos.Se não for por essa via o que se vê são ataques delirantes de
sacralização de meros personagens ,assim como nós.Agora mesmo vive-se isso numa
tribo distante,lá pela Ásia do mundo, em que o ex-mandatário,ex-presidente,ex-rei,
cometeu o seu maior pecado.Para além da soberba,pecado maior para os cristãos
,por exemplo, o cidadão morreu.Tadinho: ele não podia fazê-lo.
As reações do seu dito povo são as piores possíveis.Aquilo
chega a assustar,sobretudo quando sabemos que ele desenvolvem armas capazes de
explodir o haver por inteiro.Então que tratemos de desenvolver a nossa
também!Por que um grupo de psicóticos privilegiados pode possuir esse poder e
nós outros, da Ameriquinha ao Sul, não podemos? Qual o porquê de tanta
subserviência?
Num sistema prisional ,os bons moços e moças residentes de
lá se respeitam.Sabem que ali só tem gente boa....capazes de quase tudo.Numa
academia de artes marciais idem.Já freqüentei.Todos sabiam dar porrada e tomar
de volta.Por que somente a certas criaturas,independente de suas convicções
religiosas ,políticas, lhes é dado o direito de poder apontar os seus
brinquedos belicosos e destruir o mesmo planetinha que, hoje em dia,
articula-se em rede cada vez mais ampla?Manda quem pode e obedece quem tem
juízo?”Maybe”,talvez.
Pois é. Resolvi então implicar com Deus.Decidi não encerrar
o ano.Tampouco pretendo morrer antes que ele se eternize enquanto único-ano.
Papai Noel,aquele gordo escroto que funciona bem no país de
onde veio ,pois o inverno é tão intenso e implacável,restringindo a tal luz
natural, que também tem as suas inadimplências enquanto luz, que a turma que
por lá gorjeia fica melancólica.Logo,o tal rapaz barbudo de saco vermelho
alivia a melancolia das crianças.Pronto.Ele partiu.Partir não é morrer.Outro
dia usei tal expressão para homenagear uma figura importante para minha
existência. A quem iludir com isso?
O tal velhinho saiu de novo.Pegou seu carro popular e enganou
as crianças mais uma vez.Quem trouxe o presente então foi aquele escroto?Não
foi não!Fui eu quem comprou aquele troço com o dinheiro que roubei,ou
melhor,ganhei com o tal trenó, cheio de suor e lágrimas de cada dia,de tantos
anos.Sou somente mais um mero flanelinha do haver!
Esse ano inventarei ano novo.Não será bi sexto.Fevereiro
continuará mais preguiçosa em seu charme único de estar Fevereiro.E eu já desmunhequei aqui com
Fevereiro,pois ele pode ser menino e também ter preguiça e usar cor de rosa.
Afinal,a cor do sexo é cor que corta, que secciona,que sabe que para além de
tudo o que há não há transa possível,não
há sexo possível,nem morte.A cor do sexo já misturou o azul e o amarelo e o
preto e o branco e o rosa e avesso tudo isso.Tá tudo de cabeça pra baixo e
novamente recomeçar.
Esse ano será como a frase sábia dita por um pai ,cuja
memória se despede passo a passo.Perguntado sobre o dia de hoje,ou melhor: “Que
ano é hoje? – Um ano bom”.

domingo, 27 de novembro de 2011

Par ou ímpar.Vamos brincar de criança.

Aquelas mãos decididas pela aposta, iniciam a guerra.Par ou ímpar?-alguém com certa autoridade de ao menos perguntar,perguntou.
Um dedo assinala x o outro y.Não há a menor chance para o empate.Escolhas são fundamentais aqui.Não se tem tempo para postergações obsessivas e outros cacoetes estacionados.
Dos dois lados do campo,daquela escola secundária de precariedades, os meninos são escolhidos.Um a um.Você não.Não sabe jogar direito.Você sim.Vai jogar no plantel do Tempestade e do Coisa Ruim.Normalmente,os garotos que não estudavam e só gostavam de outros tesões que não os livros,praticavam esportes com afinco e confusões também.
Esforcei-me.Quase fiz curso para peladas eventuais a não ter que passar por aquele crivo quase sempre humilhante.Levava jeito.Praticara desde pequeno com primos e vizinhos.Salvei-me da expressão desolada que alguns colegas carregavam ao ficar por último....no tal "sorteio".
Comentei com pessoas sobre isso e os mais rodados pelo tempo me advertiam que era assim.A vida era assim.Você tem que mostrar certas competências se quiser prosseguir no jogo.E as crianças são perversas desde quase sempre também.
Quando Freud,no início do século XX ,anunciou o óbvio ,houve tentativas de linchamento.Ele acabara de dessacralizar a tal criancinha.
Pois bem...o jogo já começara e um amigo estava de fora.Ficara quase sempre de fora.Não levava jeito para esse tipo de pelada.Ainda por cima era chato.E feio .E o mais nocivo: um dos melhores alunos de toda história da tal escola.
Freud nos indicara também sobre um tal de Inconsciente.Se tivéssemos nos lembrado,entenderíamos o porquê daquela antipatia para sempre.
Queria ser diplomata,o tal chamado Cú de Ferro ou CDF.Sentava na primeira fila e terminava os testes antes dos demais.Virava-se para o lado,para trás e indagava do professor responsável:"Posso recolher"?
AH... Cú de Ferro....Cú de Ferro!Foi aí que vacilastes!Foi aí que assinaras a tua sentença de desprezo futebolístico perante seus outros colegas!Você era pedante,arrogante!E não era só no esporte bretão que não tinhas a menor habilidade,mas em todos!Lembra-se?Daquele jogo contra os meninos mais velhos e que se achavam donos da escola?Você pressionou autoridades competentes e forçou a sua escalação!Resultado: fostes para a zaga e entregou o ouro para a canalha adversária.
Queríamos o seu pescoço magro e comprido enquanto enfeite de fim de ano.Não lhe davam mais nem ao menos um bom dia sincero.Eu mesmo quis a sua alma.Um dia soubemos que estavas de cama,adoentado.Confesso-lhe, depois desses anos todos, que procuramos, junto à direção do colégio ,saber notícias suas. O diretor à época ,o primeiro capixaba que conhecera na vida, disse-nos que tudo ia muito bem.Silêncio naquele pátio decadente.Alguém chegara a perguntar:" Mas não tem como reverter para pior"?Levou o cartão vermelho.Pegou um gancho de uma semana.Impetramos recurso ,mas nada.Não se tinha contato político adequado por ocasião.Éramos amadores arrogantes.
Voltastes para a selva,isto é,para o convívio com os coleguinhas.
Inteligente,transformou-se em árbitro de quase todos os esportes praticados na escola.Era diligente.O levantador da partida de vôlei armava a jogada.Antes mesmo da preciosa atingir a altura adequada para o ataque,atravessar a muralha de braços e vontades adversárias,ele,o novo árbitro, já pulava no seu banquinho de autoridade.A cena patética sempre se repetia.Nunca errou um lance.Tornara-se um árbitro respeitado até por seus desafetos.E ficou popular.
Na eleição para o grêmio escolar foi o segundo colocado entre os 4 concorrentes.Ganhara poder.Juntava-se então às meninas.Elas reconhecem alguém que lhes faz companhia.Queriam poder.E era só o que o cú de ferro juvenil almejava:poder.E as meninas ,inteligentes ao menos, conquistaram prestigiosa companhia.
Durante o ano seguinte , ele comandou coisas por lá.Deixamos acontecer.Merecemos esse período sombrio,onde foi banido o par ou ímpar.
Houve até um concurso para formosuras. A eleita por simpatia,tornara-se um 'affair' do ex-rejeitado-feio.Ficara insuportável.O poder é um afrodisíaco maravilhoso e perturbador.
No seu aniversário, convidara os mais velhos e a direção e a sua camarilha. Soubemos pelo baixo clero."Ele não convidou nenhum membro do baixo clero?"-indaguei espantado. "Está emburrecendo.Ótimo!"-conclui esperançoso.
Tempos depois, a moça simpática partiu.Mudou-se para o estrangeiro e ,segundo colegas de partido,arrumou um outro poder por lá.Nunca mais a vimos.
O mancebo arruinou-se.Com frequência ,passou a ausentar-se.Tornou-se apagado.Suas notas decaíram.O baixo clero nos avisava sobre tudo.Aquela festa ainda espocava fogos de ressentimento,e o ressentimento é o mais deletério dos sentimentos.
A turma ressentida então organizava-se e escolhia os novos parceiros.Dessa vez a causa era periclitante.Fim de ano,perigo à vista,pois alguns correligionários ameaçavam tombar.Notas baixas,alertava o atento baixo clero.
'Eureka'!Retomemos o par ou ímpar democrático!!Urra,Urra!!
Mãos lançadas,imprevisibilidade no horizonte, escolhas abertas.
Dessa vez o critério também era claro.Os amigos que pudessem colaborar com o salvamento dos que estavam à deriva,teriam prioridade.
No meio da turba ,um rosto pálido surgia dos escombros.Era ele.O ex-feio-Cdf-árbitro-adulador de diretores e ruim de pelada.
Passou o tempo,minutos que não partiam.Um a um.Ele foi o último.
-Mas porque o último.Sou ruim de pelada ,mas sou menos ruim que muitos que aí estão.Além do mais ,sei apitar o jogo.- protestou com veemência.
- Você tem jogado muito mal com a Matemática,com a Física.....Lamentamos.
Decorridos muitos anos,e nenhuma notícia.Talvez tenha se tornado realmente um diplomata.Se bem que é preciso que se tenha aprendido a lidar com o clero mais baixinho.Nem que seja para atravessar com elegância mínima o par ou ímpar de qualquer pelada.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vinte anos essa tarde.

Vinte anos essa tarde.
Poderia ser o título de um filme.Aliás, adoraria saber produzir um roteiro para cinema.Quem sabe um dia não aprendo? O título ,porém, tenta falar sobre um momento fundamentalista: a discussão apaixonada.
A rua, cujo nome remete à certa pessoa de origem árabe,descia sob a companhia dos colegas de Universidade.Fim de ano,fim das aulas.
Nesses tempos de então ,tinha-se recesso veranil por um longo período.Universidades e  escolas em geral não eram creches para uma classe média sem rumo.
Fim de ano tinha cara e cheiro de fim de ano.Agora, há um massacre estético também.Poluem as ruas sem considerar aqueles que não aderem à festinha.É a chamada catequese disfarçada de democracia.
Já considerei o fato de obter conhecimentos aeromodelísticos e executar o meu "September eleven" particular ,nas águas de uma Lagoa famosa.Tolice.Seria pura tolice repetir aquilo que se condena,já que a Democracia ,em último nível, teria que provar do veneno que dera para Sócrates.Aquele grego que não gostava muito de escrever e que tinha como "Ghost Writer" o Dr.Platão.Agimos no' deixa pra lá'.... de agora.E esse agora perdura por milênios.Isso faz estrago.
A rua lá de cima ,escrita aqui,foi descida.Os seus passantes discutem posições.A menina defendia um autor que pouco conhecia e o menino fazia o mesmo.Ambos arrogantes.Ambos jovens.Ambos recém sáidos do forno,ou seja,recém saídos da Universidade.Todos.Ignorantes.E continua-se a descer e a ignorar outras riquezas ,outros conhecimentos.Até porque é impossível a todos todo o  conhecimento.Haja narcisismo!Haja pretensão de saber totalitário!E houve muita gente boa que fez disso sua arma principal.
E a catequese ali,do descer e subir rua, também se manifesta.Um tentando convencer o outro sobre o  seu achado.Que por certo é mentira,pois não fora dele ou dela,mas de um outro,provavelmente já morto e estrangeiro,tal achado,tal pensamento.Estamos no Brasil ó pá.Sabe-se bem que autoria por aqui é algo bastante condenável.Além do mais, não se deve ignorar que pensar é algo raríssimo.Repetir guloseimas é bem mais comum.
A discussão se acalorou em quase briga.Ela lindinha,ele metido."Mas será que você não percebe que isso é uma maneira cartesiana de considerar as coisas?"- dissera."Sim...mas estamos descendo e há uma esquerda e uma direita a se considerar"!- resposta."Será que não se pode abstrair um pouco?Curvar para perceber outras dimensões,outros espaços,outra estética?"-tropeçando no buraco abaixo.
 Olhamos para cima e enxergamos o dedo de outrem.Já era alguma coisa.Há pouco,algo foi olhado e o que se viu foi a imagem do dedo próprio.
De tropeços em tropeços ,viu-se o trem.Não era um trem.Era um ônibus.
A menina fugiu sorrindo entre o balanço dos cabelos,sedutoramente encaracolados, e a promessa de um novo embate.Não se conformara que as suas idéias eram boas,pertinentes ,mas somente idéias.
O menino,machinho,branquinho,machista,partiu contrariado,visto que não convencera àquela que tentara seduzir.
Entra-se no tal veículo.Desconfortável,ambos.Sentidos opostos e há direita,há esquerda.....O menino que, tentara entortar um pouco as coisas, põe as mãos no bolso.O que haveria de tão precioso naquele esconderijo de pano,próximo das cuecas?Uma chave.Sim,pois havia uma chave.Durante o caminho...Uma chave que presentificava uma idéia,uma lembrança.Fica-se triste.O mundo por vezes também se faz triste.A cidade mal iluminada,sem o sol dos humanos,apresenta rostos distintos e calados. Há quanto tempo não caímos na noite pra valer?Indagou um outro metido das ruas afora,o Sr.Poste.
Numa noite de início de século,milênio novo, a luz se foi.O carro foi acionado e as ruas continuavam por ali.Os olhos do veículo focavam o que podiam.Instinto de sobrevivência.O Sr.Poste perdera a soberba ,que vem a ser o pior dos pecados.Estava doente.Fatigado,apagou-se.Mas ainda restava aquela luz humana dos faróis do automóvel!Poucos se arriscaram a cair na noite.E era uma noite de araque ,já que ainda havia os tais olhos de metal a salvar o dia,ou melhor,a noite!E também tinham os ônibus com suas lentes gigantes.Deviam ser míopes.
Fomos ao encontro ,na noite-não noite , de alguém que lá não estaria.Não estava de fato.De direito sim.Imagina-se o que se pode ,ainda que se queira.Delírios,delírios!Quem pode evitá-los?Por acaso não há um dito mundo?Uma menina bendita e um menino metido?
E meteu-se na confusão da chave no bolso de pano.Lembramos dela?A tal chave era do tal carro com olhos para semi-noites.Escondera-se ali,quieta.Conspirava em silêncio de sabedoria.Devia ser mineira.
Olhos desolados e um pedido ao moço que acaricia dinheiro miúdo:' Vosmicê pode abrir aqui essa porta para eu poder retornar e encontrar o meu outro amor?'- disse-lhe a chave em suspiros.
Direita,esquerda,em frente,abaixo...Ufa!Namoro reencontrado!
Pouco depois,o telefone traz pra bem perto a voz do suposto embate: ' E aí?Reencontrou-se?Nada como um bom tropeço para poder acolher outros planos,outras idéias,outros poderes.Senão vira poste e se apaga de vez.'

domingo, 30 de outubro de 2011

Formas de gozo.

Como de costume ,o elevador desceu até o andar chamado de térreo.Porta aberta,degraus à frente a percorrer.Há uma escada de mármore e depois uma porta.Dobra-se à esquerda e chega-se a uma outra porta.Essa ,chamada de principal,olha para fora,olha para rua em frente.
Já é noite.Tudo passara rápido.É como se não houvesse tido dia.Virou-se a folhinha e pronto.Não há mais volta.Aquele data não se repetirá jamais.
Já é noite e há der se ter pressa,pois o filme vai começar.
O trajeto até o cinema tem a duração perto-longe.Há de se chegar a tempo.
Sem o hábito de dividir tesões cinematográficos,a companhia dos amigos é novidade.Se bem que cinema é para se fazer silêncio.Essa é a participação especial do tal espectador:entregar-se.
Filme tenso.Situações além do drama e que nos atingem.Fim de filme.Conversas e bebidas e comidas e promessas.E como se promete!Prometer é sustentar a ilusão de que o futuro é certo e garante coisas.
O falecido filósofo argelino-francês Louis Althusser já nos ensinara exemplarmente- ainda que tenha exagerado na massagem corporal de sua esposa - que o futuro leva muito tempo.
Diríamos então que ele ,o tal futuro,é quase mítico.
Futuros passados,retorna-se à casa de sempre.A mesma porta que se abre para o resto do mundo,fecha-se em seguida.Do lado de dentro, o mesmo sorriso desgrenhado daquele que conhecemos desde a vida toda.
O sorriso está pálido ,pois sente dor.O braço o incomoda.Diz que é uma tal de bursite e pergunta se ela poderia ser lá do Ceará?Não há resposta para isso.Deve-se consultar os 'sites' doutos que por aí passeiam na grande rede e descobrir a origem,a etiologia da tal bursite,etcterrá.
Um dia se passou e novamente já é noite. Janela aberta,noite quente.Aproxima-se o verão que,pelos lados da Guanabara, tem rosto de inferno.Vermelho,ardido feito coisa ruim.
Ouvem-se gemidos.Vem de cima.Há pouco se descobriu que algum tarado filmava pornografias com adolescentes. Alguma vizinha ,invejosa das meninas,colocou a boca pra fora daquela porta, que vê tudo para o lado de fora e chamou alguma autoridade em adolescentes,que não fosse aquele tarado lá,do sétimo andar,apartamento dos fundos...
O tal cara quase foi preso.Fugiu poucos minutos antes da chegada das tais autoridades.Foi preso depois no estrangeiro.Tarado importante.Filho de deputado...
Os gemidos deixaram saudades.Não se ouvia mais até que...Naquela noite tórrida,reapareceram intensamente.Invadiram o quarto e povoaram as fantasias da noite.
Dia seguinte,café da manhã.Coisa mais chata quando não se está em hotel estrelado.Aquele gosto de vida toda.Faz lembrar as festinhas familiares.Aqueles rituais obsessivos sem pimenta ou sal.Só veneno fruta e sucos,á direita.Alguma coisa da cozinha,dobre à esquerda.
O mesmo elevador,a mesma escada de mármore,o portão futriqueiro para rua à frente. Três porteiros,colegas daquele da bursite sem procedência definida, perplexos.
Todos se olharam e disseram :'Antônio morreu. Teve um infarto fulminante ,ontem de madrugada,aqui no prédio.Pediu socorro,gemeu forte ,alto,quase um orgasmo.Nada."
Antônio,sim,era cearense.Veio jovem para os cantos do Sudeste.Melhorar de vida era a meta.Conseguiu.Conhecíamos desde os primeiros gemidos de fralda.
Botafoguense e brasileiro.Adorava apreciar o vai e vem da rua que, a porta transparente que ficava sempre de butuca, lhe oferecia.Gozava de olhar,mas também gozava de dor.Tinha 70 anos.
Eram esses alguns dos gemidos que se escutavam naquela madrugada de janelas abertas para um não futuro.Ao menos para o velho e bom Antônio que morreu sem saber se 'a tal bursite' era conterrânea ou não.