'Meu filho. Vem almoçar'.
Esse pedido era uma semi-ordenação e fez eco durante muitos anos. À época, tinha como aliada para desviar um pouco a invasão diária- isso mesmo, diária-, uma prezada secretária eletrônica. Mas daquelas antigas; bem robustas, tradicionais. E com aquela fita cassete a gravar as mensagens. E não havia mecanismo de virar a fita automaticamente- 'auto-reverse'- tendo que invadir, portanto, as entranhas da secretária e enfiar a mão, todos os dedos, num assédio impensável e imprudente, mediante as tecnologias vigilantes, de hoje. Portanto, lá nos dias de outrora, o assédio ainda era permitido em certos expedientes.
'Carlos, venha logo'. Mudava de nome, quase uma chamada escolar ( que tanto detestava) , e o convite permanecia. A entonação ganhava contornos de agonia.
A secretária, contudo, era paciente. De fato, profissional. E tinha generosidade também. Permitia que se acoplasse à sua voz burocrática uma gravação outra ou uma trilha sonora ao gosto da chefia. Uma sonoplastia para saudações.
Foram milhares de recados com a mesma mensagem de texto. Não se cansava. Nem quem emitia nem tanto quanto quem acolhia. E quem acolhia era a secretária ideal. Sem adicionais, processos por assédio ou décimo-terceiro salário. Se estivéssemos na Grécia - do ceticismo de um Pirro aos novos Baianos- adicionaríamos um décimo quinto vencimento. Descontrole com as contas públicas aliado com as safadezas de uma coroporação de faz de conta, lá dos países baixos. Luxemburgo ao que parece. E não faz jardim nem tampouco bate bola no gramado do futebol. Golpe baixo? Sim. A comida esfriara.
Atraso, paciente em atraso, escuta em atraso, só depois; tudo em atraso. O último dos e-mails respondidos levou quase 5 dias. Antes de escutar aquela mensagem metálica novamente. Uma eternidade para esse tipo de solicitação. Não é mais de um cartão postal que se trata. Esse tinha a sorte ( ou azar?) de nunca poder chegar, atingir seu alvo. Existiu e ficou invisível, para sempre. Cartão postal é quase da ordem do trágico. Morre antes de completar seu périplo. O anseio ou alívio ( Pronto. Livrei-me disso!) de quem emite e aquela surpresa de quem o receberá. Ou seria: receberia?
"A comida está fria, pois você demorou muito. Onde estavas?"
Era a continuação eterna do diálogo via máquina de gravar as bisbilhotices dos outros. Se essas secretárias falassem, as comissões parlamentares de inquérito, em Atenas ou Brasilis, teriam sessões, até mesmo, em 30 de Fevereiro. Calendário de Gregório seria revisitado por convenção arbitral. Se popular fosse, a comissão receberia o nome de linchamento. Mas esse dia a mais haveria e tão logo se apercebesse, a festa de Momo - e com aquele gordinho aposentado a presidir- sairia em carro aberto de lantejoulas, badulaques e mais uns tamborins, numa quermesse de pecados e luxúrias. Roma revisitada?
Poderia até se conjecturar já que a família vem de tradição católica apostólica de... araque. Sim, era meio de araque. Carnaval - tradição também da religião mencionada- é para valer. Mas de araques e com outros badulaques fazemos o teatro possível.
Pois, comida fria , mas novidade quente.
Aflita por causa dos novos passos do país - potência global no cinismo contemporâneo da Hollywood do patrão- essa tia comunica para o sobrinho/filho- chegado há pouco e já instalado na sala principal da casa para o manjar habitual que comprara um holofote se a energia nos faltar. Eram tempos de racionamento energético por conta da política equivocada e arrogância desmedida. Antes dessa outra escuridão, ela já tinha retirado enorme quantia do banco supondo que mais um calote sofreria. Afinal, tungaram-lhe a grana poupada pela vida adentro , no início do governo desbotado de um ex-presidente que se supunha multi-color, e não permitiria que mais uma vez lhe roubassem as economias. Vinte e cinco anos se passam daquele calote que custou o mandato daquele mentecapto.
O que fez então? Guardou todo um dinheirão num casaco para aquecer frio brabo, no fundo daquele armário vigiado por um cadeado fiel. E ali , o dinheiro se esqueceu dele mesmo. Feito o cartão postal que nunca veio. Mas existiu.
Meses depois, quando o prazo para se corrigir bobagens como a que fez- já que fora alertada que a mesma barbaridade não seria repetida- exibiu afinal as entranhas do seu closet. Saira finalmente do armário. E lá estavam elas. Dobradinhas, virginais e sem lubrificação aparente. Notas e quantas tantas notas de um cruzeiro real- unidade monetária antes do atual Real- que se escondiam do resto do mundo.
Quase sem folego, o sobrinho- nomeado sem concurso para cargo de parentesco afetivo- sentado à beira do estrado da cama mais próxima para não cometer um homicídio doloso e com requintes de crueldade, recuperava o ar que não saía. Explodiria? Pode-se vislumbrar então- permite-se aqui uma anacronia na narrativa, visto que o tempo se faz fictício de fato- as manchetes do dia seguinte, nos periódicos televisivos: ' Rapaz se atrasa para o almoço, leva bronca da titia e a mata sem chances para qualquer defesa ou mensagem a ser gravada, pela enésima vez, na secretária de metal e que não recebera o décimo terceiro salário. Há quem diga que ele estava esfomeado'. Há de se entender.....
Rainhas absolutistas na arte da efabulação, ou seja, competência para distorcer intencionalmente certos fatos, a vítima e alguns telejornais, confirmariam - ainda que mortas ou fora do ar, sem sinal- a versão da manchete estampada no mundo. O pobre diabo do sobrinho/filho merecia, para além ou aquém da comida fria e sem gosto, o destino traçado. Então para quê mesmo um holofote?
Seria para enxergar melhor? Marcas bem expostas em tempos de imagens de alta resolução? O pé de galinha, mau exemplo, virou uma perna inteira por esses dias. Com direito a tíbia, perônio, fêmur. Mas permanece enquanto galinha para se manter a tradição. E para que esses olhos arregalados de tão grandes , vovozinha? Vovozinha é a PQP.... Teria dito se essa pergunta tivesse existido, chegado aos seus ouvidos. Cartão postal fonado?
Mas o que ela teria visto nesses últimos 30, 40 anos ( desde o período de GetúlioVargas, caudilho sacralizado e amigo da família), até um Tiririca cheio de gracejos e imunidades- nem tíbia nem ao menos Sir- de um parlamento nacional? Sim , já que se tíbia, perônio ou fíbula podem retratar certa anatomia óssea da caveira oficial, o que dizer das manobras outras a percorrer tanto tempo e do mesmo quase jeito? Que modo estranho, por sinal estúpido, de tratar os chamados compatriotas! Poderiam até se tornar contemporâneos no instante em que se vive e de um futuro - que demora por demais , vide a constatação desesperada, sangue nas mãos, de um Althusser filósofo-, a ser desenhado e indicado por lente dilegente.
O atraso, entretanto, atrasa qualquer diligência. Como sair dessa? Não somente do armário , mas dessa?
Os mesmos personagens com seus delitos gastos pela caduquice de uma neura pré-medieval e sua ficção mítica do salvacionismo confortável de uma prece ou rito , na espera- longa como uma gota d'água a nos molhar a testa desnuda-nessa vida cuja imanência é denegada, e que retorna para dentro do armário. Armário é transcendente?
E aí vovozinha? Para que serve essa boca tão grande e os seus dentes a ranger bruxismos? Hoje já existe salvação local para isso. Olha a tecnologia ajudando os que não desejam sorrir banguela. Bota-se um troço feito dentadura no céu da boca- só que mais cortês no design e no trato- e o movimento de ranger os dentes das bruxas é recalcado durante o sono. Se vier o rangir, lá do céu da boca, o inferno será menor.
Deve ter sido por isso e para isso, o chamado holofote. Iluminar pontos cegos. E eles se chamam- sussurram no escuro do dia mais claro- enquanto: verdade, certeza, igualdade, justiça, milagre.....A lista é longa. O armário está sempre repleto. Estamos até felizes!! Ou estaríamos?
quarta-feira, 8 de julho de 2015
quinta-feira, 18 de junho de 2015
PENÚLTIMAS-DAS CORDILHEIRAS.
PENÚLTIMAS. DAS Cordilheiras.
Zito- craque de bola que dava bronca até no menino Rei, Pelé- foi homenageado através de uma foto-homenagem. Antes do jogo. Uma bela homenagem a quem sempre deu o sangue pelas instituições que defendeu. Infelizmente, o que ele sempre apresentou e fez não adentrou o gramado.
A câmera muda de posição e enquadra o outro menino da Vila, Neymar. Ele parece comovido. Deve ter sido isso, pois parecia jogar uma partida sozinho contra todos os outros 21.... E ninguém a lhe dar um esculacho. Tem capitão naquele time? Na imagem-homenagem, tinha. E dos grandes. No banco de reservas do mesmo time em que 'SUA ALTEZA' , NEY-MAR, atua também. Irmão do Zangado, primo do Atchim, nada parecido com o Dengoso.Atchim jogou? Contaminou ao menos, 'La Pelota'?
Driblando através de prosopopeias, o tempo passa e o aparelho marca. Mas por que chamar de prosopopeia só porque supomos que essas formações não falantes de signos linguísticos, não falam? Não lhes parece demasiado vício idealista-racionalista desse nosso ocidente? Baseado em... Deixa o baseado para depois. Mas é preciso lembrar que esse figura de linguagem que tenta atribuir competências a seres inanimados- distribuir a bola-,isto é, o tal volante prosopopeia, tem argumentos a proferir. Mas capitão não há. E o mutismo é geral.
Ao menos, tornei-me um torce-dor menos iludido; um bocadinho menos histérico. E mentiroso também. Por que essa declaração de sutileza não faz jus ao cansaço da mesmice. Mas o diminutivo se encaixa. É compatível com o espetáculo produzido. No diminutivo só não se encaixa o que se fatura. Muito trabalho e paciência pela frente.
E eis que o Soneca despertou. Pode ser perigoso. E/ Ou não
Zito- craque de bola que dava bronca até no menino Rei, Pelé- foi homenageado através de uma foto-homenagem. Antes do jogo. Uma bela homenagem a quem sempre deu o sangue pelas instituições que defendeu. Infelizmente, o que ele sempre apresentou e fez não adentrou o gramado.
A câmera muda de posição e enquadra o outro menino da Vila, Neymar. Ele parece comovido. Deve ter sido isso, pois parecia jogar uma partida sozinho contra todos os outros 21.... E ninguém a lhe dar um esculacho. Tem capitão naquele time? Na imagem-homenagem, tinha. E dos grandes. No banco de reservas do mesmo time em que 'SUA ALTEZA' , NEY-MAR, atua também. Irmão do Zangado, primo do Atchim, nada parecido com o Dengoso.Atchim jogou? Contaminou ao menos, 'La Pelota'?
Driblando através de prosopopeias, o tempo passa e o aparelho marca. Mas por que chamar de prosopopeia só porque supomos que essas formações não falantes de signos linguísticos, não falam? Não lhes parece demasiado vício idealista-racionalista desse nosso ocidente? Baseado em... Deixa o baseado para depois. Mas é preciso lembrar que esse figura de linguagem que tenta atribuir competências a seres inanimados- distribuir a bola-,isto é, o tal volante prosopopeia, tem argumentos a proferir. Mas capitão não há. E o mutismo é geral.
Ao menos, tornei-me um torce-dor menos iludido; um bocadinho menos histérico. E mentiroso também. Por que essa declaração de sutileza não faz jus ao cansaço da mesmice. Mas o diminutivo se encaixa. É compatível com o espetáculo produzido. No diminutivo só não se encaixa o que se fatura. Muito trabalho e paciência pela frente.
E eis que o Soneca despertou. Pode ser perigoso. E/ Ou não
quarta-feira, 10 de junho de 2015
UM PEQUENO LUCRO DO SEU PREJUÍZO. SERÁ QUE TOPAM?
UM PEQUENO LUCRO DO SEU PREJUÍZO. SERÁ QUE TOPAM?
Brasileiro gosta de uma fila. Permanece ali por algumas horas se necessário for ou não. Indaga-se à gerente- tão maquiada naquela manhã preguiçosa que mais parecia chegar da balada- a quantas andam a nossa falência e o lucro indestrutível daquele banco: o maior banco privado e populista do país. E a primeira letra do seu nome é a letra B...de banqueiro ( para não se esquecer quem comanda o jogo); mas também B de....Babacas ( ...os clientes que acreditam, que se submetem sempre, porque o jogo é assim). Segundo a senhorita, por lá há 20 anos, nunca se concedeu tanto empréstimo quanto nesse período atual. E empréstimos com valores baixos e, por certo, juros bem altos. Novos milhões de clientes endividados, por um longo período. Dinheiro de plástico na moda, menos papel moeda em agência, nos cofres. Farra com a especulação das aplicações dos Outros. Aqueles, nós mesmos, cuja inicial do nome ou adjeto já fora mencionado. Se bem que escrevi com Outro maiúsculo. Talvez uma homenagem àquela cadeia de significantes sem fim. O inconsciente é de fato capitalista.
Prestimosa, após uma série de punhaladas, a senhorita-festa providenciou uma senha enquanto eu assinava uns papéis. Despedi-me com um semi-palavrão e diante do número, da tal senha, confabulei: ' Dois mil e dois. Curioso que uma tela, nessa sala repleta de brasileiros e filas, indica o número 5004 e a outra , mais modesta ou em atraso, 147. Onde fica o 2002?"
Poderia dizer que foi o número da sorte, pois é correspondente ao ano em que conheci Dona Mônica. Será? Dia dos Motéis lotados a chegar, quero dizer 12 de Junho, e ...Não havia esse número! Eu tinha um número- em casa de banqueiro codinome coisa ruim- sem existência local. Conspirei: ' Vou tentar lhes propor alguma porcentagem de lucro sobre o total do seu prejuízo. Se assim conseguir, corro para o Nobel da boa malandragem'! Ou seria alguma taxa com juros levitando embutida no atraso em ser atendido para me livrar daquele teatro vagabundo? Prejuízo de grana-tempo. Desperdício de 45 minutos. E sem Gol.
Se existe alguma profissão em que aquele anjo-gato, o boa gente do Lúcifer, está engajado, creiam-me; começa com a letra B.
Ver mais
Brasileiro gosta de uma fila. Permanece ali por algumas horas se necessário for ou não. Indaga-se à gerente- tão maquiada naquela manhã preguiçosa que mais parecia chegar da balada- a quantas andam a nossa falência e o lucro indestrutível daquele banco: o maior banco privado e populista do país. E a primeira letra do seu nome é a letra B...de banqueiro ( para não se esquecer quem comanda o jogo); mas também B de....Babacas ( ...os clientes que acreditam, que se submetem sempre, porque o jogo é assim). Segundo a senhorita, por lá há 20 anos, nunca se concedeu tanto empréstimo quanto nesse período atual. E empréstimos com valores baixos e, por certo, juros bem altos. Novos milhões de clientes endividados, por um longo período. Dinheiro de plástico na moda, menos papel moeda em agência, nos cofres. Farra com a especulação das aplicações dos Outros. Aqueles, nós mesmos, cuja inicial do nome ou adjeto já fora mencionado. Se bem que escrevi com Outro maiúsculo. Talvez uma homenagem àquela cadeia de significantes sem fim. O inconsciente é de fato capitalista.
Prestimosa, após uma série de punhaladas, a senhorita-festa providenciou uma senha enquanto eu assinava uns papéis. Despedi-me com um semi-palavrão e diante do número, da tal senha, confabulei: ' Dois mil e dois. Curioso que uma tela, nessa sala repleta de brasileiros e filas, indica o número 5004 e a outra , mais modesta ou em atraso, 147. Onde fica o 2002?"
Poderia dizer que foi o número da sorte, pois é correspondente ao ano em que conheci Dona Mônica. Será? Dia dos Motéis lotados a chegar, quero dizer 12 de Junho, e ...Não havia esse número! Eu tinha um número- em casa de banqueiro codinome coisa ruim- sem existência local. Conspirei: ' Vou tentar lhes propor alguma porcentagem de lucro sobre o total do seu prejuízo. Se assim conseguir, corro para o Nobel da boa malandragem'! Ou seria alguma taxa com juros levitando embutida no atraso em ser atendido para me livrar daquele teatro vagabundo? Prejuízo de grana-tempo. Desperdício de 45 minutos. E sem Gol.
Se existe alguma profissão em que aquele anjo-gato, o boa gente do Lúcifer, está engajado, creiam-me; começa com a letra B.
Ver mais
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Invisíveis
Então Polo , aquele Marco, responde a Ítalo: '" O INFERNO dos vivos não é algo que será; é aquele que já está aqui, o inferno dos qual vivemos todos os dias -ATENÇÃO- FORMAMOS ESTANDO JUNTOS.
Existem duas maneiras de não sofrer ; a primeira é fácil para a maioria das pessoas: Aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar percebê-lo A segunda exige atenção ( Ele não falou em RITALINA NECESSARIAMENTE), logo, bem mais arriscada- E aprendizagem contínuas" Fecha... Aspa.
E por aí A Cidade Invisível de Ítalo Calvino se ergueu. A NOSSA CIDADE/ EU NÃO CONSEGUE TER AO MENOS A ELEGÂNCIA DA INVISIBILIDADE EM Tempos de Bráulios de SELF - De QUEM É O PAU-SELF QUE NOS PENTELHA?NEOLOGISMO?
Nessa aprendizagem contínua, poderia se ler, fazer análise. Um pouco de culhão aos sem culhões. Reação, ambição, é o nome. O resto é neblina. Cegueira no Horizonte. E ALI, HAVIA UM ARPO-A-DOR. ADIANTE, UM LE-BLON.
Ver mais
Existem duas maneiras de não sofrer ; a primeira é fácil para a maioria das pessoas: Aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar percebê-lo A segunda exige atenção ( Ele não falou em RITALINA NECESSARIAMENTE), logo, bem mais arriscada- E aprendizagem contínuas" Fecha... Aspa.
E por aí A Cidade Invisível de Ítalo Calvino se ergueu. A NOSSA CIDADE/ EU NÃO CONSEGUE TER AO MENOS A ELEGÂNCIA DA INVISIBILIDADE EM Tempos de Bráulios de SELF - De QUEM É O PAU-SELF QUE NOS PENTELHA?NEOLOGISMO?
Nessa aprendizagem contínua, poderia se ler, fazer análise. Um pouco de culhão aos sem culhões. Reação, ambição, é o nome. O resto é neblina. Cegueira no Horizonte. E ALI, HAVIA UM ARPO-A-DOR. ADIANTE, UM LE-BLON.
Ver mais
domingo, 10 de maio de 2015
Certas meninas do andar mais acima. Confusão de gozos.
- Alguma coisa vai mal? Está doente?
- Um troço chamado bursite. Foi o que o doutor falou no hospital. Dói pra burro.
Bursite. Até o presente momento, uma inflamação- a grosso modo- dos chamados tecidos moles e que compromete articulações. Essa bursa, e não 'buça', é uma pequena bolsa repleta de líquido, localizada na junção onde músculos e tendões transam mal com os ossos. Somos um fóssil que resmunga. Confundida muitas vezes com artrites, artroses e outras doenças articulares, a tal inflamação da bursa pode ser bem traiçoeira. A dor pode ser intensa e irradia na maioria das situações nos braços. Por isso, confunde-se com a dor no coração que falha. O maldito infarto do miocárdio.
Ano de 1999, dois anos após a morte do jornalista e figura pensante, Paulo Francis, em Nova Iorque. Erro de diagnóstico no caso de Francis porque ele também supunha sofrer de bursite.
Madrugada, como de costume para um notívago que se esforça por mudanças, atravessando o corredor - um caminho necessário para se chegar às duas entradas possíveis do edifício- as atenções não se fixaram naquela resposta sofrida, dolorida, de quem transforma uma imensa dor em sujeito da sua existência. As atenções se interessavam, sim, pela sacanagem que atravessava as noite e fins de tarde provenientes de algum andar bem mais acima, nos últimos meses. Essa suposição ganhava certezas porque os imóveis mais próximos não eram ocupados por figuras tão animadas. Descobre-se então que um elemento alugara um apartamento para instalar ali a sua produtora de filmes pornográficos. E a tal produção exigia protagonistas bem jovens. Nesse caso, todas eram meninas. E pelo desenrolar da história, eram menores de idade. Certo mestre, sábio em sua existência, já fez a devida distinção entre pornografia e erotismo. Indagado pela curiosidade de todos, respondeu que o erotismo vem a ser uma espécie de pornografia dos babacas enquanto que a pornografia se manifestaria como um erotismo de tarados.
Portanto, durante meses, o balançar dos quadris daquelas delícias joviais ( Shi! Não se pode dizer isso em épocas de malafaias e manifestações jurássicas), rejuvenesceu o prédio. Havia um frescor diferente no ar. As protagonistas deviam oscilar entre os 15 e 17 anos de idade e entravam felicíssimas pelo prédio a dentro. E de acordo com o dono da portaria- aquele que lutava contra uma suposta bursite- saíam do mesmo modo, ou seja: alegres, descontráidas, balançando as cabeleiras de um lado para o outro e tendo sempre nas mãos- agora desocupadas- um envelope. Curioso, ele observava o envelope ser entregue a diferentes mulheres que aguardavam as diversas moças, na esquina mais próxima da nossa rua. Uma de cada vez para não despertar outras atenções. E elas sempre estavam por lá. Uma pontualidade difícil de se ver em outras atividades. Não era ' em torno de' ou 'around seven o'clock', o tal acerto com os ponteiros do relógio imaginado, como o é de costume no nosso balneário mais famoso do país. Postavam-se diante da lanchonete, patrimônio cultural do bairro, e lambiam sorvetes durante o aguardo. Sem atraso nem tampouco algum esparramar de coisas precoces. De lambida em lambida, enfim, o encontro diário, semanal. O envelope finalmente mudava de dono e recebia colo materno.
De repente, a produção cinematográfica parou. Não se avistavam mais as beldades e nem se escutavam aqueles gemidos, sucedido de gritinhos. Ou teriam sido gritinhos e depois os gemidos? Essa ordem, aparentemente banal, pode alterar todo um roteiro de um bom filme.
Indaguei ao comandante da entrada e saída do novo cabaré- perdão, nosso prédio- a quantas andava o balançar dos belos e juvenis quadris, assim como a sonoplastia suspensa sem aviso prévio. Se aquele cineasta- e é quase certo que ele era o único protagonista macho das suas singulares produções- ao lado, ou por cima ou por baixo das suas estrelas- achavam que só existia exibicionismo por aqueles lados, esqueciam-se que ele não vale nada sem um voyeurismo participativo. Não existe um sem o outro.
' E o senhor, Mr. Bursite, ainda que lhe pese sobre todo o corpo, e não somente sobre algumas articulações, os seus setenta anos, tentando assustar-me ( Só porque me conhece desde pequeno) postando-se com ares de não afetado, mediante esse repentino silêncio, somado a essa entrada/saída de edifício falso moralista e deserta de formosuras'!- manifestei minha indignação. Ele me tranquilizou ao dizer que um dia me contaria, pois o 'coisa ruim' ainda restava no imóvel. Considerei essa expressão definidora/definitiva do seu olhar sobre o nosso vizinho , por suposto nada discreto, mas cordato em outros momentos, um tanto forçada e pouco elegante. É certo que jamais o encontrei ( Seria incorreto solicitar-lhe um autógrafo se acaso esbarrássemos um sobre o outro e coisa e tal, no elevador? Social?); Mas podemos até assegurar que esse Sr. Coisa Ruim, caso a carreira alavanque outros patamares e possibilidades, brindou-nos com aquela bela passarela de cidadania. Afinal, era um frescor sazonal no meio das antiguidades.
Uma outra madrugada e o automóvel de volta para casa. Diante do prédio, entrada/saída, onde se concebe também a palavra garagem, um automóvel oficial - desses que podem parar, revistar, atirar e até matar os outros, ainda que co-irmãos de um Ford Bigode tão distante e tão presente na estética vigente -, estacionava as quatro patas diante do único caminho necessário e disponível para o repouso habitual. Suas portas se abriram e um cidadão, pouco simpático, aproximou-se. Exigiu identificação de ambos: do cidadão e da criatura metálica. Por último, perguntou ao nosso indescritível senhor das entradas e saídas se realmente eu era quem dizia ser. 'Acho que sim'- respondeu com expressão de sacanagens. Mas como assim, 'Acho que sim'? Se não me dá seu testemunho como hei de garantir que sou quem penso ser? Logo você que esbarra comigo faz tanto tempo? E no início da nossa transa, apenas um engatinhava. Ah! Sabemos onde a coisa pega. No futebol nosso de cada temporada. Estou equivocado? Sua estrela solitária não anda te conduzindo muito bem, não é mesmo? Já o meu brinquedo vestido de vermelho e negro ( Romance francês?) trouxe-me de volta sem maiores sequelas. E só me resta a sua nobre consideração para que eu adentre feliz, alegre, descontraído, o prédio que compartilho, até mesmo, com essa vizinhança toda que não encontro. Que nunca vi.
Ufa. Isso, 'ufa', que dizer que conseguimos então? Penetramos o edifício? Sim, mas a polícia também veio, por sua vez, e partiu sem o moço que produzia filmes libidinosos de grande intensidade. Um pouco antes, fraçãozinha de segundo, escapara das garras 'inimigas'. Interessante, não é mesmo? Madrugada ainda rolando e ele, feito um demiurgo ou adivinho, conseguiu antever a chegada dos amigos de cassetete. Realmente era uma figura notável, o vizinho assombrado. Imaginem que nesse show da vida, num domingo à noite e após alguns meses, jornalistas reveleram seu segredo e sem nenhuma descrição, tal qualmente a postura do ator/produtor . Foi a televisão e sua produção veterana que avisa que o 'Coisa Ruim' era filho de um ex-deputado federal de um estado bem mais ao norte. Foi extraditado ou teria sido preso ao desembarcar de regresso, por aqui, nos brasis. Tinha uma ficha de perversõezinhas enorme. E a gente a confabular que a sua grandeza talvez viesse, bem vinda, de outras partes mais abaixo, de outras formações.
Nunca mais soubemos desse tipo, nem ao menos daquelas moças de outrora, tampouco sobre aquele cuidado familiar. Mães zelosas e preocupadas com o futuro da cria. No que o extraditado não pagou pelo preço combinado, bocas de Matilde vociferaram por justiça. Ele teve que se escafeder.
Quem disse que cidadania dessa ordem não se exerce? As meninas fizeram exame de corpo de delito e tudo mais, após adentraram não tão felizes, descontraídas e alegres a delegacia. Comoveram delegados e escrivães. Quase convocaram passeatas, via grande rede, se por acaso existisse tal praticagem. Não havia.
Por que não se consegue escrever sobre memórias e ao mesmo tempo incluir uma sonoplastia feito aquela magia editada no escurinho do cinema? Acho que o gozo maior seria escrever historinhas para uma tela grande. Mas a pretensão e a arrogância são marcas difíceis de apagar- tem que se lutar bravamente, quase um jiu jitsu mental-; e a pretensa intenção- malvada de inferno e outros paraísos- vislumbra desde o começo o tapete vermelho e um Coppola, talvez um Almódovar, a lhe conferir atenções. Infantilismos podem restar para sempre.
Volta-se , alguns dias após toda esse cenário descrito e desgustado acima, de um 'Réquiem para um Sonho' estadunidense impactante ( e que não foi produzido nem por Francis ou Pedro) onde seu mentor dedica- nos créditos finais- esse filme a sua mamãe. Quem não viu, verá. É possível. Foi no Cine Paissandu, no bairro do Flamengo. O cinema também não existe mais. Avisaram sobre uma possível reabertura. Teria sido reaberto ou nunca saberemos?
Cortina que sobe, não só no teatro burguês, e chega-se em casa novamente. Fato:vive-se de retorno. Voltamos antes para voltar de novo. A frase que iniciou essa conversa , repete-se. ' E aí, melhorou?' Aquele senhor grisalho mexeu um pouco os lábios ao mesmo tempo em que a cabeça se movia preguiçosa para um lado que parecia dizer NÃO! Subo através daquele caixote de subir e descer claustrofobias. Porém, uma confusão de sensações restam para trás.
Seria hora de dormir? Pesadelo ajuda no sono profundo? O sono dizendo adeus, o dia seguinte indicava trabalho por vir. Janela aberta pela noite quente, lua animando os casais feito a letra da canção. Um silêncio. Todavia, lá no fundo, um barulhinho ( Enfeitar frase também é importante, porque parece que vinha do alto, vinha do mundo o tal barulhinho) . Era um gemido que crescia em intenesidades. Pensei então: 'Voltaram. Estão de novo na maior sacanagem'. Durou menos que o suficiente aquele tipo de gozo. A ponto de esquecê-lo forçosamente. Teria sido inveja? Teria conseguido uma surdez voluntária?
Na manhã seguinte, carro apontando no portão do prédio e os outros três comandantes da entrada e saída estavam cabisbaixos, abatidos. Algo inédito, visto que o silêncio e a discrição não compunham os respectivos currículos. Sobretudo, quando estão juntos. Indaguei o que se passava e a resposta não nos poupava o impacto. O real se apresentando sem intermediários. O real destrói neuras. Ele vai direto ao ponto: 'Antônio, o nosso vigia noturno. 'O que houve?'-já estava aflito. 'Ele morreu de madrugada. Teve um infarto fulminante'. Antônio agora tem nome e função. E ele não estará presente nessa consideração Mas não era bursite? O que ele tinha? Acabou.
Era uma vez um homem de setenta anos que dera grande parte da vida a cuidar das entradas e saídas desse prédio batizado com nome de mulher desconhecida, desde a sua fundação. Como se pode notar, vizinhos que não se encontram e nomeações desconhecidas. Aquele gemido não era gozo de roça roça, esfrega esfrega, pau na xeta ou promessas de futuro em Hollywood, Bollywood ou Mimosa Villagewood. Era o derradeiro gozo à beira da morte que não há. Era o gozo capenga, dolorido, sangrento, entupido, de um coração valente que pifou de vez. Explodiu justo na madrugada. Logo ela que me faz companhia, feito uma ninfa, de vida inteira.
Mas então esse gemido que se acreditava vir de cima e parece que veio por baixo?
Há uma garagem no final daquele caminho necessário, com a sua lua e um dedo incauto a lhe apontar o teto que não está. Esse céu desnudo que virou teto, abrigo. Por sua vez, as paredes laterais cercam aquele espaço, preservam território, mas resta o vento, resta o resto. E ela- isso tudo que se chama de garagem- escancara algumas das suas partes que compõe o seu patrimônio de veículos. É aquele emaranhado de ferro mesclado com alumínio e mais borracha com plástico ou algum sonho conquistado. Pois foi por ali que o maldito barulho se propagou. A confundir luxúria com penúria.
Um corredor que perde o seu comandante primeiro atinge a garagem sem qualquer mediação . Confusão de ruídos que transam sem escrúpulos. Estão mais para pornográficos do que eróticos. Não, não era uma crise de bursite.
- Um troço chamado bursite. Foi o que o doutor falou no hospital. Dói pra burro.
Bursite. Até o presente momento, uma inflamação- a grosso modo- dos chamados tecidos moles e que compromete articulações. Essa bursa, e não 'buça', é uma pequena bolsa repleta de líquido, localizada na junção onde músculos e tendões transam mal com os ossos. Somos um fóssil que resmunga. Confundida muitas vezes com artrites, artroses e outras doenças articulares, a tal inflamação da bursa pode ser bem traiçoeira. A dor pode ser intensa e irradia na maioria das situações nos braços. Por isso, confunde-se com a dor no coração que falha. O maldito infarto do miocárdio.
Ano de 1999, dois anos após a morte do jornalista e figura pensante, Paulo Francis, em Nova Iorque. Erro de diagnóstico no caso de Francis porque ele também supunha sofrer de bursite.
Madrugada, como de costume para um notívago que se esforça por mudanças, atravessando o corredor - um caminho necessário para se chegar às duas entradas possíveis do edifício- as atenções não se fixaram naquela resposta sofrida, dolorida, de quem transforma uma imensa dor em sujeito da sua existência. As atenções se interessavam, sim, pela sacanagem que atravessava as noite e fins de tarde provenientes de algum andar bem mais acima, nos últimos meses. Essa suposição ganhava certezas porque os imóveis mais próximos não eram ocupados por figuras tão animadas. Descobre-se então que um elemento alugara um apartamento para instalar ali a sua produtora de filmes pornográficos. E a tal produção exigia protagonistas bem jovens. Nesse caso, todas eram meninas. E pelo desenrolar da história, eram menores de idade. Certo mestre, sábio em sua existência, já fez a devida distinção entre pornografia e erotismo. Indagado pela curiosidade de todos, respondeu que o erotismo vem a ser uma espécie de pornografia dos babacas enquanto que a pornografia se manifestaria como um erotismo de tarados.
Portanto, durante meses, o balançar dos quadris daquelas delícias joviais ( Shi! Não se pode dizer isso em épocas de malafaias e manifestações jurássicas), rejuvenesceu o prédio. Havia um frescor diferente no ar. As protagonistas deviam oscilar entre os 15 e 17 anos de idade e entravam felicíssimas pelo prédio a dentro. E de acordo com o dono da portaria- aquele que lutava contra uma suposta bursite- saíam do mesmo modo, ou seja: alegres, descontráidas, balançando as cabeleiras de um lado para o outro e tendo sempre nas mãos- agora desocupadas- um envelope. Curioso, ele observava o envelope ser entregue a diferentes mulheres que aguardavam as diversas moças, na esquina mais próxima da nossa rua. Uma de cada vez para não despertar outras atenções. E elas sempre estavam por lá. Uma pontualidade difícil de se ver em outras atividades. Não era ' em torno de' ou 'around seven o'clock', o tal acerto com os ponteiros do relógio imaginado, como o é de costume no nosso balneário mais famoso do país. Postavam-se diante da lanchonete, patrimônio cultural do bairro, e lambiam sorvetes durante o aguardo. Sem atraso nem tampouco algum esparramar de coisas precoces. De lambida em lambida, enfim, o encontro diário, semanal. O envelope finalmente mudava de dono e recebia colo materno.
De repente, a produção cinematográfica parou. Não se avistavam mais as beldades e nem se escutavam aqueles gemidos, sucedido de gritinhos. Ou teriam sido gritinhos e depois os gemidos? Essa ordem, aparentemente banal, pode alterar todo um roteiro de um bom filme.
Indaguei ao comandante da entrada e saída do novo cabaré- perdão, nosso prédio- a quantas andava o balançar dos belos e juvenis quadris, assim como a sonoplastia suspensa sem aviso prévio. Se aquele cineasta- e é quase certo que ele era o único protagonista macho das suas singulares produções- ao lado, ou por cima ou por baixo das suas estrelas- achavam que só existia exibicionismo por aqueles lados, esqueciam-se que ele não vale nada sem um voyeurismo participativo. Não existe um sem o outro.
' E o senhor, Mr. Bursite, ainda que lhe pese sobre todo o corpo, e não somente sobre algumas articulações, os seus setenta anos, tentando assustar-me ( Só porque me conhece desde pequeno) postando-se com ares de não afetado, mediante esse repentino silêncio, somado a essa entrada/saída de edifício falso moralista e deserta de formosuras'!- manifestei minha indignação. Ele me tranquilizou ao dizer que um dia me contaria, pois o 'coisa ruim' ainda restava no imóvel. Considerei essa expressão definidora/definitiva do seu olhar sobre o nosso vizinho , por suposto nada discreto, mas cordato em outros momentos, um tanto forçada e pouco elegante. É certo que jamais o encontrei ( Seria incorreto solicitar-lhe um autógrafo se acaso esbarrássemos um sobre o outro e coisa e tal, no elevador? Social?); Mas podemos até assegurar que esse Sr. Coisa Ruim, caso a carreira alavanque outros patamares e possibilidades, brindou-nos com aquela bela passarela de cidadania. Afinal, era um frescor sazonal no meio das antiguidades.
Uma outra madrugada e o automóvel de volta para casa. Diante do prédio, entrada/saída, onde se concebe também a palavra garagem, um automóvel oficial - desses que podem parar, revistar, atirar e até matar os outros, ainda que co-irmãos de um Ford Bigode tão distante e tão presente na estética vigente -, estacionava as quatro patas diante do único caminho necessário e disponível para o repouso habitual. Suas portas se abriram e um cidadão, pouco simpático, aproximou-se. Exigiu identificação de ambos: do cidadão e da criatura metálica. Por último, perguntou ao nosso indescritível senhor das entradas e saídas se realmente eu era quem dizia ser. 'Acho que sim'- respondeu com expressão de sacanagens. Mas como assim, 'Acho que sim'? Se não me dá seu testemunho como hei de garantir que sou quem penso ser? Logo você que esbarra comigo faz tanto tempo? E no início da nossa transa, apenas um engatinhava. Ah! Sabemos onde a coisa pega. No futebol nosso de cada temporada. Estou equivocado? Sua estrela solitária não anda te conduzindo muito bem, não é mesmo? Já o meu brinquedo vestido de vermelho e negro ( Romance francês?) trouxe-me de volta sem maiores sequelas. E só me resta a sua nobre consideração para que eu adentre feliz, alegre, descontraído, o prédio que compartilho, até mesmo, com essa vizinhança toda que não encontro. Que nunca vi.
Ufa. Isso, 'ufa', que dizer que conseguimos então? Penetramos o edifício? Sim, mas a polícia também veio, por sua vez, e partiu sem o moço que produzia filmes libidinosos de grande intensidade. Um pouco antes, fraçãozinha de segundo, escapara das garras 'inimigas'. Interessante, não é mesmo? Madrugada ainda rolando e ele, feito um demiurgo ou adivinho, conseguiu antever a chegada dos amigos de cassetete. Realmente era uma figura notável, o vizinho assombrado. Imaginem que nesse show da vida, num domingo à noite e após alguns meses, jornalistas reveleram seu segredo e sem nenhuma descrição, tal qualmente a postura do ator/produtor . Foi a televisão e sua produção veterana que avisa que o 'Coisa Ruim' era filho de um ex-deputado federal de um estado bem mais ao norte. Foi extraditado ou teria sido preso ao desembarcar de regresso, por aqui, nos brasis. Tinha uma ficha de perversõezinhas enorme. E a gente a confabular que a sua grandeza talvez viesse, bem vinda, de outras partes mais abaixo, de outras formações.
Nunca mais soubemos desse tipo, nem ao menos daquelas moças de outrora, tampouco sobre aquele cuidado familiar. Mães zelosas e preocupadas com o futuro da cria. No que o extraditado não pagou pelo preço combinado, bocas de Matilde vociferaram por justiça. Ele teve que se escafeder.
Quem disse que cidadania dessa ordem não se exerce? As meninas fizeram exame de corpo de delito e tudo mais, após adentraram não tão felizes, descontraídas e alegres a delegacia. Comoveram delegados e escrivães. Quase convocaram passeatas, via grande rede, se por acaso existisse tal praticagem. Não havia.
Por que não se consegue escrever sobre memórias e ao mesmo tempo incluir uma sonoplastia feito aquela magia editada no escurinho do cinema? Acho que o gozo maior seria escrever historinhas para uma tela grande. Mas a pretensão e a arrogância são marcas difíceis de apagar- tem que se lutar bravamente, quase um jiu jitsu mental-; e a pretensa intenção- malvada de inferno e outros paraísos- vislumbra desde o começo o tapete vermelho e um Coppola, talvez um Almódovar, a lhe conferir atenções. Infantilismos podem restar para sempre.
Volta-se , alguns dias após toda esse cenário descrito e desgustado acima, de um 'Réquiem para um Sonho' estadunidense impactante ( e que não foi produzido nem por Francis ou Pedro) onde seu mentor dedica- nos créditos finais- esse filme a sua mamãe. Quem não viu, verá. É possível. Foi no Cine Paissandu, no bairro do Flamengo. O cinema também não existe mais. Avisaram sobre uma possível reabertura. Teria sido reaberto ou nunca saberemos?
Cortina que sobe, não só no teatro burguês, e chega-se em casa novamente. Fato:vive-se de retorno. Voltamos antes para voltar de novo. A frase que iniciou essa conversa , repete-se. ' E aí, melhorou?' Aquele senhor grisalho mexeu um pouco os lábios ao mesmo tempo em que a cabeça se movia preguiçosa para um lado que parecia dizer NÃO! Subo através daquele caixote de subir e descer claustrofobias. Porém, uma confusão de sensações restam para trás.
Seria hora de dormir? Pesadelo ajuda no sono profundo? O sono dizendo adeus, o dia seguinte indicava trabalho por vir. Janela aberta pela noite quente, lua animando os casais feito a letra da canção. Um silêncio. Todavia, lá no fundo, um barulhinho ( Enfeitar frase também é importante, porque parece que vinha do alto, vinha do mundo o tal barulhinho) . Era um gemido que crescia em intenesidades. Pensei então: 'Voltaram. Estão de novo na maior sacanagem'. Durou menos que o suficiente aquele tipo de gozo. A ponto de esquecê-lo forçosamente. Teria sido inveja? Teria conseguido uma surdez voluntária?
Na manhã seguinte, carro apontando no portão do prédio e os outros três comandantes da entrada e saída estavam cabisbaixos, abatidos. Algo inédito, visto que o silêncio e a discrição não compunham os respectivos currículos. Sobretudo, quando estão juntos. Indaguei o que se passava e a resposta não nos poupava o impacto. O real se apresentando sem intermediários. O real destrói neuras. Ele vai direto ao ponto: 'Antônio, o nosso vigia noturno. 'O que houve?'-já estava aflito. 'Ele morreu de madrugada. Teve um infarto fulminante'. Antônio agora tem nome e função. E ele não estará presente nessa consideração Mas não era bursite? O que ele tinha? Acabou.
Era uma vez um homem de setenta anos que dera grande parte da vida a cuidar das entradas e saídas desse prédio batizado com nome de mulher desconhecida, desde a sua fundação. Como se pode notar, vizinhos que não se encontram e nomeações desconhecidas. Aquele gemido não era gozo de roça roça, esfrega esfrega, pau na xeta ou promessas de futuro em Hollywood, Bollywood ou Mimosa Villagewood. Era o derradeiro gozo à beira da morte que não há. Era o gozo capenga, dolorido, sangrento, entupido, de um coração valente que pifou de vez. Explodiu justo na madrugada. Logo ela que me faz companhia, feito uma ninfa, de vida inteira.
Mas então esse gemido que se acreditava vir de cima e parece que veio por baixo?
Há uma garagem no final daquele caminho necessário, com a sua lua e um dedo incauto a lhe apontar o teto que não está. Esse céu desnudo que virou teto, abrigo. Por sua vez, as paredes laterais cercam aquele espaço, preservam território, mas resta o vento, resta o resto. E ela- isso tudo que se chama de garagem- escancara algumas das suas partes que compõe o seu patrimônio de veículos. É aquele emaranhado de ferro mesclado com alumínio e mais borracha com plástico ou algum sonho conquistado. Pois foi por ali que o maldito barulho se propagou. A confundir luxúria com penúria.
Um corredor que perde o seu comandante primeiro atinge a garagem sem qualquer mediação . Confusão de ruídos que transam sem escrúpulos. Estão mais para pornográficos do que eróticos. Não, não era uma crise de bursite.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Lullaby- canção de ninar? Novas tecnologias. Recordações.
Lullaby não é a despedida de algum político importante. Lullaby é uma composição de Brahms, aquele músico alemão- século 19-, e que dentre outras coisas frequentava a casa da família do filósofo e aventureiro, Wittgenstein. Eram contemporâneos. Wittgenstein nascia e uma década depois, Brahms morria. A família vienense do filósofo tinha um ótimo hábito que era financiar projetos artísticos. A mansão da família era local para os encontros de músicos, diretores teatrais. Ravel compôs o concerto para mão esquerda, dedicando-o a um dos irmãos do pupilo de outro grande do pensamento ocidental , Bertrand Russerl, e que perdera a mão direita durante a primeira guerra mundial. Antes de se consagrar, o compositor alemão perambulou um bocado- o tempo considerado difere da nossa realidade contemporânea, já que um homem de trinta anos, à essa época, era considerado um senhor- , até ser acolhido por Clara e Robert Schumann ( Robert um compositor notável e sua esposa uma pianista, uma musicista muito talentosa), na residência do casal.
Tesões em comum podem ter suscitado admiração que, segundo certa alcova alemã e vienense, ultrapassava formalidades musicais entre Clara e Brahms. Ou ainda o ciúme doentio- uma parana exagerada e mal articulada-, de Robert,e que já apresentava sintomas de doença mental. Considerada por estudiosos de sua vida e obra como um quadro psicótico maníaco depressivo. Morreu internado numa daquelas clínicas pavorosas, daquele período. Não muito diferente de hoje. Se relembrarmos o livro 'História da Loucura', Michel Foucault, teremos a noção exata do modo como eram tratados os chamados loucos. A morte de Schumann é tratada como trágica. E qual seria a morte que não se configuraria enquanto tal? Existem desaparecimentos espetaculares, acidentes raros, assassinatos e coisa e tal , mas todo desaparecimento é da ordem de uma trágédia no sentido da impossibilidade radical de se reverter uma situação ou fato. Não tem volta. Ao insistir com esse teclar de letrinhas, por exemplo, não posso passar a borracha no fato de ter iniciado esse teclar de letrinhas. Posso passar a borracha no conteúdo, nas letrinhas, mas não no fato já iniciado. É mais ou menos o que Édipo- aquele Hamlet grego, filho de Sófocles, em Colona- veio relembrar: uma vez nascido, um tanto ferrado estarás. Condenado a existir e não poderá desistir existindo. Desejo mais ambicioso no qual se assenta nossa especificidade de gente. Por isso não adianta conclamar ambições ao dizer " Seja ambicioso. Deseje o impossível'. Não é preciso apelar para redundâncias. É uma questão de reconhecer, saber, manejar. Portanto, lamenta-se mas não haverá presença nessa desistência. Apesar disso, cada um tem a ficção que pode e se faz merecedor.Sempre teremos algo disponível para nos salvar um pouquinho. Fé não necessita de conteúdo ou letrinhas. Fé é o ato posto. A crença por sua vez só faz elocubrar. Ela não existe sem conteúdos. A outra se põe enquanto movimento.
Lullaby se virou numa canção de ninar. Segundo recordações, minha mãe me incorporou- prefiro o termo adoção- desde então. Toda criança é adotada. E a canção era tocada por ela mesma no piano de casa. Piano familiar. Daqueles que aparecem na herança deixada pelo morto. 'E o piano com cauda avariada irá para o fulano ou sicrana'- avisa o locutor para inventários. O morto/a não faz ideia da confusão que armou. Mesmo sem saber tocar ou fritar um bife ( no piano é aquele início do início dos estudos do instrumento rei e insuportável para quem escuta), a turma goza por sofrer de rejeições e não perdoa quem fez a doação. Assunto para gerações futuras. Melhor dizer: fofoca.
Garanto-lhes que nenhum daqueles petiscos ou aromas proustianos ( o escritor francês que era afetado radicalmente em suas lembranças, através dos cheiros, gostos, produzindo aquela obra enorme) foram ingeridos para evocar canções, sobretudo, aquele sorriso que se debruçava sobre meu rosto e que me faz tanta falta.
Lullaby continua a fazer barulho. As novas tecnologias produzem esses efeitos. Trazem umas coisas de tão longe para bem perto, afastando outras que estão mais ao lado. Seriam compensações? O que afasta ou aproxima é a intenção de quem tecla, de quem se aconchega ou não. Onde começa e termina esse ruído todo? É essa distância que se apaga cada vez mais. Nosso vizinho mais próximo - a quem você poderá pedir emprestado um pouco de coisas sem glúten, sem lactose e com o forte tendência a ser atendido- , reside na Sibéria ou na Guiné Equatorial. Mas aquele sorriso afetuoso com sonoplastia de um outro mundo só existe nessas lembranças. E ainda bem.
Tesões em comum podem ter suscitado admiração que, segundo certa alcova alemã e vienense, ultrapassava formalidades musicais entre Clara e Brahms. Ou ainda o ciúme doentio- uma parana exagerada e mal articulada-, de Robert,e que já apresentava sintomas de doença mental. Considerada por estudiosos de sua vida e obra como um quadro psicótico maníaco depressivo. Morreu internado numa daquelas clínicas pavorosas, daquele período. Não muito diferente de hoje. Se relembrarmos o livro 'História da Loucura', Michel Foucault, teremos a noção exata do modo como eram tratados os chamados loucos. A morte de Schumann é tratada como trágica. E qual seria a morte que não se configuraria enquanto tal? Existem desaparecimentos espetaculares, acidentes raros, assassinatos e coisa e tal , mas todo desaparecimento é da ordem de uma trágédia no sentido da impossibilidade radical de se reverter uma situação ou fato. Não tem volta. Ao insistir com esse teclar de letrinhas, por exemplo, não posso passar a borracha no fato de ter iniciado esse teclar de letrinhas. Posso passar a borracha no conteúdo, nas letrinhas, mas não no fato já iniciado. É mais ou menos o que Édipo- aquele Hamlet grego, filho de Sófocles, em Colona- veio relembrar: uma vez nascido, um tanto ferrado estarás. Condenado a existir e não poderá desistir existindo. Desejo mais ambicioso no qual se assenta nossa especificidade de gente. Por isso não adianta conclamar ambições ao dizer " Seja ambicioso. Deseje o impossível'. Não é preciso apelar para redundâncias. É uma questão de reconhecer, saber, manejar. Portanto, lamenta-se mas não haverá presença nessa desistência. Apesar disso, cada um tem a ficção que pode e se faz merecedor.Sempre teremos algo disponível para nos salvar um pouquinho. Fé não necessita de conteúdo ou letrinhas. Fé é o ato posto. A crença por sua vez só faz elocubrar. Ela não existe sem conteúdos. A outra se põe enquanto movimento.
Lullaby se virou numa canção de ninar. Segundo recordações, minha mãe me incorporou- prefiro o termo adoção- desde então. Toda criança é adotada. E a canção era tocada por ela mesma no piano de casa. Piano familiar. Daqueles que aparecem na herança deixada pelo morto. 'E o piano com cauda avariada irá para o fulano ou sicrana'- avisa o locutor para inventários. O morto/a não faz ideia da confusão que armou. Mesmo sem saber tocar ou fritar um bife ( no piano é aquele início do início dos estudos do instrumento rei e insuportável para quem escuta), a turma goza por sofrer de rejeições e não perdoa quem fez a doação. Assunto para gerações futuras. Melhor dizer: fofoca.
Garanto-lhes que nenhum daqueles petiscos ou aromas proustianos ( o escritor francês que era afetado radicalmente em suas lembranças, através dos cheiros, gostos, produzindo aquela obra enorme) foram ingeridos para evocar canções, sobretudo, aquele sorriso que se debruçava sobre meu rosto e que me faz tanta falta.
Lullaby continua a fazer barulho. As novas tecnologias produzem esses efeitos. Trazem umas coisas de tão longe para bem perto, afastando outras que estão mais ao lado. Seriam compensações? O que afasta ou aproxima é a intenção de quem tecla, de quem se aconchega ou não. Onde começa e termina esse ruído todo? É essa distância que se apaga cada vez mais. Nosso vizinho mais próximo - a quem você poderá pedir emprestado um pouco de coisas sem glúten, sem lactose e com o forte tendência a ser atendido- , reside na Sibéria ou na Guiné Equatorial. Mas aquele sorriso afetuoso com sonoplastia de um outro mundo só existe nessas lembranças. E ainda bem.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Uma criança quase à deriva
AOS BOTAFOGOS E VASCAÍNOS . PAPO DE BOLEIRO ÀS VÉSPERAS DA BATALHA.
Uma criança quase à deriva.
1972, o ano. E o dia, era 15 de Novembro. Aniversário do clube da Gávea e feriado republicano. Apesar de supor que continuamos monarquistas de fato ou em sonho. Vamos de rei Roberto, rainha dos baixinhos, rei do bacalhau, rei das tintas, rei momo, no banco de suplentes um aposentado rei da soja e por aí golpeamos a família real portuguesa.
Tinha 6 anos e o pai resolveu levar a criança para a tribuna em que um amigo, cheio de boas relações, conseguiria bom assento e civilidade por perto ( Mais crescidinho, gosto mesmo é de uma arquibancada). Jogo que rola, a tribuna com suas autoridades para uma época em que se impunha silêncio forçado e o massacre: 6x 0 para os Botafogos. Jairzinho e comissão de frente iniciando os ensaios do rei momo para o carnaval do próximo ano.
Dia seguinte, e aquele jornal com seu cheiro particular dobrado estava, dobrado ficou. Indaguei ao velho o que de fato ocorrera, mas ele mudava de jogo. Todavia, o telefone com aquele círculo enorme no centro de sua alma resolvia trazer-lhe a lembrança do massacre. Eram os irmãos a lhe sugerir que não levasse mais o pequeno para assistir aos jogos contra os grandes. Meus tios e primos são torcedores do time que porta a cruz de malta. O pai ficou encucado. Por alguns anos. E depois, viria um desses irmãos piorar ainda mais a situação. 'Não leve o garoto contra os times pequenos tampouco, pois se perder....Virá para o nosso lado.' Durante dois anos que pareceram séculos, frequentei assiduamente Olarias, Bonsucessos, Madureiras, Campuscas. Chegaram a nos acusar- quase fui condenado, apesar dos 8 anos de idade- de sadismo contra formações ditas inferiores. E tinha aquele outro tio, amalucado vascaíno beleza, a sugerir então que a obra daquele "patologista" lás das Europas, Um Marquês de Sade, fosse-me dada a fim de fazer jus à condenação imputada. Ele era amante de uma juíza. Entendia, de modo singular, dessas leis que não nos dão o direito de desconhecê-las. Se bem que essas são deliciosas.
Pois sim. Cheguei a assistir clássicos paulistanos antes de um mundano e regional FLA X FLU. Nelson Rodrigues talvez me condenasse pela segunda vez. Nesse caso, por causa do mundano e regional. Nova condenação. E ele nunca soube que no primeiro evento quarenta minutos antes do nada- era assim que nomeava um Fla x Flu-, tomamos uma enfiada daquela máquina tricolor infernal.
Nessa , o velho me retirou do estádio antes do fim, na verdade antes do tudo ou do nada, rádio de pilha a gaguejar perplexidades pelas rampas da arquibancada, sem que eu lhe fizesse a pergunta capital e que só não nos assombrou, por mais tempo, por causa de um Rei Galinho de Quintino e sua gandiosa guarda pretoriana sob o vôo indescritível de um zagueiro, paulista de nascimento, Rondinelli. Isso foi um 1978, num Dezembro de Noel. Ah ! Aquela pergunta balbuciada na rampa que nos retirava da humilhação sofrida:
' PAI. O QUÊ DE FATO ACONTECEU'?
Mesmo sem qualquer resposta, afora a fuga para proteger seu patrimônio, eu torço mesmo é pelo seu time.
BOAS DECISÕES, AMIGOS.
Uma criança quase à deriva.
1972, o ano. E o dia, era 15 de Novembro. Aniversário do clube da Gávea e feriado republicano. Apesar de supor que continuamos monarquistas de fato ou em sonho. Vamos de rei Roberto, rainha dos baixinhos, rei do bacalhau, rei das tintas, rei momo, no banco de suplentes um aposentado rei da soja e por aí golpeamos a família real portuguesa.
Tinha 6 anos e o pai resolveu levar a criança para a tribuna em que um amigo, cheio de boas relações, conseguiria bom assento e civilidade por perto ( Mais crescidinho, gosto mesmo é de uma arquibancada). Jogo que rola, a tribuna com suas autoridades para uma época em que se impunha silêncio forçado e o massacre: 6x 0 para os Botafogos. Jairzinho e comissão de frente iniciando os ensaios do rei momo para o carnaval do próximo ano.
Dia seguinte, e aquele jornal com seu cheiro particular dobrado estava, dobrado ficou. Indaguei ao velho o que de fato ocorrera, mas ele mudava de jogo. Todavia, o telefone com aquele círculo enorme no centro de sua alma resolvia trazer-lhe a lembrança do massacre. Eram os irmãos a lhe sugerir que não levasse mais o pequeno para assistir aos jogos contra os grandes. Meus tios e primos são torcedores do time que porta a cruz de malta. O pai ficou encucado. Por alguns anos. E depois, viria um desses irmãos piorar ainda mais a situação. 'Não leve o garoto contra os times pequenos tampouco, pois se perder....Virá para o nosso lado.' Durante dois anos que pareceram séculos, frequentei assiduamente Olarias, Bonsucessos, Madureiras, Campuscas. Chegaram a nos acusar- quase fui condenado, apesar dos 8 anos de idade- de sadismo contra formações ditas inferiores. E tinha aquele outro tio, amalucado vascaíno beleza, a sugerir então que a obra daquele "patologista" lás das Europas, Um Marquês de Sade, fosse-me dada a fim de fazer jus à condenação imputada. Ele era amante de uma juíza. Entendia, de modo singular, dessas leis que não nos dão o direito de desconhecê-las. Se bem que essas são deliciosas.
Pois sim. Cheguei a assistir clássicos paulistanos antes de um mundano e regional FLA X FLU. Nelson Rodrigues talvez me condenasse pela segunda vez. Nesse caso, por causa do mundano e regional. Nova condenação. E ele nunca soube que no primeiro evento quarenta minutos antes do nada- era assim que nomeava um Fla x Flu-, tomamos uma enfiada daquela máquina tricolor infernal.
Nessa , o velho me retirou do estádio antes do fim, na verdade antes do tudo ou do nada, rádio de pilha a gaguejar perplexidades pelas rampas da arquibancada, sem que eu lhe fizesse a pergunta capital e que só não nos assombrou, por mais tempo, por causa de um Rei Galinho de Quintino e sua gandiosa guarda pretoriana sob o vôo indescritível de um zagueiro, paulista de nascimento, Rondinelli. Isso foi um 1978, num Dezembro de Noel. Ah ! Aquela pergunta balbuciada na rampa que nos retirava da humilhação sofrida:
' PAI. O QUÊ DE FATO ACONTECEU'?
Mesmo sem qualquer resposta, afora a fuga para proteger seu patrimônio, eu torço mesmo é pelo seu time.
BOAS DECISÕES, AMIGOS.
Assinar:
Postagens (Atom)


