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domingo, 4 de abril de 2021

Estacionado

 Achados e perdidos. Nesse caso, estacionado. Deve ser 1970, se não for dos primeiros fabricados no fim dos anos 60.

Carro vintage.
Meu pai teve alguns.
" Carro é Opala, meu filho . Robusto e confiável '. -dizia ele, orgulhoso seguidor da marca.
Aprendi a dirigir num dos que teve. Tinha 15 anos de idade. Quando ele o vendeu, o carro, que já se tornara "vintage car", e foi o seu último, tinha uns 14 anos.
Fomos juntos, o antigão da GM e eu, ao rock in rio 1, 1985. Sozinhos: a perna mecânica e a perna de pau.. E ele, o vintage, devidamente " protegido " por um cambista/flanelinha. Aquele sim foi um festival raiz...
Ana C Albuquerque, Lia Guarino e outras 19 pessoas
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O MOÇO DE CARATINGA

 Um pouco do botafoguense, Timóteo de Caratinga .

Que Agnaldo Timóteo era cafona , mas tinha um vozeirão e tinha um ressentimento do tamanho da voz dele com relação à nata da MPB , quase todo mundo sabe. Que ele flertava com causas nobres e também com a contravenção, leia-se o abominável Castor de Andrade, também se sabe.
Quando foi do PDT , e se elegeu deputado federal, 1982, com direito ao telefonema para mamãe, na sua primeira sessão, através do , à época moderníssimo, telefone sem fio do tamanho de uma pistola, chegou a vender discos na rua mediante a crise fonográfica, soube- se também.
Mas quando Brizola perdeu a chance de chegar ao segundo turno, perdendo para Lula por uma margem mínima de votos , eleições presidenciais depois de 25 anos, 1989, Agnaldo apareceu, no dia seguinte ao resultado , na casa de campo, aqui mesmo no Estado do Rio, emprestada à família do ex governador , oferecendo solidariedade já que sabia o quão difícil era para Brizola aquele fim do seu sonho maior: poucos sabem.
Eles estavam rompidos politicamente fazia um tempo. Timóteo apoiara 'sic ' Paulo Maluf..No segundo turno, desafinou de vez e fez campanha para Collor de Mello.
Enfurecidos, alguns correligionários do partido democrata trabalhista tentaram agredir fisicamente o cantor do vozeirão.🎵🎹
Brizola os conteve . Não via naquele gesto uma provocação ou algo desrespeitoso.
Os dois eram homens corajosos e calejados por sofrimentos, devidamente superados: um a um. Viveram.

domingo, 14 de março de 2021

No elevador

Os hábitos funcionam como uma espécie de resistência às mudanças. Eles nos conformam; eles nos formatam também. 


Parece que é praticamente impossível viver um dia como se fosse o último. E é bem provável que não teríamos organismo forte o suficiente para suportar tamanha descarga de prazeres e desprazeres. Ainda conforme os ensinamentos freudianos, por exemplo, o tesão na sua essência busca nada mais nada menos do que um estado de paz absoluta ou uma forma de gozo que seria capaz de zerar os nossos tesões para sempre. Apesar desse evento se configurar como o nosso tesão fundamental, quase que de estimação, a bem dizer, sadomasoquista,  temos àquelas resistências que operam enquanto forças de autoconservação; de autopreservação da nossa espécie. Diríamos então que muitos dos nossos hábitos têm esse propósito: o de preservar, de manter, um certo estado de excitação. 

Um modo reacionário de se manter o quê: o mesmo.

Nas palavras de um personagem aristocrático de Visconti, que nos chega na lembrança e dos cinéfilos leitores, especificamente num dos seus filmes mais notáveis, ' O Leopardo' : [...] 

' Manter tudo como era antes'. Esse era o sentido da revolução para o personagem protagonista do cineasta italiano. Portanto, trata-se de uma questão de sobrevivência. E a ideia de revolução parece nos direcionar para algo repetitivo.

O austríaco Sigmund Freud- médico, psicanalista (criador da psicanálise), cientista, escritor, homem de erudições, cientista e uma das mentes mais privilegiadas da nossa história-, entendeu a espécie humana como poucos. Voltamos aos hábitos: 

O hábito de se levantar todos os dias, por exemplo: quanto sacrifício! E depois, dirigir-se ao banheiro por causa das macaquices necessárias e suas excreções inconvenientes, fétidas. São situações bem trabalhosas; sobretudo, quando atingimos uma idade mais avançada ou o tempo/clima (não são sinônimos a bem esclarecer) está desfavorável. Basta lembrar daquela noite bem fria (gelada) e um banho a nos acenar. Se não for ao menos morno, como ficamos?

 Alguns mais destemidos encaram a água gelada de qualquer maneira, independentemente do tempo. Como pensar em última instância a respeito de uma democracia pra valer se você quer 100 por cento do ano com o sol chamuscando a todos, sem qualquer nuvem a lhe atrapalhar intenções, e outros tantos querem alternar dias ‘tão lindos’ com a presença de algumas nuvens e gotículas de chuva? No hemisfério norte e mesmo em muitas regiões do hemisfério sul existem dias conhecidos como frios, por vezes, gélidos. Nesses casos essas gotículas podem se transformar numa outra formação de cor esbranquiçada: flocos de neve. Desafortunadamente, eles são insípidos e inodoros. Mas podem ser lúdicos para quem nunca os viu antes. Na primeira vez, a reação será de encantamento e uma dose perplexidade. Vira-se ou se permanece adolescente. Alguns de nós se recusam a deixar os 13 anos.

Já nos anos 80, acionando outras memórias, existiu aquele grupo musical brasileiro (aliás, atualizando os dados) uns seres ‘ultrajantes’ e que proclamavam que a gente, todos nós sem exceção, mal sabíamos escovar os dentes; tampouco escolher presidentes. Oráculos? Não. Por mais incrível que possa parecer, eles estavam certos e foram até parcimoniosos no que diz respeito à extensão dessa lista de incompetências. Concluíram então, ao final da letra da canção, que éramos inúteis. Alguma novidade? Contudo, estava escondido, nas nossas mais bem resguardadas arrogâncias, essa incompetência.   

Não foi somente efeito de uma oportunista coincidência:

O período em que brotou essa canção, início dos anos 80, século 20, coincide com o momento de  abertura política no Brasil. Propiciava assim a emergência de certas verdades dolorosas, após tanto tempo de barbaridades; arbitrariamente camufladas e dissimuladas.

Os tais costumes que terminam por nos envolver e nos compor atravessam dias, meses, anos, décadas, séculos. Evolução? Muito se produziu; muito se inventou e muito se destruiu também. É aquele tesão que quer o fim absoluto e continuar sofrendo e querendo ainda mais. E mais e mais...

O universo também circula e se move por essas trilhas. Entropias, neguentropias; inflações, deflações; expansões, explosões, retrações...Cansaço.

Observemos também o cotidiano do vestir-sair, comer-cagar, beber-mijar, caminhar-descansar, dormir-acordar.

E como seria brincar de sonhar acordado? 

Escrever? Contar uma história inventada?  Uma faceta faceira de um suposto sonambulismo e que dispensa aquele olhar vidrado de quem está capturado por uma outra cena? 

O sonâmbulo é aquele estado em que se contempla o nosso cinema particular e devidamente egoísta com olhares perdidos; inacessível ao outro. 

Visto que a brincadeira será assim, embarquemos de início nesse trem. Convidem os amigos e também os inimigos, respeitável público!  Por que não? Há de se ter uma boa dose de pretensão! Acreditar que existe público a nos escutar. Por que não?

Afinal, se o dono da birosca não defender o seu quinhão, quem o fará? O egoísmo nessas situações é fundamental enquanto instrumento para uma certa sobrevivência.

Importante também revelarmos o sobrenome desse veículo considerado mais moderno, mediante as tecnologias empregadas no seu desenvolvimento e que nos tornam mais humanos. Mesmo sendo uma formação viciada em forças gravitacionais, ele é muito eficiente no cotidiano de muitos de nós. É conhecido popularmente como metrô e se espalhou pelo mundo. Igualzinho aos parasitas, as bactérias, os vírus, as pessoas...

Tentaremos descrever esses elementos presentes para que a história sonhada prossiga com alguma inteligibilidade. Caso contrário, o hábito de quem lhes escreve, no abuso por digressões (Popularmente falando, quase delírio), atrapalharia o processo.


Imagina-se então essa formação trem urbano contemporâneo e que desliza feito uma ratazana metálica, conforme já fora mencionado, muito eficiente. E ainda por cima, nesse caso por baixo, deslocando-se, cavando túneis subterrâneos: túneis jurássicos. Geralmente habitados por espécies rastejantes, ultrajantes.

Voraz, esse metrô corta e continua a perfurar muitos dos buracos fundos de uma grande parte dessa cidade. Intruso, 'entrão'; rima até com o ressuscitado Centrão.  

O Centrão nesse caso diz respeito a um movimento político tradicional brasileiro e que se caracteriza por ser, assim como os buracos revelados pelo veículo subterrâneo, também jurássico.

 O tradicional por aqui, do ponto de vista político, é o que existe de mais atrasado. Não é um movimento conservador porque esse é necessário na contenção das nossas imprudências, taras, inconsequências e possíveis loucuras. 

A cada nova estação, esse transporte público para multidões, permite uma gigantesca invasão; uma profunda penetração de suas entranhas; dos seus trilhos; das suas intimidades.

Nos mais antigos metrôs, principalmente no conhecido velho mundo, por exemplo, essa máquina de percorrer trilhos e plataformas já completou até século de existência. 

Por aqui, uma lembrança que nos ocorre, no nosso continente, o mais antigo metrô encontra-se na Argentina. Melhor dizendo: é o mais antigo das Américas.

Portanto, na estação que estamos prontos para descer, agora, o entorno é decadente; quase moribundo. 

Por lá, podemos 'contemplar' um comércio empobrecido e que procura sobrevida ao oferecer produtos de toda ordem e procedência. Algumas dessas ofertas são provenientes de lugares ou atitudes nada lisonjeáveis.

Pessoas da rua; pessoas na rua. Porém, o pior está no cheiro. E que há muito tempo, tornou-se uma característica da nossa cidade. Uma tristeza que mescla urina com o seu cônjuge mais sólido e escuro. 

Infelizmente, parte da nossa gente, negligenciada e sacaneada por aquela gente rastejante, de torpe praticagem política e estilo, acostumou-se com essa favelização de costumes. 

Uma boa experiência vivida (Captada, primeiro, pelo olfato atento, naquele lugar que resguardava histórias culturais, sendo capaz de exemplificar esse cenário decadente) merece então a nossa consideração:

Numa noite, vivida como anteontem, assistindo a um show musical numa casa típica de espetáculos do gênero da região da Lapa, também área central do Rio de Janeiro ( Aliás, um local que já fechou as portas mediante a falência recente da cidade), lembro-me da reação nauseante, careteira, ao melhor modo de interpretar um personagem, tipo ‘Jack Nicholson style’, que um conhecido e não menos talentoso instrumentista brasileiro, gaúcho, e que adotou a nossa cidade como também sua, exibiu diante do odor que invadia, sem cerimônia ou convite a mostrar, o palco onde outros colegas seus, talentosos músicos também, exibiam-se. Estávamos todos ali, próximos aos arcos mais famosos da cidade: região central.

Não foram só suas expressões de aversão, mas ele soltou um comentário para um outro fulano de tal que o acompanhava. A pessoa que escreve essas lembranças, mesa ao lado do egrégio artista, curiosamente abelhudo escuta e transcreve: 

' Não sei como os cariocas aguentam e convivem com isso. Parece que faz parte do dia a dia. Passou a integrar o convívio da turma’. As palavras podem não terem sido exatamente essas ( Tantos anos depois do ocorrido, por certo, não foram); todavia, o sentido deveria ser esse:

- 'Você tem toda razão, fulano de tal. Tu já entendestes, guri, um certo modo de funcionamento decadente, ao nosso ver, dos viúvos da Guanabara, outrora aprazível; há muito, poluída, desprotegida: Abandonada mesmo. Sem maiores rodeios.

  Confessamos, nós e alguns outros cariocas ou entusiastas, que não dispomos de otimismos por demais a desfraldar bandeiras e exultar falsos profetas com suas práticas, nada generosas, em vender ilusões permanentes. Tornamo-nos sim predatórios com a nossa própria casa. E o preço por essa estupidez se tornou cada vez mais caro.

Aumenta, temerariamente e cada vez mais, o perigo em atravessar; aventurar-se por algumas das centenas ou milhares de ruas, ruelas e até algumas das principais avenidas para se chegar ao destino desejado. 

Não é tarefa tão fácil, sobretudo, se a infeliz criatura tiver que cumprir esse castigo diariamente. Castigo para milhão, a bem lembrar. Nem é tampouco demasiado afirmar algo dessa ordem. É só uma questão de experiência e convivências.


Teria algo mais importante a mencionar do que essa tergiversação de letrinhas enquanto imaginamos que uma próxima cena haverá? Teria sido aquele odor que o amigo artista denunciara, ainda na mesa daquele lugar, a promover esquecimentos deliberados? Aquele  show- bar e que já não existe mais? 

Chamaremos pois de cena- feito as que podem se passar no teatro, no cinema-. Mas por sua vez poderia ter sido um sonho encenado ou um sonho perdido... Um sonho acordado (No sentido de desperto) ou um desejo de outro sonho?

Nunca saberemos a resposta exata. A bem dizer, não somos pessoas formadas por muitas exatidões. 

Diriam até, aqueles compositores-cantores, lá do início, aqueles mesmos, os ultrajantes, e que não usavam trajes a rigor: 

‘Quem sabe essa inexatidão ou imprecisão não teria sido tão útil para essa construção que mescla história, invencionices, delírio...’


Cena 1- Rua da Carioca, Estação do metrô de mesmo nome.


Ruas sujas. Camelôs oferecendo de tudo. Olhar de rabo de olho ( Cogitou-se falar ‘olhar de soslaio’, mas é que..) para não chamar atenção e fugir das abordagens inconvenientes. 'Tudo bem, senhor? '- Aproxima-se, sorridente, um vendedor das ruas. 'Estava'. -responde o estranho passageiro recém saído do metrô.

Ele, o intruso andarilho, decide fugir daquele ambiente pouco familiar, rapidamente. Mas..

Se não é familiar, por que foges? ‘Não quer nos conhecer melhor’?- Pensara de longe aquele habitante das ruas.

 Corre um pouco; acelera novamente. Olha para trás; olha para os lados. Não está em Londres, contudo, a sua vida em diversos momentos teve direções trocadas. Sente-se observado a cada passo que inicia após um novo passo deixado para trás; para o lado. Agora, anda novamente para frente; desviando o tempo todo das barracas incontáveis de ambulantes. Um adendo, uma explicação:

 Ambulantes são vendedores. Um tipo de comerciante de rua, nas ruas; ao longo das ruas. Vendem diversidades. Algumas até inimagináveis. Será que falam? Será que gozam? 

Um dia, alguém teria dito que viu um aparelho celular gozar. De tanto que a ingênua invencionice, tão útil, fora manuseado e acariciado. 

Esse mesmo alguém garante que o aparelho e seus aplicativos teriam ficado até ruborizados. Flagrados em ato libidinoso e sob o risco de que esse ato fosse compartilhado, rapidamente, para um número de pessoas tão grande, na verdade muito maior do que aquele que o trem metálico subterrâneo pode transportar, entraram em pânico, ou melhor, entraram em pane completa. Era um modo silencioso quase absoluto, e não vibratório de permanência. Um sumiço radical, ainda que breve, pois não existiria maneira permanente em desaparecer frente às demandas existentes. No hoje em dia, não somente a necessidade de estabelecer comunicação, vínculos entre pessoas, mas o exibicionismo quase vital. 

No outro mundo havia a fofoca. De lorota em lorota, o fato virava outro fato; uma outra lorota. Muitas dessas lorotas são capazes de suscitar um estrago considerável. Alguns desses estragos podem ser até irreversíveis. Pode virar uma tragédia, portanto. 

No mundo contemporâneo, apelidaram esse modo de sacanear os outros que não fazem parte da facção que eu ou tu possamos vir a defender, votar, de ‘fake news’. Sempre houve, portanto. 

Não faz parte da minha turma, logo, não presta; não é ético. Fez parte da postura ideológica que gostamos, torna-se até um herói eleito com voto e tudo.


Pois então no meio do caminho atravessa-se uma avenida em direção ao destino traçado; avenida larga, vetusta, rodeada por edifícios e monumentos antigos, centenários. Por ali já desfilaram bondes elétricos. Os mesmos bondes que vieram depois dos seus antecessores, as charretes e as carruagens. Essas últimas eram dotadas de certo esnobismo porque conduziam figuras egrégias da nossa sociedade. Muitos deles oriundos de famílias reais.   

Essa miragem toda sendo contemplada antes ainda de se chegar à Rua que se proclamou Rua da Assembleia, Centro Antigo da Cidade. 

Em seguida, avista-se um restaurante que se chama leiteria: Leiteria Mineira vem a ser o seu nome oficial. Existe há décadas e sempre naquele endereço.

É um daqueles restaurantes portadores de uma certa tradição em que os garçons fazem parte do cardápio. Entenda-se: eles não serão servidos enquanto acompanhamentos com os pratos principais ou não serão, eles mesmos, o alimento tão necessário dos comensais cotidianos. É que essas pessoas conhecem os caminhos e atalhos de cada refeição e dos respectivos clientes. Quase sempre esses clientes estão por lá. 

Adivinham inclusive o ponto em que a carne deve ser servida, antes mesmo de escutarem a solicitação da clientela:

‘Você tem pinta de ser um daqueles “ao ponto para mal”... 'Já a senhora me faz lembrar o estilo “mal passado”; quase sangrando'.

Em ambos os casos, o cidadão acertou em cheio. Incrível! Parece magia. Houve testemunhas.

Não se trata de um restaurante sofisticado. Longe disso: Mas tem o seu charme enquanto casa de chá; casa de lanches e refeições cotidianas através das guloseimas consideradas clássicas. Sobretudo quando contemplamos aquelas imagens: os retratos dos tais bondes, daquelas charretes, dessas carruagens bonitas:

‘Veja essa que interessante. Pertenceu ao fulano de tal da família de tal importante. E aquela turma vestida fora dos padrões estéticos de hoje e pertinentes com os hábitos da sua época. Estavam na moda. A moda de um certo modo foi inventada para passar de moda. O que não deixa de revelar toda a sua criatividade e não conformidade com os costumes estéticos anteriores.’

Conseguiríamos imaginar um cidadão se dirigindo para um estádio de futebol, nesses nossos tempos de aqui e agora, trajando fraque e cartola?

Pois esse já foi um dos ‘uniformes oficiais’ de boa parte dos fãs do esporte que se tornou mais popular no país e no mundo quase todo. Nesses tempos, o remo era um esporte mais popular do que o futebol.


O nome torcedor, há muito tempo um conceito sociológico com resquícios neo etológico no Brasil, surge através do modo de torcer das senhoritas e senhoras que, acompanhavam os tais homens de fraque, e que por causa do nervosismo do combate travado, isto é, pelo andamento do jogo, torciam os lenços de seda que levavam para enxugar um pouco do suor que poderia lhes atingir, nas quase sempre tardes quentes do Rio de Janeiro. Especialmente nos meses de Dezembro, Janeiro, Fevereiro.. Há quem diga que o Rio só tem duas estações: o verão e o inferno. O verão inclui esses 3 meses aí de cima mencionados com o reforço do mês de Março que lhe encerra o período demoníaco com suas famosas tempestades. Outrora, cantarolada em melodia bonita.

O torcer dos lenços batizou os que assim se comportavam de torcedores. Isso teve início no Estádio das Laranjeiras, zona sul do Rio. Sede do Fluminense Football Club. O estádio, segundo consta, ainda existe, porém, está abandonado. 


Um outro aspecto dessa andança pelo centro velho, berço civilizado da ex-capital federal, é poder se deparar com formações importantes da nossa história: palácios, casarões, casebres, fachadas centenárias, igrejas, bibliotecas, museus, teatros, bares, restaurantes e, sobretudo, os adoráveis, resignados e pudicos bordéis.

 Cenário esse que compõe um significativo pedaço dessa região tão importante da cidade e também da história do país. Sem nenhum exagero.

Quase em frente, outra face da rua que lhe é perpendicular, ao Palácio Tiradentes, sede da Câmara dos Deputados do Estado do Rio (Existe um projeto para que a Assembleia Legislativa se mude em breve) na mesma Rua da Assembleia, exibe-se esse edifício contemporâneo. E ele é enorme, imponente. Os inimigos, talvez invejosos, reativos a qualquer estética que lhe desloque sentidos e olhares, afirmam que não passa, o tal edifício, de um retransmissor de empáfias e fazedor de sombras nas ruas próximas. A empáfia se deve aos escritórios abonados e seus milhões em transações. Quanto às sombras, elas nascem mediante a envergadura dessa criança de concreto.

Para a região central pode ser um alívio nos dias mais quentes, e que são mais frequentes, ao longo do ano. Porém, se estivesse posicionado próximo à orla da praia - como alguns outros monstrengos urbanos surgiram- reações mais apaixonadas e passionais despertariam. Na verdade, despertaram.

Um outro alguém, amigo daquele alguém anterior e que presencia orgasmos em aparelhos telefônicos, presenciou, na praia, muitos banhistas difamando e amaldiçoando os arranha-céus que lhes trazem sombra durante o banho de sol:

 " Malditos, malditos"! Canalhas, canalhas, canalhas!- vociferavam alguns 'black-sungas'.

Entretanto, devemos ressaltar a importância social, comercial e empresarial desse gigante de pedra. Afinal, esse bendito-maldito edifício abriga universidades, alguns cursos diversos, empresas, lojas, consultórios, cabeleireiros e o quê não se consegue nessa descrição mais computar. Mas podem estar por lá também.

 Nos andares mais elevados - o prédio tem mais de 40 andares- a vista para a Baía de Guanabara é deslumbrante: Ilha Fiscal, Ponte Rio Niterói; os navios que atracam no porto; os aviões que deslizam e flutuam no Aeroporto Santos Dumont. 

O Pão de Açúcar ali à esquerda; agora, ele se posta mais ao fundo: uma pintura impressionista.

 Entradas e saídas pelas duas ruas laterais e pela rua principal também. Aquela tal onde se estabeleceu para sempre o Palácio Tirandentes. Outrora, era a residência de um rei português: Dom João VI. Pai do Imperador, Pedro I.

 Podemos ter nos equivocado quanto a uma das entradas e a sua localização precisa.Portanto, se não for, assim passa a ser.

 Não provocará, contudo, alteração relevante na continuidade dessa história e muito menos não provocará, tampouco, desorientações ou tonturas nos inúmeros transeuntes, possíveis visitantes, e o seus habitantes cotidianos. 

A começar, logo na chegada, você enxerga esse vasto salão principal no térreo. Destaca-se ali esse imenso hall dos elevadores. Existe, inclusive, um mapa para que o visitante, o habitante ou invasor se localize. Generosidade disponível. 

Em tempos digitais, deve existir algum aplicativo que facilite a localização. 

Você deve também se perguntar o porquê dessa deferência ao hall de entrada desse prédio bendito-maldito visto que não há nada de tão especial que se possa contemplar. A não ser pela sua avantajada dimensão. Talvez pelo fato de jamais termos conhecido um hall para elevadores tão grande. Teria sido isso? Não se tem resposta.

 Faz lembra um labirinto. Nesse caso particular composto de mármores, luzes e mapas. Apesar dos novos tempos, vez ou outra, recorre-se ao ‘GPS’ mais antigo que ainda pode ser muito eficaz. 

O fato de produzirmos inovações tecnológicas importantes não significa que as invencionices anteriores não mantenham certa utilidade.


Cena 2- Elevadores: seus comandantes.


São muitas as portas, naquele agigantado hall, a  indicar a presença dos elevadores. E esses elevadores se esparramam pelo também imenso salão, localizado no térreo do tal edifício, e que nos recebe. E elas, as tais portas, vão se abrindo e fechando, após aquele som agudo, simultâneo à luz que ilumina setinhas indicando as duas possibilidades existentes: subir ou descer.

Existe uma outra: permanecer ali mesmo. Diante do possível usuário, a engenhoca não se move. Nem para cima, nem para baixo. Estacionado.

Ah! O som é estridente. Depois de muitas repetições, um dia inteiro, deve ser bem irritante. 

Deficientes visuais são beneficiados por esse ruído. Nos sinais de trânsito de países civilizados, por exemplo, um aviso sonoro alerta, protege, a população que não enxerga bem ou não enxerga nada.

Acontece que a porta já se abriu e dentro dessa  caixa metálica ( Permitiremos essa metáfora relacionada ao objeto que sobe, desce e fica parado quando escangalha) havia uma senhora ( idade ainda desconhecida , pois é difícil adivinhar nem tampouco coragem para perguntar). 

Porém, isso não pode ser um problema porque deveríamos acolher a ideia de que a partir de uma certa etapa da vida, as idades apresentam a seguinte resultante: 'estou bem; não tão bem; mal; muito mal... Essa é a idade vigente para quem já está com uma quantidade de milhas rodadas e algumas por vencer ou até mesmo já vencidas. 

Apesar dos ensinamentos do pensante brasileiro-carioca, Millôr Fernandes, que sempre nos lembrava que a idade de fato estará registrada para valer, na nem um pouco discreta, carteira de identidade. Millôr viveu 88 anos, mas sempre achei que ele fosse eterno. E ele é. 


 'Qual é o andar, senhor. Por favor'?- uma pergunta automática, mecânica. 


Os elevadores são rapidíssimos. Chega a ser desconfortável quando atingem o andar solicitado. Lembremos que esse prédio exibe-se ao longo de mais de 40 andares.  Para escalar isso tudo são necessários propulsores muito robustos que de repente arrancam e quando desaceleram- porque o destino se aproxima- a sensação produzida é um pouco desconfortável. Ao menos para quem não é usuário cotidiano do aparato gerador de ataques claustrofóbicos.

Quanto àquela senhora, a que comanda a máquina, parece não se importar. Não se mexe; não abre a boca; nem ao menos um suspiro. Após a primeira pergunta mecânica, aquela saudação-jargão, perguntamos nós: 


‘Estarias de fato viva?’ 


A cabeça se abaixa e o pescoço deslocado cuidadosamente para o lado direito procurando por algum sinal vital e eis que ela levanta um pouco a sobrancelha; o que pode ser alguma resposta vital. Ou não? Morte cerebral não emite resposta, reflexo.

Ela move a cabeça para o lado esquerdo, ergue a sobrancelha e foi assim que comprovou ( Ufa!) estar viva e sob o comando da caixa voadora.

No elevador vizinho ao dela, soubemos que quem comanda o espetáculo é um senhor. Arrisco que ele tem mais de 70 anos, mas é apenas especulação imaginária, pois não se consegue vê-lo direito. Simpático. Ou melhor: a sua voz emana simpatia. E ele vai respondendo aos viajantes que começam a entrar no seu ‘veículo’ com uma tonalidade vocal bastante agradável, receptiva. Melhor, nesse aspecto, do que a nossa.

Conhece quase tudo sobre o nosso anfitrião gigante que pelo fato de carregar mais de quarenta andares no lombo, emana petulância. Ele, o gigante de pedra, ‘se acha’(Conforme dizem os mais jovens).

Escuta-se – e ele faz questão disso- quando o comandante do elevador ao lado, o tal senhor acolhedor, orienta os seus futuros passageiros. 

Sabe informar sobre os endereços dos escritórios, das empresas. "Ah. Esse aí é na sala 4000 e tal”. Quando um novo viajante sai do elevador, a voz orienta: 'Siga em frente. A sala está localizada no fim do corredor, à esquerda’. - Conclui o serviço. Eficiente.


Podemos pensar que, com certo abuso, conjecturamos chamá-los de sobreviventes.

Por que não? É bem provável que não sofram de claustrofobia ou crises de pânico por causa disso. Talvez tenham o oposto: a agorafobia e que vem a ser aquele ataque de pânico que ocorre quando as pessoas estão em lugares muito abertos.

Quem sabe por isso decidiram se fechar nessas caixas de metal? Uma possibilidade ou uma proteção? Alguém se sente tão seguro nesse lugar? Seria preciso indagar, perguntar. Haveria conversa, transa de palavrinhas possível? Havia uma atmosfera pesada no ar.


Cena 3- Algumas considerações iniciais antes da partida. Seria melhor dizer: antes da subida?


Seria bom poder ficar a sós nesse tipo de ambiente, não seria? Imagine aquela caixa de metal só para você? Provavelmente, não faz parte do seu sonho de consumo ou sua fantasia mais íntima. E já que, felizmente, existe gosto para tudo, quem sabe não se encontra ao menos um que diga sim a esse desejo?

Desde pequeno que para mim os elevadores são formações que oscilam entre o conforto, a eficácia e o aprisionamento. Não se esquecendo do fundo do poço. 

O fundo do poço relembrava o assassinato, ocorrido nos anos da ditadura militar de um dos maiores brasileiros, o educador, Anísio Teixeira.

Seu corpo fora atirado no poço fundo de um elevador sobre o pretexto de que ali havia despencado; que teria ele, o professor, sofrido um acidente. Seus algozes sustentaram essa versão até pouco tempo. Tudo falacioso. Hoje, dir-se-ia - mesóclises em caixa alta- 'fake news'. Antigamente, chamava-se fofoca, calúnia, difamação, mentira mesmo.

O mestre fora sequestrado por aloprados fardados e assassinado longe dali. Depois, atiraram seu corpo nas entranhas desumanas do sobe-desce mecânico do prédio em que residia (Sobe-desce mecânico é um dos outros modos pelos quais decidimos apelidar os elevadores). Ninguém foi punido após quase 50 anos do crime. (O fato aconteceu em 1971. Período em que o Brasil vivia uma ditadura militar desde Abril de 1964). 

Fora esse fantasma ou por causa também dele, quando o elevador do prédio de nascença de um dos nossos convidados personagens, chamado petulantemente de Eu - e onde ele parece ter voltado a residir- parava no andar errado e o eu descia, assim mesmo, via-se tomado por um medo, uma aflição bastante desconfortável, a ponto de sair correndo em direção às escadas de serviço, a fim de escapar o mais rápido possível. Mas do quê mesmo? Seria daquele fantasma famoso? Àquela época, então, acreditavas em transcendência e transcendentes? Crias em seres de outro mundo, outra dimensão? 'Sim, eu cri'! - tagarelava a voz imperativa de um suposto superego torturador e pernóstico. 'Sim!!!  Pernóstico, presunçoso! Imagine isso: eu cri... Troço mais horrível. Mas por quê? 

Quem sabe mediante as deficiências que resultam numa suposta ausência de elementos que a gente poderia portar ou que portamos mas não conseguem ( Inadimplência dessas configurações ou mera resistência ao novo; ao não usual) suportar, escutar, absorver certos sons, ruídos...imagens?


Não somos tanto assim. Nem para mais, tampouco para menos. Quem pode calcular com precisão essas intensidades, essas quantidades ? Quase impossível. 

E esse super-ego metido e arrogante. E o tempo de verbo, há tempos, em desuso? 

'Seu bolha!' Estás surdo também?' - Um grito impaciente que ecoa. 

Pausa para respirar; beber um café. Ritos para retomar o fôlego.Retornar após essa intromissão delirante. Uma vontade de desistir com isso. 

Consegues enxergar alguma razão para essa história? E ela mal começou...E O porquê desse blá blá blá? 

Sabes que pode não ter futuro algum. Para quê esse esforço? Não vais ganhar dinheiro mesmo. Possivelmente, sequer será encenada.  “Encenada”? De onde retirastes essa ideia? Estás louco?

Mas, afinal: 

Quem falava assim?

Com quem era essa conversa última? Após a última recordação fantasmagórica: os crimes, as omissões, as impunidades. Abusos? Ninguém fala sozinho. Assim como não existe superego bonzinho.

Superego é aquela instância psíquica desenhada pelo Freud, aquele austríaco farejador da alma dos homens, na sua segunda tópica, da sua vasta e densa teoria e que funcionava mais como um fiscal de imposto de renda, guarda de trânsito, falsos moralistas, torturadores dissimulados.Mas ele tem o razoável álibi de se proclamar um ‘ser’ um pouco mais inconsciente do que o seu ‘primo’ abobalhado mas também necessário, meio magricela, fraquinho, e que atrapalha um pouco voos maiores do psiquismo: o tal do ego. Portanto, o super, retira o seu da reta de forma lógica e elegante.

Elevadores e pessoas aprisionadas podem suscitar bem mais do que ataques de pânico.Percebem?


Cena 4- Outros convidados.


RJ:

- O senhor está bem?- Um jovem curioso e vestindo um terno elegante, pergunta. 

Desculpe-me pela impertinência, mas é que parecia balbuciar alguma coisa enquanto balançavas o corpo assim (Imita o gestual de quem parecia estar enforcando alguém. Se bem que, às vezes, parecias que tentava salvar esse mesmo alguém. E...


Esclarecimento : RJ é a sigla para chamar rapaz jovem. 

 

Eu é a sigla para algo ou alguém que se chama de EU.


EU:

- Estou bem, obrigado. Estava lembrando de uma cena de um filme (Não teria sido uma peça? Uma prosa, talvez? - Fala baixinho como se falasse para si mesmo)- ... Um filme de terror. Era isso. Ao menos, creio que era isso. - Respondeu ao intrometido pedante com trajes elegantes.


RJ:

- Detesto esse tipo de filme ou peça teatral e que tenha essa vocação sanguessuga, vampiresca. Acho de extremo mau gosto e ainda por cima já temos tanta violência. Os tais noticiários televisivos, por exemplo: eles são terríveis, sensacionalistas e muito apelativos. Não existe nada de bom acontecendo a não ser esse bangue bangue bárbaro, cafona. É inacreditável que essas notícias tenham tamanha audiência. Eu não prestigio esse tipo de 'arte'. - Acrescenta o mancebo curioso


S:

- 'Arte nesse caso entre aspas - ' essa personagem ainda não devidamente apresentada, imita o gesto do primeiro imitador sobre o que supostamente eu teria feito. 


Andamos tão distraídos que não se percebe que havia uma senhorita ( Ou seria senhora?) também presente. Ela receberá a sigla S.


S

-Mas o senhor realmente estava fazendo uns gestos esquisitos há pouco tempo. Achei até que fosse um ator ensaiando. Melhor do que supor que estava tendo um ataque epilético ou algo semelhante.- Intromete-se novamente essa distinta senhorita, vestida com esse vestido vermelho e acompanhada de sua bolsa requintada, exibindo umas consoantes, na verdade duas letras, em caixa alta, na parte da frente. 


Dizem que esse acessório funciona quase como um fetiche para muitas mulheres. E pelo jeito custa caro.




O EU:


- Chama-se sadomasoquismo, senhora...



S:


-Senhorita, por favor.- esbraveja. Ela prossegue:

 

- Sim...Pode ser, mas como íamos dizendo, esse interesse mórbido que as pessoas têm por esse tipo de assunto. Certas vez, assistindo a uma entrevista com um conhecido diretor de televisão e cinema, que já é falecido, diga-se a verdade, fiquei espantado com a resposta dele sobre esse assunto quando foi....


O EU:


-E o que foi que ele disse ? - Ele nem ao menos esperou que ela completasse a frase.



S:

- Ele disse que esse tema atraía bastante audiência e que a televisão vive em função disso. Porque a demanda vem do público;  vem de baixo... O que parece uma obviedade.

Mas poderiam ter um pouco mais de educação. Falando melhor: 

Serem mais seletivos com o que divulgam ou apresentam. Um filtro mais adequado. Acho que me faço entender.

E não me venham dizer que isso seria censura. Apenas que essa libertinagem que estamos vivenciando tem que ter alguns limites. Sem um pouco de coerção ou algo do gênero, você não educa ninguém. O resto é papo de porra louca. Desses que acham que essa aceleração na mudança de costumes, hábitos ..Essa, aspas por favor, hiperdemocracia, pode não resultar no que estamos presenciando. E não é só por aqui, na nossa terra, que essas reações estão acontecendo. O problema é muito mais amplo.


RJ:


- Quais?- pergunta o engomadinho.


S:


- Quais o quê, rapaz?- A senhorita - mais velha do que o rapaz e supondo que por esse fato teria mais autoridade- retruca. 

Ela está um pouco mais irritada. ( Na verdade, estava irritada desde que a chamei de senhora, antes de senhorita. Ela se imagina mais jovem.)


RJ:

- Quais os limites? E como colocá-los?


S:


- Ah, isso eu não sei ao certo. Existem especialistas para esse tipo de contenção. Se bem que eu acho que esses tais especialistas também não conseguem resultados muito significativos. Deveríamos poder  conter essas demandas sanguinárias. Temos que fazer antes que a perdição seja plena. Tal como indicou o próprio moço importante da televisão- a quem ele fez menção- e que até já morreu. Pobre infeliz.


EU:


- Nem tanto. Alguém consegue estabelecer esses limites?-. Eles me parecem circunstanciais. A cada momento; cada caso.



S:

- Não entendi. O senhor não concorda? Aprecias o quadro abominável de favelização da nossa gente? Essa estética de Pablo Escobar que o Rio de Janeiro adotou? Balas perdidas, milícias, miseráveis sem teto; sem trabalho ou rosto. Pastores infernais e suas demagogias?


O EU:


- Não, senhora. Perdão, senhorita! Ele não foi - o defunto em questão- um pobre coitado. Viveu muito e com bastante riqueza.


Ao lhe dar essa resposta, O Eu percebe que essa senhora-senhorita vai se mostrando um pouco mais aborrecida, chata mesmo, do que as aparências pudessem indicar.


Afinal, quem discorda da gente?

O problema é o modo, o jeito de se viabilizar tudo isso. É dificílimo.

Nesse ponto, Eu faz uma pausa e escuta as vozes que surgem na cabeça:

‘ Parece que tem um reinado inteiro na barriga. Uma pose de sinhazinha. Isso é irritante! Assim que puder, ou melhor, assim que for possível e esse troço parar, eu terei que descer. Tenho uma quantidade de andares considerável para alcançar, mas acho que não aguentaria tanto tempo aqui com essa mulher.’


Ele, o Eu, não se dá conta que elucubrava ideias, repetia os mesmos gestos do início dessa ‘viagem’ e mexia os lábios.


S:

- E lá está o senhor fazendo gestos e caretas esquisitas..E para que eu não morra de fome já que esse elevador demora tanto para subir, aceitam uma fruta? Tenho mais de uma dessas mangas comigo. O problema são esses 'fiapinhos' que grudam entre os dentes. Aceitam?


Sem nenhum constrangimento ou contenção, ela sacou uma manga, com dimensões razoáveis, e uma faca pequena de dentro da tal bolsa e começou a descascar a fruta e os seus fiapos. Parecia não haver mais ninguém por perto. Pouco importava o aspecto belicoso da faca ou a falta de cuidado com a higiene em tempos de possíveis pandemias globais. Ao menos, era o que se anunciava nos noticiários.


S:


- Hummmm.. Muito bom. Essa faca é perfeita. Vejam os cortes que ela pode produzir numa casca. Imaginem então o que não poderia fazer numa pele fina- ria, olhos brilhando, enquanto comia a sua frutinha essa 'assassina' de frutos.


RJ:


- Nossa...A senhora falando assim até parece que tem as piores intenções- assustou-se o rapaz almofadinha.


A Ascensorista finalmente participando da prosa pela primeira vez. Ufa! Ela realmente está viva ( Parece que essa era uma sensação geral :


- A mim não mete medo. Conheço cortes muito mais profundos. De onde venho então... 

Lá, as pessoas têm a pele cascuda. - Fala bruscamente a nossa comandante do sobe e desce.


E sem papas na língua, acrescenta:


AS será a sigla para nossa comandante do cubículo:


AS


- Além do mais, não gosto de manga. A não ser daquele filme de um conterrâneo pernambucano que não sei o nome mas o filme tinha manga no nome..


EU:


- Cláudio Assis é o cineasta. 'Amarelo Manga' o nome do filme. Muito bom, e muito violento também.- intrometo-se em assuntos de cinema.



AS:


- Violento é lá onde eu moro. E aquilo lá não é arte feita de ilusões. Sangue de mentirinha. Essas coisas para enganar o povo.

Porque na encenação de mentirinha, o moço ou a moça que morrem ressuscitam depois que o filme acaba. Parece até milagre de Jesus. Aliás, Jesus está batendo um bolão. Uma pena que pelo lado errado. Não tinha nem um Brutus para lhe orientar direito. Ressuscitou defunto no futebol. - Concluiu às gargalhadas a mais nova crítica literária e pelo visto fã do esporte bretão.


EU:

- A senhora até que tem razão. No que diz respeito às encenações e seus lugares. Porque quanto ao lado errado de Jesus e suas escolhas, não responderei porque afinal de contas o patamar é bem outro. ( Levanto um dos braços bem no alto, demonstrando o que está sendo dito na resposta juntamente com um sorriso sarcástico de quem está triunfando) ...

Mas o faz de conta é tão verdadeiro que a gente tem dificuldade de se distanciar e acaba fazendo parte daquilo. Feito jogo de futebol. Vou lhes contar uma historinha

Certa vez, uma amiga sentiu-se mal por causa de umas cenas de um filme dinamarquês- o primeiro de uma sequência muito boa de produções daquele diretor bastante competente muito antes de ser polêmico- e foi para o banheiro. 

Como ela demorava muito a retornar, eu fui atrás. Estava preocupado porque ela demorava! Sabem como é... Amizade antiga, querida... 

Lembro-me  dessa cena até hoje ( Um riso nervoso ecoa do EU). A cena era mais ou menos assim:  cheguei na porta do banheiro e falei 'Fulana! É só um filme. É uma obra de ficção'.


 'E o que ela lhe respondeu' - perguntaram todos.


Eu:


 - Ela me mandou tomar no cú! Imaginem isso! (Imito o xingamento como se fosse uma canção. Até porque a amiga é cantora) Tomar no cú! E logo ali, na porta do banheiro feminino...


E em pleno cinema. ( Ele gesticula com os braços esticados, mãos trêmulas...) Imaginem isso...


- 'E o senhor, afinal, foi tomar no.....' - eles insistem.


Ele, o eu, faz uma cara de espanto que interrompe esse interrogatório inconveniente. Mas não foge da resposta:


EU


- Claro que não... ( Voz baixa. Expressão de perplexidade)...Onde se já se viu isso.. Eu, hein...


Silêncio. Daqueles que ressoam algumas oitavas. Rompido apenas pelo comentário 'engraçadinho' da 'especialista'.


AS


- Hummmmm.. Já desconfiava desse jeito meio enrustido. Ah Ah Ah... Acho que nesse caso, nem Jesus dá jeito. Causa perdida. Pode até mesmo ficar por muito tempo tratando da cabecinha... Fazendo aquilo que os bacanas fazem. Como é mesmo o nome do troço?  Uma tal de fala e cura; fala e acha que melhora. Tem alguns deles aqui nesse edifício. É engraçado porque aqui eles são silenciosos. Vai ver que enchem o saco dos clientes e depois cansam. Parece até que perderam a língua.

 Psico alguma coisa.. Psico não sei das quantas.Uma maluquice dessas.

Análise! Bingo! Acho que é esse o nome da moléstia. Tenho as minhas experiências e os meus conhecimentos, meu povo. Não me subestimem. O troço aqui está sob o meu comando e se enguiçar vira confinamento com pinta de tortura.


“Xiiiiiii. Vai começar aquele lenga-lenga, aquele lero-lero de gente de sindicato, líder comunitário..- A senhorita pensa alto enquanto afiava as garras. Vou ter que descer no próximo andar. Logo, logo. Não vou aturar isso aqui. O nível é muito baixo para mim.”


Mas ela se conteve. Permaneceu calada.


Prossegue a funcionária dedicada e com argumentos, no mínimo, contundentes:


AS:


-Estou aqui há pelo menos 27 anos. Entendo desse negócio de sobe-desce, entra e sai. Pára, sai, entra. Levanta-se do seu banquinho e faz uns movimentos com o corpo relativos ao que está descrevendo). Para o espanto das testemunhas presentes.

'Calma moço. Não vê que está apertado'. Devagarinho com o movimento. Pode machucar a amiga ou... o amigo.

O amigo nesse caso era aquele que recebeu os 'elogios ' descritos pela comandante do sobe-desce metálico.


Narrador fictício: Aquele que parece ter se perdido no imenso hall do edifício. NF será a sua sigla.


NF:


“Quer dizer que a comandante do elevador estava viva! Isso era mais do que reconfortante. Era uma alegria. Porque durante esse tempo em que estão confinados nessa caixa produtora de claustrofobias, essa criatura praticamente não se mexia; não abria a boca; quase não respirava. Meditava? Não. Quantos anos tinha? Eles a chamaram de senhora desde o início dessa história. Mas ela não se parece tão mais velha do que a criatura que cultua facas e seus possíveis cortes. Se bem que declarou estar nessa - com o perdão da palavra- maldita função, faz 25 anos.

 De onde viria? 


Primeiro, fez questão de dizer – e isso lhe parecia ser bastante relevante- que era de ‘um lugar cascudo’ - uma espécie de gíria para adjetivar lugares em que as pessoas são duras na queda; são pessoas duronas e que aguentam o tranco. Ah, sim... Elas suportam muitos abusos. O que fazem os governos, sobretudo com as crianças e idosos, nessas chamadas comunidades, é de uma covardia sem precedentes. Acho que deveríamos ter uma intervenção global, mundial, sei lá qual o nome que se dá a isso, mas seria importante. Afinal, brasileiro só respeita quando a trolha (Com o devido perdão da expressão chula) vem de fora; trolhada de gringo é mais valorizada por essas bandas. Vai ver que é por causa da antiguidade. Os gringos que chegam da Europa contam aquelas histórias todas. Suas desventuras milenares.

Descobriram esse continente perdido, bem aqui na ‘America del Sur’, e se consideram os tais. Ao menos para os cristãos a soberba é o pior dos pecados.

O curioso é que o tal elevador parece estar parado, mas ele ainda se movimenta. Deve ser parecido à ex-morta-viva da ascensorista que, de repente, cortou a nossa conversa com aquela fala mais afiada que a faca da madame.”

E não é que, novamente, ela, a cascuda-ascensorista avisa: 


AS:


- A porta vai se abrir. Atenção. Alguém vai ficar nesse andar?


Tin...Tin.. Onomatopéia característica do que conhecemos como 'o som do elevador'... Será que conseguimos fazer com que cada um dos que acompanham essa aventura ou história- como queiram- escutem o som que acaba de ser escrito e descrito aqui há pouco?




Narrador fictício ou NR:


'Dependerá de cada ouvinte; de cada escuta.. O quê? Reconhecer, identificar esse som ou ruído que o elevador emite quando está chegando ou está prestes para seguir seu outro rumo: partir.

 A tentativa de transformar esse ruído em letrinhas, palavras, nós a chamamos de onomatopeia. E não se consegue. Só nos resta imaginar ou evocar as memórias que cada um possa ter mantido. Se acaso lhe interessar’


A porta já está aberta. Do lado de lá, uma criança. Ela deve ter os seus 11 ou 12 anos de idade.


Cena 5. Um novo  passageiro . Capacidade esgotada.



JR:


- Sobe.- Diz  o rapaz que sempre se intromete.


C:  Essa será a sigla que identificará essa peste ‘de menor’ ou melhor: a tal criança que acaba de chegar.




- Eu sei que sim. Eu vi a setinha apontando para cima.- diverte-se a criança.


O Eu:


- Quanto a mim, confesso-lhes que já não sei mais se isso sobe ou desce. Espero que não nos leve para o poço fundo ou algo pior. - Ele desabafa.


S:


- Essa foi boa ( Faz cara de desprezo, antes de prosseguir com as ‘facadas’ orais) .

Seria engraçado, para não dizer o oposto, se ficássemos presos aqui, nesse caixote e cujo endereço é notório na nossa cidade.- Exclama a senhora que,  depois de devorar a fruta e guardar a sua arma branca, agora, ajeita a maquilagem.


NF: 


“De costas para os outros e diante do espelho que fica no fundo do tal elevador, primeiro ela passa um batom e depois segue o roteiro das mulheres e suas vaidades. Que, aliás, aprecio muitíssimo. 

Mulheres foram desenvolvidas para adornos, enfeites. Elas são muito mais belas do que qualquer homem jamais conseguiu ou conseguirá. Observando-a melhor; ela é uma bela mulher. O garoto, a criança que há pouco fez sua estreia, está um tanto- como poderíamos definir- hipnotizado.”


S:


- Menino mais chato. Parece que nunca viu uma mulher antes. Fica me olhando com esse olhos esfomeados. Credo..- Murmura pequenos desaforos, a bela e a fera. Contudo, há algo nela que se permitiu envaidecer. Tem o rosto ligeiramente corado.


O Eu:


- Já imaginastes se, por 'aventura', o pequeno sacar uma pequenina, mas destemida, faca do bolso? Teríamos um taradinho com vocação para o assassínio.- o Eu não resistiu e cutucou  de volta. Parece que entrou de vez no clima beligerante que começou a vigorar.


S:


- Muito me admira que o senhor, alguém tão bem postado e que parece ter uma certa cultura, resolva defender esse tipo de delinquência juvenil. Já sei! Já sei! Posso até adivinhar que vossa senhoria pertence ou é simpatizante desses partidos de esquerda que defendem bandidos, bandidinhos e bandidões alegando que são seres humanos vitimizados e injustiçados socialmente. Uns coitadinhos que dilapidaram as finanças do país. Atacaram todos os outros projetos políticos anteriores porque não eram capitaneados pela turma deles, e quando tiveram a oportunidade de exercer o poder tão obstinadamente desejado, por décadas, o quê fizeram? Hein? Respondam-me. Sei que não o farão porque lhes faltará argumentação mais consistente. 

Desatinos de gestão e as mesmas falcatruas de sempre. Essa terra brasileira parece que veio amaldiçoada. Deve ter vindo com esses gringos que mencionaram antes. 

Até onde sei, enviaram para cá o que tinham de pior. E isso não era somente um ‘hábito’ do império português mas de outras monarquias. A francesa também o fazia. O rei sol, Luís XIV, sempre que se via pressionado pelos desafetos, fossem eles membros da própria nobreza e que ele os tratava como seus vassalos ou o perigo protestante que crescia nas sombras e no silêncio, reforçados pelos impostos que os atiravam na pobreza absoluta. O que ele fazia, vez ou outra: 

Enviava uns desgarrados para alguma colônia. A Bélgica, logo ali perto, realizou uma das colonizações mais brutais em países africanos.

 

O EU:


- A senhora não me conhece e tece considerações imprudentes a meu respeito. Aliás, agradeço, primeiramente, por me chamar de senhor, porque não tenho esses problemas com envelhecimentos, etc. E também por achá-la deveras interessante, afinal refere-se a mim de maneira formal, mas de vez em quando também evoca a segunda pessoa do singular o que nos torna um pouquinho mais íntimos.- Essa digressão lhe tira um pouco do fôlego. Ele respira e se dá conta da cara de espanto dos outros 'companheiros de viagem'. Mas não se intimida e avança contundentemente:


-Não sou filiado ou partidário desse ou daquele partido político. Todavia, percebo que temos muitas diferenças acerca de assuntos delicados que envolvem políticas sociais, por exemplo. Além do que, o que fez o mancebo além de lhe olhar com ternura? Uma simples contemplação. Não fique tão melindrada porque um dia.... E sabe-se lá quando há de chegar esse dia, poderás sentir saudades.


S:


- Ternura? Desde quando um olhar insistente e malicioso é considerado um 'olhar terno'? E por um acaso lá sou eu um quadro ou uma escultura para que se fique contemplando? E com relação à intimidades, pode tirar vosso cavalinho da chuva. E não se esqueças:  ainda estou de porte da minha faquinha. E ela é bem afiada, senhor!


JR:


- A senhora está muito bem para vossa idade- disse baixinho o jovem rapaz enquanto arrumava os óculos e agarrava com firmeza os livros que carregava  embaixo de um dos braços. Vai nos dizer que não gostas de um olhar um pouco mais indiscreto, sedutor? 


S:


- Está me chamando de velha? Pois fique sabendo...


EU:


-Chega. A situação já está ficando um pouco mais desconfortável aqui dentro e essa discussão tola; sem maior importância.- Interviu na ladainha.


S:


- Desimportante para o senhor que deve - além do comunismo- ser daqueles que valorizam tão somente os aspectos intelectuais. Valoriza tão somente o conhecimento. Em compensação não considera nada da cabeça para baixo ( Faz um gesto com as mãos como se acariciasse o corpo sensualmente).  Aliás, o mundo de hoje está claramente assim: existem aqueles que são ótimos do pescoço para cima e uma merda do pescoço para baixo. E aqueles que são o oposto. Não poderíamos tentar um meio do caminho? Não veio lá do oriente a ideia do caminho do meio enquanto morada de uma certa sabedoria? Eu tenho insistido com essa prática.

Algumas filosofias orientais sempre defenderam essa posição enquanto uma postura mais sábia.- Ela argumenta e arruma os belos cabelos. 


NF:

E faz uma provocação porque parece fazer da calvície explícita DO EU uma espécie de espelho para o seu ritual de arrumação capilar insuportável. Detalhe:  Há um espelho no fundo do elevador. A parede ao fundo tem um espelho.


*'Ela não é burra'. Pensam em voz alta os 3 adultos que dividem o mesmo espaço no elevador.


C:


- Sabiá? A minha tia que mora numa casa que tem quintal grande, adora sabiá! - Exclama exultante o menino. Ele sorri na direção dela. É a sua primeira frase, depois do olhar de pequeno tarado em direção à bela e irritante senhorita.


S:


- Não, pequena criatura insuportável e ignorante..rs 

Eu disse sábia. Uma palavra que vem de sabedoria. Algo que você só terá - e se vier a ter, o que acho pouco provável, visto que a sua geração pouco se importa com os livros ou outros conhecimentos mais relevantes que não sejam o abominável 'facebook', 'instagram' e agora esse método moderno de  hipnose, os abomináveis  'games'. 

Sabedoria é algo que só se consegue quando se é alguém mais, digamos assim, madura.


C:


- Nossa.. . A Senhora fala tão bonito. E quando fala faz a gente acreditar que é tudo tão verdadeiro. Quero dizer: aquilo que a senhora fala. - O garoto continua nesse 'game' conhecido também como sedução. Mas só uma pergunta: Quando fica  maduro, o fruto cai de podre. Aprendi na escola. Com as pessoas também acontece assim?


Um pouco desconsertada com a resposta juvenil, e sobretudo com a indagação, ela morde os lábios vermelhos de batom e depois passa a mão no rosto do jovem que continua a lhe observar com brilho nos olhos:


- Meu querido. Você além de gracioso é muito esperto. Quantos anos têm?


* Os dois outros machos ainda presentes, mais uma vez, pensam alto e do mesmo modo: ' Não era, até pouco tempo, um pernicioso tarado infanto-juvenil? Agora, tão somente, é um ignorante sem futuro. Ela muda rápido de opinião, não?'

'Silêncio- parece uma voz que vem do poço do elevador. O menino está respondendo à pergunta'.


C:


- Tenho 10 anos completos. Faço onze daqui a sete meses. 

E a senhora, quantos anos têm?


*Bingo! O garoto é mais astuto do que imaginávamos. Se bem que pode ter se metido numa encrenca daquelas após essa indagação, digamos, nada discreta. - Confabulávamos através dos nossos olhares desviados .


RJ:


- Acho que ele se ferrou com essa pergunta. É muito curioso. Deve ser filho único, quero crer.- Disse-me baixinho, quase sussurrando, o jovem e aqueles seus livros e que fingem ter resposta para tudo.


S:


- AH, AH, ah! Ele não é adorável, rapazes? ( A senhorita olha na nossa direção e lança um olhar desafiador, indignado). 

Veja bem, coração:

Não se deve perguntar a idade de uma jovem senhora, ou melhor, de uma senhorita, no meu caso específico. Digamos que eu tenha uma ótima idade e sou um bocado mais experiente que você nos assuntos mundanos dessa vida repleta de surpresas. Algumas não são tão agradáveis, mas parece que o destino assim o quis.- A, agora, senhorita dirige-se ao curioso rapaz mantendo um sorriso falso e um olhar de fuzilaria. Daqueles que presenciamos nos combates entre tropas. A resposta, de bate pronto, não tarda:


C:


- Idade ótima é muito bom. Essa eu ainda não conhecia, mas vou perguntar na escola. Quem sabe por lá, eles me explicam melhor, não é mesmo? Prometo que não vou lhe amolar mais com esse tipo de pergunta. 


S:


- Acho uma excelente decisão, meu rapazinho. Pelo visto, a contar que você é um mocinho de 10 anos de idade ... Além do que, amolar também remete a certos instrumentos cortantes e eu ainda preservo o meu intacto.- Ela nos ameaça de novo;


C:


- Dez anos e meio para ser mais preciso!- interrompeu aflito.


S:


- É claro.. Dez e meio! Fundamental que não nos esqueçamos disso, nessa fase da vida, não é mesmo? Porque quando estiveres mais velho, verás que não haverá mais a necessidade de contabilizar esses meses ou dias a mais. Basta envelhecer e ver. Na verdade, sentir. Ah...Antes que me esqueça: Você pode perguntar também para a senhora sua mãe ou para o vosso pai. Eles saberão lhe explicar também. Não achas?


C:


- Não tenho mais os meus pais. Sou órfão. Eles morreram há poucos anos. Um antes do outro. Primeiro a mãe; depois, foi o pai que morreu. Fui criado um tempo pelas minhas tias.


EU:


- Então de um certo modo, você teve outras mães. Até mesmo um pai ou uma mãe. Isso independe da anatomia ou gênero. São funções sociais, culturais, simbólicas, secundárias. Elas são bacanas com você?


C:


- Sim.. Elas são boas. Uma melhor do que a outra. Pra ser sincero também são chatíssimas.

Na verdade, a outra imita essa uma. Como essa uma é mais velha do que essa outra e tem mais dinheiro, a outra meio que obedece, sei lá... Mas cuidam bem de mim. Vocês querem ver um troço engraçado? Eu já fui- há muito tempo atrás; talvez uns dois anos- apaixonado por uma atriz da televisão. Pedi às tias se elas podiam me levar ao lugar em que essa atriz trabalhava, pois eu sei que ela trabalha lá; naquele endereço e tal e coisa. 

Eu até li numa revista que a secretária de uma outra tia ( Eu tenho um monte de tias, viu?) me deu de aniversário. Porque eu falei para essa moça que eu queria me casar com essa estrela da TV. Sei que parece um pouco esquisito ( Na escola, os meninos dizem que eu sou meio maluquinho )...


S:


- Eu disse desde o início...- Balbuciou a senhorita enquanto checava mais uma vez se a maquilagem ainda lhe ajudava com o passar dos anos. E acrescentou:


S:


- Tenho as minhas intuições.


C:


-(....) Mas eu não ligo para essa brincadeira  que fazem comigo. Não acho que é 'Bulling' não. As meninas ficam enciumadas. Afinal, eu gosto da outra. Noutro dia, eu fiquei sabendo que uma cantora famosa passava de ônibus , e em frente à sede dessa mesma empresa de televisão, passou a  gritar que um dia ela iria trabalhar ali. E não é que conseguiu...Incrível, não! Parece magia...


EU:


- Você então quer trabalhar na televisão?- Perguntou, animadíssimo, o Eu, com o tom da conversa.


C:


- Não. O que eu queria mesmo era casar com a ‘Fulana de Tal’... Mas, ela, infelizmente, nunca apareceu na porta e ... Vou dizer para o senhor um segredo, uma fantasia: Não gostei de ver essa fulana de tal namorando vários outros homens na televisão. Tinha um tal de ‘Seu Moço’, depois tinha um tal de ‘Fulano de Tal’ e que era todo bonitão..

 Ela ficava beijando essa gente toda. Eu me mordia de ciúmes. Que nem o moço de uma canção ultrajante fala: ' Mas eu me mordo de ciúmes...'  Ele canta esse trecho da música antes de encerrar o desabafo:


C:


-Minha mulher tem que ser só minha. Esse papo de coisas abertas, relações não sei o quê, amizade com cores, que as pessoas ficam dizendo por aí, nem pensar.

Dividir a namorada, nem morto! Eu não divido nem o meu lanche na escola!


RJ:


- Como você é egoísta, menino! Garanto que é filho único e foi mimado. Se não pelos pais talvez tenha sido pelas tias. Muitas vezes, as tias são como as avós. Ajudam a estragar um pouco mais as crianças. Aliás, na minha época era pouco comum os filhos serem únicos . Quero dizer: eles são como qualquer um, únicos, mas tinham mais companhias: os tais irmãos.- Quer saber agora o rapaz dos livros e das perguntas-respostas. 


* Esse sujeito é chato. ' A ascensorista é que pensa em voz alta agora, enquanto encarava o JR.

Porque o pirralho tem até as suas razões... Ou melhor: os seus tesões..rs 

Na idade dele eu já me esfregava lá com a fotos da telenovela e coisa e tal. 

Imagina isso: apaixonado por uma atriz que poderia ser a sua mãe.. Vai ver que é isso. Perdeu a mãe e restou pendurado em algum troço. Não se enxerga' . 



C:


- Não, senhor. Eu tenho uma irmã. Dizem que vale por umas dez. Ela sim era filha única. E então quis o destino que surgisse essa maravilha ( Ele aponta para si mesmo como se fizesse uma saudação)  e... Ciúmes e... Esqueci a palavra. Começa com r. Re- alguma coisa... 


JR:


- Rejeição. É comum.- o rapaz de sempre responde. Na minha família também já tivemos dessas coisas. 


C:


- O senhor sempre tem respostas para tudo?  Deve ser bem inteligente. É detetive? Adoro brincar de detetive. Tem até um jogo em que você tem que adivinhar quem é o assassino; onde cometeu o crime e se foi com faca, revólver . Até aquele troço que você pode colocar umas velas e que também serve de enfeite.. Minha avó tinha na sala dela um daqueles.. 


- Candelabro! Todos gritaram ao mesmo tempo, antes que o senhor sabe quase tudo dissesse. A ascensorista também gritou e nos olhou - para mim e para a senhora-senhorita- de um jeito que misturava entusiasmo e alívio como se tivéssemos marcado o gol da final do campeonato. Afinal, aquele jovem que supõe saber quase tudo era re-al-men-te muito chato.


Silêncio.


Talvez por ter mencionado a palavra candelabro, nessas ressonâncias que a vida nos traz, a luz do elevador começa a oscilar: pisca e some; retorna e pisca novamente...


De repente:


- Parou. Parou! – o Eu fala assustado.


- O quê diabos parou?- A única dama presente indaga.


- O elevador, ora bolas... O quê mais poderia ter parado? Vocês adultos são complicados mesmo.- A criança reconhece.


O outro rapaz não se mexia. Parecia catatônico. Um certo tique nervoso e balbuciava algumas palavras inaudíveis.


Pânico? 


- E aí meu rapaz? Está se sentindo muito mal?- Perguntamos.


O silêncio persiste. E então a responsável pelo comando da caixa de metal avisa:


AS:


- Estamos com falta de energia no prédio. 


- Mas não tem um gerador para situações de emergência como essa ? Isso é um absurdo. Um prédio tão imponente e relativamente novo se comparado com os edifícios datados da época do império e que compõem a vizinhança.. - A senhorita, também assustada, pergunta à ascensorista que lhe esclarece em seguida.


AS:


- Já deveria ter entrado em funcionamento. O mecanismo é automático. 


- Ai... Já estou sentindo aquela falta de ar típica dos meus antecipados ataques de pânico- acrescenta a senhorita.


- Respire fundo...- alerta o jovem dos cadernos.  Preste atenção na sua respiração. Faça assim. ( Inicia uma mímica em que tenta ensinar como fazer a respiração corretamente).


 O garoto também entra no jogo da respiração. Acha tudo tão divertido. Está naquela fase da vida em que os perigos do mundo ainda estão muito distantes. 


NF:


“Apesar das perdas que diz ter tido- os pais por exemplo- a memória proposital, portanto, seletiva ( esquecimento)  relacionada a esse fato, somando-se que as pessoas em questão eram já idosas, colaboram para manter  a uma distância segura certos temores relativos à morte. Curioso: não existe representação nem ao menos experiência possível de morte. Já perceberam? Se falar com alguma alma penada, ela não está morta. Está viva. Nem alma penada morta há... Nem alma penada! Que desagradável..”


- O senhor não diz nada? – O Eu escuta essa voz.


- Não. Não é para respirar fundo? É o que tento fazer, mas sou um indisciplinado.. Responde para alguma coisa.. 


- Indisciplinado com o quê- Ele insiste.


- Gente curiosa...-balbuciou. 


EU:



- Não tenho lá muita paciência com essas técnicas. Reconheço a utilidade e pertinência, mas... sou mal educado mesmo. Aquela falta de educação pretensiosa dos alopatas irredutíveis.


JR:


- Arrogância. Poderia ser também?- aquele de sempre, opinando. Parece um adivinho. Lê o que não dissemos ainda...


Antes que o eu o mandasse para a puta que o pariu  , a respiração cuidadosa parece que funcionara:


EU:


- Também. Você até pode ter razão. Mas não é só isso...


NF:

“Silêncio. A luz de emergência trazia um pouco de alento naquele desconforto claustrofóbico. Mas por quanto tempo? Se o gerador não conseguia fazer com que o elevador voltasse a funcionar, quem garantiria que essa pequenina luz de emergência fosse perdurar por muito mais tempo. E aí perguntamos? Mas qual tempo? Há quanto tempo estamos encarcerados aqui? Parecia a eternidade em alguns minutos.

 Não olhamos para o relógio quando ele quebrou e a bateria dos celulares já descarregaram.. Aliás, quem ali teria um relógio? Desses que tinham ponteiros... Só o menino.”


AS:


-Que horas são, garoto?- Quis saber a comandante da caixa que sobe-desce.


C:


- Ah! Esse aqui é de brincadeira. Depois que uns pivetes tentaram arrancar o meu de verdade, fiquei com medo.- Esclareceu.


S:


- E para que diabos serve um relógio de mentira?- A moça, irritada, perguntou-lhe.


C:


- E para que diabos serve esse telefone que a senhora usa e que não pode mostrar mais nada porque morreu por falta de bateria?- Atrevido, respondeu. O meu pelo menos é igual ao da turma do Pica-Pau Amarelo. Aquele relógio da boneca Emília: o pirlimpimpin . Quer ver como eu posso tirar a gente daqui? Imita o gesto consagrado pela boneca Emília, de Monteiro Lobato.


Senhorita esbravejando : 


-  Menino idiota! Não vê que estamos enrascados aqui e ficas a fazer e dizer tolices! Essas ilusões de não sei o quê, não sei quem. E agora me aparece com esse tipo de relógio que não é relógio. 


JR:


- Ele é uma criança. E o Monteiro Lobato não dizia tolices. Muito pelo contrário. O mundo seria muito mais divertido se a Emília estivesse no comando das coisas.


Senhorita retrucando:


- Não posso crer no que escuto. Se já não bastasse a criança..Agora, esse cidadão a reforçar as maluquices da boneca de pano da ficção!  Temos que providenciar um modo de sairmos dessa joça. A senhora não tem um desses telefones de emergência para que saibam que a gente precisa de socorro? E você, garoto? Não deveria estar na escola? 


Ascensorista :


- Tem um telefone bem aqui. O problema que ele também não está funcionando. Acho que o problema é mais sério.


Eu pergunta: 


- Mais sério? Como assim?


Ascensorista:


- Deve ser algo nas redondezas. Algo maior. Nesses anos que trabalho aqui, nunca vivi essa situação. O MELHOR, porém, é ficarmos calmos. Sei que é difícil, mas se começamos a brigar ou algo do gênero, só vai piorar.


Eu:


- Tem razão. Por certo, que as pessoas que estão presas nos outros elevadores podem ter feito algum contato e solicitado socorro. É isso! Claro. Não precisamos mais temer o pior. Logo, logo, perceberão que um certo elevador, especificamente, não sobe e nem sai de cima e terão que tomar uma providência. Aliás, o que vocês vieram fazer por aqui? E esse menino? Não deveria estar na escola?


Ascensorista:


- Senhor. Como foi dito ou pensado em voz alta, agora pouco, o tempo é meio parecido com paixão, casamento... É ilusão , não é?


Eu :


- Sim, claro. E por que perguntas? Gostas do tema em questão?


Ascensorista:


- Não, não. Quem sou eu para me meter com essas complicações...Sou uma pessoa simples. Não gosto de muito lero lero. Nesse prédio, inclusive, tem uma turma que estuda filosofia, psicanálise e ficam falando umas coisas que sei não... Gente estranha. Até simpáticos, alguns poucos é bem verdade ( talvez uns 2 no meio de uns 40 ), mas vou te contar... Que eles não me levem a mau. risos

O problema é que talvez os senhores, a senhora, e esse garoto abelhudo não tenham se  dado conta que estamos sozinhos nesse prédio. Somos os últimos 'passageiros' aqui. Esse é o último elevador em funcionamento, hoje. Não se deram conta dessa nossa, digamos, exclusividade? Aliás: Por que que você não está na escola? Hein?


A senhorita desmaia.


Jovem rapaz :


- Oh, Deus meu! E eu nem acredito nele..É que nessas horas essas referências sempre aparecem. Faça alguma coisa! A moça pode ter morrido....


Garoto abelhudo :


-  Caraca! Nunca vi um morto de verdade. Os meus pais morreram, mas como eu não vi, eu acredito pouco. Mas 'péra lá' ! O senhor não disse que ninguém morre.. Que não tem não sei o quê que não - Como é mesmo a palavra?- repre... alguma coisa..


EU :


- Representação; algo que signifique; que exemplifique; que demonstre essa fato; que se ponha no lugar; nessa situação...'Mas 'péra lá' digo eu! Lá tenho que prestar contas para esse fedelho. Temos é que socorrer essa pobre criatura desmaiada aqui.


Garoto:


- Fedelho é a tal puta que o pariu! 


Eu encolerizado:


- Seu moleque ! Vou lhe dar uma lição! Pensa que está falando com quem? 


Garoto:


- Vai não... Eu faço o meu pirlimpimpin da Emília e lhe dou um chute no saco.


Antes que O Eu desse umas boas palmadas no moleque atrevido, a ascensorista e o jovem rapaz interviram, evitando assim mais um problema. E problema não era algo que lhes faltava.


De repente, a mulher começa a se mexer, ainda caída no chão e emite uns ruídos ininteligíveis. Alívio geral. Ela está viva. Imediatamente, o fedelho atrevido dispara:


C:


- Pôxa. Ela... Ela não morreu! Não será dessa vez que eu vou ver um defunto tão de perto. Quer saber de uma coisa: a senhora estragou o resto do meu dia e isso não tem  a menor graça. Bem que me diziam: 'adultos não são lá muito engraçados'. A Não ser o pai da Emília: o Lobato.


Antes que os 3 outros adultos iniciassem uma sessão de palmadas coletivas no menino inconveniente, a moça interviu:



S:


- Deixem para lá. É só uma criança sem noção; Aliás, a maioria. O pior é quando encontramos os adultos funcionando do mesmo modo.

Também pudera... Deve estar assustada com essa confusão toda. - Ela falava - quase um sussurro- enquanto se ajeitava, sentando devagarinho e encostando-se no canto da parede do elevador. E prosseguiu:


- Rapaz: Você pode me passar essa minha bolsa que está bem ali ( Aponta para aquela famosa bolsa e suas iniciais platinadas)? Não posso , não posso..


Jovem rapaz :


- Não podes o quê, senhorita?- Pergunta-lhe enquanto apanha a famigerada bolsa.


Senhorita:


- Não posso ficar sem o meu estojo de maquilagem. Se tiver que morrer, que o seja de forma digna e apresentável. 

Ela inicia uma metamorfose começando um ritual de pentear os cabelos, arrumar a maquilagem e de repente:


Retira a peruca. Aquela vasta cabeleira e que era tão bem cuidada, tão bem tratada, era um belo artifício. Aquela senhorita era tão careca quanto aquilo que o EU se tornara há 20 e poucos anos. 



S:


-Sei que parece impactante. Não parece, não. É impactante. Mas é meu; ao menos, o cabelo. Quero dizer: a peruca. Paguei. E paguei caro, sabiam?


A criança cabisbaixa; um outro olhar solidário, mas perplexo; o rapaz incrédulo; e a ascensorista com as mãos na boca como se fizesse uma prece, retratavam o efeito daquele 'Strip tease' capilar. MAS não era um ‘strip tease’ capilar. Era uma entrega bem maior.


NF:


‘Em tempos de 'strip tease' nacional ( Basta ver o que aconteceu no país nos últimos anos com relação à política e seus escândalos)  e apesar disso tudo, qualquer exposição mais extrema ainda provoca sustos e perplexidade.’



O Eu quebra o silêncio:


- Bem... Espero que o tratamento que a senhorita está fazendo esteja trazendo bons resultados.. É sempre tão difícil esses tratamentos e eles também levam certo tempo à medida que....


- Já encerrei o tratamento, caríssimo. Não foi difícil. Foi dificílimo! Sessões e mais sessões de quimioterapia. Não sei se alguém aqui já passou por isso –espero-, sinceramente, que não ( Ela olha com olhar maquiavelicamente repleto de ironia e com os braços abertos, na direção dos colegas oprimidos pelo elevador)  ou tiveram alguém nessa situação.



O Eu interrompe antes que os outros presentes ameacem manifestar-se:


- Já passei. Tive essa experiência muito próxima.

Faz alguns anos que acompanhei a minha única mãe nas diversas sessões que ela realizou por aproximadamente 6 meses. Logo, sei bem do que estás falando. Era um martírio. 

Não sabíamos o que era pior: se aquela doença que a matava aos poucos ou os efeitos colaterais das sessões de 'quimio'. Mas tivemos sorte: conseguimos preparar um esquema belicoso, de guerra mesmo, com medicamentos ultra-modernos que evitavam aqueles malditos enjoos; acrescidos de uns aparelhos de nebulização que conseguimos comprar a tempo para se alguma reação alérgica ocorresse. Ela era muito alérgica.


A criança :


- E deu certo? Isso tudo aí?


-Sim e não. Enquanto durou o tratamento, a estratégia funcionou bem.

 Porém, o único senão é que ela morreu depois de seis meses. O caso era extremamente grave e demoraram muito a diagnosticar o mal que a acometia. Aliás, é um mal que acomete a semiologia médica e suas abordagens contemporâneas. Nem tanto o termômetro de mercúrio, o estetoscópio e nem tanto as ressonâncias magnéticas de última geração. Existem muitas queixas sobre o fato de que a velha e eficaz anamnese, o examinar o paciente ou seja, tocá-lo, observá-lo com atenção devida, ficou para trás. Consultas tão rápidas e sem a menor investigação. Quem pensam que são? Mágicos com suas magias encantadas e ilusórias? Que me perdoe o pequeno aqui nesse recinto, mas a Emília nessa hora talvez não consiga operar devidamente.. E o que ocorre em seguida? Aposta-se inteiramente nos resultados dos exames de imagem, por exemplo.. Eles são ótimos porque retratam muito bem o que supostamente acontece aqui por dentro, mas não revela tudo. É impossível. E aí é que o equilíbrio entre os dois modos de se investigar, melhor dizendo, clinicar podem fazer a diferença. 

Já presenciei médicos com vasta experiência que afirmam que certos exames solicitados são desnecessários para certas afecções. Isso inclusive levou muitas empresas de saúde à falência. Que não desconsideremos, obviamente em se tratando de Brasil, da epidêmica doença e também  metastática, invasora e disseminada, diagnosticada de corrupção.

Existiam aqueles médicos, na verdade foram eles que criaram a medicina, que lembravam que uma boa observada no cocô e no xixi das pessoas e você teria um quadro razoável do estado de saúde de alguém. 


Criança:

- Nossa... Argh! Que nojo.. Depois, nós é que somos porcos, sem educação...


O Eu:


-Talvez esse tenha sido o critério adotado por um médico que a atendeu quando os sintomas apareceram.. Para falar a verdade, era médico dela fazia bastante tempo.

Ele se preocupou então em realizar e solicitar exames desnecessários, inúteis quando a situação exigia outras providências. 

Chegaram a pedir exame de fezes, urina, ao invés de uma tomografia ou ressonância magnética da região abdominal; era justamente nessa região que ela se queixava das dores. Nem aos menos aqueles exames de sangue específicos, modernos, que acusam marcadores de tumores, sei lá o quê... E a especialidade desse senhor era outra..

Foram meses soturnos. Você tendo que manter certa serenidade a fim de não piorar o que já era ruim. Ela sabia, mas fingia que não. Nós sabíamos e não fingíamos que sim.

Lembro-me do dia em que fui buscá-la no hospital em que estava internada e onde o diagnóstico terrível foi finalmente dado.

Estava linda, serena. Feliz por sair daquele castigo hospitalar onde se fizera refém por uma semana.

Na véspera, soubemos do diagnóstico e do prognóstico: se tudo corresse bem, poderia ter um ano, ano e meio de vida. Mentalize uma bomba que explode bem ali, na sua frente. A bomba não foi suficiente? Achas que foi um estalinho, um resfriadinho? Pois agora vem uma outra pancada, seguida de um nocaute. Ponto, acabou. Já era.

O doutor dos tumores: elegante, discreto; todo paramentado de branco no seu consultório; imprimindo uns laudos, umas imagens. Em seguida, apresentou-nos a conta: aquela expectativa funesta.

Um outro colega desse médico que, nos atendeu e atenderia minha condenada mãe pelos próximos 5 meses, os últimos da vida dela, logo depois da impressão do lôbrego, do funéreo prognóstico, apareceu por lá e praticamente confirmou a sentença. Ele falou mais ou menos assim:

 ‘ Vida normal. Se ela quiser ir ao cinema, teatro, festa... ( Festa? Com aquele mal estar todo? Só nos restava recordar o dito popular que sentencia que uma boa pimenta, aquela planta ardida da família ‘Solanaceae’, na bunda alheia é refresco);  ‘Não há problema. Vida normal. É muito clara essa obscuridade toda.

Uma semana depois de morta, recebo um telefonema da clínica onde as sessões quimioterápicas eram feitas – umas cinco horas mais ou menos de duração de cada sessão, uma vez por semana. Acompanhei-a em todas elas- e uma voz automatizada pela excessiva repetição anunciava: 

‘O Dr. Fulano de tal (Aquele que imprimia os laudos e que monitorou o caso, a bem esclarecer, muito bem) gostaria de saber porque a senhora Beltrana de tal não apareceu para realizar a quimioterapia semanal?’

 Preciso esclarecer que o Dr.Fulano, aquele dos laudos, da competência, do papo franco, direto, tinha viajado de férias. Mas tinha sido prudente e cuidadoso ao deixar um substituto, um colega outro, responsável por acompanhar a situação da sua paciente. Provavelmente, não contava com a piora dela. Afinal, contavam-se 5 meses de tratamento e o quadro era estável; satisfatório. Lembram do prazo que ele vaticinara? Um ano; ano e meio. Pois é: a medicina não é uma ciência exata.

 Até mesmo as ciências exatas não se reportam mais às suas equações universais enquanto referência fundamental, garantia fidedigna da experiência descrita. Os fatos não existem por causa das equações; e eles mudam, alternam, somem, enganam...Aconteceu, portanto. 

As células cancerosas se descontrolaram meses ou até um ano antes de uma otimista perspectiva de sobrevida. Células cancerosas enlouquecidas não iludem. 

‘ A paciente que fazia ‘quimio’ semanalmente, há meses, mas tinha faltado a última sessão por causa de uma reação alérgica anterior severa (O que comprovaria a gravidade da situação e que, portanto, não era uma reação alérgica , mas uma reação do organismo ante àquele procedimento invasivo e tão tóxico, porém, fundamental ) não pôde comparecer à sessão dessa semana ( E qual seria essa semana mesmo?) porque nunca se viu, e o que não se vê de bizarro no Brasil, dificilmente, será visto em outros lugares ( Vocês devem concordar, não?), um cadáver fazer sessões de quimioterapia.

Tenho que declarar que o silêncio, quebrado por uma voz titubeante, quase gaga, vindo de uma daquelas jovens e que trabalhavam na recepção da clínica, nono andar, de uma das mais conhecidas ruas do bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, demoveu um pouco a raiva inicial. 

Foram meses, horas, angústia, desesperança e uma conta de quase 100 mil reais – isso nos desacertos de hoje e levando-se em conta o valor insignificante da moeda real frente ao dólar e outras moedas fortes, deve estar em torno dos 300 mil, pelo fato de que os medicamentos utilizados naquele coquetel químico serem importados, ao menos eram à época-, que não se poderia, no mínimo, restar indignado com a negligência desse gesto.

A negligência significava de fato ausência de comunicação entre os homens de branco. Alguém não avisou um outro alguém que não avisou os ‘alguns’ ou ‘algumas’ que por sua vez.. Uma ciranda não poética. Drummond de Andrade não agiria assim; forma alguma. 

A moça se desculpou muito; ela quase chorou.O médico tentou me contactar, mas a princípio reservei-me o direito de preservar certa dose química de civilidade entre nós. Após três semanas, uma festa carnavalesca no caminho, conversamos amistosamente e ele confirmou o que suspeitava: desorganização; informações trocadas. 

Espero, passados muitos anos, que essa conta não tenha caído no colo das atendentes. Elas obedecem as ordens e não gerenciavam nada por ali. 

É curioso que nunca escrevi nada ou falei tanto sobre essa situação. Iniciei, e já faz tanto tempo, um texto que se chamava de ‘nono andar’. Nunca fui adiante. Passei a achar cafona, piegas, cada palavra; cada esboço de parágrafo. Semelhante às cartas de amor que Fernando Pessoa já sentenciara à condição de ridículas.

Ufa. Falei um bocado.... Posso lhes perguntar algo? 

Estamos há quanto tempo, isolados aqui?


NF:


‘Dessa vez, o silêncio tinha um tom melancólico. Qual seria o tom disso?

Refletia um mal estar que parece ser comum a todos. Uma nota em comum que nos diz respeito. Ao menos, às pessoas. Seria perplexidade, desânimo radical?’



Criança quase gaguejando:


-O... o.. senhor... fa..fa..falou ' minha..minha.. única mãe':

 O senhor tem mais de uma?- Tentou assim quebrar um pouco do clima sinistro, fúnebre, que aquele relato causara.


O Eu:


- Não. Você tem razão. Mãe é uma só. E todas elas são adotadas. Aliás, você também adotou alguém para chamar de mãe, de pai... Caso contrário, estamos muito encrencados.


Criança:


- Legal! É por isso então que as minhas tias me chamavam de filho. O que prova que elas me adotaram! 


Os 4 adultos, ao mesmo tempo, não se contiveram :


‘- E você? ‘- perguntaram ao pequeno, em uníssono. 


NF:


A criança fez do silêncio a sua resposta. Uma expressão de interrogação surge no seu rosto; uma ruga pode até ter surgido; e ele envelhece um pouco. Parecia até que se tornaria um adolescente daqui a pouco tempo. Só que o tempo nessa caixa de metal que sobe e desce parece ter singularidades que só ela, a maldita caixa, ela mesma, poderia esclarecer.


A senhorita acometida pelo  câncer:


- Lamento sinceramente pela sua mãe. 

Ela, ao menos, lutou contra a doença e deu azar por causa da demora com o diagnóstico. E essas doenças exigem certa pressa . Parece até praga provocada por vírus, bactérias . 

Esses inimigos invisíveis, microscópicos e que se multiplicam com uma velocidade incalculável. Assassinos milimétricos; ‘Snipers’ invisíveis.

O problema é que no nosso país essa história de diagnóstico equivocado ou atrasado está virando rotina. Veja só o caso da  minha mãe que ao saber que estava enferma do mesmo mal - naquela época não se mencionava a palavra câncer-, e que poderia ficar careca por causa do tratamento, assim como o senhor ( aponta na direção da calvície do Eu), preferiu morrer. 


Os 3 adultos e a criança, ao mesmo tempo:


- Como assim? Morreu antes do tratamento começar? Acidente? Coração? Susto?


S:

-Não. Ela se matou. Era muito vaidosa. Teve dificuldades para suportar o fato inarredável que todos envelheceremos. E isso quando se aproximou dos 50 anos. Imaginem isso? Não quis nem ao menos lutar contra a doença.

Ela acreditava demais nesse calendário gregoriano estúpido ao qual religiosamente, quase todos nós, nos submetemos. De certo modo, somos reféns dessa situação.

No caso dela, especificamente, quando certos efeitos no organismo se mostraram impiedosos, ela não teve o menor 'savoir faire '.


Criança espantada:


-'Saravá o quê?


O jovem rapaz se intromete:


-Que saravá , menino! Saravá é uma forma de saudação. É uma tradição brasileira de origem africana. O que ela quis dizer é que a mãe não teve, digamos em linguagem coloquial.. Eh...Eh... 


- Jogo de cintura, porra!- Falou irritada a ascensorista.


JR:

- Isso mesmo. Obrigado, senhora. A senhora sempre tão delicada.


A ascensorista murmura:


-Mauricinho dos infernos. Fica embromando, embromando e não vai aos 'finalmente' como se diz. Imagino como isso daí deve transar... Para chegar ao tal do ponto G , que esses 'entendidos' ( faz cara de deboche) dizem, terá que percorrer o alfabeto todo. Começaria então pelo A, B, C .. Deus me livre. 

Por isso que eu não troco o meu Juvenal por nenhum desses letrados.

Potente! Dois ponto zero e ainda por cima com tração nas quatro!

Esse fulano almofadinha deve ser da mesma turma de esnobes que falei lá no início dessa loucura: aqueles psis; aqueles filósofos; aqueles cientistas sociais. Insuportáveis! E eles se denominam Poli..Poli..Trogloditas! É isso.


- Não, senhora ascensorista.

 Poliglotas.- Murmurou a criança que envelhece aos poucos e  parecia escutar tudo.


NF:


A ascensorista com expressão de perplexidade prossegue resmungando. Só que dessa vez, ela tem o olhar fixo na direção do garoto e que está próximo a ela:


- Menino dos infernos. Parece mesmo que tem ouvido de tuberculoso. Que perigo! E isso serve para nós todos. Aqui, trancafiados nesse espaço tão pequeno. Se ele começar a tossir, por exemplo...

Pareces mais com um anão. Tem certeza que é uma criança de verdade? E pensando bem: Por que não estás na escola?


Criança:


- O que é isso? Ouvido de tuberculoso? São aqueles ouvidos grandes? Orelha de abano? Não seria isso? Tenho um amigo de colégio que tem esse tipo de orelha. E ele tem umas crises de tosse, sabem?

 Isso também pode estar ligado à tal da tuberculose?


Ascensorista olhando melancolicamente para o rapaz que responde sobre quase tudo:


- Você não tem nada a dizer para o menino?


Rapaz Jovem:


- Ok. Quando se diz ouvido de tuberculoso é porque diziam que pessoas acometidas por esse mal passavam a escutar melhor; escutar o que não escutavam antes. O que era mentira. É tão somente um ditado popular. 

Porque justamente a tuberculose- e que é uma doença grave, podendo até matar- não melhora a audição. Justo o contrário. E a tosse do tuberculoso também tem as suas singularidades. 

A questão é que a tosse e o espirro nesses nossos novos tempos podem servir de alerta para outras doenças infecciosas e que podem ser muito graves.


Ascensorista :


- Bravo, bravíssimo. Até que funciona bem nesse sentido. Esqueças , por favor, o que lhe disse sobre Ponto G, trepadas, etc. Muito bem. Sinto-me até orgulhosa


Jovem rapaz, espantado:


- Não entendi. O que foi mesmo que a senhora me disse? Ponto G e...


AS:

- Nada. Esquece. Devo ter imaginado que pensava algo importante e que diria respeito aos senhores ( Faz um sinal com as mãos na direção dos outros ali presentes). Uma bobagem. Nada tão importante.


Criança:


- Eu escutei outras coisas. Deve ter sido culpa da minha orelha tuberculosa.- Diz isso com um sorriso de canto de boca; por certo, irônico.


A ascensorista com uma raiva incontida leva um dos dedos sobre os lábios antes de disparar:


- Veja se cala a matraca, menino esquisito! Insuportável! Se pudesse, abriria essa tampa metálica ( Ela aponta para o alto do elevador); 

Essa aqui mesmo, logo aqui em cima; bem ali no meio desse maldito elevador! 

E sabe o que eu faria depois? Adivinhe? Ah! Não é tão habilidoso na arte das adivinhações. Pergunte então a sua boneca mágica, imaginária, essa tal de Emília, e quem sabe ela não lhe tira dessa encrenca.

Eu, euzinha mesmo, aqui ( A comandante da caixa metálica bate no peito com vontade no próprio peito), do fundo das minhas entranhas - e olha que eu as tenho em excesso porque tenho muita gordura para queimar- atirava o ‘senhor’ buraco acima, para dentro, para o lado, e sem nenhum remorso.


O menino criança, espantado:


- Não sabia que me desejava coisas tão ruins assim. Mas.. Do mesmo modo que disse para os outros adultos aqui presentes: 

Se quer confusão, terá. E a Emília não me abandonaria numa hora dessas. Estou lhe avisando, hein? ( O abusado está fazendo pose de quem partirá novamente para o confronto).


Senhorita:


- Ôpa.. Quer dizer que existe uma saída? Essa tal tampa ou compartimento - que você mencionou- pode nos retirar desse inferno. Pode ser então a nossa salvação. 

Viva! Viva! Até mesmo conclamaria a todos – sei que será difícil exigir mais esse esforço diante de toda essa situação de confinamento ao qual estamos submetidos, ou seja: 

Peço-lhes uma salva de ‘Vivas’ para esse pirralho indigesto! 


 Ela aplaude sozinha, mas com entusiasmo, a própria sugestão que fizera. Em seguida, acrescenta:


-Até porque sabemos que ele não é o único menino ou menina, pré-adolescente, insuportável que já tivemos que aturar, não é mesmo?


NF:


A criança está indignada. Contudo, cabe lembrar que até esse momento, o menino só poupara a tal senhorita de idade incerta dos seus desaforos e malcriações. Como diriam os gringos: o armistício ‘is over’.


Criança:


- Cuidado, madame de cabelos falsos. Esse nome pelo qual   a senhora me xingou, hoje em dia, pode trazer problemas. Sérios problemas, madame. Eu vi na televisão, viu? Eu vi. Não foi a minha imaginação. Adultos, eu vi. 


S:


- Não lhe xinguei, pequeno abominável. Eu apenas me referi a você como um garoto, um menino. Não se trata de ofensa alguma. Não vamos dramatizar tudo agora. 

É um saco tudo isso! De repente, não se pode mais dizer certas coisas pois tudo virou motivo para ofensas, processos, discórdias, guerras... Vejam bem: o 'senhor' ( devolvendo-lhe o sorriso irônico) me chamou de madame de cabelos falsos. Com qual dos termos eu deveria me aborrecer, achar que sua fala é pejorativa ou chamar um advogado: madame ou cabelos falsos?

Fiquem sabendo que paguei por eles. E paguei bem caro. Escolhi, experimentei e aqui estão. Belos e revoltos; feito as ondas do oceano.  Se me chamam de careca, faço como? Processo o difamador? Convoco uma coletiva de imprensa? 

Alerto aquele que me diz impropérios que deveria ter se dirigido a mim como ‘síndrome de esclerose capilar’ ou algo semelhante?

Muitos advogados devem estar se divertindo porque não morrerão de tédio ou por falta de trabalho. Alguns desses ofícios são bastante rentáveis.

 Todo mundo carregando o seu homem da lei à tiracolo. Do mesmo modo como se carrega qualquer celular e que, aliás, já se transformou num computador. Desses que fazem quase tudo. Só não provocam orgasmos... ainda.


Ela ri e sua risada é irritante.


-E não pensem vocês todos ( Inicia esse libelo olhando para o espelho, atrás do elevador como se estivesse num palco e falando para uma plateia atenta e com os braços estendidos; voz pronunciada), que tudo isso que lhes falei foi obtido através de um pensamento mágico infantil qualquer, e sim através de muita pesquisa, estudo, fracassos e sucessos. A história da humanidade não é lá das melhores. Porém, houve alguns bons momentos de bela criação. E são esses momentos que nos tornam realmente humanos. Diríamos até que saímos da selva por conta dessas invencionices, criações...


Abaixa os braços e inclina a cabeça como quem conclama por uma chuva de aplausos.


A ascensorista comovida aplaude e lhe diz:


-Bravo, madame. Bravo! Só gostaria que me informasse quando essas geringonças vão poder nos dar o tal do orgasmo? Sabe como é..

 Eu adoro o meu Juvenal, aquele 4x 4, 2.0, turbo, mas como ensinam por aí: 

Prevenir é bem melhor do que remediar. E eu tenho muito cuidado quando trato dessas coisas que envolvem a nossa intimidade. A senhora deve entender o que eu quero dizer.


O Eu interrompe abruptamente:


 -Ah.. Agora é turbo também? Daqui a pouco vai ser elétrico, híbrido..


NF:

‘O jovem rapaz, e que estava tão calado, vez ou outra, abria um dos livros que carregava , passando o dedo ao léu numa página qualquer ou quem sabe ‘a página em que se morre’ como ensinara o poeta romântico  francês , Lamartine, em ‘ O livro da existência’, resolve se meter na contenda:’ 


- Pois é. Incrível a rapidez da transformação do modelo mencionado. De modelo aspirado e movido à combustão para Alta Tecnologia, alta performance. Ah! E antes que eu me esqueça: 

Nós não temos como contemplar as ondas do oceano. Normalmente, o que acompanhamos é a arrebentação dessas ondas. Justamente quando as ondas não completam os seus ciclos e chegam às praias. Surfista não pega onda. Ele pega arrebentação. Fiquem sabendo.


 Os dois adultos machos caem às gargalhadas.


Ascensorista:


-Invejosos, ressentidos. É o que os senhores são de verdade. É só tocarmos no calcanhar de Aquiles dos machos: o chamado ponto G dos brochas para se rebelarem afinal. Ficarem indignados; cheios de- como se diz por aí- mimimis, viadices mesmo. Êpa... Não posso mencionar o que mencionei por último senão recaio naquilo que a ‘senhorita-madama’ comentou há pouco. Aquela lista de problemas do que se pode falar ou não nesses tempos de cinismo em alta e guerras sem fim.


O Eu irritado:


- A senhora, por favor, modere o seu linguajar. Não lhe dei e não lhe darei jamais intimidades para falar assim da minha pessoa. Além do mais, existe uma criança - bastante estranha, é bem verdade- e essa madame-senhorita-careca e que segundo ela mesma está doente. Cronicamente doente.

 Aqui mesmo, conosco; confinados nessa praga. 

Deveria se atentar mais ao seu trabalho e que nesse ponto já poderia ter nos indicado alguma chance de saída para nós todos. Incluindo, é claro, a vossa própria pessoa.


Criança esquisita:


- Estranha é a senhora sua mãe! E se o senhor adotou essa senhora ou não, foi adotado ou não, não é problema meu. O problema é todinho seu. Seu careca desagradável! 


O Eu:


-Criança atrevida. Agora, ultrapassou todos os limites da convivência civilizada. Prepare-se para levar umas palmadas de verdade.


‘Tchum, tchum.. Pluft, plaft, zum’... Sonoplastia possível. Fazer o quê se os recursos são limitados? 



A cena seguinte:


A Senhorita abaixada no chão do elevador e acariciando o rosto do Eu:


S:


- O senhor está bem?

 O senhor não pode culpá-lo por não tê-lo prevenido de que iria acertá-lo nas partes mais abaixo da cintura. Eu sou testemunha. Dificilmente não haveria testemunha fidedigna numa situação como essa, não achas?

O pirralho maldito avisou antes. 'Eu vou chutar as suas partes baixas... Vou acertar o seu saco...' - Ela diz isso baixinho no ouvido do pobre Eu que tenta se recuperar da pancada. Para logo em seguida, cair na risada.


‘Todos riem; inclusive a criança estranha.’


A criança aparentemente arrependida:


- O senhor me desculpe. Eu avisei que poderia reagir a mais um xingamento. Só pelo fato de ser criança, de menor, não quer dizer que eu não tenha direitos, razão, um pouco de juízo. Que eu não tenha direito de querer ou não querer certas coisas.

 Um dia, eu me lembro de ter perguntado aos meus pais por que que eu tinha que estudar matemática e outras matérias. Eles me disseram que era importante para o meu futuro estudar essas matérias. Eu quis saber mais sobre isso. Eu sou curioso. Assim como a Emília do Pica-Pau Amarelo. Ela sempre está fazendo perguntas para Dona Benta e para os outros adultos. Alguns não são tão adultos assim: Pedrinho, Narizinho.. Se bem que a Narizinho tem um modo de falar igual ao de vocês. Deve ser por causa do modo como ela fala. Ela fala através das ideias, da boca do Monteiro Lobato. Não é isso? O Monteiro é que é o pai dessa turma toda. 

Quem me dera poder ter tido um pai assim como o escritor famoso em questão.

Sabem o que os meus pais respondiam quando eu fazia essas perguntas para eles? Você estuda isso tudo aí porque a gente quer...

Por isso é que eu quero crescer logo; aprender a magia da Emília; poder escolher com mais liberdade o que quero fazer, estudar. 

Imaginem que eles me perguntavam, faz muito tempo, desde que eu era bem pequeno, o que eu seria quando crescesse! Como saber? São tantas as opções. Não faço a menor ideia.. E isso criou problemas para mim. Fico com a fama de esquisito, complicado. E mesmo depois de mortos, a maldição prossegue através dos outros parentes. 

Quantas pessoas talentosas a gente não matou por causa dessa 'educação' opressiva, bitolada...

Por exemplo: eu não gostava daquela primeira escola em que fui obrigado a estudar. Achava uma cadeia metida à besta. 

Tinha um monte de riquinhos por lá, mas a minha mãe não se mancava. Não era escola para uma família de classe média. Além do mais, não era melhor do que as outras onde outras crianças que, conheci ao longo do tempo, estudaram. Muito pelo contrário: existiam outras instituições bem melhores. 

A única vantagem é que ela ficava bem próxima de casa. Logo ali ( Ele faz um gesto como que apontando para a escola , na direção do tal espelho do elevador); na rua de trás e que tem o mesmo nome  - aprendi isso outro dia-  do primeiro presidente civil do Brasil. Grande coisa. Garanto que a maioria das pessoas nem sabem disso. Independente dessa importância e de uma certa ‘nobreza’ pela sua localização, eu não gostava mesmo assim.

 Um dia, lembro disso agora e consigo ver a cena, cheguei a colocar o termômetro no forno de casa, um fogão antigo, presente de alguém mais antigo ainda, para fingir que estava com uma febre bem alta e torcer para que a traquinagem funcionasse. Para quê? Para o óbvio, ou seja: para que não fosse mandado para o inferno. Quero dizer: para aquela escola. Falei, falei, falei.. E o quê recebi em troca: ' A gente sabe o que é melhor para você'. ( Imita a voz de um homem mais velho. Supostamente, a voz do pai). 

E o meu pai nem estava muito por dentro do que acontecia. Ele tinha ficado muito doente numa época - eu era bem pequeno e quase cresci órfão de pai- e depois passou uns meses nos Estados Unidos fazendo um curso ( Ou teria sido antes?) e trabalhava muito. Tinha que compensar o tempo em que ficou de licença médica. Logo, o Dr. advogado não tinha tempo suficiente para acompanhar essa situação dessa pobre criança dependente. 


NF:


“Fazendo cara de deboche, o menino – que não desiste de parar de falar- emenda mais uma peraltice como se fosse um outro pontapé em partes baixas:

 Ele faz gestos que imitam movimentos marciais e uns saltos típicos de uma criança.

‘Diante daquele silêncio, uma voz masculina, parecia ser a do jovem rapaz, quebra o silêncio e pergunta algo:”


JR:


- E você consegue se lembrar do que realmente lhe incomodava nesse colégio?


Criança:


-Quase tudo. Desde a obrigação em ter que cantar o Hino Nacional -mesmo se o calor no pátio do colégio estivesse por volta de uns 40 graus-, até a hora da saída em que ficávamos numa sala escura, sentados nos bancos enfileirados uns atrás dos outros e onde não podíamos sequer conversar. 



Como assim? – A senhorita quis saber. Ela estava realmente curiosa.


O menino:


- Ficávamos esperando que alguém dentre vocês, ou seja, os tais dos adultos, aparecessem para nos buscar. Era mais ou menos assim:

‘ Ele começa a desenhar no ar o que imaginava ser aquilo que pretendia descrever. ’


- Cheguem um pouco para trás, por favor. – Pede aos colegas de confinamento e fala com um tom de voz como se fizesse um pronunciamento formal:


-Formava-se uma fila enorme do lado de fora; o que provocava um engarrafamento considerável ao longo das ruas próximas do bairro. 

Uma voz, geralmente de mulher, anunciava então o nome do aluno ou daquela aluna que deveria deixar aquela ‘cela’, naquele momento, e fugir dali; para, infelizmente, na minha opinião, voltar no dia seguinte. 

As pessoas que vinham me apanhar sempre se atrasavam. E eu morava a um quarteirão de distância! Era quase sempre um dos últimos a sair da 'cadeia'. Um Inferno juvenil.

Já que isso tudo aconteceu na época da ditadura militar no Brasil, segundo as conversas dos adultos que escuto, eu anuncio que fui um preso político; de fato e de direito. 

Será que eu tenho alguma chance em receber algum benefício pelos malefícios que essa tal de ditadura causou na minha infância? 

A tal escola, mistura de prisão com colégio, morreu, faz algum tempo. Como fiquei feliz! Creio que não conseguiria nem mesmo expressar essa alegria.

Recordo até mesmo do dia em que demoliram aquela casa mal-assombrada e que tinha virado- segundo os vizinhos- abrigo para mendigos e trombadinhas que circulavam pelo bairro.... Não se dizia 'morador de rua' nesses tempos. Porém, eles eram exatamente isso. À noite, tornavam-se os moradores da casa mal-assombrada. 

Dizem também que o fantasma de uma das diretoras aparecia por lá sob a forma de uma flor. Falam em violetas... Violeta é essa tal de planta que come bicho, inseto, gente, não é mesmo? Carnívora? Não é isso? Planta carnívora! E não pensem que isso tudo é invencionice da Emília. Não é. Emília vem de escola muito mais sábia, mais lúcida. Eu, tão somente, tento segui-la nas dicas que a boneca mais sábia que jamais existiu nos dá. E ela nos dá muitas dicas importantes. Na verdade, é o criador dela quem o faz. Ele é mágico, portanto. O Lobato.



-Por quê? A sua infância acabou?- A senhorita quis saber. 


Criança:


- Interessante essa sua pergunta.


Senhorita:


- É mesmo? Você acha isso realmente?


Criança:


- Ironias à parte no tom da sua voz, madame, sinceramente, acho que ninguém se livra totalmente da sua infância. Eu vejo pela minha família chamada de adulta...hahaha ( riso irônico). Vejo a turma fazendo cada bobagem; brigando por outras bobagens também; pagando ‘cada mico’, como se diz.

Vai se desenhando para mim que ninguém sai fora dessa infância para valer. Quero dizer: inteiramente, sabe? 

E quando digo isso, estou me incluindo nas diabruras; nas maluquices. Só que posso fazê-las... ainda. Não sou uma criatura de menor?


O Eu:


- Nesse sentido, criatura de menor, temos algo em comum porque eu também nunca gostei muito das minhas escolas. Não tenho lá muitas recordações boas nem mesmo da minha Universidade. 

Aliás, parte das instituições de ensino que frequentei acabaram, faliram. E por falar em infância, ninguém tem infância feliz em última instância. Isso só existe nas fábulas, contos de fadas que, como o nome indica- são produtoras de mais ilusões. Um teatro não do absurdo, tal como aquele criado pelo romeno Ionesco, mas da enganação mesmo. Mentirinha fajuta. E que, ao que tudo indica, perpetua-se.


Jovem Rapaz e seus livros:


- Ora, ora, ora.... Tenhamos um pouco mais de paciência. Essas mentirinhas até que são necessárias para manter a caterva menos agitada. Feito religião. Elas são muito importantes também. Já imaginou se por acaso a turma se dá conta do buraco fundo ou buraco negro - como queiram- que a gente está enfiado? As ilusões têm o seu valor. Elas garantem alguma expectativa de futuro.  Alguém aqui -ou eu teria sonhado ?- disse ou mencionou sobre o fato de que transcendência não há; não haverá. Podem desistir amigos: ( Olhando para o mesmo espelho para onde os outros 'colegas'  de aperto de elevador já tinham se reportado) ;

 Parece que para além disso daqui-  desse buraco fundo, tenha ele a cor que tiver- não existe nada além. 


NF:

“Um ar reflexivo, taciturno, previsível mediante os fatos, toma conta do recinto. Poderia se escutar a respiração um pouco mais profunda de algumas pessoas presentes. 

O ventilador que mantém a vida das pessoas - ele é acionado pelo dispositivo de emergência - é bem silencioso também. Vez ou outra, faz um ruído mais pronunciado. É reconfortante para todos eles que aquele ventinho ainda se pronuncie.

 Como diria uma canção famosa : ‘ ...Promessa de vida no meu coração’.


Esse espelho é curioso porque não somente inverte a imagem de quem ali se porta à sua frente, mas ele passou a suscitar emoções mais intensas nessas mesmas pessoas. E até mesmo algumas transformações físicas podem ser vistas. 

Essa criança, por exemplo, parece que cresceu. Se não tanto em estatura, na postura; no tom da voz;na riqueza vocabular; nas expressões faciais. E ainda por cima, a pergunta que acompanha: ' Por que não estás na escola? 


O tal silêncio - parecido com aquele que caracteriza a sonoplastia de alguns consultórios médicos ou de psicanálise- foi quebrado. Ainda bem.

Nesse espaço apertado e sufocado, porém, pelo passar do tempo- pode-se tornar eternidade- essa ausência de algum barulho, a não ser a respiração, o estalar de dedos, o abrir-fechar da bolsa daquela senhorita, o folhear das páginas dos livros que o pernóstico jovem acaricia com as mãos, incomoda um pouco mais. E em outras ocasiões, nem ao menos esse som escutava-se...”


S :


 - Sempre sinto um silêncio que vai além do silêncio usual.


Todas as expressões de espanto se unem nesse momento.


Criança cada vez mais crescida:


-  Como assim? Isso se assemelha com bruxaria. E não é da Emília não. Ela é bruxinha do bem!


S:


- Peço que me perdoem pois expliquei mal.

É que tenho a impressão, muitas vezes de madrugada (Onde o silêncio é maior , bem verdade) , que está um pouco mais ruidoso...esse silêncio. Já li a respeito. Sinestesia? Tem gente que mediante um ruído, esse silêncio por exemplo, ou um cheiro (Aroma para os entendidos em bebidas e perfumes - faz um gesto como se estivesse sentindo esses aromas todos) passa a ver imagens, cores...


O Eu:

- A senhora, ou melhor, senhorita, deve se lembrar do escritor francês Marcel Proust. Ele produziu uma obra extraordinária e cujo gatilho inspirador era o sabor de um quitute francês: chamavam-se 'madeleines' essas tais guloseimas.

 Eram uns biscoitos assados em forma de conchas. São muito bons. Os portugueses também tinham o hábito. Mas não sabemos se Pessoa, Camões e outros ilustres escritores lusitanos também sofriam (Sofriam no melhor dos sentidos) dessas influências. 


S:

- Sim, claro. Confesso que não é dos meus favoritos. Na verdade, confesso-lhe que foi uma árdua missão atravessar aqueles sete volumes (Acho que são sete) e redescobrir o tempo (O último volume da obra de Marcel Proust, ' Em busca do Tempo Perdido', “O Tempo Redescoberto'’). 

Fiz cursos; li uns livros; assisti até a uma leitura de uma peça de teatro que, infelizmente, não foi nunca posta em cena por causa de todas as dificuldades e custos para se montar algo do gênero no Brasil ignorante. Era muito inteligente, o texto, e enfocava os últimos momentos da vida dele. Era bem problemático do ponto de vista pessoal, O Sr. Proust. Tinha uma saúde precária. Não podia ter contato com uma série de coisas: plantas, animais de estimação e, obviamente, pessoas.

Houve muitas menções a um famoso interrogatório que a governanta dele, cujo nome era Celeste, tinha que submeter os que se atreviam a lhe tentar fazer uma visita ou uma cortesia. A dileta e eficaz empregada sapecava um monte de perguntas para o que se atrevesse invadir sua privacidade. Naquele tempo, existia isso, sabe garoto? ( Olha para o infante e com as mãos juntas como se fizesse uma prece):

Algo cada vez mais raro, não é mesmo? Um caminho sem volta. 

Feito essa nossa experiência aqui. Confinados, íntimos sem nunca termos nos visto e não podemos passar o filme ao contrário e dizer que não houve. Talvez a boneca de pano do nosso pequerrucho pudesse resolver. 

Ora, Ora..Quanta tolice estou a dizer. Peço desculpas a todos os presentes. Não sou chegada a essas crendices, mas é que o tempo demasiado que passamos nessa espécie de prisão parece nos afetar nesse nível..



O Eu:


- Mas o quê especificamente você não gostava no trabalho dele? 


S:


- Muito looooongo... Certas narrativas se estendem tanto. Porém, foi isso que eu aprendi que era genial no estilo de Proust. Aqueles hiatos enormes nos quais por pelo menos 20 páginas ou algo próximo, ele descrevia um laço de fita de uma personagem importante da sua história: a madame Verdurin.

 A questão é que nessa descrição está também boa parte da trama , da história. 

Vejamos bem: ele era um dândi e frequentador dos salões para certas futilidades que existiam na Paris no fim do século 20, início do século 21. 

E o pai era um médico importante que ajudou a erradicar da Europa o vibrião colérico. 

O texto é muito afetado para o meu gosto.. Mas tem um brilho único, sem dúvida.


Criança:


- Afetado significa o quê? - O pequeno indaga com um trejeito irônico. (O olhar parece trazer segundas intenções.)


S:

- Exagerado nos trejeitos, empolado, temperamental.. Quando você crescer talvez entenda melhor. Aliás, nem sei porque perco meu tempo contigo. Você deveria estar na escola..


Criança:


- Senhorita sem nome. Sei que sou uma pessoa de menor, inferior em certos quesitos, mas não sou estúpido assim como vossa majestade supõe.

 Já passou pela sua cabecinha ( Faz gestos seguidos apontando para a própria cabeça ) que estamos a sei lá quanto tempo nessa geringonça?  Como poderia eu estar na escola?  


A senhorita tenta argumentar, mas ele a interrompe:


Criança:


- E...Mais uma coisinha: Esse moço famoso que escrevia essas...Como é mesmo ...


Os outros juntos:


- Afetações!


Criança:


 - Isso. Obrigado. O cara era bicha?


Jovem Rapaz:

- Não estou dizendo que esse garoto é uma peste. Acho até que, sinceramente, trata-se de um anão travestido de criança. Desses que a gente encontra no circo. Se bem que já existem anões que fazem filmes pornográficos. E eles até ... Esqueçam.. Um breve devaneio:  somente isso a dizer.


C:

- Peste é uma ova! Peste é coisa muito séria. O senhor não tem acompanhado as notícias do mundo não? 


Jovem Rapaz:


 - Ai, ai, ai.... Haja resignação para suportar esse aprisionamento em má companhia e ainda por cima o que parece que teremos pela frente. Não!

 Desculpe-me madame sem nome . Permitam-me entretanto uma pequena digressão antes de responder ao neófito.


Ascensorista: 


-Xiiiiii. Vai começar o discurso. Como é mesmo o nome, amiga?


Senhorita : 


- Afetado, minha cara.


Jovem Rapaz:


 -Seja lá o que vocês pensem sobre o meu estilo, pouco importa para mim, mas continuarei:

 Proust era homossexual e isso nada o diminui ou aumenta e pronto. O que ele 'escrevia' (Faz gestos imitando aspas), na cama, era problema único dele. Sua privacidade; suas escolhas; seus outros tesões. E por certo não eram os mais relevantes. O tesão maior foi sua produção intelectual, literária, artística. Aliás, é o que ocorre e ocorreu com todos os grandes homens. Quando digo homens é porque pertencemos à espécie humana. Isso inclui as mulheres, obviamente. 

Antes que me atirem todas as pedras. Mesmo que elas não estejam disponíveis nesse momento específico de confinamento.


Pausa silenciosa e respeitosa.


Jovem rapaz prossegue: 


- E perdoe-me também, madame sem nome, por tê-la atropelado na resposta. Só mais uma curiosidade: 

Existiu aqui na nossa cidade, no Rio de Janeiro mesmo, uma sorveteria famosa e que se chamava " Sorvete sem Nome'. Os donos eram pessoas muito importantes.


Criança: 


-Que legal! E como faziam para pedir um sorvete? Os sabores tinham nome, não tinham?


Jovem Rapaz já ficando irritado:

- Não. Sua cabeça de manga! Ora, ora, ora...Você acha que chegaria por lá e escolheria um sabor fazendo mímica? Você que tem essa cabeça meio arredondada -você disse algo sobre a origem nordestina da sua família, não disse?- , apareceria na sorveteria e bastava apontar para cima - no seu caso, para sua cabecinha ( Faz um gesto salientando as dimensões arredondadas da cabeça do menino) - ,  escolhendo assim uma fruta com dimensões e formato semelhantes. Não seria genial? No mínimo, original.


Criança ameaçando lhe dar um chute tal como fizera com o Eu, há pouco tempo:


- Quer levar uma bicuda feito seu amigo aqui? Cabeça redonda é a puta que lhe pariu...


Antes que a situação degringolasse de vez, o Eu interveio segurando o garoto pelos braços:


- Calma, pessoal. Calma. Estamos todos bastante exauridos com essa situação tão desconfortável em que nos encontramos. Parece realmente que a eternidade nos atingiu nesse espaço de tempo que não conseguimos estipular. Até porque o nosso pequenino representante dos sonhos mais loucos da boneca Emília ( Faz uns gestos como se estivesse imitando alguém destrambelhado) possui um relógio que marca uma hora toda especial: uma hora que não condiz com o que vivemos agora; com o que se vive lá fora. E corroborando com o nosso jovem rapaz - que nos traz tantos ensinamentos - (Pode-se perceber uma vingança também irônica na voz. E ele menciona o jovem rapaz estando de costas para ele) -,  alguém, também muito importante ( Só que por outras razões) teria dito que ' uma vida baseada num pressuposto teórico é bem diferente de uma outra baseada em opiniões, achismos... Diria até: fofocas. Hojendía , as tão propagadas 'fake news'. Que convenhamos, não são nada novas. Sempre existiram as deletérias calúnias; fofocas cibernéticas e nada mais. 

Tornaram-se perigosíssimas porque circulam e se dissipam tão rapidamente quanto as pestes que o pequeno companheiro, aqui diante da minha pessoa, relembrou e que se espalham. Ao menos, é o que diziam lá fora. Antes de ficarmos detidos nessa cadeia metálica. E eu que um dia ousara dizer que prisão domiciliar poderia ser algo agradável...


Diante do espanto geral, explica-se:


- Se compararmos com as prisões regulares e horrorosas que temos no sistema penitenciário brasileiro, por pior que seja o conjugado, é bem menos desagradável do que aquelas celas. Reporto-me aos canalhas cujo colarinho é aquele branquinho, branquinho. Aqueles mesmos que roubam o país inteiro. Eles não ficam aprisionados ou em quarentena de muquifo. Sabemos disso:

 Os velhacos vivem numas casas ou aptos maravilhosos. Apesar de tudo isso, eu os considero estúpidos e delirantes. Eles pensam que não fazem parte do jogo? Acham que são o quê? Que a pereba, o vírus ou um mosquito não os alcançam? Estão imunes? 

Existem uns seres na natureza ou fruto dela (Ah! A natureza tão celebrada e sacralizada por tantos e tantos dos nossos) que possuem a capacidade da invisibilidade, porque é dessa forma que são compostos, e assim se movimentam e atacam... E podem matar. (Olhar fixo na direção dos outros 'companheiros' de jornada aprisionados).


Nesse momento a luz que ainda resta, assim como o ventilador, oscila. A luz pisca. Ameaça se despedir; morrer também.



Ascensorista : 


- Bonito..


O Eu:


 - Obrigado. A senhora assim me constrange –. Contudo, já não adiantava mais: estava mais corado do que um pimentão avermelhado. Ao menos o pimentão avermelhado não é indigesto feito o seu parente esverdeado.


Ascensorista: 


- Não, senhor. Peço que me perdoe se o confundi. Não é bem da sua não formosura ou beleza que estou comentando. Até porque não estás com essa bola toda; que é como se diz por aí. É sobre o seu discurso. O senhor há de concordar que sua fala mais parecia uma dessas frases que são ditas nos palanques dos políticos; durante períodos eleitorais.

 Em ano eleitoral, só para lhes dar um exemplo (abre os braços, dirigindo-se àquela multidão de 5 pessoas) lá onde eu moro com o meu Juvenal, surgem umas frases, umas palavras dessas.... Bem parecidinho. Dependendo da quantidade de cerveja que a gente 'traça' - O senhor bem deve saber-, podemos até chorar. Comove a gente... Eu já me peguei choramingando feito criança  grande. E o meu Juvenal então? Emotiiiiiivo! Chora fácil, aquele mamute. Ah.. E tem mais: pobre se diverte também chorando, não sabiam? Mas o empurrãozinho da birita faz toda a diferença. Porque pensando bem .... Não dá para acreditar nem naquela falação, nem naquela choradeira.


O Eu, ligeiramente, alterado:


- Para vossa sapiência, eu não sou, nunca fui e não serei candidato a cargos públicos.

Gosto de política. Vivo a política desde pequeno porque tive pessoas na família que ocuparam posições, até de destaque, e em todos os poderes. A senhora ascensorista e os demais aqui, lamentavelmente, ainda presentes, devem se lembrar que temos o poder executivo, legislativo e o judiciário. 

A política é arte da distribuição e manipulação dos poderes. Inclusive, talvez sobretudo, guerrear seja a mais explícita demonstração política em que se pode destacar certos aprendizados. Todos bem conhecidos e vivenciados: ' É conversando que a gente NÃO se entende; Pimenta no rabo daquele vizinho (Aquele. Sim, aquele mais querido) é suco vegano para o lado de cá; Manda quem pode e obedece quem tem algum juízo; e 'last but not least': Quem tem rabo ou se preferirem, cu, tem lá os seus temores. E tremores.  


NF:


O Eu estava afetado. Primeiro, fizera um gesto com as mãos como se ajeitasse uma gravata imaginária na sua camisa. Depois, ao encerrar o seu libelo, tinha as mãos ligeiramente trêmulas.


Ascensorista:


 -Uau...Estou até arrepiada. Veja os pelos dos meus braços (levanta-se do banquinho onde está sentada e exibe os braços e os arrepios).

Desculpe esse meu trejeito, mas tenho os meus direitos.... Como é mesmo aquele nome que descreve essas coisas? - Vira-se para a senhorita e pergunta então.


Senhorita, ainda sem nome:


 - Afetação, cara senhora.


Ascensorista:


- Isso. Desculpe pela minha afetação, mas já sou rodada e por aqui, aqui mesmo nesse lugar, em que estamos presos, semelhante a uma quarentena, já passaram alguns que juravam pela saúde da mãe que jamais sairiam candidatos e coisa e tal.... Nada contra essas ‘boas’ intenções. Só não sei como está passando a tal senhora mãe deles, depois de tanto juramento. Pode ser pecado grave?


O Eu:


- Ah... Os pecadores: tão frequentes; tão eloquentes. A senhora é uma pessoa religiosa? 


Ascensorista:


 - Tenho minhas crenças. Sabe como é, senhor? Quem vem de onde eu venho tem sempre um orixá ou um santo amigo. 


O Eu:


- Mas isso não cria um problema diplomático entre eles? Quero dizer: um orixá não fica enciumado com o outro?


Ascensorista.


- Que nada. Vejo que o senhor (Ela o observa de cima abaixo) não entende nada sobre esse assunto.


O Eu:


 - Realmente não sou especialista nesses temas transcendentais, sobrenaturais, mas é que um conhecido, faz muito tempo, tinha um automóvel e teve alguns percalços. Quero dizer: acidentes leves e algumas tentativas de roubo do veículo.

Um dia, não me recordo agora qual o motivo exato pelo qual ele resolveu investigar as entranhas do automóvel, esse amigo abriu o porta-luvas do tal carro - que ele supunha amaldiçoado, mediante tantos incidentes, e num período curto de tempo- e, pasmem, encontrou uma dúzia de santinhos. Sim...Essas gravuras, não daquelas de álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol, por exemplo, mas desses de igreja; e que estavam escondidos dentro desse compartimento do veículo. Ali... (Ele aponta para o fundo do elevador). Ali... E ele me garantiu que eram tantos e mais tantos; eram os mais diversos:

 Havia Santo Ignácio. Havia São Lucas; São Francisco também havia. E havia uma figura de santa: Santa... Santa.. Não me recordo o nome. Ah! Não se pode esquecer desse detalhe porque, segundo o relato cuidadoso desse amigo meu, numa posição bem destacada, estava a imagem daquele santo das causas impossíveis: o tal do Santo Expedito. 

Como podem notar, o rapaz estava numa posição diplomática, portanto, política, bem complicada. Sob forte pressão, sem dúvida alguma.


 Criança:


 - Santa Sem nome. Interessante....  Existe? Feito sorvete?


O Eu:


- Não. Como poderia não ter nome se é gente. Ao menos, dizem que era. Antes de virar santa. Mas enfim.... Bem, prosseguindo um pouco mais se me permitem:

Por causa dessa descoberta, ele, o amigo, quero lembrar-lhes, mesmo perplexo, confessou-me que 'Havia uma verdadeira guerra santa dentro do carro'. E concluiu:

' Descobri que tinha sido obra de umas tias minhas e que sempre foram muito religiosas. E o que aconteceu depois?

Ao serem flagradas tentando colocar mais um saco repleto com figuras santificadas, confessaram que assim tinham procedido numa tentativa, suposta, de proteção divina. Que as imagens pudessem lhe proteger e também, com muita fé na crença delas, proteger o Argemiro'. 


Não podemos negar que não tiveram boas intenções.


Argemiro? Que diabo é esse- todos juntos perguntam.


O EU:


 - Era o nome do carro dele. Ele tinha essa mania: batizar os automóveis. 

Nesse caso foi interessante vocês, mesmo sem saber, evocarem a figura do diabo porque o personagem de uma telenovela na época, e que era associado às coisas demoníacas ou algo assim, tinha esse nome peculiar, ou seja: Argemiro.

Todos os carros que teve- e acredito que até hoje- foram e estão devidamente nomeados. 


( As pessoas olham com cara de espanto. Depois, caem às gargalhadas.) 


- Ora, ora- o Eu prossegue. Dessa vez, o espanto é dele:


-Cada um com as suas benditas maluquices. Ou vocês acham que não possuem algumas? 

Pensam que são feitos do mesmo material daqueles bandidos dos quais falamos há pouco? Aqueles que achavam que não seriam pegos, presos? Essa elite plutocrática brasileira, por exemplo?


Senhorita:


 - Esse tema pode ser bastante delicado, espinhoso. Sobretudo nessa posição de confinamento em que nos encontramos. Não temos intimidade, quero crer, para tais confissões. 

Essa que o senhor relatou, por exemplo, essa transa de vosso amigo com esse tão conhecido brinquedinho de adultos, principalmente para os meninos, é quase infantil. Uma deliciosa bobagem. O cara fica batizando os carros. Onde já se viu! risos

Ela começa a fazer uns trejeitos como se estivesse apresentando alguém para um outro alguém. Nesse caso específico, uma coisa para outra:

'Esse aqui é o Zezinho'. 'Muito prazer, Zezinho'- responde a Mariazinha.' Que vem a ser a SUV da vizinha. Quáquáquáquáquá!


 Narrador Fictício:


‘Apenas como fonte para informação segura os  ditos SUV- não confundi-los com OVNIS- são esses modelos de automóveis que se tornaram uma febre no mundo. Tornaram-se os carros da família. 

Definição curiosa porque as famílias, nas classes médias e na chamada alta burguesia, diminuíram de tamanho. Estão menos numerosas. 

A taxa de natalidade em muitos países, sobretudo nos mais desenvolvidos, diminuiu tanto (Europa principalmente) que já existem medidas governamentais incentivando o nascimento de mais crianças por lá. 

Ocorre também que essas formações gravíticas passaram a não interessar muito às novas gerações. Grande parte desses jovens se deslocam com muito mais rapidez, menos risco e custo, através de outras tecnologias. Muito mais ágeis, invasivas e bisbilhoteiras. 

Nas metrópoles, por exemplo, o trânsito praticamente impede que você se desloque com tanta rapidez ou agilidade. 

O camarada, talvez não caiba nesse caso por se tratar uma invenção burguesa, mas manteremos o termo ‘subversivo’, possui um automóvel caro, potente e não desfruta. 

No Brasil, a maior parte das estradas estão em condições muito ruins.

E se o transporte público, nos países mais pobres, fosse de boa qualidade, a situação estaria ainda mais difícil para os fabricantes de veículos. 

Porque até a condição de 'status' - que já esteve acoplada a certos modelos- caiu bastante. Pelo  menos nos grandes centros urbanos onde a violência nessas cidades, aliadas às desigualdades sociais imensas, colaboraram para isso. A não ser que o cidadão/cidadã 'desfile' com aquele carro que tem valor de apto de luxo. 

Já perceberam que ninguém coloca aquelas películas escuras nos vidros de uma Ferrari ou de um Porsche? Por quê? 

Ainda resta esperança para o mais exibido dos exibidos. ’


 E ela prossegue:


-'Nossa..Que  SUV que você é, Mariazinha'. Melhor dizendo: 'Que SUV que você tem, Mariazinha'.. (A senhorita desce do salto e faz um gesto apontando para o próprio traseiro. – Ela se permite uma gargalhada, após tanto tempo.


NF:

Todos riem por um instante. Pode haver alguma alegria. Incluindo nisso, os confinados. Depois, aquele Silêncio novamente presente.

 Cabeças baixas. Pode-se escutar, de novo, o ruído maldito do bendito ventilador. Aquele mesmo que lhes garante a sobrevivência.

O menino quebra o silêncio. Ele não se contém:


- Eu estou criança. Já escutei da boca muito inteligente, sábia (conforme a senhorita me ensinou antes), que é assim. Eu estou. 

Nesse meu caso tão específico fica mais evidente até porque posso apresentar provas inquestionáveis num futuro não muito distante.  Posso até começar a crescer. Acho inclusive que já inicie esse processo. Fico espantado, assustado. Tento não olhar para esse espelho abelhudo que não deixa de nos refletir em momento algum. E a gente aqui aparece virado para o outro lado; o que é esquerda vira direita e o que é direita troca de lado. Fica parecido com os movimentos da política brasileira. O amigo do amigo do meu amigo é que diz isso. E ele lança sempre um desafio: 

‘Se fosse no reino do futebol, dava zebra. Trocar de time é coisa de vira casaca’. 

Não sei o quê é isso, mas coisa boa parece que não é. 

Não sei, portanto, o que eu poderia trazer de tão íntimo? Já falei muito; já briguei; já falei palavra feia. Se minhas tias vissem isso, estaria metido numa encrenca. E nem ao menos recorri ao celular. Por falar no celular... Ninguém aqui recorreu ao aparelhinho. Será  que...


Jovem Rapaz: 


- Não funciona. Tentei acessá-lo, mas está fora do ar. Tanto para conexões com a Internet quanto para o uso do aparelho enquanto sua função inicial e que esquecemos dela: fazer chamadas telefônicas analógicas e sem imagem. Falar, esperar o outro responder... Essas práticas, hoje, jurássicas.


O menino olha para o jovem rapaz intrigado.


Jovem rapaz:


- Já sei. Jurássico, não é? Lembre-se daqueles bichos grandes, pré-históricos. Existe até um filme produzido lá nos EUA, 'O Parque dos Dinossauros'. 


Menino :


- Sim, claro. Eu assisti. Gosto muito. E eu descobri também que os pássaros ( Eu gosto muito de pássaros) foram, nesse período, dinossauros também- Responde num rompante de alegria. 


Ascensorista:


- Foi o tal amigo do amigo do seu amigo que lhe disse tudo isso?


Menino:


- Sim. Ele é pessoa sábia. Está vendo, madame. Aprendi a palavra certa. Não a esquecerei. Deve ser o efeito da passagem do tempo; do qual não nos damos conta. Ainda mais aqui, aprisionados. 

Pode ser também devido ao fato de que foi afetado por lembranças de pequeno e da visão dos pássaros. Antigamente, dinossauros alados: feito esse, agora revelado, sabiá. ( Ele dá uma piscadinha para a senhorita).



Senhorita: 


- Vejo que aprendeu. Isso é bom. Envelhecer, por um lado, é uma merda, mas também é muito bom.


Uma voz sem dono aparente ecoa:


-' Tom Jobim'!


Senhorita:


- Não entendi. -reagiu surpresa.


A voz se apresenta com rosto, jeito, estilo próprio:


Era o jovem sabe tudo a esclarecer:


- Essa definição ou frase- seja lá o que isso signifique-  foi dada pelo Tom Jobim. Alguém perguntou ao maestro soberano qual seria, na opinião dele, a diferença entre viver no Rio ou em Nova Iorque? 

Um dos pais da bossa nova, carioca de nascimento e alma, tinha residência nas duas cidades. Duas das cidades mais conhecidas do mundo. ' Viver em Nova Iorque é muito bom, mas é uma merda. E viver no Rio é uma merda, mas também é muito bom'. Perfeito, não. Nada como um poeta para esclarecer e confundir corretamente.


A criança, ainda excitada:


- Genial! Esse tal de Tom é genial! Ele é amigo do Jerry? Aquele rato sem vergonha do desenho animado? 

Engraçado como esses caras que escrevem histórias infantis, lá nos 'states’, adoram os ratos! Por lá, os ratos sacaneiam os gatos, os cachorros... Vejam o caso do Pluto: Quem é o patrão do Pluto? Um rato e uma rata. Sempre achei essa história muito esquisita.

Pois sim:

Eu queria conhecer esse moço. Você tem o WhatsApp dele? Não. O e-mail? Vai ver que é uma pessoa um pouco antiga: ainda usa e-mail, facebook...


Jovem Rapaz:


- Adoro esse menino! Ele vai desde um raciocínio que nem combina com a pouca idade que tem até a estupidez mais retumbante. 

Menino: 


- O que é um retumbante? Ou seria: quem é esse tal de retumbante? 


Jovem Rapaz:


- Deixa pra lá, rapazinho.. - suspira desolado.


Ascensorista:


- Esse retumbante pode estar lá no céu, ao lado do saudoso Tom Jobim; ao lado do Cartola; ao lado do Pixinguinha. Ele, esse retumbante, aparece até no nosso hino.- Exclama com certo tom de saudosismo.


Menino:


- Viu, seu esnobe? Ele existiu. Quem? Percebo que a sua expressão desconfia da minha esperteza. Ora quem mais poderia ser? O retumbante; é óbvio.

Eu não sabia que o Tom - e que não é o inimigo do Jerry- tinha morrido. Deve ter sido muito importante. Porque o jeito como a senhora ascensorista falou, ele faz falta, não?


Ascensorista:


- Sim. Assim como os outros que eu mencionei também foram. 

Você ainda é criança. Está crescendo rápido, mas fique sabendo, mocinho, que existe e já existiu um vasto mundo do qual você nem faz ideia. Um mundo tão imenso que nem na imaginação da sua querida boneca Emília caberia.


Menino, eufórico, novamente:


- Que bom! Isso me alegra tanto. A senhora nem pode imaginar como fico contente quando alguém compartilha ( Essa palavra aprendi há pouco tempo na internet) da mesma preferência minha. A Emília é um espetáculo. Não sei se é esse tal de mundo todo que eu não conheci, e estou para conhecer, não caberia nas birutices da boneca de pano do pai dela.


Ascensorista num rompante:


- Pai? Que pai, garoto?


Menino:


- O Lobato, é claro! Quem poderia ser? E que muito provavelmente, segundo essas tais crenças, deve estar nesse céu com essa turma que a senhora falou. Mas...Desculpem se incomodo, mas é que tenho uma dúvida:


Esse céu tem espaço para tanta gente? E eles ficam como por lá? Quero dizer: eles usam roupas? Tem que trabalhar, estudar? Por exemplo: 

Se eu morrer aqui nesse elevador, confinado, isolado e sem poder brincar com os meus amigos, eu vou para esse céu sozinho? Vou criança e assim permanecerei? A Emília não morreu e nem morrerá. Haverá algum lugar para minha melhor amiga, por lá, caso a situação mude e a minha querida boneca de pano falecer? Fico preocupado, mas ... Já sei, já sei: o Lobato está nesse céu! Não tenho mais com o quê me preocupar! É isso. Ele dará um jeito de salvá-la de qualquer situação perigosa. Sempre deu... A não ser que tenham aqueles inimigos por perto. Essa é uma outra coisa que não consigo entender: 

Como ficam os inimigos, se por um azar do destino ou efeito de uma varinha mágica, eles esbarrarem uns nos outros numa nuvem passageira ou numa estrela sem rumo? Pode haver confusão? Uma nova guerra?

Não haverá paz, jamais?


NF:


Ao invés do silêncio, um burburinho se precipita.

Logo em seguida, o elevador se mexe. Ele dá um tranco. Alguém pede silêncio. O elevador se mexe novamente. 


- Será que agora vai? Agita-se a senhorita.


NF:


Sem que aquela situação esperada- e não somente por ela- mas por todos- acontecesse, ela passa a ficar mais e mais agitada e grita:


- Não é possível! Será que você não entende? Precisamos sair daqui. Já não aguentamos mais! Estamos há horas ou dias, não faço mais ideia, trancafiados sem conexão com o resto da cidade, do mundo! Trancafiados com essas criaturas estranhas ( As pessoas se entreolham).

Desculpem-me. Estou angustiada. Mas confesso o meu desconforto com esse confinamento imposto por algo que nos escapam e ao lado de vocês com quem não tenho intimidade alguma, e pensando melhor: também não faço nenhuma questão em tê-la.

 Ninguém nos escuta; ninguém aparece para ajudar. Para ser sincera, acho que nunca tive intimidade para valer com alguém na minha vida. Diziam que eu tinha um ar misterioso; que escondia algo. 

Acho isso curioso pois já fazia psicanálise há anos e anos e botava para fora o que me incomodava; tentava articulá-las, ou melhor, buscava compreender o modo como percebia e sentia as coisas. Procurava inclusive ser menos reativa diante das investidas - em psicanálise eles falam em equivocação- diante dos apontamentos, dicas que o analista dava. E não foram poucas e tampouco leves ou sutis algumas dessas intervenções. Doía. Doía bastante. Fazia refletir sobre o que, supostamente, era o quê de cada questão. E esses 'quês' são incontáveis. Por isso que demora tanto, quero crer. 


Ascensorista:


-Talvez fosse mais fácil se a senhora criasse alguma intimidade com esse seu médico ou sei lá como se chama. Intimidade no bom sentido. Espero que me entendam. Estou dizendo isso porque a senhora mesmo afirmou que não tem intimidade com quase ninguém; que tem lá as suas dificuldades para...para.. Botar os bofes pra fora; botar pra quebrar; sair do armário...Essas coisas...da intimidade. Fantasias, não é mesmo?


Senhorita:


- Pode ser verdade. Vai que a senhora tem razão? Por isso que falei - porque já escutei isso do próprio doutor. A gente é que é responsável pelo percurso do tratamento. A eles restam somente saber conduzir. O que é bastante difícil também. Aquilo é um teatro de morde e assopra complicado.

Nossa mente tem complexidades difíceis para desvendar. Além do mais, somos uns covardes. Já houve quem dissesse que por covardia deveríamos considerar aquelas pessoas que não suportam uma quantidade mínima de verdades. 


O EU:


- Verdades. Ainda bem que a senhorita colocou no plural. Podem ser muitas, não? Se é que existem mesmo...


Senhorita:


- A verdade de cada um. É dessa que se trata. Não tem outra. Se quiser generalizar complica; vira catequese, imposição da vontade de alguns sobre os outros. A pessoa passa a achar que a verdade dela é a verdade do mundo. O seu ponto de vista é o correto e ponto. E o mais grave: passa a ser o ponto de vista universal. Tudo isso descamba em autoritarismo, fundamentalismo, fanatismo..

A nossa história política, e porque não acrescentar, as diatribes e doenças familiares, está repleta disso.


O EU retrucando:


- Tudo bem.Concordo, mas temos que estabelecer um parâmetro mínimo para fazer o jogo funcionar.


Menino se intrometendo:


- Jogo? Oba! Adoro jogar. Vai ser o quê? Carteado, mímica? Se tivéssemos espaço aqui nessa caixa de metal, arrumaria uma bola, ainda que virtual, e jogaríamos uma pelada- ele imita um jogador de futebol prestes a dar um chute no gol.


Jovem rapaz:


- Não tem mais jeito. Deixe-me ver se há febre ( Ele coloca a mão na testa do garoto). Não. Está sem febre. Aliás, para todos nós isso é um alívio tremendo. Alguém aqui se estivesse doente, febril, seria um terror. Poderia contaminar a todos rapidamente e sem chances de iniciarmos qualquer tratamento. 

Perdoem-me por esse suposto exagero, porém a gente, antes mesmo de sermos aprisionados nesse espaço diminuto- e que nem se compara com as dimensões espaciais estrelares, celestiais- tínhamos pouca ou quase nenhuma informação sobre microrganismos, parasitas invisíveis e letais a viajar nas asas da aviação moderna e outros meios de transporte- sem saber, portanto, do que se trata realmente. Soube até mesmo que um filme asiático conquistou prêmios muito importantes, mundo afora. Sabem o nome desse tal filme: parasita.

E ainda por cima, nenhum de nós consegue estabelecer uma conexão através do celular ou outro aparelho qualquer com o mundo lá fora. Nunca me vi numa situação semelhante. Tenho medo se vou me adaptar ou não quando sair desse confinamento. Já tive uns pesadelos estranhos. Haverá transformação genética? Porque a epigenética já está atuando.. Uma situação tão inédita como essa provoca um nível de estresse tão grande que pode alterar

muitas das nossas formações.


Ascensorista:


- E lá existe pesadelo que não seja estranho?- Rebate.

Isso aqui por exemplo é um sonho danado de ruim. Ficar preso, confinado, sem expectativa de saída. Concordo inteiramente com a madame...( Vira-se na direção da senhorita-madame que mais uma vez ajeitava a maquilagem).


- Pode me chamar de senhorita mesmo. – A senhorita lhe responde com um sorriso falso.



Jovem rapaz exasperado:


- A senhora entendeu o que eu quis dizer! O pesadelo é ruim. Na verdade (‘Olha a verdade' aí de novo') é péssimo. Não é à toa que acordamos assustados. E o sonho tem essa capacidade de invadir o nosso corpo, nossas entranhas.

 A senhorita que faz análise, bem sabe que Freud, na sua vasta obra, privilegiou os sonhos como formações fidedignas da expressão do que ele chamou de inconsciente. Aquilo é uma maravilha delirante. Aparece a imagem de uma pessoa, mas quando você pensa que era aquela pessoa, não era.

. Aquela pessoa não faz isso; nunca apareceu vestida daquele modo ou naquele lugar. É fascinante e angustiante. Não cabe interpretação alguma. O cara vai quebrar a cara se o fizer. Mas também pode ser excitante.Quem é que não acordou um tanto alterado, até mesmo com comprovação científica, quero dizer, física e que talvez tenha sido ocasionada pelo sonho sonhado?


Senhorita retocando o batom vermelho:


-Ah.... Eu tenho vários e diferentes amantes. Ao menos nos sonhos. 

Não precisa me olhar com essa expressão de espanto, senhora ascensorista. Vai dizer que nunca teve um desses maravilhosos sonhos? 


- Sou uma pessoa religiosa, madame. Quer dizer, senhorita- responde sem olhar para sua interlocutora e com uma forte dose de ironia na voz.


- Sei... Religiosa, mas não dispensa o quatro por quatro, não é mesmo? Aquele homenzarrão, esse tal de Juvenal. Estou equivocada? 

Aquele moço a quem você se refere como um desses carros da moda, os tais SUVS; que são robustos, fortes e que aguentam qualquer 'terreno’. ´

Devolve a ironia, a senhorita. 


E continua:


- E sabemos de antemão que o pecado é uma delícia nobremente cultuada pelas religiões. Sobretudo, a cristã. Soberbamente, praticada. Ah! A soberba e a luxúria...


Narrador fictício:


NF:


Nesse momento faz-se uma pausa. Alguém avisa - talvez um ser transcendental, fantasmagórico, que o escritor Rubem Fonseca morreu. Ele desaparece um mês antes de completar 95 anos. 

As ruas do Leblon, seu bairro adotado/adorado, não serão as mesmas, por certo.

 Independente do mundo que já virou de ponta cabeça por causa de um microscópico ser, cuja estrutura é de uma insignificância de merda, mas dotada de extraordinária capacidade destrutiva. É além de tudo uma formação com extrema vontade de viver, de se multiplicar, e que, infelizmente, escolheu essa 'bendita' espécie humana como hospedeiro ideal para sua sobrevivência. 

Conseguimos até, nessa breve digressão, escrever mais do que um simples ponto ou até mesmo uma exclamação (Talvez uma lágrima?) que José Rubem ensinava ser tão necessário se acaso o tesão em escrever um bocadinho mais- num dia mediado por estúpida preguiça- nos atingisse. 

Precisamos então continuar...



- Algo se passou. Não sentiram? - pergunta a ascensorista. 


- Sim- respondem os demais.


O Eu:


- Estranho. Algo pesado atravessou por aqui (Faz um gesto com as mãos e os braços como se estivesse botando algo para fora). 

Sensações mais esquisitas, não? Esse confinamento tem produzido reações que jamais pensei sentir. Sinto-me afetado por, não sei como dizer, contradições, sensações opostas. 


Senhorita:

- Como assim? - Indaga, um pouco aflita.


O Eu:


Do mesmo modo que me passam pela cabeça ideias bastante destrutivas, como por exemplo sair quebrando todo esse elevador, para quem sabe conseguir uma saída ou até encerrar de vez essa tortura. Da mesma maneira, um desejo de que pudesse sumir por uns 3 ou 4 meses e despertar numa outra realidade. Precisaria que o nosso amiguinho (Aponta para o companheiro menino que está ao seu lado) fizesse um pedido ( Quem sabe uma prece?) a fim de que o Monteiro Lobato, e que esse por sua vez, acionasse a boneca Emília com o seu milagroso 'Pir Lim Pin Pin '. Seria maravilhoso, não?


- Vou fazer isso agora mesmo, senhor. Deixe comigo! - Responde-lhe o garoto, cheio de entusiasmo.


Senhorita:


- Mas eu não entendi quando o senhor pensava em destruição. Na primeira parte da sua fala, o senhor falou em quebrar tudo; arrancar a porta desse elevador insuportável. Não parou para pensar que colocaria todos nós em risco: risco de morrer. Quero deixar bem claro.


O jovem rapaz:


- É verdade. Não tinha pensado nisso.

 Confesso que fiquei até entusiasmado, no início, porque também fui acometido por essas sensações, aparentemente, contraditórias. Mas depois, achei que seria uma atitude, no mínimo, temerária, suicida. Estamos numa situação de periclitância extrema. Nem ao menos sabemos quanto tempo esse pequeno ventilador ainda funcionará. E sem ele, estaremos perdidos. Confinados, sufocados. Agora: se o nosso pequeno herói conseguir que o falecido escritor consiga, por sua vez, convencer a boneca Emília em fazer a tal magia. Seria maravilhoso! Poder retornar como se nada tivesse acontecido e prosseguir de onde paramos. Se bem que.... De onde paramos? E se estamos aqui, confinados, quem nos garante que o mundo não esteja prosseguindo? É bem provável que não o esteja como era. Todavia, sempre restam os restos por onde começar. ( Os seus olhos brilham; seu rosto está corado)


- Xiiiiii... Se não bastasse tudo isso, agora, temos pregações. Parecem até uns caras que moram perto lá de casa. Usam aquelas mesmas roupas, carregam aqueles mesmos livros, fazem o mesmo discurso com aquele mesmo tom de voz. E isso já dura tanto tempo...- Suspira a ascensorista. 


Isso... Mais um pouquinho. - O menino, olhos arregalados, conversa com o seu relógio que não marca hora alguma , enquanto aguarda por algo importante.


Senhorita:


-Mas o que é isso? Parece que todos aqui estão enlouquecendo um pouco mais. Esse menino está conversando com um relógio que nem ao menos marca o que deveria marcar; os senhores discutindo qual seria o delírio mais adequado para a suas respectivas situações. Faço questão de enfatizar esse ponto: suas questões; suas angústias. 

E a senhora ascensorista, por sua vez, muito me surpreende ao debochar das crenças possíveis que algum de nós possa ter. Se não me falha a memória, e ela tem falhado ultimamente até por causa da doença que tive e do tratamento quimioterápico, a senhora ascensorista não teria confessado que frequenta ou frequentou esses lugares (Como se chamam mesmo?) onde prevalecem credos religiosos de matizes africanas? 


Ascensorista:


-Sim, madame. Frequento e sou devota, filha de Oxum. Sou água doce...rs. 

E peço que compreendam, se por acaso enxergaram na minha conversa algum tipo de preconceito ou desrespeito. Em nenhum momento, foi essa a minha intenção. Afinal, todos sofremos muito disso. E faz muito tempo. Porém, de uns anos para cá, somos cada vez mais atacados. Violentamente, a bem dizer. A senhora, que é uma pessoa tão informada, deve estar por dentro desses episódios. Já houve até assassinato, sabiam? E sem contar os inúmeros atentados realizados visando a destruição dos barracões ou terreiros. E que são os lugares onde as cerimônias são realizadas.


NF:


Novamente, semelhante àquela anterior, o elevador balança suavemente. Emite um ruído baixo, grave.

 A luz pisca. O pequeno herói, ventilador, fraqueja um pouco. Ameaça parar. O clima é tenso. Não se escuta, sequer, a respiração daquelas 5 almas confinadas. Pronto: passou o susto.

 A luz retorna e consigo o barulhinho 'sagrado' - a essa altura- do aparelhinho que sopra o ar.


- É.....Melhor não insistirmos muito com esses temas religiosos ou semelhantes. Parece que essas paredes de metal e esse espelho que, vez ou outra, fica opaco, têm vida própria; têm orelhas. - Adverte o EU.


- Orelhas grandes? Seriam mais ou menos como as da besta? Ou seriam mais parecidas com a do Lobo Mal? Eu gosto do Lobo Mal.

 Naquele colégio em que estudei uma época, as diretoras tinham orelhas assim. A senhora por exemplo, madame, tem orelhas de abano. Mas continuas linda e no meu coração. Foi consequência desse cruel tratamento pelo qual a senhora passou? - Diverte-se a criança cuja ideia de fim estava longe da sua experiência juvenil , apesar das perdas que já vivenciara. 


Antes que a senhora lhe dirigisse impropérios, o jovem rapaz interveio:


- Não. As orelhas da senhorita são belas e o lobo mal ficou por lá, no seu colégio tão singular, comendo as vovozinhas diretoras enquanto aguardava por vossa pequena pessoa. Quem sabe, não teria sido uma iguaria saborosa? Quem sabe uma sobremesa? Mas, eu acho que você não teria sido uma refeição muito prazerosa. Acho até que causaria certa indigestão.


-Ah Ah AH Ah AH Ah- ri com gosto a senhorita e suas possíveis orelhas de abano. Essa foi ótima. – 


NF:


Ela prossegue contente como não se via faz um tempo. Mas quanto tempo?


- Essa criança insolente e que conversa com relógios e bonecas de pano, nascida de uma bela obra de ficção, bem que fazia jus a uma resposta adequada. Obrigada, jovem rapaz.


A criança, num raro momento de resignação, escuta tudo cabisbaixo. 


NF:


Nesse novo momento e cujo roteiro parece tão confuso porque não se pode, ainda, desenhá-lo, compô-lo por inteiro, uma nova forma de se fazer e incorporar o silêncio, vai atingindo cada um desses sobreviventes. O mundo de fora parece querer se comunicar, dar notícias; saber notícias. Ao final das contas: onde se enfiaram essas pessoas?



 ‘De uma forma semelhante, análoga, ao outro momento em que parecia existir uma interação entre os confinados e o mundo deixado para trás, o elevador se movimenta suavemente para baixo. Não aconteceram solavancos e tampouco a luz ameaçou com despedidas assassinas, levando consigo o ventilador salvador. Sabe-se então que o equilibrista, após longa e dolorosa batalha, perdeu finalmente o prumo e caiu ‘Mortinho da Silva’.

Estão a dizer que um bêbado da ‘Tijuca Profunda’ (Que era o nome pelo qual o egrégio, agora defunto, descrevia a região da cidade do Rio de Janeiro em que vivia, A Muda, há décadas) alardeou a triste notícia. E o fez cabisbaixo; feito gesto de menino arrependido.

Confirmava-se então o falecimento do escritor, compositor e médico (Profissão que abandonara pouco tempo depois de concluir o curso de medicina, especializando-se no ramo da Psiquiatria), nesse louco e esquisitíssimo mundo, o Dr. Aldir Blanc.

Personagem raro e que nascera no bairro do Estácio, região central da cidade. Aldir tinha incompletos 74 anos.


Ascensorista:


- Vejam, ou melhor, sintam isso..

 Estamos nos movendo! - Diz isso com uma expressão de enorme contentamento.


Ela prossegue:


- Curioso tudo isso. Porque nem um comando aqui no meu painel, nenhum botão, ficou iluminado. Das outras vezes, naquelas em que ficamos assustados com a forma ríspida, violenta mesmo, através da qual essa carroça que sobe e desce quis demonstrar sua pretensa vitalidade; sua persistente existência. Dessa vez, o que ocorreu foi justamente o contrário: ele percorreu maior distância sem alarde qualquer. Para ser mais sincera, o maldito elevador não deixou pistas para que pudéssemos acompanhá-lo no modo de funcionamento e solicitar algum socorro, pessoalmente. Queria muito lhe dizer umas poucas e boas por causa dessa traição. Sim... Traição. E podem parar de me encarar com essas carrancas todas pois eu tenho intimidade com a peça. Somos carne e metal faz muitos, muitos anos. 

Já o socorri em outras oportunidades e ele não me deixava na mão durante tanto tempo. Inclusive, acusam-me nesse prédio de apropriação indébita, abuso de poderes com elevador. Sabem o porquê? Porque não permito que haja um tal rodízio de elevadores. Eles querem fazer rodízio para que ninguém fique especialista naqueles andares, naquelas mesmas pessoas.

Vocês devem ter notado que nem todos os elevadores atingem certos andares do edifício.  Alguns só chegam aos andares pares; outros somente aos andares ímpares. Outros, por sua vez, não chegam ao térreo ou nos patamares mais altos. Funcionam mais ou menos feito aquelas pessoas supersticiosas: aquelas que não apertam o número 13; não saem de casa sem alguma mandinga específica, etc. E por aí vamos. 


Após um átimo de alegria, a realidade se apresenta. E a comandante da ‘aeronave’ minúscula, desabafa:


-Infelizmente, não vamos. Ele parou de novo. E olha que esse aqui percorre todos os andares. Vem desses fatos essa conspiração contra a minha pessoa. Eu finquei o pé e a razão nessa questão. Consequentemente, não me convenci do contrário. Não troco de elevador e pronto. Privatizei por conta própria e acabou a conversa. E aquele moço, fiquem sabendo- aquele lá do início dessa nossa história; aquele beltrano que vocês acharam eficiente e coisa e tal- é um dos maiores alcaguetes e fofoqueiros dessa nossa área.


NF:


O Jovem rapaz levanta a mão, solicitando permissão para falar. Sua atitude o deixa com aspecto de adolescente pedindo permissão para ir ao banheiro, durante a aula no colégio. Ele, enfim, consegue abrir a matraca de novo:


-A senhora ascensorista queira me perdoar, mas a senhora teria dito que conversa com esses botões, com esse seu, vamos dizer assim, “Cockpit’ e seus botões metálicos? (Ele usa essa expressão que é comum aos pilotos de corrida quando mencionam o lugar no carro de corrida em que eles se instalam para poder pilotá-lo).


Ascensorista:


- Sim, senhor. Escutastes perfeitamente. Mantenho diversos e variados diálogos, prosas, confissões, xingamentos e desabafos com essa peça metálica arrogante e, hoje com todas as forças, sacãna.

Não vejo muitas razões para o espanto. Seria espantoso, e preocupante, se o comando aqui em frente do meu (Como é mesmo o nome que o jovem senhor mencionou? Cock...alguma coisa).


-‘Cockpit’, senhora- Ele se apressa em responder à indagação.


Ascensorista:


- Isso daí...rs.

 Esse nome que veio do estrangeiro e que considero engraçado, divertido.

 Retornando ao que tentava lhes dizer, seria realmente preocupante se ao invés de desabafar com os botões do comando central dessa porcaria que está enguiçada a sei lá quanto tempo, eles começassem a me responder, não achas?


Jovem rapaz:


- Nesse caso, a senhora tem toda razão, seria caso de internação psiquiátrica.


Ascensorista:


- Sim. Já escutei sobre. Aqui nesse local, passam muitas e variadas figuras que nós chamamos até de pessoas. Algumas trabalham com esse negócio que o senhor falou, ‘Psique qualquer coisa’. Um deles, cujo consultório fica no vigésimo andar, depois de um dia muito difícil, entrou aqui e estávamos somente nós dois. Ele olhou, olhou .... Olhou na direção do espelho e foi ficando corado, arrepiado com o que parecia enxergar; seu rosto foi se modificando e ele passou a fazer umas caretas. Bem aí: nessa posição que o senhor – Ela aponta na direção do Eu- está. De repente...(Faz uma pausa e suspira, mas sem dizer nada.):


De repente, o quê? Diga logo, criatura. Não aguentamos mais tanto mistério. - Todos, menos o menino que prossegue cabisbaixo, perguntam ao mesmo tempo.


-Ora...- Ela faz uma nova pausa para em seguida confessar:


- Ora, ora... Ele se virou, ajeitou a vasta cabeleira e disse que precisava urgentemente cortar o cabelo...


 Do jeito que estava, ele não suportava mais. Aquela aparência lhe dava agonia. Sentia-se mal porque não se reconhecia mais.

Achei aquilo tudo muito exagerado, mas então ele explicou – voltando-se mais uma vez na direção daquele espelho- que tinha ficado muito tempo descuidado com a sua aparência porque não tinha como ir ao salão de beleza e coisa e tal. Aparentemente- foi o que eu pude entender- houve um período em que esses lugares ficaram fechados, sem funcionar. Confesso que não me recordo disso.  Acredito que não seja tão mais velho. Está um pouco acabadinho, mas...

Esse doutor tem fama de ser um pouco esquisito – os jovens falam que ele é um tanto quanto bizarro-. Contudo, deve saber o que fala. Ao menos, deveria. O certo é que ele nunca falou comigo sobre conversas entre botões e pessoas.


Senhorita:


- Lembro-me que houve uma época em que algumas atividades comerciais, escolas e universidades permaneceram fechadas por um período .

Foi uma época bem difícil. Até mesmo o cinema e o teatro, e que eu adoro, ficaram com as suas salas fechadas. Faz muito tempo isso.

A senhora não se recorda quando foi essa sua prosa com esse doutor de cabelo grande?


Ascensorista:


- Madame:


A senhora vai ter que me perdoar porque se tem alguma coisa que não tem funcionando muito bem por essas bandas é essa tal da memória. 

Sou, como dizia a minha saudosa mãe, ‘ruim de lembrar’. O que sei é que ele é, de fato, um doutor dessa área que cuida dos maluquinhos e que sempre pegava uma cotidiana carona aqui comigo. Ele não era muito de conversa, não. Saía tarde do consultório- um dos últimos aqui no edifício- sempre carregando uns livros e umas receitas médicas. Era um bloco de papel desse tamanho (Ela faz um gesto com as mãos como se estivesse segurando aquele bloco de papel do doutor). 

Um dia, eu quase pedi para que me desse uma receita de um desses remédios que eles costumam chamar de ‘sossega leão’. Devem ser potentes, não é mesmo? Afinal, é para sossegar felino brabo. É um tal de tarja preta. Não era para mim ...Era para o meu Juvenal. 

Ele estava muito agitado, dormindo mal. E por causa disso, ou seja, quando dorme mal fica insuportável no dia seguinte. E aí vai ficando sem energia. Sem a tal da vitalidade que é tão importante. Sobretudo no meu caso, senhora madame.  Já que sou filha de Oxum e preciso repor as energias com frequência. Como é que a gente pode dar uma namoradinha com aquele sujeito, daquele tamanho, todo caidinho?

Acontece que eu não tive coragem para pedir a bendita receita. Maldita insegurança, inibição, sei lá. Fiquei toda entravada feito bicho do mato acuado. A garganta foi ficando seca, as mãos suadas e o diabo do elevador sem parar em andar nenhum. Quando a gente precisa, as coisas vão para o outro lado. Se bastasse tão somente aquele querer, querer com vontade, garantindo assim algum poder mais poderoso... A vida seria ótima. Mas sempre haverá o espírito de porco que vai querer o seu contrário. O pessoal não entende que é assim que a gente fica guerreando. Por exemplo: eu gosto do Outono – Aliás, estamos no Outono- e de uma chuvazinha vez ou outra.  Gosto muito do sol também; dias bonitos, passeios ao ar livre, a praia... (Enquanto fala sobre esses lugares, seus companheiros suspiram. Naquela condição de prisão em que se encontram, esses lugares evocados trazem recordações saudosas.), mas tem gente muito radical: se não estiver o dia muito quente, ensolarado, a turma passa mal. Fica tudo deprimido, caidinho. Igual ao meu Juvenal quando não dorme direito. Por isso que digo: não dá para agradar todo mundo. Se cada um tivesse o poder de decidir sobre o tempo, teríamos umas 10 estações num dia só, no mínimo. Impossível.  Não dá – como se falava nos tempos de anteontem- para agradar os gregos e os baianos.


O Eu:


- Troianos, senhora. Aqueles que eram de Troia. Inimigos, portanto, dos Gregos.  Numa época um pouco mais distante que o anteontem.


Senhorita:



- Menino:


 Estás doente? Sentes alguma coisa? A garganta lhe dói? Deixe-me ver se tem febre (Aproxima uma das mãos da testa da criança).

Não. Está com a temperatura normal. Quer dizer que então que você decidiu ficar mudo e cabisbaixo? Bastou uma bronca ou puxada de tapete, como dizem, para se aquietar. Achei que 'o senhor' fosse diferente.


NF:


O menino nada responde. A senhorita curva-se um pouco para frente, bem ao lado daquele 'senhor' a quem mencionara antes. Ela tenta uma nova aproximação:


- Olha só... Eu espero que não tenha lhe ofendido com o que lhe disse agora pouco. Todos nós temos as nossas suscetibilidades, nossos melindres. Aquelas, já gastas, afetações! Isso mesmo. Lembra-se daquele papo sobre afetações , etc.. É isso.

 A gente se deixa tomar por certos sentimentos, valores, e não conseguimos escutar; enxergar os fatos de uma forma mais abrangente. Quero dizer: é como se amputássemos uma parte da conversa ou do nosso corpo. Obviamente que essa última parte, quero dizer, essa última citação, ou seja, amputar parte de nosso próprio corpo é um tanto exagerada, mas é como se fosse.


-Uma analogia. - Intromete-se o jovem rapaz.


- Sim, é claro. Mas o senhor bem percebe que eu estou tentando dialogar com expressões mais corriqueiras, mundanas (Faz um gesto com as mãos como quem reclamasse com o outro que se metera no assunto e ainda por cima utilizando termos e conceitos menos apropriados para uma criança).


NF:


Levantando a cabeça com a mesma agilidade e rapidez que um transatlântico realiza uma manobra, o garoto finalmente ressuscita da sua paralisia temporária:


- Não sou imundo. Tomo banho todos os dias. Até no inverno, eu não fujo da água. Não me chamo Cascão (Personagem de história em quadrinhos infantis criado por Maurício de Souza e que tinha aversão ao banho).


- Eu sei, meu querido. Não o chamei disso, ou seja, uma pessoa imunda. Eu disse mundano; que diz respeito às coisas, aos fatos corriqueiros; ao cotidiano; ao dia a dia dessa louca vida. - A senhorita fala com uma voz melodiosa enquanto lhe acaricia os cabelos. Ela prossegue:


- Não queria lhe provocar ou despertar qualquer forma de hostilidade, raiva, por mim. Pelo contrário: afeiçoei-me a você. Nunca tive filhos ou afilhados. Melhor dizendo: nunca os quis. Não sei se porque a minha vida e os meus projetos pessoais encaminhavam-se para um certo estilo em que crianças não cabiam. Também não acho que tenha sido só isso. É curioso porque passei grande parte das minhas sessões de análise tratando desse tema já que me sentia cobrada.


- Por quem? - O Eu lhe interrompe.


- Por mim mesma.  Exercia um papel de carrasco contra mim. Em psicanálise, eles têm um apelido para isso: chamam de superego. 

É uma espécie de ego malvado que fica atazanando os ouvidos, imperativamente, como um daqueles cobradores de impostos cruéis dos tempos mais remotos e que agora escondem-se atrás da juba de um leão. Esse bicho disfarçado, camuflado de cinismo e sonegações e que apelidamos por aqui de Imposto de Renda. Esse superego, dizem, é algo da ordem do inconsciente. Portanto, até você sacar qual é a do desgraçado, terá que atravessar um lamaçal sem fim. Deixar que esses 'segredos de liquidificador’, tal como brincava, muito seriamente a bem dizer, o cantor Cazuza, possam emergir, após essa chacoalhada toda. Eu adoro liquidificador! Aquilo mexendo, misturado, triturado. (Ela mexe as mãos que parecem triturar algo imaginário enquanto se dirige ao homem que lhe fizera a pergunta). 



- Pode ficar onde está, senhorita (O Eu tenta lhe conter a aproximação que julgas perigosa, esticando os braços).

Já entendemos o que pode ter acontecido entre você e os seus desejos assassinos, quero dizer, pouco maternais. Mas isso é normal.

 Hoje em dia, muitas mulheres não têm filhos. Creio que é algo que tem um peso menor na nossa cultura em comparação com outros períodos da nossa história. Que é, por suposto, ainda estúpida. 

Talvez haja menos discriminação com relação ao fato de que muitas mulheres não querem mais ser mães. Afinal, essa senhorita ainda tem aquela faca que descasca coisas.


- Não reconheço nenhum instinto assassino nessa minha decisão. O peso ainda existe. O senhor tem razão quando diz que ele é bem menor. Parece mesmo que sim. No meu tempo era brutal; quase uma condenação. Namorar com homens - no caso das mulheres-, casar naquela igreja oficial cristã e parir. Essa era a única possibilidade de vida, de um futuro respeitável, para muitas de nós. Quem ousasse não seguir esse quase credo ( Um caminho necessário, a bem esclarecer) estava em situação periclitante. Sobretudo se essa pessoa estivesse afetivamente envolvida com alguém do mesmo gênero (Sua voz está repleta de ironia).

Eu, por exemplo, já provei do popular prato feito, o velho e bom PF, ao Menu Degustação mais sofisticado. Esses cardápios que carregam estrelas gastronômicas. 

Assim como na orgia dos sabores culinários, eu também tive diversas atividades profissionais; diferentes amores e ódios e tive sorte porque nunca fiz um aborto sequer. Talvez devesse tê-lo feito (Essa última parte, a que se refere ao aborto, ela diz quase entre discretíssimos sussurros. Só que no espaço reduzido em que se encontra com mais 4 pessoas, um sussurro é quase um discurso em praça pública. Feito aqueles comícios populistas; verdadeiras pregações).



-A senhora não é religiosa, não é?- Quis saber a ‘comandante’ do sobe e desce.


Senhorita:


-Por quê? Qual a relação entre o meu relato e a sua curiosidade?


Ascensorista:


- Só por curiosidade mesmo. A senhora mencionou tantas coisas. Confesso a minha admiração pela sua coragem porque não é para qualquer um levar adiante essa iniciativa em que compartilha tantas intimidades conosco; com essa gente que você tem tão pouca intimidade. Incluindo aqui, uma criança.


NF:


A senhorita hesita um pouco; procura mais uma vez pelos seus apetrechos que lhe retocam a aparência e consegue alcançar aquele inesgotável batom, para logo em seguida, continuar com o mesmo assunto;


- Sim. Quero dizer, não. Não com relação às minhas possíveis crenças religiosas e sim ao que a senhora ascensorista acaba de dizer sobre coragem ou destemor, digamos assim. É bem verdade que a fala pode ser imprudente. Não tanto pelo seu conteúdo, mas pelo fato, muito bem lembrado, da presença da criança aqui conosco. 


O Eu:


- Eu tenho crenças religiosas. Normalmente, eu as identifico quando estou envolvido com jogos de futebol ou discussões políticas. 


O jovem rapaz:


- Você acha que são da mesma ordem? Quero dizer: política e futebol?


- Não deveriam, mas se tornaram. Não são da mesma ordem e não combinam esquema de jogo juntos nem tampouco obedecem às mesmas regras. Eu me reporto ao comportamento de todos os que estão envolvidos em ambas as práticas: é semelhante; é quase religioso. Em alguns casos, assemelham-se aos chamados fundamentalistas e suas práticas. Costumamos associá-los aos atos terroristas, aos assassinos. Todavia, eles estão muito mais próximos e nas mais diversas atitudes do que supomos.  Eles, inclusive, não têm adversários. Eles têm necessariamente inimigos. 

Essa lógica obedece a um funcionamento binário estúpido. Não há dialética possível; não há contraditório. Logo, essas criaturas são de uma reatividade muito violenta. Eu me vejo – e procuro ter algum cuidado- agindo de maneira parecida em certas situações.

Por isso coloco na conta de um certo sintoma, digamos assim, religioso. Até porque fui educado numa família católica. Consegui, sim, escapar dos ritos obrigatórios. Querem um exemplo: não fiz primeira comunhão. E por quê? Advindo de uma família bastante religiosa, não lhes parece uma contradição?

Tenho a minha versão. Fazer o quê? Estão curiosos? Mesmo que não estejam, lá vai:

Eu acredito que a minha mãe estivesse com muita raiva desse ser invisível, a quem os devotos atribuem poderes mágicos, quase extraterrestres; uma onipotência no mais alto grau pelo fato de que o tal Deus não lhe fez o maior dos favores, a maior das ajudas: salvar o seu pai, meu avô ( Por sinal uma figura notável) de um câncer doloroso e mortal. Ela gostava muito dele. Ela o tinha em alta conta; admirava-o.

Foi então que o menino, mais ou menos da mesma idade que o nosso pequeno companheiro de jornada e inferno aqui presente- aproveitou a ‘distração’ materna e driblou aquele ritual todo.

Contudo, eu também queria os meus milagres; os meus pedidos mais nobres e obviamente os mais pecaminosos. E o que fiz, meus caros e caríssimas? Soube que eu poderia ler alguns trechos da bíblia, rezar umas preces notáveis e notórias e me confessar a um padre disponível de alguma paróquia para logo em seguida, liberado semi-oficialmente, é bom ressaltar, praticar a comunhão, tomar a hóstia. 

E eu o fiz. Podem crer que sim. 


Ele abre os braços. Ajoelha-se no chão do elevador; olha para o céu disponível, isto é, o teto do maquinário que um dia subiu e também desceu, iniciando ali mesmo um modo de confissão:


-Domingo sem graça. Desculpem-me pela redundância, afinal, quase todos os Domingos eram – ou ainda sejam- muito pouco divertidos.

Talvez essa seja a razão para programas televisivos idiotas e o tão prestigiado futebol, que também tem lá as suas cretinices, serem os protagonistas desse dia semanal. Poderia também ter um apelido o Domingo: que tal se o chamássemos de enfadonho. Aliás, os senhores e senhoras, aqui condenados, não acham que seria um bom nome para se batizar um não menos adorável bichinho de estimação: enfadonho. Estou nos levando de volta aos anos 70. Apenas para situar as rememorações.

Acho, portanto, que sem eles, os tais únicos entretenimentos disponíveis à época, haveria uma carnificina ainda maior entre nós; sobretudo entre os mais populares. Maior até que o desalento em tempos de endemias, pandemias, toques de recolher, isolamentos, confinamentos. Esse que vivemos e tentamos atravessar, aqui e agora, por exemplo.

Eis então que atravesso, vindo lá do fundo daquela modesta igreja, ou melhor: vindo da entrada. É preciso que possamos visualizar atentamente a travessia do garoto abusado.

Atravesso confiante a ‘passarela’. Não restava dúvida de que estava determinado. Passos ainda curtos, mediante a idade precoce. Aproximando-se do altar, viro-me para o casal que se encontrava logo no segundo banco, à minha direita. Sorrio, pisco um dos olhos. A senhora e o senhor em questão, jovens ainda (Não tinham ao menos 50 anos de idade) arregalam os olhos. (Ele arregala os olhos na direção dos colegas confinados. O menino cobre o rosto. A senhorita ameaça uma risada. Mas ela, intuitivamente, consegue se conter.

 Da forma mais rápida que se poderia, o olhar fora desviado. Não seria prudente continuar a encará-los e perder o foco daquela nobre intenção e que havia sido tão imprudentemente planejada nas últimas semanas da vida. Tornara-se o único objetivo e deveria ser alcançado. Era vital chegar até as mãos daquele religioso tão antigo e receber a oferenda que estava à sua frente.


- E quem eram esses dois cristãos apavorados. – Todos, menos o menino que ainda está com o rosto coberto pelo medo, quer saber.


O EU:


- Meus pais, ora bolas! Estavam bem ali: sentados como sempre, na mesma posição e local. 

Era esse o hábito matinal aos Domingos pela manhã. Só que nessa específica manhã dominical, eles tiveram essa surpresinha. Pois sim: cheguei lá. Consegui!

Recebi a hóstia das mãos enrugadas, pelo caminhar dos anos e penitências, daquele padre. Ele então a colocou com cuidado na minha boca faminta, enquanto eu me virava na direção mesma que tinha tomado antes, evitando com todas as forças olhar para o casal que, agora, estava posicionado à minha esquerda. Voltei só. Percebi por um breve instante, quase um sopro de duração, que sempre estive só.

O lugar em que estivera sentado antes, poucos minutos atrás, anterior ao que passara a ser a maior aventura da minha idade de 11/12 anos (Não me lembro exatamente a idade, mas era por essa fase da vida), recebia um outro ‘peregrino’. O que fazer então? 

Diminuí o já arrastado caminhar; os olhos fixos naquele intruso que me roubara e ainda tendo o corpo sagrado, metamorfoseado naquela hóstia tão insípida, deslizando pela boca, pelos lábios e tratando de não machucá-la ou no pior dos pecados, mordê-la. Fez-me sentir como um daqueles equilibristas de circo que jogam argolas para o alto e não as deixam cair no chão. Infelizmente, aconteceu o que não se planejara:

 Um pedaço daquela hóstia com gosto de coisa alguma foi despedaçada. E sabem qual foi a razão desse delito juvenil? O ódio. Sim, companheiros e companheiras de confinamento. O ódio sentido pela presença arrogante e inoportuna daquele cidadão que insistia em permanecer sentado no meu lugar; naquele espaço comprido típico de banco de igreja e que para um ser de menor parece gigantesco.

 Vocês podem argumentar que não se reserva lugar nessas missas; que não há lugar marcado, mas eu estive ali antes dele. Aquele lugar, mesmo com toda a minha insignificância, era meu de fato. Foi por isso que deixei me levar pela raiva e pedi com todas as forças ao todo poderoso que arrancasse aquele personagem dali. Que ele (Nesse ponto preciso dizer que digo ele porque o artigo que precede a sua designação é masculino. Mas quem pode garantir o sexo de Deus? Porque sempre se reportam ao ser transcendente e adorado pelos seus acólitos como uma figura masculina? Até nesses ritos o machismo ou misoginia mesmo se estabelecem com força), pudesse retirá-lo, enfim, com a benção dos anjos voadores, ao som daqueles órgãos cuja música que brota dos teclados pode nos fazer até subir aos céus. 

A minha mãe me relatou epifanias que teve ao escutar o órgão e o coral de vozes na catedral de Colônia, Alemanha. Além da beleza arquitetônica, aquele órgão, o repertório, o canto (Parece que executavam algo de Bach ou Handel) quase a fizeram- fiquemos no quase, por favor-, subir aos céus!

Portanto e para tanto, rezei com força e fé a fim de que Deus pudesse colocá-lo sentado bem ao seu lado – parece que à direita- e que não os deixe cair em tentação, livrando-o de todos os males ou maus olhados advindos de adolescentes, por exemplo. Até porque esse específico invasor de bancos de igreja tem o abrir e fechar de olhos semelhante aos bêbados, não equilibristas, que pernoitam na porta dessa e de tantas outras igrejas. 

Dito isso, creio mais uma vez que mordi propositadamente a hóstia visto que o meu pedido tão singelo, e justo, quero crer, justíssimo, não recebeu atenção qualquer. 


Agora é o menino que tem os olhos arregalados. Ele o interrompe para saber:


- E a outra metade? O que o senhor fez com a outra metade do corpo?


- Ora, hóstia, hóstia, ora.. Para alguém que estava se fingindo de morto, ressuscitas com pergunta sem rodeios, mas muito bem-posta.

Realmente, não acabou por aí...

Já que a minha demanda não foi considerada e aquele infeliz permaneceu sentado exalando cheiro de cana, tive que me regozijar com...


- Rego? Rego, o quê?- O menino e a ascensorista o interrompem. Quem tem os olhos saltados agora é a ascensorista senhora.


- Regozijar, minha gente. Alegrar-me; ter prazer intenso; sensação de alegria; quase epifania.


O Eu parecia que iriai decolar. ‘Graviticamente’, foi impossível. Viva Newton! Vivam as maçãs! 


-Pois bem. Retornamos... 


Tive que me contentar com aquele cantinho no último banco do lado esquerdo em que há pouco uma senhora tinha abandonado. Passei a rezar. Mal sabia que sabia sobre isso. Falei em voz baixa, um sussurro: ‘ Onde foi que aprendi todas essas rezas; essas preces? ’

‘As penitências. Foram essas tais que provocam essa ebulição de frases, palavras, cânticos e que brotam daqui. Falam sem nenhuma cerimônia. É quase um automatismo descontrolado’. 

Foi essa a resposta possível que consegui mediante a surpresa com aqueles dizeres, pronunciados em série, causaram. 

As penitências eram as próprias rezas e que se tornaram obrigatórias a sua repetição exaustiva. Impostas por um outro padre para quem, sem ao menos ver seu rosto ou corpo, saber seu nome, confessei, ajoelhado, algumas peripécias da minha insignificante existência. 

O que aquele homem esperava de um menino de classe média brasileira, família careta, estudioso, para um menino e suas idiotices pertinentes aos meninos de 11/12 anos e ainda por cima de joelhos e com aquela atmosfera sombria? 

Algumas orgias no currículo? Desvios de verba pública? Assassinato com dolo?  Conspirações políticas? Golpes de Estado? Fake news...Pronto. Essa está disponível para inconsequências. E são rápidas e podem causar grandes estragos. Ah! A memória nos avisa que houve, sim, uns assassinatos.


NF:

Mais uma vez, o silêncio é absoluto. A luz no interior do elevador ameaça, outra vez, dizer adeus. Escuta-se apenas o barulhinho do ventilador que persiste em lhes trazer vida. Um rangido se faz escutar também. Daqueles que os motores velhos, prestes a escangalhar, fazem.


 O EU, já de pé faz algum tempo, cobre o rosto com as mãos, cabisbaixo, a dizer:


- Assassinei, intencionalmente, devo reconhecer, algumas bonecas Barbie – e todas elas eram importadas, originais; trazidas para minha irmã pelo meu pai, após uma longa viagem, meses, dos EUA. Meu pai por lá estivera fazendo um curso e viajando através do país. Atirei as malditas bonecas, não todas é importante salientar, na garagem do prédio que nasci. Isso se deu após algumas discussões com a minha irmã. Ela implicava com os meus carrinhos de bate-bate e aí.... Emergia essa raiva incontrolável e eu a desafiava: ‘ Quer ver como as bonecas podem sair voando?! Feito os super-heróis da televisão e do cinema?  


A senhora ascensorista indignada:


- O senhor era um pequeno monstro. E fica com esse trejeito de homem educado, conciliador; com esses fingimentos de que não desconfia sobre o porquê que o santo padre lhe passou aquelas penitências todas enquanto confessavas teus pecados. Se bem que acredito que não tenhas revelado nem um milionésimo das tuas malvadezas.


O Eu:


As bonecas, algumas delas, conseguiram se salvar. Eram resgatadas por um dos funcionários do nosso edifício. 

Era um homem excelente. Torcedor entusiasmado do Botafogo de Futebol e Regatas e que dava a vida pelo seu ofício, ou seja, pelo nosso prédio. Aliás, morreu no próprio trabalho numa época em que, no nosso condomínio certos ruídos poderiam se misturar causando muita confusão. Posso voltar a esse tema, num momento posterior, se por acaso desejarem.

Respondendo ao amigo menino, a segunda parte do corpo santo desapareceu quando avistei, a também jovem menina, e que se chamava Adriana, sentada à minha esquerda, naquela mesma igreja, enquanto rezava. 

Essa criatura foi uma das paixões adolescentes não correspondidas. O que resplandecia nela era o ar enigmático. Era misteriosa; baixinha e com os cabelos castanhos. Posso vê-la nesse momento, aqui, nas palavras proferidas; palavras preferidas.

Estudávamos no mesmo curso de inglês; inglês britânico onde muitos dos professores vinham da Escócia, Irlanda.

 Ela era mais adiantada. Estava um ano na minha frente. E eu com o coração juvenil atrás dela. Não sei ao certo quando a vi pela primeira vez. Por certo, naquele prédio acanhado e que depois se tornou uma casa de doces ou algo do gênero. Por ser um pouquinho mais velha, diferença que com o passar do tempo vai desaparecendo, mas que nessa fase da vida faz bastante diferença, a mocinha não dava a mínima – como se diz – para a turminha mais nova. Qual era então a minha estratégia: 

 Eu me postava num lugar, num caminho, em que ela teria que passar na volta do dito curso, de qualquer maneira. Se optasse por um outro, levaria muito mais tempo. A cidade era muito mais tranquila nesse período, mas os cuidados eram necessários. E ela transparecia responsabilidade, apesar de bastante jovem. Acho que tinha uns 14 anos. Fiz isso várias vezes, ou seja: pegava o mesmo traçado para esbarrar com ela. Seria infalível a estratégia. Ou não?

 Lembro-me até de carregar uma pasta semelhante àquela que ela, a Adriana, também carregava. Essa pasta era uma espécie de brinde que o curso de inglês, britânico, oferecia aos alunos após a matrícula. 


- E o porquê da pasta? - O menino, cujo o olhar tem brilho próprio, antecipa-se sapecando mais uma pergunta.


- Para disfarçar. Para que ela não notasse que eu estava ali, cercando. Tentando seduzi-la. Eu era muito tímido! 

O certo é que deu tudo errado. Ela jamais me notou. Se o fez, fingiu muito bem que não o fez. 

Portanto, armado com aquela munição sagrada, a hóstia e as ‘benditas’ orações, esperava-se tão somente pelo milagre de ser notado pela mocinha que, assim como os meus pais, era beata da mesma congregação religiosa.

Contudo, aquela senhorita desagradável, e sem o menor talento para reconhecer possíveis aventuras e desatinos bem prazerosos, continuou a me ignorar. 

Disso tudo, retiramos uma ojeriza crescente e muito, muito ódio. Fui me desiludindo naquele exato momento com as magias e suas práticas e terminei por morder o resto da hóstia, do pão, sei lá mais o quê.... Sobrou até para os lábios. Cheguei mesmo a pensar: será que eu deveria ter rezado aquilo tudo em inglês? 


Os outros fazem cara de espanto.


-Tudo bem. Entendo o espanto de vocês, mas vejam bem: língua soberana – muito mais pobre do que a nossa, mas tem a libra, tem o dólar- e o local onde a encontrei foi numa instituição britânica. Faz sentido. Sabemos que esse Deus tão propagado, apesar de jamais avistado, é poliglota, mas... Acho que falhei na tentativa. A estratégia deveria ter sido outra. ‘All right’?



A senhora ascensorista:


- O senhor é de fato um ser espantoso. Isso mais se assemelha com aqueles excessos de mimos que certas mamães proporcionam aos seus filhotes e os estragam para o resto da vida. Essa menina, Adriana não é mesmo? -, permanecerá viva nas minhas orações lá na Casa da Mãe de Santo que frequento. Que a pobre menina, hoje por certo uma mulher, esteja bem. E bem distante do senhor!


- Como a senhora é grosseira e sem a menor sensibilidade. Não consegue reconhecer uma atitude juvenil e que em grande parte não passou de sonho, imaginação? Não que não assuma o que sentia, e ainda sinto em parte, porque não há quem consiga se livrar inteiramente de certas marcações ou do próprio temperamento que também é quase impossível de se reverter (Até os animais o tem, sabiam?); ocorre que o ressentimento diante dessas recordações nos dão a impressão que permanecem. – O Eu lhe responde, esforçando-se para disfarçar a raiva que está sentindo.


A senhorita: 


- Por certo que permanecem. Se não estivessem presentes porque perder tempo com essas lembranças, tão distantes no calendário de fora, o calendário cultural, mas tão próximas do nosso tempo próprio; o tempo de cada um. O passado é também agora...


- Pôxa, moça. Que bonito isso. O passado pode ser agora; o agora pode ser amanhã e o futuro somente na terra do nunca. Emília, sempre Emília!

 O pirlimpimpim nunca falha. Aquele moço de chapéu e expressão de zangado, o pai da boneca de pano, Sr. Lobato, era genial. Não! Era, não: continua sendo. - A criança parece ressuscitar de um desânimo incurável; ela vibra com a ‘descoberta’.


E o pequeno prossegue:


- E a senhorita me ajudou muito, sabia? E sabe por quê? Porque não preciso tanto me preocupar com o colégio; com a bronca que vou levar por esse atraso em retornar para casa; para ser sincero: eu faltei a aula de propósito. Como se diz – e isso aprendemos com os mais velhos, assim ‘tipo’ os senhores e senhoras (Ele abre os braços na direção dos outros presentes; vira um pouco a cabeça para ambos os lados; olha para os quatro, sem ao menos piscar os olhos): eu matei a aula. 

Matei com vontade de matar. Tipo assassinato intencional mesmo. Igual aos crimes desses seriados de televisão que apresentam uns malvados sedentos por sangue; feito morcego vampiro que espalha terror, não só na televisão e no cinema: Agora, que pode ter sido ontem, esses ratos voadores espalham um vírus mortal pelo mundo. Bicho horroroso. Já viram de perto algum? 

Perto de onde morei, um dia, vagavam por lá uns meninos que descobriram uma árvore com mais de cem anos de idade; velha mesmo essa árvore. Mais velha que a senhora, senhora ascensorista...


NF:

A ascensorista  vira o seu corpo robusto na direção do garoto abusado e ameaça lhe dar umas palmadas. Porém, antes disso, ela adverte:


-Menino, menino.... Estás me tirando do sério. É isso mesmo?


- Calma, senhora. Por favor, calma. Não foi essa a minha boa intenção. (Ele se volta para o demais e dá uma piscadela com um dos olhos). Eu apenas queria dar um exemplo. Desculpe-me se lhe faltei com o respeito.


O jovem rapaz:


-  ...Ou se por acaso, abusou da sinceridade.


Ascensorista encolerizada:


- O senhor também! Assim já partimos para o abuso. Chamam isso de um nome estrangeiro. É... ‘bule.. não sei das quantas’.


‘- Bullying’- exclama o Eu que expressa certo divertimento com a contenda entre todo o resto. Ele ainda está ressentido. 


- É esse nome esquisito aí. Quero lembrá-los apenas que essa caixa de metal em que permanecemos confinados resta sob o meu comando. E se o meu comando não agrada aos senhores, rebelem-se. Tenham coragem!

Por que não? Promovam um golpe ou sei lá o quê. Nossa terra é farta desse tipo de iniciativa. Faz muito pouco tempo, tivemos mais um. Há uns 3, 4 anos. Se não me engano. Muito tempo não acham. Diante disso tudo, um mês se assemelha a uns seis meses, um ano.

Peço-lhes somente que se decidirem por essa via, que o façam de modo indolor e sem maiores balbúrdias, caso contrário, vamos todos para o poço fundo. E devo, como capitã da máquina de produzir claustrofobias e ataques de nervos, alertar a todos que suponho que a queda pode ser grande e, sobretudo, fatal.


NF:


Dessa vez, ao invés de quase se apagar, a luz do elevador aumenta de intensidade. O ventilador está com a sua rotação máxima. Pouco a pouco, o elevador, começa a balançar para os lados. Os olhares desses confinados demonstram muita aflição. Parece mesmo que vai despencar. Eles estão mudos, preocupados.


O menino, também aflito, interrompe aquele mutismo para concluir a sua história:


- Por favor, ‘jovem ascensorista’! Não é necessário tanto... E eu concluo rapidamente: os meninos, aqueles de quem falava agora pouco, carregavam uns estilingues e umas pedras grandes assim (Abre os braços simulando o tamanho das pedras. Obviamente, exagerado) para em seguida apontarem para o topo daquela árvore antiga que descrevi para vocês e ‘tum’, tum’.

 Quando conseguiam acertar um desses ratos voadores, fazíamos festa. ‘Menos um’! Gritava um dos bravos caçadores... E se tivéssemos uma bola de cristal, feito a Emília, poderíamos ter eliminado todos os morcegos daquela época. 

Faríamos um tipo de expedição mundial e isso se tornaria uma profissão; com mesada e tudo! Teríamos diminuído a população desse bicho nojento e evitaríamos os graves problemas que dizem existir num mundo que eu não gostaria de estar. Imaginem isso: ficar com uma doença grave e que ainda por cima impõe confinamentos para todos e por tempo indeterminado? Confinados por confinados, estamos aqui trancados nessa caixa de metal. E já deve fazer um tempão porque o meu cabelo começou a crescer; assim como as unhas! 

A senhora – dirigindo-se à senhorita e com quem passou a ter uma relação mais afetiva- já procurou ver se o seu cabelo também cresceu?


Nesse momento, ela se vira para o espelho e retira cuidadosamente a peruca que usa, exibindo a cabeça quase raspada. A mesma que mostrara anteriormente. Ela, desolada, murmura:


- Infelizmente, parece que não. Não cresceu nada.


(Ela mexe com uma das mãos na cabeça pelada por conta do tratamento quimioterápico que fez por muitos anos. Tendo a peruca loira numa das mãos, ela faz pose diante de o espelho e continua a mexer na cabeça com a mão desocupada que lhe resta). 


Ela sorri:


-Viu? Não brotou nenhum cabelinho novo, mas até que estou, podemos dizer, charmosa. 

Um importante escritor brasileiro, já falecido, afirmou que o brasileiro só é solidário no câncer. É forte; é duro de escutar algo assim. E sabe o que é o pio: é que ele tem certa ou toda razão. Acrescentaria, porém, que ele pode, o famigerado câncer, diante de tantos efeitos colaterais, tal como esse que lhes mostro, exibir uma outra estética, sobretudo, para as mulheres: um novo estilo; uma outra forma de beleza. 

Vejam vocês mesmos, meus caros e caríssima companheira dessa jornada meio absurda: não estou bonita?


A ascensorista:


-  Claro que sim, senhora. Acontece que a senhora tem um rosto bonito, traços finos e delicados. Além desses olhos expressivos. Fica menos difícil não manter certa beleza; mesmo sem os cabelos que para nós, mulheres, fazem muita falta. Tem mulher que é só cabelo, por exemplo.


O menino:


-E outras que são só uma bunda. (Ele ri com vontade). 

Os amigos mais velhos dos meus amigos mais novos dizem isso. E olha que a tal da bunda serve para poucas coisas. Não tenho lá tanta experiência com esses temas. Porém, os amigos mais velhos desses meus amigos mais novinhos estariam errados?


A ascensorista encolerizada:


- Menino atrevido! Quando sairmos, ou melhor, se sobrevivermos a isso daqui eu juro que lhe darei umas boas palmadas. 

Já prometi isso antes, mas tomara que não me esqueça do prometido. Algum dos senhores, por favor, ajudem-me a lembrar dessa promessa. Não quero passar por um daqueles políticos que citei há pouco e que moram perto de mim. Costumo cumprir as minhas promessas. E por falar nessa gente, teremos eleições em breve, não? 

Essa democracia nos impõe essas coisas. Eleição ano sim, ano não...Promessas que se misturam com mentiras- porque o cidadão candidato bem sabe que não vai cumprir aquilo que ele e o seu partido prometem-. Sei que irão dizer: como é ignorante essa moça. Esqueceu que passamos 25 anos sem direito a escolhermos o futuro presidente e 18 sem podermos votar para Governador; vinte e um para prefeituras. Ditadura. Sim, eu sei. Vivi. 

Tive conhecido que foi preso; tive conhecido, lá no meio do samba e do candomblé, que sumiu para nunca mais. Nunca mais, quero esclarecer.Isso é algo bastante poderoso. Parece tragédia. Feito perder alguém. Vocês certamente já atravessaram algo assim: a pessoa, de repente, desaparece. Morrer é isso. ‘Tchum’. Foi-se.


NF:

O menino, assustado pela contundência com que a ascensorista lhe ameaçara, prefere manter-se calado. Ele mantém os olhos arregalados e acredita-se que tenha percebido que aquilo que se passa entre o cabeçudo e o boquirroto merece maiores atenções, cuidados. Explica-se: 

Não se deve achar que sair falando tudo o que se passa pela cabeça, através da matraca, não trará alguns possíveis efeitos colaterais, em algum momento. 

Considera-se então a precocidade do protagonista.


Jovem Rapaz:


- É fato que o nosso mais juvenil companheiro de jornada sadomasoquista, essa clausura sem tempo determinado para o seu fim, tem esses arroubos – e que são bastante comuns para sua idade- mas também é admirável esse modo tão peculiar de funcionamento. Não se pode lhe negar uma boa dose de coragem. Ainda que sob o formato desse atrevimento irritante. 


- Não deveríamos confundir coragem com atrevimento. Esse destemor é típico de quem supõe, justamente por ser tão jovem- e no caso dele parece que se trata de alguém bastante saudável- que somente os mais velhos é que têm o ‘privilégio’ de se arrebentar; machucar-se; morrer. - O Eu se intromete na fala do intrometido mor.



JR:


- O senhor tem razão. Entendo inclusive que, aproximando-se de uma idade mais avançada, estejas receoso quanto a esses assuntos que envolvem doenças, morte, etc. 

Tenho esses mesmos exemplos na minha família: hipocondríacos, viciados em remédios, doenças. 

Eles são mais assíduos na frequência semanal, em certos casos diária, nas drogarias do que em qualquer outro lugar.

Sabem todos os preços dos medicamentos; colecionam folhetos explicativos sobre os próximos lançamentos da indústria farmacêutica; têm preferência no atendimento quando lá estão e chamam e são tratados pelo nome próprio:


‘ Oi, fulana; oi, beltrano. Já receberam aquele antibiótico de última geração’? Não vai me dizer que só vendem com receita? Afinal, vocês me conhecem de outras infecções, não é mesmo? 

Eles se entendem dessa forma. Logo, podemos ficar um pouco mais tranquilos. O senhor está em boa companhia. São pessoas dotadas de uma razoável Cultura. Evidentemente que a obra literária que mais os afeta- quase unanimemente- é aquele clássico francês...


O menino bastante excitado:


- Crème Brûlée! Minhas tias faziam para mim. Uma delícia de sobremesa.


NF:

Diante do espanto e com os respectivos estômagos revirando de fome, após tanto tempo sem comer uma refeição descente, a vontade de cometer um infanticídio ou ‘adolescenticídio ‘ crescia. E estava estampado no rosto de todos os outros presentes. 

Ele tenta se explicar:


- Calma, pessoal. Entendo que estamos famintos, mas então se por acaso esse é o problema, eu me lembrei de um outro clássico francês: Paris Saint Germain contra Olympique de Lyon. Grande clássico dos gramados. E não se restringe mais aos domínios franceses. Já se tornou uma atração internacional; continental.

Gostam de futebol, não?  


NF:


Alguns risos tímidos ecoam naquele ambiente claustrofóbico. A senhorita, que se tornara uma ebulição de sentimentos bipolares, era a que mais se divertia com essas tiradas inoportunas, mas inteligentes, do seu admirador juvenil.


Aquele que iniciara essa contenda, o jovem rapaz, tenta esclarecer o imbróglio suscitado:


- Ah Ah Ah.. Realmente temos que reconhecer que o nosso mais jovem companheiro de jornada nos brinda com cada uma... Pequeno ser: quando mencionei o que chamamos (Na verdade, o que eles lá da França resolveram chamar, denominar) dizia respeito a um estilo literário, a um estilo artístico característico de uma época. Nem sei ao menos se era esse mesmo o estilo, contudo, foi um livro muito importante, melhor dizendo, a última peça de teatro, escrita por Molière: ‘O Doente Imaginário’. Ele morreu poucos dias depois da primeira apresentação em Paris. Um hipocondríaco divertidíssimo! 

Devemos nos ater para o importante fato de que a hipocondria é um sintoma doentio grave. O cidadão não acha que tem as doenças, os sintomas que diz ter e que ninguém ou nenhuma medicina possível consegue provar: ele acredita piamente que sofre daquilo. E além disso, pobre do médico que cair na esparrela de tentar curar o pobre diabo. Será feito de tolo e ainda por cima ridicularizado para em seguida ser odiado. Tornar-se-á seu pior inimigo. O nome do principal personagem da obra é Argan. 

Aqui no Rio, nessa cidade ou naquela cidade de antes, uma das últimas encenações desse texto, eu tive a sorte de assisti-la. Quem interpretava o hipocondríaco do Argan era o Ítalo Rossi. Excelente ator que, infelizmente, já morreu.

 O Ítalo, entretanto, deixou uma mensagem para jovens candidatos ao mesmo ofício que o dele: ‘Talento é algo importante para se começar uma carreira. É uma espécie de habilidade, aptidão para o ofício. Mas o que sustenta a trajetória é o esforço, o estudo, o conhecimento, a cultura, a dedicação. Isso é que o fundamental. ’ Sábias palavras, não é mesmo?


O menino, visto que foi citado, anima-se para mais um comentário:


- Essa ‘Mulher’ que você citou e que teria escrito essa peça para teatro, ao menos, era bonita? Onde ela está morando? Será que ela conhece a Emília do Lobato? 

Essa doença de achar que é mais doente do que os outros, eu já tinha escutado sobre isso na minha família. Tem gente que usa até iluminação branca dentro de casa para se sentir mais perto do hospital.


Nessa hora, quem parece rir com certo ar de vingança resguardada é o Eu:


- Quá quá quá quá quá.. Como diria o pato. Aprecio o seu esforço, mancebo arrogante, em tentar educar, esclarecer, aqui, para o nosso menino atrevido, mas deveras inteligente, ao mencionar obras importantes da cultura internacional (Como nesse caso de Molière, também conhecido como ‘João Batista’, utilizando com dose calculada de preciosismo vocabular expressões vetustas, até ultrapassadas: ‘ tornar-se-á ...’ Bravo, bravíssimo. (Ele aplaude discretamente e com nítido ar de deboche). 

Existem aqueles que detestam esses recursos. Nesse caso, usar essas mesóclises gastas. O senhor foi, mas creio que não porque és tão garoto, eleitor ou admirador do ex-presidente, ex-prefeito de São Paulo, o Sr. Jânio Quadros?  Tomá-lo-ia o enquanto candidato se pudesses? Ah.. E antes que me esqueça. Mandar-lhe-ão, eu e alguns autores, para a puta que lhe pariu: os autores mediante as irritantes mesóclises; quanto a mim, além disso, por teres insinuado sobre a minha pretensa idade e suas vicissitudes. E quanto a você, nobre menino:

Não é uma mulher que escreveu a obra mencionada e tão importante. Foi um homem talentoso com a escrita. Nascido na longínqua Europa; precisamente, na bela França, no século 17.

Se vivo estivesse, estaria com 347 anos. Velhinho, não? Também não creio que tenha, o João Batista, (‘En Français , Jean Baptiste’.. com direito a biquinho’..)  conhecido ou sabido da querida Emília. Nem tampouco sobre o seu criador, Lobato. 

Lamento se o decepcionei com essa narrativa, mas é muito importante que as pessoas, ainda mais se forem crianças, saibam dos fatos ocorridos. Sem maiores rodeios.

Entretanto, não nos deixemos não cair em tentações. Até porque seria impossível evitar a todas elas. Quem, afinal, não gosta das magias e dos milagres lúdicos de Lobato, através das diabruras da boneca de pano? 

Emília, fico a sonhar, poderia nos retirar daqui. Será que ela não teria antevisto a praga ameaçadora que atingiu- segundo os rumores vindos do mundo de fora, antes de ficarmos aprisionados desse mal jeito-, e com isso nos ajudado? Emília pode funcionar muito melhor do que santos e deuses já tão cansados; tão desgastados. Feito as mesóclises...

Dir-se-ia algo contrário? – Ele acaba seu ‘semi- libelo’, encarando fixamente o jovem rapaz. Esse, por sua vez, está semiparalisado. 


S:


-Declarações de amor à parte, creio que deveríamos nos preocupar um pouco mais numa estratégia eficaz que pudesse nos retirar, a salvos de preferência, desse maldito confinamento; maldito elevador.

O garoto começou a falar em comida, sobremesas.... Estamos sem nos alimentar ou beber água faz um tempo. Eu notei que vocês tinham umas garrafinhas com água, logo que entraram aqui, aliás nem me ofereceram um gole sequer, e que beberam tudo. O que me salvou foi aquela fruta que comi e...


As:


-Não nos ofereceu também. E não era só uma. A senhora comeu umas duas ou três.


S:


-Isso já faz parte do delírio que acomete alguns aqui presentes. Tenho certeza -e isso deve estar gravado ou escrito em algum lugar- que lhes ofereci assim que comecei a comê-las. Tenho bons modos.


As:


- A senhora está certa. Não é verdade que não nos tenha oferecido. Apenas para constatar que ao nos oferecer, a senhora apontava uma faca, e dessas bem afiadas, na nossa direção. Essa mesma que utilizava para descascar as frutas. E para piorar: Apontava a maldita com gosto e certo prazer nos olhos.E a sua expressão facial, proveniente do seu belo rosto, não era nada amistosa. Pergunte aos rapazes? Duvidas da minha palavra? Já devem ter percebido que não gosto de mentiras.


NF:


O calor, o desconforto, a impossibilidade de sair dali e ir para outros lugares; encontrar outras pessoas; voltar para casa; perder-se na rua ou no mundo. Namorar; ficar só e muito bem acompanhado/a. Tomar um porre; falar mal daquelas pessoas sem que elas tivessem chance de responder ou retrucar (Isso também pode indicar bons modos.); a fome, a sede, o cansaço e todo o resto que não conseguimos rastrear. 

Tudo parecia chegar ao platô da paciência.

Essas birras e diatribes que se multiplicavam, retratavam um gradativo aumento no nível de impaciência. E não era à toa: já se passavam muitas horas, talvez um dia inteiro, desde que aquele maquinário que sobe e desce havia entrado em pane. E o pânico era o que poderia atingir a qualquer momento, novamente, essa gente confinada. Essa gente que, gostando ou não, foi se tornando muito íntima uma das outras. 


O Eu:


-Pouco me importa se a senhorita comeu uma fruta, duas frutas ou três, senhora ascensorista, e que o olhar dela reluzia ódio pelos demais infelizes que aqui nos fazem companhia, até porque costumo ingerir frutas com alguma parcimônia por causa do risco que esse hábito pode gerar em termos de saúde. Tenho uma leve esteatose no fígado e que andam dizendo que pode ser causada por ingestão excessiva de frutose. E sabe por que lhes aporrinho com essa ladainha? Porque eu passei uma parte da minha existência culpabilizando a inocente da cachaça; aquela picanha (Eu disse picanha e não piranha) gordurosa.. Tudo aquilo que é tão bom e engorda.. E no caso da profissão mais antiga remetendo a uma certa imoralidade. É por essas e também outras que devemos relativizar um pouco as nossas acusações imprudentes ou tentativas de linchamento. 

A opinião pública tem esse modo de funcionamento, isto é: linchamento. Nessa era de calúnias cibernéticas então, o estrago tem a velocidade do avião a jato e o alcance de um continente; quando não, do planeta.  Igual a esses micróbios que contaminam pessoas desde sempre. Interessante a vida desses seres microscópicos. Bactérias, vírus, fungos...Uns canalhas invisíveis, mas- aqui entre nós- bastante eficientes. Quanta vontade de viver, não é mesmo?

Na contemporaneidade dessa nossa existência (donde essas exibições inesgotáveis, imensuráveis; narcisismos histéricos, alguns grotescos, bárbaros), o senhor do tempo presente é um ser invisível aos olhos desnudos; à percepção incompetente. Nossa incompetência; nossa ignorância.



Senhorita:


-Insisto, caros e cara senhora, que estou mais interessada em pensar num modo de sairmos daqui.

Como já disse e até demonstrei ao fazer o meu ‘strip tease’ capilar, uma certa agonia me atinge pois se o dia da semana que virá após o dia que eu suponho que ainda seja o que nos convencionamos a chamar de hoje, ou seja, amanhã, tenho agendada uma sessão quimioterápica. Eu ainda não me livrei desse problema. E posso até não me livrar; não me curar. Portanto, tenho certa urgência. Levando-se em conta que não temos nem ao menos como estabelecer algum contato exterior...

 Esses abomináveis aparelhos metidos à besta e que não funcionam num momento crítico como esse ( Ela sacode o celular que acabara de retirar de dentro da sua bolsa cara, com força, achando que isso resolveria o problema).

Merda! Mil vezes merda! E aqui nessa joça de elevador não se consegue fazer esse interfone ou telefone, sei lá, funcionar também. Será que estamos mortos para o resto da cidade? Ninguém sente a nossa falta? Já se passou um tempo suficiente para que viessem nos resgatar. Será que se começássemos a berrar, adiantaria?

 A senhora ascensorista já apertou aquele botão do alarme, aquele logo ali embaixo daquele outro, e nada...


JR:


- Não, senhorita. Por favor, eu vos peço: não comecemos a berrar porque a situação ficaria um pouco mais insustentável. E o nosso amigo aqui ao lado- do qual não sabemos nem o nome- iniciaria uma conferência sobre os berros e suas origens; etimologia, etiologia, etc e tal. Por falar nisso, meu nome é Jorge. Na verdade, não é bem esse, mas finjamos que sim.


‘E por que diabos temos que fingir um nome que não é o nosso nome de fato? ’- Os três adultos indagam.


JR ou Jorge:


- E por que não? Se até o presente momento, não fizemos a menor questão em nos identificar pelos nomes próprios ou um apelido qualquer.. Qual seria o problema se sustentássemos esse teatro que inventamos espontaneamente até o fim dessa jornada? Se sobrevivermos, é bem verdade.


-Legal. Podem me chamar então de Pedrinho. Melhor: príncipe das águas claras. Sim.. Príncipe das águas claras. Sabem o porquê? Porque o Pedrinho era um tipo de chamego da Narizinho. Eram primos. Mas dizem, os adultos amigos daqueles adultos que conhecem os meus amigos, que esse tipo de sacanagem existe nas melhores famílias. Eles diziam umas palavras engraçadas porque são meio esquisitas: amor recôndito; paixão recolhida. E aí depois disso diziam em voz alta para que todos pudessem escutar: ‘ É sacanagem mesmo. E quanto mais proibitiva, imoral, mais gostosa é.’. Isso é verdade? Ah.. Só para completar o raciocínio: o príncipe das águas claras era uma paixão da Emília. E por aquela boneca, faço qualquer coisa!

Portanto, respeitável público de 4 pessoas + 1: 

‘Sou o pequeno príncipe das águas claras ou se preferem, o pequeno príncipe dos aprisionados dentro dessa porcaria de elevador’. - Encerra sua cena com os braços abertos, virado de frente para o espelho; sorriso aberto e feliz.


NF:


Esse espelho é aquele tal que fica no fundo dessa tal difamada porcaria, o elevador, e com o qual os nossos personagens, agora nomeados por eles mesmos, fazem de conta de que se trata de um palco por onde podem avistar um público imaginário; um público sonhado. Um leitor ao menos? Seguidores? Na era de redes cibernéticas são seguidores, influenciadores digitais, ‘youtubers’...

Pausa.


De fato, existe esse momento em que a necessidade, quase vital, de encaminhar as letras, as palavras, ideias, os parágrafos, a um determinado ponto em que possamos chamá-lo de fim, enfim: avança e.… paralisa. Logo em seguida, recomeça e estanca novamente.

O ato de estacionar traduz uma espécie comum de resistência que mistura muitos elementos, incluindo nesse hall, uma censura interna que se pode também chamar de estupidez. Que não esqueçamos da pretensão, da arrogância, da incompetência...

 Ela, aquela censura mencionada, sempre haverá do lado de fora independente das nossas doenças pessoais: podemos chamá-la de crítica, por exemplo. Afinal, não queres uma interlocução? Uma companhia ao menos?

Mas se a gente der muita trela, muita corda ( como se dizia outrora) para isso, ou seja: resistir nada mais será do que insistir em resistir; correndo-se o risco, mesmo que sob o aspecto de se estar parado, estacionado, de virar linchamento. 

O linchamento, nesse caso, de quem correu o risco de se arriscar tentando produzir algo. Linchamento esse impetrado pelo infeliz que tenta, pretensiosamente e tão somente, contar uma história inventada; um fato outro. E que seja, no mínimo, inteligível. Interessante ou não? Para quem? Valeu a pena? Foi bom para você?

‘Espelho, espelho meu’...



- Aceito o desafio e posso passar a me chamar de ‘um Eu sem nome’. Inspirado nas reminiscências dos tempos daquela marca de sorveteria que também não o tinha. - O Eu, enfim, aceita a proposta do seu novo rival.


- Protesto! - manifesta-se o menino, ou melhor, o pequeno príncipe das águas claras:


-Não aceito essa comparação porque segundo informações que, o senhor mesmo ou um outro alguém aqui presente forneceram, essa sorveteria oferecia os mais diversos sabores. Aposto que o senhor não tem tanta diversidade assim. 

O senhor é muito...muito... Ah, lembrei: pre-ten-si-o-so. Palavra paroxítona. E tem esse hiato aí do sio. Viram, gente metida à besta: essa aula não faltei. 


O Eu sem nome:


- Pois é justamente aí – outro hiato só que nesse caso é um dissílabo- que vossa senhoria (Permita-me nomeá-lo também desse modo, afinal, tornou-se um príncipe por decreto próprio ou por decreto da boneca de pano, Emília, e seus milagres, talvez imprudentes) equivoca-se. 

Um eu pode abrigar inúmeros personagens. Lembremos dos poetas e seus heterônimos. Vejamos os bons exemplos dos atores e das atrizes: camaleônicos, multifacetados. Se não houvesse disponibilidade para mudar, não apenas de nome, mas de rosto, postura, modos, etc:

 Eles não conseguiriam. Portanto, o Eu pode ser sem nome; ele pode ter os mais diversos apelidos.


O Jorge, de mentirinha, revolta-se:


- Absurdo. Estás a zombar de todos nós com essa tergiversação de araque e recusando-se a nos dizer ao menos um nome, que por mais fictício que o seja, serviria como um ponto de referência mediante a nossa aflição demasiada longa... Datavenha...


O Sem nome ou vários nomes, O já conhecido Eu, ameaçou repreender aquele jovem pernóstico rispidamente. Contudo, ardiloso como só, preferiu investigar, perguntando-lhe:


-Datavenha. Curioso porque achávamos que fosse, apesar da farsa confessada, o Jorge! E não faço essa colocação com nenhuma ironia má intencionada justo que aqui, na antiga Guanabara, onde São Jorge é uma espécie de ídolo com direito a feriado estadual. 

Dizem que se trata de um feriado raiz; aquele que não tem lero lero ou enganação; ponto facultativo ou atestado médico, a fim de permitir que se dê uma escapadinha que dure até 8 horas para um aprazível banho de mar. 

Oito horas para um mergulho e um ar puro à beira mar são suficientes para o ponto facultativo, não é mesmo? Não há expediente e ponto.

Desculpe-me, todavia, pela curiosidade, até certo ponto tardia e avançando para um outro tema:

 O que fazes da vida? O que pretendes com a vida? 

E vos explicarei: 

Desde o momento que nos confinamos, percebi na capa de alguns dos seus livros que o tema jurídico 

lhe apraz. Vi por ali, reluzentes, uns ‘espíritos das leis’, códigos de processos civis, penais...

Vossa senhoria, ou melhor, você, jovem Jorge, é advogado, promotor? Juiz ou alguma outra função, hierarquicamente acima, creio que não até pela sua, não menos reluzente, jovialidade?


JR, Jorge...


- Sim. Sou um jovem advogado e alcancei uma colocação de bastante destaque na prova da Ordem dos Advogados. Já que lhe interessa saber.

 Quanto ao futuro, tenho as minhas pretensões e ambições. Porém, eu não sou tão pretensioso como vossa excelência. Algo constatado até pelo nosso menino-príncipe, aqui presente. 

Permita-me também uma questão:

-Tens alguma coisa contra o judiciário? Ou terias algo a esconder, algo relevante por suposto, desse mesmo poder judiciário? 

Percebo um filete de suor a escorrer pelo seu rosto. Um rosto, digamos, já nem tanto jovial.

 Que não me leve a mal, mas o senhor há de reconhecer que somos uma espécie curiosa. Não somente os advogados; refiro-me a espécie humana de um modo geral.


O EU Sem Nome:


- Futricas, fofocas. Tão somente isso é que vem alimentando, nutrindo, a população, não somente nacional, mas global. É a imprudência plena a serviço do já propagado linchamento público ou privado. Dependendo, evidentemente, da extensão do estrago alcançado. 

É para vossa segurança, visto que estamos muito próximos uns dos outros e num ambiente fechado, pequeno e por certo numa altura considerada – desde que esse aparelho mecânico ‘desfaleceu’-, eu não tenho nenhuma pendência jurídica. Tampouco frequentei delegacias ou tribunais e nem tive que me dedicar aos estudos desse campo. O que talvez tivesse me garantido algum conhecimento adequado para oprimir, intimidar terceiros.


Jorge, O Jovem:


-Engana-se mais uma vez, senhor.

 Eu não faço essa formação com intuitos de opressão. Muito ao contrário: eu a faço na intenção de que se cumpra o ordenado; o combinado; o constituído. E não detenho a sabedoria plena, muito menos, plenos poderes.


-Nós sabemos disso. E nem poderia. Para que existe – tal e qual em outras áreas, profissões- hierarquia em vosso campo? Advogado, promotor, procurador, juiz, desembargador.... Porque todos são passíveis de erro. E assim como nós, feito de gente, cometem os erros do mesmo modo. - A réplica desse eu, que diz habitar outros eus, não demorou. Foi rápido como um hábil e ardiloso tribuno. E acrescentou:


- Alegra-me, todavia, que o senhor respeite e considere a constituição. Diriam os mais antigos: recorrer sempre ao livrinho.

 Havia um político dos tempos mais antigos que dizia e andava com a nossa constituição no bolso. Sempre que provocado, ele o consultava.

Antes que me esqueça: 

O senhor não acha que poderíamos, com vosso auxílio, impetrarmos uma ação contra esse condomínio por causa de tudo o que estamos passando? Sequer conseguimos pedir ajuda. Uma negligência que está nos custando muito caro, não acha?


-Homicidas! Se for um advogado competente, poderemos processá-los por tentativa de homicídio doloso. Aquele em que não há intenção de matar. E temos ainda o agravante de estarem confinando uma criança e uma pessoa com enfermidade grave, no meu caso, e que pode se agravar se por um acaso me ausentar da minha sessão quimioterápica. - A senhorita, atenta à prosa dos dois homens, intromete-se e com firmeza.


Jorge..


- Vamos com calma, senhorita. 

Não que não tenhas razão no que diz respeito à possibilidade de acionarmos judicialmente quem quer que seja e que esteja relacionado à administração desse condomínio. A questão diz respeito aos termos aplicados; suas razões, justificativas. Quais seriam as argumentações para a queixa? Homicídio é um pouco forte. Ainda que culposo, e não doloso, seria bastante forte.

 Nós não temos evidências, muito menos provas, ainda, de que esse incidente tenha sido provocado por um erro grave dos administradores desse edifício. 

Teremos que realizar e aguardar resultados de uma meticulosa perícia técnica. Isso custa tempo e dinheiro. Não é impossível, mas não se deve mover uma ação contra alguém ou contra uma pessoa jurídica sem maiores argumentações, pertinência legal. O tiro, sem querer recair em lugar comum, mas é o que conseguimos, pode sair pela culatra. 

Senhora, ascensorista: é importante saber que nos diga:

Esse problema já aconteceu antes? A senhora soube de algo semelhante ocorrido? As manutenções são feitas regularmente?


Ascensorista:


- Assim, desse jeito, não. Demorado desse jeito, nunca soube. E já estou aqui há muitos e muitos anos. Quase da mesma época em que foi inaugurado, a minha estada nesse caixote metálico. Aconteceram pequenas falhas e o serviço de um ou outro teve que ser interrompido, mas dessa forma.... Sem ao menos conseguir chamar o serviço de emergência: nunca fiquei sabendo. 

Acredito que se tivesse tido uma zique-zira como essa, aquele velho fofoqueiro, aquele do outro elevador, aqui ao lado (ela indica com o dedo a posição onde se posicionaria o ‘rival’ de sobe e desce. Faz uma careta enquanto fala.), teria contado para todo mundo. Ora, se não...

Aquele velho bem que pode ter inventado essa tal de fake não sei das quantas que os senhores tanto falam. Do início da jornada até o fim do expediente; do térreo até o último andar, ele já teria posto a boca numa tuba e não no trombone; que é menorzinho.   

Velho mexeriqueiro; futriqueiro dos infernos.

Tentou se engraçar comigo, certa vez. Imaginem isso? Aquela criatura quis me convidar para um baile. Disse que era forrozeiro dos bons.

 Veio lá das latitudes, isso é, do Nordeste, e que dançava desde menino. E fazia gestos, o impertinente; imitava como se faz no forró. E ele gargalhava e dizia assim:

‘ Calma que é uma dancinha sem vergonha mesmo’!

Hoje, nessa modernidade toda, eu iria faturar uma boa grana. Diria, e o doutor advogado aqui presente pode também me ajudar, que ele me cantou. Não é bem essa a palavra que está na moda, mas o sentido é esse mesmo.


Senhorita (lânguida, e sempre atenta):


- Assédio, amiga. E que não vejas isso como algo, necessariamente, ruim. Pode ser um bom sinal; sinal de que a senhora é desejável; comível...


O Eu, indignado:


-Senhorita, faça-nos um favor! Meça suas palavras. A senhorita mesmo nos lembrava quando indagava se era possível uma ação criminal contra esses manda chuvas de condomínio pela nossa situação de aprisionados, relevando o fato de que há um ser de menor entre nós. Uma criança! Portanto, cuidado com os termos que usa.


Ascensorista, radiante:


- Opa! Adorei. Agradeço a senhora por essas palavras tão animadoras. É sempre bom quando alguém reforça a nossa autoestima, não é mesmo? Acredito que quando sairmos dessa ‘prisão comercial’, vou olhar para o velho com outros olhos. Será que ele também está aprisionado, aqui ao lado? Fiquei curiosa. Coisa bem normal, não é? O senhor mesmo disse que a espécie gente é curiosa. Estou até arrepiada. E então,...


Ela começa a gritar: 


- Velho, velho! 

Perdão pelos meus desaforos, pela minha irritação. Você sabe como é mulher? 

A gente tem aqueles dias do mês, todo mês, até uma certa idade, em que você não se reconhece. Dorme de um jeito e acorda de um outro. 

O Juvenal – que ele não nos escute, se não estou frita, morta- brinca que eu pareço um outro ser nesses dias.

Ele assistiu um filme de terror, quando era criança, num cinema que nem existe mais, e a menina do filme recebia um demônio que fazia com que ela flutuasse. Ela virava a cabeça, ficava cinza, vomitava verde... Era a menina-diaba. Ele brinca com isso. Mas diz que eu fico um pouco parecida com essa menina naqueles momentos. Então, foi mal. Você me perdoa?

Olha, o meu nome é Rosilda. Não sei o seu nome ainda, mas você tem um jeitão para Reginaldo.

 Não é nem que tenha tanto jeito de Reginaldo. Acontece que gosto de nomes que começam com R.

 Quando eu perdi a virgindade, por exemplo, naquela moita, após o baile...AhAhAhAh quantas saudades!


Jorge, intromete-se:


- Senhora, ascensorista. Agora, serei eu que terei que interromper vosso tão dramático e enfático relato pelas mesmas razões que o Senhor Sem Nome, e ego múltiplo, justificou há pouco.

Creio que não seja o momento adequado para essas revelações tão íntimas, pessoais. E lembrando sempre sobre a presença de um infante no nosso recinto comum.


O infante, pronunciando-se:


- Não se preocupem comigo. Estou gostando muito dessa baixaria. Os amigos dos amigos dos meus amigos, aqueles grandões, adultos, sempre falam sobre essas coisas. É sexo isso daí, não é? Ou melhor: é a tal da sacanagem, não é?

Só não entendi quando a senhorita disse que a senhora ascensorista é comível...

Por que se estamos aqui, esse tempo todo, e sem comer coisa alguma? Quer dizer que podemos então comer a senhora ascensorista? Isso nem a Emília seria capaz de, naquela caraminhola dela, pensar a respeito. Será que o pai dela, aquele Monteiro, escreveu sobre isso e eu não fiquei sabendo? Em que livro posso encontrar essa parte?


A senhora não tem uma faquinha bem afiada? Então.... Já temos um instrumento para usar. Ou ele não serviria? Ela está um pouco rechonchuda, verdade, e essa faca talvez não dará conta do serviço. É isso?



-Moleque abusado! 

Rechonchuda é a puta que lhe pariu!

 Agora ninguém mais me segura: vou te matar com as minhas próprias mãos. - A ascensorista se levanta da cadeira e ...


Senhorita!!Senhorita! – Gritam os dois homens adultos enquanto se debruçam sobre o corpo desmaiado daquela pobre mulher.


Jorge:


-Ela está morta? Vou desmaiar. 


O Eu:


-Não comece com chiliques, hein? 

Preciso de algum outro homem para ajudar. Não vê que a situação é delicada? Vejam! Ela parece que perdeu sangue.


Jorge:


- Mas como pode ter acontecido uma desgraça dessas? Só se ela bateu com a cabeça ou outra parte do corpo e abriu um ferimento. E o pior é que não temos nada que possa servir como curativo.


Ascensorita:


Rapazes, ou melhor, senhores:

Vejam ao lado dessa mão direita sobre a qual ela caiu. A maldita faca.... Ela se cortou?


NF:


Os dois adultos mexem cuidadosamente no corpo da senhorita e descobrem algo que os assusta:

Ela teria se ferido com a faca que portava. E o que se imagina poderá se concretizar: o ferimento teria sido provocado pela própria.


Jorge:


Sim. Há um corte nesse pulso aqui. E pelo modo como ele foi feito, não se trata de um incidente.

Ela tem pulso e respira bem, mas temos que estancar esse sangue. Rápido, pessoal. Procurem na bolsa dela. Essa aqui; aquela mesma lá do início da nossa jornada: com letras que indicam certo luxo. Por isso é que ostenta essas letras enormes. Algumas custam o preço de um carro... usado, mas carro. Bolsa de mulher sempre tem algo para nos surpreender. Tenho até medo...


O menino e a Rosilda começam a remexer na bolsa e vão encontrando diversas coisas. Contudo, nada que servisse para realizar algum procedimento que estancasse o sangue. 


Rosilda desolada:


-Bolsa de mulher é um problema crônico. Bolsa de madame então. Tenho medo também que algo muiiiiiito, mas muiiiito pessoal apareça. Acho que encontrei algo. Não. Ah, sim. Uma carteira.


-Oba! Carteira. - Vibra o infante.


Tire já as suas mãos delinquentes daí! Garoto abominável. Caso contrário aquela cossa que lhe prometi não tardará, entendeu? - Rosilda, exasperada, está à beira de um ataque de nervos.


-Calma, Dona Rosemary. Não fiz nada. Apenas achei que achamos alguma coisa importante.. Por exemplo: a senhora, por causa dessa impaciência toda, deixou cair isso. - A peste lhe entrega um documento, com foto, que apanhara do chão e parece que tinha caído daquela bolsa de rica.


O Eu, tomando o documento das mãos da criança abusada:


- É ela. Esse documento lhe pertence. Olhem a fotografia. Está mais jovem. Mas podemos reconhecê-la facilmente. 

Ao menos, descobrimos algo fundamental:


‘-O quê? - Os outros todos querem saber.


-Desembucha, homem.’


O Eu:


-O nome dela. Está aqui. Ela se chama Jane.


Jorge:


-Já podemos então chamar o socorro para alguém com nome próprio, identidade, registro civil..


Ascensorista:


- Lá está o senhor com suas- desculpe-me pelo excesso- cagações de regra. Não temos muito tempo a perder nessa situação. Ela perdeu uma razoável quantidade de sangue.


- Precisamos estancar esse sangramento todo. Vamos. Rápido. – O Eu se levanta e arranca a própria camisa a fim de conter o sangramento no pulso cortado. Enquanto iniciava as medidas de socorro, ele acrescentava:


- Felizmente, ela não sabe manejar a faca para esse tipo de finalidade, ou seja: se matar corretamente ao cortar os pulsos. O corte foi feito no sentido errado.


- Existe isso? Corte no sentido certo para matar para valer? - A outra senhora presente quer saber daquele que continua com o procedimento de salvamento.


- Claro que sim. Não cabe aqui ficarmos lecionando sobre isso; até porque seria bastante temerário. E sempre nos recordam que há um menor de idade aqui conosco. Contudo, apenas para esclarecer: Existem sim. Métodos mais eficazes. Existem, imaginem a que ponto chegamos, cursos, nessas redes sociais, que explicam o passo a passo de como agir com eficácia nessas horas derradeiras.

Pronto. Creio que está bem amarrada. De modo que não a prejudique e finalmente estanque o sangramento. Será que não deveríamos bater levemente no rosto da Jane? Quem sabe ela não reage? O ideal seria poder molhar um pouco o seu rosto, mas não temos nada que nos seja útil nesse inferno de confinamento.


-Senhora! Senhora! Não vá morrer agora, por favor. A senhora, que é uma moça bem informada e coisa e tal, não deveria nos fazer essa desfeita. Isso é feio, senhora! Se morrer aqui, nesse quadrado fechado e com mais quatro criaturas, como ficamos? Um defunto.... Era só isso que nos faltava. – Rosilda tenta lhe despertar; ajoelhada ao lado do corpo inerte, acaricia seu rosto, antes de começar a chorar. 


-Ora, por favor, digo eu, senhora ascensorista. Temos que nos manter firmes e pensar no que podemos fazer de melhor para tentar reanimar essa pobre criatura. Vejam aqui; olhem aqui:

O coração dela bate forte; Jane respira bem.

Ela está viva. Isso é muito bom! 

Deixe-me passar, senhora Rosilda, para que possamos erguê-la um pouco e apoiá-la contra a parede; ela poderá respirar melhor. Vamos, senhor sem nome. Assim, assim. Com muita calma para não machucá-la e piorar o que já está ruim.


NF:

 A iniciativa de Jorge parece que dará certo. Tomou a decisão que os outros não teriam feito mediante o pânico que lhes afetou. Apenas a criança nada faz, nada diz. Está paralisada, encostada próxima aos botões de controle do elevador; no lado oposto.

Todavia, ela finalmente fala algo enquanto os outros tentam salvar Jane:


-O que é esse tal de ‘Clube das Mulheres’?


-Lá vem esse menino com maluquices e destrambelhamentos. De onde veio isso agora, garoto malvado? - A ascensorista, que já está com a criança atravessada na goela, dirige-lhe a palavra com os olhos arregalados.


- É porque no momento em que os senhores e a senhora ajudavam a senhorita desmaiada caíram uns troços da bolsa dela e esse cartão aqui, com esse nome, Jane... Não é esse o nome dela?

Aqui está escrito ‘Clube das Mulheres’, ala VIP. Isso quer dizer o quê?


Um breve silêncio feito de constrangimentos e a curiosidade infantil (E não era somente a criança que demonstrava espanto com novas revelações acerca da vida de Jane) poderá ser atendida com uma simples colocação:


Jorge, o Jovem:


- Clube das mulheres é um lugar onde senhoras e senhoritas- o que não impede que os valetes também apareçam- se divertem assistindo alguns ‘bichinhos selvagens’ dançarem. Essas coisas...


- E esse tal de VIP? – Crianças geralmente não querem somente uma resposta. 


Jorge:


- Isso significa, na língua inglesa que é de onde vem a expressão, ‘very important people’. Pessoas importantes e seus assentos. 

Devemos esclarecer, contudo, que esse critério de importância funciona de acordo com quem seleciona essas tais pessoas. 


Ascensorista:


- É engraçado rotular pessoas desse jeito nesse mundo que atravessou e atravessa situações em que desde o presidente de um país até pessoas como eu, recentemente, afetadas por pandemias e outras desgraças ficaram todas, sem exceção, de joelhos; de quatro. Já se esqueceram? 

Tanta modernidade, invenções, umas engenhocas que eu tenho até medo de me aproximar, e a barbaridade não nos abandona. 

O ser humano é bicho ruim; bicho esquisito. Tem aquela canção de uns meninos que gosto muito e que fala ‘ bichos escrotos’... É feito pra gente; sobre a gente. Aqui mesmo, no nosso elevador esconderijo: essa senhorita, bela e aparentemente rica, tem a saúde frágil e não aguentou o tranco. E..... Aqui entre a gente: clube das mulheres está meio decadente, não?

Uma conhecida minha, lá mesmo da região onde moro, esteve umas poucas vezes, até pouco tempo, e foi convidada por uma dessas figuras aí, VIP não sei das quantas, que ficou viúva e passou a soltar a periquita, mas por lá só teve decepção. Os caras estavam mostrando muito os músculos, as coxas... O ‘Lê lê ‘ que é bom, nada. Essa tal viúva sofre. Coitadinha.. Não é má pessoa. Dadivosa, caridosa. Bem chatinha, é verdade. Mas quem não é chato? Como dizem os mais jovens: uma mala.


O menino:


-Essa expressão até eu conheço. E posso dizer para todos os senhores e as senhoras presentes- exceto a senhorita que, nesse momento, não está tão presente- também são umas malas; uns incompetentes que não sabem nem realizar um procedimento de primeiros socorros e ainda não encontraram uma maneira para que a gente saia daqui. Já estou com dor de estômago de tanta fome e não tenho como rever a Emília, nos livros, e pedir uns favores para ela. Quem sabe um milagre?


Jorge:


- Você é uma criança malcriada e mal-agradecida. Porém, vou lhe propor algo que pode ser útil para todos nós.

 Já que se considera tão esperto e coisa e tal, porque não tenta algo da ordem da magia? Não consegue imaginar e realizar um ‘pir-lim-pim-pin’ encantado?

 Feche os olhos e peça para essa maldita boneca, ao que parece sua amiga, um favorzinho. Quem sabe? 

O senhor Eu está a me olhar com cara de desdém. Por um certo acaso, tem alguma ideia melhor? 

O garoto pode ter poderes paranormais. Nunca se sabe.... Repito: alguém nesse recinto claustrofóbico, parece até uma caixa de fósforo, tem melhor sugestão?

Ela parece não reagir. - O Eu preocupado com o estado de saúde da senhorita Jane, lamenta em voz baixa.



NF:

 A criança assustada emite uns sons esquisitos como se estivesse fazendo uma reza braba ou cantarolando um mantra.

Passava de um tom para o outro. Talvez porque não soubesse ainda qual seria a sua tonalidade específica. Sim, porque cada um de nós tem um tom. Podemos, a maioria deve desconhecer, mas tem.


Rosilda:


-Que diabos esse menino está a fazer? O senhor fica lhe atiçando e botando caraminholas na cabeça da peste. O resultado é esse.

Poderia jurar, pelos meus orixás todos e até por alguns santinhos com quem mantenho conversa íntima, que ele recebeu alguma coisa. Alguma entidade baixou por ali. Vejam: ele está tremendo. Com isso não se brinca, senhores! Não sabem as consequências que podem ocorrer. 

Quem não entende desse riscado, deveria manter-se afastado. 


-E não é só o garoto que treme um pouco. O elevador balança um pouquinho. Não estão sentindo? Não está percebendo, Jaime? Agora, um pouco mais.. – O Eu chama a atenção para o fato novo: 


O elevador se mexe novamente; a luz ameaça desaparecer e o pequeno ventilador diminui o ruído que vinha fazendo; mais uma vez.


Jorge ou Jaime: Jaime?


-  Jorge. Jorge é o meu único nome, senhor sem nome ou com todos os nomes.

Senti também esse novo balançar do elevador e os efeitos colaterais que sempre surgem quando esse ‘chilique’ acontece. Só que agora está um pouco mais forte. Nas outras ocasiões, ele se movimentava para cima e depois para baixo. Suavemente, é bem verdade. Agora, não. Prestem atenção que perceberão que ele está descendo. Devagarinho.... Desce e não sobe.


‘Sim. É fato, contudo..’


NF:

Não houve muito tempo para que a conversa fosse retomada:

 O elevador dá uma sacudida, dessa vez, bastante forte. E tal como fora descrito, para baixo. Um som semelhante aquele dos filmes de terror, quando as portas rangem, dando a impressão de que algo está se arrebentando, partindo.

 Ele se movimenta mais e mais para baixo, aumentando gradualmente a sua velocidade. O aparelho, caixa de metal ou caixa de fósforos mecânica ou ainda desencadeador de claustrofobias- como queiram- dá a impressão que começa a despencar. Está, nesse momento, em queda livre.

 

Pânico a bordo. Gritos advém de todos os lados e dimensões. Por falar em dimensão: qual a dimensão do poço desse elevador?


-Vá à merda! Isso lá é hora de querer indagar sobre as dimensões dessa gerigonça! Ó Pai: 

Não vês que estamos despencando para o juízo final. – O Eu junta uma série de personagens que supõem habitá-lo e arremessa contra tudo e todos, nesse momento tão delicado. Ele prossegue:


- Tentemos algo, senhora ascensorista. Faça alguma coisa de útil! A senhora ‘reside’ no interior dessa caixa de fósforo há décadas- conforme nos relatou. Não é possível que não haja um botão que possa diminuir ou brecar essa coisa?


- Deixe-me ver aqui. Saíam do meu caminho! – A pobre da ascensorista, apavorada, abandona o socorro que prestava à senhoria Jane, desfalecida, e tenta alcançar os botões do comando central do aparelho descontrolado.


Jorge, que já fora chamado de Jaime, só faz chorar e murmurar algumas palavras, quase todas, desconexas.


-Estás rezando ou algo parecido? – Quer saber o Eu incontrolável; minha dica é: se é para ajudar que o faça e com bastante fé porque estamos necessitados. Pouco importa que seja para orixá, Jeová, algum santo. Mudar de dúvida nessa hora não será algo tão grave. E como o senhor é advogado, competente segundo seu dito próprio, você terá a oportunidade, tempo suficiente, para negociar com essa clientela nada usual, mas que pode ser funcional para nós. Isso mesmo:

Cerre os olhinhos. Porém, não perca a maldita fé!


-Estou fazendo o meu melhor, senhor! Nessa hora não tenho o menor constrangimento em praticar o ecumenismo profundo. Apelo para tudo e para todos os sobrenaturais. - Jorge ou Jaime, tanto faz, justifica sua reza sem fim.


Ora sentada, ora em pé, diante do painel de controle do elevador assassino, Rosilda aperta com força, quase esmurrando, os botões que poderiam interromper o tal mergulho fatal. Ela agita os braços com uma agilidade pouco vista.

 Se alguém olhasse a cena, sem saber o roteiro dessa história, poderia crer que a dedicada ascensorista estivesse sofrendo um ataque epilético ou um surto psicótico (Conforme certa classificação nosológica ou patológica costuma mencionar) tamanha a intensidade dos seus movimentos.

E conforme a sabedoria popular, em terra de cegos quem tem um olhinho é o orifício traseiro onde algum parlamentar imprudente ou indecente costuma abriga, esconder, milhares de notas de grana suspeita. 


-Então continue porque a situação está muito difícil, senhores. O botão de emergência resolveu criar uma encrenca pesada por aqui. Mais um para atrapalhar. Não consigo acioná-lo. Desgraçado! Está duro, rígido feito um defunto. Jamais vivi uma situação como essa nesses anos todos de confinamento, ou melhor, de trabalho. 

Sinto saudades nessa hora do velho sem vergonha que trabalha no outro elevador, ao lado. Não que ele conheça mais desse ofício do que eu, porém, sempre é importante contar com alguma ajuda.


Menino:


-Nós vamos morrer? Quer dizer que o menino também vai morrer? Ele é muito jovem; mal nasceu.

Só porque ele passou a tarde ‘matando’ aula. Tentava se divertir um pouco passeando por essa região da cidade que geralmente não é tão atraente assim para meninos ou meninas dessa idade. Normalmente são ignorantes sobre esse tipo de riqueza.

Pois não é que o garoto se percebeu atraído, quase fascinado, ao se deparar com aquele edifício enorme, moderno, imponente feito um monstro, só que esse é feito de cimento, vidros, mármores, pedras, alumínio. Repleto de transeuntes vindos de todas as partes da cidade ou de fora. Um entra e sai de pessoas; uma invasão despudorada. Não há controle nem segurança adequada. 

Logo que ele entrou no recinto notou que um homem sofria uma crise de espirros e orgulhava-se por espalhar perdigotos para todos os lados. 

O tal cidadão fazia gestos e dizia frases sem muito sentido ( Mas sem sentido para quem? Era preciso deixá-lo falar um pouco mais; revelar-se).

 Havia um teatro efetivo naquela performance. Ele queria se fazer escutar. Ninguém se habilitava a fazê-lo, logo... Perdigotos neles! rs

Agora, sabemos quão perigoso pode ser uma situação dessas: o homem que espalhava perdigotos sem nenhum pudor.

Hei de confessar que o menino ficou assustado. Olhou aquela cena com fascínio, alegria. Contudo, era uma defesa frente ao medo que se instalara. Tudo era muito novo para ele: aquela atmosfera, aquela gente toda e aquele cidadão, supostamente, tresloucado e que após um tempo, que pode ter durado a eternidade, disse palavras poderosas, que, deveras, não recordamos; mas que podem ter sido palavras malditas contra os outros que também testemunhavam aquela cena e gargalhavam descontroladamente. 

Aquilo era sério ou tratava-se de uma pantomima? E desde quando uma pantomima não pode ser séria? Ao menos, fazer série?


Novamente, o mancebo falava sobre ele mesmo na terceira pessoa. ‘Ele’, ‘o menino’, ‘o garoto’..

 Eram algumas designações que fazia sobre si. 

Ainda por cima, utilizava um vocabulário bastante rebuscado para sua idade.


O Eu, desolado.


-Só nos faltava essa. O garoto resolveu enlouquecer de vez. Isso lembra aquelas sessões de espiritismo que os participantes recebem almas penadas e reviram os olhos; estrebucham; têm uns ataques.... Não entendo dessas coisas.


- O que esses tolos estão a falar? 

Não entendem que estamos numa operação sofisticada de contatos paranormais e passam a subestimar o que o garoto está tentando fazer.

Diante dessa situação tão terrível em que nos colocaram. Porque é evidente que fomos colocados nessa situação. Não há argumentação razoável para o que acontece. Não há socorro; não há possibilidade de estabelecer contato com o exterior; telefones que não funcionam; telefones de faz de conta. E essa senhora ascensorista que não consegue solucionar a nossa queda e o nosso provável fim.

O que restaria por fazer? Nossas técnicas, conhecimentos, arrogância a toda prova, falação sem parar. O que nos resta?

Notaram que praticamente em nenhum momento, só mesmo quando essa máquina- e que é resultado de muito estudo, criatividade- ameaçava parar de vez, ou seja, desligar até mesmo o diligente e resignado ventilador que nos mantém vivos, nenhum de nós nem mesmo esse garoto fechava a matraca, sem contar a luz que nos indicava que o dia permanecia. Sim, o dia! Porque se apagassem essa luz, teríamos a experiência real da noite.


Mas quem disse isso?


NF:


Enquanto o menino ou algo análogo a uma criança e que servia como sede para emergência daquelas frases, articulações, uma boca que abre e fecha emitindo ruídos, o elevador, bruscamente, interrompe sua queda que indicava não ter fim, iniciando uma suave aterrissagem. Suave, suave. Tal como a luz que pisca, agora, com intervalos contáveis e o ventilador que rateia, mas não morre.

Houve gritos, um breve pranto, alguns tombos, um espanto:


- O que foi? Nunca me viram? E o que significa esse monte de gente em cima de mim. Não que eu não goste de uma orgia comportada mas é que..E essa mão que se esconde na face esquerda do meu glorioso bumbum? Tem proprietária? 

Digo no feminino já que se trata de uma mão de textura delicada e com unhas compridas, pintadas. Muito bem-feitas por sinal. Se bem que isso não é, já faz tempo, condição para designar gênero ou algo semelhante. Quero dizer: unhas, delicadeza, pinturas, artimanhas, bundas...

Portanto, a fim de que não esqueçamos o que foi indagado ou mudarmos intencionalmente de assunto, que diabos está acontecendo por aqui? 

-Jane, a suposta falecida, ressuscita. Para o espanto geral.



NF:


Teria ocorrido um milagre? Afinal, ela não respondia aos estímulos nem às massagens; ao abanar das mãos sob o seu rosto inerte. Será que foi então.... Não. Não pode ter sido.



O Eu:


-Sim, parece que sim. Ficastes aí inerte, moribunda e mesmo assim tão bela. Oh! Bela adormecida e suas seduções.

Porém, bastou a sensação de uma mão, de um pedaço humano de carne fresca, por certo ou melhor, reconhecida pela própria, entre aspas, vítima ou assediada, como suave, de textura tão delicada.... E onde diabos se abrigava tal formação corpórea libidinosa? Em vosso traseiro!! Eis a resposta.

Talvez para que ressuscitasses desse sono profundo ou fingimento quase perfeito de uma atriz pornô que ‘dava pinta’, como dizem os jovens, nas baladas eróticas da nossa cidade; nas nossas madrugadas.

Sim! Eu a reconheci enquanto acariciava o seu rosto 

Confesso que não quis acreditar no que a minha memória afetiva me dizia. Seria possível? Reencontrá-la justo aqui: nesse elevador inerte; nesse castigo. Injusto, isso sim.

Vejo agora o quanto deve ser difícil uma prisão. Mesmo que domiciliar. Algumas possibilidades e quereres amputados, inviabilizados. Faço o quê? 

Viro, novamente, uma criança rebelde, malcriada? Rebelar-me-ei – perdão pela mesóclise, mas cheguei a conviver por um período, ainda que breve, com eleitores do ex-presidente Jânio Quadros (Que tinha fama de colecionar, feito joia rara, as mesóclises) e não cumprirei determinações minimamente civilizadas para nossa maior preservação ou segurança? Ou seria melhor fingir um ataque e desmaiar para receber toda a atenção, juntamente ou injustamente, com certa carícia inesperada, deveras, apreciada?


Jane:


- Eu poderia lhe dizer inúmeras coisas. Poderia não lhe dizer nada também. Talvez fosse até a mesma coisa, isto é: nada a lhe dizer. Mas esclarecerei alguns fatos:

Primeira: Não sou atriz pornô, nem puta oficial ou oficiosa. Se bem que esse critério é muito vago, inconsistente. Depende do ponto de vista de cada tarado ou tarada;

Segunda coisa: Não fingi desmaiar e lhe agradeço por explicar então a razão desse estado no qual me encontrava, ou seja: deitada nesse chão fétido, contaminado, frio, desse maldito elevador que funciona feito torturador: ora vai ora não vai; ameaça desabar; recomeça lentamente para cima; morde e assopra e sem qualquer mediação. E com bastante intensidade; certa frequência. Isso que se chama de bipolaridade nos comportamentos das pessoas. Todavia, desconfio que isso, por ser muito intenso e frequente possa caracterizar o que eles, os entendidos, chamam de surto. Uma hemorragia de coisas opostas comparecendo, não ao mesmo tempo, mas quase...

Eu sofro de uma doença crônica e que ainda não encontraram cura. 

Talvez jamais a encontrem porque a rebelião das células, esse outro surto de multiplicação de certas células do nosso organismo, seja mais sofisticado do que a nossa percepção, competência para intervir, para ver. E pode matar. Em boa parte dos casos 


Terceiro ponto:


 Lembrei-me agora do senhor, senhor multifaces. Mas um tanto previsível. O que mata sua multiface. Vejam só esses aspectos cíclicos da vida!

 É verdade. O senhor e a sua neo-caretice (Expressão de um importante escritor brasileiro e que morreu há décadas, vitimado pelo não menos maldito, porém, eficaz assassino, vírus da Aids) estavam presentes naquele delicioso lugar onde nos divertíamos à beça. 

O senhor bem que tentou me cortejar. Veja como posso ser também uma mocinha educada: cortejar. Teria sido essa a postura? O modo como se comportou, naquela noite? Ainda por cima, estando ligeiramente embriagado? E eu lhe respondi: 

Não! 

Melhor dizendo para piorar o clima: 

Disse-lhe jamais. O que torna a nossa transa como algo da ordem do irreversível. E sabe um dos porquês? O senhor, definitivamente, sobretudo após essa intimidade de confinamento forçado, não me falas à xota!  

Creio que não será preciso maiores esclarecimentos.


NF:


Não foi a primeira vez que a perplexidade se instalava naquele ambiente. 

Uma paralisia se instalava. Seria exaustão pela duração daquelas sobrevidas insistentes, permanentes?

Antes, na sequência de uma briga, com embates físicos ou não (Trocas de acusações, desaforos, provocações foram constantes) sempre havia uma reação, quase imediata. Frequentemente, uma fala reativa ao que tinha sido dito. Algo bastante contemporâneo. Dessa vez, não acontece. Por enquanto...


Ascensorista: 


- Quem diz o que quer pode colher esses frutos. Mas confesso e peço, em nome de qualquer um dos inúmeros santos e bonecas de pano que podem realizar milagres – e vivenciamos isso aqui mesmo, há pouco muito pouco tempo, porque achei que estávamos condenados, em queda livre- pelo simples fato de que não possuo mais forças para iniciar, prosseguir ou encerrar qualquer discussão ou desentendimento entre nós. 



Jorge, o jovem:


- Muito bem-dito; muito bem-posto, senhora.

 Aliás quero lhe cumprimentar pela sensatez. De todos nós, uns mais arrogantes e pedantes do que outros, a senhora foi aquela que se portou melhor. Uma verdadeira comandante, ainda que de uma caixa de metal que, supunha eu, insignificante simplesmente, consequência do automatismo da nossa correria estúpida, para tão somente mantermos alguns dos nossos hábitos – porque é óbvio que se abrirmos mão de todos eles, o que sobraria? -, o maquinário em questão conhece apenas a subida e a descida.... Estaciona um pouco, ou melhor, o modo como ele está nesse momento. E é só. 

Engraçado pois acabei de me lembrar que o meu automóvel, tão útil, caro, e que se desvaloriza assim que você lhe retira o cabaço, também possui funções bastante específicas e reduzidas. Ele vai para frente e para trás. Não se mexe para os lados, para cima.... É uma bela invenção viciada na gravidade. Deveria se chamar Newton, Isaac.

 O senhor EU, e que tem esse hábito de nomear os seus automóveis, deveria considerar essa singela sugestão, uma dica tão somente, adotando, portanto, o nome próprio do egrégio físico britânico para uma das suas futuras aquisições automotivas. O que pensas a respeito? 


NF:


O Eu hesita. Ameaça responder prontamente. Já o fizera quando a ressuscitada do elevador terminava aquele libelo contra ele mesmo. Preferiu se calar. Talvez estivesse exausto tal como relatou a ascensorista ou ‘a pessoa mais sensata daquele lugar’. E assim poderia economizar verbetes, alguma heroica gota de caloria e oxigênio. Só que nem tudo é tão previsível. Sobretudo, vindo do que chamamos de pessoas. De repente, uma voz quase inaudível ecoa:


- Acompanho a sensatez da pessoa mais sensata. Não cairei em novas tentações; e que eu mesmo tenha forças para me livrar de todos os males. - O Eu mexia a boca e essa ‘reza’ pode ser escutada.


Ascensorista sensata quase murmurando:


- Fi-nal-men-te....Apesar de não ter entendido muita coisa do que o metido do Jorge disse.


NF:

Logo em seguida, ela olha para aquele personagem tão múltiplo na vida e que está vencendo a própria vida. Um olhar que alternava ternura e raiva.

Debruçada sobre Jane, que estava encostada com as costas na parede-espelho do elevador, ela lhe diz:


- Olha aqui, sua adorável filha da puta. Você não me engana. Acho que no fundo você é uma atriz na vida e parece que é assim que se diverte; que goza…. Talvez seja a verdadeira atriz. Camaleônica. Pouco importa também. 

Tenho lá as minhas invejas da senhora e do seu rosto bonito; desse seu corpo excelente para sua idade e condição de saúde. Olha só essa bunda! Também pouco me importa se ela, a sua digníssima bunda, tenha se tornado sua porque teve grana para comprá-la, para fazer uma boa lanternagem. Esses troços que fazem por aí. Já soube até de um cidadão que se proclamava médico, andou morrendo gente na mão do salafrário, e que se chamava Bum Bum...A que ponto podemos descer , não é? E é doutor. Descia mais baixo que esse elevador.

O que realmente me importa é que não tenho e não terei pena de ti. Não a vejo como vítima de porra nenhuma. E também me lembro da senhora.

Não a reconheci durante um tempo por causa da sua nova peruca.

 A senhora sempre andou por esses lados. Mudava apenas de peruca. Simples assim, como se diz agora para encerrar assuntos que não se enceram. Aqui existem muitos homens e mulheres de negócios; profissionais bem-sucedidos. Vocês bem entendem. 

Vejam que existe até bilionário nesse prédio. Bilionário que só usa um elevador. Aquele que fica no fundo do salão. É privativo para eles e os seguranças. Sim, seguranças. Andam com cada arma (Ela faz um gesto com as mãos indicando o suposto tamanho da arma). 

Não, não precisa arregalar esses olhinhos claros tão bonitos que papai ou a mamãe lhe deram. Estou falando daquela arma. Aquela que faz ‘pápápápápá’. De uma outra.... Deixa para lá. 

Dito isso, por favor, não me arrume mais confusão por esses nossos apertados lados. Os caras estão pirando. Não percebeu ainda? O garoto já era meio pirado. Está inteirinho pirado.


Jane e seus olhos que brilham:


- Sim, senhora. Reconheço minhas atitudes e concordo no que diz respeito ao ambiente e atmosfera em que estamos, infelizmente. Só lhe peço uma coisa, já que, fazendo-lhe companhia, não tenho mais forças:

A senhora deslocou a sua mão direita do meu traseiro original de fábrica- preciso lhe esclarecer isso- para o meu seio que também está do lado direito. E a sua mão esquerda passeia, suave e maliciosamente, pelas minhas coxas. Poderia me fazer o obséquio de interromper essa sua, digamos, vistoria?



Ascensorista, pela primeira vez, corada e constrangida:


-Peço que me perdoe. Acho que é o estresse por causa dessa coisa toda. Sou impulsiva e tenho ainda muito tesão para lidar. E também para oferecer. Falei bonito? É isso mesmo. Na queda livre, o fim se aproximando....Algo novo apareceu. Senti atração pela senhorita. Se isso tivesse acontecido há tempos atrás, por certo, teríamos um escândalo ou algo parecido. Hoje, virou até modismo isso que sempre existiu, desde o tempo das pedras, para nós seres humanos. Quem sabe eu não sou que nem aquele carro que é movido a álcool, gasolina, diesel, botijão de gás (Coisa de pobre!)? 


-Flex!- Responde Jorge. Ele está francamente animado com essa confissão.


-Desconfiava que o senhor, Jorge, entenderia essa minha nova alegria. Não estou insinuando coisa alguma. É que o senhor, além de jovem, é advogado. Lida com muitos casos complicados. Vara de família.... Tem experiência, não é mesmo? - Rosilda completa sua declaração.


Silêncio.


NF:


Talvez a exaustão esteja vencendo essa última batalha. Atitudes e frases desconexas; risos nervosos e um automatismo nas respostas nos leva a crer que os confinados estão chegando aos seus limites.

E não adianta apelar para essa chicana política porque sabemos no que pode resultar. E a nossa concepção do direito não se pauta nos fatos do mesmo modo que o direito anglo- saxônico..

Ainda mais quando se vive uma situação que mais se assemelha a um surto esquizofrênico em que juristas têm que dar explicações a quem não faz a menor ideia do que seja o direito. 

O número de bacharéis em Direito que não passam na prova da ordem dos advogados aqui no Brasil

 é enorme. Se não passam na prova não poderão advogar. 

Ministros da Suprema Corte se tornaram estrelas midiáticas. Pagarão, portanto, o preço da fama que se torna gradativamente vulgar no cenário da ‘douta’ ignorância que norteia a sociedade. 

Quando as sessões na corte suprema passaram a ter transmissão televisiva, canal próprio, os ministros, à época, por desconhecer o modo como a cobertura televisiva pode funcionar, utilizavam seus computadores à vista escancarada de câmeras jornalísticas competentemente bisbilhoteiras, postadas logo atrás das suas máquinas pessoais. 


O ‘espião’ cinegrafista filmava o que escreviam, o que decidiam, o que acessavam os zeladores da constituição nacional. Uma exposição temerária e uma curiosidade, digamos, inconstitucional?

Creio que durou pouco. Foram alertados a tempo.

Contudo, os holofotes aumentaram o seu foco na direção da corte mais importante do poder judiciário. E os brasileiros/as mudando de mediadores para resolver as suas vidas. Já foram os generais (Alguns estão de volta), e agora, os senhores de toga. 

Haveria salvação para os cinco sobreviventes desse confinamento forçado? 

Quanto tempo se passara e os estudos mais contemporâneos da física, da cosmologia, por exemplo, nos apontam para novas considerações acerca das questões que envolvem justamente as ideias sobre o tempo. Einstein, que já foi considerado bastante moderno, praticamente se tornou um clássico. É difícil aceitarmos o fato de que nossas ideias, assim como nossa própria existência, têm prazo de validade.


Então, aos poucos, o elevador inicia movimento de descida, ao que indica, derradeira. A porta se abre. O vasto salão do edifício está deserto. A princípio não se faz ideia se é dia ou noite. 

Uma das razões para essa equivocação é que as luzes do hall principal do prédio sempre ficam acesas por questões de segurança pois é preciso que essas mesmas câmeras de segurança estejam bem iluminadas assim como o perfil de um provável invasor ou ladrão que queira, em tempos de exibicionismos pandêmicos e de vulgata inquestionável, exibir-se por demasiado. 

Ninguém se mexe. Estão em pé. Não. Agora, sim:

 A senhorita Jane consegue se erguer com a ajuda da ascensorista. A ascensorista está um tanto quanto... aparvalhada. Para não dizer apaixonada. O que é mais ou menos da mesma ordem.

Elas permanecem no fundo do elevador; mãos dadas, cumpliciadas. 

À frente, feito uma pequena guarda pretoriana, os 3 machos. Jorge, ainda jovem, tem as mãos cruzadas sob o peito. Está ao lado direito de quem entra. O Eu está do lado oposto. Quanto ao menino, encontra-se bem ao centro. Está visivelmente mais comprido, esticado. Sabem aquela fase em que os pré-adolescentes esticam? Em que os hormônios se assanham? Pois é... Ele se apresenta dessa forma. Olhos arregalados como se avistasse assombração. Será que não acreditavam que o pouso pudesse ser tão seguro e o tão esperado fim daquele confinamento estivesse, enfim, tendo início?


Jorge, o jovem:


- Estamos seguros?


-Por que diabos perguntas isso, Jorge?- O Eu se espanta.


O Eu:


- Após tanto tempo, sinto-me estranho com essa possibilidade de sair e poder voltar.. Acho que permanecerei por aqui mais um pouco.


Jorge:


- Estás completamente louco! Esse confinamento realmente lhe fez muito mal. Depois desse período orna aceitar o fato de que podemos sair, retornar à vida anterior. Não sente falta de nada do que deixou para trás, antes?


O Eu:


- Certamente. Mas é que tenho procurado me desligar um pouco de qualquer resquício saudosista. Sempre fui afetado por isso. Olhar para fatos passados com uma nostalgia ilusória de que aquilo vai retornar. De que não será como antes, o que poderá vir, e continuará sem graça. Sei que é estúpido, mas fazer o quê?


Jorge:


- É óbvio que retorna, que também não satisfaz plenamente, mas é diferente: é uma outra coisa. Pode se assemelhar, mas é diferente. E ainda bem. Lamento lhe dizer, senhor, mas quem sabe não será bom também?

 Se não pudéssemos entender e viver com a flecha da vida apontada para frente não haveria futuro. Os grandes e as grandes não eram e não sofrem de saudosismos. Quero dizer que não sofrem; não ficam paralisados aí. Senão, não teríamos nem ao menos a penicilina, vacinas... E sem isso não estaríamos aqui. Concordamos que não teríamos passado por isso tudo, por essa prisão forçada, porém, e as outras tantas alegrias?


Rosilda, ascensorista encantada:


- Belas palavras, meu jovem. Seria bacana se dessa joça de confinamento forçado que passamos, retirássemos alguma lição, algum proveito. Será que nem assim a gente se manca?

Como é difícil crescer. Não somente espichar feito esse menino que nos fez companhia e rebeldia. É o tal semancol que faz muita falta nos tempos de hoje. E para dizer alguma verdade, isso é tão antigo: minha avó já dizia. E ela dizia mais: ‘ O brasileiro é infantil. Acha que maturar necessariamente é apodrecer. É não servir para nada. ’

Acho justo o contrário. Creio que descobri algo nesse sobe, estaciona, desce, se assusta, se irrita, se encanta.... Essa experiência que atravessamos.


NF:


Rosilda olha com ternura para Jane que lhe retribui com sorriso de menina envergonhada, mas faceira. 

Permanecem no fundo do elevador, mão dadas. Jane assemelha-se pouco com aquela Jane, ainda senhorita, logo no início. Seu cabelo perdido, todavia, apresenta sinais de renascimento. 

E o menino?

Paralisado, diante da saída escancarada, ele reluta em dar o primeiro passo. Escutou essa ladainha toda sem perguntar nada que pudesse ser visto como mais uma maluquice ou malcriação.

Havia espichado, bem verdade. O rosto trazia uma ou outra espinha. Olheiras também se apresentavam ao mancebo. Segundo os amigos daqueles amigos mais velhos de tantos outros amigos, e que ele se arvorava em tê-los, na cultural oriental, chinesa sobretudo, isso poderia indicar problemas no fígado. ‘No Fígado’- mas como’? - Ele olha para o locutor fictício, através de alguma lente imaginária bisbilhoteira. Dessas pretensiosas, que sugerem que você sorria para elas só porque elas ficam nos espiando.

‘Isso, doença no fígado, os amigos daqueles amigos dos outros amigos, mais velhos do que eu, dizem que é doença de cachaceiro ou de quem possa ter tido uma tal de hepatite. Eu nunca tive isso e tampouco sou cachaceiro. Por enquanto, suponho...’

Dito isso, deu o primeiro passo para fora da caixa metálica. Logo em seguida, o segundo. Iniciou caminhada saguão a dentro, saguão a fora. Teve tempo para coreografar uns pulinhos juvenis e depois virou a cabeça na direção dos ex-amigos de prisão. Sorriu e disse que iria, em breve, agradecer à Emília pelo socorro.

Aos poucos, foi desaparecendo da vista alheia, tal e qual bisbilhoteira.

Assim como o menino peralta, as duas mulheres enamoradas se aproveitaram da dubitação em que se encontravam os dois homens mais adultos para iniciar escapada. De tão focados na própria indecisão, O Eu e o Jorge não se aperceberam que Jane e Rosilda já iam longe. 

Elas tomaram o caminho oposto ao do garoto. Havia essa possibilidade e não foi desperdiçada. Pudera: passaram esse período todo sem outra alternativa a não ser reconhecer-se enquanto marionetes do próprio destino.    

Ao contrário do garoto, elas não esboçaram um olhar sequer para trás ou exibir qualquer sinal que significasse um ‘até logo’ ou ‘até nunca mais’ ; o que seria mais sincero. 

Escaparam numa velocidade tal que fez O Eu rememorar os tempos de presídio, não em elevadores, mas naquele famigerado colégio de sua infância, e que as crianças, muitas delas, literalmente corriam para fugir dali, daquela sala da cor da penumbra, ao serem chamadas pelos seus respectivos parentes ou funcionários da família e que vinham resgatá-los. Até o modo como corriam denotava alguma proximidade com a escapada original:

 ‘Teriam sido elas aquelas’? Não. Impossível. Rosilda não tinha recebido essa oportunidade na vida. E no meu entendimento que bom para ela. Escapou de uma ‘boa’ como costumam dizer por aí com certa ironia. E quanto a senhorita Jane? Não. Também não.  Chega de elucubrações delirantes. Ela havia declarado que me conhecia de outros lugares menos afeitos à educação tradicional. Não que não haja naquele ambiente mencionado pelas recordações da senhorita um profícuo e necessário exercício pedagógico, todavia, não...’

Só restavam os dois que, durante parte daquela história, estranharam-se mutuamente. Cada um sustentando as respectivas inseguranças, fracassos e cagaços através de uma velha conhecida armadura, sobretudo, nesses momentos contemporâneos que é arrogância. 

Dizem que para certo credo religioso a arrogância, prima não distante da soberba, é o pior dos pecados.

Com o perdão da franqueza, um bando de fodidos confinados apresentando armas com pouca munição. O que resta?

Enquanto O Eu tergiversava abobrinhas buscando acochambrar algum sentido à experiência desarrazoada pela qual acabara de atravessar, Jorge, iniciava sua saída do caixote de metal aprisionador. 

Pé ante pé, ele deslizava seu corpo esguio, magricela, para fora do dito cujo e já alcançava o saguão iluminado e muito bem cuidado. De tão limpo que era, esse recinto, Jorge, com seus sapatos caros e bem cuidados, quase levou um tombo, um estabaco mesmo apesar de toda a atenção que tomara. Seus livros, aqueles dos quais não se separara por instante qualquer não resistiram a essa emoção: desabaram; espalharam-se pelo chão reluzente do saguão receptivo do edifício. 

Tanto barulho despertou o Eu que se tornara o último a sair do clausulo. Recuperando-se dessa espécie de transe que deveras coleciona, umas conversas privadas com alguém que ele não sabe bem que seja ( Ninguém fala sozinho), prontamente colocou-se a falar, dessa vez para alguém claramente reconhecível, identificável:

-Jorge, meu caro. Para que tanto escarcéu? Estamos a sós. Aliás, estávamos desde o início. Creio até que sempre estivemos. Iria deliberada e traiçoeiramente me abandonar? Depois de tudo...

- Depois de tudo o quê, seu infeliz amalucado? Estás parado há um bocado de tempo à frente dessa porta escancarada desse maldito elevador, e confesso-lhe que não sei se isso é bocado para mais ou para menos, mas é algum tempo sim. Porque algumas pessoas, criaturas que aqui estiveram conosco, ainda que fruto da nossa imaginação, visto que sumiram num piscar de olhos e sem deixar rastros.... Teria sido um golpe de magia daquela boneca de pano que o fedelho vivia evocando? Lembre-se que ele chegava a revirar os olhos quando ameaçava evocar essa tal de Emília. E não é que naquele momento em que achávamos que tudo estava perdido, pois a caixa de fósforo que sobe e desce ameaçava desabar para o abismo fundo de uma vez só e numa velocidade extrema, sabe-se lá como a queda livre cessava. E o bendito ventilador pequeno que nos chantageava ao funcionar e parar e recomeçar? Era nossa garantia de circulação de oxigênio. Resumindo o que quero saber (E quando queremos coisas pode ser bem perigoso): Quem é você?

-Ora, senhor Jorge. Eu sou O Eu. Essa pergunta é muito difícil, você bem sabe. Eu, por exemplo, posso ser você. Por que não? O senhor fala daquela personagem que o menino comentava, evocava, e o fazia com certo desprezo quando na verdade ela é ótima. Eu li e assisti sobre aquilo tudo. É bastante inteligente, criativo. Não estarias o senhor com certa inveja? Vejam isso! Ora ora... Aqui mesmo enquanto me abaixo para ajudá-lo a recuperar seus preciosos livros didáticos do Direito, deparo-me com uma revista de histórias em quadrinhos dos anos 60, estadunidense na origem e pelo que se lê aqui nessa capa trata-se também de um pedagógico exemplar do não menos poético (E não é irônica tal constatação; acredito nisso mesmo) e notório ‘Kama Sutra’. E não venha responsabilizar a senhorita Jane por isso. Está misturada explicitamente com a suas taras mais camufladas, senhor Jorge. Como podes perceber, talvez, tenhamos algo para conversar, confessar ou cumpliciar. Não concordas?

-Não, não concordo. Sendo mais sincero, que pode ser o que o senhor solicita, não estou interessado, melhor dizendo, não quero cumpliciar ou tão pouco tenho nada a lhe confessar. O que é isso agora? E justo no momento em que podemos voltar a desfrutar de uma ilusória, mas reconfortante, sensação de que somos livres. Até um certo ponto, bem sabemos. 


O Eu:

-Será que sabemos realmente? De uma boa cantada ou ilusão quase ninguém escapa. A gente gosta de se iludir Sr. J.J ( Abreviação para Jorge Jovem). Nunca se apaixonou na vida? E de preferência pela pessoa errada? Não é incrível que isso se repita com tanta frequência? E quando fica mais estranho, odiento feito certo amor, decidem se casar e alimentar aquela espécie de mantra de que ‘ a partir de agora’ só a morte os separa.

O melhor ou o pior é que a turma saca o que está sendo feito ali, mas a recusa em reconhecer que a ficha já caiu, há tempos, é espantosa.  Essa metáfora da ficha é bastante interessante. Faz lembrar o tempo em que ‘o orelhão’, aquele telefone público que imitava o formato de uma orelha. Salvou muitos de nós em situações de urgência. Com os avanços tecnológicos, e essas invencionices adoráveis e também malditas mudaram o mundo, aquela orelha mecânica desajeitada, e tão útil, tornou-se algo sem importância e logo sofreu toda sorte de desprezo, ignomínia...

Então, meu caro, gostamos de uma certa maneira da enganação. Um tipo de truque, de traquinagem para sustentar nossas esperanças. Esperança rima com criança.

Tenho as minhas saudades e não as nego. Enquanto conversamos aqui, porta escancarada oferecendo resistência zero para nossa despedida, penso escutar uns concertos, uns noturnos daquele polonês que minha mãe tanto gostava e o executava bem ao piano...


Jorge:

-Chopin. Também aprecio.


O Eu :

- Exatamente ele. E uns prelúdios de Bach também. Consegues escutar? Será que estão tocando algo do lado de fora desse prédio? Porque não vejo nada nesse imenso saguão. Sabemos que o Teatro Municipal está nas cercanias, mas não seria possível escutar qualquer música desde lá até aqui. Aliás, nem poderia estar aberto o teatro a essa altura da noite. É noite, não? 


Jorge:

- Você não é o único que está com medo de sair, de se aventurar novamente. De reencontrar o que está lá e não está mais; sacar que a tal ficha caiu e que não é possível reverter a situação, ou seja, ela não ter caído. Você poderá retirá-la, fingir que não viu, jogá-la fora, desprezá-la (Tal como foi feito com o orelhão mencionado), fazer o que for, mas ela caiu e ela está e esteve lá ou aqui. Isso há; isso terá havido. É foda, né?


O Eu:

- Gostei disso. Sendo sincero, gostei pouco. O que gostei é porque faz todo o sentido. O que não gostei é que conservarei para minha conformidade de ilusões a simples implicância de que esse tempo perdido, aprisionado, não nos fez muito bem. Portanto, o senhor necessita de repouso e calmaria. Estaria o oceano sereno ou revolto? Nunca descobriram qual a dosagem ingerida e qual a bebida que o oceano se refestelou para ficar de porre, ou melhor, de ressaca. Na língua inglesa se diz ‘ Hangover’. Não é divertido?


NF:


‘ Às gargalhadas, o EU deixa, finalmente, o elevador. Dava-nos a impressão de que bailava. Desajeitado, a bem dizer, rodopiando. Quase desabou. Tendo relatado sobre o porre alheio (E ele foi maroto porque evocou o oceano ao invés de fazer um discurso oceânico ou laudatório por demais visto que o desgaste era brutal e impedia tais ‘comícios’), ele mesmo, o Eu, passava a ideia de que havia tomado um pilequinho. Teria sido possível? Sim. Por que sim? Porque havia aquela garrafinha, semelhante aquelas que guardam generosas doses de whisky, e que foi vista (Teria sido imaginação?) nas entranhas da bolsa perdulária, letras célebres na estampa, da senhorita, a essa altura enamorada da ascensorista, ex-mulher do Juvenal abrutalhado. E também não. E por que o não, diabos? Porque pode ser tudo somente imaginação. Feito os concertos e prelúdios que o Eu diz ouvir; feito o menino que espichou sem motivo aparente ou razoável explicação científica e assim se foi... O que foi agora? Ah... Aquele barulho característico dos elevadores quando dão algum sinal, alguma pinta, de que estão vivos e prontos para o trabalho. Pouco criativo, bem sabemos. Porém, essencial.

E esse foi o momento derradeiro para que Jorge iniciasse a sua retirada. Já de posse dos seus papéis e livros, castos ou não, uma última espiadela para trás e a visão das portas novamente fechadas e a setinha vermelha indicando o sentido para cima. Ou seria para frente? 

Dizem que ele teria dito, tempos depois, nas prosas, sobretudo, com as crianças pré- confinadas do lado de fora, adolescentes pós- confinados de agora, que ao invés da música, dos concertos ou dos pirlimpimpins da boneca Emília, o que escutou mesmo era uma voz que poderia ser tanto de homem quanto de mulher e que assim dizia claramente:

‘Sobe’.


Rio, Outubro de 2019/ Março de 2021.