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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Invisíveis

Então Polo , aquele Marco, responde a Ítalo: '" O INFERNO dos vivos não é algo que será; é aquele que já está aqui, o inferno dos qual vivemos todos os dias -ATENÇÃO- FORMAMOS ESTANDO JUNTOS.
Existem duas maneiras de não sofrer ; a primeira é fácil para a maioria das pessoas: Aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar percebê-lo A segunda exige atenção ( Ele não falou em RITALINA NECESSARIAMENTE), logo, bem mais arriscada- E aprendizagem contínuas" Fecha... Aspa.
E por aí A Cidade Invisível de Ítalo Calvino se ergueu. A NOSSA CIDADE/ EU NÃO CONSEGUE TER AO MENOS A ELEGÂNCIA DA INVISIBILIDADE EM Tempos de Bráulios de SELF - De QUEM É O PAU-SELF QUE NOS PENTELHA?NEOLOGISMO?
Nessa aprendizagem contínua, poderia se ler, fazer análise. Um pouco de culhão aos sem culhões. Reação, ambição, é o nome. O resto é neblina. Cegueira no Horizonte. E ALI, HAVIA UM ARPO-A-DOR. ADIANTE, UM LE-BLON.

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domingo, 10 de maio de 2015

Certas meninas do andar mais acima. Confusão de gozos.

- Alguma coisa vai mal? Está doente?
- Um troço chamado bursite. Foi o que o doutor falou no hospital. Dói pra burro.
Bursite. Até o presente momento, uma inflamação- a grosso modo- dos chamados tecidos moles e que compromete articulações. Essa bursa, e não 'buça', é uma pequena bolsa repleta de líquido, localizada na junção onde músculos e tendões transam mal com os ossos. Somos um fóssil que resmunga. Confundida muitas vezes com artrites, artroses e outras doenças articulares, a tal inflamação da bursa pode ser bem traiçoeira. A dor pode ser intensa e irradia na maioria das situações nos braços. Por isso, confunde-se com a dor no coração que falha. O maldito infarto do miocárdio.
Ano de 1999, dois anos após a morte do jornalista e figura pensante, Paulo Francis, em Nova Iorque. Erro de diagnóstico no caso de Francis porque ele também supunha sofrer de bursite.
Madrugada, como de costume para um notívago que se esforça por mudanças, atravessando o corredor - um caminho necessário para se chegar às duas entradas possíveis do edifício- as atenções não se fixaram naquela resposta sofrida, dolorida, de quem transforma uma imensa dor em sujeito da sua existência. As atenções se interessavam, sim, pela sacanagem que atravessava as noite e fins de tarde provenientes de algum andar bem mais acima, nos últimos meses. Essa suposição ganhava certezas porque os imóveis mais próximos não eram ocupados por figuras tão animadas. Descobre-se então que um elemento alugara um apartamento para instalar ali a sua produtora de filmes pornográficos. E a tal produção exigia protagonistas bem jovens. Nesse caso, todas eram meninas. E pelo desenrolar da história, eram menores de idade. Certo mestre, sábio em sua existência, já fez a devida distinção entre pornografia e erotismo. Indagado pela curiosidade de todos, respondeu que o erotismo vem a ser uma espécie de pornografia dos babacas enquanto que a pornografia se manifestaria como um erotismo de tarados.
Portanto, durante meses, o balançar dos quadris daquelas delícias joviais ( Shi! Não se pode dizer isso em épocas de malafaias e manifestações jurássicas), rejuvenesceu o prédio. Havia um frescor diferente no ar. As protagonistas deviam oscilar entre os 15 e 17 anos de idade e entravam felicíssimas pelo prédio a dentro. E de acordo com o dono da portaria- aquele que lutava contra uma suposta bursite-  saíam do mesmo modo, ou seja: alegres, descontráidas, balançando as cabeleiras de um lado para o outro e tendo sempre nas mãos- agora desocupadas- um envelope. Curioso, ele observava o envelope ser entregue a diferentes mulheres que aguardavam as diversas moças, na esquina mais próxima da nossa rua. Uma de cada vez para não despertar outras atenções. E elas sempre estavam por lá. Uma pontualidade difícil de se ver em outras atividades. Não era ' em torno de' ou 'around seven o'clock', o tal acerto com os ponteiros do relógio imaginado, como o é de costume no nosso balneário mais famoso do país. Postavam-se diante da lanchonete, patrimônio cultural do bairro, e lambiam sorvetes durante o aguardo. Sem atraso nem tampouco algum esparramar de coisas precoces. De lambida em lambida, enfim, o encontro diário, semanal. O envelope finalmente mudava de dono e recebia colo materno.
De repente, a produção cinematográfica parou. Não se avistavam mais as beldades e nem se escutavam aqueles gemidos, sucedido de gritinhos. Ou teriam sido gritinhos e depois os gemidos? Essa ordem, aparentemente banal, pode alterar todo um roteiro de um bom filme.
Indaguei ao comandante da entrada e saída do novo cabaré- perdão, nosso prédio- a quantas andava o balançar dos belos e juvenis quadris, assim como a sonoplastia suspensa sem aviso prévio. Se aquele cineasta- e é quase certo que ele era o único protagonista macho das suas singulares produções- ao lado, ou por cima ou por baixo das suas estrelas- achavam que só existia exibicionismo por aqueles lados, esqueciam-se que ele não vale nada sem um voyeurismo participativo. Não existe um sem o outro.
' E o senhor, Mr. Bursite, ainda que lhe pese sobre todo o corpo, e não somente sobre algumas articulações, os seus setenta anos, tentando assustar-me ( Só porque me conhece desde pequeno) postando-se com ares de não afetado, mediante esse repentino silêncio, somado a essa entrada/saída de edifício falso moralista e deserta de formosuras'!- manifestei minha indignação. Ele me tranquilizou ao dizer que um dia me contaria, pois o 'coisa ruim' ainda restava no imóvel. Considerei essa expressão definidora/definitiva do seu olhar sobre o  nosso  vizinho , por suposto nada discreto, mas cordato em outros momentos, um tanto forçada e pouco elegante. É certo que jamais o encontrei ( Seria incorreto solicitar-lhe um autógrafo se acaso esbarrássemos um sobre o outro e coisa e tal, no elevador? Social?); Mas podemos até assegurar que esse Sr. Coisa Ruim,  caso a carreira alavanque outros patamares e possibilidades, brindou-nos com aquela bela passarela de cidadania. Afinal, era um frescor sazonal no meio das antiguidades.
Uma outra madrugada e o automóvel de volta para casa. Diante do prédio, entrada/saída, onde se concebe também a palavra garagem, um automóvel oficial - desses que podem parar, revistar, atirar e até matar os outros, ainda que co-irmãos de um Ford Bigode tão distante e tão presente na estética vigente -, estacionava as quatro patas diante do único caminho necessário e disponível para o repouso habitual. Suas portas se abriram e um cidadão, pouco simpático, aproximou-se. Exigiu identificação de ambos: do cidadão e da criatura metálica. Por último, perguntou ao nosso indescritível senhor das entradas e saídas se realmente eu era quem dizia ser. 'Acho que sim'- respondeu com expressão de sacanagens. Mas como assim, 'Acho que sim'? Se não me dá seu testemunho como hei de garantir que sou quem penso ser? Logo você que esbarra comigo faz tanto tempo? E no início da nossa transa, apenas um engatinhava. Ah! Sabemos onde a coisa pega. No futebol nosso de cada temporada. Estou equivocado? Sua estrela solitária não anda te conduzindo muito bem, não é mesmo? Já o meu brinquedo vestido de vermelho e negro ( Romance francês?) trouxe-me de volta sem maiores sequelas. E só me resta a sua nobre consideração para que eu adentre feliz, alegre, descontraído, o prédio que compartilho, até mesmo, com essa vizinhança toda que não encontro. Que nunca vi.
Ufa. Isso, 'ufa', que dizer que conseguimos então? Penetramos o edifício? Sim, mas a polícia também veio, por sua vez, e partiu sem o moço que produzia filmes libidinosos de grande intensidade. Um pouco antes, fraçãozinha de segundo, escapara das garras 'inimigas'. Interessante, não é mesmo? Madrugada ainda rolando e ele, feito um demiurgo ou adivinho, conseguiu antever a chegada dos amigos de cassetete. Realmente era uma figura notável, o vizinho assombrado. Imaginem que nesse show da vida, num domingo à noite e após alguns meses, jornalistas reveleram seu segredo e sem nenhuma descrição, tal qualmente a postura do ator/produtor . Foi a televisão e sua produção veterana que avisa que o 'Coisa Ruim' era filho de um ex-deputado federal de um estado bem mais ao norte. Foi extraditado ou teria sido preso ao desembarcar de regresso, por aqui, nos brasis. Tinha uma ficha de perversõezinhas enorme. E a gente a confabular que a sua grandeza talvez viesse, bem vinda, de outras partes mais abaixo, de outras formações.
Nunca mais soubemos desse tipo, nem ao menos daquelas moças de outrora, tampouco sobre aquele cuidado familiar. Mães zelosas e preocupadas com o futuro da cria. No que o extraditado não pagou pelo preço combinado, bocas de Matilde vociferaram por justiça. Ele teve que se escafeder.
Quem disse que cidadania dessa ordem não se exerce? As meninas fizeram exame de corpo de delito e tudo mais, após adentraram não tão felizes, descontraídas e alegres a delegacia. Comoveram delegados e escrivães. Quase convocaram passeatas, via grande rede, se por acaso existisse tal praticagem. Não havia.
Por que não se consegue escrever sobre memórias e ao mesmo tempo incluir uma sonoplastia feito aquela magia editada no escurinho do cinema? Acho que o gozo maior seria escrever historinhas para uma tela grande. Mas a pretensão e a arrogância são marcas difíceis de apagar- tem que se lutar bravamente, quase um jiu jitsu mental-; e a pretensa intenção- malvada de inferno e outros paraísos- vislumbra desde o começo o tapete vermelho e um Coppola, talvez  um Almódovar,  a lhe conferir atenções. Infantilismos podem restar para sempre.
Volta-se , alguns dias após toda esse cenário descrito e desgustado acima, de um 'Réquiem para um Sonho' estadunidense impactante ( e que não foi produzido nem por Francis ou Pedro) onde seu mentor dedica- nos créditos finais-  esse filme a sua mamãe. Quem não viu, verá. É possível. Foi no Cine Paissandu, no bairro do Flamengo. O cinema também não existe mais. Avisaram sobre uma possível reabertura. Teria sido reaberto ou nunca saberemos?
Cortina que sobe, não só no teatro burguês, e chega-se em casa novamente. Fato:vive-se de retorno. Voltamos antes para voltar de novo. A frase que iniciou essa conversa , repete-se. ' E aí, melhorou?'  Aquele senhor grisalho mexeu um pouco os lábios ao mesmo tempo em que a  cabeça se movia preguiçosa para um lado que parecia dizer NÃO! Subo através daquele caixote de subir e descer claustrofobias. Porém,  uma confusão de sensações restam para trás.
Seria hora de dormir? Pesadelo ajuda no sono profundo? O sono dizendo adeus, o dia seguinte indicava trabalho por vir. Janela aberta pela noite quente, lua animando os casais feito a letra da canção. Um silêncio. Todavia, lá no fundo, um barulhinho ( Enfeitar frase também é importante, porque parece que vinha do alto, vinha do mundo o tal barulhinho) . Era um gemido que crescia em intenesidades. Pensei então: 'Voltaram. Estão de novo na maior sacanagem'. Durou menos que o suficiente aquele tipo de gozo. A ponto de esquecê-lo forçosamente. Teria sido inveja? Teria conseguido uma surdez voluntária?
Na manhã seguinte, carro apontando no portão do prédio e os outros três comandantes da entrada e saída estavam cabisbaixos, abatidos. Algo inédito, visto que o silêncio e a discrição não compunham os respectivos currículos. Sobretudo, quando estão juntos. Indaguei o que se passava e a resposta não nos poupava o impacto. O real se apresentando sem intermediários. O real destrói neuras. Ele vai direto ao ponto: 'Antônio, o nosso vigia noturno. 'O que houve?'-já estava aflito. 'Ele morreu de madrugada. Teve um infarto fulminante'. Antônio agora tem nome e função. E ele não estará presente nessa consideração Mas não era bursite? O que ele tinha? Acabou.
Era uma vez um homem de setenta anos que dera grande parte da vida a cuidar das entradas e saídas desse prédio batizado com nome de mulher desconhecida, desde a sua fundação. Como se pode notar, vizinhos que não se encontram e nomeações desconhecidas. Aquele gemido não era gozo de roça roça, esfrega esfrega, pau na xeta ou promessas de futuro em Hollywood, Bollywood ou Mimosa Villagewood. Era o derradeiro gozo à beira da  morte que não há. Era o gozo capenga, dolorido, sangrento, entupido, de um coração valente que pifou de vez. Explodiu justo na madrugada. Logo ela que me faz companhia, feito uma ninfa, de vida inteira.
Mas então esse gemido que se acreditava vir de cima e parece que veio por baixo?
Há uma garagem no final daquele caminho necessário, com a sua lua e um dedo incauto a lhe apontar o teto que não está. Esse céu desnudo que virou teto, abrigo. Por sua vez, as paredes laterais cercam aquele espaço, preservam território, mas resta o vento, resta o resto. E ela- isso tudo que  se chama de garagem- escancara algumas das suas partes que compõe o seu patrimônio de veículos. É aquele emaranhado de ferro mesclado com alumínio e mais borracha com plástico ou algum sonho conquistado. Pois foi por ali que o maldito barulho se propagou. A confundir luxúria com penúria.
Um corredor que perde o seu comandante primeiro atinge a garagem sem qualquer mediação . Confusão de ruídos que transam sem escrúpulos. Estão mais para pornográficos do que eróticos. Não, não era uma crise de bursite.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Lullaby- canção de ninar? Novas tecnologias. Recordações.

Lullaby não é a despedida de algum político importante. Lullaby é uma composição de Brahms, aquele músico alemão- século 19-, e que dentre outras coisas frequentava a casa da família do filósofo e aventureiro, Wittgenstein. Eram contemporâneos. Wittgenstein nascia e uma década depois, Brahms morria. A família vienense do filósofo tinha um ótimo hábito que era  financiar projetos artísticos. A mansão da família era local para os encontros de músicos, diretores teatrais. Ravel compôs o concerto para mão esquerda, dedicando-o a um dos irmãos do pupilo de outro grande do pensamento ocidental , Bertrand Russerl, e que perdera a mão direita durante a primeira guerra mundial. Antes de se consagrar, o compositor alemão perambulou um bocado- o tempo considerado difere da nossa realidade contemporânea, já que um homem de trinta anos, à essa época, era considerado um senhor- , até ser acolhido por Clara e Robert Schumann ( Robert um compositor notável e sua esposa uma pianista, uma musicista muito talentosa), na residência do casal.
Tesões em comum podem ter suscitado admiração que, segundo certa alcova alemã e vienense, ultrapassava formalidades musicais entre Clara e Brahms. Ou ainda o ciúme doentio- uma parana exagerada e mal articulada-, de Robert,e que já apresentava sintomas de doença mental. Considerada por estudiosos de sua vida e obra como um quadro psicótico maníaco depressivo. Morreu internado numa daquelas clínicas pavorosas, daquele período. Não muito diferente de hoje. Se relembrarmos o livro 'História da Loucura', Michel Foucault, teremos a noção exata do modo como eram tratados os chamados loucos. A morte de Schumann é tratada como trágica. E qual seria a morte que não se configuraria enquanto tal? Existem desaparecimentos espetaculares, acidentes raros, assassinatos e coisa e tal , mas todo desaparecimento é da ordem de uma trágédia no sentido da impossibilidade radical de se reverter uma situação ou fato. Não tem volta. Ao insistir com esse teclar de letrinhas, por exemplo, não posso passar a borracha no fato de ter iniciado esse teclar de letrinhas. Posso passar a borracha no conteúdo, nas letrinhas, mas não no fato já iniciado. É mais ou menos o que Édipo- aquele Hamlet grego, filho de Sófocles, em Colona- veio relembrar: uma vez nascido, um tanto ferrado estarás. Condenado a existir e não poderá desistir existindo. Desejo mais ambicioso no qual se assenta nossa especificidade de gente. Por isso não adianta conclamar ambições ao dizer " Seja ambicioso. Deseje o impossível'. Não é preciso apelar para redundâncias. É uma questão de reconhecer, saber, manejar. Portanto, lamenta-se mas não haverá presença nessa desistência. Apesar disso, cada um tem a ficção que pode e se faz merecedor.Sempre teremos algo disponível para nos salvar um pouquinho. Fé não necessita de conteúdo ou letrinhas. Fé é o ato posto. A crença por sua vez só faz elocubrar. Ela não existe sem conteúdos. A outra se põe enquanto movimento.
Lullaby se virou numa canção de ninar. Segundo recordações, minha mãe me incorporou- prefiro o termo adoção- desde então. Toda criança é adotada. E a canção era tocada por ela mesma no piano de casa. Piano familiar. Daqueles que aparecem na herança deixada pelo morto. 'E o piano com cauda avariada irá para o fulano ou sicrana'- avisa o locutor para inventários. O morto/a não faz ideia da confusão que armou. Mesmo sem saber tocar ou fritar um bife ( no piano é aquele início do início dos estudos do instrumento rei e insuportável para quem escuta), a turma goza por sofrer de rejeições e não perdoa quem fez a doação. Assunto para gerações futuras. Melhor dizer: fofoca.
Garanto-lhes que nenhum daqueles petiscos ou aromas proustianos ( o escritor francês que era afetado radicalmente em suas lembranças, através dos cheiros, gostos, produzindo aquela obra enorme) foram ingeridos para evocar canções, sobretudo, aquele sorriso que se debruçava sobre meu rosto e que me faz tanta falta.
Lullaby continua a fazer barulho. As novas tecnologias produzem esses efeitos. Trazem umas coisas de tão longe para bem perto, afastando outras que estão mais ao lado. Seriam compensações? O que afasta ou aproxima é a intenção de quem tecla, de quem se aconchega ou não. Onde começa e termina esse ruído todo? É essa distância que se apaga cada vez mais. Nosso vizinho mais próximo - a quem você poderá pedir emprestado um pouco de coisas sem glúten, sem lactose e com o forte tendência a ser atendido- , reside na Sibéria ou na Guiné Equatorial. Mas aquele sorriso afetuoso com sonoplastia de um outro mundo só existe nessas lembranças. E ainda bem.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Uma criança quase à deriva

AOS BOTAFOGOS E VASCAÍNOS . PAPO DE BOLEIRO ÀS VÉSPERAS DA BATALHA.
Uma criança quase à deriva.
1972, o ano. E o dia, era 15 de Novembro. Aniversário do clube da Gávea e feriado republicano. Apesar de supor que continuamos monarquistas de fato ou em sonho. Vamos de rei Roberto, rainha dos baixinhos, rei do bacalhau, rei das tintas, rei momo, no banco de suplentes um aposentado rei da soja e por aí golpeamos a família real portuguesa.
Tinha 6 anos e o pai resolveu levar a criança para a tribuna em que um amigo, cheio de boas relações, conseguiria bom assento e civilidade por perto ( Mais crescidinho, gosto mesmo é de uma arquibancada). Jogo que rola, a tribuna com suas autoridades para uma época em que se impunha silêncio forçado e o massacre: 6x 0 para os Botafogos. Jairzinho e comissão de frente iniciando os ensaios do rei momo para o carnaval do próximo ano.
Dia seguinte, e aquele jornal com seu cheiro particular dobrado estava, dobrado ficou. Indaguei ao velho o que de fato ocorrera, mas ele mudava de jogo. Todavia, o telefone com aquele círculo enorme no centro de sua alma resolvia trazer-lhe a lembrança do massacre. Eram os irmãos a lhe sugerir que não levasse mais o pequeno para assistir aos jogos contra os grandes. Meus tios e primos são torcedores do time que porta a cruz de malta. O pai ficou encucado. Por alguns anos. E depois, viria um desses irmãos piorar ainda mais a situação. 'Não leve o garoto contra os times pequenos tampouco, pois se perder....Virá para o nosso lado.' Durante dois anos que pareceram séculos, frequentei assiduamente Olarias, Bonsucessos, Madureiras, Campuscas. Chegaram a nos acusar- quase fui condenado, apesar dos 8 anos de idade- de sadismo contra formações ditas inferiores. E tinha aquele outro tio, amalucado vascaíno beleza, a sugerir então que a obra daquele "patologista" lás das Europas, Um Marquês de Sade, fosse-me dada a fim de fazer jus à condenação imputada. Ele era amante de uma juíza. Entendia, de modo singular, dessas leis que não nos dão o direito de desconhecê-las. Se bem que essas são deliciosas.
Pois sim. Cheguei a assistir clássicos paulistanos antes de um mundano e regional FLA X FLU. Nelson Rodrigues talvez me condenasse pela segunda vez. Nesse caso, por causa do mundano e regional. Nova condenação. E ele nunca soube que no primeiro evento quarenta minutos antes do nada- era assim que nomeava um Fla x Flu-, tomamos uma enfiada daquela máquina tricolor infernal.
Nessa , o velho me retirou do estádio antes do fim, na verdade antes do tudo ou do nada, rádio de pilha a gaguejar perplexidades pelas rampas da arquibancada, sem que eu lhe fizesse a pergunta capital e que só não nos assombrou, por mais tempo, por causa de um Rei Galinho de Quintino e sua gandiosa guarda pretoriana sob o vôo indescritível de um zagueiro, paulista de nascimento, Rondinelli. Isso foi um 1978, num Dezembro de Noel. Ah ! Aquela pergunta balbuciada na rampa que nos retirava da humilhação sofrida:
' PAI. O QUÊ DE FATO ACONTECEU'?
Mesmo sem qualquer resposta, afora a fuga para proteger seu patrimônio, eu torço mesmo é pelo seu time.
BOAS DECISÕES, AMIGOS.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

AS LUZES E AS SOMBRAS. A VERY NICE WEEKEND TO EVERYBODY, ED.


O deputado inimputável, BoÇALnaro, o Jair, repete aquilo que é comum- não só por aqui-, mas nos Estados Unidos também. A hierarquização dos distritos. O voto no Brasil não é distrital como por lá. Não é distrital de direito, por aqui, pois ele existe de fato.Aliás, como quase tudo. Jair , deputado antigo, elegeu os dois filhos. Um para trabalhar ( trabalhar?) ao seu lado, em Brasília, e o outro é vereador aqui mesmo.... Nos EUA, Bushs e Kennedys comandam diversos distritos. Papai se aposenta, cajado passado. Passado para frente.
No 'BRAZIL" OU in 'BRASIL", o vereador se tornou uma espécie de síndico de prédio. No máximo, virou um dirigente de associação de moradores a utilizar com habilidade algum microfone mais possante. O deputado estadual, por sua vez, faz o papel de vereador e o deputado federal um estadual com pose de bacana. Mestrado virou graduação, graduação virou alfabetização e o doutorado- que outrora exigia uma certa dose de originalidade- um mestrado com puxadinho. Felizmente, existem exceções. O caso a caso necessário para que não se apague o resto de luz no meio da floresta. E por falar em floresta, lá no meio dos confins do Amapá tem monumento bacana referente ao ilustre Português.
O Marquês de Pombal -figura notável e reconhecida como tal por monarquistas e republicanos- já dissera quando do terremoto que devastou Lisboa, no século 18, que 'DEVERÍAMOS ENTERRAR OS MORTOS E CUIDAR DOS VIVOS".
O prefeito de Nova Iorque em 2001, amigo da Cosanostra naquela época, Rudy Giuliani, disse algo semelhante diante das torres derrubadas pelo gênio do mal, Osama Bin Laden, e das cinzas humanas que assombravam 'Walls and
humiliated Streets'..
Semelhança ou similitude, o destino dessa frase? Há de se pensar sobre. A primeira- processo por semelhanças- guarda referências com algo original. Tem origem. Nome de família, etc. Na similitude não há antecedentes e destino traçado. É puro devir.
Nas artes plásticas, por exemplo, um Magritte, estapeava-se com Kandisnky, Klee, e outros, por causa disso. Observado por um Michel Foucault atento e com um cachimbo à boca ( não é bem um cachimbo?).
O que se faz tão semelhante com a história dos Brasis? Tem gente otimista, tem gente nem tanto. Contudo, creio que ilusões não trazem felicidades. ' Quelqu'un' com o mínimo de travessia sabe.
Sabiam, amigos, que o nosso ex-presidente Rodrigues Alves- o paulista que indrustrializou o Rio graças ao arroxo e medidas impopulares de seu antecessor, Campos Salles, perdeu uma filha, vítima da dengue? Mobilizaram exército, presidiários, e outros civis, e invadiram casas ( nada mais democrático 'Big Brothers') para limpeza geral e vacinar a população, aqui no nosso adorado balneário carioca. Falamos desde 1902.
Pois é. Gosto das luzes, mas permaneço de olho nas sombras.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sobre o curtir lusitano original.

O verbo curtir emergiu novamente na língua brasileira. Como sabemos, a tradução ou a versão , não aversão, feita para facebook , disso que se chama língua portuguesa, baseou-se no português original, ou seja, 'from' Portugal. Curtir é comum por lá. Aqui sempre se disse gostei, não gostei ( like, dislike...) . Retornamos então aos anos 70 quando havia 'aquela curtição', no Brasil. Apesar do silêncio mordaça imposto por fardas mal treinadas. 
A influência cultural - modo de existir dessa espécie nossa, como define a Nova Psicanálise- movimenta a série infinita das línguas.
Portanto, a imagem de uma curtição é múltipla, diversa. A palavra ou a seta marcada - na virtualidade real da computação- não dá conta. E o que daria?
Após assistir de novo ao filme sobre a vida e obra de Wittgenstein- filósofo austríaco, século passado- tudo isso se apresenta. Dá uma curtida.E aí? Foi bom pra ti?

sexta-feira, 27 de março de 2015

O falastrão e o futebol.

BOLEIROS NÚMERO 2 . ANTES DA COPA FRANCESA. 
Na mesa do restaurante, atrás e em posição de ataque, o cidadão que para mim ainda não tinha rosto tagarelava alto. Falava sobre as suas vivências no meio futebolístico e suas aventuras de playboy meio desocupado ( conclusão minha) da zona sul carioca, anos 70. Palavrões em profusão e ele continuava a contar, a narrar a partida das suas vantagens. Ele jogou bola também, E proclamava-se um craque. A modéstia no seu caso não vestia uniforme oficial. Meião arriado, corpo arreado,a provocar zagueiros famintos. Gostava de uma bela porrada. Um cavalheiro.
Uma garrafa de whisky -com o símbolo da estrela solitária do seu amor Botafogo- exibia-se na mesa. Primeiro, falou da corrupção durante e logo após a gestão de um ex-presidente deles, delegado, bastante truculento e que passou pelo time de Jairzinho e CIA. Depois,falou discretamente da roubalheira de um outro ex-mandatário do clube alvinegro e que tinha nome de bicheiro morto e ainda por cima no diminutivo. Mas falou com gosto, um tesão a lhe provocar engasgos de prazer, sobre um certo dirigente, ex-presidente, do meu Flamengo, durante a convocação para Copa de 1998, na França. Eles não esquecem a gente, nem da gente.. É uma paixão de ódios!
Segundo esse sujeito discreto, tratava-se da última convocação para essa Copa de Zidanes. Essa convocação é a que tem um pouco mais de validade, para os seus conceitos. 'As outras são de araque'- garante. Eis que um zagueiro -com apelido de quem nasce em Estado do Nordeste- não apareceu na lista dos convocados. Um dirigente bem conhecido sai furibundo da sala de imprensa e diz, na antessala ( preferia eu quando aconteciam essas coisas na antiga ante-sala, pré -reforma ortográfica), em alto e bom som, para quem quisesse escutar; '' E os meus 4 Milhões? Acabei de perder"! Se eram Reais, dólares ou euros. ficou a dúvida sobre a penalidade marcada. Será que o baile na final, aquele "trois x zéro" , indicou a referência monetária? Teria conta lá fora? O que não é ilegal, desde que o leãozinho daqui seja comunicado sobre a grana que faz turismo.
Alguns minutos se passaram, e o coisa ruim retorna ao ambiente de prostituições, ou melhor, das convocações. Pequena mudança ou uma substituição fora feita. O tal zagueiro estava convocado. Incrível a agilidade não burocrática para comandos de picaretagens nacionais.
E esse pária continua a assombrar o futebol. E não está só. Muito pelo contrário. Eles formam nas onze e com banco de suplentes e ainda mais.
AH! O senhor falador já está com o rosto bem grisalho. Eu o vejo a uma distância segura, cautelosa. Estava de costas para o crime.