Existem aquelas pessoas que são especiais pois não morrem.Morre aquele esqueleto que de jovem vira velho,mas a autoria ,cujo esqueleto também porta e vice-versa não.Permanece.
Uma dessas figuras chama-se Clarice Lispector.Escritora,ou melhor,amadora que escrevia ,segundo ela mesma.Dizia isso porque gostava de um compromisso menos compromissado.Tinha razão. A folha,agora tela de alta definição,em branco é pesadelo previsto por qualquer um que se intrometa com as letras.
Clarice era Ucraniana feito a minha amiga que me prestigia aqui no meu pretensioso Blog.Casou-se com diplomata e teve 2 filhos.Pouco se ouve falar deles.
Li tudo ou quase tudo sobre Clarice.Esqueci boa parte para poder retornar quase sempre. Li também sua correspondência com um dos seus melhores interlocutores:o também escritor brasileiro Fernando Sabino.
Já escrevi seu nome com dois ss...Creio que ela me perdoaria sem jamais ter me conhecido.
Morreu de câncer em 1977.Portanto,celebramos 35 anos de saudades e presença constante.Clarice tinha 57 anos e morava no bairro carioca do Leme,cuja densidade demográfica é das maiores do mundo,na rua Gustavo Sampaio.Clarice é uma espécie de heroína da nossa literatura.Viveu seus últimos anos numa rua cujo nome rende homenagens a um herói do exército brasileiro.
Segundo aqueles que investigam cuidadosamente a sua vida e obra,a escritora saía a passear com seu cachorro e permanecia sentada numa pracinha do bairro.A fazer o quê,Clarice? Observar e anotar.Onde? Pouco importava.No canhoto do talonário de cheques,num papel perdido e recuperado em ótima hora,pelo corpo todo.
Trabalho de amadora realizado,retornava para o seu 'bunker'.Ali, transformava algumas palavras em movimento permanente de sentido pleno e vazio.
Outra estudiosa Clariciana nos ensina que os fatos para ela não importavam tanto.Ela ampliava muito tudo aquilo que sentia,via,vivia.
Essa senhora ,Clarice,influenciou-me.
Quando vejo um vídeo,rara entrevista concedida à Televisão Cultura de São Paulo,sinto-me tão distante pois pertinho dali.Ela fala como se estivesse guardando algo na boca.Seriam novas palavras para a descoberta do mundo?Talvez sim ,mas talvez não.
Clarice falava brasileiro com sotaque.Sotaque singular de Lispector.
Macabéa,heroína que nasceu estrela,foi o primeiro que li.Estava lá.Minha família,meus vizinhos,o mundo todo estava lá.
A nossa Ucrânia fica aqui ao lado.Pertinho daquelas pedras que seguram os ânimos de um oceano que chamamos de mar.
Parece que foi ontem.E quem pode garantir que não foi?
Ela talvez tenha dito que sim,pois as coisas mudaram,mas ela permanece.
terça-feira, 6 de março de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Saudosismos e temores.
"Existem duas coisas que me incomodam aqui."
Dito isso,a senhora de diversas idades,pergunta-me ,ou melhor, responde de primeira: "Todo mundo por aqui se acha muito importante".
Tudo bem.Esse seria o incômodo primeiro,mas não é privilégio da Capital Federal, a chamada Brasília, do tão aclamado Brasil
Nada mais engraçadinho,por exemplo, do que cariocas - sou mais um - e seu perfume maresia cheio de boça, a caminho do mar Zona Sul- olha que coisa mais linda -, e o seu super-ego paulistano cheio da grana, inveja não declarada, a incomodar balneários menos pródigos.
Todo mundo contraria o poema em linha reta de Fernando Pessoa.Jamais conhecemos alguém que não fosse o máximo.A começar por nós mesmos.
Noutro dia,exemplaridade colhida de um programa televisivo, o entrevistado-célebre (isso é um substantivo mais que abstrato) teria dito: 'O meu defeito maior é que sou perfeccionista'. Mais uma gracinha...O que a peça,não rara, esqueceu de dizer foi que a sua tolice maior é querer se tornar algo que não é possível.Deixou a sua escrotidão cotidiana no colo do vizinho defeituoso.Uma pessoa comum.
O outro comichão que apoquenta a vida seria o fato de que ,apesar de tão jovem,a Capital Federal apresenta os mesmos vícios equivocados que levaram à decadência ,econômica,social,da antiga Capital Federal do Brasil ,o Rio mais belo de um Janeiro.
A desmobilização ,não confundir chiliques , passeatas e/ou vídeos clandestinos bisbilhoteiros,da sociedade civil para com as questões locais essa sim é protagonista de uma ressentida pasmaceira.Por lá,assim como por aqui nos anos 50/60, o poder executivo federal era o centro dos interesses.
Juscelino,Presidente Bossa Nova,temia que as instâncias e suas respectivas obrigações se misturassem, somados ao crescimento populacional e a possibilidade de manifestações cada vez mais contundentes e violentas a advir.É óbvio que houve sonho e delírio.É óbvio que quase todas as capitais do mundo civilizado não ficam em cidades portuárias,por razões de segurança , e também aquela ajuda financeira proveniente de empreiteiras destemidas a sonhar com um gigante adormecido a bem encalhar.
Brasília foi construída por mentes brilhantes,mas nunca um planejamento urbano serviu tanto para regimes de caserna como aquele.
E disso tudo advém certa postura que se observa em parte da população,população douta,bem formada e informada, que é a negligência para com a destruição visível,talvez tão óbvia que ofusque os olhos,da cidade e do seu entorno.Por lá,já existem comunidades tão violentas quanto tantas outras existentes nos maiores centros urbanos do país.Leia-se Rio ,São Paulo,Belo Horizonte e Salvador.Além do esporte medonho,praticado por alguns jovens da alta burguesia,que é atear fogo em moradores de rua.Não importam se sejam índios ou mendigos.Devem morrer na corte feito condenados por qualquer inquisição.Uma inquisição racista e cínica.Como de costume.
É como se não houvesse poder local ou pelo menos esse poder estivesse subdito inteiramente às vontades da chamada União ou Poder Federal.Donde a ideia de federalismo no Brasil se comprometer um pouco visto que uma certa alienação às determinações do Governo Federal se impõem.
Um regime federativo exige que as suas federações tenham o mínimo de autonomia para poder se bancar.
Nos EUA as federações têm regimento próprio.Em certos Estados norte-americanos o que é considerado crime para um não o é para outro ou então tem um grau de punibilidade bem menos rigoroso.
A negligência quanto a participação e discussões realmente profícuas em torno da chamada política é semelhante ao comportamento neurótico de cada um de nós quanto aos passos dados nas nossas vidas.
Vivemos num país onde a meritocracia é instrumento raro.Ainda existe a necessidade das mediações políticas,afetivas e outras tais para se atingir certas metas.Tal qual indica a Psicanálise proposta por MD.Magno, nada mais neurótico,doentio do que essa necessidade de intermediação para se negociar no mundo e com o mundo.
O mínimo de desalienação é produção de uma autonomia para se guiar com pernas próprias.
Enquanto bom burguês neurótico necessita-se sim de análise permanente enquanto instrumento possível para se produzir autonomias cada vez mais plenas.
Sabemos que todo processo é precário em última instância ,mas repleto de eficácias também.Autonomia também tem limitações.Plena, em última instância, não há.É impossível tal qual a perfeição-pretensão daquele entrevistado televisivo.
Ao olhar para uma rua ,cujo desenho se transformou por completo a ponto que só reconheço que ali ainda há algo que se chama rua,não encontrei o que procurava.Encontrei somente restos daquele tempo que também não há, tão pouco , ao menos de fato ,mas que resta simplesmente (ainda bem!!!) no direito das evocações mnêmicas mais íntimas e tão minhas.
Todo o olhar desmoronou diante daquilo que não estava lá. E o que restou então?
Um texto a mais pode ser o preâmbulo para recomeçar ou consultar oftamologistas bem treinados.
Por certo, o incômodo trazia o gosto de uma estupidez saudosista e de uma outra ,não menos estúpida,de um futuro iminente e temerário.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Dr.Gachet que observa
Conheci Sergio através de um amigo em comum.Era dia bonito.Havia sol entre nuvens preguiçosas.
Sergio era colega de colégio de alguns conhecidos meus.
Tinha cara e trejeito de gringo.Era uma espécie de quase gringo.
Sua mãe nascera na Holanda e ele por lá passara diversas vezes.
A Holanda para mim, a essa época, era tão somente um sonho de Van Gogh,Rembrandt...e Sergio tornara-se uma curiosidade.Era extremamente educado,inteligente - um dos melhores alunos de toda a faculdade de Engenharia ,na Universidade em que estudava - e culto.Sua mãe tinha vocação para o canto lírico e ele a acompanhava nas empreitadas dos chamados recitais.
O vínculo se fez.Encontrávamos vez e quase sempre para uma conversa e uma dita farra.A farra era mais um tesão meu do que propriamente dele.Sergio era um gentleman.Gentlemen não fazem farra.Podem participar de orgias bacanas ,mas farra....Tenho até um primo que é assim.Ele nunca fez parte disso.Ensaiou uns passos de dança,umas aulas para fazer cabrocha não desistir dele tão cedo no baile,mas não se enquadrava.
Farrear tem esse aspecto cafajeste.Há aquela bebedeira toda ,aquela falta de respeito pela senhorita da mesa ao lado -por mais que a dita cuja senhorita tente se fazer não merecedora dessa consideração respeitosa moralista-; por fim há aquele estado de alegria que retorna das profundezas rasas dos nossos recalques.E é mágico.Feito meu sonho de Rembrandt com Van Gogh.
Noutro dia bonito,chovia bastante, e ao retornar de um banho a mais, no oceano que inunda a nossa vista daqui,recebo estarrecido a notícia de que havia morrido,num acidente de carro,o irmão caçula do meu amigo quase sempre estrangeiro.Irmãos caçulas podem morrer?Então eu,caçula para sempre,posso morrer?
Não havia me passado pela vida que caçulas morriam. Seria hipócrita crer que desde então acompanhava o velho Freud em sua certeza de que não há inscrição de morte no inconsciente.A criança então diz ao parente inábil:"Sei que papai morreu,mas quando é que ele volta para casa?'.Pode ser só mais um exemplo,cunhado pelo mestre,já que precisamos de peras e maçãs para entender certas articulações.
A explicação mais contemporânea dada por outro mestre da Psicanálise,MD.Magno,é que a morte não há.Não há representação possível,nem tampouco experiência de morte.Donde vida eterna.
Sim.Arrogantes juvenis que são sábios na sua certeza de que quem morre são os outros.Resta,entretanto, a lembrança possível de que toda carne tem fraquezas indeléveis.
Telefone desligado,era hora de partir em direção à casa do amigo.Não fui sozinho.Tive a companhia de outro amigo,um médico recém formado.Nunca se sabe o que virá.
A cena e a consternação eram brutais,afinal o rapaz morto tinha vinte e poucos anos.Bonito,estudioso,alta burguesia,roteiro perfeito.Vida maravilhosa.Morrera afogado ao bater com a cabeça e desmaiar,após o acidente com o carro. A namorada tentou salvá-lo,mas ele era pesado,forte feito um touro.Não conseguiu puxá-lo para fora do automóvel.Era uma noite de primavera verão.Novembro,'Saturday Night Life'.
A cidade maravilha -alcunha do Rio muito mais do que um Janeiro- vivia as suas primeiras eleições municipais em décadas.Houve fraude.No ano seguinte,recadastramento de todos os votantes e votados por conta disso.Livrei-me da multa ,pois não aparecera para cumprir obrigação eleitoral enquanto mesário.Sim,mesário.Aquele funcionário público que fica sentadinho conferindo títulos eleitorais dos outros.Aqueles títulos sem fotos.Agora,parece que já há.Não sei ao certo.Uma foto de título pode ser igual ao obituário da seção policial.
Meu amigo que, teve um irmão caçula morto, jamais se recuperou.Por certo,não fora somente isso que provocou todos os sintomas dos quais ele,passados vinte e seis anos do desastre,continua refém.
Mudou-se com a família, de endereço, incontáveis vezes.Aquela instabilidade me gerava certa desconfiança de que não fora o único a ser golpeado profundamente.
Jamais conseguiu dar sequência à profissão escolhida.Vive,faz uns 15 anos,na Holanda materna.Perto da capital,numa pequena cidade.
Sempre acho que qualquer cidade fica perto da capital,por lá,na Holanda.Mania de quem nasceu em terras continentais e o resto do mundo fica diminuto.Hoje,Sergio mora sozinho.Já está assim desde sempre.
Lá,tem uma vida.Trabalha onde se trata.Recebe ajuda previdenciária de um governo de país civilizado.Aqui,só encontrou linchamento."Imagine.Ele disse numa entrevista para um emprego que avistara um duende,ao sair do avião"!!. Perguntei então ao racionalista impoluto, que dissera o que está escrito acima, o seguinte: " E você não é aquele que crê em Jesus?Que reza para ele?Que conversa com ele assim.......repleto de transcendências?" Qual é a diferença da qualidade do delírio?É só uma questão política?Quem pode garantir?
Ao me despedir ,naquele dia belo ,chuva/sol-,e deixá-lo partir com a sua saudade,avistei, no andar segundo, a sua mãe que escutava algo feito canto.Ou seria um pranto?
Van Gogh e a sua turma sempre a confundir.Dr Gachet que nos observa.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
O balançar de um Janeiro
Certa vez, Afonso Romano de Sant'Anna escreveu no Jornal O Globo sobre a queda do Muro de Berlim.Dizia então que algo se erguera nele com a queda do tal muro,com o fim do comunismo na União Soviética.Afonso Romano é poeta consagrado no Brasil.
Janeiro se encerra com o desmoronamento de um prédio que assassinou mais dois.Ele,o desmoronado primeiro,primeiro a cair,a beijar a lona (expressão comum nos lutadores,agora na moda,do UFC) impôs a sua compleição física avantajada e engoliu os oponentes menores.Nocaute.Correria ,pânico,perplexidade,vexame.
O que se ergue em mim (passados mais de 20 anos da poesia bela de Afonso Romano e cujo papel amarelado pela implacável passagem dos dias, trazendo a lembrança daquele ato que derruba para erguer em seguida) após o horror que a negligência estúpida e arrogante daquele gesto que a gente faz nos traz?
Vez ou outra resolvo responsabilizar a estação quente do ano, o verão tão celebrado nos trópicos,por certas estupidezes.Ora! Quanta estupidez,a minha?
A estação retrata tão somente momentos de um até logo, de uma voltinha, de um dar de ombros feito cabrocha bonita, do planeta em relação a certas estrelas que ardem de paixão.E que podem se apagar.Quem disse que era eterno?Eterno só pra mim enquanto eterno,enquanto vivo.
Yellowstone" não é ficção.Se naquele belo parque ,o mais antigo dos EUA,houver uma outra erupção vulcânica violenta,podemos mergulhar o haver numa nova era glacial.
Pois sim...Nada torna responsivo o verão ou o inverno pelas burrices da nossa espécie.Além do mais,narcisismos suspensos,o planeta não quer ser salvo não!Aí está 'yellowstone' e um certo movimento de quadril - nada que se possa comparar ao das mulheres- denominado terremoto.Placas tectônicas que enlouquecem ou pedem passagem de direito e surtam.Suas formações enlouquecem e gritam alto,rangem,desmoronando o que se pode.São cruéis os passos mal executados pelas tectônicas.Nos deixam ,na verdade,"atetctônicos",sem chão.O mesmo efeito depois do balançar da cabrocha que passa.
Não precisamos contudo abreviar a destruição do planetinha.Podemos agir civilizadamente por mais um bom tempo.Nosso Caetano Veloso já ensinou a letra.
Nas minhas tectônicas abaladas pelo prédio que cai e assassina a gente,ergueu-se tão somente essas linhas de agora.Tal e qual para Afonso,lá nos idos dos agora longínquos anos 80.Qual seria a idade da minha memória?
Ontem,ou seja,em 1989,1999 ou 2012,no meio daqueles escombros,revi um colega de infância.Ele fazia um curso para conversar melhor com os computadores.Pretendia alçar outros vôos.Era noite clara no planetinha azul (azul?) e a lua ,superego daquela estrela com quem nossa terra mantém romance antigo,exibia-se bela,feito moça do Rio, no verão que gosto de implicar.Implicar pra quê?Só para implicar.Sou deveras malcriado.
Não tanto quanto certas tectônicas que nos equivocam contundentemente.Sem perdões.
Ergue-se também ,naquilo que digo de mim, a incerteza naquele chão duro ,quente/frio,que é para todos e lugar algum.
Janeiro se encerra com o desmoronamento de um prédio que assassinou mais dois.Ele,o desmoronado primeiro,primeiro a cair,a beijar a lona (expressão comum nos lutadores,agora na moda,do UFC) impôs a sua compleição física avantajada e engoliu os oponentes menores.Nocaute.Correria ,pânico,perplexidade,vexame.
O que se ergue em mim (passados mais de 20 anos da poesia bela de Afonso Romano e cujo papel amarelado pela implacável passagem dos dias, trazendo a lembrança daquele ato que derruba para erguer em seguida) após o horror que a negligência estúpida e arrogante daquele gesto que a gente faz nos traz?
Vez ou outra resolvo responsabilizar a estação quente do ano, o verão tão celebrado nos trópicos,por certas estupidezes.Ora! Quanta estupidez,a minha?
A estação retrata tão somente momentos de um até logo, de uma voltinha, de um dar de ombros feito cabrocha bonita, do planeta em relação a certas estrelas que ardem de paixão.E que podem se apagar.Quem disse que era eterno?Eterno só pra mim enquanto eterno,enquanto vivo.
Yellowstone" não é ficção.Se naquele belo parque ,o mais antigo dos EUA,houver uma outra erupção vulcânica violenta,podemos mergulhar o haver numa nova era glacial.
Pois sim...Nada torna responsivo o verão ou o inverno pelas burrices da nossa espécie.Além do mais,narcisismos suspensos,o planeta não quer ser salvo não!Aí está 'yellowstone' e um certo movimento de quadril - nada que se possa comparar ao das mulheres- denominado terremoto.Placas tectônicas que enlouquecem ou pedem passagem de direito e surtam.Suas formações enlouquecem e gritam alto,rangem,desmoronando o que se pode.São cruéis os passos mal executados pelas tectônicas.Nos deixam ,na verdade,"atetctônicos",sem chão.O mesmo efeito depois do balançar da cabrocha que passa.
Não precisamos contudo abreviar a destruição do planetinha.Podemos agir civilizadamente por mais um bom tempo.Nosso Caetano Veloso já ensinou a letra.
Nas minhas tectônicas abaladas pelo prédio que cai e assassina a gente,ergueu-se tão somente essas linhas de agora.Tal e qual para Afonso,lá nos idos dos agora longínquos anos 80.Qual seria a idade da minha memória?
Ontem,ou seja,em 1989,1999 ou 2012,no meio daqueles escombros,revi um colega de infância.Ele fazia um curso para conversar melhor com os computadores.Pretendia alçar outros vôos.Era noite clara no planetinha azul (azul?) e a lua ,superego daquela estrela com quem nossa terra mantém romance antigo,exibia-se bela,feito moça do Rio, no verão que gosto de implicar.Implicar pra quê?Só para implicar.Sou deveras malcriado.
Não tanto quanto certas tectônicas que nos equivocam contundentemente.Sem perdões.
Ergue-se também ,naquilo que digo de mim, a incerteza naquele chão duro ,quente/frio,que é para todos e lugar algum.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Passarinho na gaiola.
Em tempos de Chico Buarque no Rio,saudades do Canecão, e do mate-limão na praia ,sabor de infância,reencontro um conhecido cuja vida correu paralela a minha.Estudamos no mesmo colégio,frequentamos o mesmo clube ,moramos no mesmo bairro e nunca nos vimos.
Tentei lhe perguntar sobre algumas almas penadas em comum,mas ele não havia sido assombrado por nenhuma delas.Já que não era muito afeito às fotos pessoais,minha máquina de época era uma Kodak Xereta e deformava os rostos alheios,não tínhamos provas irrefutáveis da nossa não-amizade ,apesar da trajetória tão próxima.
Passei uma parte do tempo entrevistando-o ,pois a minha presença parecia não lhe despertar nenhum interesse.Nada quis saber a meu respeito.Poderia eu então ser um espião ,um agente secreto....e ele ,talvez,um astro de rock in roll.
Passo parte do meu tempo tentando ser invisível ao me mostrar demais.
Calado,fiz-lhe uma última pergunta: "Você se lembra de um garçom, daquele nosso clube da vida toda em que jamais trocamos duas palavras sequer,e que se chamava Passarinho?"
A resposta que recebi foi a prova de quem ainda pode se surpreender,e muito, com as surpresas da vida.Tal qual aquela frase do ex-Beatle John Lennon " A vida é o que nos acontece enquanto planejávamos outras coisas".
Passarinho,homem tímido e gentil e que servia o melhor milk shake de chocolate do planeta,já que o planeta da minha época era meu clube e nada mais,tinha saído do emprego,há algum tempo.
Disse-lhe então que a última vez que o avistara tinha sido numa festa de reveillon,onde trabalhava num bar improvisado ,no segundo andar ,logo acima da quadra de esporte coberta.Era noite de bebedeira e ilusões.Desejávamos prosperidade até para os inimigos.Noite de cinismo estrelada e o espocar de fogos de artifícios compondo a cenografia.
Alguns poucos anos antes, eu voltara a frequentar o clube com certa assiduidade.Localizei-o e obviamente voltei aos sabores dos tempos em que comecei a sentir sabores pra valer.Reconheceu-me ou fez um belo teatro.Eu,entrando na Universidade, e ele ali,o mesmo.Ao menos para meus olhos não tão cansados.E era isso que importava.
Agora,Passarinho não se fez gavião.Assaltou bancos e foi preso.Vive numa outra gaiola.Confinado,humilhado.Não sei o que o levou a tal ato de herói.Em bancos não há alpiste,e sim muita grana e também desejos cínicos de prosperidade.
Passarinho não serve mais milk shake de chocolate, à beira da piscina dos burgueses do clube, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas,à beira do paraíso,sempre com o mesmo sorriso de canto de boca.
Está no centro do inferno.
Tentei lhe perguntar sobre algumas almas penadas em comum,mas ele não havia sido assombrado por nenhuma delas.Já que não era muito afeito às fotos pessoais,minha máquina de época era uma Kodak Xereta e deformava os rostos alheios,não tínhamos provas irrefutáveis da nossa não-amizade ,apesar da trajetória tão próxima.
Passei uma parte do tempo entrevistando-o ,pois a minha presença parecia não lhe despertar nenhum interesse.Nada quis saber a meu respeito.Poderia eu então ser um espião ,um agente secreto....e ele ,talvez,um astro de rock in roll.
Passo parte do meu tempo tentando ser invisível ao me mostrar demais.
Calado,fiz-lhe uma última pergunta: "Você se lembra de um garçom, daquele nosso clube da vida toda em que jamais trocamos duas palavras sequer,e que se chamava Passarinho?"
A resposta que recebi foi a prova de quem ainda pode se surpreender,e muito, com as surpresas da vida.Tal qual aquela frase do ex-Beatle John Lennon " A vida é o que nos acontece enquanto planejávamos outras coisas".
Passarinho,homem tímido e gentil e que servia o melhor milk shake de chocolate do planeta,já que o planeta da minha época era meu clube e nada mais,tinha saído do emprego,há algum tempo.
Disse-lhe então que a última vez que o avistara tinha sido numa festa de reveillon,onde trabalhava num bar improvisado ,no segundo andar ,logo acima da quadra de esporte coberta.Era noite de bebedeira e ilusões.Desejávamos prosperidade até para os inimigos.Noite de cinismo estrelada e o espocar de fogos de artifícios compondo a cenografia.
Alguns poucos anos antes, eu voltara a frequentar o clube com certa assiduidade.Localizei-o e obviamente voltei aos sabores dos tempos em que comecei a sentir sabores pra valer.Reconheceu-me ou fez um belo teatro.Eu,entrando na Universidade, e ele ali,o mesmo.Ao menos para meus olhos não tão cansados.E era isso que importava.
Agora,Passarinho não se fez gavião.Assaltou bancos e foi preso.Vive numa outra gaiola.Confinado,humilhado.Não sei o que o levou a tal ato de herói.Em bancos não há alpiste,e sim muita grana e também desejos cínicos de prosperidade.
Passarinho não serve mais milk shake de chocolate, à beira da piscina dos burgueses do clube, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas,à beira do paraíso,sempre com o mesmo sorriso de canto de boca.
Está no centro do inferno.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Melancolia e bolo de carne.
Foi então que o Dinamarquês Lars Von Trier,diretor de cinema polemista e talentoso,avançou com a sua melancolia azul,arredondada,forma de bola que flutua,suavemente em direção ao nosso planetinha.
Fizeram cálculos ,os tais cientistas,e asseguraram que não havia risco maior de colisão.Ela,a melancolia,daria uma lambidinha no nosso prezado e insignificante planeta,para depois partir.
Sabe como é o cálculo preciso de um matemático.Ele quer explicar o mundo por aquela via.Aí vem um lógico,um pouco mais chegado aquilo que dizem ser abstrações , e bagunça tudo.Vem um Físico e bagunça um pouco mais:'Mas o nosso universo está em expansão....a velocidade da luz passa a ser questionada inclusive.Einstein se remove nas tumbas de um universo dito elegante..." E vem psicanalista meter o bedelho,falar sobre o comportamento dos personagens,vem o filósofo discorrer sobre o ser ,sobre a ontologia do planeta e do diretor, e tudo isto está valendo.Podemos falar com vontade.Até porque aquilo nos remete à certas falas.
O diretor já declarara que sofre de depressão,ou seja,é um homem contemporâneo do seu tempo. Depressão está na moda e isso pode ser preocupante ,já que os medicamentos - úteis e em alguns casos imprescindíveis- não são vitaminas e não deveriam ser prescritos de qualquer forma,pois afetam o sistema nervoso central e tem efeitos colaterais.Ganho de peso,impotência - nos meninos sobretudo-, alteração na qualidade do sono,aumento da pressão arterial - no caso dos hipertensos é preciso cuidado-, dentre outros sintomas.
No caso da película não melancólica, ao contrário, pois tenta reverter o sintoma não somente esclarecendo sobre os mecanismos que a compõem ,mas agindo sobre o mesmo,algumas sequencias no filme são exemplares. O cientista que supõe saber tudo e crê que o cálculo diz tudo sobre o que há.Decepcionado,não segura a peteca e é o primeiro a abandonar o barco;a criança cuja inscrição de um fim,de um término definitivo, não se dá enquanto tal, e tudo aquilo virá mais um sonho, repleto de tias heroínas a salvá-lo; a irmã salvacionista -companheira e gentil é bem verdade,mas insuportável no seu papel de salvacionista do outro e rainha do lar,rainha mãe,mulher dedicada e exemplar do tal cientista afortunado; e a melancólica cujo mundo já tinha sido faz tempo...apesar da farsa que sustenta,já que ainda vive,se alimenta,gosta de cavalgar um garanhão,dá uma trepadinha com o garotinho-aprendiz,para que os convidados se divirtam.E gosta também de bolo de carne.
Já o papai e a mamãe são malcriados do mesmo modo que o diretor.Mamãe de melancólica só diz coisas certas nas horas erradas.Comporta-se bem-mal.O papai é um taradinho inconsequente que coleciona talheres sofisticados. Ah! Existe o corno....E pediu para sê-lo.Fez questão de não sossegar na sua vocação para escravo amoroso de um desprezo anunciado desde sempre.
A festa é sofisticada,o local lindo.Comidas e bebidas e uma promoção no emprego.Demais não é?
É.
A farsa de quem finge não ter mais mundo é essa arrogância em supor que pode se atravessar o que não há,o abismo mais fundo.Até o garanhão e o carrinho de golfe não conseguiram cruzar aquela ponte.Aquela ponte vai a nenhum lugar,a um não lugar.É uma espécie de silêncio wittgenstaniano.Não há mais o que dizer.
Uma melancolia me parece feito menino mimado.Conheço bem ,pois fui um.Rebelei-me a tempo de não me ferrar um pouco mais. Se você banca o salvacionista ou o provedor incansável e oferece e oferece e oferece,esse massacre de ofertas e coisas e luxos só reforçará o sintoma paralisante ,quase catatônico.Na verdade,catatônico.
Criança mimada sabe correr atrás quando tem fome.Não precisa ficar empurrando nada goela abaixo,até porque nada já é muita coisa.Uma anorexia parece alimentar-se de coisa alguma.E o bolo de carne,sabor de infância ,passa a ter gosto de cinza.
Se bem que....Aquilo lá não é uma neurose um pouco mais apimentada,não?Aquele desinteresse não tem um certo charme histérico de quem quer todas as coisas ao mesmo tempo e que de algum modo já sacou que o que interessa é impossível,mas não quer se mancar quanto a isso?O que seria se mancar,por exemplo?
Num Seminário de 1992,intitulado Pedagogia Freudiana,MD Magno já nos ensinou que pode-se beber o vinho,a festa,o maldito casamento,enfim, a existência do dia a dia, com Nirvana.O capítulo se chama "Sorvete com Nirvana".Antídoto contra melancolias e cinismos
Lembram daquela anedota: quer eleger um mestre para em seguida destituí-lo,jogá-lo no lixo.
É disso que padecemos vez ou outra,vez e sempre.Discípulo é confiável?
Fizeram cálculos ,os tais cientistas,e asseguraram que não havia risco maior de colisão.Ela,a melancolia,daria uma lambidinha no nosso prezado e insignificante planeta,para depois partir.
Sabe como é o cálculo preciso de um matemático.Ele quer explicar o mundo por aquela via.Aí vem um lógico,um pouco mais chegado aquilo que dizem ser abstrações , e bagunça tudo.Vem um Físico e bagunça um pouco mais:'Mas o nosso universo está em expansão....a velocidade da luz passa a ser questionada inclusive.Einstein se remove nas tumbas de um universo dito elegante..." E vem psicanalista meter o bedelho,falar sobre o comportamento dos personagens,vem o filósofo discorrer sobre o ser ,sobre a ontologia do planeta e do diretor, e tudo isto está valendo.Podemos falar com vontade.Até porque aquilo nos remete à certas falas.
O diretor já declarara que sofre de depressão,ou seja,é um homem contemporâneo do seu tempo. Depressão está na moda e isso pode ser preocupante ,já que os medicamentos - úteis e em alguns casos imprescindíveis- não são vitaminas e não deveriam ser prescritos de qualquer forma,pois afetam o sistema nervoso central e tem efeitos colaterais.Ganho de peso,impotência - nos meninos sobretudo-, alteração na qualidade do sono,aumento da pressão arterial - no caso dos hipertensos é preciso cuidado-, dentre outros sintomas.
No caso da película não melancólica, ao contrário, pois tenta reverter o sintoma não somente esclarecendo sobre os mecanismos que a compõem ,mas agindo sobre o mesmo,algumas sequencias no filme são exemplares. O cientista que supõe saber tudo e crê que o cálculo diz tudo sobre o que há.Decepcionado,não segura a peteca e é o primeiro a abandonar o barco;a criança cuja inscrição de um fim,de um término definitivo, não se dá enquanto tal, e tudo aquilo virá mais um sonho, repleto de tias heroínas a salvá-lo; a irmã salvacionista -companheira e gentil é bem verdade,mas insuportável no seu papel de salvacionista do outro e rainha do lar,rainha mãe,mulher dedicada e exemplar do tal cientista afortunado; e a melancólica cujo mundo já tinha sido faz tempo...apesar da farsa que sustenta,já que ainda vive,se alimenta,gosta de cavalgar um garanhão,dá uma trepadinha com o garotinho-aprendiz,para que os convidados se divirtam.E gosta também de bolo de carne.
Já o papai e a mamãe são malcriados do mesmo modo que o diretor.Mamãe de melancólica só diz coisas certas nas horas erradas.Comporta-se bem-mal.O papai é um taradinho inconsequente que coleciona talheres sofisticados. Ah! Existe o corno....E pediu para sê-lo.Fez questão de não sossegar na sua vocação para escravo amoroso de um desprezo anunciado desde sempre.
A festa é sofisticada,o local lindo.Comidas e bebidas e uma promoção no emprego.Demais não é?
É.
A farsa de quem finge não ter mais mundo é essa arrogância em supor que pode se atravessar o que não há,o abismo mais fundo.Até o garanhão e o carrinho de golfe não conseguiram cruzar aquela ponte.Aquela ponte vai a nenhum lugar,a um não lugar.É uma espécie de silêncio wittgenstaniano.Não há mais o que dizer.
Uma melancolia me parece feito menino mimado.Conheço bem ,pois fui um.Rebelei-me a tempo de não me ferrar um pouco mais. Se você banca o salvacionista ou o provedor incansável e oferece e oferece e oferece,esse massacre de ofertas e coisas e luxos só reforçará o sintoma paralisante ,quase catatônico.Na verdade,catatônico.
Criança mimada sabe correr atrás quando tem fome.Não precisa ficar empurrando nada goela abaixo,até porque nada já é muita coisa.Uma anorexia parece alimentar-se de coisa alguma.E o bolo de carne,sabor de infância ,passa a ter gosto de cinza.
Se bem que....Aquilo lá não é uma neurose um pouco mais apimentada,não?Aquele desinteresse não tem um certo charme histérico de quem quer todas as coisas ao mesmo tempo e que de algum modo já sacou que o que interessa é impossível,mas não quer se mancar quanto a isso?O que seria se mancar,por exemplo?
Num Seminário de 1992,intitulado Pedagogia Freudiana,MD Magno já nos ensinou que pode-se beber o vinho,a festa,o maldito casamento,enfim, a existência do dia a dia, com Nirvana.O capítulo se chama "Sorvete com Nirvana".Antídoto contra melancolias e cinismos
Lembram daquela anedota: quer eleger um mestre para em seguida destituí-lo,jogá-lo no lixo.
É disso que padecemos vez ou outra,vez e sempre.Discípulo é confiável?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Um novo ano?
Esse ano não acabará.Decidi que ele continua.Será eterno.Mas
é preciso tão somente um movimento desejante próprio para que algo assim se
perpetue?Nas ilusões nossas de todo o dia, sim.De fato, não.
Todo ano é singular ,pois único,assim como cada um e seus tesões
particulares,únicos também.
O que há de genérico em cada coisa que habita por aí são as
intercessões que nos compõem.É essa coisa em comum e que nos vincula também.Mas
ela é uma só, numa miríade sem fim.
O que faz a cultura e os seus próceres senão nos catequizar
a todo momento. O curioso é que isso se
assemelha a uma posição opositiva,contrária,àquela que está no comando.Qualquer
um que se opõe ,por exemplo, a uma liderança política qualquer deve adotar tal
postura,ou seja, a da insistência na sua posição contrária àquela dominante de
momento.Mas a diferença reside no fato de que não se deve tentar convencer.É
inútil se do lado de lá tem alguém que raciocina um pouquinho só.É muita
pretensão achar que se convence alguém que não quer ser convencido,manipulado...por
aquilo.Visto que será pego por outra coisa ou outro alguém.Inarredavelmente.Porém,pode
operar juízos menos preconceituosos,mais abstratos.Conteúdo demais atrapalha.
Mas o que se faz mediante o fato bruto de que somos nós
também os comandantes dessa nau repleta de furos?Justamente por esse comando...
Engana-se quem crê no poder absoluto do que quer que haja
.Manipuladores,hipnotizadores,adivinhos,máfia branca ou de qualquer
coloração...Tudo isso são contribuições nossas.
A quem suponha – cínica ou ingenuamente- que o parlamento e
seus participantes são seres transcendentes e que não nos dizem respeito.Chegaram
lá por mera providência divina. Deve ter sido.....E o fato de não ter elegido
esse ou aquele candidato, ou então, não ter participado do jogo ,abstendo-se ou
anulando a sua decisão, não nos exime de responsabilidades.Estamos no mesmo
jogo.Não há como não estar no jogo!E ele é cada vez mais amplo e incomensurável.
As informações estão quantitativamente mais rápidas e mais numerosas.Um preço a
ser pago pela tecnologia vigente.Como filtrar tudo isso sem enlouquecer?Sem dar
razão às tentações egocêntricas, e ou histéricas, de querer dar conta de tudo?Haja
narcisismo para tanto. E é típico dos que transformam sua própria existência
enquanto fundamento para se olhar o mundo e ser olhado pelo mesmo. Aliás, quem
olha pra quem e para quê?
A minha questão diz respeito a uma vã tentativa de não
encerrar esse ano agora. Quero poder dizer não a esse calendário religioso,de
cepa gregoriana,vez ou outra,já que inteiramente é praticamente impossível.As
formações culturais – definidas pela Nova Psicanálise de um modo geral-
enquanto modos de existir dessa chamada espécie humana são poderosíssimas.São
hábitos ,costumes ,arraigados por milênios.
Portamos um organismo frágil na sua origem. Sim ou
não?Alguém se candidata a uma briguinha ,digamos um vale-tudo, contra um leão
ou um urso famintos?Uma corridinha na água,valendo medalha, contra um tubarão ?
Isso sem falar nos microorganismos,nos parasitas, que matam centenas
de milhares todos os anos,há tanto tempo.
Contudo ,temos uma mente capaz de avessar o que quer que
esteja posto para ‘nosotros’.E esse é o nosso maior poder.Ali,nas grimpas das
nossas oposições,nas nossas binariedades,similares ao computador, na verdade
para além dessas polaridades sim/não dia/noite/ morte/vida mania/depressão, 0/1
etc, temos a chance da novidade sempre em progresso,da chamada criação.Um salto
bem maior do que a já tão útil e relevante criatividade que mistura opostos
existentes,mesclando o que já está posto e decantado na vida, e inventa outra
coisa.Todavia, criar é fazer brotar algo radicalmente novo,jamais
pensado.Talvez estivesse até em potência,o que é muito comum,mas não havia
pintado e reverte o jogo jogado.
Esse organismo idiota pode sofisticar-se. Fez
roupa,remédio,residência,aprendeu a química dos alimentos,desenvolveu técnicas
de guerra,instrumentos para caça,bolsa de valores ,música ,cinema,tudo isso aí
junto que vem a ser arte.
Existe gente –gregoriana demasiadamente ou não- que acha que
a natureza humana é a das florestas,a dos botos.Não.Nada mais natural para essa
nossa espécie do que os artifícios que produzimos e de tantos outros que ainda
seremos capazes de gerar.O que não implica em ter que destruir a natureza outra
e que já estava aí desde sempre.Além do que ,necessitamos dela para sobreviver.Ao
menos enquanto a espécie permanecer feito carbono. E ela tem belezas extraordinárias,o
tal haver natureza. Nunca viram um ornitorrinco?Um Tsunami?Uma chacoalhada mais
irritadiça dos deuses das camadas mais profundas dessa terra, chamada Terra,
conceituada enquanto terremoto?
Certa vez o meu mestre indagou:”E se o verde for a
poluição?E se o tal Deus –que tantos conjecturam – não gostar da gente?”E não
há como não conjecturá-lo.O problema é que não se toma isso enquanto mais uma
prótese,uma criação da espécie,capaz de aplacar algumas angústias e
desamparos.Se não for por essa via o que se vê são ataques delirantes de
sacralização de meros personagens ,assim como nós.Agora mesmo vive-se isso numa
tribo distante,lá pela Ásia do mundo, em que o ex-mandatário,ex-presidente,ex-rei,
cometeu o seu maior pecado.Para além da soberba,pecado maior para os cristãos
,por exemplo, o cidadão morreu.Tadinho: ele não podia fazê-lo.
As reações do seu dito povo são as piores possíveis.Aquilo
chega a assustar,sobretudo quando sabemos que ele desenvolvem armas capazes de
explodir o haver por inteiro.Então que tratemos de desenvolver a nossa
também!Por que um grupo de psicóticos privilegiados pode possuir esse poder e
nós outros, da Ameriquinha ao Sul, não podemos? Qual o porquê de tanta
subserviência?
Num sistema prisional ,os bons moços e moças residentes de
lá se respeitam.Sabem que ali só tem gente boa....capazes de quase tudo.Numa
academia de artes marciais idem.Já freqüentei.Todos sabiam dar porrada e tomar
de volta.Por que somente a certas criaturas,independente de suas convicções
religiosas ,políticas, lhes é dado o direito de poder apontar os seus
brinquedos belicosos e destruir o mesmo planetinha que, hoje em dia,
articula-se em rede cada vez mais ampla?Manda quem pode e obedece quem tem
juízo?”Maybe”,talvez.
Pois é. Resolvi então implicar com Deus.Decidi não encerrar
o ano.Tampouco pretendo morrer antes que ele se eternize enquanto único-ano.
Papai Noel,aquele gordo escroto que funciona bem no país de
onde veio ,pois o inverno é tão intenso e implacável,restringindo a tal luz
natural, que também tem as suas inadimplências enquanto luz, que a turma que
por lá gorjeia fica melancólica.Logo,o tal rapaz barbudo de saco vermelho
alivia a melancolia das crianças.Pronto.Ele partiu.Partir não é morrer.Outro
dia usei tal expressão para homenagear uma figura importante para minha
existência. A quem iludir com isso?
O tal velhinho saiu de novo.Pegou seu carro popular e enganou
as crianças mais uma vez.Quem trouxe o presente então foi aquele escroto?Não
foi não!Fui eu quem comprou aquele troço com o dinheiro que roubei,ou
melhor,ganhei com o tal trenó, cheio de suor e lágrimas de cada dia,de tantos
anos.Sou somente mais um mero flanelinha do haver!
Esse ano inventarei ano novo.Não será bi sexto.Fevereiro
continuará mais preguiçosa em seu charme único de estar Fevereiro.E eu já desmunhequei aqui com
Fevereiro,pois ele pode ser menino e também ter preguiça e usar cor de rosa.
Afinal,a cor do sexo é cor que corta, que secciona,que sabe que para além de
tudo o que há não há transa possível,não
há sexo possível,nem morte.A cor do sexo já misturou o azul e o amarelo e o
preto e o branco e o rosa e avesso tudo isso.Tá tudo de cabeça pra baixo e
novamente recomeçar.
Esse ano será como a frase sábia dita por um pai ,cuja
memória se despede passo a passo.Perguntado sobre o dia de hoje,ou melhor: “Que
ano é hoje? – Um ano bom”.
é preciso tão somente um movimento desejante próprio para que algo assim se
perpetue?Nas ilusões nossas de todo o dia, sim.De fato, não.
Todo ano é singular ,pois único,assim como cada um e seus tesões
particulares,únicos também.
O que há de genérico em cada coisa que habita por aí são as
intercessões que nos compõem.É essa coisa em comum e que nos vincula também.Mas
ela é uma só, numa miríade sem fim.
O que faz a cultura e os seus próceres senão nos catequizar
a todo momento. O curioso é que isso se
assemelha a uma posição opositiva,contrária,àquela que está no comando.Qualquer
um que se opõe ,por exemplo, a uma liderança política qualquer deve adotar tal
postura,ou seja, a da insistência na sua posição contrária àquela dominante de
momento.Mas a diferença reside no fato de que não se deve tentar convencer.É
inútil se do lado de lá tem alguém que raciocina um pouquinho só.É muita
pretensão achar que se convence alguém que não quer ser convencido,manipulado...por
aquilo.Visto que será pego por outra coisa ou outro alguém.Inarredavelmente.Porém,pode
operar juízos menos preconceituosos,mais abstratos.Conteúdo demais atrapalha.
Mas o que se faz mediante o fato bruto de que somos nós
também os comandantes dessa nau repleta de furos?Justamente por esse comando...
Engana-se quem crê no poder absoluto do que quer que haja
.Manipuladores,hipnotizadores,adivinhos,máfia branca ou de qualquer
coloração...Tudo isso são contribuições nossas.
A quem suponha – cínica ou ingenuamente- que o parlamento e
seus participantes são seres transcendentes e que não nos dizem respeito.Chegaram
lá por mera providência divina. Deve ter sido.....E o fato de não ter elegido
esse ou aquele candidato, ou então, não ter participado do jogo ,abstendo-se ou
anulando a sua decisão, não nos exime de responsabilidades.Estamos no mesmo
jogo.Não há como não estar no jogo!E ele é cada vez mais amplo e incomensurável.
As informações estão quantitativamente mais rápidas e mais numerosas.Um preço a
ser pago pela tecnologia vigente.Como filtrar tudo isso sem enlouquecer?Sem dar
razão às tentações egocêntricas, e ou histéricas, de querer dar conta de tudo?Haja
narcisismo para tanto. E é típico dos que transformam sua própria existência
enquanto fundamento para se olhar o mundo e ser olhado pelo mesmo. Aliás, quem
olha pra quem e para quê?
A minha questão diz respeito a uma vã tentativa de não
encerrar esse ano agora. Quero poder dizer não a esse calendário religioso,de
cepa gregoriana,vez ou outra,já que inteiramente é praticamente impossível.As
formações culturais – definidas pela Nova Psicanálise de um modo geral-
enquanto modos de existir dessa chamada espécie humana são poderosíssimas.São
hábitos ,costumes ,arraigados por milênios.
Portamos um organismo frágil na sua origem. Sim ou
não?Alguém se candidata a uma briguinha ,digamos um vale-tudo, contra um leão
ou um urso famintos?Uma corridinha na água,valendo medalha, contra um tubarão ?
Isso sem falar nos microorganismos,nos parasitas, que matam centenas
de milhares todos os anos,há tanto tempo.
Contudo ,temos uma mente capaz de avessar o que quer que
esteja posto para ‘nosotros’.E esse é o nosso maior poder.Ali,nas grimpas das
nossas oposições,nas nossas binariedades,similares ao computador, na verdade
para além dessas polaridades sim/não dia/noite/ morte/vida mania/depressão, 0/1
etc, temos a chance da novidade sempre em progresso,da chamada criação.Um salto
bem maior do que a já tão útil e relevante criatividade que mistura opostos
existentes,mesclando o que já está posto e decantado na vida, e inventa outra
coisa.Todavia, criar é fazer brotar algo radicalmente novo,jamais
pensado.Talvez estivesse até em potência,o que é muito comum,mas não havia
pintado e reverte o jogo jogado.
Esse organismo idiota pode sofisticar-se. Fez
roupa,remédio,residência,aprendeu a química dos alimentos,desenvolveu técnicas
de guerra,instrumentos para caça,bolsa de valores ,música ,cinema,tudo isso aí
junto que vem a ser arte.
Existe gente –gregoriana demasiadamente ou não- que acha que
a natureza humana é a das florestas,a dos botos.Não.Nada mais natural para essa
nossa espécie do que os artifícios que produzimos e de tantos outros que ainda
seremos capazes de gerar.O que não implica em ter que destruir a natureza outra
e que já estava aí desde sempre.Além do que ,necessitamos dela para sobreviver.Ao
menos enquanto a espécie permanecer feito carbono. E ela tem belezas extraordinárias,o
tal haver natureza. Nunca viram um ornitorrinco?Um Tsunami?Uma chacoalhada mais
irritadiça dos deuses das camadas mais profundas dessa terra, chamada Terra,
conceituada enquanto terremoto?
Certa vez o meu mestre indagou:”E se o verde for a
poluição?E se o tal Deus –que tantos conjecturam – não gostar da gente?”E não
há como não conjecturá-lo.O problema é que não se toma isso enquanto mais uma
prótese,uma criação da espécie,capaz de aplacar algumas angústias e
desamparos.Se não for por essa via o que se vê são ataques delirantes de
sacralização de meros personagens ,assim como nós.Agora mesmo vive-se isso numa
tribo distante,lá pela Ásia do mundo, em que o ex-mandatário,ex-presidente,ex-rei,
cometeu o seu maior pecado.Para além da soberba,pecado maior para os cristãos
,por exemplo, o cidadão morreu.Tadinho: ele não podia fazê-lo.
As reações do seu dito povo são as piores possíveis.Aquilo
chega a assustar,sobretudo quando sabemos que ele desenvolvem armas capazes de
explodir o haver por inteiro.Então que tratemos de desenvolver a nossa
também!Por que um grupo de psicóticos privilegiados pode possuir esse poder e
nós outros, da Ameriquinha ao Sul, não podemos? Qual o porquê de tanta
subserviência?
Num sistema prisional ,os bons moços e moças residentes de
lá se respeitam.Sabem que ali só tem gente boa....capazes de quase tudo.Numa
academia de artes marciais idem.Já freqüentei.Todos sabiam dar porrada e tomar
de volta.Por que somente a certas criaturas,independente de suas convicções
religiosas ,políticas, lhes é dado o direito de poder apontar os seus
brinquedos belicosos e destruir o mesmo planetinha que, hoje em dia,
articula-se em rede cada vez mais ampla?Manda quem pode e obedece quem tem
juízo?”Maybe”,talvez.
Pois é. Resolvi então implicar com Deus.Decidi não encerrar
o ano.Tampouco pretendo morrer antes que ele se eternize enquanto único-ano.
Papai Noel,aquele gordo escroto que funciona bem no país de
onde veio ,pois o inverno é tão intenso e implacável,restringindo a tal luz
natural, que também tem as suas inadimplências enquanto luz, que a turma que
por lá gorjeia fica melancólica.Logo,o tal rapaz barbudo de saco vermelho
alivia a melancolia das crianças.Pronto.Ele partiu.Partir não é morrer.Outro
dia usei tal expressão para homenagear uma figura importante para minha
existência. A quem iludir com isso?
O tal velhinho saiu de novo.Pegou seu carro popular e enganou
as crianças mais uma vez.Quem trouxe o presente então foi aquele escroto?Não
foi não!Fui eu quem comprou aquele troço com o dinheiro que roubei,ou
melhor,ganhei com o tal trenó, cheio de suor e lágrimas de cada dia,de tantos
anos.Sou somente mais um mero flanelinha do haver!
Esse ano inventarei ano novo.Não será bi sexto.Fevereiro
continuará mais preguiçosa em seu charme único de estar Fevereiro.E eu já desmunhequei aqui com
Fevereiro,pois ele pode ser menino e também ter preguiça e usar cor de rosa.
Afinal,a cor do sexo é cor que corta, que secciona,que sabe que para além de
tudo o que há não há transa possível,não
há sexo possível,nem morte.A cor do sexo já misturou o azul e o amarelo e o
preto e o branco e o rosa e avesso tudo isso.Tá tudo de cabeça pra baixo e
novamente recomeçar.
Esse ano será como a frase sábia dita por um pai ,cuja
memória se despede passo a passo.Perguntado sobre o dia de hoje,ou melhor: “Que
ano é hoje? – Um ano bom”.
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