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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cordilheiras que se movem.Uma Bailarina e um ladrão.

A bailarina e o ladrão estão em cartaz.Aliás, nunca saíram de moda.
Existem outros nomes ,apelidos,para esses ofícios tão antigos,mas ambos superam os modismos que foram feitos para ser superados.Modismo é para passar de moda.E é uma prova de inteligência,pois produz vida.Faz série.
O único mal dos modismos é que existem muitos a acreditar demais neles.Aí vira vulgata,uniforme,gueto.
Não confundir pois modismos com o fato de Ricardo Darín -ator Argentino que tem sempre a mesma cara e ela é diferente sempre-com modismos.Ele é sim,um tremendo de um ator.Não faz o próprio personagem pensando nos próximos filmes.E lá está Ricardo,já está íntimo,depois de uma dezena de filmes vistos,a trabalhar talentosamente seu novo bandido.Semelhante ao que fizera em 'Nueve Reynas',uma década atrás.
Semelhante e completamente diferente.Esse de agora tem uma grande dose de humanidade.
É bandido bom ,ou seja, bandido que rouba bandido.Um Robin Hood portenho e que não é brega e nem tampouco moralista.
Não que bandido ruim não tenha tudo isso,mas é que de bandido ruim o cansaço nos enfadonha.
Ele sai da cadeia,após temporada breve,isto é ,eterna, e é saudado e temido.Está no Chile cujo cenário são aquelas pinturas:cordilheiras,seu retrato.
O Chile se faz misterioso.Suas pessoas fazem charme com esse enigmático no ar.
Não se vê terno amarrotado e nem sorriso desbotado,já que há pouco de sorriso.Parecem muitas vezes saídos de um abalo sísmico.Elegantes,contudo.Tristes também.Existem marcas sofridas.Existe muito ressentimento mal tratado.
Um dos grandes assassinos do século XX foi de lá seu Presidente.Por uma eternidade.
Na América do Sul,assim como na Central, em terras Africanas,no Oriente Médio,em vários cantos,vagabundos desse naipe fizeram história sórdida e fortuna.Independente se eram canhotos ou destros.E à revelia,as cordilheiras se movem.....
Tem puta,corrupção,dança,miséria,riqueza,cinismo,beleza,soldado e general, cafetão ,criança chata ,mulher perdida e que se encontra ( ela queria poder.Mulher inteligente) ,moça que pensa que não fala,marido com pinta de corno e até um alazão.
O alazão se reencontra com uma antiga paixão.Uma paixão humana.A puta se apaixona pelo não cliente.Esse não cliente é sábio.A puta entendeu.Ela tem ofício mais antigo.
São essas expressões ditas humanas que compõem o roteiro desse belo filme.
Dr.Freud gostaria de assisti-lo.Sigmund,seu nome primeiro, adorava perambular por Roma,pois ali testemunhava o inconsciente operando entre formações ditas modernas e o Coliseu,o Fórum Romano....
O filme não tem abomináveis "Happy Ends" para alavancar bilheterias rentáveis e talvez por isso equivoque,surpreenda.Ninguém tem pena,esconderijo meio cínico do ódio,da mocinha-protagonista que sofre.Uma ótima jovem atriz.
As cordilheiras estão nuas e cobertas de gelo.Parecem não sentir frio.
Elas se movem.Junto com o alazão e toda essa sobra. E é coisa à beça.

domingo, 1 de abril de 2012

Millorianas....de Fernandes

Não consigo reproduzir sensações ou experiências que foram atravessadas na vida,a não ser num relato pós- evento e editado por certo.
Uma das feridas narcísicas que a invenção do Dr.Freud nos trouxe - essa tal de Psicanálise- foi a de que estamos condenados ao atraso.Sua ideia de um só depois ,ou seja, de que a significação a ser dada ,para o que quer que haja, emergirá sempre depois, evidencia-nos uma impotência irreversível.E esse depois possui as suas gradações, ressaltando a importância do 'a cada caso' e do 'a cada situação'.
Existem criaturas mais reativas que outras.Ontem mesmo, peguei-me em delito de ansiedade: uma colega falava e uma suposta ideia - pretensão juvenil de aquilo fosse alguma ideia- caiu-me,emergiu,brotou na face.Percebi o fato ,após o brotar na face.Já tinha florescido e por pouco não atrapalhei a prezada colega,visto que desejava falar-lhe algo que julgava ser fundamental para mim.Quase a atropelei com algumas tolices astutas que calara antes.Aguardei.Aguardei um pouco mais.Aquilo foi eterno.Contudo,era necessário esperar.Faz parte de um exercício mínimo de quem tenta estabelecer uma conversa mínima.E pode ser ainda mais grave se o seu interlocutor/a em questão estiver lhe dizendo algo que lhe seja desagradável ou que contrarie seu ponto de vista,sua visão de mundo,suas convicções.Na mesma hora,pinta o cãozinho que nos habita.O cãozinho racista,fundamentalista,preconceituoso que escondemos das visitas pouco íntimas.
É aí que aparece a imagem de um grande brasileiro,morto há poucos dias: Millôr Fernandes.
Enquanto digito seu nome,um corretor ortográfico indica estranheza com relação ao Millôr .Nada mais normal já que corretores ortográficos binários não estão preparados para grandezas maiores,para essas figuras que se portam além da mera combinatória entre oposições,por conseguinte,da chamada criatividade.
São personagens que criam ( criação é algo bem maior que a mistura de elementos disponíveis e a sua possível combinatória) e inauguram novas formações,novos discursos.
Millôr nasceu Milton. O moço do cartório que fez o registro errou, ou a caligrafia estava confusa ,e ele lhe sapecou dois L ao invés de um único T.
Não houve maior alarde dentre os seus familiares por causa do equívoco.Aceitaram de prontidão o novo e raro nome.Pareciam antever preciosidades.
Nascera no Méier ,tradicional bairro da Zona Norte carioca. Ainda bebê,perdera o pai..Aos 10 anos ,despede-se da mãe.Fica órfão e a pobreza financeira lhe atinge.Passa a viver num quartinho ,nos fundos da casa de uma tia.Tia que lhe fora cara por toda a vida.Tem um irmão -não sei se teve outros - que se faz jornalista importante.Um dos principais do país.
Inicia trabalho ainda bem jovem e pagava para estudar com as economias que fazia.Retornava do trabalho e às vezes deparava-se com uma sardinha que o aguardava no forno de um fogão ,da casa da tia.Ela não se esquecia dele. E ele nunca se esqueceu desse fato. Foi muito pobre,quase miserável.Passara fome,antes da sardinha.
Estudou jornalismo e foi um dos mentores do Pasquim.Periódico fundamental para inteligência tupi-guarani ,sobretudo em tempos de gorilas com arcos e tanques e bolas e choques a tirar toda a nossa energia.Justo a energia daqueles cujo talento fazem esse planetinha azul girar e rodar.
Foi tradutor,escritor,ensaísta,enfim,um cara pensante e sem temores idiotas,apesar de reconhecer a idiotice nossa diária. Millôr foi talvez o maior filósofo brasileiro.Um dos seus maiores amigos, o cartunista Ziraldo,afirma isso com convicção.
Mudou -se para nossa pátria comum,Ipanema, e se fez notório.Inventou também aquele jogo ,maravilhoso para quem o pratica e terrível para quem passivamente o assiste e leva uma bola perdida no rosto, o frescobol.
Enquanto tradutor,é considerado,em versão brasileira, o maior de todos em termos de To be or not To be.Aquele toque a menos de Shakespeare,pois a língua dele não alcança a dimensão do Haver ou não Haver,essa sim a nossa questão fundamental.O que há deseja o que não há e continua desejando esse sumiço.Sumiço de Nirvana,mas continuando a desejá-lo.....o tal sumiço.
Li a sua versão para Hamlet e fui insone para o colégio.Passei a noite ,feito as obsessões paranóicas do seu protagonista, a deliciar páginas Millorianas.
Cutucava Freud e a psicanálise,não para destituí-la ,mas para provocá-la.Era um polemista genial.
Numa dessas, acredito que a protagonista-entrevistadora não entendeu,ele afirma a sua decepção com a historia da humanidade.'Um vexame.Veja esse século XX ,por exemplo!'
A apresentadora ,nascida no século citado e supondo-se uma maravilha televisiva,não gostou.Sua vaidade fora atingida em cheio.Não conseguiu mais entrevistá-lo.Ele era muito grande para o caminhãozinho daquela jovem senhora.
Millôr -Milton era pouco ou nada reativo.Botava o rosto para apanhar e bater.Incluía-se na porcentagem de idiotices que enxergava à frente.E era sábio.Tinha humor refinado.Era um cara corajoso e sofisticado na sua simplicidade.
Fui vizinho de Millôr,vizinho de bairro.Encontrei-o algumas vezes.Ele passeava.
Sua mente era ágil.Creio que Millôr tinha um tempo para significações,para tomar ciência das coisas bem mais rapidinho que a maioria de nós.Sacanagens de um demiurgo elitista?
'OH,Senhor!Dá-me um pouco de Millorices cognitivas!Sejas gentil para com os incautos!'
Ele foi um desses que se tornam contemporâneos do seu tempo.Portanto,eles são capazes de enxergar e escutar o óbvio.
Na verdade,invejava-o.Queria ser um pouco Millôr-Milton.

terça-feira, 20 de março de 2012

Boy Interrupted.Luto cultuado.

Dana Perry é uma americana corajosa e perdida.Ao menos até o capítulo de anteontem.
Essa típica estadunidense da alta burguesia realizou um documentário para HBO,em 2007 se não estou enganado, intitulado "Boy interrupted".
O documentário trata da saga da sua família em torno de suicídios ocorridos na mesma.
O primeiro deles data de mais de 40 anos.Irmão mais velho,creio que sim, do marido de Dana.Rapaz bonito e proveniente de família rica do Estado de Nova Iorque.
Cometeu suicídio colocando uma mangueira na boca;mangueira atrelada ao cano de escapamento do carro que, guardado na garagem ,supostamente segura,casa da mamãe,não o salvou.Ele conseguiu!Conseguiu?Sim,pois morreu.Conseguiu o quê mesmo?Deixemos em aberto por enquanto o caixão mais que lacrado.
Esse cunhado era menino de vinte e poucos anos.Casado. Todos estavam passando um fim de semana na bela casa de campo da afortunada família.Creio que era um desses 'Thanks Given' estadunidenses.Data religiosa das mais importantes por lá.Feriado nacional com direito a várias fatias de 'apple pie' e outras delícias.
Nada disso parecia interessar-lhe mais.Preparou o suicídio com antecedência.Ofereceu-o à família reunida.Uma tremenda agressão.
A família desorientada,a mãe do morto sucumbiu mentalmente a partir desse petardo,resolveu prestar-lhe homenagem.Construíram seu túmulo nos jardins da mansão sob uma escultura enorme ,produzida e encomendada a um artista espanhol.Virou sarcófago para um morto.
Uma década depois ,nasce Evan Perry,seu sobrinho.Quero dizer: sobrinho do tio morto.Seu pai,o pai do menino que acaba de nascer,era irmão do tio morto.
Evan cresce e vai apresentando projetos semelhantes aos do tio que jamais conhecera.Enquanto pequeno,ele tem olhar distante e comportamento diferenciado,segundo os pais.Ainda segundo os seus pais,ele era uma criança muito amadurecida para a idade.Por quê?Será porque pensava em se destruir ou coisa parecida?Ou seria mais um daqueles assanhamentos neuróticos de mãe que acredita que o seu bonequinho é mais bacana ou menos bacana que todos os outros bonequinhos?
O garoto tinha visíveis comprometimentos emocionais e dificuldades em se adaptar às atividades que lhe concerniam.Faço aqui uma pequena digressão para garantir que também tive certas dificuldades adaptativas,ou melhor , ainda as tenho.
A mãe passou então a documentar,registrar,filmar o crescimento do rebento.Coisa mais insuportável.Por mais que tivesse sérios problemas,aquilo promovia um recorte em cima do garoto que tornava tudo o que era proveniente dele tão especial! Sobretudo as birutices,as chantagens, a sua tristeza em viver.
Escola especial,depois uma regular.Ali,aos 13 anos, escreveu umas peças de teatro,ensaiadas no colégio .Curiosamente,os tais colegas se divertiram muito com a peça escrita pelo tal prodígio da mamãe.
Seu pai tem outro olhar para o filho.Um olhar assustado por causa do trauma vivido,décadas antes.Trata o filho como um doente e não o idolatra por isso.É um homem de olhar triste.
Evan Perry tratava da própria morte.Era um diletante funesto.Curioso....ainda restava vivo.E preocupava-se, como em qualquer boa neurose, com a reação dos que sobreviveriam ao seu enterro.Parece que acreditava que seria possível estar presente nele,depois de morto.AH!AH!AH!AH! Piada de Vaticano!Ninguém lhe ensinou direito essa anedota.Ninguém tampouco lhe perguntou se ele entendia o que era morrer?O que significa nunca mais?Cadê o titio?Sacralizado em seu gesto tão comum: o de querer morrer.Todo mundo quer ....um pouquinho.
Evan Perry frequentava um Psiquiatra que fora corajoso ao prestar depoimento para o filme da mãe.Não estava nem um pouco confortável.Na minha opinião,tinha medo desse cliente.Parece que em certa passagem do documentário,o Dr. confessa isso.
Relembrei uma paciente que também declarava suicídios no horizonte.Eu fazia supervisão com o meu mestre e analista sobre esse reencontro.Isso foi a tempos.Também estava nervoso,inseguro, com toda aquela agressão camuflada de depressão.
Viciada em coisas brancas que se colocam no nariz, era jovem e bela.Seria parente do Dr.Fliess,colega querido do Dr.Freud?Um famoso médico, do seu tempo de Áustria, que pesquisava sobre narizes e psiquê...
Também era rica e mimada,essa minha paciente.Rica financeiramente ,pois a pobreza em outras regiões era comovente.
Alardeava que ia se matar.E eu ali firme:cagando-me e andando-me, tal qual me ensina o mestre.
Ela me perguntava se eu não iria mais atendê-la e eu lhe dizia que enquanto estivesse viva é claro que sim.Caso contrário,não seria mais comigo o papo.E com mais ninguém.Nunca mais.Será que o jovem Evan,esse garoto com o qual perco meu tempo aqui,tinha a dimensão dessa irreversibilidade?
Um dia ,a moça, bela paciente, entrou com uma arma e depositou sob a minha mesa de trabalho.Disse que eu ficasse com ela.Ela dormia ao seu lado,a tal arma.
"AH! Então você arrumou um novo namorado"?- teria lhe perguntado.Ela sorriu e depois chorou.Havia desistido de algo que, creio eu, é um direito para qualquer um,mas a maioria de nós não sabe o que faz.
Suicídios não são sinônimos de fracassos clínicos.No consultório do Dr.Lacan houve alguns,segundo seus biógrafos não autorizados.E Lacan foi um gênio da clínica.
Evan tinha, de acordo com o seu psiquiatra,transtornos bipolares - iguais a quase todos nós- e outras esquisitices.Tomava lítio.Um famoso fármaco para crises psicóticas.
Quem o escutou parece acreditar numa única saída: a medicamentosa.
O garoto já estava ,desde sempre ,entupido por drogas pesadas.
Compreendo o pânico familiar,mas é preciso rever certas coisas.Esses medicamentos,fundamentais em muitos casos ,são também perigosos.Todos trazem efeitos colaterais importantes,sobretudo se ministrados com pouco critério e por longo tempo.Afetam a memória,o metabolismo,o sono,a frequência cardio-respiratória,dentre outros 'side effects'.
O cérebro tem reações e características eletroquímicas.Não resta a menor dúvida.A mente tem tudo isso e muito mais.
Não são endorfinas e dopaminas ou certos outros neurotransmissores a fundamentar comportamentos ,escolhas,desejos,angústias.Eles são meras formações que atuam no nosso organismo.Esquecemos ,por exemplo, que existem mais células nervosas espalhadas pelo nosso tubo digestivo do que no nosso cérebro.
Ancestrais japoneses creditavam grande poder aos intestinos da vida...Diversos estudos revelavam que alguns deles acreditavam que a nossa dita psiquê existia por ali.Seria divertido,não?.'Hoje, botei uma neura vaso abaixo!O problema foi o cheirinho.Então que se chame o Dr.Fliess'!
O que se quer dizer aqui é que não se deve fundamentar a depressão pela pouca presença ou ausência desse ou daquele neurotransmissor,e sim enquanto efeito sintomático das diversas peças de uma complexa engrenagem.
A substância química que não está sendo secretada numa intensidade satisfatória - e isso se assemelha muito a resultados obtidos num exame de sangue para se avaliar ,por exemplo, dados relativos a lipidogramas ou se o número de plaquetas no sangue está na quantidade exigida, etc- é resultante de outros processos de articulação mental.E para cada Evan que há por aí.Cada Evan que somos nós também.Nós tampouco.
É bem provável que a angústia daquele olhar de pai triste fosse fruto de um luto postergado,na verdade por vir, e de um outro que perpassa a história daquela família.
Transformaram uma obra de arte em melancolia para sempre.
Existem perdas que não são superadas jamais.E isso é doença grave.Forma uma lesão,tal como uma fratura e seus pinos a lhe acompanhar pela vida inteira.Um novo esqueleto.Contudo,tão somente esqueleto.
Doutor Freud não era lá um grande frasista,mas um grande pensador e outro gênio da clínica.Teve culhão para analisar sua própria filha,Psicanalista famosa, e a namorada dela,numa época em que escolhas como essas,nada mais normal,poderiam render uma prisão ou quem sabe uma fogueira?
Todavia ,relembro uma frase sua,na verdade o sentido da frase já que não estou seguro se foram essas as palavras proferidas, e que exemplifica um pouco o que se poderia encontrar num quadro de melancolia mais grave: " Numa grande tristeza existe um buraco enorme no mundo.Numa melancolia há um buraco sem mundo".
O problema é que existem os truques canalhas de quem pratica tais esportes.
Para quem era a última carta ,escrita e largada para sempre na tela do computador ,desse jovem norte-americano debutante de 15 anos?
Se a vontade ,ela nos pertence a todos ,de gozar absolutamente para não restar mais nada,gozar da e com a morte que não há,diante do abismo sem mundo?O que o prendeu por mais algum tempo?Para quê a tal mensagem derradeira, sem destino,sem interlocução?Por quê sucumbir às pressões que se despreza e que não são tão minhas ,pois o mundo não há ,nesse buraco fundo?Esse mundo que posso fingir não ser tão meu também.Bela estupidez.
O olhar distante daquele pai perdido é olhar de quem ainda não viu.Talvez não enxergue jamais.De quem não conseguiu se distanciar o suficiente para não ficar tão parecido.
Alguns vínculos são indestrutíveis porque são da ordem de uma neo-etologia. Coisa de bicho.
Talvez uma das razões pelas quais nunca quisera ter filho.Sou bicho assumido e a minha maluquice não será herdada.Acaba por aqui.

terça-feira, 6 de março de 2012

Lispector,Clarice.Trinta e cinco anos.

Existem aquelas pessoas que são especiais pois não morrem.Morre aquele esqueleto que de jovem vira velho,mas a autoria ,cujo esqueleto também porta e vice-versa não.Permanece.
Uma dessas figuras chama-se Clarice Lispector.Escritora,ou melhor,amadora que escrevia ,segundo ela mesma.Dizia isso porque gostava de um compromisso menos compromissado.Tinha razão. A folha,agora tela de alta definição,em branco é pesadelo previsto por qualquer um que se intrometa com as letras.
Clarice era Ucraniana feito a minha amiga que me prestigia aqui no meu pretensioso Blog.Casou-se com diplomata e teve 2 filhos.Pouco se ouve falar deles.
Li tudo ou quase tudo sobre Clarice.Esqueci boa parte para poder retornar quase sempre. Li também sua correspondência com um dos seus melhores interlocutores:o também escritor brasileiro Fernando Sabino.
Já escrevi seu nome com dois ss...Creio que ela me perdoaria sem jamais ter me conhecido.
Morreu de câncer em 1977.Portanto,celebramos 35 anos de saudades e presença constante.Clarice tinha 57 anos e morava no bairro carioca do Leme,cuja densidade demográfica é das maiores do mundo,na rua Gustavo Sampaio.Clarice é uma espécie de heroína da nossa literatura.Viveu seus últimos anos numa rua cujo nome rende homenagens a um herói do exército brasileiro.
Segundo aqueles que investigam cuidadosamente a sua vida e obra,a escritora saía a passear com seu cachorro e permanecia sentada numa pracinha do bairro.A fazer o quê,Clarice? Observar e anotar.Onde? Pouco importava.No canhoto do talonário de cheques,num papel perdido e recuperado em ótima hora,pelo corpo todo.
Trabalho de amadora realizado,retornava para o seu 'bunker'.Ali, transformava algumas palavras em movimento permanente de sentido pleno e vazio.
Outra estudiosa Clariciana nos ensina que os fatos para ela não importavam tanto.Ela ampliava muito tudo aquilo que sentia,via,vivia.
Essa senhora ,Clarice,influenciou-me.
Quando vejo um vídeo,rara entrevista concedida à Televisão Cultura de São Paulo,sinto-me tão distante pois pertinho dali.Ela fala como se estivesse guardando algo na boca.Seriam novas palavras para a descoberta do mundo?Talvez sim ,mas talvez não.
Clarice falava brasileiro com sotaque.Sotaque singular de Lispector.
Macabéa,heroína que nasceu estrela,foi o primeiro que li.Estava lá.Minha família,meus vizinhos,o mundo todo estava lá.
A nossa Ucrânia fica aqui ao lado.Pertinho daquelas pedras que seguram os ânimos de um oceano que chamamos de mar.
Parece que foi ontem.E quem pode garantir que não foi?
Ela talvez tenha dito que sim,pois as coisas mudaram,mas ela permanece.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Saudosismos e temores.

"Existem duas coisas que me incomodam aqui."
Dito isso,a senhora de diversas idades,pergunta-me ,ou melhor, responde de primeira: "Todo mundo por aqui se acha muito importante".
Tudo bem.Esse seria o incômodo primeiro,mas não é privilégio da Capital Federal, a chamada Brasília, do tão aclamado Brasil
Nada mais engraçadinho,por exemplo, do que cariocas - sou mais um - e seu perfume maresia cheio de boça, a caminho do mar Zona Sul- olha que coisa mais linda -, e o seu super-ego paulistano cheio da grana, inveja não declarada, a incomodar balneários menos pródigos.
Todo mundo contraria o poema em linha reta de Fernando Pessoa.Jamais conhecemos alguém que não fosse o máximo.A começar por nós mesmos.
Noutro dia,exemplaridade colhida de um programa televisivo, o entrevistado-célebre (isso é um substantivo mais que abstrato) teria dito: 'O meu defeito maior é que sou perfeccionista'. Mais uma gracinha...O que a peça,não rara, esqueceu de dizer foi que a sua tolice maior é querer se tornar algo que não é possível.Deixou a sua escrotidão cotidiana no colo do vizinho defeituoso.Uma pessoa comum.
O outro comichão que apoquenta a vida seria o fato de que ,apesar de tão jovem,a Capital Federal apresenta os mesmos vícios equivocados que levaram à decadência ,econômica,social,da antiga Capital Federal do Brasil ,o Rio mais belo de um Janeiro.
A desmobilização ,não confundir chiliques , passeatas e/ou vídeos clandestinos bisbilhoteiros,da sociedade civil para com as questões locais essa sim é protagonista de uma ressentida pasmaceira.Por lá,assim como por aqui nos anos 50/60, o poder executivo federal era o centro dos interesses.
Juscelino,Presidente Bossa Nova,temia que as instâncias e suas respectivas obrigações se misturassem, somados ao crescimento populacional e a possibilidade de manifestações cada vez mais contundentes e violentas a advir.É óbvio que houve sonho e delírio.É óbvio que quase todas as capitais do mundo civilizado não ficam em cidades portuárias,por razões de segurança , e também aquela ajuda financeira proveniente de empreiteiras destemidas a sonhar com um gigante adormecido a bem encalhar.
Brasília foi construída por mentes brilhantes,mas nunca um planejamento urbano serviu tanto para regimes de caserna como aquele.
E disso tudo advém certa postura que se observa em parte da população,população douta,bem formada e informada, que é a negligência para com a destruição visível,talvez tão óbvia que ofusque os olhos,da cidade e do seu entorno.Por lá,já existem comunidades tão violentas quanto tantas outras existentes nos maiores centros urbanos do país.Leia-se Rio ,São Paulo,Belo Horizonte e Salvador.Além do esporte medonho,praticado por alguns jovens da alta burguesia,que é atear fogo em moradores de rua.Não importam se sejam índios ou mendigos.Devem morrer na corte feito condenados por qualquer inquisição.Uma inquisição racista e cínica.Como de costume.
É como se não houvesse poder local ou pelo menos esse poder estivesse subdito inteiramente às vontades da chamada União ou Poder Federal.Donde a ideia de federalismo no Brasil se comprometer um pouco visto que uma certa alienação às determinações do Governo Federal se impõem.
Um regime federativo exige que as suas federações tenham o mínimo de autonomia para poder se bancar.
Nos EUA as federações têm regimento próprio.Em certos Estados norte-americanos o que é considerado crime para um não o é para outro ou então tem um grau de punibilidade bem menos rigoroso.
A negligência quanto a participação e discussões realmente profícuas em torno da chamada política é semelhante ao comportamento neurótico de cada um de nós quanto aos passos dados nas nossas vidas.
Vivemos num país onde a meritocracia é instrumento raro.Ainda existe a necessidade das mediações políticas,afetivas e outras tais para se atingir certas metas.Tal qual indica a Psicanálise proposta por MD.Magno, nada mais neurótico,doentio do que essa necessidade de intermediação para se negociar no mundo e com o mundo.
O mínimo de desalienação é produção de uma autonomia para se guiar com pernas próprias.
Enquanto bom burguês neurótico necessita-se sim de análise permanente enquanto instrumento possível para se produzir autonomias cada vez mais plenas.
Sabemos que todo processo é precário em última instância ,mas repleto de eficácias também.Autonomia também tem limitações.Plena, em última instância, não há.É impossível tal qual a perfeição-pretensão daquele entrevistado televisivo.
Ao olhar para uma rua ,cujo desenho se transformou por completo a ponto que só reconheço que ali ainda há algo que se chama rua,não encontrei o que procurava.Encontrei somente restos daquele tempo que também não há, tão pouco , ao menos de fato ,mas que resta simplesmente (ainda bem!!!) no direito das evocações mnêmicas mais íntimas e tão minhas.
Todo o olhar desmoronou diante daquilo que não estava lá. E o que restou então?
Um texto a mais pode ser o preâmbulo para recomeçar ou consultar oftamologistas bem treinados.
Por certo, o incômodo trazia o gosto de uma estupidez saudosista e de uma outra ,não menos estúpida,de um futuro iminente e temerário.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dr.Gachet que observa

Conheci Sergio através de um amigo em comum.Era dia bonito.Havia sol entre nuvens preguiçosas.
Sergio era colega de colégio de alguns conhecidos meus.
Tinha cara e trejeito de gringo.Era uma espécie de quase gringo.
Sua mãe nascera na Holanda e ele por lá passara diversas vezes.
A Holanda para mim, a essa época, era tão somente um sonho de Van Gogh,Rembrandt...e Sergio tornara-se uma curiosidade.Era extremamente educado,inteligente - um dos melhores alunos de toda a faculdade de Engenharia ,na Universidade em que estudava - e culto.Sua mãe tinha vocação para o canto lírico e ele a acompanhava nas empreitadas dos chamados recitais.
O vínculo se fez.Encontrávamos vez e quase sempre para uma conversa e uma dita farra.A farra era mais um tesão meu do que propriamente dele.Sergio era um gentleman.Gentlemen não fazem farra.Podem participar de orgias bacanas ,mas farra....Tenho até um primo que é assim.Ele nunca fez parte disso.Ensaiou uns passos de dança,umas aulas para fazer cabrocha não desistir dele tão cedo no baile,mas não se enquadrava.
Farrear tem esse aspecto cafajeste.Há aquela bebedeira toda ,aquela falta de respeito pela senhorita da mesa ao lado -por mais que a dita cuja senhorita tente se fazer não merecedora dessa consideração respeitosa moralista-; por fim há aquele estado de alegria que retorna das profundezas rasas dos nossos recalques.E é mágico.Feito meu sonho de Rembrandt com Van Gogh.
Noutro dia bonito,chovia bastante, e ao retornar de um banho a mais, no oceano que inunda a nossa vista daqui,recebo estarrecido a notícia de que havia morrido,num acidente de carro,o irmão caçula do meu amigo quase sempre estrangeiro.Irmãos caçulas podem morrer?Então eu,caçula para sempre,posso morrer?
Não havia me passado pela vida que caçulas morriam. Seria hipócrita crer que desde então acompanhava o velho Freud em sua certeza de que não há inscrição de morte no inconsciente.A criança então diz ao parente inábil:"Sei que papai morreu,mas quando é que ele volta para casa?'.Pode ser só mais um exemplo,cunhado pelo mestre,já que precisamos de peras e maçãs para entender certas articulações.
A explicação mais contemporânea dada por outro mestre da Psicanálise,MD.Magno,é que a morte não há.Não há representação possível,nem tampouco experiência de morte.Donde vida eterna.
Sim.Arrogantes juvenis que são sábios na sua certeza de que quem morre são os outros.Resta,entretanto, a lembrança possível de que toda carne tem fraquezas indeléveis.
Telefone desligado,era hora de partir em direção à casa do amigo.Não fui sozinho.Tive a companhia de outro amigo,um médico recém formado.Nunca se sabe o que virá.
A cena e a consternação eram brutais,afinal o rapaz morto tinha vinte e poucos anos.Bonito,estudioso,alta burguesia,roteiro perfeito.Vida maravilhosa.Morrera afogado ao bater com a cabeça e desmaiar,após o acidente com o carro. A namorada tentou salvá-lo,mas ele era pesado,forte feito um touro.Não conseguiu puxá-lo para fora do automóvel.Era uma noite de primavera verão.Novembro,'Saturday Night Life'.
A cidade maravilha -alcunha do Rio muito mais do que um Janeiro- vivia as suas primeiras eleições municipais em décadas.Houve fraude.No ano seguinte,recadastramento de todos os votantes e votados por conta disso.Livrei-me da multa ,pois não aparecera para cumprir obrigação eleitoral enquanto mesário.Sim,mesário.Aquele funcionário público que fica sentadinho conferindo títulos eleitorais dos outros.Aqueles títulos sem fotos.Agora,parece que já há.Não sei ao certo.Uma foto de título pode ser igual ao obituário da seção policial.
Meu amigo que, teve um irmão caçula morto, jamais se recuperou.Por certo,não fora somente isso que provocou todos os sintomas dos quais ele,passados vinte e seis anos do desastre,continua refém.
Mudou-se com a família, de endereço, incontáveis vezes.Aquela instabilidade me gerava certa desconfiança de que não fora o único a ser golpeado profundamente.
Jamais conseguiu dar sequência à profissão escolhida.Vive,faz uns 15 anos,na Holanda materna.Perto da capital,numa pequena cidade.
Sempre acho que qualquer cidade fica perto da capital,por lá,na Holanda.Mania de quem nasceu em terras continentais e o resto do mundo fica diminuto.Hoje,Sergio mora sozinho.Já está assim desde sempre.
Lá,tem uma vida.Trabalha onde se trata.Recebe ajuda previdenciária de um governo de país civilizado.Aqui,só encontrou linchamento."Imagine.Ele disse numa entrevista para um emprego que avistara um duende,ao sair do avião"!!. Perguntei então ao racionalista impoluto, que dissera o que está escrito acima, o seguinte: " E você não é aquele que crê em Jesus?Que reza para ele?Que conversa com ele assim.......repleto de transcendências?" Qual é a diferença da qualidade do delírio?É só uma questão política?Quem pode garantir?
Ao me despedir ,naquele dia belo ,chuva/sol-,e deixá-lo partir com a sua saudade,avistei, no andar segundo, a sua mãe que escutava algo feito canto.Ou seria um pranto?
Van Gogh e a sua turma sempre a confundir.Dr Gachet que nos observa.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O balançar de um Janeiro

Certa vez, Afonso Romano de Sant'Anna escreveu no Jornal O Globo sobre a queda do Muro de Berlim.Dizia então que algo se erguera nele com a queda do tal muro,com o fim do comunismo na União Soviética.Afonso Romano é poeta consagrado no Brasil.
Janeiro se encerra com o desmoronamento de um prédio que assassinou mais dois.Ele,o desmoronado primeiro,primeiro a cair,a beijar a lona (expressão comum nos lutadores,agora na moda,do UFC) impôs a sua compleição física avantajada e engoliu os oponentes menores.Nocaute.Correria ,pânico,perplexidade,vexame.
O que se ergue em mim (passados mais de 20 anos da poesia bela de Afonso Romano e cujo papel amarelado pela implacável passagem dos dias, trazendo a lembrança daquele ato que derruba para erguer em seguida) após o horror que a negligência estúpida e arrogante daquele gesto que a gente faz nos traz?
Vez ou outra resolvo responsabilizar a estação quente do ano, o verão tão celebrado nos trópicos,por certas estupidezes.Ora! Quanta estupidez,a minha?
A estação retrata tão somente momentos de um até logo, de uma voltinha, de um dar de ombros feito cabrocha bonita, do planeta em relação a certas estrelas que ardem de paixão.E que podem se apagar.Quem disse que era eterno?Eterno só pra mim enquanto eterno,enquanto vivo.
Yellowstone" não é ficção.Se naquele belo parque ,o mais antigo dos EUA,houver uma outra erupção vulcânica violenta,podemos mergulhar o haver numa nova era glacial.
Pois sim...Nada torna responsivo o verão ou o inverno pelas burrices da nossa espécie.Além do mais,narcisismos suspensos,o planeta não quer ser salvo não!Aí está 'yellowstone' e um certo movimento de quadril - nada que se possa comparar ao das mulheres- denominado terremoto.Placas tectônicas que enlouquecem ou pedem passagem de direito e surtam.Suas formações enlouquecem e gritam alto,rangem,desmoronando o que se pode.São cruéis os passos mal executados pelas tectônicas.Nos deixam ,na verdade,"atetctônicos",sem chão.O mesmo efeito depois do balançar da cabrocha que passa.
Não precisamos contudo abreviar a destruição do planetinha.Podemos agir civilizadamente por mais um bom tempo.Nosso Caetano Veloso já ensinou a letra.
Nas minhas tectônicas abaladas pelo prédio que cai e assassina a gente,ergueu-se tão somente essas linhas de agora.Tal e qual para Afonso,lá nos idos dos agora longínquos anos 80.Qual seria a idade da minha memória?
Ontem,ou seja,em 1989,1999 ou 2012,no meio daqueles escombros,revi um colega de infância.Ele fazia um curso para conversar melhor com os computadores.Pretendia alçar outros vôos.Era noite clara no planetinha azul (azul?) e a lua ,superego daquela estrela com quem nossa terra mantém romance antigo,exibia-se bela,feito moça do Rio, no verão que gosto de implicar.Implicar pra quê?Só para implicar.Sou deveras malcriado.
Não tanto quanto certas tectônicas que nos equivocam contundentemente.Sem perdões.
Ergue-se também ,naquilo que digo de mim, a incerteza naquele chão duro ,quente/frio,que é para todos e lugar algum.