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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

 Fatos e eleições.

O ato de votar se torna algo quase sagrado no que diz respeito àquele ou àquela que por alguma convicção pessoal, ideológica, conveniência ou sobrevivência, mediante a obrigatoriedade desse ato imposto pelos códigos de conduta junto à sociedade brasileira, dirige-se às urnas. Antigamente, elas não eram eletrônicas, e sim jurássicas para os padrões atuais. Lembremos do velho e querido orelhão que vinha a ser aquele telefone público enorme e que também funcionava como guarda-chuva para pedestres desprevenidos. Foi bastante útil. Foi.  Também não deixemos de recordar que existe o cinismo oportunista e/ou lamúria patética diante de uma possível derrota anunciada.

 O quase sagrado resulta por sua vez das posturas populistas, assistencialistas e do me engana que eu gosto típico do modo de existir da maior parte da nossa população. As precariedades em quase todos os níveis de civilidade mínima da nossa gente reforçam esse fato. Funcionam para isso mesmo há décadas e décadas.

 Luiz Antônio Simas, historiador, escritor e observador sofisticado dos fatos, já disse que não há nada errado com o país. Se pesquisarmos um pouco mais, encontraremos muitas pistas que apontam para isso. Botafoguense histórico, Simas, concordaria com Nelson Rodrigues, Fluminense, e o seu óbvio ululante.... Para quem sabe observar com cuidado, sem chiliques reativos. Recentemente, obra importante de Laurentino Gomes sobre a Escravidão esclareceu ainda mais sobre o tema que denegamos desde sempre. 

 O eleitor médio brasileiro supõe, engane-me que eu me iludo bem feliz, que se vota em messias, ‘Padres Cíceros’, em substituição às figuras monárquicas, realezas, que já partiram há mais de dois séculos. Contudo, restaram não somente no imaginário das pessoas. Agora pouco, duas semanas atrás, morbidamente, trouxeram o coração de um Pedro, o Primeiro, para ‘descansar’ em paz na terra Brasil. A televisão mundial também aprontou das suas: vestiu-se de luto por pelo menos 10 dias por conta da morte de uma rainha britânica. Monarquia com aquela opulência toda em 2022, século 21, depois do moço (D.M). Para quê? Aonde pensam que vão? Para trás? Para frente? Sei não...

 Na pandemia isso ficou mais claro, sobretudo, nas posturas horrorosas de quem, mesmo que se soubesse tratar de falso comandante, deveria, ao menos, oferecer exemplo de civilidade.  É obrigatório, portanto, votar para escolher mandatários do poder legislativo e executivo nacionais. Por conseguinte, alguns mandatários em tribunais superiores serão indicados posteriormente pelo presidente eleito, etc e tal. Logo, não é algo pequeno ou irrelevante. Estão aí os três poderes da praticagem política constituídos oficialmente. Em espírito e elevado à condição legal.

Autores importantes sobre as nossas transas políticas afirmam ou afirmavam que, como é o caso do saudoso Wanderley Guilherme dos Santos, se o voto obrigatório deixasse de existir, o desinteresse político só aumentaria. Isso tem sido notado em alguns países que adotaram o voto facultativo, há menos tempo. É o caso do vizinho Chile. País que atravessou uma ditadura sanguinária até o fim dos anos 1980. Apesar dos especialistas do mercado da grana considerarem isso um detalhe insignificante. ‘ O país cresceu economicamente’- avisa o deslumbrado ao pisotear uma série de cadáveres. De qual economia se trata? O que é crescimento para um país? É só financeiro? E para aqueles de sempre? Os mesmos sócios? A mesma concentração absurda de recursos para número cada vez menor de pessoas? Em todos os campos. Uma singela indagação:

Será que a propaganda brasileira considera apenas 3 ou 4 figuras midiáticas capazes de fazer boa figura na divulgação dos seus produtos? O meio artístico se ferrou nessa pandemia tal e qual outras artes, outras atividades. A população é que decide, mas quem sabe hipnotizá-la sabe o suficiente sobre as maldades e suas demandas e receitas...

O canibal americano, título de série televisiva contemporânea, está em alta junto aos conhecidos queridos/as e não é ficcional, isto é, não foi baseada tão somente nas impressões e delírios de um certo escritor, roteirista ou um amontoado disso tudo. O cara esteve. Matou e comeu à beça, o Tupinambá estadunidense.

 Não precisamos tão somente recorrer ao cinema. Nosso cotidiano tem monstros do mesmo tamanho. Mudam apenas as guloseimas, os quitutes, os órgãos. Fetiche é sempre fetiche independente das partes envolvidas. E toda fantasia é sexual. Na série brasileira, Rota 66, baseada no livro de uma jornalista pra valer, Caco Barcelos, constatamos a existência de alguns dos nossos canibais oficias. ‘Serial Killers’?- indagaria alguém vindo de longe ( Quem sabe alguém recém saído dos funerais da rainha mãe?).

Patifarias à parte (olha o monstro aí de novo), o voto termina sendo inconsciente em última e primeiríssima instância. Tem que se mapear muitas formações de um prezado/a eleitor/a para sacar o que real-men-te ( Chacrinha na área. Se ele aparecer para votar é fraude; porém, já deu pinta mais de uma vez em votações políticas da agremiação esportiva da qual era seguidor) está no comando da sua, da tua, da minha, da campanha dele/a.

As campanhas são sofríveis tal como os debates. São poucos os que estão interessados nos programas de governo ou nas plataformas dos parlamentares candidatos. Nessa discrepância abissal e social do Brasil, o interesse é pelo conflito, pela discórdia, pelo xingamento, pela boçalidade, pela avacalhação geral. Há quem considere que esse movimento tenha que acelerar para poder avessar, passar ao contrário radical e rapidamente. É uma boa perspectiva, mas confesso receio considerável. Quem tem certa anatomia, tem medo?

Porque nada garante que aquilo que virá será algo bom, belo e barato. Se na micropolítica das análises pessoais há de se ter muita cautela e prudência no que tange ao manejo do tratamento, no que diz respeito ao macro então... A loucura é muito maior do que se imagina ou gostaríamos. Pós pandemia houve uma intensificação de sintomas nada meritocráticos. Justificáveis, assim os reconhecemos. E tantos outros que ainda estarão por vir, em potência ou vigorando e a nossa precariedade no olhar e na escuta não estão dando conta. Nosso tempo próprio, ficcional, indica que quase tudo é da ordem do tarde demais. No tempo de Freud era ‘um só depois’- 

Certa vez, um gringo me dizia que uma pequena mostra do bom nível civilizatório de um povo poderia ser observado no funcionamento do chamado trânsito, ou seja: o nosso deslocamento; nosso momento nômade no cotidiano. Seja através das limitações das nossas pernas e afins bióticos ou através das nossas pernas mecânicas (carros, trens, ônibus, barcas, motocicletas, pássaros voadores mecânicos e, salve salve, a internet). Essa última viabilizou nossas viagens mais longas, duradouras, inimagináveis para certos períodos da história, e viva, viva, passeios com boa preguiça. Pode-se alçar esse voo sem sair da cama. Mas o esforço para que chegássemos até aqui, esses avanços, foi brutal. Houve sangue; teve guerra. 

Catequeses, santinhos e esses desencontros-debates são quase nada contemporâneos. É um mundo que já foi. Sem futuro profícuo algum. Aqui entre em nós: é um mundo muito chato, cafona, tosco. Semelhante a quem ‘comanda’ o país.  Diria que é mundo- perversidade.

domingo, 17 de julho de 2022

 

500 Rublos. 

Biden, segundo especialistas, havia morrido e retornado a  um desses estados norte americanos que permanecem no modo velho oeste. 

Chegou num bar e pediu uma bebida. Biden estava visivelmente mais jovial. Animado, perguntou ao moço que lhe servira a bebida (lá,  eles também transformam o verbo num substantivo bebível: drink): 

" A Síria é  nossa,ok? 

Sim.-respondeu o cidadão garçom.  

E a Ucrânia também, all right?

Certamente, sir.- sentenciou o único ser vivo pra valer naquele espaço.

Risonho e após beber a última gota do tal'drink', o ex. presidente e agora fantasma fez a derradeira pergunta (Ah..Ele aponta para o copo vazio):

Quanto custa? How much,  my dear friend?

- Quinhentos rublos."

Desce a cortina.

Cafajeste, um sentimento.

 E o malandro usava uma camiseta em que se lia:" Cafajeste, um sentimento." Isso foi na última quarta feira, Maracanã.

Vi e comecei a rir. Ele olhou para mim e emendou: ' Cafajeste amoroso '. Ele deve saber melhor sobre o tema. E o malandro usava uma camiseta em que se lia:" Cafajeste, um sentimento." Isso foi na última quarta feira, Maracanã. Vi e comecei a rir. Ele olhou para mim e emendou: ' Cafajeste amoroso '. Ele deve saber melhor sobre o tema. Usava um chapéu estiloso e deu uma sambadinha enquanto parecia reger uma orquestra imaginária. Tinha ritmo e elevava à tal malandragem ao nível mais alto, ou seja: ao modo criativo, leve, maroto e nada destrutivo. Pelo contrário. Ao menos, para as minhas precárias impressões. Que ele nos perdoe pela precariedade.
Usava um chapéu estiloso e deu uma sambadinha enquanto parecia reger uma orquestra imaginária. Tinha ritmo e elevava à tal malandragem ao nível mais alto, ou seja: ao modo criativo, leve, maroto e nada destrutivo. Pelo contrário. Ao menos, para as minhas precárias impressões. Que ele nos perdoe pela precariedade.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Liberdade e o Estouvado

 Inutilidade pública bosteada.. 

Liberdade e o estouvado. 

O que seria Liberdade no reino das marionetes ?Só existem solturas pontuais. No mais os interesses , sejam eles centenários, milenares ou juvenis, se impõem. Com a conivência, geralmente cínica, dos votantes. Você tem liberdades pontuais para sentir, afetar-se, querer...Mas poder é algo de uma outra ordem. Como quase sempre estamos em atraso, a ideia de um 'só depois' freudiano se encaixa perfeitamente, os poderes também são pontuais e podem durar o tempo, ficcional por suposto, que for. Porém, poder absoluto não há. São todos relativos, relativizáveis. O tema é muito delicado, mas ...

 Liberdade , fraternidade e igualdade é tudo o que uma França com guilhotinas 'à côté ' jamais conseguiu. Quem a conheceu em épocas de ouro, não foi o meu caso, advertia desde já. Ainda que se tenham computado ganhos e perdas, como em qualquer processo dito revolucionário ( e o trocinho roda, roda, para voltar ao mesmo lugar), ainda nos resta a solidariedade àquele vendedor, supostamente menos burguês e dono daquela birosca onde homens bravos e bravos homens celebravam e desfrutavam do bom vinho nacional. Num dado momento, liberdade a lhes atiçar vísceras e músculos, um deles gritou para sua turba bêbada: ' o proprietário desse estabelecimento em questão não especificou se o vinho que aqui se vende, delicioso por dizer, é tinto ou branco. Quero dizer: não está escrito no aviso posto na porta de entrada'.  Considerado então um contra revolucionário , o pobre comerciante foi condenado à guilhotina.  Aqueles que o condenaram tiveram toda liberdade para. Uma espécie de ditadura daquela ébria maioria. 

Duzentos e tantos anos após, dentro do carro, enxergo o transeunte atravessar  a rua, no derradeiro momento em que as cores do sinal fingem patriotismo de ocasião ( esse que estamos fingindo que não vemos atualmente) que é a passagem do verde para o amarelo.

Aumenta-se o volume da 'Canção Calcanhoto ' ( aquela mesma que aponta certos sintomas cariocas) para lembrar que: apesar de não apreciar o vermelho ( seria comunista o sinal, pascácio querido?) que me oprime um pouco ( nesse caso muito porque a situação era emergencial, que portanto me atrasa um pouco mais ( mas do que o idiossincrático retardo pessoal), e que também me arrepia os pentelhos. Todavia ( vez ou outra uma adversativa se torna recursiva), devo considerar que existem direitos universais. Não saber deles implica numa sacanagem mediante a ignorância até douta e a perversidade de algumas decisões e convenções. E esses direitos têm a sua hierarquia. Sobretudo, quando temos uma tragédia global, sanitária, há 2 anos, e suas singulares vicissitudes. 

O transeunte em questão sobreviveu contente. Por aqui também restou uma migalha de civilidade.

 A minha liberdade de querer destruir, matar , arrebentar, desconsiderar o direito à vida ( já que preferes morrer que o faça, desgraçado, sem encher o nosso saquinho repleto de pentelhos e outras formações) daquele outro/mesmo, se por  acaso não parasse no sinal luminoso, e cujo signo indica tal convenção, tal combinação. 

Um desserviço- mais um para coleção- a fala de um 'ministro'. 

O rei de Espanha, que se exilou por causa de umas pendengas e pendências  reais , ao menos , diante de outras sandices que se perpetuavam naquela falação do 'colega', mandou o tal 'mandatário' do país vizinho ao nosso se calar, numa reunião importante. Na verdade, solicitou-lhe. Quem pode conter? Com certa liberdade...

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

 Boa noite, Antônio.

Antônio era um funcionário vigia-porteiro-lavador de carro-descupinizador, isto é, era daquelas criaturas que fazem de um tudo quase um todo e justo no edifício onde nasci. 

Pequenino, nordestino, torcedor do Botafogo e que fazia questão de chamar, por aqueles que por ventura o diligente funcionário tivesse alguma afetuosidade maior, de Zé (Abreviação indolente de José) ou Maria. Dependia esse tratamento dispensado, obviamente, da referida anatomia. Parece até que era fato consumado para uma certa geração de cearenses que menino vira José e menina, necessariamente, torna-se Maria. E assim o Antônio minimizava em torno de 2 vocábulos, nomes próprios mais frequentes D.C (Depois de Cristo) suas possibilidades para o trato pessoal. Mas como já foi dito: somente para aqueles considerados íntimos.

Trabalhava no prédio fazia décadas. Eu o vi desde muito criança e para minha alegria vingativa, típico das maldades de criança, ele não passou dos quase um metro e sessenta centímetros de altura. Desafetos próximos garantem que era em torno de um metro e cinquenta e sete centímetros a sua ‘portentosa’ estatura. 

Depois que parti para um exílio de 7 anos desse lugar que, apesar de comprovável decadência, ainda mantenho a ilusão juvenil de um principado ipanemense, foram raros os momentos em que nos reencontramos. De acordo com os arquivos resignados pelo desgaste do tempo, foram dois reencontros, mais precisamente nas duas ocasiões em que o imóvel familiar esteve desalugado e nos acolheu para as férias. A primeira vez se deu nas ditas férias de inverno nessa cidade que costuma ter duas estações bastante frequentes anualmente: o verão e o inferno. Era julho e estávamos, portanto, no verão. Na segunda ocasião, estávamos instalados no inferno também conhecido como dezembro/janeiro. ‘E aí, Zé? Cresceu!’- Ele me saudava dessa forma. E a reação que surgia, sem contenção possível, era uma gargalhada sincera.

Alguns anos mais tarde, mesma estatura, menos cabelo, uma barba para disfarçar a calvície e também para aparentar mais idade (Vejam que curioso a travessia de uma boa e velha neurose: aparentar mais idade num dado momento e logo ali, adiante, querer fazer o contrário) retorno ao edifício, batizado com nome de moça e que não é Maria nem ao menos José, para viver e trabalhar. ‘Olha o Zé? Dirigindo carro e com barba de homem adulto’! - Disse-me Antônio, risonho, enquanto abria o portão da garagem para que fosse instalado aos poucos a minha mudança definitiva. Ele, ao contrário, estava praticamente igual. E aquele tom de voz havia sido registrado pela memória afetiva nas minhas primeiras impressões. Um dos símbolos do edifício me conhecera pequeno, ainda criança.

 Na primeira conversa que tivemos, após o retorno para o local onde nasci (Se bem que fica difícil estabelecer o que vem a ser mesmo um nascimento) falamos sobre o futebol e a sua devoção pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Antônio tinha contemplado Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Amarildo, dentre outros ‘Botafogos’ talentosos, artistas da bola, exibirem-se no Maracanã, nos anos 50, 60. Já na virada para os anos 70, assistiu Jairzinho, o furacão daquela Copa de 1970, aniquilar adversários. Divertia-se ao repetir que o meu pai era um pé frio danado já que logo após ter chegado ao Rio, vindo de São Paulo, mas tendo nascido no Rio Grande do Norte, esteve presencialmente naquele velório para 200 mil convidados (Dentre populares e figuras egrégias) e que também se fez conhecer como ‘Maracanazo’: o dia em que um país pequenino, mas tão brioso, aguerrido, e o seu esquadrão futebolístico derrotou a seleção canarinho por 2x1, de revirada, conquistando a Copa do Mundo de 1950.

Nos anos que se passaram, quase 10 anos, dentre favores e serviços remunerados que me prestou, prestava-lhe uma homenagem desportiva ao pagar o lanche da madrugada silenciosa. Um adendo importante:

Existe um horário e uma época do ano (Aqui no Rio é mais frequente quando está um pouco mais frio) em que o silêncio adquire algumas oitavas. E o danadinho, volta e meia, buzinava no meu apto, através do interfone, quando o seu clube predileto ganhava algum jogo contra o meu. Dito e feito: acabava a peleja e o ‘trintrin’, que na verdade não faz trin muito menos um trin de acréscimo o tal aparelho, surgia ao longe.

- ‘Alô, alô.’- perguntava fingindo nada saber. Não se aborreça. É assim mesmo. - Dizia do lado de lá, riso quase solto, o sarcástico cearense Botafogo.

Foi então que naquela semana estranha, após retornar do cinema e destino a se metamorfosear de Réquiem (Réquiem para um Sonho foi o filme assistido no falecido Cine Paissandu. Ali no Flamengo. O bairro onde nasceu o clube) encontrei o velho guardião noturno do edifício calado, ensimesmado, quietarrão. A curiosidade então fica atiçada e indaga se algo não ia bem. Ele então disse que estava com bursite no ombro esquerdo. Bursite é aquela inflamação nas articulações que realizam movimentos frequentes e repetitivos. Podem ser bastante dolorosas essas crises de bursite. Acrescentou ainda que tinha ido ao hospital e por lá obteve o diagnóstico. Prescreveram também os medicamentos adequados e o porteiro faz tudo dizia que estava tomando conforme o recomendado. Antes de me despedir, quis saber se aquela confusão, aquela loucura no apto do inquilino do andar penúltimo ou último (Não lembro ao certo qual deles era precisamente, mas que acontecia em um dos dois últimos pavimentos, temos certeza) persistia. A resposta foi negativa. ‘Se mandou, fugiu, aquele vagabundo. Lembra o dia que você retornou das suas gandaias de solteirices e havia um carro da polícia federal aqui na porta? Pois é. Ele se mandou pouco tempo antes da chegada dos ‘home’.

Como poderia me esquecer. Parecia uma operação dessas que vemos hoje a fim de prender os larápios dos cofres públicos. E não era tão somente um, mas uns 3 carros da PF estacionados em frente ao prédio que tem nome de menina. E estavam a atrapalhar a minha entrada na garagem.

 A história é a seguinte: um cidadão de outro Estado, vindo do Norte do país, montou no apto alugado um estúdio pornográfico. Até aí, se os ruídos e imagens não vazassem para outros domicílios, o que ali se passava era gozo próprio. A questão é que as protagonistas eram meninas aparentemente menores de idade. O que foi comprovado com o escândalo que se seguiu, incluindo a extradição do cidadão-vagabundo em questão e que fugira para o exterior. Naquele tal dia, melhor dizendo, naquela tal noite mencionada, com carros e ‘os home’ de preto. O foragido era filho de deputado federal. Tudo fora revelado, um ano depois, num telejornal nacional, de maior audiência, quando o procurado pela justiça foi preso. E o problema também era outro: miséria humana, o cinismo, a canalhice familiar, a desonestidade, o perverso. Nelson Rodrigues talvez dissesse: ‘ o Tarado Insaciável’!

O calaceiro, o vadio, deve ter dado um cano, uma volta nas mães das meninas, ou seja, não as pagou conforme combinado. Lembro-me daquele vai e vem de jovens sorridentes, roupas minúsculas e o guardião do nosso condomínio, bravo Antônio, irritadiço, indignado. Ele tinha orgulho daquela filha que se tornara dentista. Estudiosa e que também contara com a sua ajuda. Financiou seus estudos e a ajudou com o primeiro aluguel do consultório. Gostava das meninas, mas não daquela maneira.

Segundo ele, as mães ou responsáveis ou cafetinas (Ele jura que escutou algumas chamando-as de mamãe) ficavam na esquina próxima enquanto as mocinhas trabalhavam. O colega porteiro do edifício próximo, por ter escutado sobe o libidinoso tema, interessou-se pelo caso e ficou de butuca. Ele jurava que tinha visto as moçoilas entregarem dinheiro para essas criaturas que as aguardavam diante de lanchonete conhecida. Faziam o seu lanchinho vespertino enquanto o indecoroso, o ordinário, fazia o dele. Além de filmar a putaria para depois revender as imagens.

Quando o insubstituível vigia do edifício Liliane me contou tudo isso, a farra já tinha cessado. Contudo, evocando a memória sem vergonha, entendi o significado de certos sons, ruídos, provenientes do andar mais alto; uma espécie de gemedeira estridente, juvenil.

No dia seguinte ao diagnóstico relatado sobre bursites, encontrava-me deitado, no aguardo do sono, e com as janelas abertas anunciando a estação mais quente do ano a se aproximar- nesse caso era o inferno que mandava fagulhas e lembranças (Estávamos no final de novembro, numa sexta feira, madrugada de Sábado) -, e eis que aquele gemido erótico surge novamente. O sono, que resistia a se fazer presente, agora mesmo é que não viria tão cedo. ‘Que droga. Logo, hoje. Amanhã, tenho trabalho em Jacarepaguá, logo cedo. Essa gente não pode fazer sacanagem aos Sábados ou nos feriados? Num dia santo para o pecado ficar mais quentinho? Gente tarada, Nelson. Você sempre com a razão. Sobretudo, na libertinagem. ’ E o imaginário nessas horas? Mas parecia Real. De repente, parou tudo. O mundo também. Não havia mais ruído ou gemido. 

Na manhã seguinte e o despertador sempre atento apitando, fazendo barulho. Um dos piores inimigos de quem não dormiu direito e para melhorar tem uma jornada sabática pela frente.

 Vrumvrum é o som que emana do motor do automóvel quando acionado. É um vrumvrum rouco, mais para tenor do que para gemido infanto-juvenil. O Dia está bonito.  Com aquele azul celestial bem azul. Não se vê nem nuvem a causar malcriação na vista. No comando do carro  e se aproximando da saída por onde também se entra nesse edifício, da tal Liliane, em que a singular portaria não é bem lá portaria, garagem é parquiamento , porteiro também recebe um outro nome, percebo que os outros três funcionários do nosso condomínio estão em pé, perfilados ,do lado de fora da entrada-saída da garagem que não é, oficialmente, registrada como uma garagem. Estão cabisbaixos e nada dizem.

Algo estava visivelmente errado. Eles costumam ser falantes, e naquela época, estavam na glória dos seus trinta e poucos anos. Passamos devagarinho, eu e o ‘Vrumvrum’ mecânico, a fim de que não fossemos tão apressados demonstrando desinteresse e nem tão vagarosos que pudesse postergar ainda mais uma certa agonia que se via.

‘Bom dia, pessoal. O que houve? As caras não estão muito boas? ’- Era preciso se arriscar.

-Antônio, o nosso ‘Seu Antônio’, morreu ontem à noite. Teve um infarto fulminante. Buscou socorro no apto daquela Dra. Fulana de Tal, mas ninguém escutou. Morreu ali mesmo, na porta do apto. - Comunica aquele que se tornaria uma espécie de xerife da portaria que também não é portaria.

Perplexo, devo ter perguntado ou dito alguma asneira:

-Mas ele gritou, pediu por socorro? 

Frase estúpida, afinal como que um semimorto pode conseguir gritar assim? Como se estivesse arrombando a porta da Dra. Que Não Escuta. Dizem até que não escutava há muito tempo.

‘-Parece que não. Houve quem escutasse uns gemidos de dor vindos daqui da entrada. A empregada da Sra. Fulana Beltrana de Tal, nossa síndica, escutou um gemido forte, repetitivo, porém, muito cansada e como já era madrugada, adormeceu. E ele, o nosso Antônio, morreu para sempre. ’- O porta-voz dos seus, agora, ex-colegas explicava.

Foi isso. O que escutei era um gemido de dor, prenúncio da morte. Não era mais uma deliciosa peraltice de taradinhas dissimuladas com o taradão oficial. Era o Antônio morrendo. E por certo, ele não gozou com a morte porque é impossível gozar com o que não há. Ele gozou, sim, masoquisticamente com a dor que começou no ombro, estendeu-se para o braço e explodiu seu coração. E o sádico, aquele eu que tentava dormir, imaginando sacanagens. 

Não. Não e não, caros doutores imprudentes! Não era gozo de bursite. Bursite não tem coração. Apenas encobre, camufla, que não vem de lá, em certos casos específicos, a razão daquela dor. Bursite nesse caso era que nem o mandrião taradão e que um dia deve ter respondido para o fulano corretor que lhe alugara o apto onde quis eternizar sacanagens:

‘Que bom que o senhor gostou do imóvel. É pequeno para os seus padrões incríveis (E mal sabia o astuto corretor que os padrões ‘incríveis’ assim como pessoas ‘incríveis’ se multiplicariam na mentira, na cegueira dos nossos olhos, no passar de duas décadas), mas para um imóvel de dois dormitórios, na verdade quase 3 por conta do antigo e amplo quarto de empregada, é bastante razoável. E a localização dele é o ponto forte. O senhor inclusive, nesse andar mais elevado, consegue enxergar um pedaço do mar, da praia. Veja como está lindo hoje! Um verde caribenho essa coloração da água. Ah.... Já ia me esquecendo de um outro ponto importante a se considerar: É um prédio familiar.

‘Era. ’- Teria respondido o pederasta.

 Ao menos não lhe pode ser imputado a desfaçatez nesse caso. Ele forneceu alguma pista.





domingo, 4 de abril de 2021

Estacionado

 Achados e perdidos. Nesse caso, estacionado. Deve ser 1970, se não for dos primeiros fabricados no fim dos anos 60.

Carro vintage.
Meu pai teve alguns.
" Carro é Opala, meu filho . Robusto e confiável '. -dizia ele, orgulhoso seguidor da marca.
Aprendi a dirigir num dos que teve. Tinha 15 anos de idade. Quando ele o vendeu, o carro, que já se tornara "vintage car", e foi o seu último, tinha uns 14 anos.
Fomos juntos, o antigão da GM e eu, ao rock in rio 1, 1985. Sozinhos: a perna mecânica e a perna de pau.. E ele, o vintage, devidamente " protegido " por um cambista/flanelinha. Aquele sim foi um festival raiz...
Ana C Albuquerque, Lia Guarino e outras 19 pessoas
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O MOÇO DE CARATINGA

 Um pouco do botafoguense, Timóteo de Caratinga .

Que Agnaldo Timóteo era cafona , mas tinha um vozeirão e tinha um ressentimento do tamanho da voz dele com relação à nata da MPB , quase todo mundo sabe. Que ele flertava com causas nobres e também com a contravenção, leia-se o abominável Castor de Andrade, também se sabe.
Quando foi do PDT , e se elegeu deputado federal, 1982, com direito ao telefonema para mamãe, na sua primeira sessão, através do , à época moderníssimo, telefone sem fio do tamanho de uma pistola, chegou a vender discos na rua mediante a crise fonográfica, soube- se também.
Mas quando Brizola perdeu a chance de chegar ao segundo turno, perdendo para Lula por uma margem mínima de votos , eleições presidenciais depois de 25 anos, 1989, Agnaldo apareceu, no dia seguinte ao resultado , na casa de campo, aqui mesmo no Estado do Rio, emprestada à família do ex governador , oferecendo solidariedade já que sabia o quão difícil era para Brizola aquele fim do seu sonho maior: poucos sabem.
Eles estavam rompidos politicamente fazia um tempo. Timóteo apoiara 'sic ' Paulo Maluf..No segundo turno, desafinou de vez e fez campanha para Collor de Mello.
Enfurecidos, alguns correligionários do partido democrata trabalhista tentaram agredir fisicamente o cantor do vozeirão.🎵🎹
Brizola os conteve . Não via naquele gesto uma provocação ou algo desrespeitoso.
Os dois eram homens corajosos e calejados por sofrimentos, devidamente superados: um a um. Viveram.