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quinta-feira, 11 de julho de 2013

A vidente ( Mãe Valéria traz o amor de volta) e o aristocrata ninguém.

Mãe Valéria é o nome dado a uma suposta senhora que adivinha , prevê fatos futuros. Mãe Valéria não sabe que o futuro é uma espécie de  presente postergado. Aliás, viu-se o rosto de Mãe Valéria, uma entidade que pode ser nome artístico para crenças e seus orixás , e ele era belo. O fato é que Mãe Valéria há e por muitas esquinas do Rio de Janeiro seus acólitos se encarregam da distribuição de farto material século XX -aqueles papeizinhos meio sujos, desbotados, cor de nada- para todos os transeuntes existentes e necessitados de algum préstimo, normalmente algum milagre de cepa amorosa. Pois um ponto forte da magia valeriana é trazer de volta o amor perdido em poucos dias, uma semana no máximo. Apesar do material propagandístico ser de quinta categoria, Valéria, A Mãe, tem a pressa das conexões cibernéticas. Seus discípulos mais otimistas ou adeptos radicais de um certo ufanismo, cercado de mistérios, tratam-na como um ser ultra pragmático.
Essas criaturas devotas passam horas a fio debaixo de trovoadas, picaretagens ou calor de estufa, a servir e serem servidos pelos poderes paranormais da senhora ( que também pode ser senhor. Dependendo da crença) . Eles acreditam, eles se alienam intensamente. Costumam se apelidar de fanáticos. E esse fanatismo pode não ser específico das adivinhações de fundo amoroso-odioso no sentido dos romances que envolvem casais independente do sexo próprio. Ele se junta a qualquer outro conteúdo, qualquer outra formação. Pode ser encontrado na política, nas religiões, nas instituições psicanalíticas, nos grupos musicais, teatrais ( sobretudo no teatro burguês e seus reis), nos embates esportivos, na famigerada família...E por aí nos perdemos.
O mais interessante é que os fanáticos creem que as Mães Valérias têm o poder. Na verdade, somente elas o possuem. Eles que ali apostaram suas fichas, suas crenças, suas expectativas, seus corpos à chuva e ao sol e ao ridículo, mas ainda à sua alienação paralisante, nada tem a ver com o jogo. Seus poderes não contam. Pior: pensam que não existem. Uma alienação mais confortável.
Desde o início que para nós, crianças humanas, repleta de limitações e impotências, as divindades com suas magias e farsas ( posteriormente denominadas de ciências e suas penicilinas tão boas ou a suas lobotomias más) instalam-se feito hardware no cérebro dos pequenos. O duplo salvação/salvador constitui uma das mais duras,  até porque alucinada, e maléficas formações que invadem a mente infantil via cultura psicotizante. A brincadeira de fazer de conta- em não se esquecer que a vida não transcende a ela mesma- torna-se fato bruto feito pedra dura que não se comporta. No máximo, um furo feito por água que não descansa. Logo, as pedras e as águas também têm os seus poderes.
A alienação infantil é trajetória necessária, indelével. Elas não possuem outra chance de saída. Está inscrito no seu etograma. Portanto, nascemos escravos. Millôr Fernandes já dizia que o tal homem nascia original e morria um plágio.  O que muitas vezes parece rebeldia - e a sociedade nos mostra nesses tempos de caminhadas que pode ser até possível - desloca-se tão somente para uma outra forma de servidão. Uma outra alienação. Daí que o macaco original pode ser mais ....original. Millorianamente falando.
E quem disse isso foi Millôr. Foi um alguém que produziu de verdade.Isolou-se e estava sempre por perto a dez mil anos pra frente. Não era nenhum anacoreta ou anti-social , e sim alguém que sacou que isso aqui é só isso aqui e é melhor a gente se apressar pois pode não haver mais tempo. Duro, não? Duríssimo e levíssimo. Millôr foi também um dos melhores cômicos que já houve por esses nossos cantos.Por isso também os poderes que serão apossados ou não para não se  fingir que a base, o chão, desse lado deveras inadimplente nada tem a ver com o palácio e suas torres magnânimas que nos apedrejaram de volta há pouco. Aliás, qual foi o palácio que não apedreja e acaricia de volta? Molière, trezentos e trinta anos de sua morte agora, frequentou diversos. E como produziu....E tinha humor à vera. Quase à guilhotina. Caso contrário, como suportar a sua hipocondria? E aqueles reis meio fedidos, sujos feito o papelzinho da bruxa contemporânea? Cada alguém tem a bruxinha que merece. Contemplemos aquela lambisgoia de passarela meio sem bunda ( seria um sobrenome de família?)  a desfilar?! E ela festeja trinta e três e não trezentos e trinta!! Molière está mais jovial.
Teria sido jogada de volta aquela pedra furada pelo pingo de água - que já afogara um poeta- feito objeto amoroso que a vidente para sonâmbulos promete também devolver, em uma semana? Trezentos e trinta anos é tempo demasiado até mesmo para as pedras. Há de se dar razão - e quem não a tem- aos alienados fanáticos que a adjetivaram de pragmática. John Dewey, aquele estadunidense tão genialmente pragmático, William James, um dos precursores da Psicologia,  poderão até perdoar. Quem jamais não apelou para "bruxices" e outras crendices na vã tentativa (pragmaticamente?) de gozar definitivamente com o duplo salvador/salvação?
Naquele palácio apedrejado/apedrejador sobrou o espelho - ainda que côncavo/convexo- a refletir  a turba nossa de cada dia. É que disseram certa vez a um rei, enamorado que estava de uma Mãe Valéria daquelas bandas mais orientais, que o espelho que retratava a corte em êxtase, visto que o pintor cansara das tantas  pinceladas, refletia uma arte definitivamente ocidental. O pintor limitou-se a descerrar o pano que encobria o imenso espelho e a turba, fingindo-se aristocrática, espelhava de euforia .
Dizem até que não houve quem se recusasse ( podem até ser os ufanistas meio juvenis de várias idades, aqueles do início, sabe-se lá?), a proclamar otimismos naquele palácio. Palácio esse  mais oriental ou até  mesmo de um planalto central? Ou ainda, o palácio de um Tiradentes inconfidente? O fato é que não houve quem  não deixasse de reconhecer no sorriso desbotado, mesmo que aristocraticamente extasiado, um ninguém no meio da multidão. E como fazia barulho!! Apesar do silêncio.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A moça-velha.

Residia numa cidade do interior do Estado de São Paulo, fazia muito tempo. Mudara-se para lá na vã tentativa de se encontrar com Deus. Botara na cabeça oca que seria freira, não tanto por convicção religiosa, mas para disfarçar a humilhação de ter sido abandonada pelo noivo bem mais velho que ela. Naquele outro mundo, anos 40/50 do século passado, era comum nas famílias burguesas brasileiras que, com toda sintomática patrimonialista, mazombista, religiosa reinantes, os pais dirigissem os vínculos afetivos dos filhotes, sobretudo das filhas. Eles, os senhorios caras de pau, poderiam ter as suas amantes, frequentar os seus bataclãs, exercer seu machismo, despotismo, sem problemas e com bastante arrogância. Podiam arrogar-se até porque contavam com o apoio de boa parte das....mulheres. Afinal, eram tratadas - e algumas se consideram até hoje- como seres inferiores aos destemidos e estúpidos machos. 
Portanto, era hábito arrumar marido, o chamado bom partido ( resta saber para quem?) , para filhas meio desesperadas e sem projetos outros. Sem projeto a libido fica doidinha. Aquilo força para lá, para cá, vai para frente, regride, estaciona, mas não cessa. Não deixa de aporrinhar. Meninas casadoiras. Muito arriscado esse ofício. Até hojendía. 
A velha- moça que se mudara de mala sem cuia para uma cidade desconhecida - curioso é que ficou até o fim com sotaque de caipira-  fracassou no seu encontro marcado com Deus. Mesmo agora, depois de morta, não mandou recado ou apareceu 'in loco' para contar sobre esse goooooooooozo divino!
Criou tantos problemas no convento, para onde se mudara decidida a se vingar do ex- noivo fujão, que foi expulsa. Existem muitas versões sobre o que se passou. Nenhuma é digna de se crer, pois só havia uma testemunha: a velha-moça tomada de ressentimentos. E alguém movido só por ressentimentos não se faz confiável. Feito a que tem a língua solta ou o seu oposto a língua presa. 
A vingança teria sido a transa divina se possível houvesse. E amaldiçoaria por tabela o senhor que escapara a tempo. Palavra de algumas testemunhas familiares. 'Muy amigas'? 'Por supuesto que sí'!
Por essa e por muitas  outras - mesmo que a maior parte delas jamais foi compreendida racionalmente pela própria- tentara voltar à casa dos pais. Foi recusada. Dizem que é porque o pai, religioso da boca para fora, não aceitara a decisão da filha - a sexta criança de um primeiro casamento que terminou com a morte da esposa, mãe das seis filhas, no parto dessa última pretensa freira- de se tornar, segundo ele, uma beata. É curioso que certos frequentadores de templos religiosos o façam sem muita fé. Regozijam-se ao afirmar que são católicos ou crentes, porém, não praticantes. O que seria uma fé praticante?
O destino em dado momento não poderia ter sido outro, pois pode-se imaginar o peso para uma criança, diante das cinco irmãs mais velhas e de um pai pouco democrático, pelo fato do seu nascimento ter causado a morte da própria mãe de todas. Barra pesadíssima! Jamais superou isso. Há outras tantas testemunhas.
Corajosamente, teve que se virar. Tornou-se uma professora primária. Um dos ofícios mais nobres que existem. Era também adepta dos esportes futebolísticos e torcia para um clube- dos mais antigos do Brasil- e que tem como mascote uma macaca. Frequentava estádios e palanques ( tradição familiar). Sindicalizada, perambulou por alguns partidos políticos e protagonizou episódios polêmicos e arriscados. Num deles, ofendeu o candidato à prefeitura da cidade. Noutro, atirou uma bandeira do partido que apoiava na direção do candidato adversário. Gritou palavras de ordens, leia-se, palavrões. E odiava um certo político barbado. Sindicalizado feito ela. Era uma incoerência de gestos, falas, discursos, opiniões. Aliás, língua solta, opinava sobre tudo. Nada mais brasileiro. O problema é que  se recusava  em não aprender a  escutar. Daí a língua solta.
Rompeu com a política, afinal, ninguém lhe ofereceu emprego melhor. Nada mais brasileiro também. 
Suas transas pessoais se esgotavam então. Aposentadoria, os estádios e palanques, perdas familiares, fofocas a menos. Mediando tudo através da televisão ( o que pode ser uma péssima aposentadoria) , indignava-se, incomodava-se ao ver o casal bonito, jovial, aquele garotão com aquela garotona ( duas garotonas ou dois garotões então, levariam-na ao pronto socorro!),  beijando-se, beijo apaixonado, línguas soltas pela sensualidade, no faz de conta da teledramaturgia. " São umas putas essas atrizes'!- exaltava-se. Teria se permitido finalmente um orgasmo ? Quase diviiiiiiiiiiiiiiino?! Parece que não. Nem ao menos na realidade das virtualidades.
Morreu só. Até aí feito todos. Inclusive brasileiras, brasileiros. Imagina-se que no seu enterro compareceram políticos ofendidos, colegas professores, ex-craques de futebol, a macaca mascote, as testemunhas parentes, o fantasma de um pai. Quase um Deus.
Talvez uma única rosa sobre o túmulo- comprado e pago em prestações custosas- e um dizer, seu epitáfio: " Aqui tenta descansar aquela velha-moça que viveu oitenta e tantos anos sem jamais namorar, jamais beijar". 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Roniquito manifesta-se.

Boa noite. Meu nome é Ronald de Chevalier. Daqui a pouco, Roniquito.
Era dessa forma que um dos economistas e boêmios mais brilhantes, ruidosos e temidos da Zona Sul carioca, anos 60/70, apresentava-se.
Ronald era um economista com  muitas erudições.Conhecia muito bem a obra de Shakespeare, diversas óperas, brasileiros ilustres - tão  importantes quanto o escritor e mentor de  Hamlet- , e gostava muito das mulheres. Homem, portanto, de muitas virtudes. Todos nós - exceto os misóginos invejosos- gostamos muito das mulheres. Independente do que se queira fazer juntinho ou não.
A mudança do personagem - Ronald para Roniquito- deve-se ao efeito etílico e suas doses gloriosas - e nem eram tantas assim segundo testemunhas menos enebriadas- daquele whisky parceiro e depois cruel. Ronald então tornar-se-ia Roniquito em pouco tempo. Uma mistura explosiva, uma metamorfose pós bebedeira de Ronald 'plus' faniquito.
Faniquito por sua vez era uma expressão muito usada naqueles tempos de Píer Posto Nove - aquela faixa de areia de Ipanema - e que há muito tempo já ganhara sinônimos mais cultuados tais como chilique, piti, ataque histérico, etc. Já a expressão, mais até que uma referência geográfica, Pier Posto Nove ( aquela turma), era um deboche que Luis Sérgio Person, cineasta, roteirista, ator e gozador dos mais sérios, fazia com a turma do Pasquim ( Revista produzida por importantes intelectuais e que foi uma marca da resistência à ditadura). Millôr Fernandes, o mais novo proprietário vitalício de um nobre trecho entre pedras e o oceano do Arpoador carioca, adorava essa sacanagem vinda de Sampa , através de Person. Achava-o brilhante sem perder o charme. Porque existem aqueles que são brilhantes, mas acham-se ainda mais brilhantes do que eles mesmos. Tudo bem que essa postura até evidencia as nossas múltiplas personalidades. porém há de se ter cuidados pessoais. Uma questão séria e talvez resultante dessa multiplicidade pessoal toda é saber quem vai fazer a prova, defender a tese, assinar  a lista de presença, comparecer à festa ou às manifestações. E com que roupa se vai? A corte, seja a do Planalto Central quanto outras tantas espalhadas pelo país, está bem peladinha. Apesar das pelancas.
Ironias e seriedade à parte, Ronald Roniquito era tudo isso: Person, Millôr, Glauber, Jaguar..Esse último declara que caberia aos psicanalistas desvendarem esse singular mistério que é o fato de todos eles, exceto Person, Millôr, Glauber, nessa lista nobre e saudosa, ainda sentirem muita falta de quem os esculhambava com frequência. Roniquito tinha isso de ruim e bom: era deveras etilicamente sincero e ao mesmo tempo mal educado. Esculhambava na frente do cliente. Era o mais inconveniente dos inconvenientes de ocasião. O que o salvava era a inteligência, a erudição, a generosidade - quando estava menos tocado pelo fogo- enfim, argumentos de autoridade. Certa vez, dentre as inúmeras performances, avistou e auscultou Paulo Francis com seu estetoscópio único, metamorfoseado de vodka , declarar admiração profunda por Pasolini e o seu Teorema. O já festejado jornalista/escritor acabara de assistir ao filme do cineasta e gênio italiano ( cuja morte brutal nos anos 70 sempre foi um mistério), e num dos bares visitados por aquela turma toda debulhava-se em elogios. Ao passar rumo ao banheiro do bar pé sujo carioca, ou seja, um local feio, apertado, sujo, mas acolhedor nos seus mistérios de banheiro boteco Rio de Janeiro, não escapou da provocação ferina de Roniquito que se encontrava na mesa em frente da derradeira porta, anti-sala do fedor: " Quer dizer que finalmente, Paulo Francis, o senhor nos confessa o seu homossexualismo!" Não se sabe se Francis e o seu corpanzil  lhe reponderam com uma bofetada - o que muitas vezes se passara na vida de Ronald/Roniquito- mas o estrago já estava feito.
E eis que esse personagem fantástico,Roniquito, retorna mediante o recém falecimento de sua irmã, não menos notável, Scarlet Moon de Chevalier. E nesses momentos onde bússolas bêbadas insistem na direção errada, ele pode ser uma companhia bastante pertinente. Gás lacrimogêneo na veia ou como afirma baiano célebre aquele 'spray' de pimenta. Tempero local, na boa terra.
Sentaram-se pois Roniquito e outros tantos nesse mesmo outro bar, no centro da cidade, ex-maravilha. A mesa oferece lugares a mais, entretanto, o ainda Ronald não quer mais ninguém. E já tinham tantos presentes! Todos eram testemunhas cautelosas diante da previsível transformação por vir. Porém, ele também está cansado, de saco cheio, feito o barulho que vem de fora. Ensurdecem bombas, gritos, hinos, faniquitos sob forma de homenagem, uns passos, muitos passos. São milhares de passos! Aonde vão? Seria em qualquer lugar? Um lugar bom, quem sabe? A vodka já marcava presença, a fala mistura russo com brasileiro, alguns quitutes bem gordurosos adentravam o ambiente sem a menor cerimônia e o comício tomava rumo incerto. Tudo será permitido exceto o politicamente correto. Até porque não se sabe o que é ou será (seria?) correto? Nunca se saberá por certo. A não ser em cada mesa, com a sua guloseima adorada, com a sua bebida parceira, naquele momento único de incorretos.Graças a Deus! E mesmo assim há de se ter suspeita. "Tem gente na parada, porra! Vamos acordar de fato, sonâmbulos!
Roniquito vai despertando de um sono profundo. Aos poucos.
- Morri faz tempo e as coisas não mudam. Quero dizer, os nossos fetiches sado-masoquistas com fisionomia religiosa de saída e chegada. Sabe quem vai resolver essa crise, esse faniquito, para os mandatários elitistas ( nossos vizinhos ou sócios)? O bicho papão Argentino! Chegará todo paramentado com a sua guarda pretoriana e alguns dos soldados em lua de mel. Colocarão música sacra, provavelmente Haendel, ou se melhor gosto tiverem, Bach, O Sebastião abençoado. Subirão aos céus e eu lhes mostrarei, mesmo marginalizado por eu mesmo, um não-caminho. É profecia minha. De lá para cá. O que já é novidade! Ao menos uma canção diferente.
Imaginem que a soberania parece ter desaparecido no mundinho dos terráqueos. Naquele tempo, em que vivi, ainda havia uma ou outra dando sopa. Na porrada, bem verdade, pois os milicos não eram fáceis. São treinados para matar e possuem aquela hierarquia curiosa de um ficar sacaneando o outro desde lá de cima. Deve ser do céu que o mais graduado expele para baixo. E o que está mais embaixo não pode jogar para cima de ninguém. Mas funciona de algum modo. No nosso caso específico, uma situação grave de exceção, de governança, ou a moça- ex-guerrilha- toma decisões mais pontuais ou a casa pode cair. E pode cair sim. Quem garante que sim ou não? Só pelo fato do meu querer - e o meu querer de última extração não consegue nem atingir o seu alvo, e não conseguiu, mesmo e apesar, sobretudo, depois de morto- não querer por não querer? Ficou confuso? Pergunte às crianças que sempre querem ganhar todos os jogos, todas as vantagens. E não estão erradas ou certas. É assim que a máquina humana funciona, engrena. É capital, voraz. O negócio, as mediações, ou seja, fazer política, devem ser balanceadas, mapeadas, discutidas à exaustão. Para dar início a um longo papo entre sociedade e instituições.
De última extração? Que tal tratarmos cada linha que se escreve, cada caminhada, como se fosse a derradeira? Já imaginastes o Marcel Proust ( aquele gênio francês) dando voltas nos rascunhos de sua Procura? Uma boa tradução brasileira para sua obra, em 7 volumes? Escreveria pelos lençóis adentro. Travesseiros rabiscados e que valeriam uma fortuna hoje! A Celeste, sua cúmplice-governanta, teria tido muito mais trabalho. Mas o faria com prazer! Escreveu de certo modo, juntinho, aquela maravilhosa chatice. Lá do inferno- pois o céu é um saco de melancolias e lamentações- ainda não os vi. Tem que se fazer teste rigoroso para uma ascese desse nível. Não recebem qualquer um. Feito governador por esses lados. E nós, babacas outros, acreditando em representação. Para quem? Como? Imagine se alguém iria se indispor a me representar? Com que roupa? Essa mania em supor que pode haver no haver correspondência biunívoca, isto é, ponto a ponto, uma simetria absoluta entre a gente ( Há gente?), atrapalha muito. Aquela coisa que poderia nos completar: aquele menino, aquela moça, aquele cachorro quente......Um belo teatro isso sim. Aí pode-se conversar melhor. Contar uma história....
Então nos faz supor que o saco cheio a 20 centavos era muito arriscado. E os arrogantes - e pelo que se tem visto não podiam se arrogar tanto já que engoliram tanta mosca, abusaram-, a crer na representação, no ponto a ponto, no Papai Noel...Esse já vi.!Muda de nível toda hora. É de uma infidelidade partidária e no matrimônio assustadoras! Cara de pau, ô canalha! Ilude tanto crianças quanto assombrações. No Natal de Hum mil  novecentos e noventa e nove fui punido severamente pois lhe chutei o saco vermelho. E ele, que me deixou sequelas equivocantes , reagiu e soltou a mão. Tomei uma porrada do Papai Noel!!! Constrangedor, no mínimo. ' Mas, muito bem feito'!- gritara uma beata com as mãos cheias de dízimos sacralizados.Olhava-me com tamanho ódio que quase me apaixonei. Ela tinha as suas razões.
E quem não as tem , não é mesmo? Estamos tão orientados, pelo que vejo na continuação de certos modos de vida, de pensar, que nos perdemos todo dia. E eu que sempre fui - com o reforço pela ponta direita, que ainda havia no futebol, do álcool-, tresloucado, mas não burro, permiti a invasão de um aparente nonsense , como se fosse possível não haver sentido; uma desrazão lúcida.
Façamos então um plebiscito para decidir democraticamente o que é ter razão, o que é verdade, certo ou errado Ou seja: uma suposta maioria e os seus votos válidos contra uma verdadeira maioria e seus votos de oposição, votos em branco, anulados ou não presentes. A tal da abstenção. E isso num pleito que é obrigatório e aplica sanções para quem não justificar o saco cheio, ou melhor , a ausência. Faz sentido os 20 centavos? Fará sentido mais um fracasso? Esse teatro burguês está enganando muita gente. Olha mais uma bomba de efeito boçal  sendo atirada em qualquer coisa! Bum! Bum! Estupidez bélica.
Plebiscitos custam caro e o tempo pode não ser suficiente. Lembram do velho Ulisses Guimarães? Não o conheci por essas bandas e parece que o cadáver jamais apareceu. Será que é por isso que não o vemos vagando, flutuando? Seu túmulo foi um oceano inteiro. Seu crime foi a precipitação. Uma outra forma de arrogância. Além do que, esquecera que o Brasil é Brasil. Antecipou o plebiscito sobre forma e sistema de governo pois tinha, desde o tempo de MDB, fetiche em se tornar primeiro-ministro. Troço mais sem graça. Por que não uma sodomia científica feito Pasolini, feito o Marquês De Sade? Na região da Provence, França, o aristocrata francês e seus castelos assombram crianças e outros fantasmas até hoje. Ele nunca escondeu. Mais descente que o Noel. Bum! Bum! Pacíficos se organizam diante das tropas inibidas, envergonhadas. E isso é um perigo! Tropas também são treinadas para ferir, matar.Qual será a artificialização adequada para os rapazes belicosos descarregarem sua guerra interna e constante? Feito a de todo mundo.
Uma televisão acaba de mostrar fatos que não constituem novela patética. Saiu do ar. Por quê? Muitos falam mal , mas não trocam de sinal. Vejam! A moça está nua! O rapaz também! Agora são muitos! Seria um estupro? Pasolini liga e desliga a câmera. Posso vê-lo com clareza! Minha visão periférica contempla gritos novos: terceira, quarta, ndimensões, 'games' interativos, paridades entre parentes de fato, vínculos afetivos dissolvidos pelo simples querer e excesso no saco ( Até do Noel!). Cada um na sua. O mito do egoísta não é mau sinal. O problema é quando seu sintoma se fundamenta enquanto olhar e ação para o mundo. Cegueira, perversidade....Algumas das vicissitudes dessa postura velha. Fala-se então de egocentrismo. E aí não haverá parceria, associação.
A emissora oficial também liga e desliga seus interesses. Sempre foram palacianos! Independente se quem está com o diário oficial no colo está na extrema esquerda ou na extrema direita. Mao Tsé -Tung ou Ronald Reagan? O que importa é SOMENTE o nosso lucro. O Estado a nosso serviço. A sociedade civil - e sem ela não há possibilidade de conversa, existência de nação, estado de direito- a serviço do bem estar do Estado a nosso favor. Tudo invertido! E quando a sociedade se rebela - e ainda bem senão SOMENTE daremos bom dia para o professor doutor Sr. cachorro-  essa minoria, muito competente em antecipar algumas vontades e chiliques da massa, entra em pânico. Feito a tropa inibida, acanhada. Imaginem que os cães da Polícia usam fraldas nesse momento. A cavalaria pretende indiferenciar o gás lacrimogêneo. O garboso garanhão usa colírio especial. Seu hormônio passa no teste enquanto antidepressivo. E dizem que é ótimo! Olha o cavalinho todo animado! Quatro patinhas que ressoam somente três. Seu trote exuberante.
De repente, o silêncio. O ambiente boteco fica sob suspeita. Reacionários com a cara coberta - mostre a sua careta ainda que feia- surgem sem humor. Não conseguem rir das mesmas piadas. São da turma da parana também. Enxergam conspiração em tudo. Papo de vitimizado. E diante disso permaneço paralisado. Somos tão maravilhosos que o mundo não nos entendeu. Pra que mudar hábitos tão seculares? Ainda que fósseis. A luz piscou e voltou. Não era Paolo. Seria iluminação de Rousseffs? A Presidência da República no Brasil detém muitos poderes. Efeito de um federalismo de mentirinha. Desde a Independência. Farroupilhas, Balaiadas, Cabanagem, Conselheiro, o Antônio.....
O copo, estetoscópio mimético de Roniquito, que carrega uma cervejinha ao invés de vodka ( tempos de nacionalismo) mexe-se. Sozinho, faz aquele som que parece do além. -" E aí moço? Já fechamos. A coisa ficou feia , mas agora está uma beleza. Olha só aquelas mulheres ali fora. Loiras, morenas, negras, gordas
 , magrelas, sem partido'.- diz o garçom que botava mesa sobre mesa. Sem partido?- Indaguei. Então estão disponíveis?- insisti. O garçom sorriu riso largo, bonito, poucos dentes. Perguntei-lhe em perplexidade:
 -Mas e os amigos de Roniquito, ilustríssimo?-prossegui.
-Amigos e Roniquito? Por aqui, pelo pouco que sei, por tudo que vi, SOMENTE o Sr. e o seu sonho profundo.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Era uma vez uma setter irlandês.

Mila era o nome da cadela de Cony, Carlos Heitor. Escritor brasileiro, carioca conterrâneo aos 87 anos, e um dos melhores que temos. Sempre vi  Cony com respeito supremo e intimidade atrevida. A intimidade se deve à proximidade com um grande jornalista, e também acadêmico, Murilo Melo Filho, amigo de minha família. Nunca mais se viram: a família e o Murilo. Coisa do tempo que encerra resistências, vínculos. Dissolve formações outrora amorosas.' Passa lá em casa. Há quanto tempo....Há quanto tempo? Você envelheceu com esses anos a passar, não?' Gentilezas e tanta gente ficando pelo caminho. E eis que surgem essas redes sociais que aproximam quem está longe, distanciando quem está perto. Observação de uma aluna, adolescente, de minha Mônica. Quem sabe não estamos todos procurando algum Murilo outro por aí? É só colocar uns nomes próprios, melhor seria teclar ou digitar, e você retorna ao jardim da infância da grande rede.
O presencial para nossa espécie, por mais  nômade que ela já tenha se pretendido, faz diferença. No presencial você encontra o cheiro, o jeito, o tropeção, a entonação, aquele sofá de estimação, a falta de educação, o desencontro, o cuidado também se diz. Não há psicanálise possível sem que tenha havido o primeiro embrião, fruto do contato ao vivo, por exemplo. Nesses casos estamos transferindo um monte de coisas. E a via é de mão dupla, mas não simetrizam.
O presencial pode apresentar também um comando, uma coisa retangular, escuro-claro, com números e símbolos a serem tocados, apertados, manuseados. Seria um fetiche? Chama-se controle remoto televisivo nesse caso clínico específico, chamado prosa pequena. Acariciado, pode conduzir qualquer um de nós a uma rede sem fim de imagens, sons, histórias, notícias, tesões, e mais histórias e outros fatos.
E ali se faz Cony. Com a sua voz grave característica de Carlos Heitor. Começa a declamar sobre Mila, sua setter irlandesa, falecida há alguns anos e que passara 13 anos com ele, numa entrevista para o veículo televisivo. A setter fora um presente de Adolpho Bloch, seu ex-patrão e amigo já falecido, assim como Murilo Melo, o amigo sumido ainda vivo, de minha também sumida família. Presenteado presencialmente por Adolpho, a cadela mudaria sua vida. A profecia fora feita e dita por quem lhe ofertara o tal presente. O patrão amigo percebera que poderia, a cadela, ser-lhe uma boa companhia. Uma cadela de verdade! Com aqueles pelos castanhos, amarronzados e aquela altivez de caçadora. Caçara Cony.
O empresário amigo, um dos mais importantes do ramo das Comunicações Oficiais do Brasil, iniciara tão somente o flerte. Foi Mila quem decidiu por Cony. Clarice Lispector, sua colega escritora e também amiga, sentenciou que ao perder o seu cão notara que não havia sido ela que tinha tido um cão, e sim ele que havia tido uma dona. Mila escolheu Cony que quase a recusou. Alega que não tinha jeito com cadelas tão amarronzadas. Com outras tudo bem! Já tinha experiência....
Tentou devolvê-la a quem lhe presenteara. Quando deixava a casa de campo da importante família Manchete, aonde tinha ido para entregar-lhes de volta a  cadelinha ainda pequenina, percebeu aquele vulto escuro e peludo passando por debaixo de suas pernas enquanto abria a porta do seu carro. Era Mila! Correra como uma velocista olímpica tentando alcançar o seu - já há muito escolhido- dono: um célebre escritor imortal ( imortal porque os autores do tamanho dele não morrem. E não somente por pertencer à certas academias). Saltou rápida, decidida, em direção ao banco do carona e com aquela cara sapeca e a língua enorme, rosa claro, enaltecendo o seu esforço pela paquera. Parecia lhe dizer: 'Vamos lá imortal! Aqui estou para mudar a sua vida, pois é minha também! Prepare-se portanto, já que lhe darei trabalho. Depois, advirá a recompensa quando puder conter meus instintos infantis, meu etograma completo de cão. Completo , porém mais empobrecido do que o seu. Eu sei, eu sei! A mim só caberá aquela ração especial harmonizada com um pouco de água. Fazer o quê? Dieta canina. Cuidados com os carboidratos, triglicerídeos nas alturas. O pelo perde o brilho. E sem o meu pelo a brilhar seria como ficar careca, no caso da sua espécie! Ah! Foi mal.!Não quis lhe ofender, mas será que alguns dos seus pares poderiam me dizer se já degustaram carboidratos? Eles devem ser grelhados ou cozidos? E os tais triglicerídeos? Harmonizam com água? Mas também me faço imortal, querido dono! Ao menos para ti e suas lembranças. E se não for pedir muito, estarei imortal de fato, pois vai dedicar-me um texto bem bonito. E que sabes tão bem produzir. E são tantos....'
Imagina-se o esforço do escritor ao ter que mudar toda sua vida, e ele já não era mais criança, após a invasão canina ao seu esconderijo. Quem já morou sozinho por muitos anos sabe o quanto é difícil administrar novos sons, odores, uma nova divisão, o repartir, enfim, o tal presencial.
Cony conseguiu. Um herói de fato. Na verdade, ou seja, na sua versão, conseguira muito mais. Mila trouxe a literatura, no caso especifico a prosa, de volta para o seu mundo. Fazia anos, que não escrevia para além das crônicas semanais. Resistia por alguma razão. Quem sabe a morte do pai - e nesse episódio Mila foi seu melhor anteparo- o tenha entristecido a tal ponto que desistira da prosa. Segundo Cony, vinte anos distantes estavam: a prosa e seu mentor.
Adoentada, a cadela caçadora prestes a se aposentar choramingava baixinho quando o dono dileto encerrava os trabalhos habituais. Fechando o computador, dirigindo-se à cama para repouso e a cena se repetia. Mila se aconchegava e reclamava. Afinal, era só o início da noite após pôr do sol cinematográfico no Arpoador, no Aterro do Flamengo, e ele a desistir por hoje!? Impossível! Sedução ganha. Não mais com a língua rosa para fora, arfando de euforia pelo encontro amoroso, mas pelo choro de quem estava se despedindo. Ela se despedia por ali e lhe sugeria um recomeço. No início, o dono e toda a sua sintomática de dono, resistia. Não entendia o que a companheira de quatro patas lhe clamava. Depois, cedeu. Escreve então um dos seus melhores livros.
Foram treze anos de parceria leal, diz o escritor. Bloch estava certo. Ele, Cony, que foi uma espécie de 'ghost writer' do chefe amigo, teve a sua. Ainda que não se expressasse através dos verbetes oficiais, da gramática aprisionada e aprisionante do nosso mundo pessoa. Tinha, Mila, o seu singular modo.
 Era uma vez uma setter irlandês.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

E vai rolar a bola.

O futebol é uma batalha de meninos. Nos EUA e nos países escandinavos as mulheres também o praticam com afinco. Pelos nossos cantos tropicais tivemos uma Pelé menina, chamada Marta. Teve que se mudar para a estranja a fim de ganhar o seu dinheiro merecido. Modalidades esportivas que não gozam de muita popularidade e que não incomodam a patifaria, que comanda o jogo oficial e a patuleia ignorante que lhes confere prestígio, não sobrevivem por muito tempo. Acariciam a vaidade dos dirigentes e seus cúmplices- nós que já nos chamamos de Voyeur e viramos torcedores por causa de um lenço de seda massacrado por uma dondoca nas Laranjeiras, bairro carioca,  início do século passado, quando triunfam com medalhas, troféus e titulações.
Aquilo é uma guerra quase insana se não fosse o apito final de quem arbitra. Ali, saímos carregando as nossas loucuras, as nossas neuroses ( ou coisa pior), as nossas projeções paranoicas  o nosso amódio. Organizamo-nos em bandos desorganizados. Pagamos o preço que for para a catarse final. Aturamos a espera em longas filas, em busca do ingresso salvador. Felizmente, ela pode passar. Para retornar em algum momento pós jogo, pós batalha. É uma espécie de cessar fogo, armistício esportivo. Uma trégua pois a guerra não pára. Jamais. A paz almejada seria o gol absoluto!!!!Marcado à moda do chefe, ou seja: à moda do torcedor. No penúltimo minuto. Penúltimo porque se fosse no último não se poderia contemplar o sofrimento do adversário maldito. O time oponente aflito, desesperado, sofredor. Seus torcedores molhados pelas lágrimas de ódio, raiva, uma nova desilusão. Um esquema tático imbatível no que diz respeito à vingança perversa.
Um aforismo célebre de Clausewitz, citada pelo Francês Foucault em sua vasta obra, afirma que a política se tornou uma continuação das guerras através de outros meios, outras mediações. Há de se pensar sobre, mas em princípio concordo. É uma batalha disfarçada por parlamentos, ministérios, secretarias de Estado, poderes judiciários com seus supremos seres, embaixadas, cinismo geral e a ilusão de que se pode se fazer representar por outro. Não pode. Outro é um outro. Você adere, aposta, faz coro, financia, mas aquele fulano ou fulana lá, gêmeo univitelino, constitui uma outra Pessoa, uma outra formação. No gol absoluto, no narcisismo absoluto do espetáculo, o outro vira ele mesmo em última instância. Mas na partida do dia a dia o que se tem é aquela outra forma de haver. Pode ser parecidíssima, mas é uma outra coisa. Estamos no teatro da vida.
O jogo de futebol, popular pelada uniformizada, tem todos os ingredientes para se tornar uma batalha campal. Se você disser a um estadunidense convicto que ele não passa de um 'mother fucker', ele ou ela podem lhe dizer impropérios de volta. Mas se você lhes disser que eles são uns 'losers' prepare-se para o bombardeio devastador, para uma invasão bélica com tropas e tudo. O argumento: você usou armas químicas devastadoras contra a nossa arrogância expansionista, imperialista, ainda que jamais encontradas essas armas, anti-esportivas. Se as encontrarmos a forca será o destino de vocês. Um gol quase absoluto. Seu fim, sem a vossa presença. Essa história de julgamento, tribunais internacionais, funcionam para os outros, o tal narcisismo baixo. O velho-oeste impera e pronto. O atacante que batia escanteio e achava que podia chegar a tempo na área de jogo para cabecear, Saddan Hussein, que nos diga. Não pode mais. Nunca mais. E o nunca mais é fundamental pois traduz a irreversibilidade do resultado final, arbitrado pelo fantoche com apito na boca. Fantoche necessário.
Nos jogos profissionais não conseguimos ter o mesmo nível de civilidade que muitas peladas, aquele jogo sério e de brincadeira de todos nós meninos/meninas, no qual quem arbitra são os atores principais do jogo, isto é, os soldados peladeiros.
Certa vez, uma colega me dizia que para alguns estudiosos da obra do vitalista genial, peladeiro alemão, Sr. Nietzsche, esse fato, esse reconhecimento de solidão radical e de que cada um que se vire com todos os outros, exemplificaria um dos seus mais importantes e polêmicos aforismos em que nos diz que Deus está morto. A pensar. Na brincadeira, seríssima, Salvador Dali pintava e bordava: 'Se morreu é porque houve. Então serei católico agora'.
O certo é que a gente tem que se virar, driblar, pois estamos sem a sagrada companhia de fato. Somente de direito. Podemos requisitá-lo, falar o nome.. De direito portanto temos todos os direitos de evocar o que bem se quer. Com o devido custo a ser pago, obviamente. Sem as cômodas mediações,  sabe-se eu fazer gol a favor?
O jogo de bola tem apitaço e nos outros jogos existe o pistolão ( pull the strings para os estadunidenses que atrelam isso à ações  não muito legais. Sobretudo, levando-se em conta que  a cultura por lá valoriza certos méritos).
Vem à mente o primeiro clássico futebolístico que se viu ao vivo. Não foi um Flamengo contra o resto todo - time escolhido desde pequeno- , e sim um Vasco da Gama - chamado de Vasco da Grama nesses 8 anos de vida de então, por ignorância histórica, mas com lógica pertinente-  contra o time do Mané, o Garrincha: Botafogo, o seu nome. Resultado final: 3x2 para os gramáticos do Vasco. O tento derradeiro fora feito pelo atual Presidente do Clube e que tinha Dinamite nos pés. Havia campeão mundial jogando nas quatro linhas e no banco de reservas um deles, o mais célebre Lobo do futebol brasileiro, comandando o time, O ano marcava 1974. Além do mais, os gramáticos acabavam de se consagrar campeões do Brasil, no dia do aniversário de um primo que era torcedor- sem lenços de seda a prantear- do clube de origem lusitana.
Um dos amigos que estavam no estádio a fazer companhia era irmão da minha primeira Rosa importante. Seu nome era Jorge. E se não era, passa a ser. Era bonito e calado. Quando se indagava sobre a irmã, ele tornava-se  feio e falastrão. Revirão sem mediação no corpinho mediano juvenil. E tinha cabelos negros com franja. E eram lisos. Tentava-se seduzir o rapaz porque o alvo desejado não estava presente. Aprendi depois de muitos anos que ele jamais estará. Aprendi, mas não se está confortável,. Não se conforma e persiste-se.
A brincadeira séria de gente grande era essa. Era o jogo da pátria. Calçava as chuteiras para fazer o gol. E quem não soubesse calçá-las com destreza sofria nas mãos das outras crianças e suas perversões.
Deus portanto tinha porta-vozes futebolísticos, decantados e uniformizados. Gritávamos seus nomes. Os clubes de futebol profissional  pertenciam a uma multidão de loucos que se achavam proprietários dos seus projetos, dos seus destinos. Eles eram de tal time. O que é curioso, pois os proprietários costumam ter coisas e não sê-los. É a herança cartesiana-judaico-cristã do verbo ser e suas ontologias que confundem a todos. Desde que os irmãos Wright- estadunidenses 'no losers'- e Santos Dumont colocaram asas na  espécie-homem que a humanidade resolveu se borrar um pouco mais de medo diante das disponibilidades atectônicas,ou seja, sem chão por um tempinho. Sai pra lá gravidade! Mas a gente retorna, porque não há outro jeito. Dr. Nietzsche tinha razão com o seu eterno retorno.
Foram muitos jogos. Um dia a pátria de chuteiras, expressão de Nelson Rodrigues, celebrou o que virara sonho, fantasia, isto é, outras formas de realidade. Conquistou-se o mundo da bola. Presenciei 3 desses feitos. Ainda que na primeira vez, fosse uma criança carregada nos ombros da euforia alheia. Eram só 4 anos de idade e a memória ainda se debatia entre lobos frontais e afins e um hipotálamo zagueiro, daqueles que resguarda o resto do time e suas conexões sinápticas, sobre projetos futuros. Feito torcedor com seus lenços. Hoje temos as bandeiras enormes, vuvuzelas insuportáveis, cânticos de guerra. Há de tudo nessa guerra. Inclusive certa beleza. Um soldado que passa a bola para outro soldado que não ama o soldado do time contrário. Ciranda de  Carlos Drummond de Andrade na negativa. Teria o general Clausewitz apitado algo? Um tiro de canhão na nossa arrogância?
Já que não há  a pelada D'A PAZ possível e eterna, estando-se presente, qual será a batalha menos comprometida, menos destrutiva, a mais profícua a se jogar , a construir novos craques soldados, aqui e agora?
 O árbitro se retirou antes do apito final.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A sala fechou sua porta.

Quando certos colegas de turma decidiram  convocar para uma guerra outros colegas da mesma turma, o plano já estava traçado. A porta da sala de aula, utilizada para estudos complementares, estava aberta e o futuro jornalista de um importante canal televisivo -  ele supunha que seria matemático devido ao êxito em tantas avaliações anteriores- e com quem compartilhava naquela tarde árida, seca, a angústia dos números e sua magia particular, dizia em tom conciliatório , quase uma súplica, naquele diálogo, quase monossilábico : " Não deveríamos nos preocupar pois acho que vai dar certo. Essa última prova não deverá ser tão difícil quanto os testes anteriores. Ao menos espero".
A prova em questão seria o derradeiro teste de matemática, de química e outras matérias daquele fim de ano. E seria o último ano naquela velha escola em sua nova sede.
Ali, todos os envolvidos nessa trama estudaram por alguns bons anos. Desde o colégio em sua sede antiga até essa recém inaugurada. E ela era completamente diferente da  primeira escola, que esse que vos escreve havia estudado,na antiga capital do país.
Esse primeiro colégio assustadoramente carregava nome de história infantil vinda da estranja. Continuo a vociferar, e existem  testemunhas fidedignas, apesar de algumas não estarem mais vivas, que fui preso político ( Anos de chumbo. Anos 70)naquele badalado insituto de ensino da zona sul carioca. Não gostava tampouco daquilo.
O cenário contemplava crianças vestidas feito anãs com suas meias tres-quartos. Hino Nacional Brasileiro cantado sob o calor microondas de um verão que se estende por meses a fio- na época não havia essa prótese, mas podemos bem imaginar- , e sua duas diretoras que fingiam não gostar do que gostavam de fato. Eram moralistas extemistas. Logo, tudo era meio falso. A propaganda educacional, social, declamada se distanciava muito da experimentação. Passados quase duas décadas do seu fim, a herança ainda traz problemas para dezenas de herdeiros. Todos acochambrados pela 'titia' F.D.P que vinha a ser a diretora e fundadora do pretensioso sanatório infantil.
A escola- que receberá o nome de segunda- ficava num terreno bem mais amplo e numa outra cidade, bem distante da primeira, outro planeta na verdade, no planalto central do Brasil. Sendo a sua capital. Oriunda de um delírio. E o que não o é?  Era mais simples, menos exuberante, a tal escola segunda. E também não havia aquele desfile esnobe de carrões importados circulando pelas ruas do bairro cujo nome se origina de palavra indígena, à sua porta, na hora da despedida. Configurava-se então o término de mais um dia. Ufa! Alívio para quase todos.
Em compensação havia, na escola do planalto central, o tal uniforme obrigatório. Pavoroso! Tínhamos vergonha daquilo. Jamais apreciei ficar fantasiado como todos os outros. Se não fossem aquelas saias -  recordemos não menos delirantemente das pernas daquele mulherão de 12 anos de idade, a Sandra, a desfilar por entre árvores do cerrado urbano-, haveria dificuldade na distinção entre quem eram os meninos e onde desfilavam as meninas. A não ser pelo mulherão. Tudo bem que o nome Sandra já causava atrações fatais, fazia tempo, já que fora uma das musas televisivas, cinematográficas à época. Seu nome: Sandra Bréa. Lembram-se dela? E depois veio a Farrah Fawcett. Uma musa pantera importada e aquela outra fulana ......também. Havia excesso de boas sugestões, reconhecemos.
Então a Sandra era a tal. A cereja do bolo. Mais velha e estudando numa turma mais adiantada. E tinha aqueles cabelos castanhos e  os olhos negros. Tais poderes bastavam para Sandra não nos olhar diretamente. Os meninos sentiam-se atravessados por aquele não olhar e se perguntavam se aquela Sandra teria uma espécie de sintoma autista especial? Tinha-se escutado a respeito em programa televisivo. Alguns, contudo, ao tentar defendê-la garantiam que ela era estrábica. A princípio achava-se que isso fosse algo grave, talvez uma formação de outra galáxia. Felizmente, o sintoma era menos sério. Os olhos da nossa musa juvenil tinham dificuldades com as paralelas. Tão somente assim. Um seguia para fora o outro puxava para dentro. Um mais embaixo e o outro olho mais acima. Nada porém que atrapalhasse a beleza de nossa ex-colega. E nós não suplicávamos por um olhar assim tão contundente, tão amoroso! Bastava uma espiadinha. Estilo Minas Gerais. Terra do adorável e saudoso presidente brasileiro que fez de um sonho um ataque histérico.
 Não cedia, a nossa Sandra.Tinha convicções singulares, a tal moça. Postura ereta, reboladinha de quadril - o movimento feminista mais bem sucedido, segundo o não menos saudoso, Millôr Fernandes- a espalhar veneno para tudo quanto é lado. Fazia parte do seu espetáculo juvenil.
Um dos pontos característicos - aplausíveis- nessa fase adolescente é a flexibilidade irresponsável para se mudar de partido, para se trocar de musa. Já cometemos o erro em supor que isso se chama leviandade, mas não é disso que se trata. É aderência a menos. Sem obrigações ou imperativos para agir, escolher.... Portanto, essa Sandra acaba de morrer. Decretamos, sem a necessiadade de nenhuma publicação em diário oficial, o seu fim. E nada de culpa, por favor. Afinal, morreu e continua viva. Sonho maior e impossível!! Não disse que tinha singularidades específicas, a tal musa juvenil? Estão todos aqui, novamente, falando disso e por causa D'isso. Evocamos mais de 30 anos nesse momento. E parece passar ligeiro quando se rememora. Até rememorar, elaborar, concluir....Mais 30!
A vingança contra tal vestimenta, fantasia sem graça intitulada uniforme, era sujá-la ao máximo durante as peladas de futebol ou nos jogos com bolas de gude, após as aulas, no terreno baldio próximo, nessa escola segunda. E quando vencemos o primeiro campeonato de futebol que a escola organizara? Camisa da Portuguesa de São Paulo. Número nove: Enéas, o divino da Lusa. Pretensiosa arrogância fantasiada de menino. Todos eufóricos e imundos após a conquista do título inédito. E aquele sorriso que não se descreve com palavras, pois faltam as palavras diante da obviedade do gesto único, do garoto Gastão. O seu apelido, desse nosso goleiro estilo holandês- era loiro de olhos claros- que virou nome próprio, na direção minha como se um milagre houvesse ocorrido. E havia ocorrido essa magia sim. Milagre para alguns.
 O time fora montado fazia pouquíssimo tempo e as camisas eram improvisadas. As mães ajudaram com a costura. Detalhes de mãe. Imaginem se no colégio esnobe (aquele de 300 anos atrás. Sim, agora já são 300!), produtor de mauricinhos, permitiria tal coisa! Isso era algo menor, ou seja: virar gente. Ao menos se teve o cuidado de colocar, no lado esquerdo do peito, o escudo certo, pois a cor da camisa também não era fidedigna à agremiação lusitana. Ao invés do grená a camisola- camiseta em Lisboeta- tinha uma coloração vermelha mais para o colorado dos pampas ou o ameriquinha carioca. Qual a razão para isso? Ao invés do estrabismo sofreríamos de  um daltonismo não diagnosticado na equipe? Teria sido um ato de rebeldia contra o uniforme , cuja calça era - essa sim-  meio grená? Ou seria ato contrário à direção e suas ameaçãs; a disciplina que ensina cálculos e apresenta algoritmos específicos ou o hino mal cantado; aquele sol que não se manca e aquele anão semelhante no vestir-se; o 'déficit' de paralelismo da ex-musa esquecida e desrecalcada hoje? Tantas possibilidades....
Enquanto confabulamos, aquele colega suposto matemático  e o esnobado daqui, o tal bom malandro apresenta os seus planos para , quem sabe, o teste final funcionar bem. Afinal, o bom malandro é aquele que faz uma série progredir. Faz seriação. Ainda que composta por traquinagens. Nesse caso, o bom malandro era um rapaz simpático, carismático e péssimo aluno com as matérias oficiais. Seu nome não será revelado por razões de puro esquecimento. Avatares do tempo. O que não quer dizer que ele fosse burro ou algo semelhante. Estudava outras disciplinas que o colégio e o seu fluxograma caduco não contemplavam como sendo da ordem do saber, do conhecimento. Teatro, música, artes plásticas...Eram alguns dos saberes deixados de lado. Por isso que fingem ignorar a estupidez da formação que oferecemos às crianças.
Muito pelo contrário nesse caso visto que o tal rapaz ardiloso era bom interlocutor e lúcido. Sacaneava na verdade um padrasto que o sacaneava. E no fim, ele conseguia o alívio de ser aprovado. O padrasto custeava as despesas do seu estudo em troca de acordos nada familiares. Porém, nesse ano específico, as coisas engataram a marcha ré. Calculara de forma equivocada a sua média anual. E esses são alguns dos problemas com os tais cálculos errados. Quase se arrebenta antes do prazo derradeiro. E o prazo último se aproximava ardilosa e perigosamente.
'Então façamos assim. Há um espaço entre a janela x e o seu término, enquanto formação janela, e que pode ser transposto por alguém com o meu biotipo. O biotipo em questão mostrava um ser longilíneo, esbelto, meia altura. Por  término de janela entende-se que havia um buraco no caminho e não somente pedras. Talvez tivesse sido quebrada a tal janela, por um outro astuto? Não. Era erro de projeto mesmo.
O malandro colega passara algum tempo calculando, especulando sobre isso. Se tivesse perdido o mesmo tempo com outros cálculos talvez estivesse em situação menos desesperadora do ponto de vista escolar e suas exigências mínimas. E olha a gente por aqui fazendo moralismos, feito as duas senhoras diretoras da primeira escola. O que temos a ver , haver, com o que o fulano faz com as suas médias, com o seus tesões? Mas que era um adepto fidedigno da sinecura, isso era incontestável! Aquele tipo de trabalho em que não se tem esforço algum para se conseguir ganhos.Um sintoma característico do nosso Brasil onde geralmente - não são todos- não há muito tesão pelo trabalho. Não há alegria nisso. Algumas atividades são invejadas justamente por isso. Seus praticantes adoram o que fazem mesmo que não sejam as atividades mais rentáveis do ponto de vista financeiro.
O sinecurista - mau aluno para sempre- tem como objetivo faturar sem o menor esforço. No linguajar vulgar, e isso não é ofensa, não há adjetivação em questão, já que foi substantivado faz tempo, chama-se vagabundagem.
Mudou-se de sala para não despertar curiosidades inconvenientes. O esbelto bom malandro continuou com a sua explanação. O plano tinha início.
À noite, quase madrugada, iria-se ao local onde um buraco poderia salvar algumas almas estudantis. Através dele, um malandro do bem passaria. Para dentro desse buraco havia uma estante enorme e uns equipamentos avançados para época, Época de analogias triunfantes. Digitalizações não eram tão bem vindas em certos setores. E para essa ocasião os sons ao redor, capacidade analógica de se captar, ouvir todos os sons possíveis num ambiente, eram providenciais já que se o responsável pela segurança resolvesse abordar certos buracos e suas vicissitudes haveria problema e dos grandes para esse bando de aventureiros atrevidos.
Naquela estante, naquele poço com fundo, estavam guardados feito tesouro todos os testes de fim de ano, daquela escola segunda. O canalha, quer dizer, o malandro-chefe, já tinha sacado tudo!
'Nada de pegar as provas todas. Só as que necessitar'.- advertiu.
'Mas e vossa senhoria? Todo alquebrado por disciplinas que despreza? Vai amarelar?' - alguém o questionou.
'Se eu pegasse muitas provas, eles - os malvados diretores-  descobririam. Sou quase repetente, mas não sou burro! E quem estiver insatisfeito não precisa aderir!'- esbravejou.
Adesão unânime. Primeiro passo: conseguir as provas. Segundo passo: distribuí-las entre os colegas que fossem mais hábeis nas respectivas disciplinas. Somavam quatro essa gente. Todos, agora, malandros. A distribuição era para que as questões -subjetivas e bastante difíceis- fossem resolvidas e estudadas previamente. Depois, se tudo saísse a contento,  poderíamos correr para o abraço sedutor das férias.
Ah! E o segurança? Era um bêbado adorável. Cachaceiro da melhor estirpe. Nunca o vi.
Então, malandros generosos, uma garrafa novinha da cachaça envelhecida no laboratório de análises clínicas mais próximo, a lhe ofertar. Misturado para harmonizar com o sono profundo, o chefe-astuto-inimigo, do padrasto-milico, dissolveu um comprimidinho, denominado de sonífero, no interior da con-sagrada bebida. Sua mãe o utilizava frequentemente, segundo sua versão. E ainda respirava sem ajuda de aparelhos. Talvez para aturar ou torturar o padrasto. Começo a simpatizar com esse homem que fora difamado durante os dias que antecederam o grande dia. Padrasto e madrasta mereciam melhor tratamento a priori. Garantira portanto, chefe-branco, que a dosagem do veneno ( menos libidinoso do que o de Sandra, aquele mulherão envelhecida por 12 anos, feito Whisky de gente grande) era mínima, mas o suficiente para deixá-lo fora de ação pelo tempo que necessitávamos para O Atentado.
Dia D. Carro a postos. Família a dormir e a primeira irregularidade. Não havia carteira de habilitação, mas sabia-se dirigir direito. Nada de bebida alcoólica. Álcool só para o prezado vigia permanecer fora de combate. Roupas escuras, toucas, luvas. Cenografia de ocasião. Chegando ao local do crime, de repente, um porrete surge no campo de visão. "Violência não!- conclamou-se com o destemido que o carregava". 'Só em última instância'-foi feito o acordo. Sabido que a última instância é vizinha suposta do impossível que não há, e que não tem vizinhança possível, alívio na madrugada. Respiramos. O homem-vigia bebeu um sono profundo. Foi então que entramos todos buraco a dentro. Uma espécie de curra, politicamente correta e sem gravadores camuflados ou diário oficial a lhe dedurar. Nada de sangramento ou secreções. O paraíso se apresentou na madrugada fresca com cheiro de mato do campo molhado da garoa da noite para aqueles jovens malandros, ex-virgens, em ato de delito. Rouba-se no jogo? Quais seriam as regras se não sabemos de todas? Podemos desconhecer as regras? Há rebeldia possível através de um buraco que há.
As férias iniciaram juntamente com os pesadelos culposos de quem não se manca. Se ainda persistem sentimentos culposos, culpado se é.
"E aí? Sonhando feito vigia de porre? Ou teria algum algoritmo lhe avessado as idéias?" -uma voz relembrou.
A sala fechou sua porta. O Buraco não. Transpareceu.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Pianistas do futuro. Onomatopéia contemporânea.

Porque chamar um filme que aborda singularidades da espécie homem de ficção científica? Tudo bem que ficção é praticamente tudo. Ou não seria?
Teríamos realidades mais realistas do que outras? A afirmação de que um fato por ser considerado enquanto produção da ciência ( mas qual?) tem maior importância, maior riqueza nas suas cosntituições do que outro invalida o que não é considerado por essa via? Seríamos adeptos fervorosos do positivismo de Augusto Comte e o 'slogan' de nossa bandeira verde e amarela que estabelece progressos mediante algumas ordenações? Ordenações supostamente cientificizantes?
Ciência para eles carecia de comprovação empírica e o nobre conhecimento- fazer ciência e suas observações decorrentes-  restringe-se  à matemática, à física, à biologia, à química.Virou igreja. Chama-se 'Igreja para humanidade'.
E o que não seria da ordem da ciência, da ordem do conhecimento - tal como indica O pensador e Psicanalista brasileiro MD.Magno- acresentando que o poder que alguns desses saberes, ditos científicos, exercem é da ordem do que chamamos milagre. Por milagre entende-se as possíveis alterações, transformações, em nível biótico, primário, na nossa espécie e até de outras formações do chamado haver, por vias secundárias, simbólicas, artificiosas. Nossa posição de gozo enquanto espécie. Algo que já contraria um ortodoxo positivista ( estaria embalsamado tal criatura?), aquele que crê possuir a opinião certa, correta, visto que essas configurações que denominamos de naturais, não humanas, não se transformam. São imutáveis aos seus olhos. E para as senhoritas, o destino lhes reservaria positivamente uma bela maternagem, um fogão e uma roupinha ordenada para passar. Isso pode parecer uma tolice, mas é importante já que envolve, no que tange as pesquisas e estudos sobre comportamentos e suas vicissitudes, considerações a respeito da saúde mental de alguém, por exemplo.
O cidadão/ã faz as suas considerações a respeito de quase tudo e acha que se faz entender já que alguém lhe responde. Mesmo que a resposta seja silenciosa. Esse fazer entender é porque acredita- e teve toda a formação escolar, familiar, repleta de sujeitos, objetos, cartesianismos, geometria euclidiana, catequeses, linearidades, etc- ,  que ao dizer algo, esse algo não lhe parece  nem um pouco delirante. Já que alguma coisa pelo lado de cá soltou umas frases que para esse emissor possuem algum sentido, alguma lógica. E possui.  Além do mais,  o receptor a recebe- essa frase, esse dito, esse gesto- e fará algo com isso nem ques seja coisa alguma.
Portanto, considerar um delírio só porque aquilo não me faz sentido pode ser grave. Qualquer pensante ou inventor de maluquices ainda não pensadas - os heróis da nossa história, e não confundam isso com adorações positivistas-  sabem disso. Distanciar-se da rotina, dos hábitos cujos sintomas triunfaram, das convenções estipuladas, pode implicar em risco de morte. Morte que não há. Logo, o preço pode ser altíssimo. É só lembrarmos de um Copérnico carbonizado, de um Galileu Galilei silenciado por lei sagrada e fascista ou de um Freud quase deposto para campos de concentração ( se não fosse o prestígio aristocrático de uma  ' Maria' Bonaparte).
Se não houver esse trato para com quem ou o quê se está conversando, considerando, ,ou seja, um analisando, um amigo, a esposa, a famigerada família , a areia da praia, o sol que queima, o Estado  - que nos diz que não podemos não saber sobre as leis que ele exara -, a situação permanecerá na sua precariedade, paralisia ou destruição dos vínculos estabelecidos. E não se vive sem eles! Como viver desvinculado da temperatura ambiente, da gravidade, do cuidado amoroso materno inicial? Felizmente, existe a mente humana ( e apresentada por Magno enquanto análoga ao Haver, à nossa Cosmologia) capaz de avessar nossas estupidezes primárias, bióticas, através do artificialismo dos múltiplos' gadgets'. As leis convencionadas em parlamentos e julgadas, apreciadas, nos tribunais, existem para coisas muito boas e outras tão tenebrosas....Mas necessárias. Uma anarquia é resistência à civilidade.
Estaremos condenados a uma solidão sem pares se isso tudo não for incorporado.  Até porque só  conseguirá mensurar uma pequena parte do que se apresenta. O que estiver em potência, em emergência, só será possível ( se o for) com as máquinas quânticas por vir. Diferente da solidão inarredável por se entender que -em última instância- estamos sós de fato e direito. Desde o início. E essa é feita de silêncio, susto. Nos sintomas humanos constitui a morada da angústia.
Freud, para sua didática, estabelecia uma dupla face desse angústia. Haveria um mecanismo de automatismo, mediante a força pulsional em direção ao muito além do que o desejo deseja,e que não há, e um traço, um sinal composto, formado, por essa formação-sensível que é da ordem de um desamparo absoluto. Ele denominava à sua época de sinal de angústia. No primeiro caso, estamos na possibilidade de escutarmos e considerarmos os dessa espécie semelhante nas suas singularidades, nas suas gramáticas pessoais. Temos companhia possível. No segunda face, e que engendra o automatismo do primeiro mencionado, a companhia já se foi desde sempre, pois nunca houve de fato. Somos pares porque únicos nessa singular viagem até o lugar sem papo possível. Só no retorno, porque não tem outra saída. Essa é a 'saída' de emergência possível. É sempre por dentro. Essa forma de vínculo é o que a Novamente, a Nova Psicanálise, chama de vínculo absoluto. Não há papo ali, mas estamos juntos na solidão.
 Millôr Fernandes, vizinho nobre, aristocrático na vida, declarou entender bem disso, isto é, dessa solidão do tamanho do haver, desde os onze anos de idade. Perdera os pais por essa época. Começou sua guerra pela sobrevivência. E ganhamos todos. Millôr foi um ótimo exemplo de uma posição anti-neurose, pois não fez dessa dor uma arma para se vitimizar. Ele não se perguntou o porquê e tampouco permaneceu tentando responsabilizar o mundo e  outrem pela sua saga. Ele prosseguiu com brilhantes. E é curioso que essa sensação única, singular de terror, de fim, para Pessoas ( meninos, meninas), está sempre reportada à idéia de perda. Quando na verdade a tal perda, essa ausência, esse desaparecimento, é uma metáfora possível de um excessivo querer eterno...Que não cessa em buscar - parece até adolescente com suas bebidas energéticas à procura do tesão indelével- uma configuração, uma formação, que não é desenhável, inscritível, comível. O que se inscreve constantemente é esse querer. Então é mais do que inteligível que um desaparecimento de uma formação, sobretudo uma Pessoa que nos seja muito cara ( e ela não nos salvou e nem indicou o caminho) provoque tanta afetação. Quase uma amputação. Aquilo se desprendeu daquele cidadão/ã por onde saem frases, gestos, ruídos, quereres. Estava colado.
Inconformados - o que pode ser ótimo, pois haverá guerra possível-, indaga-se sobre a possibilidade de se vislumbrar uma possível fronteira entre essa que sumiu e a que permanece. E quem ou o quê pode restar? Ambas. Existe memória, trauma. Existe o inconsciente. Os fatos são fixados, recalcados, e não se pode apagá-los como se não houvesse tido. Desliza-se, substitui-se, esquece-se, inventa-se. Caso contrário, como que a história dessa nossa gente teria se dado? Atravessaria milênios? Haveria futuro?
As crianças nas salas de aula devem se perguntar, espantar-se e serem espantadas. O seu mundo inclui um repertório que alguns adultos velhos acreditam ser menor, mais pobre. Por quê? São mais pobres em certos setores - até pela ignorância sobre tantos saberes pregressos ( iguais a todo mundo portanto)-, porém mais ricos em outras regiões constituindo assim fatos contemporâneos que os constituem por conseguinte. Devido à velocidade das novas tecnologias, as pessoas-crianças têm uma rede de conhecimentos, próteses possíveis, bem mais ampla do que tinham o Dr. Freud, Copérnico, Galileu, Giordano Bruno, Homero e muitos outros que também estão na lista de imortalidade dos positivistas.
Suas pequeninas mãos escrevem com barulhinhos de teclar teclados, teclar afetos. Observam materialidades virtuais em telas computacionais. Uma onomatopéia contemporânea mesclada com outros sons de todas as épocas. Ao mesmo tempo? Seria possível? Fantasia? Realidade?
 Uma nova forma de fazer ciência. Produção de conhecimento, sim. E tão delirante quanto o texto que lhe pretende ofertar significações, suposições. Seria possível uma gramática desconsiderando a semântica? Sonho lindo, logo um belo delírio, de um Chomsky pensante.Um outro pensador de brilhantes. Vive lá nas Américas ao Norte.
 São pianistas do futuro. E o futuro já era.