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terça-feira, 6 de julho de 2010

O que se ergue na Copa do Mundo

Certa vez, faz mais ou menos 20 anos, Afonso Romano ,nosso escritor, escrevera sobre a queda do Muro de Berlim. Ele começara seu texto perguntando a si sobre o que se erguia,nele, com a queda do tal muro.
Eu gostei tanto daquele início, 20 anos se passaram!, que resolvi me perguntar sobre o que se ergue em mim com a derrota recente da pátria de chuteiras?
Primeiramente, a estupidez que se repete.Mesmo que aprecie o tal do esporte bretão , sabe-se da farsa. O futebol, e já digo isso faz tempo, pereceu.Hoje, assim como outros assuntos, o tal "atleta" de ponta está mais para vedete, Top´Model", etc. Apenas enquanto exemplaridade,se alguém tiver saco para folhear a revista Carta Capital da semana de 28/06 a 2/07/2010, vai entender um pouco mais do horror que compoem os bastidores dos "grandes eventos", e o porquê de um certo desânimo que também emerge.
Repetem-se gerações e as tolices se eternizam. Já torci contra;já torci para não se classificar , a tal seleção canarinho, afim de presenciar algo realmente novo,mas quando começa a fase decisiva , e que chamamos carinhosamente de mata-mata, não resisto. As minhas sobredeterminações,as minhas historinhas, os meus tesões sintomatizados desde sempre,minhas muitas frustrações,algumas conquistas, erguem-se também.
Pertenço a uma geração que não entrou em nenhuma guerra para valer.Venho de uma família da média-alta burguesia brasileira, Zona Sul do Rio de Janeiro,beira de praia com um banquinho à beira mar ,contemplando aquela que passa ,coisa mais linda....
Minha geração ,na verdade,foi uma bela merda.
Ainda bem que presenciei ,pelo menos no palco das chuteiras,um Rivelino,Um Zico, Um Maradona, Um Clodoaldo,Um Jairzinho,...Seria pior se tivesse somente presenciado Felipões e Gilbertos Dungas DA Siva ou trogloditas Felipes MELOS.
Nelson escrevera sobre a pátria de chuteiras.Ele tinha razão e é assustador. Se bem que em se tratando da nossa "pátria amada idolatrada" não dá para não suspeitar minimamente dessa ataque histérico.
O que se ergue pra valer?Que movimento é esse que finge engajamento,que finge união , que finge a inclusão de todos?
Nada mais do que um carnaval prolongado,um carnaval de quatro em quatro ,fora de época, um carnaval de inverno com todos os apedrejamentos e sacralizações que a doença religiosa consagrou e que parece não ter fim.Ao menos abaixo da linha do Equador.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A virgem louca

Então Rimbaud dizia que Verlaine era uma virgem louca ,e eles desfrutaram certas maravilhas ,assim como muita miséria.
Rimbaud desistiu de escrever aos 19 anos e morreu aos 37.Verlaine viveu mais.Tudo isso naquele iluminismo todo do século XIX.
A poesia ,aliás a literatura quase toda ,parece que foi dizimada.Enfiaram Paulo Coelho e suas tolices e crendices na Academia em troca de vantagens para todos.E tem ainda o Sarney,o sei lá quem mais....
Vocês realmente acham que uM Proust ou um Euclides Da Cunha conseguiriam sobreviver de literatura ,hoje em dia?
O que importa é que o molecote do Rimbaud dizia as coisas sem denegá-las.E chamou Verlaine de virgem amalucada.Entretanto,tratava-se de um/uma amalucada brilhante. Se Rimbaud tivesse conhecido uma tia minha,que ainda vive, veria que há coisa muito pior.E já que podemos perder tempo....
Além de virgem a infeliz perdeu o juízo desde sempre.E não foi aquela maluquice lúcida ,produtiva,enriquecedora e desveladora de muita coisa,logo,monstruosa.Não.Essa é daquelas que só causam estragos e transpira odor de boçalidades.
A tal infeliz fugira de casa para ser freira.Então,como boa tarada não suportou a concorrência e se mandou de volta para casa do papai.Lá,não esquentou lugar e sumiu de novo.Dessa vez decidida a tornar-se educadora!Vejam o tamanho do crime.Desde quando alguém assim ,com todos esses sentimentos presos, pode orientar uma criança?!Aliás, nunca conheci alguém mais mal educada.Não sabia resolver minimamente com ela ,quanto mais com os outros. Que guia pode ser alguém cujo caminho não sabe encontrar sozinho?
Lembro-me do dia que a desmascarei.É óbvio que por trás daquela persona havia muitas outras,igual a todos nós, mas a peguei em quase gozo explícito ao ver uma cena romântica na televisão. O casal se beijava e ela aos berros chamando-os de vagabundos!!!Eu ainda tentei argumentar que eles eram aquelas figuras que colocam em ato certos personagens.São os chamados atores.Ela, contudo ,e mais um pouco, não acatou a dica e prosseguiu vociferando de "Vagabundos e Promíscuos" todos os beijoqueiros que ousassem passar à sua frente.Virtuais ou não, tanto fazia.Talvez fossem patifes que ousavam exibir o que ela insistia em esconder.
Desconfiei daquele ódio todo e pesquisei sobre aquela senhora.
Vidinha medíocre- assim como a minha e a de muitos - e um ressentimento terrível. Perdera a mãe no parto,ou seja, ela nasceu e a mãe não aguentou o tranco cirúrgico.Tempos depois ,no meio de outras cinco irmãs ,sendo ela a caçula,prometeram-lhe marido .Era costume na minha família oferecer, feito prenda, a moça virgem disponível, a um dito bom partido.Ela portanto se enamorou de um tal partido bom ,mas ele a tempo se mandou.Sumiu.Jamais se soube o paradeiro do felizardo.
A última vez que troquei alguma palavra que preste com essa figuraça foi num carnaval carioca,cerca de uns nove,dez anos atrás.
O carnaval no Rio ainda era bom,civilizado.E aquela cena colada na retina..
Saindo da praia,calor africano a torrar o cerebelo,vislumbro um bloco a desfilar pelas ruas do meu bairro.Bloco cujo singelo nome é " Que merda é eça".
Vestia uma camisa da tal agremiação,que trazia estampada a imagem do Cristo Redentor, despejando detritos numa privada ,e quem puxava a cordinha da mesma era o então Presidente Fernando Henrique Cardoso.Sacudindo os braços feito virgem louca,já septuagenária,despejando de tudo, estava a tal senhora parenta,acompanhada de mais duas irmãs em estado de choque.Atravessavam aquele cortejo de surtos ,numa tarde límpida de um verão carnavalesco carioca."What's the shit is that" - teria indagado um turista de Portugal.
Parece que fiz um certo escândalo,talvez porque o bloco estivesse fora do Tom.A tal amalucada,contudo, retornou pra casa reclamando.E eu lhe fiz a derradeira pergunta :E os beijos dos casais apaixonados ,suados,excitados.E as mocinhas molhadinhas ,melhor dizendo, sujas de areia?"Silêncio.
Foi talvez o melhor momento da virgem louca dos trópicos.Ao menos para mim.

terça-feira, 1 de junho de 2010

COPACABANA,JUNHO 2010.

Tenho uma empatia visceral por Copacabana. Jamais morei em Copa ,mas tenho amigos queridos que por lá vivem uma vida inteira.
Hoje chove e faz frio no Rio de Janeiro.Razão suficiente para que se mude de lado, rotina alterada. Imaginem que há gente que não gosta,preferindo o calor africano de 50 graus.Caríssimos, temperaturas como a de agora, em torno dos 19,18 graus é temperatura para pessoas civilizadas!
Andando nas ruas do também Hospício Copacabana , o ritmo é cadenciado.Pude até contar as buzinadas que não ouvi.Há um silêncio de corpo encolhido ,pois acolhido está.
Há muita gente feia também,gente maltratada.Copacabana mais parece O inconsciente freudiano ( e Freud havia feito comparação com Roma ,onde vislumbrava-se o Coliseu e suas célebres abóbadas e arcos com anéis concêntricos e um prédio com traços modernos, nas imediações) com suas possibilidades múltiplas. Na praia, vemos alguns edifícios maravilhosos ,não só do ponto de vista arquitetônico, quanto na riqueza dos adereços,espaço imenso, etc, e o cortiço ao redor.Gente idosa , a maior população de idosos do Brasil, e meninas e meninos tentadores.Uma boemia singular e um reacionarismo eclesiástico.O Hotel mais famoso do país , O próprio Glamour Guinleriano ,O COPA PALACE, e os puteiros a céu aberto.
Recentemente, um famoso puteiro .à beira da praia, foi despejado: excesso de putas e inveja do Estado.Vão colocar ali um museu....de música.Museu de música! Que diabo é isso?Por que não um museu de raparigas?!
Um taxista,achando-se bem informado, contou-me que o terreno do ex-bordel ,agora museu, pertence à igreja.Nada mais pertinente.A escritura nem precisou afirmar :usofruto.
As mocinhas despudoradas migraram para outros bairros.Vez ou outra as vejo aqui por perto de casa.Noutro dia,no bairro Manoel Carlos, apelidado de Leblon, o centímetro quadrado mais caro do Universo eterno, uma delas se ofereceu por 50 reais. O cliente recusou porque estava sem trocado.Além do quê ,tinha saído da missa ,fazia pouco tempo.Sabem como é....pecado....essas aventuras outras!
Olhei de lado para o local onde durante 5 meses tentamos salvar a minha mãe.Fica ali,escondidinho na Siqueira Campos,o tal Copa Medical Center. Siqueira Campos,um militar arretado que participou da revolta tenentista,foi político ousado.Quem sabe esse destemor não inspirava aqueles medicamentos quimioterápicos todos a destruir as células mortais que consumiam o corpo elegante da minha mãe.
Funcionou por 5 longos,intermináveis meses.Era o fim de 2005 ,início de 2006.
A lanchonete simplória da esquina,aonde transitei breves momentos de alívio ,durante as horas em que permanecíamos naquele centro de tortura,morreu também.Lá,somente restou uma parede azul contrastando com o cinza do céu e a saudade que não me deixa ,nessa tarde de Junho, de um ano a menos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Prosseguir e a folha em branco

A folha em branco é um problema ou uma solução?
Se tivermos a ambição de dissolver uma língua , essa angústia será permanente ,mas se atingirmos o alvo damos enorme passo à frente.
Imaginem então o incômodo de um Joyce - que jamais consegui ler tudo - ou um Guimarães Rosa ou um Euclides e a sua engenharia singular ao iniciarem movimento de dissolução , de revirão da língua nas suas produções?
Há uma burrice que diz: "Ainda mais naquela época"!Não tem época.Em qualquer tempo essas decisões são terríveis.Hoje,por exemplo, o que escrever? Depois de percorrer certos autores ,o que é que sobra para ser feito? Uma nova obra,uma nova produção. Esse é o lugar pra valer da poesia .
O duro,na verdade duríssimo, é que quase sempre não conseguimos.São muito raros os atos poéticos . Não é simplesmente um verso,uma frase ou sentença. É atitude, é poder deslocar os nossos saberes já constituídos, através de uma vida, e que inclui de tudo: família,país, hábitos, herança genética, epigenética, essa pletora de elementos que diz o modo de existir dessa nossa espécie esquisita ,mas interessante, e que se chama ,segundo definição conceitual de MD.Magno, cultura.
Hojendia , a dificuldade maior que tenho é para escrever algo relativo ao meu trabalho.Algo consistente e que não seja um copiar e colar tão frequente nos artigos que lemos por aí. Já tive nas mãos teses de doutorado que mais pareciam recortes dos livros de autores célebres.Não havia nada ou quase nada daquelas pessoas que defendiam supostamente uma tese delas e que fora baseada em certos autores.....O que mais vemos são comentadores. E alguns comentam mal.E comenta-se mal porque ou introjeta-se , veste-se o troço ou o resultado é falso.Textos teóricos normalmente são enfadonhos porque não há um estilo reconhecível. É o comentário do comentário frequentemente. Péssimo hábito provocado por deficiência na formação escolar,visto que a escrita sempre foi maltratada por esses cantos.
A folha em branco faz a gente ao menos reclamar e reconhecer as nossas limitações.E quem pode prossiga....

terça-feira, 18 de maio de 2010

Meninos e meninas

Meninos são assim. VÃO a jogos de bola supondo estar em campos de batalha.Uma batalha bem suave ,pois bombas na cabeça são bem mais mortais.E aquilo tudo é uma grande bobagem ,mas é a minha bobagem única.
Existem marcas que parecem não desaparecer nunca.Realmente ,o troço se transforma numa lesão.
Projetar sintomas próprios nos gramados alheios é de uma burrice extrema.E é o que mais ocorre. Denegamos a inteligência alheia o tempo todo, e segundo o meu mestre ,essa é uma das estratégias mais utilizadas para não se fazer análise,quando se está em análise.Estar em análise é se dar conta de que as férias tão almejadas é mero descanso provisório. Ninguém escapa das compulsões pulsionais,ou melhor, do nosso tesão nuclear,de base.
E os meninos vão aos campos dar ataques,independente das tensões hormonais.
Já as meninas sofrem de ataques mais frequentes. A complexidade hormonal delas é bem maior.Basta observá-las nos campos,isto é, nos Shoppings,nas festas, ao se vestir- para as outras,por certo-, etc,etc.
É uma doença divertida,às vezes poética, às vezes estúpida, essa transa de meninos e meninas.Quem sabe quando houver uma nova formação não carbono , a dança mude de ritmo?O inciso será outro.Ou então já rebola por aí e "nosotros" não enxergamos.
O Maraca,palco das minhas infãncias que perduram, está meio desbotado.Falta poesia por lá.Para quem não gosta, garanto que já houve artista por lá.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Acreditar pra quê?!

Vulcões que cospem ódio e interrompem o passeio das aves metálicas a jato; a biruta da Terra que desandou a tremer feito adolescente apaixonado/a; lágrimas que inundam as ruas e desmoronam as miseráveis residências à beira de mais um suicídio .E assim contiuamos.
Parece que as referências são outras e nós ainda não nos demos conta ou pelo menos fingimos que não vimos o que já foi visto: denegação.
A cabeça século 19,século 20 que nos habita,'newtoniana ' por excelência ,religiosa, mas sem se assumir, torna-se obsoleta para os tempos vindouros. Família,por exemplo, tem a mesma configuração?Trabalho?Mas qual? Empresa?
A vocação atectônica da nossa espécie, o nosso gozo múltiplo,qualquer,indiferente,pois é o mais interesseiro dos interessados, exige nova configuração.
Agora mesmo um colega da minha mulher me pediu para escrever "uma coisinha" sobre Patologia, Psicose, Psicopatias, para um grupo de alunos do ensino ,no meu tempo, ginasial.
Recomendei-lhe então um livro de Psicopatologia e Semiologia de um sujeito de Campinas que tenta - dentro da estupidez dos códigos psiquiátricos - estabelecer algum raciocínio mais pertinente do que esses códigos mencionados que mais se assemelham a um lista de impropérios , repleto de casuísticas.
Não adianta -apesar que o sonho da Nova Psicanálise é tornar-se minimalista ao extremo sem ser reducionista,ou seja , sem perder o rigor na abordagem- querer estabelecer distinções importantes como essas que envolvem as chamadas formações ditas comportamentais a partir da história da psicanálise de uma forma rapidinha.A Psicanálise é para degustar.É algo sofisticado, visto que não é um fast food. Ela é processo costante de reflexão.E é difícil o seu exercício.Muito difícil.Ela é realista,já que exige o impossível.
Saindo de casa,acreditando na lua cheia - talvez de saco cheio- que o locutor televisivo apresentava no vídeo da televisão, deparei-me com o seu oposto: um temporal daqueles.
O mar revolto e o vento forte a me acompanhar.
Sempre desconfiei de alguns locutores e o seu entusiamo cego,apaixonado.Você indica a lua e sua luminosidade e ele só contempla as sombras e o dedo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cinquenta anos,Capital!

Brasília completou 50 anos .Poucos, talvez, ainda permaneçam incrédulos ,mas a capital do país fica no planalto central,Estado de Goiás,no meio do mundo.
Foi sonhada numa das nossas constituições e reclamada por um homem em comício presidencial. JK, que também era marca de automóvel, ouviu a prece e cumpriu a promessa.
Construída em tempo recorde , o delírio-maravilha de Lúcio e Oscar ganhou quadras,catetinhos palacianos ,lago artificial ,monumentos.Cinquenta anos em cinco era lema Jusceliniano.
Enquanto carioca -apaixonado-bairrista (isso tudo é substantivo superlativo),mas com vergonha na cara, espiei Brasília aos 10 anos de idade quando para lá me mudei com a família,nos anos 70. O Plano Piloto que abarca as asas Sul e Norte ,seu Lago imponente, a região central e outros tais, não estava completa. As super-quadras do final da Asa Sul não tinham comércio e endereços como 114 Norte ,por exemplo, só existiam nos projetos de então. Olhei Brasília e fiquei perplexo! Primeiro porque me roubaram o oceano. E ele me era caro,pois ali me banhava desde sempre.Aquela brisa Bossa-Novista de Ipanema se encarregava da sonoplastia.E eu a tinha perdido.Por quanto tempo? E os meus coqueiros?E o Meu Maracanã? E a minha região serrana vizinha?E os meus prezados amigos de recreio escolar?" Menino!? O que você mais gosta de fazer na escola"? - perguntava alguém que não sabe conversar com criança. E eu lhe respondia sem fingimentos: "Fazer bagunça".E a minha bagunça?Subiu o planalto?
Acostumado a não dizer a verdade quando o tema provocava polêmica e discussão,meu pai fez o que costumava fazer :mentir um pouquinho.
- Acredito que ficaremos uns quatro anos.
Depois de oito anos ,pulei fora de volta para minha pátria ....mas aí é outra história.
O que importa aqui é que a perplexidade permanece na minha retina e suas recordações seletivas.
Aqueles prédios horizontais de 6 andares e as tais quadras que me lembravam casernas camufladas foram um choque estético.Achei tudo um horror,exceto o apartamento a ser habitado que era - e ainda é - ótimo.Grande,bem dividido,um belo jardim à frente,tudo novinho.Acho até que a minha família reside mais num apartamento do que na cidade.Parece que o tal imóvel é algo transcendente á cidade.
O certo é que havia até uma empregada loirinha,magrinha,educada. Pensei: Brasília é igual a Suécia?AH! Havia também um amigo que me aguardava na garagem. Foi um dos gestos mais generosos que recebi .Lá estava o vizinho que morava no andar abaixo, nascido em Curitiba,criado em Recife,morador do Centro-Oeste.Era uma babel. Na garagem,somente um ou dois carros portavam orgulhosos placas com o nome da cidade-capital.Os demais eram todos oriundos do Rio,São Paulo, Minas Gerais, Paraná e até da cidade de Manaus existia.
Sorrindo,convidou-me para jogar bola,mas educadamente recusei.Estava em choque. A desculpa no entanto foi o cansaço da viagem.Viagem esta que for feita em dois dias com um carro-herói abarrotado de tralhas e saudades. Uma prima fora conosco e nos entretinha com truques da nova dúvida que brotava em sua mente : comunicar-se com os mortos.Tinha até um copinho ,uma mesinha ,um violão....
Levou algum tempo até que eu me adaptasse àquela geografia inusitada.
O primeiro passeio foi a uma loja imponente que lembrava a falecida e cosmopolita Sears.O trajeto em zigue -zague de SQSs e balões -aqueles círculos enormes que funcionam como sinalização para os carros contornarem ,dobrar à esquerda ou direita, etc- foi feito em tempo demorado já que o pai não sabia dirigir tão bem pela nova cidade-adolescente ,à época com 15 anos.
Brasília cresceu e perdeu mais do que adquiriu.Nesses tempos iniciais as casas do seu vistoso Lago Paranoá tinham cercas vivas.Não se via grades,muros altos. Parecia cenário de filme norte-americano. As garagens dos blocos ,que é como se chamam os edifícios, mantinham destemidamente seus portões abertos. A brincadeira moleque era invadir as garagens vizinhas,sobretudo as garagens militares, comandando um bando de guris e suas bicicletas.
Bicicleta mundo afora,bola de gude, estilingue,subir em árvore,ficar todo sujo daquele barro mais que vermelho eram atividades regulares e novidades para um garoto de cidade grande. Isso foi impagável.Assim como dirigir sem habilitação , aos 15,16 anos . a fim de se exibir para os amores sonhados."Ei JK? E aquela menina-morena-cor de Goiás pode ser minha'? Como pode um peixe vivo..
O primeiro pileque, a primeira transa....
O Planalto deixou marcas ,além do pôr do sol único.
Ano após ano,nesses últimos 26 do meu retorno à pátria +ou - gentil ,retorno a Brasília para rever parentes ,alguns amigos e me desiludir com essa outra cidade. A Brasília que teve encantamento para mim ,descobertas,mudanças ,infelizmente,morreu. Hoje , tornou-se uma grande cidade - mais de 1 milhão de veículos, com direito a todos os horrores que um sanatório desse porte possui. A celebração que houve ,nesse 21 de Abril de 2010, foi patética para quem não é sonâmbulo o tempo todo. A cidade modelo atravessa a pior crise política de sua história tão recente.
Define-se um grileiro como alguém que se apossa de um terreno,de um pedaço de terra com documentos de posse forjados,escrituras de propriedades falsas.
Na capital cinquentona,o que não deve ter sido muito diferente em outras cidades desse país, a grilagem é instrumento de campanha política e exercício de poder oficial. Daí , a sua gradual destruição.
A quem culpe o surgimento de Brasília, nova capital do país, pelo esvaziamento político-econômico do Rio de Janeiro,antiga capital. Creio que foi um fato importante ,mas nenhum candango foi responsável pelas eleições de algumas figuras desprezíveis para o comando da política fluminense.Foram duas décadas de desmando no nosso oceano.Com a nossa cínica conivência.
E o cerrado sonhado vai perecendo. Haja galho de arruda.