Há pouco mais de 10 anos, invadimos um edifício residencial de Copacabana. Entramos por uma sala escura. Grande coisa, teria pensado um leitor impaciente. Daqueles que conseguem agir pior do que censores. Uns ressentidos com faca nos dentes à espera da destruição. Mas por estar no plural e bem acompanhado, a curiosidade se amplia. Nesse caso, seria uma implosão.
O edifício fica numa rua bastante movimentada de Copacabana. Talvez o bairro mais famoso do país no exterior. Aqui, no Rio, entre os nossos conterrâneos, se não fosse o evento espetaculoso de réveillon e seus buscapés iluminados, a princesinha do mar, como fora agraciada, não goza há tempos de muito prestígio. Sustenta-se na fama de um hotel palaciano, de uma praia linda, nas curvas travessas do escritório praiano de Niemeyer, das putas que se escondem embaixo dos postes da principal avenida, do sanduíche com status de restaurante fino nas mesmas imediações das putas, dos seus outros puteiros, do Bairro Peixoto que mais parece uma cidade do interior e seus idosos jogadores de damas, dos craques bronzeados de charme a jogar bola no seu gramado pintado de areia, enfim, Copacabana. Um lugar singular. Podemos então afirmar: CopaBacana é do cacete!
E foi com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão- herança de um Glauber- que o paulistano Eduardo Coutinho, recém falecido diretor de cinema brasileiro- portanto um herói nacional- fez-se anfitrião e convidou a todos os que estivessem dispostos a invadir juntos o tal edifício residencial veterano, Master, habitado por uma classe média sem grana, decadente, e não menos heroica.
Eduardo se consagrou como um dos principais documentaristas mundiais e recentemente fora nomeado pelo comitê de jurados lá da Academia que entrega o prêmio que tem nome de gente, Oscar, para fazer parte do time. Uma honra para quem só ficou conhecido por uma parcela maior de espectadores a partir do seu corajoso e brilhante " Cabra marcado para morrer", 1984, iniciado 20 anos antes, mas censurado pela turma que com facas afiadíssimas nos dentes arrebentou com o país por 30 anos.
Através da sala escura, a invasão tem início pelo elevador social- alguém faz questão de titular assim- juntamente com o cineasta, a sua rouquidão de voz inconfundível e sua diligente equipe. Ah, os elevadores! Essas dores que sobem e descem forçando intimidades. Aquela proximidade de corpos vizinhos e que mal se conhecem. Uma saudação quando se chega e uma outra quando se vai. Olá, bom dia, boa noite, boa tarde, como vai ( essa já traz assanhamento por intimidades a mais) . Adeus ( a quem corrija para Há- Deus) e por aí prossegue o vai e vem, o sobe e desce sexual de uma vida elevador. Há também os catequéticos que afirmam suas vontades: ' Que dia lindo, não? ' Não. Não acho nenhum dia lindo, lindo. Goethe poetizara que dias lindos são o que há de mais enfadonho. Ao menos uma sucessão deles podem nos deixar um bocadinho mais entristecidos.
Percebe-se a difícil tarefa que alguém que decide por penetrar edifícios, residências e vidas outras terá pela frente.
Ele perpassou por vários andares e vidas. Desde a religiosa pudica - há quem acredite- cruzando com mocinha que faz programas ( seria ela uma grande investidora dos mercados financeiros?) e que lhe diz através da mais verdadeira confissão que mentia muito. " Sou uma mentirosa verdadeira". Uma delícia isso.
Havia outros personagens- seus principais atores e atrizes- que marcaram essa visita atrevida. Um oficial aposentado que conhecera e cantarolara com Frank Sinatra quando morou nos Estados Unidos. Um ex-jogador - que vi atuar pelo Flamengo no fim dos anos 70- Luís Paulo e que conta uma história que nos remete ao cinismo calhorda da cultura brazuca. O cidadão era técnico do time de Itaperuna - cidade situada ao norte do Estado do Rio e terra de uma ex-governatriz que traz péssimas recordações- e fazia um excelente trabalho. Numa batalha dos gramados contra o poderoso clube de cepa portuguesa do Rio de Janeiro - cujo presidente à época contava com grande prestígio político no ramo futebolístico- o árbitro do jogo resolveu prestar uma ajuda ao grande clube que carrega o nome do navegador português, não menos grandioso. Roubou à vontade. Não se intimidou com as câmeras de televisão, rádios e as testemunhas presentes. Foi então que Luís Paulo e seu bigode invadiram- tema proposto- o campo de jogo. Tentou argumentar com o árbitro. " O senhor é um bom homem, mas está exagerando". O juiz não lhe deu ouvidos. Diante do fato perdido, arriou as calças e exibiu o que Gerald Thomas- diretor de teatro importante- fizera num teatro carioca numa montagem de Wagner: exibiu a Isolda branquinha. Também conhecida como bunda. Dizem que o diretor de teatro prometera para sessão seguinte - caso a plateia continuasse a lhe ofertar vaias após o espetáculo- exibir o Tristão. Não sabemos se a promessa foi cumprida por Thomas, mas o então técnico de time de bola teve a carreira praticamente encerrada. Uma bunda e nada mais. Na terra, no Estado, onde exibicionismo de corpos, da casca, ditam futuros ou enterros, o cidadão ficou seminu ( a bunda talvez tivesse muitas celulites para exibição no horário nobre) diante do descaramento pelo abuso da perversidade de quem pode exercer certas leis, e foi linchado por isso.
Fernando José, ator presente em várias produções de cinema e televisão nos anos 70/80, reside no edifício Master. Carreira interrompida por um contra-regra que preparara de forma errada um revólver para uma cena violenta de um filme policial. Uma trama baseada no assassinato de Claudia Lessin Rodrigues, ocorrido em 1977 na casa de milionário de origem suiça, e que a faca nos dentes e seu regime censurou também. Arrebentou-lhe os tímpanos, o tal revólver cenográfico do mal. Quanto a Claudia- irmã de uma ex-garota de Ipanema e atriz- morreu estrangulada por dois vagabundos num rico apartamento da zona sul da cidade. O julgamento dos canalhas é uma das maiores vergonhas dos tribunais do país. E dizem que o Paraguai tem - ou pelo menos teve algum dia- ministro da marinha, sem oceano por perto, a cuidar.
Quando a visita ao condomínio termina, o condomínio desnudado por Eduardo Coutinho, nossas vidas estão um pouco mais miseráveis, e cheias de brilho. Cada um dos invadidos se tornara protagonista de uma vida que pode ser qualquer uma. Aquele edifício podia ser o mundo todo.
Dentro da sala escura, um labirinto de sonhos, quem é que não tem medo na vida?
Tem um bicho papão por aqui, papai. Atrás do armário, suspeito. Talvez em qualquer canto onde uma câmera e uma ideia possam documentar.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Polilas de outrora.
Não se fazem mais bailarinos Polilas como antigamente. Lembram dele? Já falecido, dizia ter visto o ainda sobrevivente General Newton 'Gentileza' Cruz - ex-chefe do SNI e de quem tenho lágrimas feitas de recordações pelo gás lacrimogêneo que jogou na nossa cara mais uns adoráveis pastores alemães não desdentados por causa de uma simples briga entre meninos metidos a valentes - numa Copa do Mundo em 1982, num lugar em que passei alguns momentos quando morei em Brasília- , na cena do crime do jornalista ( acho que ele estava na revista Cruzeiro) Baumgarten. As afirmações e descrições que Polila, também chamado de Jiló, fez da cena do crime, das roupas, do gestual e outros quesitos do samba enredo quase enquadraram o General. O seu advogado de defesa- o mesmo que defendera a atriz Dorinha Durval- disse que fora o caso mais difícil de reverter em sua carreira até então. Só conseguiu com o auxílio de profissionais da área de saúde mental. O tal Polila era completamente paranoico. E numa boa parana as maluquices são muito bem articuladas, sistematizadas, perseguidas - parecidas com as nossas- só que mais competentes. Tem que saber escutar para não ficar tão parecido.
Digamos que Polila voltou à cena do crime, no centro do Rio. E vai dizer assim: 'Estou certo que não foi o cinegrafista Santiago que cometeu o crime, até porque ele estava de costas". Mas também- como alerta a minha prezada colega , Patrícia Netto, NÃO CAIO NESSA. E não nos esqueçamos que Baumgarten trocara de lado e passara a chantagear a quem serviu por um bom tempo. Tudo isso no início dos anos 80, reflexo dos 70s. Althusser- filósofo também falecido , francês da Argélia, e que não foi visto por Jiló estrangulando a sua amada Hélène- estava certo ao dizer que o futuro dura muito tempo.
Lamento informar que a campanha eleitoral já começou. Do pior jeito. E o pleito- ou seria PEIDO?- só rola em Outubro. E a máquina oficial e a oposição sofrendo dos labirintos. Daqueles que deixam todos tontos.
Digamos que Polila voltou à cena do crime, no centro do Rio. E vai dizer assim: 'Estou certo que não foi o cinegrafista Santiago que cometeu o crime, até porque ele estava de costas". Mas também- como alerta a minha prezada colega , Patrícia Netto, NÃO CAIO NESSA. E não nos esqueçamos que Baumgarten trocara de lado e passara a chantagear a quem serviu por um bom tempo. Tudo isso no início dos anos 80, reflexo dos 70s. Althusser- filósofo também falecido , francês da Argélia, e que não foi visto por Jiló estrangulando a sua amada Hélène- estava certo ao dizer que o futuro dura muito tempo.
Lamento informar que a campanha eleitoral já começou. Do pior jeito. E o pleito- ou seria PEIDO?- só rola em Outubro. E a máquina oficial e a oposição sofrendo dos labirintos. Daqueles que deixam todos tontos.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Gerações que se articulam- Leblon 60 anos.
Numa festa entre amigos de longa data, o jovem pergunta ao mais velho: " Quer dizer que o senhor ( o que deve ter provocado certa reação de espanto por parte do inconformado idoso) vive há 60 anos no Leblon?" A resposta foi afirmativa e seguirá com todos os detalhes que somente o autor da resposta pode decidir se ocorreram de fato ou não.
Discorre sobre as delícias experimentadas no bairro, hoje badalado por programas televisivos, contando inúmeras vantagens a seu favor. Característica insuperável. Nem mesmo o tempo, o passar de histórias e movimento dos fatos, faz diminuir a vaidade soberana.
Quando parecia encerrar a sua descrição, uma narrativa permeada por intervalos estratégicos a seduzir ouvintes presentes desse período de outrora, uma pausa se faz na fala entusiasmada. Olha ao redor, checando se havia aumento na audiência, e indaga novamente:
- Mas você me fez uma outra pergunta?
-Não, senhor. Quero dizer...Indaguei a você se naquele tempo, onde a cozinheira da casa, que ficava na esquina da Avenida que leva o nome de um ex-presidente do Brasil, chamava a ti e aos seus irmãos para o almoço, balançando um pequeno sino que carregava nas mãos, não era melhor do que hojendía. Viver aqui, quero dizer. E vocês ainda por cima escutavam o badalar da sineta! Apesar de todo o alvoroço da pelada da hora do almoço! Não havia xingamentos entre irmãos? Senhor juiz, o senhor errou. Era assim o trato.
- Xingávamos menos. O futebol era mais cadenciado. Até mesmo na areia quente da praia. Tratava-se melhor a bola. E não havia juiz. Quem apitava o jogo éramos nós. Ali, segundo um futuro parente meu e chegado a ateísmos, isso exemplificaria o vitalismo de um senhor alemão conhecido como Nietzsche que proclamava a morte de Deus! A gente resolvia. Ausência de Estado? Anarquia? Sem polícia? Noutro dia, uma policial , estudante universitária, recebeu um balaço pelas costas. Trinta e poucos anos. Segundo a mãe, sexagenária, nenhuma ONG ou parlamentar ou estudante cheio de energias enviou alguma mensagem de consideração e tampouco evocaram os diretos humanos. Não são humanos, a maioria ou alguns, da polícia? Não são humanos todos os que compõem o Estado? São humanos os direitos humanos? Todos nascem iguais... Não creio nisso. Mas se um dia fôssemos mais legais, resolveríamos entre nós. Parece sonho, não é? Por isso creio em Deus. Ele arbitrariamente decidirá no fim.
- Mas não há transa?
- Sim, ele arbitra. Pode rever estatutos postos, consagrados.
- Quem não crê nisso agora sou eu. Acho meio fascista esse arbítrio todo advindo de seres fantasmagóricos Muito poder para uma criatura só. Parece até a presidência da república brasileira. Temos a impressão que vivemos numa Monarquia Absolutista com um parlamento de mentirinhas. E o resto da turma- coitadinha- não tem livre arbítrio algum. Surgiu, depois desse pensador alemão que citastes, um outro que afirma que a gente há onde não havemos. É uma tal de inconsciência. Veio da Áustria o pensante.
- Respeito a sua posição, mas não concordo. Tentei até catequizar esse futuro parente, mas não deu. Aliás, a estratégia foi equivocada. Mas certo dia, voltando aos assuntos mundanos, uma falta controversa na pelada da praia, gerou muitos protestos, quase manifestações. Já que não surgiu nenhuma solução, o jogo foi adiado. Retornamos dois depois, após um papo no bar que, obviamente, não existe mais.
- Por que o obviamente nesse quesito existência?
- Não respeitamos tradições nossas. Por isso que não andamos muito para frente. Fica-se feito tartaruga e sua casca dura. Apenas sobrevive-se mais ou menos ao calorão. E hoje. vive-se mais a estética, a ética, a política da casca. A fotogenia impõe modos de existência nas cidades tropicais. E as televisões daqui, não somente as do Leblon, reforçam isso. Só se vê formosuras tagarelando nas telas.
- Apesar e por tudo, era bem melhor nos tempos das sinetas a chamar para o rango?
Dessa vez a resposta veio de bate pronto, tal qual um volante bem posicionado e de frente para o alvo a espera da consagração. Estava quase pronta. Pobre do goleiro. E chama-se volante o que já fora outra coisa. Meia-armador, ponta de lança, ponteiro direito, esquerdo. Eram alguns dos apelidos que os peladeiros ocupavam.
- Hoje está muito bom também. Tenho lá as minhas saudades, as minhas recordações. Também tenho as minhas velhices, artrites. Procuro não estacionar a minha vida nesse espaço que tende a mofar ( feito certos governos). Sou alérgico a esse mofo. Produzi na minha profissão uma arte difícil, arriscada, exaustiva, por mais de meio século. Atravessei uma fase que se iniciou com equipamento quase artesanal, chegando à tecnologia de ponta que está disponível nesses tempos de agora. Havia até traços de humanidade nos hospitais públicos, sabias?
Conversa suspensa. A bebida e a comida e os amigos. Uma noite de celebrações e esclarecimentos. Gerações que se articulam.
Discorre sobre as delícias experimentadas no bairro, hoje badalado por programas televisivos, contando inúmeras vantagens a seu favor. Característica insuperável. Nem mesmo o tempo, o passar de histórias e movimento dos fatos, faz diminuir a vaidade soberana.
Quando parecia encerrar a sua descrição, uma narrativa permeada por intervalos estratégicos a seduzir ouvintes presentes desse período de outrora, uma pausa se faz na fala entusiasmada. Olha ao redor, checando se havia aumento na audiência, e indaga novamente:
- Mas você me fez uma outra pergunta?
-Não, senhor. Quero dizer...Indaguei a você se naquele tempo, onde a cozinheira da casa, que ficava na esquina da Avenida que leva o nome de um ex-presidente do Brasil, chamava a ti e aos seus irmãos para o almoço, balançando um pequeno sino que carregava nas mãos, não era melhor do que hojendía. Viver aqui, quero dizer. E vocês ainda por cima escutavam o badalar da sineta! Apesar de todo o alvoroço da pelada da hora do almoço! Não havia xingamentos entre irmãos? Senhor juiz, o senhor errou. Era assim o trato.
- Xingávamos menos. O futebol era mais cadenciado. Até mesmo na areia quente da praia. Tratava-se melhor a bola. E não havia juiz. Quem apitava o jogo éramos nós. Ali, segundo um futuro parente meu e chegado a ateísmos, isso exemplificaria o vitalismo de um senhor alemão conhecido como Nietzsche que proclamava a morte de Deus! A gente resolvia. Ausência de Estado? Anarquia? Sem polícia? Noutro dia, uma policial , estudante universitária, recebeu um balaço pelas costas. Trinta e poucos anos. Segundo a mãe, sexagenária, nenhuma ONG ou parlamentar ou estudante cheio de energias enviou alguma mensagem de consideração e tampouco evocaram os diretos humanos. Não são humanos, a maioria ou alguns, da polícia? Não são humanos todos os que compõem o Estado? São humanos os direitos humanos? Todos nascem iguais... Não creio nisso. Mas se um dia fôssemos mais legais, resolveríamos entre nós. Parece sonho, não é? Por isso creio em Deus. Ele arbitrariamente decidirá no fim.
- Mas não há transa?
- Sim, ele arbitra. Pode rever estatutos postos, consagrados.
- Quem não crê nisso agora sou eu. Acho meio fascista esse arbítrio todo advindo de seres fantasmagóricos Muito poder para uma criatura só. Parece até a presidência da república brasileira. Temos a impressão que vivemos numa Monarquia Absolutista com um parlamento de mentirinhas. E o resto da turma- coitadinha- não tem livre arbítrio algum. Surgiu, depois desse pensador alemão que citastes, um outro que afirma que a gente há onde não havemos. É uma tal de inconsciência. Veio da Áustria o pensante.
- Respeito a sua posição, mas não concordo. Tentei até catequizar esse futuro parente, mas não deu. Aliás, a estratégia foi equivocada. Mas certo dia, voltando aos assuntos mundanos, uma falta controversa na pelada da praia, gerou muitos protestos, quase manifestações. Já que não surgiu nenhuma solução, o jogo foi adiado. Retornamos dois depois, após um papo no bar que, obviamente, não existe mais.
- Por que o obviamente nesse quesito existência?
- Não respeitamos tradições nossas. Por isso que não andamos muito para frente. Fica-se feito tartaruga e sua casca dura. Apenas sobrevive-se mais ou menos ao calorão. E hoje. vive-se mais a estética, a ética, a política da casca. A fotogenia impõe modos de existência nas cidades tropicais. E as televisões daqui, não somente as do Leblon, reforçam isso. Só se vê formosuras tagarelando nas telas.
- Apesar e por tudo, era bem melhor nos tempos das sinetas a chamar para o rango?
Dessa vez a resposta veio de bate pronto, tal qual um volante bem posicionado e de frente para o alvo a espera da consagração. Estava quase pronta. Pobre do goleiro. E chama-se volante o que já fora outra coisa. Meia-armador, ponta de lança, ponteiro direito, esquerdo. Eram alguns dos apelidos que os peladeiros ocupavam.
- Hoje está muito bom também. Tenho lá as minhas saudades, as minhas recordações. Também tenho as minhas velhices, artrites. Procuro não estacionar a minha vida nesse espaço que tende a mofar ( feito certos governos). Sou alérgico a esse mofo. Produzi na minha profissão uma arte difícil, arriscada, exaustiva, por mais de meio século. Atravessei uma fase que se iniciou com equipamento quase artesanal, chegando à tecnologia de ponta que está disponível nesses tempos de agora. Havia até traços de humanidade nos hospitais públicos, sabias?
Conversa suspensa. A bebida e a comida e os amigos. Uma noite de celebrações e esclarecimentos. Gerações que se articulam.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Os degraus e suas tagarelices.
Sobe-se um degrau e depois um segundo degrau. E assim se vai, um de cada vez, até o coração dizer basta! Abuso de poder diante da não arbitrariedade do compasso das artérias. Mas ninguém sabe ao certo quem está no comando. Pesquisa recente, publicada em prestigiada revista científica, afirma, através de estudos rigorosos, que para milhões de células que nos compõem existem trilhões de bactérias à espreita. Temos sistemas sobrepostos. Parecido com os degraus de escadas.
E os degraus vão se dobrando, feito cobra enroscada, numa curva perigosa. E nenhuma placa de advertência há no horizonte da próxima curva a alertar para riscos. Não havia tampouco corrimão para salvaguardar alguma carcaça desequilibrada, bêbada. Chamar-se-ia de matadouro não oficial ( estamos tomados de mesóclises, provocação a Hilda Hilst e sua aversão por essa praticagem ou seria uma homenagem ao vernáculo vicioso de uma histérica Jânio Quadros?). Armadilha, sobretudo, para formações mais antigas e seus desequilíbrios mundanos.
Nenhum incidente grave, ao menos nenhum registro. Talvez um 'Ai, Ui' aqui acolá. Nada, portanto, além das onomatopeias curtas apesar das dores supostas. E nem ao menos sabemos se essas tais dores supostas não são intrigas de comadres a fofocar sobre as vidas outras nessas resistentes perigosas curvas de cada andar, em cada porta que se avizinha.
Cada lance de escada superado apresenta um outro adiante. Uma curva a mais, um corpo ofegante. 'Ótimo exercício para o segundo coração'!- acena o cardiologista imaginário de dentro do elevador refrigerado. E o que seria esse segundo coração? Aqui nas terras de Cabral recebe o nome de panturrilha ou batata da perna. Torturas como essa são boas para o coração primeiro, panturrilham ( verbo recém-implantado) os especialistas.
Na penúltima curva à direita, encontram-se algumas intimidades dos vizinhos. São garrafas vazias, algumas revistas velhas, livros carcomidos por insetos incultos. Numa das garrafas há uma digital feita de vinho tinto. A impressão é recente e as pistas podem conduzir ao bebedor. Não há crime perfeito. Aonde levaria essa digital cor de sangue e a curiosidade que interrompe a malhação da panturrilha?
Ali, numa das portas fechadas para intromissões bisbilhoteiras, fofocam que vive uma moça. Mudou-se para o edifício há poucos meses. Jamais foi vista pelos outros moradores. Mente-se. Cortejou-se com uma parte de sua alma reluzindo: era o seu carro o qual mal sabe conduzir. Quem o faz, isto é, quem o estaciona, faz malabares, na garagem, é um dos funcionários do prédio e suas escadas. Ele está sorridente desde então. Ganhou uns trocados ou estaria embriagado por garrafas de uns bons tintos e suas impressões quase anônimas?
De tantas comadres faladeiras a existir, ao menos são educadas pois tagarelam sobre todos e tudo pelas costas, fica-se parecido. Passamos a tomar a vida dos outros como se a nossa fosse. É o que fazem alguns imitadores, plagiadores, conspiradores. Estilística inexistente.
Na soleira de sua porta, da moça recém chegada, há um pequeno tapete que diz em língua de gringo " home sweet home." Em língua nossa parece algo como 'lar adocicado lar'. Uma espécie de anteparo para diabetes. Essa vizinha adocicada ainda não mostrou outra face senão a extensão das suas pernas metálicas que exibe-se ao sol da garagem descoberta. E o homem da portaria, gratificado, por ela passeia. Para frente, para trás. O que aumenta ainda mais as falações das comadres faladeiras. Insinuam que há uma transa que não entendem. São mais antigas, tempos de camisolas compridas e pecados curtinhos. Seriam vitorianas? Ora, no mínimo uma injustiça com a Rainha. Ela tinha seus amantes e deixou a impressão- talvez num Bourbon americanizado prevendo futuros tão distantes- de recato real.
No penúltimo degrau daquela curva, agora, antepenúltima, uma das comadres faladeiras se desfaz do seu lixo, das suas impressões. Já há pelo menos uma testemunha se um crime acontecer. Ela encara o proprietário da panturrilha esgotada por tanto esforço e exige que lhe conte algo sobre aquele fantasma de vizinha e cujo lixo despertara curiosidades. Em homenagem a Gabriel Garcia Márquez , já que uma revista moribunda , esquecida numa das curvas suplantadas da escada abaixo, trazia a fotografia desse grande contador de causos, algo lhe foi dito:
' Pode não ser ela, e sim ele. Apesar da baliza mal feita. Pode ser ácida, mesmo com aquele açucareiro a sua porta. Pode beber whisky ao invés dos tintos. Oferecendo a nobre bebida aos convivas ( parece que cozinha divinamente , visto o aroma que exala de suas privacidades domiciliares) ou pretensos amantes. Pode não ser ninguém. Talvez uma assombração que vaga com pernas mecânicas possantes, ar refrigerado, aparelho de som, GPS e que se bronzeia, tórrido destino, na garagem aberta. Pode ser todo mundo com todos os sexos que somam tão somente um. Pode ser um delírio a mais. Haveria tal moça? Seria bela como suas curvas feitas de degraus? Talvez serpentes que se enrosquem na imaginação dos homens? Sobe-se uma escada que parece não ter fim ou ela nos atira para cima- desafiando gravidades-, e generosa, acompanha-nos andar abaixo?
Paralisada, a comadre tagarela fingiu acreditar no que lhe confundiu um bocadinho a mais. Abre passagem mediante a bruxaria de uma vassoura que lhe porta. E o resto de fôlego que se esvai diz Há-Deus, diante dos degraus, curvas, elações, algumas peripécias. Ufa! Andar errado.
E os degraus vão se dobrando, feito cobra enroscada, numa curva perigosa. E nenhuma placa de advertência há no horizonte da próxima curva a alertar para riscos. Não havia tampouco corrimão para salvaguardar alguma carcaça desequilibrada, bêbada. Chamar-se-ia de matadouro não oficial ( estamos tomados de mesóclises, provocação a Hilda Hilst e sua aversão por essa praticagem ou seria uma homenagem ao vernáculo vicioso de uma histérica Jânio Quadros?). Armadilha, sobretudo, para formações mais antigas e seus desequilíbrios mundanos.
Nenhum incidente grave, ao menos nenhum registro. Talvez um 'Ai, Ui' aqui acolá. Nada, portanto, além das onomatopeias curtas apesar das dores supostas. E nem ao menos sabemos se essas tais dores supostas não são intrigas de comadres a fofocar sobre as vidas outras nessas resistentes perigosas curvas de cada andar, em cada porta que se avizinha.
Cada lance de escada superado apresenta um outro adiante. Uma curva a mais, um corpo ofegante. 'Ótimo exercício para o segundo coração'!- acena o cardiologista imaginário de dentro do elevador refrigerado. E o que seria esse segundo coração? Aqui nas terras de Cabral recebe o nome de panturrilha ou batata da perna. Torturas como essa são boas para o coração primeiro, panturrilham ( verbo recém-implantado) os especialistas.
Na penúltima curva à direita, encontram-se algumas intimidades dos vizinhos. São garrafas vazias, algumas revistas velhas, livros carcomidos por insetos incultos. Numa das garrafas há uma digital feita de vinho tinto. A impressão é recente e as pistas podem conduzir ao bebedor. Não há crime perfeito. Aonde levaria essa digital cor de sangue e a curiosidade que interrompe a malhação da panturrilha?
Ali, numa das portas fechadas para intromissões bisbilhoteiras, fofocam que vive uma moça. Mudou-se para o edifício há poucos meses. Jamais foi vista pelos outros moradores. Mente-se. Cortejou-se com uma parte de sua alma reluzindo: era o seu carro o qual mal sabe conduzir. Quem o faz, isto é, quem o estaciona, faz malabares, na garagem, é um dos funcionários do prédio e suas escadas. Ele está sorridente desde então. Ganhou uns trocados ou estaria embriagado por garrafas de uns bons tintos e suas impressões quase anônimas?
De tantas comadres faladeiras a existir, ao menos são educadas pois tagarelam sobre todos e tudo pelas costas, fica-se parecido. Passamos a tomar a vida dos outros como se a nossa fosse. É o que fazem alguns imitadores, plagiadores, conspiradores. Estilística inexistente.
Na soleira de sua porta, da moça recém chegada, há um pequeno tapete que diz em língua de gringo " home sweet home." Em língua nossa parece algo como 'lar adocicado lar'. Uma espécie de anteparo para diabetes. Essa vizinha adocicada ainda não mostrou outra face senão a extensão das suas pernas metálicas que exibe-se ao sol da garagem descoberta. E o homem da portaria, gratificado, por ela passeia. Para frente, para trás. O que aumenta ainda mais as falações das comadres faladeiras. Insinuam que há uma transa que não entendem. São mais antigas, tempos de camisolas compridas e pecados curtinhos. Seriam vitorianas? Ora, no mínimo uma injustiça com a Rainha. Ela tinha seus amantes e deixou a impressão- talvez num Bourbon americanizado prevendo futuros tão distantes- de recato real.
No penúltimo degrau daquela curva, agora, antepenúltima, uma das comadres faladeiras se desfaz do seu lixo, das suas impressões. Já há pelo menos uma testemunha se um crime acontecer. Ela encara o proprietário da panturrilha esgotada por tanto esforço e exige que lhe conte algo sobre aquele fantasma de vizinha e cujo lixo despertara curiosidades. Em homenagem a Gabriel Garcia Márquez , já que uma revista moribunda , esquecida numa das curvas suplantadas da escada abaixo, trazia a fotografia desse grande contador de causos, algo lhe foi dito:
' Pode não ser ela, e sim ele. Apesar da baliza mal feita. Pode ser ácida, mesmo com aquele açucareiro a sua porta. Pode beber whisky ao invés dos tintos. Oferecendo a nobre bebida aos convivas ( parece que cozinha divinamente , visto o aroma que exala de suas privacidades domiciliares) ou pretensos amantes. Pode não ser ninguém. Talvez uma assombração que vaga com pernas mecânicas possantes, ar refrigerado, aparelho de som, GPS e que se bronzeia, tórrido destino, na garagem aberta. Pode ser todo mundo com todos os sexos que somam tão somente um. Pode ser um delírio a mais. Haveria tal moça? Seria bela como suas curvas feitas de degraus? Talvez serpentes que se enrosquem na imaginação dos homens? Sobe-se uma escada que parece não ter fim ou ela nos atira para cima- desafiando gravidades-, e generosa, acompanha-nos andar abaixo?
Paralisada, a comadre tagarela fingiu acreditar no que lhe confundiu um bocadinho a mais. Abre passagem mediante a bruxaria de uma vassoura que lhe porta. E o resto de fôlego que se esvai diz Há-Deus, diante dos degraus, curvas, elações, algumas peripécias. Ufa! Andar errado.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
O alimento' tablet'.
- O serviço até que foi bom. Veio rápido.
- Não seja tão implicante. A comida também estava uma delícia.
- Mas eu não comi nada! Você não percebeu?
Seria quase impossível notar. A não ser que tivesses uma visão periférica estupenda. Daquelas que os bichinhos répteis, aqueles lagartos e seus parentes mais invocados, os jacarés, possuem. São mestres na arte de revirar olhinhos, esses bichanos. Em breve, algumas moças poderão adotá-los e até estabelecer uma união estável. Proteção sem igual.
Desde o momento em que entraram no restaurante, aquela família demonstrava que tinham pressa. Mamãe, papai e o casal de filhos. A menina- deixe a imaginação nos guiar- deveria ter uns 17 anos. O por quê dos 17? Um número bom. Talvez porque esteja sendo celebrado os 30 anos do retorno à pátria de São Sebastião, após um exílio de oito anos no planalto central do Brasil.
O menino, seu irmão- com quem ela passou parte da noite a implicar e desdenhar da sua simples existência- devia ser mais jovem. Talvez uns dois anos a separar os irmãos. E nessa fase da vida, podem fazer muita diferença. Muitos tabus- um tipo de neura reforçado pela cultura- passam a ser enfrentados, desafiados, pelos que acrescentam dias a mais no seu currículo. Meninas ou meninos que custam mais a perder a famigerada virgindade, por exemplo, podem sofrer represálias, humilhações. É o tal do bullying. Uma expressão americanizada do norte e que em bom Português significa sacanagem contra outrem. Sabemos, mas pode-se fingir que não, que as crianças podem ser muito cruéis.
Conhecimentos que podem advir da escola ou na academia de ginástica ( arte marcial é um conhecimento e dos melhores) valem - ao menos valiam- créditos na poupança da arrogância juvenil. E isso se dá em qualquer recanto, independente da condição social.
Quando participei, durante alguns anos, de um grupo de pesquisa de campo, numa das comunidades mais pobres e violentas do Rio de Janeiro, início dos anos 90, conhecemos mães adolescentes com seus relatos que indicavam a gravidez como possibilidade- a única para muitas- de um futuro melhor. O melhor aqui é romanceado. Um mero futuro. E já era muito. A maternagem tornava-se cada vez mais, sobretudo nessas comunidades ditas carentes, um sintoma de posicionamento social relevante no mundo- aquisição de um poder-, sem contar o sonho ilusório de uma completude a ser alcançada mediante ato de procriação. O menino, seu irmão- com quem ela passou parte da noite a implicar e desdenhar da sua simples existência- devia ser mais jovem. Talvez uns dois anos a separar os irmãos. E nessa fase da vida, podem fazer muita diferença. Muitos tabus- um tipo de neura reforçado pela cultura- passam a ser enfrentados, desafiados, pelos que acrescentam dias a mais no seu currículo. Meninas ou meninos que custam mais a perder a famigerada virgindade, por exemplo, podem sofrer represálias, humilhações. É o tal do bullying. Uma expressão americanizada do norte e que em bom Português significa sacanagem contra outrem. Sabemos, mas pode-se fingir que não, que as crianças podem ser muito cruéis.
Conhecimentos que podem advir da escola ou na academia de ginástica ( arte marcial é um conhecimento e dos melhores) valem - ao menos valiam- créditos na poupança da arrogância juvenil. E isso se dá em qualquer recanto, independente da condição social.
Algumas das jovens chegavam a procurar os postos de saúde dessas regiões- com toda a precariedade que até hoje há- para indagar dos médicos o quê se fazer para engravidar, por exemplo. ' Ganhar neném, seu 'doutô'. O médico também relatava os seus embaraços e as suas dificuldades em lidar com tudo isso. Afinal, os códigos são muito distintos.
- Você quer saber sobre métodos para não engravidar, anticoncepcionais, não é isso menina?- aflito, o doutor lhe indagava.
- Não 'doutô'...É para ficar prenha mesmo, É isso o quê mais quero.- ria alto, sem o menor constrangimento, a futura mamãe. Independente do que pensasse o código moral do tal 'doutô'.
Na sua visão tacanha, tosca e ingênua , mas não burra, a adolescente, na faixa etária dos 12 aos 15 anos, ao engravidar de alguém com bastante poder na comunidade _ um traficante , também jovem, mas não tanto-, adquiria prestígio imediato. Tornar-se-ia uma espécie de primeira dama do pedaço. O que não computavam em seu delírio juvenil é que o mais provável é que viessem a se tornar uma das muitas outras viúvas do mesmo pedaço. Afinal, os caras, os noivos escolhidos, não sobrevivem tanto tempo. Antigamente, e isso não é lenda, viviam muito mais. Dito por um sábio que malandro bom joga limpo. Colhe frutos desses dias a mais vividos com astúcia. Merecem respeito. Não se conformam com o não futuro que o Estado degradado brasileiro lhes reservou para sempre. Salvo raríssimos heróis ou heroínas, será bem previsível o seu devir.
Nessa mesma época, um escritor-jornalista, com bastante prestígio na cidade maravilha, escreveu um livro que fez sucesso. Foi quase um 'Best-Book'. Contudo, houve um desencontro radical entre o que ele dizia e o que nós íamos encontrando. Os fatos colhidos, das nossas andanças nessas comunidades difíceis de se transitar , transar, da cidade. E quando houve ousadia ao indagar se o tal livro de sucesso não teria dado uma empurradinha para o túmulo no rapaz- traficante de uma outra região não menos perigosa e que lhe dera a entrevista arriscada, ou seja, abriu a matraca e falou dos outros companheiros de delito, fossem eles rivais ou não, e também sobre a polícia e sua falta de inteligência logística e outros quetais que circundam o universo policial-, a coisa ficou mais séria. O vetusto senhor da imprensa passou a nos boicotar. Recusava artigo ou entrevista que tivesse algum de nós envolvidos. Viramos, aos seu olhar e credo, nenhum de nós. Igual a nome de banda musical famosa.
Depois do massacre ocorrido em Vigário Geral ou daquele outro crime brutal ocorrido na porta da igreja da Candelária, ambas aniversariando 20 anos, qualquer piscadela fora de ritmo poderá custar caríssimo ao desafinado piscador e seus adjuntos. Ele também tinha um coração, bem sabemos, João Gilberto. E ele parou de bater, apesar do pouco tempo de avenida. Já que o compasso acertado dita a roda do mestre bamba. Seu destino.
Aquilo tudo que presenciamos era muito precário. Aquela vida empobrecida nas mais diversas formas de existência. Ao mesmo tempo, quanto vitalismo! Que tesão pela permanência! Se houvesse reflexão mínima- algo raro independente da condição social- a violência seria ainda maior. Por essas e outras é que as instituições religiosas multiplicam-se. Vou dizer algo que pode parecer incoerente para quem trava questionamentos e críticas contundentes sobre esses credos todos. Diante do abismo social e intransponível ao qual chegamos, juntamente com a explosão populacional, -e isso também justifica a permanência política de posturas advindas da Revolução Francesa, ou seja, esquerdas e direitas-, essas instituições assistencialistas opressivas e os seus códigos de conduta condenatórios, moralistas, e ainda por cima vendedoras de ilusões, são uma espécie de mal necessário. Ao menos pelos próximos 50, 100 anos. Não há inteligência analítica para se operar com material tão complexo. Ressalta-se: sem chiliques, ataques, barbárie, racismos...Talvez o maior golpe de Estado- golpe oficial- que houve nos últimos tempos foi a renúncia do antigo papa- o alemão- em favor desse atual. Decisão inteligentíssima. O eleito entendeu tudo da contemporaneidade e sua vocação- não é de agora , mas de um quase sempre- em puxar para trás quando certos poderes insistem na sua vocação de progressão. O que é caminho espontâneo, dito natural. Mesmo que nessa progressão compareça de tudo. Feito manifestação de rua. Separar, fractalizar, desconfigurar, conhecer, considerar, distanciar-se, integra o pacote da análise dos fatos. A procriação de artefatos, via tecnologia, desconfigurou, degradou, muitas crenças. Portanto, o Estado que não consegue se antecipar às demandas, tornar-se contemporâneo de sua época, estará sempre em atraso. Diferentemente do que se observa nas nações mais progressistas, de fato, tais como os estados escandinavos. O Brasil e outros tantos países vizinhos, e outros mais distantes somente do ponto de vista geográfico, estão atrasados. E ele se arrasta, o tal atraso valorado.
No Rio de Janeiro, seja da favela com meninas de barriga precocemente contentes ou da favelização mental da roupinha mais engomada de qualquer dito bairro nobre, observa-se a fóbica atitude - tentando camuflar possíveis perversões- de mandatários diante de crises tão comuns. Corrupção, rivalidade, erros, acertos, negligência, cinismo...Esse pacote compõe qualquer governo. Esteja à esquerda ou à direita. Se lúcido estiver, alternará posições com maior frequência diante das demandas. E isso não constitui inconsistência de ação ou covardia. São as tais posições ad hoc que determinadas instituições e estados já entenderam e procuram colocar em prática. Toma-se, no senso comum do não senso, a disponibilidade para alternâncias como algo enlouquecido, incoerente, ineficaz, menor, paradoxal. Quando na verdade é a possibilidade de ficarmos menos estupidificados, engessados, pela grande máquina de produção de gessos que é a cultura. Em Estado de Rio de Janeiro ( minha alma canta, Tom) refugiou-se até da possibilidade de um papo. O Príncipe em seu castelo envidraçado do bairro mais caro. Um gabinete de crise? Para quê? Indagaria o príncipe ao ser lembrado que soberanos, estadistas ( formação tão rara quanto um político de verdade hoje em dia) mostram-se, dizem o seu tamanho, em estados de exceção. Reconhecimento de falha então...Algo quase impossível. Diria em tom de ironia refinada o patrício de um Cabral distante, Fernando Pessoa, que só existem príncipes e princesas nessa vida. Como reverter o que que quer que haja com um sintomão desses? Aproveita-se o momento para se perguntar também sobre temas do cotidiano de um fim de ano tão desgastado pelo fato de se contar finais de ano por demais: pode-se mentalmente reverter um calendário? Driblar um pouco datas e estações? As estações já pregam peças na carne frágil. Não é raro haver frio de verão e calor de inverno. Sua santidade papal, exemplo contemporâneo, dribla feito seu patrício Diego, o Maradona. Anda perdoando todo mundo. Isso é libertário para culpados. Ainda que disfarçado de sentimentos tão somente. E nós aprendemos que sentimento de culpa, culpa também é.
Reverter calendário é bater de frente com situações enlouquecidas. Optamos por cair na sacralização de meros acordos convencionados para organizar um pouco a zorra total do dia a dia. Esquecemos, porque assim queremos, que são somente combinações acertadas ( ainda que na pancada). São invencionices possíveis à espécie . Despreza-se o banho de sol por uma solitária feita de breu. Com o progresso dos achados nas ciências, fica um pouco mais difícil crer na contagem desse fluxo andarilho que só evidencia uma insistência na permanência dos fatos. E esses fatos resistem às transformações, às reversões possíveis. Até mesmo de um calendário de papel. O tempo.
Aliás, a mesma insistência de prosseguir teclando letrinhas, aqui e agora, mais a tela vazia, tomada de signos. O humano contemporâneo avistado por Magno Machado Dias de sua caravela plerômica: O HomoZapiens.
Papai e mamãe...mais os filhotes, divertiam-se à mesa. Calma. Não se trata de um teatro forjado à fórceps para polemizar com teorias antropológicas que evocam coisas incestuosas estabelecendo passagens do bicho natureza para bicho cultural. Funcionando de homozapiens, todos eles vão zapeando com seus aparelhos que falam e escrevem uma nova gramática. São seres 'tablets'. Tratando pois de fatos que parecem mais ou menos enlouquecidos, o que alimenta os aparelhos? Estamos num restaurante. Independente da fome de cada um, ( a gente tem fome do quê?- a pergunta precisa de uns Titãs) há de se comer, hidratar-se, dormir para sonhar. A carne é frágil, já se provou, e a boca nervosa da pulsão-tesão não se satisfaz inteiramente nunca. Grávida ou não. Interagir? Sim. Desse outro jeito. Cada um na sua e com seu maquinário eletrônico portátil ao alcance dos dedos- extensão desse corpo que de fábrica é pleno de incompetências, salvo o cérebro homozapiens, órgão fantástico do rei da selva- apesar da solicitada e
necessária companhia.
Todos teclavam ao mesmo tempo. Agitados, dedos ágeis. As expressões faciais oscilavam pouco. Vez ou outra um sorriso aqui, uma contração de músculo acolá, um franzir para exibição de rugas. Tempos decorridos que se revelam. A carne data desde a infância. E ela é pojada de neura e pode ser cruel. E é frágil. Pode exibir pelota, bolota, pereba também pode. O menino de família parece se divertir um pouco mais. Depois de tanto desprezo por parte da irmã, ele desconfia que qualquer coisa pode ser séria, mas não tanto,se houver um pouco de saúde. Ele misturou os sabores e o garfo e a faca saíram de dentro do 'tablet'. Magia? Também pode. E quem disse que não há materialidade no celebrado mundo virtual?
A menina parecia acreditar um pouco mais. Dizia que era indolência o tal jeito do irmão e acrescentava- com o seu olhar de menina- que aquilo era da ordem de um infantilismo sem volta. Exílio trágico.
Muitas meninas, por possuírem uma complexidade hormonal deveras especial, acreditam sempre que a simplicidade dos meninos e seus penduricalhos- que depois de uma balançadinha ficam novos-, não ultrapassa a adolescência jamais. Vejamos que todas as opiniões parecem ser definitivas, logo tão cruéis, opressivas. Não há reversão aos seus olhos juvenis. Tudo deve ser trágico e só quem se arrebenta ou até morre são os outros. E ela estava aflita.
Quando o telefone tocava, eis que derruba quase tudo o que estava à frente, incluindo nesse combo, o prato vazio. Alimentava-se de tecladas e da ansiedade pelo chamado daquele outro menino, da mesma geração sua, e gatinho da escola. Aqui, comete-se um erro no imaginário da história. O menino, aguardado feito tesouro, era bem mais experiente. Tinha dezenove anos.Já saia só com o seu 'tablet' turbinado-androide sem necessitar de autorização prévia.Esses predicados nesse exato momento, visto que daqui a uma hora poderão estar obsoletos, constituem prestígio em qualquer comunidade e suas carências particulares.
O pai e a mãe por sua vez aderiram ao banquete. Degustaram- palavra mais pretensiosa para comilança e bebedeira- pratos e torpedos bombardeados para os seus brinquedos que comportam as diversas idades. E ele, o patriarca provedor, negociava mais um golpe na praça. 'Pago pelo que não posso'- divertia-se enquanto bebia um vinho caro. E crê que não haverá consequências. Seriam os tais hormônios machos a lhe eternizar infantilismos?
A mãe- espécie de Jasmine, Blue, de Woody Allen- acordava com tudo desde que não perdesse a posição social tão sonhada. Fingia-se de maluquete enquanto mera estratégia de sedução. Poderia então cometer maluquices 'bem intencionadas' pois confiante sempre se postava ao contar com a indulgência e o perdão dos outros para com as suas birutices.Uma espécie de 'bullying' dissimulado. Jantar de gente grande pode ser assim.
Num desligar de aparelhos, ciberneticamente mais rápido do que um piscar de olhinhos com potencial periférico extremo, quase espacial, a família se retirou. Com a mesma pressa com a qual pensa ter chegado em lugar qualquer. Do lado de fora da casa-restaurante, havia uma moça com uniforme de trabalho. Ela está sentada na soleira da porta da casa vizinha que também se metamorfoseou de restaurante. Cabisbaixa, a mulata, um 'upgrade' de beleza, teclava sem parar o seu 'tablet' cor de rosa. Não escutava mais nada senão o tec-tec daquele ato. Um mundo todinho passava entre os seus dedos e olhares. O que passava diante dela, entretanto, não se fazia notar. Sabia que tinha uma gente perambulando nas cercanias e que fazia ruído de tec-tec tal e qual. De repente, levantou os olhos e trocou um específico tec-tec com a menina que estava no restaurante-casa. ' O serviço realmente estava ótimo. Rápida conexão, tempero perfeito'. A moça da soleira da porta sorriu. Entendia aquele código. Era o mesmo na sua comunidade, hoje menos distante.. Aliás, a sua filha bem pequena, nascida de um pai já morto, adentrava o mesmo mundo.
-Acho que podemos nos alimentar de nada e sem adoecer. Esse nada faz parecer coisa à beça. Alguns de nós se recusam a entender- teria digitado a voz.
Aquilo tudo que presenciamos era muito precário. Aquela vida empobrecida nas mais diversas formas de existência. Ao mesmo tempo, quanto vitalismo! Que tesão pela permanência! Se houvesse reflexão mínima- algo raro independente da condição social- a violência seria ainda maior. Por essas e outras é que as instituições religiosas multiplicam-se. Vou dizer algo que pode parecer incoerente para quem trava questionamentos e críticas contundentes sobre esses credos todos. Diante do abismo social e intransponível ao qual chegamos, juntamente com a explosão populacional, -e isso também justifica a permanência política de posturas advindas da Revolução Francesa, ou seja, esquerdas e direitas-, essas instituições assistencialistas opressivas e os seus códigos de conduta condenatórios, moralistas, e ainda por cima vendedoras de ilusões, são uma espécie de mal necessário. Ao menos pelos próximos 50, 100 anos. Não há inteligência analítica para se operar com material tão complexo. Ressalta-se: sem chiliques, ataques, barbárie, racismos...Talvez o maior golpe de Estado- golpe oficial- que houve nos últimos tempos foi a renúncia do antigo papa- o alemão- em favor desse atual. Decisão inteligentíssima. O eleito entendeu tudo da contemporaneidade e sua vocação- não é de agora , mas de um quase sempre- em puxar para trás quando certos poderes insistem na sua vocação de progressão. O que é caminho espontâneo, dito natural. Mesmo que nessa progressão compareça de tudo. Feito manifestação de rua. Separar, fractalizar, desconfigurar, conhecer, considerar, distanciar-se, integra o pacote da análise dos fatos. A procriação de artefatos, via tecnologia, desconfigurou, degradou, muitas crenças. Portanto, o Estado que não consegue se antecipar às demandas, tornar-se contemporâneo de sua época, estará sempre em atraso. Diferentemente do que se observa nas nações mais progressistas, de fato, tais como os estados escandinavos. O Brasil e outros tantos países vizinhos, e outros mais distantes somente do ponto de vista geográfico, estão atrasados. E ele se arrasta, o tal atraso valorado.
No Rio de Janeiro, seja da favela com meninas de barriga precocemente contentes ou da favelização mental da roupinha mais engomada de qualquer dito bairro nobre, observa-se a fóbica atitude - tentando camuflar possíveis perversões- de mandatários diante de crises tão comuns. Corrupção, rivalidade, erros, acertos, negligência, cinismo...Esse pacote compõe qualquer governo. Esteja à esquerda ou à direita. Se lúcido estiver, alternará posições com maior frequência diante das demandas. E isso não constitui inconsistência de ação ou covardia. São as tais posições ad hoc que determinadas instituições e estados já entenderam e procuram colocar em prática. Toma-se, no senso comum do não senso, a disponibilidade para alternâncias como algo enlouquecido, incoerente, ineficaz, menor, paradoxal. Quando na verdade é a possibilidade de ficarmos menos estupidificados, engessados, pela grande máquina de produção de gessos que é a cultura. Em Estado de Rio de Janeiro ( minha alma canta, Tom) refugiou-se até da possibilidade de um papo. O Príncipe em seu castelo envidraçado do bairro mais caro. Um gabinete de crise? Para quê? Indagaria o príncipe ao ser lembrado que soberanos, estadistas ( formação tão rara quanto um político de verdade hoje em dia) mostram-se, dizem o seu tamanho, em estados de exceção. Reconhecimento de falha então...Algo quase impossível. Diria em tom de ironia refinada o patrício de um Cabral distante, Fernando Pessoa, que só existem príncipes e princesas nessa vida. Como reverter o que que quer que haja com um sintomão desses? Aproveita-se o momento para se perguntar também sobre temas do cotidiano de um fim de ano tão desgastado pelo fato de se contar finais de ano por demais: pode-se mentalmente reverter um calendário? Driblar um pouco datas e estações? As estações já pregam peças na carne frágil. Não é raro haver frio de verão e calor de inverno. Sua santidade papal, exemplo contemporâneo, dribla feito seu patrício Diego, o Maradona. Anda perdoando todo mundo. Isso é libertário para culpados. Ainda que disfarçado de sentimentos tão somente. E nós aprendemos que sentimento de culpa, culpa também é.
Reverter calendário é bater de frente com situações enlouquecidas. Optamos por cair na sacralização de meros acordos convencionados para organizar um pouco a zorra total do dia a dia. Esquecemos, porque assim queremos, que são somente combinações acertadas ( ainda que na pancada). São invencionices possíveis à espécie . Despreza-se o banho de sol por uma solitária feita de breu. Com o progresso dos achados nas ciências, fica um pouco mais difícil crer na contagem desse fluxo andarilho que só evidencia uma insistência na permanência dos fatos. E esses fatos resistem às transformações, às reversões possíveis. Até mesmo de um calendário de papel. O tempo.
Aliás, a mesma insistência de prosseguir teclando letrinhas, aqui e agora, mais a tela vazia, tomada de signos. O humano contemporâneo avistado por Magno Machado Dias de sua caravela plerômica: O HomoZapiens.
Papai e mamãe...mais os filhotes, divertiam-se à mesa. Calma. Não se trata de um teatro forjado à fórceps para polemizar com teorias antropológicas que evocam coisas incestuosas estabelecendo passagens do bicho natureza para bicho cultural. Funcionando de homozapiens, todos eles vão zapeando com seus aparelhos que falam e escrevem uma nova gramática. São seres 'tablets'. Tratando pois de fatos que parecem mais ou menos enlouquecidos, o que alimenta os aparelhos? Estamos num restaurante. Independente da fome de cada um, ( a gente tem fome do quê?- a pergunta precisa de uns Titãs) há de se comer, hidratar-se, dormir para sonhar. A carne é frágil, já se provou, e a boca nervosa da pulsão-tesão não se satisfaz inteiramente nunca. Grávida ou não. Interagir? Sim. Desse outro jeito. Cada um na sua e com seu maquinário eletrônico portátil ao alcance dos dedos- extensão desse corpo que de fábrica é pleno de incompetências, salvo o cérebro homozapiens, órgão fantástico do rei da selva- apesar da solicitada e
necessária companhia.
Todos teclavam ao mesmo tempo. Agitados, dedos ágeis. As expressões faciais oscilavam pouco. Vez ou outra um sorriso aqui, uma contração de músculo acolá, um franzir para exibição de rugas. Tempos decorridos que se revelam. A carne data desde a infância. E ela é pojada de neura e pode ser cruel. E é frágil. Pode exibir pelota, bolota, pereba também pode. O menino de família parece se divertir um pouco mais. Depois de tanto desprezo por parte da irmã, ele desconfia que qualquer coisa pode ser séria, mas não tanto,se houver um pouco de saúde. Ele misturou os sabores e o garfo e a faca saíram de dentro do 'tablet'. Magia? Também pode. E quem disse que não há materialidade no celebrado mundo virtual?
A menina parecia acreditar um pouco mais. Dizia que era indolência o tal jeito do irmão e acrescentava- com o seu olhar de menina- que aquilo era da ordem de um infantilismo sem volta. Exílio trágico.
Muitas meninas, por possuírem uma complexidade hormonal deveras especial, acreditam sempre que a simplicidade dos meninos e seus penduricalhos- que depois de uma balançadinha ficam novos-, não ultrapassa a adolescência jamais. Vejamos que todas as opiniões parecem ser definitivas, logo tão cruéis, opressivas. Não há reversão aos seus olhos juvenis. Tudo deve ser trágico e só quem se arrebenta ou até morre são os outros. E ela estava aflita.
Quando o telefone tocava, eis que derruba quase tudo o que estava à frente, incluindo nesse combo, o prato vazio. Alimentava-se de tecladas e da ansiedade pelo chamado daquele outro menino, da mesma geração sua, e gatinho da escola. Aqui, comete-se um erro no imaginário da história. O menino, aguardado feito tesouro, era bem mais experiente. Tinha dezenove anos.Já saia só com o seu 'tablet' turbinado-androide sem necessitar de autorização prévia.Esses predicados nesse exato momento, visto que daqui a uma hora poderão estar obsoletos, constituem prestígio em qualquer comunidade e suas carências particulares.
O pai e a mãe por sua vez aderiram ao banquete. Degustaram- palavra mais pretensiosa para comilança e bebedeira- pratos e torpedos bombardeados para os seus brinquedos que comportam as diversas idades. E ele, o patriarca provedor, negociava mais um golpe na praça. 'Pago pelo que não posso'- divertia-se enquanto bebia um vinho caro. E crê que não haverá consequências. Seriam os tais hormônios machos a lhe eternizar infantilismos?
A mãe- espécie de Jasmine, Blue, de Woody Allen- acordava com tudo desde que não perdesse a posição social tão sonhada. Fingia-se de maluquete enquanto mera estratégia de sedução. Poderia então cometer maluquices 'bem intencionadas' pois confiante sempre se postava ao contar com a indulgência e o perdão dos outros para com as suas birutices.Uma espécie de 'bullying' dissimulado. Jantar de gente grande pode ser assim.
Num desligar de aparelhos, ciberneticamente mais rápido do que um piscar de olhinhos com potencial periférico extremo, quase espacial, a família se retirou. Com a mesma pressa com a qual pensa ter chegado em lugar qualquer. Do lado de fora da casa-restaurante, havia uma moça com uniforme de trabalho. Ela está sentada na soleira da porta da casa vizinha que também se metamorfoseou de restaurante. Cabisbaixa, a mulata, um 'upgrade' de beleza, teclava sem parar o seu 'tablet' cor de rosa. Não escutava mais nada senão o tec-tec daquele ato. Um mundo todinho passava entre os seus dedos e olhares. O que passava diante dela, entretanto, não se fazia notar. Sabia que tinha uma gente perambulando nas cercanias e que fazia ruído de tec-tec tal e qual. De repente, levantou os olhos e trocou um específico tec-tec com a menina que estava no restaurante-casa. ' O serviço realmente estava ótimo. Rápida conexão, tempero perfeito'. A moça da soleira da porta sorriu. Entendia aquele código. Era o mesmo na sua comunidade, hoje menos distante.. Aliás, a sua filha bem pequena, nascida de um pai já morto, adentrava o mesmo mundo.
-Acho que podemos nos alimentar de nada e sem adoecer. Esse nada faz parecer coisa à beça. Alguns de nós se recusam a entender- teria digitado a voz.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Nilton Rocha, Santos Pedro. Acelerador de partículas x melancolia.
Nilton Santos foi um atleta brilhante e que mudou o modo como os laterais no futebol jogavam. Eles passaram a atacar, ousaram definir o jogo marcando até gols ( o que antes parecia privilégios para atacantes) , para além das suas atribuições defensivas. Parecia um lorde a comandar pelotões de boleiros. Inventou Mané- junto com o jornalista Sandro Moreira- fundando assim a dupla endiabrada de fuzileiros, o tal Edson Pelé Arantes do Nascimento e o Mané Mais Querido Garrincha. Esses dois senhores juntos brigando no ataque canarinho, Mané de Pau Grande ( sem nenhuma alusão biótica) e Pelé, contra os adversários de todos os cantos do planeta bola, jamais perderam um único jogo sequer.
Nilton parecia ser boa praça ( expressão que denota que o cidadão era agradável, simpático). Há quem garanta que mesmo vitimado pelo Mal de Alzheimer, ele não perdeu a elegância e a altivez. Nas suas entrevistas, apresentava humor discreto com dribles curtos nos inconvenientes microfones que tentavam lhe roubar a bola. Adorava preservar as lembranças dos tempos de Mané Garrincha. É quando ele se comove, falando sobre os excessos que derrotaram o craque da ponta-direita. Estabelecera um vínculo fraterno, paterno, sabemos lá, com o ex-marido da Dona Elza. Quem viu viu. É feito dirigível, mula sem cabeça, unicórnio....
Num jogo importante da Copa de 1962, no Chile, Nilton Santos comete falta no adversário dentro da área. Segundo as regras desse jogo, um pênalti - aquele momento em que se fuzila, sacaneia-se o goleiro sem piedade- não fora marcado pela arbitragem. No artifício mais burro jamais inventado- segundo Nelson Rodrigues- , o tal 'replay', vemos a imagem de um lateral esquerdo com a camisa canarinho, cabisbaixo, olhar de constrangimento e com os braços erguidos pedindo perdão. Ele dera uns passinhos para frente, para fora da área derradeira. O árbitro do jogo - a quem, 61 anos após esse fato, entrego-lhe o prêmio Nobel de sabedoria- marca a infração fora da área grande. Diante da altivez do maior lateral esquerdo do futebol, e que tivera a grandeza de reconhecer o seu erro malandramente, não se podia fazer outra coisa. Fato semelhante com o gol de alma portenha que Diego Maradona fez contra os ingleses nas quartas-de final, Copa do Mundo de 1986, no México. Marcar uma infração naquela mão artilheira seria atentado contra a humanidade. Felizmente, tanto em 1962 quanto em 1986, não existiam 60 bisbilhoteiras câmeras a atrapalhar o jogo dos erros. Feito a vida. Querem quantificar o futebol! Querem o futebol limpinho de equívocos! Perfumadinho feito Mr. Spice Beckham . O quê o genial Mané, pernas tortas, de Pau Grande, acharia dessa perfumaria toda? Nilton, elegante, soltaria aquela rouca gargalhada. Aliás, confabula-se também - o meio dos atletas futebolísticos é deveras corporativista- que nunca um local de nascimento fez uma simetria tão notável quanto a de Mané e a sua Pau Grande querida.
Nessa semana em que se termina o texto preguiçoso, Pedro Rocha, outro comandante supremo da pelada oficial, também faleceu. Vivia bem mal, há tempos. Foi um artista brilhante de seu tempo e não conseguiu prosperar financeiramente. Para muitos, meninos de programa do mercado financeiro, isso qualifica alguém como fracassado, 'loser'. Certamente, trata-se de um fracasso regional, de um setor específico da vida. E as outras riquezas que não são ou foram computadas? Afinal, quanto vale um fracasso? Quem ou quais as formações que obtiveram sucesso com ele? Quantos pernas de pau- no caso dos futebolistas e que jamais disputariam um jogo pela seleção de seu país com o ombro quebrado, tal como Rocha o fez , No Mundial de 1974, pelo Uruguai-, reinam com a ausência ou falência de um Pedro 'El Verdugo' Rocha? Toda invenção apresenta novos poderes, ganhos e perdas também. E sobre o nosso fracasso? O livro de Moisés Naim, ex-ministro Venezuelano e diretor do Banco de Filantropias Globais, O Banco Mundial,- aliás, um dos negócios mais rentáveis para os bolsos e imagens de celebridades vedetes ou políticas-, traz a definição preciosa para crises capitalistas, ou seja, a degradação do próprio capitalismo. De fato- e esse é o título do livro ( O Fim do Poder)-, a degradação é dos poderes em jogo no mundo todo. Sejam eles políticos, financeiros, religiosos, éticos, científicos....E não se está fazendo nenhuma defesa de socialismos enquanto projeto político com seus estados gigantes, ineficazes, propondo igualdades que jamais existiram ou existirão, mas há de se reinventar o capitalismo ( baixar o seu freio de mão, tal como dizia Deleuze em sua sofisticada e difícil filosofia) e suas aplicações do aqui agora , feito o que ocorre na dinâmica movimentação que transcorre numa análise. Baixar o freio de mão em análise é importante para dissolvermos recusas, resistências.
Quando se fala, no presente, da sua vida passada, sonhando com futuro, em que tempo de verbo nos situamos? Daí aquela variação enorme- estou forçando a barra, bem sei-, dos tempos de verbo nas línguas, nas gramáticas, ao menos ocidentais, que conhecemos um tiquinho. Só restam coisas presentes, feitas de material antigo, e que pretendem pra frente continuar, persistir, havendo. Até porque não há como voltar para trás. O relógio faz da hora espécie de ilusão e o ponteiro indica lá longe um não-fim. Essa pergunta já foi feita por alguns pensantes: " Qual era mesmo o tempo antes do Big-Bang?"
Enquanto um acelerador de partículas não avessar experimentalmente o que deseja demonstrar, aguardemos o início do segundo tempo. Sem preliminares. Aquela peladinha, preliminares, que aconteciam antes do jogo principal, nos estádios brasileiros. Lembram daquele São Cristóvão versus Bonsucesso ao som de My mistake, do Pholhas? O São Cricri - intimidades reveladas- trouxe ao mundo, parto natural, o Fenômeno Ronaldo Gorducho.
Arthur Dapieve, adorável e excelente escritor, e também botafoguense em luto, reporta-se, na sua coluna de sexta-feira passada, dia 29/11/13, no jornal O Globo, a alguns textos de Freud ( a nova versão brasileira realizada por Paulo Cesar Souza recebe muitos elogios.Paulo é conhecido pelo seu ótimo trabalho em torno da obra de Nietzsche no país) em que o luto e a melancolia são temas abordados pelo mestre, além de algumas correspondências que trocou com contemporâneos bacaninhas tipo o Sr. Albert Einstein. Falavam sobre a guerra e seus efeitos. Freud teve os 3 filhos homens enviados para primeira guerra mundial (1914-1918). Apenas um deles teve ferimentos pelo corpo, mas nada grave. Freud morre pouco tempo, acho que algumas semanas, antes do início da Segunda Grande Guerra.Já estava em seu exílio londrino. Teve que se mandar da Áustria com a ajuda de uma aristocrata francesa, analista e sua ex-analisanda, Marie Bonaparte. O lunático de bigodinho estranho, Adolf, aprontava demasiado.
Freud não era saudosista, muito menos o era Lacan. Fez do luto que o acossou a vida toda uma virada mais alegre, um passo adiante, tal como significa o seu nome. Freud! Freud! Ecoa um trecho do coro na nona de Beethoven. E a sinfônica ressoa: alegria!
Dapieve descreve a tristeza que lhe invade o peito nessas datas em que um calendário ultrapassado, reacionário, dito Gregório, invade multidões. Intui através, um viés, da sabedoria em Freud uma possibilidade de virada. Talvez um mero saber, conhecimento clarificado, algum sentido para desobstruir peitos lacrados.
O acelerador de partículas bate progressivamente no peito do universo, multiverso ( expressão de MD.Magno), e aposta na derrocada da melancolia. O que resta é mundo, ainda que de poeira. O luto pode se tornar alegria futura. E qual será ou seria o tempo, havente, desse verbo?
Bola para Nilton Santos que acelera o passe para Pedro Rocha que enfia a bola no pé do peito da bola e....
Nilton parecia ser boa praça ( expressão que denota que o cidadão era agradável, simpático). Há quem garanta que mesmo vitimado pelo Mal de Alzheimer, ele não perdeu a elegância e a altivez. Nas suas entrevistas, apresentava humor discreto com dribles curtos nos inconvenientes microfones que tentavam lhe roubar a bola. Adorava preservar as lembranças dos tempos de Mané Garrincha. É quando ele se comove, falando sobre os excessos que derrotaram o craque da ponta-direita. Estabelecera um vínculo fraterno, paterno, sabemos lá, com o ex-marido da Dona Elza. Quem viu viu. É feito dirigível, mula sem cabeça, unicórnio....
Num jogo importante da Copa de 1962, no Chile, Nilton Santos comete falta no adversário dentro da área. Segundo as regras desse jogo, um pênalti - aquele momento em que se fuzila, sacaneia-se o goleiro sem piedade- não fora marcado pela arbitragem. No artifício mais burro jamais inventado- segundo Nelson Rodrigues- , o tal 'replay', vemos a imagem de um lateral esquerdo com a camisa canarinho, cabisbaixo, olhar de constrangimento e com os braços erguidos pedindo perdão. Ele dera uns passinhos para frente, para fora da área derradeira. O árbitro do jogo - a quem, 61 anos após esse fato, entrego-lhe o prêmio Nobel de sabedoria- marca a infração fora da área grande. Diante da altivez do maior lateral esquerdo do futebol, e que tivera a grandeza de reconhecer o seu erro malandramente, não se podia fazer outra coisa. Fato semelhante com o gol de alma portenha que Diego Maradona fez contra os ingleses nas quartas-de final, Copa do Mundo de 1986, no México. Marcar uma infração naquela mão artilheira seria atentado contra a humanidade. Felizmente, tanto em 1962 quanto em 1986, não existiam 60 bisbilhoteiras câmeras a atrapalhar o jogo dos erros. Feito a vida. Querem quantificar o futebol! Querem o futebol limpinho de equívocos! Perfumadinho feito Mr. Spice Beckham . O quê o genial Mané, pernas tortas, de Pau Grande, acharia dessa perfumaria toda? Nilton, elegante, soltaria aquela rouca gargalhada. Aliás, confabula-se também - o meio dos atletas futebolísticos é deveras corporativista- que nunca um local de nascimento fez uma simetria tão notável quanto a de Mané e a sua Pau Grande querida.
Nessa semana em que se termina o texto preguiçoso, Pedro Rocha, outro comandante supremo da pelada oficial, também faleceu. Vivia bem mal, há tempos. Foi um artista brilhante de seu tempo e não conseguiu prosperar financeiramente. Para muitos, meninos de programa do mercado financeiro, isso qualifica alguém como fracassado, 'loser'. Certamente, trata-se de um fracasso regional, de um setor específico da vida. E as outras riquezas que não são ou foram computadas? Afinal, quanto vale um fracasso? Quem ou quais as formações que obtiveram sucesso com ele? Quantos pernas de pau- no caso dos futebolistas e que jamais disputariam um jogo pela seleção de seu país com o ombro quebrado, tal como Rocha o fez , No Mundial de 1974, pelo Uruguai-, reinam com a ausência ou falência de um Pedro 'El Verdugo' Rocha? Toda invenção apresenta novos poderes, ganhos e perdas também. E sobre o nosso fracasso? O livro de Moisés Naim, ex-ministro Venezuelano e diretor do Banco de Filantropias Globais, O Banco Mundial,- aliás, um dos negócios mais rentáveis para os bolsos e imagens de celebridades vedetes ou políticas-, traz a definição preciosa para crises capitalistas, ou seja, a degradação do próprio capitalismo. De fato- e esse é o título do livro ( O Fim do Poder)-, a degradação é dos poderes em jogo no mundo todo. Sejam eles políticos, financeiros, religiosos, éticos, científicos....E não se está fazendo nenhuma defesa de socialismos enquanto projeto político com seus estados gigantes, ineficazes, propondo igualdades que jamais existiram ou existirão, mas há de se reinventar o capitalismo ( baixar o seu freio de mão, tal como dizia Deleuze em sua sofisticada e difícil filosofia) e suas aplicações do aqui agora , feito o que ocorre na dinâmica movimentação que transcorre numa análise. Baixar o freio de mão em análise é importante para dissolvermos recusas, resistências.
Quando se fala, no presente, da sua vida passada, sonhando com futuro, em que tempo de verbo nos situamos? Daí aquela variação enorme- estou forçando a barra, bem sei-, dos tempos de verbo nas línguas, nas gramáticas, ao menos ocidentais, que conhecemos um tiquinho. Só restam coisas presentes, feitas de material antigo, e que pretendem pra frente continuar, persistir, havendo. Até porque não há como voltar para trás. O relógio faz da hora espécie de ilusão e o ponteiro indica lá longe um não-fim. Essa pergunta já foi feita por alguns pensantes: " Qual era mesmo o tempo antes do Big-Bang?"
Enquanto um acelerador de partículas não avessar experimentalmente o que deseja demonstrar, aguardemos o início do segundo tempo. Sem preliminares. Aquela peladinha, preliminares, que aconteciam antes do jogo principal, nos estádios brasileiros. Lembram daquele São Cristóvão versus Bonsucesso ao som de My mistake, do Pholhas? O São Cricri - intimidades reveladas- trouxe ao mundo, parto natural, o Fenômeno Ronaldo Gorducho.
Arthur Dapieve, adorável e excelente escritor, e também botafoguense em luto, reporta-se, na sua coluna de sexta-feira passada, dia 29/11/13, no jornal O Globo, a alguns textos de Freud ( a nova versão brasileira realizada por Paulo Cesar Souza recebe muitos elogios.Paulo é conhecido pelo seu ótimo trabalho em torno da obra de Nietzsche no país) em que o luto e a melancolia são temas abordados pelo mestre, além de algumas correspondências que trocou com contemporâneos bacaninhas tipo o Sr. Albert Einstein. Falavam sobre a guerra e seus efeitos. Freud teve os 3 filhos homens enviados para primeira guerra mundial (1914-1918). Apenas um deles teve ferimentos pelo corpo, mas nada grave. Freud morre pouco tempo, acho que algumas semanas, antes do início da Segunda Grande Guerra.Já estava em seu exílio londrino. Teve que se mandar da Áustria com a ajuda de uma aristocrata francesa, analista e sua ex-analisanda, Marie Bonaparte. O lunático de bigodinho estranho, Adolf, aprontava demasiado.
Freud não era saudosista, muito menos o era Lacan. Fez do luto que o acossou a vida toda uma virada mais alegre, um passo adiante, tal como significa o seu nome. Freud! Freud! Ecoa um trecho do coro na nona de Beethoven. E a sinfônica ressoa: alegria!
Dapieve descreve a tristeza que lhe invade o peito nessas datas em que um calendário ultrapassado, reacionário, dito Gregório, invade multidões. Intui através, um viés, da sabedoria em Freud uma possibilidade de virada. Talvez um mero saber, conhecimento clarificado, algum sentido para desobstruir peitos lacrados.
O acelerador de partículas bate progressivamente no peito do universo, multiverso ( expressão de MD.Magno), e aposta na derrocada da melancolia. O que resta é mundo, ainda que de poeira. O luto pode se tornar alegria futura. E qual será ou seria o tempo, havente, desse verbo?
Bola para Nilton Santos que acelera o passe para Pedro Rocha que enfia a bola no pé do peito da bola e....
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Onze minutos e um funeral.
Onze minutos. Petrificaram-se em horas, talvez em alguns segundos, e a eternidade marcando um tempo único para o restinho de esperança que adentra o gramado para evitar a tragédia que se anunciava.
Foi assim que tudo aconteceu e os comentários que se perpetuaram na coxia dos coliseus da pátria amada ( mãe gentil?) é que naquela tarde de Junho de 1950, o país presenciou o seu maior velório desde então. Quatro anos mais tarde, em Agosto de 1954, um outro velório marcaria nossa história. Um soberano getulista SE MATAVA-SE. Isso mesmo, assim escrito. Um vitalismo de redundâncias. Morte morrida pois matada pelas mãos do próprio soberano com aparência cândida de um vovô que nos brinda com guloseimas. As balas, que não eram tampouco adocicadas ou de borracha, e o avô em jogo não era de Noel, estouraram-lhe o peito varonil. O pijama real, aquele que encobria a pele e suas rugas da velhice, antes do atentado contra ele mesmo, exibe-se sob o leito derradeiro num quarto abandonado do Palácio Guanabara, sede do governo federal naquele período, Rua do Catete. Traz o sangue perdido pelo coração esgarçado de um dos egrégios farroupilhos eleito caudilho.
O velório de 1950, contudo, era um velório campal já que o número de moribundos confundia os recenseadores daquele tempo. Milhares, talvez milhões. E a tal cerimônia funesta ocorrera num imenso tapete verde ornamentado para uma guerra. No início, uma guerra de confetes e serpentinas. Promessas, políticos e mentiras. Esse era o cenário, a cenografia teatral montada num tapete verde estendido para batalhas entre meninos-homens que corriam atrás daquela formação esférica, à época alaranjada, e com seus gomos expostos ao destrato, ao desprezo do chute alheio. E eles a chutavam sem piedade alguma. Pode-se ouvir, ainda hoje, o grito da bola bandida ao passar de um pé para outro e assim adiante. Devassa! Um repórter deveras bisbilhoteiro, tanto mais do que os outros que ali testemunhavam o epitáfio daquele mundo todo- mundo esse que naquela tarde de inverno no continente sul-americano se resumia por aqui-, ouviu esse tipo de impropério dirigido, ou melhor, chutado na direção da bola, da gorduchinha, para os íntimos. 'La pelota' para os gringos platinos. Os adversários eram platinos uruguaios. Seriam inimigos? "Prefiro que não sejam".
Alguma cidadã torcendo o lenço perfumado de lágrimas e suor - pode fazer calor no inverno carioca, caracterizando assim a sua bipolaridade climática- murmurou a negativa. Cento e noventa e nove mil outros cúmplices, e que também presenciavam o combate, auscultaram o sussurro da companheira de torcida. Parece que não se conformava com essas definições belicosas para espetáculos esportivos. Esportivos? Pode-se ao menos indagar se não acontecia ali, no tapete esverdeado, uma guerra entre dois povos vizinhos. Irmanados? É bem possível. Daí o perigo.
Existia de fato uma batalha com resultantes conhecidas por vencidos e derrotados. Se bem que no esporte das patadas atômicas, gols de letra, dribles da vaca, canetas e outras artimanhas, o empate há. Os estadunidenses, por exemplo, não aceitam essa tal resultante que empata coisas, jogos, guerras. Alguns precisam receber o rótulo de "losers" para poder prosseguir, poder aprender a cair. Aquele tal soberano, aquele lá do tiro nos peitos, não suportou. Os esportes na terra do estadunidense Pluto sempre resultam em 'winners' and 'losers'. Diz a lenda do velho oeste lá deles que num certo dia, Pluto, cachorrão simpático, teria empatado com o Scooby doo, outro bichão agradável, divertido, num concurso de beleza canina e o bafafá entre ambos se estabeleceu. A binariedade que envolve os ultra liberais republicanos e os igualitaristas democratas terminou em ameaças bélicas sérias. Pluto requisitava a antiguidade enquanto posto. Scooby por sua vez o chamava de ultrapassado, tradicionalista de racismos, oligárquico ser, meio fantasmagórico e proveniente de um século muito, muito antigo: o século XX. O final dessa história terá início com alguma canção melodramática. Daquelas típicas melodias em que as produções do cinema estadunidense se apoiam quando o roteiro do filme não funciona bem. E eles proclamarão a vitória da Demo-cracia e vaticinam que Deus abençoará a América ao dizer: 'In gold we trust'.
No réquiem de 1950, Mozart ou Schubert estavam a postos. Cada um defendendo a sua estilística singular. Nas arquibancadas do então coliseu- recém destruído pelos incautos- duas centenas de milhares de compatriotas se espremiam a fim de celebrar a conquista derradeira. O triunfo dos atletas boleiros mais se assemelhava- na mente daquela gente toda- a uma conquista napoleônica.
A segunda grande guerra terminara fazia 5 anos. Herói e gênio geralmente estão mortos há mais tempo na nossa postura colonizada. E aquela guerra era muito recente e havia devastado o velho continente. Portanto, já que Roosevelt ( depois Truman) , Churchill e o "democrata" Stalin disputavam o posto de herói principal na guerra contra os lunáticos nazistas, a torcida preferiu escolher o inverno russo como soberano maior, para finalizar uma era cujo protagonista fora aquele psicótico rapaz das alemanhas e de bigodinho esquisito. Parece que dessa vez acertaram na escolha. Quem disse que não sabemos votar? Aquela vitória redimiria o país e o seu sintoma em não se assumir feito de vira-lata. Não é o complexo em ser ou não, mas de não se assumir. É negar o óbvio. Ululantes razões, diria um atento e também torcedor, Nelson Rodrigues. Um outro torcedor, cujo país de origem tem na bandeira nacional as mesmas cores do tricolor carioca, time do escritor, diverte-se com a algazarra na nova terra.
Vindo da guerra, só que da primeira, esse italiano que, nascido na região sul do seu país, migrara para o país canarinho e tendo vencido a vida, leva com o peito aberto a única filha para o jogo-batalha final. Eram tempos em que pais, mães ( essas formações imperiais) preparavam os rebentos para guerra, ou seja, para vida. Será que escutaram os ensinamentos freudianos? Atravessaram diversas e severas batalhas. Tinham a marca decifrada na carne. Tatuagens belicosas. Mimar filho era como praticar bullying. Não são bonequinhos para deleite materno- ilusão de completude- e outras doenças do tipo.
Já do outro lado imaginário desse mesmo coliseu estava um jovem proveniente do nordeste brasileiro e recém chegado de São Paulo, estado soberano, e que assumirá o comando financeiro do país no fim da década de 50. Juntamente com um amigo carioca, de uma família respeitada nos cochichos sociais, e que marcará a sua vida. Eles estão na maior galhofa e fofocam sobre as pernas das moças do andar de baixo da arquibancada de cimento fresco. Um deles, o nordestino aventuroso, refestelava-se com os olhos. De repente, um grito surgiu: " Olha lá o Zagallo"! Todo fardado de soldado, o então militar. Ainda era Mario Jorge Lobo e Zagalo com um L só. Estava de costas, o velho Lobo, para o campo de jogo, fazendo do olhar do torcedor aliado (estivesse ele na arquibancada, na geral popular ou na pretensiosa tribuna de honra) seu espelhamento particular.
Aos 34 minutos do segundo tempo daquele 'Waterllo" brasileiro, a algazarra se transformou em drama. A seleção brasileira de bola no chão deixava escapar a taça de campeão do mundo da modalidade. A festa já tinha sido combinada, o resultado antecipado, os sonhos a confirmar. Houve 3 momentos desperdiçados. O início sem gols, após a vantagem adquirida no placar, uma nova igualdade entre as tropas futebolísticas e por fim aquele lance de mestre por parte de um ponteiro certeiro uruguaio, despretensiosamente negligenciado, e o silêncio com todas as oitavas a ressoar perplexidades. A segunda guerra mundial terminara para os brasileiros naquele petardo, gritado de gol nas diversas línguas, de Ghiggia, o ponteiro direito. O empate, que favoreceria a nossa equipe, foi esnobado. Teria a tal equipe se deixado levar pelos ventos estadunidenses? Ao invés do vira-lata não assumido, um cachorrão da Disney resolvera nos apossar? Empate nem pensar! Aqui no nosso território e ainda por cima diante de um imigrante com sua filha adolescente? E o jovem vindo do Nordeste e suas aspirações? E aquele soldado bem comportado que dava pinta que um certo dia talvez pudesse atirar de volta algum petardo certeiro ao adversário destemido? Uma espécie de retribuição de gentilezas?
Onze minutos e a terra brasileira foi para o ataque, para a defesa, embolou no meio, reclamou da falta que não houve, do lance que nem viu. A guerra estava por um fio, a rendição a se decretar. Uma terra que nasceu na porrada, origem uruguaia, não se abate com ilusões, chiliques, elucubrações precipitadas, promessas sem rumo, arrogância desmedida. São pragmáticos. Adoram cassinos e um baseado oficial.
Durante anos, Zizinho, um craque brazuca, achava que se comunicou por telepatias e sonhos com Obdulio Varela, craque e xerife do time uruguaio. Parece que ambos eram discípulos de um treinador lá da estranja mais distante: Kardec, seu sobrenome. Outros brazucas diziam que sonhavam que o jogo ainda não havia sequer começado. Reinventavam o tempo. Fazê-lo passar ao contrário, transformando aquilo que houve em algo que não tenha ainda havido, por favor! Impossível. Essa é a tragédia, esse é o maior dos velórios já presenciados num campo de batalha esportivo.
Por falar em tempo que, parece não fluir, não joga para frente, Ghiggia, nosso carrasco para sempre, permanece vivo. O único sobrevivente jogador que esteve na linha de frente naquele amaldiçoado jogo. São quase 87 anos vividos naquela terra e cujo tempo parece ter sempre os mesmos 11 minutos finais semelhantes aos minutos transcorridos de 1950. Ele, um inveterado patriota, bebe um reluzente Tannat, sorri, e ainda joga com essas histórias. E lá vai o ponteiro certeiro direito da celeste...
Foi assim que tudo aconteceu e os comentários que se perpetuaram na coxia dos coliseus da pátria amada ( mãe gentil?) é que naquela tarde de Junho de 1950, o país presenciou o seu maior velório desde então. Quatro anos mais tarde, em Agosto de 1954, um outro velório marcaria nossa história. Um soberano getulista SE MATAVA-SE. Isso mesmo, assim escrito. Um vitalismo de redundâncias. Morte morrida pois matada pelas mãos do próprio soberano com aparência cândida de um vovô que nos brinda com guloseimas. As balas, que não eram tampouco adocicadas ou de borracha, e o avô em jogo não era de Noel, estouraram-lhe o peito varonil. O pijama real, aquele que encobria a pele e suas rugas da velhice, antes do atentado contra ele mesmo, exibe-se sob o leito derradeiro num quarto abandonado do Palácio Guanabara, sede do governo federal naquele período, Rua do Catete. Traz o sangue perdido pelo coração esgarçado de um dos egrégios farroupilhos eleito caudilho.
O velório de 1950, contudo, era um velório campal já que o número de moribundos confundia os recenseadores daquele tempo. Milhares, talvez milhões. E a tal cerimônia funesta ocorrera num imenso tapete verde ornamentado para uma guerra. No início, uma guerra de confetes e serpentinas. Promessas, políticos e mentiras. Esse era o cenário, a cenografia teatral montada num tapete verde estendido para batalhas entre meninos-homens que corriam atrás daquela formação esférica, à época alaranjada, e com seus gomos expostos ao destrato, ao desprezo do chute alheio. E eles a chutavam sem piedade alguma. Pode-se ouvir, ainda hoje, o grito da bola bandida ao passar de um pé para outro e assim adiante. Devassa! Um repórter deveras bisbilhoteiro, tanto mais do que os outros que ali testemunhavam o epitáfio daquele mundo todo- mundo esse que naquela tarde de inverno no continente sul-americano se resumia por aqui-, ouviu esse tipo de impropério dirigido, ou melhor, chutado na direção da bola, da gorduchinha, para os íntimos. 'La pelota' para os gringos platinos. Os adversários eram platinos uruguaios. Seriam inimigos? "Prefiro que não sejam".
Alguma cidadã torcendo o lenço perfumado de lágrimas e suor - pode fazer calor no inverno carioca, caracterizando assim a sua bipolaridade climática- murmurou a negativa. Cento e noventa e nove mil outros cúmplices, e que também presenciavam o combate, auscultaram o sussurro da companheira de torcida. Parece que não se conformava com essas definições belicosas para espetáculos esportivos. Esportivos? Pode-se ao menos indagar se não acontecia ali, no tapete esverdeado, uma guerra entre dois povos vizinhos. Irmanados? É bem possível. Daí o perigo.
Existia de fato uma batalha com resultantes conhecidas por vencidos e derrotados. Se bem que no esporte das patadas atômicas, gols de letra, dribles da vaca, canetas e outras artimanhas, o empate há. Os estadunidenses, por exemplo, não aceitam essa tal resultante que empata coisas, jogos, guerras. Alguns precisam receber o rótulo de "losers" para poder prosseguir, poder aprender a cair. Aquele tal soberano, aquele lá do tiro nos peitos, não suportou. Os esportes na terra do estadunidense Pluto sempre resultam em 'winners' and 'losers'. Diz a lenda do velho oeste lá deles que num certo dia, Pluto, cachorrão simpático, teria empatado com o Scooby doo, outro bichão agradável, divertido, num concurso de beleza canina e o bafafá entre ambos se estabeleceu. A binariedade que envolve os ultra liberais republicanos e os igualitaristas democratas terminou em ameaças bélicas sérias. Pluto requisitava a antiguidade enquanto posto. Scooby por sua vez o chamava de ultrapassado, tradicionalista de racismos, oligárquico ser, meio fantasmagórico e proveniente de um século muito, muito antigo: o século XX. O final dessa história terá início com alguma canção melodramática. Daquelas típicas melodias em que as produções do cinema estadunidense se apoiam quando o roteiro do filme não funciona bem. E eles proclamarão a vitória da Demo-cracia e vaticinam que Deus abençoará a América ao dizer: 'In gold we trust'.
No réquiem de 1950, Mozart ou Schubert estavam a postos. Cada um defendendo a sua estilística singular. Nas arquibancadas do então coliseu- recém destruído pelos incautos- duas centenas de milhares de compatriotas se espremiam a fim de celebrar a conquista derradeira. O triunfo dos atletas boleiros mais se assemelhava- na mente daquela gente toda- a uma conquista napoleônica.
A segunda grande guerra terminara fazia 5 anos. Herói e gênio geralmente estão mortos há mais tempo na nossa postura colonizada. E aquela guerra era muito recente e havia devastado o velho continente. Portanto, já que Roosevelt ( depois Truman) , Churchill e o "democrata" Stalin disputavam o posto de herói principal na guerra contra os lunáticos nazistas, a torcida preferiu escolher o inverno russo como soberano maior, para finalizar uma era cujo protagonista fora aquele psicótico rapaz das alemanhas e de bigodinho esquisito. Parece que dessa vez acertaram na escolha. Quem disse que não sabemos votar? Aquela vitória redimiria o país e o seu sintoma em não se assumir feito de vira-lata. Não é o complexo em ser ou não, mas de não se assumir. É negar o óbvio. Ululantes razões, diria um atento e também torcedor, Nelson Rodrigues. Um outro torcedor, cujo país de origem tem na bandeira nacional as mesmas cores do tricolor carioca, time do escritor, diverte-se com a algazarra na nova terra.
Vindo da guerra, só que da primeira, esse italiano que, nascido na região sul do seu país, migrara para o país canarinho e tendo vencido a vida, leva com o peito aberto a única filha para o jogo-batalha final. Eram tempos em que pais, mães ( essas formações imperiais) preparavam os rebentos para guerra, ou seja, para vida. Será que escutaram os ensinamentos freudianos? Atravessaram diversas e severas batalhas. Tinham a marca decifrada na carne. Tatuagens belicosas. Mimar filho era como praticar bullying. Não são bonequinhos para deleite materno- ilusão de completude- e outras doenças do tipo.
Já do outro lado imaginário desse mesmo coliseu estava um jovem proveniente do nordeste brasileiro e recém chegado de São Paulo, estado soberano, e que assumirá o comando financeiro do país no fim da década de 50. Juntamente com um amigo carioca, de uma família respeitada nos cochichos sociais, e que marcará a sua vida. Eles estão na maior galhofa e fofocam sobre as pernas das moças do andar de baixo da arquibancada de cimento fresco. Um deles, o nordestino aventuroso, refestelava-se com os olhos. De repente, um grito surgiu: " Olha lá o Zagallo"! Todo fardado de soldado, o então militar. Ainda era Mario Jorge Lobo e Zagalo com um L só. Estava de costas, o velho Lobo, para o campo de jogo, fazendo do olhar do torcedor aliado (estivesse ele na arquibancada, na geral popular ou na pretensiosa tribuna de honra) seu espelhamento particular.
Aos 34 minutos do segundo tempo daquele 'Waterllo" brasileiro, a algazarra se transformou em drama. A seleção brasileira de bola no chão deixava escapar a taça de campeão do mundo da modalidade. A festa já tinha sido combinada, o resultado antecipado, os sonhos a confirmar. Houve 3 momentos desperdiçados. O início sem gols, após a vantagem adquirida no placar, uma nova igualdade entre as tropas futebolísticas e por fim aquele lance de mestre por parte de um ponteiro certeiro uruguaio, despretensiosamente negligenciado, e o silêncio com todas as oitavas a ressoar perplexidades. A segunda guerra mundial terminara para os brasileiros naquele petardo, gritado de gol nas diversas línguas, de Ghiggia, o ponteiro direito. O empate, que favoreceria a nossa equipe, foi esnobado. Teria a tal equipe se deixado levar pelos ventos estadunidenses? Ao invés do vira-lata não assumido, um cachorrão da Disney resolvera nos apossar? Empate nem pensar! Aqui no nosso território e ainda por cima diante de um imigrante com sua filha adolescente? E o jovem vindo do Nordeste e suas aspirações? E aquele soldado bem comportado que dava pinta que um certo dia talvez pudesse atirar de volta algum petardo certeiro ao adversário destemido? Uma espécie de retribuição de gentilezas?
Onze minutos e a terra brasileira foi para o ataque, para a defesa, embolou no meio, reclamou da falta que não houve, do lance que nem viu. A guerra estava por um fio, a rendição a se decretar. Uma terra que nasceu na porrada, origem uruguaia, não se abate com ilusões, chiliques, elucubrações precipitadas, promessas sem rumo, arrogância desmedida. São pragmáticos. Adoram cassinos e um baseado oficial.
Durante anos, Zizinho, um craque brazuca, achava que se comunicou por telepatias e sonhos com Obdulio Varela, craque e xerife do time uruguaio. Parece que ambos eram discípulos de um treinador lá da estranja mais distante: Kardec, seu sobrenome. Outros brazucas diziam que sonhavam que o jogo ainda não havia sequer começado. Reinventavam o tempo. Fazê-lo passar ao contrário, transformando aquilo que houve em algo que não tenha ainda havido, por favor! Impossível. Essa é a tragédia, esse é o maior dos velórios já presenciados num campo de batalha esportivo.
Por falar em tempo que, parece não fluir, não joga para frente, Ghiggia, nosso carrasco para sempre, permanece vivo. O único sobrevivente jogador que esteve na linha de frente naquele amaldiçoado jogo. São quase 87 anos vividos naquela terra e cujo tempo parece ter sempre os mesmos 11 minutos finais semelhantes aos minutos transcorridos de 1950. Ele, um inveterado patriota, bebe um reluzente Tannat, sorri, e ainda joga com essas histórias. E lá vai o ponteiro certeiro direito da celeste...
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