Utilidade pública até porque ainda está em cartaz.
Eu sou um grande ator. Eu sou meus próprios personagens.. Meus próprios homens, mulheres, gays, travestis, fascistas, corruptos, apaixonados...
Faz mais de 3 décadas que três amigas (uma delas foi a minha tutora para estudos, minha mestra, infelizmente, morta aos 44 anos. Há 20 anos) escreveram uma peça sobre os últimos dias da vida de Marcel Proust.
Juntamente com elas, em grupo de estudo, atravessei a obra do escritor francês. São sete volumes. E no último, O Tempo Redescoberto, acontece um Revirão. O último se torna primeiro e vice versa. Assim como num outro volume, creio que 'No caminho de Guermantes' , em que a descrição do laço de fita da Madame Verdurin, personagem do livro, leva páginas e páginas. Leitor entediado, orientadora atenta e brilhante. Avisa: 'Está tudo lá. Condensado no laço de fita daquela senhora.' A travessia é bastante custosa e Proust tem estilo singular.
O filósofo, também francês, e morto ao se jogar de uma janela parisiense, Gilles Deleuze, teorizou sobre a obra do seu compatriota naquele livro , Proust e os Signos. Proust nunca foi meu autor mais querido. Na verdade, acho até chato o que chamei, equivocadamente, de prolixia mas a Adriana ítalo, minha saudosa mestra, era ardorosa admiradora. Nunca tive coragem de lhe dizer isso. Até porque, por certo, ela bem sabia.
A peça chegou a diretores importantes de teatro e cinema do Brasil. O ator convidado para interpretar o Proust era muito amigo delas. Um dos melhores atores, para mim também, desse país estranho: Edwin Luisi.
Edwin fez uma leitura da peça, à época, sem ainda ter tido contato com os livros do escritor francês. Incorporou tudo como se fossem íntimos, amigos próximos. Aliás, outros amigos próximos leram e fizeram observações:
- Falta um quê de nó dramático- teria dito um bem conhecido diretor e ator de teatro, televisão.
Mergulhado em estudos do meu campo e campos de interlocução , sabia sobre o Nó Borromeano, o Nó da gravata que não costumo usar... Porém, nó dramático.,,, O que seria?
É definido, o nó dramático , como o ponto em que as tensões e conflitos dentro do objetivo de cada personagem atinge o ápice seja numa peça teatral, texto cinematográfico, drama televisivo, etc. Porém, resolvido os nós, a leitura que ele fez causou impacto em todos os que testemunharam aquela incorporação do personagem. Atores quando são bons atores costumam ser camaleônicos e trocam de pele. Edwin é um desses. Na peça sobre Proust não houve montagem. Nunca estreou. Apenas um jornalista que apresentava o programa da Tv Cultura, Roda Viva, através de um amigo , também jornalista paulistano leu e adorou. Não sabemos se ele tinha sido ou fora depois secretário de cultura da cidade de São Paulo na gestão do Paulo Maluf. O jornalista em questão agiu de maneira muito cordial, interessado, mas havia uma crise econômica pesada , Lei Rouanet não existia ainda ou se havia era ainda incipiente.
Contudo, sobretudo, que privilégio mais uma vez poder assistir ao seu trabalho, após tantos anos, e sob a direção competentíssima de Herson Capri. São colegas de longa data. O texto é contemporâneo. Uma espécie de drama-trágico, comovente, mas com muito humor, apesar das barbáries que um travesti-ator teve que passar e se submeter na Alemanha hitlerista, segunda guerra mundial
Edwin faz vários personagens, Ao menos 5 ou 6. Outras mulheres e outros homens . Além de Charlotte . A principal personagem.
Ele é camaleônico. Habita na pele um ator. Um grande ator.
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