Marcadores

quinta-feira, 21 de março de 2019

Nossas políticas e suas inconsequências.


Esse texto foi influenciado pela leitura de um livro despretensioso, porém, muito esclarecedor e delicioso de se ler, do escritor gaúcho, Paulo Schmidt, ' Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República'. Editora Leya/2016-2017.

     O marechal Deodoro da Fonseca resolveu trair o imperador. Até aí, nenhuma novidade no 'front'. Se por aventura, o traído não fosse um imperador importante e seu antigo amigo, ainda por cima, correligionário. Isso ocorreu em novembro de 1889. 
                 Pressões anti-abolicionistas, cafeicultores vorazes, latifundiários gulosos, os mineiros e suas minas, e mais ainda, os paulistas. Acrescidos dos privilégios a sustentar mimos plutocráticos, somando-se a uma disputa amorosa com o Sr. Silveira Martins. Um político influente e protegido pelo Império. Aliás, um grande Imperador: Pedro II.
                   A disputa envolvia uma jovem e bela senhorita. Era amante de ambos, a gulosa. Mas as razões do seu coração optaram pelo rival do traidor do Imperador. Esse Silveira arrebatou-lhe o coração e outras formações corporais. 
                   Gosto não se discute. É extremamente difícil estabelecer um ponto comum. São tantas as razões estéticas em jogo que não haverá condições muito favoráveis nem tampouco ferramentas para mensurá-las.            Portanto, abaixo a Monarquia! Foi o que fizeram. 
                   A recém proclamada república brasileira- final do século XIX- começa mais ou menos assim.     Alguém que jurava lealdade ao então chefe de governo e homem sério, culto, brilhante, comportou-se como um sargento raso. Contemporâneos seus afirmavam que nem ao menos era respeitado pelas tropas. Renunciou ao mandato tempos depois. Talvez tenha sido o seu gesto mais nobre.
       Esse Deodoro era uma espécie de Sarney do século 19. É bem provável que exitasse também ao ficar convictamente de pé quando solicitado, por efeito de uma votação qualquer, uma decisão em grupo, na espada, sabe-se lá. Explica-se: algumas votações no Brasil - no seu parlamento- já no século XX, solicitavam aos votantes presentes que ficassem em pé, posicionando-se assim a favor ou contra determinado projeto ou moção. Por conseguinte, os demais deveriam permanecer sentados. 
     No fim dos anos 50, século XX, um jovem deputado nordestino ficava de cócoras, vez e sempre, durante essas votações. Mas por quê? Ele espiava diligentemente como se movimentava o plenário para depois se posicionar com a maioria triunfante. Recebeu o apelido de 'Zé Bundinha' por conta dessa coreografia tão sua. 
     Teria o Fonseca, Marechal, feito algo semelhante capaz de influenciar futuros mandatários? Teria feito série, essa coreografia oficial? Não há registro conhecido ou divulgado. Quanto ao 'Zé Bundinha' , voltaremos ao personagem daqui a um século. Passa rápido, no contexto de um texto.
     Proclamada então a Velha República, houve uma sucessão de presidentes incompetentes.
   Floriano Peixoto, também marechal (patente mais elevada do exército brasileiro e que há muito deixou de existir), e que assume a presidência, após a renúncia do farsante anterior. Era  visto como sanguinário. Relembremos o massacre que comandou (Guerra de Canudos, Bahia) contra os maluquinhos beleza - inspiração para um poeta da MPB, décadas depois, - capitaneados pelo apóstolo de então, o mítico, Antônio Conselheiro.
                   No cinema, também uma invenção do século XX (Irmãos Lumière) , o ator José Wilker fez um dos seus melhores personagens ao vestir a pele de Conselheiro. Tudo isso se fez possível- o nosso conhecimento sobre esse importante fato e o desbravamento daquela aridez sertaneja-  graças a uma das maiores e mais difíceis obras literárias jamais escrita: 'Os Sertões' do engenheiro, Euclides da Cunha. Assassinado por mais um sargento. Muito bem-apessoado como se dizia à época. O coadjuvante que mata o gênio. A esposa que não entendeu coisa alguma. Ou teria ficado muito entediada? O Brasil se recusa a respeitar hierarquias.
                    Floriano foi tão sanguinário que durante um certo tempo a população de Florianópolis quis mudar o nome da capital de Santa Catarina. Sentia-se ofendida com essa suposta honraria.
Floriano, um alagoano que fez carreira no Rio, capital federal nesse período, morre em Barra Mansa, interior do Estado, e vizinha de Volta Redonda. Cidade do interior fluminense e que é mais conhecida pela existência da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). 
Na sequência, o primeiro presidente civil do Brasil: O senhor Prudente de Moraes. 
Já faz algum tempo que se tornou nome de rua, em Ipanema, zona sul do Rio. Somos vizinhos desde o tempo em que nasci. Devem existir outras homenagens pelo país. Nome de rua supostamente é homenagem. Uma patota de 'floripa' não concorda com isso.
Versões e versões fazem uma certa história. Em algum autor imprudente, teria lido que ele morreu louco. Sim! O primeiro presidente civil do país, paulista de nascimento e muito zeloso com os benefícios concedidos aos ricos e poderosos da região sudeste (sobretudo, Minas e São Paulo), havia morrido insano. Não. Ele não morreu amalucado.
Segundo outras fontes, ele morreu mesmo de morte morrida já que não gozava de boa saúde. 
Chama-se isso de morte natural...
                    Aos cinquenta e poucos anos, aparentava quase oitenta. Porém, segundo certas fofocas, ele foi austero e conseguiu conter um pouco a fúria militar deixada por Floriano. Inclusive, recomeçou as relações diplomáticas com o Paraguai, após aquela guerra covarde. Uma outra controvérsia.
Informações oficiais sempre deram conta de que o responsável pelo conflito teria sido a megalomania expansionista do ditador paraguaio, Solano Lopes, provocando assim uma tríplice aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai (aliança mal explicada), e que na verdade escondia a pressão britânica na região, incomodada pelo poderio que a indústria têxtil paraguaia possuía. Algo ignorado pela maioria das pessoas.
O Paraguai nessa época era uma potência nesse ramo. Concorrência, portanto, que os piratas imperialistas anglicanos não permitiam e ainda por cima tinham poderes bélicos e financeiros para atrapalhar os negócios do país vizinho ao nosso. Logo, a gente entende um dos porquês de o Mercosul funcionar como funciona. Desde sempre, temos tradição de subserviência às potências do Hemisfério Norte. Subserviência mental, sobretudo. Afinal, somos ou não somos pretensiosamente o máximo, aqui no Sul da América? Ou seríamos um monte de fodidos que comem carne seca- que pode ser bastante saborosa- , mas pensam que se trata de iguaria nobre e cara? Nossa resistência em assumir, e tentar destruir, muitas das nossas riquezas culturais, intelectuais, apontam para isso.
A sucessão continuou oscilando entre Minas e São Paulo. Houve Afonso Pena- mineiro- Nilo Peçanha e Campos Sales - que segundo o autor gaúcho, Paulo Schmidt, tentavam disfarçar o fato de serem mulatos. Envergonhavam-se por isso. Quando é que alguém pode fazer um governo de excelência funcionando mentalmente dessa forma? 
Contudo, há quem defendesse o mandato de Sales- apesar da truculência- no que diz respeito à probidade no uso do dinheiro público. Houve cortes de gastos, demissões, redução no número de servidores públicos, ou seja, medidas impopulares - normalmente benéficas num futuro próximo-, porém, demonizadas pelo sedento imediatismo da massa incauta. Corroborada, a bem dizer, pelo oportunismo das oposições. Deixou, o paulista Campos, o Palácio do Catete, sob uma chuva de tomates. Seu sucessor foi um outro paulista. Dessa vez de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba: Rodrigues Alves. Schmidt não alivia a cara de ninguém em seu 'Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes'. Com a nobre exceção imperial de Pedro II e a acadêmica gestão de FHC. Concordo com ele. Mas acrescentaria nessa lista o segundo Getúlio, que viabilizou um JK ambicioso no melhor sentido das ousadias, mas também um primeiro mandado de Lula, surpreendente, que, após o término do mandato, infelizmente, revelou-se enganador. O segundo mandato de FHC também deixou muito a desejar. 
A figura do intelectual sério, contemporâneo, brilhante, poliglota, democrata, flexível, não foram capazes de evitar tantos estragos. Na gaiola das loucas que se tornou o PSDB, uma boa dose de arrogância, soberba (o pior dos pecados para os cristãos), mesclada com futricas, omissões e também- reveladas pelo tempo- seríssimas irregularidades, provocaram as derrotas seriais e contundentes que sofreram. E ainda sofrem. Hoje, temos as prisões de correligionários seus e condenações dos 'senhores' que controlavam o dinheiro das campanhas milionárias do partido.
Voltando à Velha Republiqueta, Rodrigues Alves, segundo diversos autores e ao contrário do libelo de Schmidt, foi um bom mandatário. Sobretudo, para a capital federal. Nesse caso, nessa época, o Rio. À essa altura, a gestão de Rodrigues Alves iniciou o processo de industrialização da cidade/estado. O vice-presidente desse outro paulista mandatário era Delfim Moreira, um mineiro. Dizem que esse, sim, era maluco. Morreu por um erro médico. Exageraram na morfina e o sujeito apagou. Tinha somente 51 anos.
Naqueles tempos, uma pessoa de 51 anos já era um senhor. Perspectiva de menos tempo de vida diante de um '´déficit' tecnológico, farmacológico, hábitos alimentares, sedentarismo, entre outros, contribuíam para esse envelhecimento que, hoje, seria datado de precoce. A epigenética e um monte de coisas que desconhecemos, e que não impedem que existam, mudaram expressões de certos genes. E a tecnologia avançou em sua terapêutica farmacológica. Além do quê, o relógio do tempo- ficcional, mas aí está-  acelerou. Universo em expansão, entropias, fractalizações, aceleradores de partículas.... Os cosmólogos apresentam suas teses.
Hermes da Fonseca, Venceslau Brás e até um paraibano, Epitácio Pessoa, ocuparam a presidência da República. Artur Bernardes foi o último mineiro, antes do paulista Washington 'galã ' Luís, a tomar conta da nação, nessa fase do café com leite e outros quitutes.
O 'Compadre' Washington era garboso e tinha uma amante de 20 e poucos anos. Uma chamada 'DR'- aquela conversa necessária entre casais- terminou tragicamente. A moça lhe enfiou uma bala no abdômen e depois cometeu suicídio, lançando-se do alto do prédio em que vivia. O presidente foi internado para uma suposta cirurgia de apêndice. A censura às informações oficiais vem de longe. Até hoje, o Brasil é considerado um dos lugares que mais retém informações oficiais aos seus habitantes.
O sucessor deveria ser- na ordem do rodízio- um mineiro. Mas o bonitão, atingido por uma bala amorosa, queria eleger o governador de SP, Júlio Prestes. Por sua vez, o nome que o antecessor, Artur Bernardes, desejava era o do político mineiro, Antônio Carlos. Impasse. O então ministro da Fazenda e que confessara que nada entendia sobre essa pasta, caminhava com Bernardes. Chamava-se, Getúlio Vargas ou 'O Gaúcho'. Quem sabe poderíamos frear os ímpetos golpistas de Pinheiro Machado, conterrâneo de GV, e arrivista de bombachas. Influente político gaúcho desse período. O Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio, está situado na rua que leva o seu nome. Bairro das Laranjeiras, zona sul da capital fluminense.
 Então eis que um atrito regional, nordestino, causa o assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba. E o quê que a gente tem a ver com tudo isso? Os senhores e senhoritas não sei ao certo..., mas, eu me comprometi. Entenda-se: geneticamente, em alguma disposição cromossômica, ao menos, pois o assassino da Pessoa de Pessoa era parente meu. 
Um irritado cabra da peste de nome João Dantas. Rivalidade local, regional. Disputa por poderes. E a capital do Estado que 'Nega' mudou de nome: passou a se chamar João Pessoa.
Conspirações sempre integraram o jogo político e sua distribuição de poderes.
Ruy Barbosa, acima de qualquer suspeita e um dos intelectuais mais importantes do país, foi roubado em pelo menos três eleições presidenciais.

O Primeiro período Getulista.

Getúlio chega ao poder e no seu primeiro mandato, uma ditadura, combateu uma turma que se alternava no trono e queria, a todo custo, manter-se e conservar com força os privilégios. Uma classe média que, à reboque de uma oligarquia plutocrática, sempre se mostrou reacionária, racista, escravocrata. 
O Brasil foi um dos últimos países a se livrar da terrível mácula da escravidão. Sabemos, cinicamente fingimos que não, que de fato, ela ainda existe.
Em 1932, uma Revolução Constitucionalista fez ousadias. Foi sufocada. Em 1934, uma nova Constituição promulgada. O mundo à beira de uma guerra mundial, a pior da história 'moderna', harmonizava com truculências, nazi-fascismos, facínoras. O Brasil fez aliança com esses estados. Um dos líderes de oposição ao governo Vargas, o comunista Luís Carlos Prestes, morto em 1989, além de preso, viu o seu partido ser posto na clandestinidade. Pior: sua esposa, a estrangeira e judia, Olga Benário, foi deportada para um campo de concentração, na Europa. Estava grávida. Foi assassinada por lá. A criança, Ana Leocádia Prestes, sobreviveu e até pouco tempo era professora de História em Universidade Católica do Rio de Janeiro. Enquanto houve 'background', o chamado caudilho Vargas comandou o país.
Em 1945, uma nova geopolítica se estabeleceu.  Eleições à vista. Um general esquisito e que devia muito ao seu antecessor, Getúlio Vargas, vence as eleições onde o candidato de oposição, um Brigadeiro (segundo o slogan: bonito, jovem e solteiro) era a atração principal da disputa. Vitória dada como certa e eis que, ganhou Getúlio. Ou melhor: o seu candidato.
O general Dutra ficou mais conhecido por batizar aquilo que se tornaria a rodovia mais importante do país: a Via Dutra. Àquela que promove a transa, aquele sexo de vai e vem de pernas mecânicas, automotivas, entre o Rio e São Paulo. Por certo, houve muito mais do que isso nessa gestão, mas segundo Paulo Schmidt, o 'presidente rodovia ' fora insignificante e ainda por cima se expressava muito mal. Pouquíssimo carisma, e ainda por cima, era bastante feio.
Para não ser tão cruel com todos eles, o autor gaúcho citado livra a cara do cearense, Nilo Peçanha. Vice de Afonso Pena e que morreu antes de terminar o mandato. Ele só o critica pelo fato de ter se envergonhado a vida toda das suas origens afro descendentes.
Curioso que grande parte da população brasileira só pensa o Brasil a partir de Getúlio Vargas. Também conhecido como o 'pai dos pobres'.

O Segundo período de Vargas e o início dos 50 anos em 5 (Juscelino Kubitschek).

Foi no segundo mandato de Getúlio, 1950-1954, que as leis trabalhistas foram promulgadas e avanços sociais conquistados. O país vai aos poucos deixando de ser tão ruralista e vai conquistando as capitais. São Paulo alternou com Minas Gerais o poder político da nação e na segunda metade do século 20 assumirá a condição de Estado mais rico da Federação. E houve alguns historiadores que proclamavam que a prosperidade do Estado de SP teria se dado à revelia da sua força política. Um grave erro.
O segundo mandato do caudilho de São Borja foi marcado por uma oposição ferrenha do seu maior adversário, o conterrâneo, Carlos Lacerda. Lacerda, líder da UDN, era uma espécie de Pinheiro Machado dos anos 20, 30. Apelidado de corvo, era um conspirador nato. 
Anos depois, quando se elegeu governador da antiga Guanabara, fez um excelente governo. Retornara do exterior, após o suicídio do velho Vargas. Lacerda e sua turma protagonizaram uma das maiores perseguições políticas até então declaradas. O que era mentira ou calúnia se mesclaram. 
A família de Vargas já o abandonara. O único que lhe permanecera fiel era o motorista/secretário/segurança, apaixonado (sem nenhuma conotação vulgar), Gregório Fortunato.
Ao morrer, o pai dos pobres, deixara tão somente uma pequena propriedade no Rio Grande do Sul e um apto ainda em construção, aqui no Rio.
Aos 24 dias de Agosto, madrugada de 1954, no Palácio do Catete, então residência oficial do Presidente da República, o homem de São Borja estourou os peitos com um balaço que o fez deixar a vida e entrar para a história, segundo sua carta testamento. O pijama que trajava na hora do suicídio permanece exposto no Museu da República, antigo Palácio do Catete, onde se deu o fato.
O tal de Gregório tinha armado um atentado contra a vida daquele corvo. Segundo alguns especialistas, um corvo pode ser abatido através de singelo estilingue. Mesmo que sejamos contra essa violência contra certas aves que, não atrapalham, esse corvo resistiria a uma boa estilingada. E o que aconteceu de fato foi pura simulação. 
Lacerda, segundo investigações e evidências posteriores, atirou no próprio pé simulando a simulação. O tiro que Fortunato disparou atingiu o militar que tentara defender Carlos Corvo, aplicando uma gravata no Fortunato Fiel. Acertaram-no mortalmente. Hoje, o major Rubens Vaz está imortalizado, metamorfoseado de túnel. Aquele que leva o seu nome e que desliga a Rua Tonelero acionando a Rua Pompeu Loureiro - ambas em Copacabana-, e que por sua vez acessa o Cantagalo, a Catacumba, a Lagoa Rodrigo de Freitas.  Lagoa essa que poderia ser chamada de Laguna, segundo alguns geógrafos, pois ela recebe água tanto de rios quanto do oceano. Sendo assim possui água salobra. Mistura de doce com sal.
Acabou o governo e assumiu o vice. Um traidor pequeno para muitos adversários. Um café requentado, o norte rio-grandense, Café Filho.
Nesse caso específico vale mais uma observação mediante informação familiar. Café Filho- que devia a Getúlio Vargas quase toda a sua carreira política-, havia convidado meu avô paterno para um evento social. O convite foi recusado. A intriga diz que por um problema familiar de saúde, sabido previamente por quem fez o convite ao também norte rio-grandense conterrâneo, o nosso avô não pode ir e tampouco iria. Afinal, sabia-se da proximidade e bem querer que ele tinha por Getúlio. 
Tempos depois, quando Café se escondeu e Carlos Luz assumiu, um convite - do lado de cá da família- foi feito ao então ex-presidente. Por razões mais ou menos óbvias, o convidado não apareceu. Melhor dizendo: driblou qualquer norma de etiqueta razoável e sequer respondeu. Também conhecia de políticas e suas grosserias.
Houve também o Nereu Ramos (também próximo até do meu pai num momento futuro),  e que virou presidente porque o Luz obscureceu e pulou fora. Luz era uma espécie de Rodrigo Maia de então. O terceiro na linha sucessória. O Brasil tem essas peculiaridades.
                    Conspiraram então contra o mandatário mais popular e querido de todos os tempos, e após o suicídio que comoveu toda a nação, não seguraram os graves efeitos colaterais previsíveis. 
O Corvo Lacerda também se exilou na Europa por um tempo. Não esperavam pelo ato certeiro do presidente suicida. Acabava ali com os planos de Lacerda e de outros militares candidatos pelo sonho da presidência. Os milicos que chegaram ao poder o fizeram a partir de um golpe de estado - o quarto golpe desde a proclamação da república, incluindo essa traição ao Imperador Pedro II, a de 1932, a de 1964 e a de 2016, recentemente. 
A bem dizer, Lacerda é considerado por muitos, até hoje, um dos melhores governadores que o Estado já teve. Governador do antigo Estado da Guanabara. 
Ficou marcado por grandes obras realizadas. Muitas delas de infraestrutura - o que é raro por aqui-. Afinal, o brasileiro não enxerga por baixo da terra, por dentro dos canos, pelo alto das encostas que desmoronam. Não percebe que uma boa gestão se apresentará nos anos subsequentes; seus benefícios. Também não são poucos os cariocas e fluminenses (dentre eles estão professores e médicos) que elogiam o governo do maior algoz de GV. 
Numa prosa despretensiosa de boteco falador, o interlocutor amigo demonstra a sua admiração ao fazer uma pausa e advertir: 'Cuidado com a intimidade. Pode ser perigosa. O nome do prezado governador é Carlos Frederico Werneck de Lacerda'.
Sebastião Nery, jornalista atento às histórias e historietas do país, relembrou, certa vez, que Leonel Brizola ao falar do ex-governador e seu desafeto político, mencionado acima, dizia: ' Aquele Sr. Carlos Frederico’.
O Brasil pós Getúlio viabilizou um Juscelino mineiro que prometeu transformar o que poderia ser feito em cinquenta anos em apenas cinco. Era um entusiasta, empreendedor e visionário para os desafetos. Visionário numa conotação negativa.
Eugênio Gudin- economista dos mais notáveis, liberal de formação e ex ministro do Café Pequeno, sempre disse que a dívida externa brasileira começara com a construção megalomaníaca de Brasília. 'Obra daquele 'ex-médico' , dizia. Ficava estupefato com o fato de que grande parte de tudo o que fora transportado para a construção de uma cidade, nova capital e no meio do país (Brasil Central/ Goiás) , tinha sido realizado por meio de transporte aéreo. O óbvio ululante- diria Nelson Rodrigues. São mais de 1.200 km de distância que separam o Rio de Janeiro de Brasília. Pelas rodovias o tempo gasto seria enorme. E o país não dispõe de malha ferroviária adequada, suficiente. Seria muito mais econômico se possuísse tal meio de transporte. Tal como acontece em países mais desenvolvidos. Além da necessária mudança da maior parte dos servidores públicos federais, funcionários públicos, sem contar os respectivos membros dos 3 poderes governantes: legislativo, executivo e judiciário. 
O professor Gudin, conterrâneo carioca, viveu 100 anos. E até o fim, foi crítico contumaz das peripécias de JK.
O presidente bossa nova tomou posse na segunda metade dos anos 50. Retirar a capital do então Estado da Guanabara era uma questão central de sobrevivência política e de governança. Não foram poucas as tentativas para derrubá-lo do governo. Militares aliados com a oposição chegaram a cercar a cidade do Rio com navios de guerra ancorados na praia de Copacabana prontos para o ataque. Conseguiu resistir, e mediante um sonho, acrescido de um pedido vindo de um popular, num comício seu, ergueu a capital em 1960, num 21 de Abril. José Joaquim da Silva Xavier, outro mineiro, passa a ter essa companhia feita de sonhos, suor, delírios, genialidade arquitetônica (questionada por muitos) , secura e tantas outras coisas, num feriado nacional.
Qualquer cientista político responsável sabe que uma capital localizada em área oceânica corre mais riscos de sofrer um ataque naval. As muitas tentativas para derrubar o governo de Juscelino e a tradição brasileira em conspirar e destruir governos dos outros continuam latentes.  Sobretudo, com o crescimento já desenfreado, sem planejamento urbanístico pertinente da então capital federal, o governo ficava cada vez mais exposto. Até a primeira metade do século passado, o Rio de Janeiro, capital, tinha maior poderio econômico e população maior do que São Paulo. Assim como o Estado de Pernambuco foi o mais desenvolvido e próspero no século 18.
Juscelino promoveu então - assim como no mandato de Rodrigues Alves - um segundo salto desenvolvimentista industrial no Brasil. Antes agrário, o gigante sul americano - ao menos territorialmente-  começa sua migração para as capitais. Tentaram derrubá-lo - militares- mas o visionário mandatário com a ajuda do seu ministro da guerra, o empedernido e rígido, Marechal Lott, conseguia abafar e aniquilar com esses movimentos revoltosos. 
Defensor da democracia e construtor de obras e ilusões, JK preparou o solo para sua sucessão. Temeroso, ressentido com algumas lideranças militares toma uma decisão temerária e que custaria duas décadas e meia de atraso, tirania, direitos civis cassados, corrupção, impunidade e outros desastres. Não apoia a candidatura do seu subordinado, que apesar de militar, era seu ministro e pessoa confiável, apesar de excêntrico -segundo fontes seguras.  Apoiou então uma chapa esdrúxula que trazia João Goulart - jovem vistoso, fazendeiro rico e que fora lançado na política pelo conterrâneo e fantasma presente, Vargas-,  e um populista paulista que vinha crescendo regionalmente nas terras bandeirantes, considerado por muitos imbatível nas urnas. Inventara um modo distinto de fazer promessas e remendos sempre malvestido, mal trajado. Apelo populista, caricato. Fez história e discípulos.

Jânio/ Jango. E o Pós 1964.

Meu pai me relatava com certa ironia de espantos que, numa certa tarde, estando em São Paulo a trabalho, convidado por um amigo, assiste a um comício no Vale do Anhangabaú desse 'novo' personagem. Sanduíche de mortadela nas mãos, identificava-se com os populares. Porém, muitos ignoravam o fato de que ele já tinha se refestelado num banquete bancado por empreiteiros solidários. Aliás, empreiteiros que lhe permaneceram fiéis até o fim.
Nessa época, podia-se votar para vice-presidentes - de partidos diferentes-  e a chapa conhecida pela simpática alcunha de Jan-Jão venceu com facilidade as eleições. Jânio Presidente e seu vice, Goulart. Mal se falavam. Um não respeitava o outro. Jânio referia-se ao seu vice com uma das suas muitas expressões em desuso e inabaláveis mesóclises. Dir-se-íamos então que Jânio chamou Jango de mamparra, matumbo. O que na linguagem dos homens chamar-se-ia amador.
Perfeita a intuição do professor de língua portuguesa. O único senão é que todos eram amadores. O vice e o povo que os elegeu. Jânio Quadros renunciou ao mandato pouco tempo depois, segundo sua particular razão histérica, por pressão de forças ocultas... 
Forças ocultas são forças normalmente recalcadas e mantidas na escuridão do inconsciente. Toda boa neurose, naquela vertente histérica/histórica conhece, mas finge que não.
Segundo alguns historiadores e cientistas políticos, Jânio renunciou porque queria dissolver o parlamento federal e estabelecer uma ditadura. Diziam sobre a viagem realizada para Cuba, algum tempo antes, e que o esposo da Dona Eloá  teria ficado fascinado com a multidão de populares cubanos que, diante da ameaça de renúncia por parte de Fidel Castro, após a tomada do poder em 1959 ( quando puseram fim ao cassino de Batista e de muitos estadunidenses e estabeleceram uma ditadura de esquerda que perdura até hoje , só que com outras marionetes, já que o grande líder morreu recentemente) , ocuparam as ruas da capital caribenha, Havana, e exigiram o seu retorno ao cargo. 
Jânio revela, através dos seus atos, que também praticava certo amadorismo visto que não conhecia muito bem o povo brasileiro. Brasileiro é uma formação maneirista (conforme nos indica o pensamento de Magno Machado Dias) - uma terceira via que não clássica nem tampouco barroca, nem tampouco uma mistura das duas e também gaiata, macunaímica, vira-lata, brejeira, traiçoeira, malandra, criativa (logo, inteligente), multicolorida, violenta, desavergonhada. E do ponto de vista político, digo eu, que costuma virar as costas para o que deposita na urna. Hoje, não mais depositado, e sim, teclado. 
Uma boa parte dessa turma- que somos nós- costuma votar e se livrar do que acaba de fazer. Depois, retira o seu da reta. Uma amnésia calculada por um cinismo tropical singular.
Assume Jango e sua primeira dama, Maria Thereza. Lindíssima por sinal. Teria sido marxista? Pouco provável.
Jango tentou iniciar uma reforma agrária. A começar pelo seu estado natal, o Rio Grande do Sul. No seu time ministerial havia um parente: San Tiago Dantas. Deputado, jornalista, embaixador, ministro das relações exteriores, ministro da fazenda. Gosto mais de chamá-los de ministro do tesouro ou da bufunfa.
Tentou salvar o governo atrapalhado e confuso do vice que assumiu após a renúncia do velho amalucado. Chegou a ser nomeado para o cargo de primeiro ministro- pois o parlamentarismo estava vigente com Tancredo Neves ocupando o cargo- mas nada disso evitou que se pudesse salvar um governo que também não o queria muito. Jango viajava para a China comunista quando O rei das mesóclises (a escritora Hilda Hilst 'adorava' os adoradores de mesóclises) renunciou nesse período. Pegou sua vassoura - guiada por forças 'ocultas'- e partiu, mandando o Brasil para a 'puta que os pariu'. Não havia prova de DNA nesse período. Melhor para Jânio. Pior para a gente.
Naquele 31 de Março, o comício no centro do Rio, diante de um QG do exército. e o mancebo presidente do Rio Grande mais ao Sul desafiando os militares que já estavam a postos, faz tempo. Pelo menos nas Minas Gerais do Sr. Magalhães Pinto, Governador do Estado mineiro, banqueiro milionário e um dos líderes civis do golpe que se seguirá.
Resumindo sem rodeios: chamou para a porrada um punhado de tanques portando tão somente a bela figura de sua esposa, ao lado no palanque, e alguns meganhas com estilingues. Entramos na era obscura, inspirada por uma segunda grande guerra recente - a maior carnificina que se tem notícia- fascista, racista, xenófoba, lunática. A ditadura militar que prometera ser rápida, era essa a intenção do Marechal Castelo Branco, cearense, e rival de Lott, pois estabeleceriam uma 'ordem' para afastar de vez a ameaça comunista- um fetiche cultivado pela maldita Guerra Fria entre EUA E URSS (A guerra da Coréia acabara fazia pouco tempo e o Vietnã seria a próxima estocada estadunidense). 
O Vietnã tornou-se uma vedete Hollywoodiana nas mais diversas versões. Até comédia se fez sobre o tema. Mas aquelas bombas que arrancavam a pele das pessoas, depois de queimá-las, não faziam rir. Como de costume, os estadunidenses subestimaram seus adversários e não contaram com a resistência extraordinária das formações primárias dos asiáticos para suportar tamanho poderio bélico.
Castelo Branco - rival do marechal Lott na escola militar, assumiu a presidência e prometera um período curto de intervenção militar. Pretendia inclusive convocar eleições. Morreu num acidente aéreo. Até hoje, restam dúvidas e mistérios. Um outro filme.
Veio Costa e Silva e sua Yolanda. Quando teve um derrame, garantiam que era ela que passara a governar o país.  Ali, começa o período mais difícil. Fechamento do Congresso, fechamento das bocas, ideias, da lucidez. A sigla famigerada; um AI-5. Ato institucional número 5. 
                    O gaúcho ou 'o Costa’, o modo como dona Yolanda o chamava, inicia a fase mais cruel da ditadura. Sua esposa- que segundo as pesquisas de Paulo SCHMIDT- era comparada àquela personagem de Shakespeare, a temerária, ardilosa e cruel, Lady Macbeth, aprontou tanto- até mesmo na sua vidinha pessoal para além do corte e costura das recatadas primeiras damas-  que é acusada de ser a principal personagem, ou melhor, a causa do AVC que matou o gaúcho, Costa. Seu atrapalhado marido.
O milionário e hoje preso residencial terminal, Paulo Maluf, ainda nos relatos do outro Paulo, Schmidt, escritor e também gaúcho, foi alçado para vida pública através dos pedidos da primeira dama a quem oferecia regalos. Era Maluf quem pagava as dívidas de jogo do presidente Silva, apagando as pistas deixadas pelo rombo escandaloso nas suas finanças pessoais.
Morto, os colegas de farda e ditadura nomeariam uma junta militar. Porém, mantendo a direção progressiva da perversidade, recorreram ao chefe do Serviço Nacional de Informação, SNI, General Médici. Considerado o mais cruel dessa trilogia inicial. Inventou um milagre econômico que, durou muito menos tempo do que o que se confabula hojendía, para garantir uma dose de seriedade ao candidato militar à presidência do Brasil, em 2018. Durou muito menos. A ignorância perdura bem mais.
Direitos civis cassados. Lábios cerrados. Imprensa retalhada ou cumpliciada. Prisões, torturas, assassinatos. E corrupção. Todos eles deixaram seus familiares ricos financeiramente. Escândalos como Coroa Brastel, Capemi, mega obras super faturadas, canais de televisão e rádio ( que são concessões públicas ) distribuídos à granel,  mantendo-se assim a indestrutível plutocracia patrimonialista brasileira. Uma sacanagem quase perfeita porque não havia possibilidade alguma de investigação. Opiniões, escolhas, quereres, teses amordaçadas, recalcadas. Silêncio e censura nas redações.
Veio um outro. O quarto e com jeitão de alemão. Creio que era descendente. Não fiz pesquisa qualquer. Foi vizinho, bem próximo, aqui em Ipanema. Mas há quem me diga que ele detestava o Rio.

Geisel/ Figueiredo. Diretas/Indiretas.

Foi no seu mandato que houve a fusão desastrada do antigo Estado do Rio, capital Niterói, e a Guanabara. Chagas Freitas nomeado governador. Chamo-o, carinhosamente, de 'Doença de Chagas'. Enquanto digitamos, a palavra teratológica surge na tela do imaginário. Teratológica ou monstruosa. Absurda. Esse é o adjetivo para o patrimônio que, segundo pesquisas e denúncias, um dos grandes latifundiários urbanos do país reservou aos seus descendentes. E as favelas crescendo, a cidade decaindo. Tornando-se cruel, desumana, bárbara. Nessa época 'geiseana'.
Um dos prefeitos foi o Sr. Marcos Tamoio. Sua viúva residiu com as filhas numa das cobertura mais caras do país , até umas duas décadas atrás. Aqueles marcadores desse tempo contado em segundos, minutos, horas, também chamados relógios, que são vistosos por toda a nossa orla, e em outros cantos da cidade (marcadores digitais eram novidades para os anos 70) custaram uma grana teratológica, sem dúvida. O pior: não é fofoca. A farra irresponsável com o dinheiro público vem de longe. Quanto tesão em vilipendiar o país que se vive. Portanto, estamos estúpidos, faz século.
O que eles pensam? Supõem que estão imunes aos imprevistos, aos acidentes, às tragédias irreversíveis? Delirantes na sua onipotência e arrogância. 
Geisel tinha projetos e um ministério de excelências. Seu mandato foi marcado também pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Há poucas semanas, escândalos em forma de Dossiê emergiram dos calabouços fardados. Houve muita truculência e barbárie no seu mandato. E também errou ao superestimar e prolongar as produções da indústria pesada brasileira e com o aumento colossal das taxas de juros no mercado internacional, crise do petróleo, etc. Nossa dívida interna, fiscal, aumentou demais. Resultado: inflação sem freio. Mas como poderíamos supor que um governo em forma de bolha poderia agir de um outro modo?
Uma pequena digressão e vamos nos permitir uma analogia com o esporte mais popular por aqui: o futebol.
Em 1974, início do governo do General Ernesto, a tecnologia disponível nos mantinha 'confortavelmente'   a uma distância dos países acima do Atlântico- que hoje pode-se dizer- como daqui até  Marte. Mediante isso, e a nossa bolha fardada, a seleção desconhecia radicalmente o que acontecia com o futebol dos países baixos, especialmente na 'desconhecida ' Holanda. E o Ajax?  Poderia ser um personagem mitológico ou um produto de limpeza? Pode ser até um conjunto de técnicas para desenvolvimento de programas computacionais...Mas nesse caso específico, dizia respeito ao time de futebol de lá e bicampeão do velho continente. E o Van Gogh? O resultado por conta da nossa ignorância foi um olé de um dique ao outro. Principalmente, aqueles que desafiam leis da física. Zagallo, o maior nome vivo, ao lado de Pelé, da seleção brasileira no meu modo de reconhecer, caiu. Não no Mar do Norte, mas aos pés de um carrossel. O carrossel holandês do técnico Rinus Mitchels. Conhecido na Holanda como o 'General'. 
Esse tal time do Ajax, base da seleção nacional holandesa, nesse ano de 1974, feito um insignificante carrossel mudou para sempre o modo e as estratégias táticas de se jogar bola com os pés. Há quem diga que Pelé fez bem em não ter ido àquela competição mundial. Foi um baile de girassóis. 


Figueiredo,  Um João.

Depois, surgiu uma abertura, cavalos, cavalgaduras, eleições para o parlamento e governos estaduais. Um outro egresso do SNI -comandante general- carioca, torcedor do Fluminense, Figueiredo, mais um João. Que na bolha - iniciando um furo através das anistias políticas para quem foi expulso do país - resolveu proteger a reserva de mercado e não entendeu a computação. 
Decidiu produzi-los por aqui. Só que a herança recebida não permitia esse tipo de isolamento e rigidez. O país engatou a marcha ré definitivamente. Foi talvez um dos governos mais corruptos daquele período. Houve até ministro da justiça contrabandista de pedras preciosas, segundo a impressa divulgou por diversas vezes. Isso, depois que o regime já tinha acabado no câmbio oficial. Só que no Brasil, temos três cotações. Uma lembrança:
Residi na capital federal do Centro Oeste 'Juscelínico' na metade do 'Governo' Geisel e quase todo 'Governo' Figueiredo.
Lembro-me desse início dos anos 80 e dessa grande e importante novidade que era a anistia política, iniciada no fim dos anos 70 . E que conduziria de volta presos políticos e exilados durante a ditadura militar, inaugurada em abril de 1964.  Retornaram Brizola, Gabeira, Miguel Arraes, César Maia, José Dirceu, Fernando Henrique, José Serra, o sociólogo Betinho e o seu irmão Mário. Dentre muitos outros compatriotas.
O governo foi uma confusão. Uma gestão que se tivesse sofrido investigações- impossíveis num regime assim- análogas às lavas jatos contemporâneos, teria despencado também.
Hiperinflação, reajuste de preços na calada da noite, atentados com bombas na ABL RIO e no Riocentro. Ambos com vítimas fatais. A anistia dos exilados políticos foi o ponto positivo do mandato.
O ataque no Riocentro , zona oeste do Rio, ocorreu durante um grande show de primeiro de Maio e que reunia a nata da MPB. Grande parte desses músicos/cantores/compositores eram aliados dos movimentos contra a ditadura e simpatizantes dos recém legalizados partidos de esquerda. Seria um massacre se os dois terroristas fardados e trapalhões não tivessem explodido os artefatos no próprio colo, no interior de um automóvel Puma. Um dos oficiais morreu no local. O outro vive em Brasília até hoje. Anos depois, descobriram que quase todas as portas de emergência do local, onde o evento se desenrolava, estavam trancadas. O que evitaria assim a saída do público e aumentaria o número de vítimas fatais. Trapalhadas podem vir para o bem. Mortes também...
Também houve eleições gerais, menos para Presidentes e prefeitos. Governadores, deputados estaduais e federais, senadores. Em 1982, alguns inimigos do regime elegem-se para 4 anos de mandato. Dentre eles, Brizola, no Rio; o ex-primeiro ministro Tancredo Neves, em MG- derrotando Eliseu Resende, ministro dos Transportes de João Figueiredo-; Franco Montoro, em SP, e por aí vamos.
O Brasil tem hoje cinco mil quinhentos e setenta municípios. Esse número aumentou demasiadamente entre os anos 2000-2016. Existem municípios brasileiros que não atingem os 4.000  habitantes. A população de rua de São Paulo e Rio são maiores do que isso.
Prefeitura dita a regra e os futuros eleitos no país. São as eleições mais importantes. Entendemos muito bem isso quando vemos o agora.

Comícios e suas Diretas.

E houve as diretas. Eu fui. Não. Não se pense que é um slogan para festivais de Rock, mas ao gigantesco comício diante da igreja da Candelária, centro do Rio, em março de 1984. Um milhão de pessoas aproximadamente. São Paulo saiu na frente, dois meses antes. Emenda do deputado do MDB de Mato Grosso, Dante de Oliveira, já falecido. Artistas da bola e da vitrola. De hoje e de outrora. Uma iludida e acomodada Sra. Esperança sacudia multidões.
E que será desfeita em abril, desse mesmo ano. Derrota no Congresso Nacional. A próxima eleição ainda seria indireta e marcada para janeiro de 1985.
O mineiro Tancredo Neves- o anticandidato- derrota o indelével, Paulo Maluf, paulistano. Candidato do PDS- antiga arena. Mas não era o candidato do general. O general bradou, e um dos seus capachos, diretor do serviço nacional de informação, SNI, levou a ferro e chicote, que não daria posse ao Sr. Paulo. Milionário e não muito honesto, Salim Maluf. Hoje, preso em sua mansão.
Dizem as línguas soltas que Figueiredo nunca gostou de Maluf pela intimidade excessiva e ajuda financeira que o político de SP dava a um desafeto a quem ele, Figueiredo, desprezava: o ex Presidente Costa e Silva e sua esposa determinada. Existem até aqueles que afirmam que a ex primeira dama, Yolanda, teria influenciado a digníssima Dulce, esposa do General João, em assuntos íntimos, matrimoniais. Ambos os matrimônios, segundo tantos biógrafos e línguas precisas, não eram dos mais exemplares. Mas isso é foro íntimo.
Tancredo ganhou?  Sim! Mas também não! Ele não levou. 
Tancredo adoeceu antes da posse. Para ser mais preciso, na véspera, foi hospitalizado com fortes dores abdominais.
A princípio suspeitava-se de diverticulite. Tempos depois, diziam que era um câncer. Teve médico especialista que afirmava que havia um tumor do tamanho de uma bola de tênis na região abdominal do presidente eleito.
Na eleição indireta que vencera contra Paulo Maluf houve rumores. As visitas aos chefes de governo internacionais que o presidente idoso fizera à Europa, no segundo semestre de 1984, não foram só para apresentar suas ideias e propostas para um novo país, Uma Nova República, mas também para consultas médicas.
O ex-deputado federal e cantor, Agnaldo Timóteo, pediu em plenário que os candidatos à presidência se submetessem a um exame médico rigoroso, a fim de mostrar ao país que tinham condições físicas e mentais para governar o Brasil.  Intuição?
Timóteo não envelhece. É uma espécie de Dorian Gray da canção popular.
Morto na mesma data em que Tiradentes- conterrâneo mineiro- foi assassinado, Tancredo Neves morreu num hospital em São Paulo, num domingo, à noite. Seu porta-voz, jornalista gaúcho, Antônio Brito, trouxe a notícia. Domingo de 1985. 
Saí para caminhar. Por volta de umas 22 horas e tristes minutos. Calçadão da praia deserto. Cidade calada em oitavas ruidosas.
Chegou, oficialmente, o vice: o maranhense, José Sarney. Aquele que levantava ou permanecia sentado- quando parlamentar federal aqui no Rio, aqui na Guanabara-  antes de votar. Um homem prudente. Eu prometi que ele voltaria em cem anos E ele ainda permanece...
O general João Batista Figueiredo não daria posse se o vencedor dessa enganação tivesse sido Maluf. Todavia, não daria posse também ao ex-aliado, José Sarney, e que se tornara desafeto. Tensão na sucessão.
O fato é que José Sarney, dinastia maranhense, assumiu e fez de tudo para ficar mais um ano - o mandato passou para cinco anos na sua 'gestão'- e conseguiu realizar um dos piores governos da história da proclamada Nova República. O mérito do PMDB, então MDB, e, agora, MDB, novamente, foi brigar pela recuperação de uma certa dose democrática na nação. Um feito que não é pequeno. Sobretudo, com a tradição de golpes de estado que por aqui se repetem. E não somente no Brasil, mas em todo continente.
Hiperinflação no fim do mandato, corrupção desenfreada- reveladas anos após o término dessa tortura- , dezenas de greves gerais convocadas pelas centrais sindicais, sob o comando de Luís Inácio Lula da Silva; desabastecimento de produtos de gênero alimentício, combustíveis e  outros; criação de vários ministérios visto que Sarney entendia que o servidor público e sua malfadada estabilidade seriam os seus maiores cabos eleitorais. O Brasil oferece uma estabilidade de emprego para os servidores públicos que não existe em nenhum outro país: fez escola. 
Décadas depois, um corrupto que destruiu o Estado do Rio, o carioca Sergio Cabral Filho, o imitou e revelava sua admiração pelo plutocrata nordestino.
No seu mandato, 'O imperador do Maranhão'- alcunha dada por humorismo gaiato- ainda permitia a interferência de comandantes militares.
Um fato chamou a nossa atenção para certos poderes ainda conservados;
Pouco antes das eleições municipais de 1988, um atentado com bombas matou dois siderúrgicos da CNN , em Volta Redonda, RJ. Poucos dias após esse fato, a esquerda brasileira vencia as eleições para algumas prefeituras, dentre elas, a surpreendente vitória de Luísa Erundina, pelo PT, na capital do estado mais rico e populoso. Foi a primeira vitória do PT para comandar o executivo numa grande capital. No Rio, Marcelo Alencar, então no PDT Brizolista, quase perdeu a eleição para o engenheiro conterrâneo, Jorge Bittar, do partido dos trabalhadores. 
A constituição tinha sido promulgada pouco antes e as palavras de Ulisses Guimarães, presidente da Câmara, ao promulgá-la ainda ecoavam; ' Temos ódio e nojo da ditadura'.
Sarney teve o mérito de conduzir o processo sucessório à presidência sem traumas maiores. Até porque o seu desgoverno já era por si muito traumático. Mas Sarney ainda teria uma maldade a mais para nos premiar: entrou para Academia Brasileira de Letras. O que para muitos foi o seu maior pecado.


Eleições Diretas. Color 'caçador de marajás'


1989, ano de eleições presidenciais. Eleição só para eleger o principal mandatário do país. Nenhum outro cargo público estava em disputa. Mandato de 4 anos sem direito à reeleição. Vinte e cinco anos se passaram sem que um país com dimensões continentais e uma população gigantesca pudesse ter o seu dirigente maior escolhido. Foram tantos debates e meses de campanha. Muito do material recalcado e escondido no inconsciente emerge naquelas candidaturas e em milhões de compatriotas.  Tivemos de tudo. Até mesmo, acredite, dois partidos comunistas concorrendo com seus respectivos candidatos, num estado laico de direito, mas não de fato. Noves fora, aqueles que queriam seus 15 minutos turbinados tiveram essa oportunidade.  A tecnologia era mais precária. Quem diria que dois anos mais tarde, avanços tecnológicos ajudariam a derrubar um atarantado egocêntrico- proveniente de uma outra oligarquia político-econômica, nordestina, dessa vez alagoana: Fernando Collor de Mello. Cujo ideal de ego seria tornar-se uma espécie de czar com habilidades de carateca e sessões de magia negra na mansão, ainda que cafona, uma mansão. Apelidada de 'Casa da Dinda'. No pitoresco e nobre Lago Paranoá, lado norte, da Capital Federal.
Collor, o bem-disposto, aquele que fez campanha com mirabolantes acrobacias aéreas e que fugiu dos debates todos, no primeiro turno com os seus adversários, ganha a eleição contra Lula Da Silva, no segundo turno, num cinzento e melancólico domingo de dezembro (Deixo registrado que gosto de cinza e não vejo simetria entre o cinza e a melancolia. Foi apenas um hábito de literatices e por falta de inspiração maior).
Assumiu e confiscou parte da grana da população- inclusive a que estava, sagradamente para muitos, preservada na Caderneta de Poupança- ; reduziu o número de ministérios para 12 ou 15 - excelente desde que fosse presidente da Alemanha ou Canadá, mas não aqui. Tendo sido eleito por uma legenda partidária- que ele próprio inventou e financiou-, chamada de PRN e que não tinha nem 10% de representação no Parlamento Federal, Fernando Collor era uma espécie de suicida político. Além da antipatia contundente que despertara em parte da oposição onde se postulavam principalmente lideranças sindicais e estudantis; figuras do meio artístico, do meio jornalístico, intelectuais, cientistas, professores, enfim, os profissionais formadores de opinião.
Recordo o dia do confisco. Perplexidade geral. Cada brasileiro correntista passava a ter tão somente 50.000 cruzados para sacar, acessar. Tanto nas suas contas quanto nas suas aplicações financeiras.
O restante era confiscado e seria aplicado para reestruturação do país e estabilização da moeda, redução dos déficits, diminuir a inflação (que no Governo anterior atingiu picos de três dígitos ).
O partido da 'reconstrução nacional' (PRN) pretendia arrumar a terra arrasada.
A ministra da economia, Zélia Cardoso de Mello, paulistana, foi a comandante da pasta econômica e algoz dessa medida que depois se revelou um gravíssimo equívoco.
O presidente da Sra. Ministra teve dois méritos. Na verdade, foram três. Alavancou as importações e posterior abertura de fábrica de automóveis no país - chamando nossos veículos (e com toda razão) de carroças; trabalhou com um número reduzido de ministérios (acho que foram 12 ou 15), diferentemente do seu antecessor. Surpreendendo até mesmo os liberais mais aguçados. Seu antecessor, muito pelo contrário, inchou a máquina pública com mais de 20 e tantos ministérios. Sabedoria de oligarca, pois sabe que melhor cabo eleitoral do que os servidores públicos não há.
O governo Collor, porém, também foi marcado por escândalos, corrupção, e com índices de impopularidade muito grandes. De nada adiantou exibir-se correndo, praticando arte marciais, andando de Jet ski. Carisma forçado, arrogância e megalomania em alta. Não foram poucas as vezes em que transmitia uma imagem de alguém que estava alterado emocionalmente.
Seu assessor de estimação e braço direito em angariar fundos nada honestos para campanhas, para o governo e para uso pessoal, foi condenado pela justiça. Fugiu, retornou e foi morto ao lado da namorada bem mais jovem. Perícia feita, jamais soubemos ao certo o que realmente aconteceu. Contudo, já estavam fora do poder oficial quando ocorreu o crime.
Numa agradável casa de praia do litoral nordestino. No belo Estado das Alagoas. Terra de Graciliano Ramos, Paulo Gracindo, Lêdo Ivo.
Collor desceu a rampa- mediante impedimento impetrado por advogados, apoiados pela sociedade civil, pelo parlamento, enfim, a suprema corte. 
Um detalhe quase sempre ignorado por muitos: no dia que desce a rampa do palácio pela última vez- sem perder a pose imperial- era o prazo derradeiro para a devolução do dinheiro confiscado, dois anos e meio antes. Collor saiu em setembro de 1992.
Assume o seu vice. O mineiro de Juiz de Fora, Itamar Franco. Mais um vice. Brasileiro não vota em vices, mas eles, por essa banda, já assumiram o poder diversas vezes. Desde o primeiro golpista, Marechal Deodoro da Fonseca, substituído por Floriano Peixoto, passando por Nilo Peçanha, Prudente de Moraes, Jango e o mais recente, Michel Temer.

O período Itamar/ Fernando Henrique. 

Habilidoso, adepto da política da conversa ao pé da orelha e toda suspeição que cabe a um bom mineiro, Itamar conseguiu garantir uma transição serena para o próximo presidente eleito em 1994.
Através do seu ministro da fazenda, em substituição ao intempestivo, Ciro Gomes, Fernando Henrique Cardoso, juntamente com economistas do mais alto gabarito, inventam o Plano Real. Essa nova unidade monetária que salvou o país. Um país até então sem crédito internacional. Ninguém conseguia entender as peripécias e cambalhotas das finanças brasileiras e seus preceptores. 
Fernando Henrique, um intelectual, sociólogo, então senador da república, professor em renomadas universidades, um dos combatentes contra os regimes ditatoriais e ex-exilado político, era um ótimo nome. Ao seu lado, sua companheira, Ruth Cardoso, que tinha o mesmo brilho acadêmico e que se tornou a primeira dama mais importante que o país já teve. 
Paulista de Araraquara, Ruth Cardoso foi mentora de um dos projetos sociais mais importantes e que visavam o combate à miséria e inclusão social: Comunidade Solidária. Uma espécie de precursor do Bolsa Família, criado pelo PT, em seguida. Detestava o título de primeira dama já que não sofria de vaidades ou veleidades e uma das obras mais bonitas sobre a sua trajetória (deixou vários livros publicados) , fora escrita por seu conterrâneo, o escritor Ignácio De Loyola Brandão.
Itamar quis o Fusca de volta e ficou de chamego com uma 'modelo' vulgar que 'esquecera' a roupa íntima, também apelidada de calcinha, para o deleite de fotógrafos, futriqueiros e sobretudo, inimigos políticos, numa 'cândida' noite de carnaval carioca em sua passarela oficial para sambas e suas escolas afamadas.
FHC vence a eleição, em 1994, ao derrotar Lula, Brizola e chegar ao palácio do planalto. Chamado por muitos desafetos de 'encantador de serpentes', o carioca de classe média, filho de militar, radicado em São Paulo, ex professor da Sorbonne e que perdera sua primeira eleição para o poder executivo, em 1985, para o histriônico, Jânio Quadros, assume o trono em 1995. Era Janeiro. Acho que chovia.
O governo do plano real - que tirou o país de uma inflação que chegou a 3 , 4 dígitos-  restabeleceu a ordem financeira, a credibilidade internacional; derrubando inflações; inventando uma nova ordenação progressista para o Brasil. O projeto de comunidade solidária - tendo a socióloga e primeira dama, Ruth Cardoso, como uma das suas preceptoras, por exemplo, (projeto que antecede o Bolsa Família de Lula) também viabilizou uma mudança de status social considerável ao retirar milhões de brasileiros da linha da miséria.
Um governo que buscou na diminuição dos gastos públicos, cortando despesas ao diminuir drasticamente o número de repartições públicas. Não foi um número de ministérios menor do que o czar alagoano impetrou e também não poderia. Como teria apoio num parlamento que tradicionalmente é opositora ao mandatário eleito? 
O voto no Brasil não é distrital e temos mais de 5000 municípios - mil deles nascidos entre os anos dois mil e dois mil e dezesseis-  espalhados por todos os cantos e de forma desproporcional.
Já que falamos do presidente mineiro, Itamar, cabe recordar que o Estado de Minas Gerais é o que tem mais municípios. Cerca de 830 mais ou menos. O Estado de São Paulo tem seiscentos e tantos, mas uma população maior. Em torno de 45 milhões de pessoas. Constituem os dois maiores colégios eleitorais do país.
A realidade desses municípios passa ao largo desse sistema representativo tosco e com cerca de 35 partidos políticos existentes. E custa muito caro. Além de ser mais traumático quando da existência de uma grave crise política. O parlamentarismo teria sido uma escolha mais interessante - ao meu modo de ver-, porém foi derrotado num plebiscito, em 1993. Caciques manipularam as opiniões e propagandas em detrimento do parlamento e enalteceram o presidencialismo republicano como melhor alternativa enquanto sistema e forma de governo. Na verdade, nada mudou.
A própria Constituição de 1988, uma constituição necessária para bloquear possíveis intenções de governos autoritários e suas práticas ilegais, hediondas, permitiu um coeficiente eleitoral que estabeleceu tetos relativos ao número mínimo e máximo de parlamentares por cada Estado. Sendo o número máximo igual para todos. Aliás, o futebol brasileiro é organizado assim. 
Por uma maioria simples, os dirigentes da bola são eleitos. As federações têm o mesmo peso para eleger o presidente da instituição. Logo, tudo é falso. Temos um federalismo de mentirinha! Nas terras onde portugueses ficaram língua e lendas, os estados brasileiros não têm autonomia mínima para se autogerir. Obedecem aos trâmites da carta 'sagrada' da união. E perambulam com as panelas vazias na outra mão.  Um repórter novato, após atravessar parte do Brasil e das suas particularidades, recentemente, afirma o óbvio: ' Brasília está muito distante das realidades do país'.
José Bonifácio de Andrade -figura ímpar da política nacional e homem de confiança do imperador- ao retornar dos seus estudos na Dinamarca, teria dito: 'Impossível um governo central num país tão extenso, tão complexo'. E naquela época, os transportes e a tecnologia eram toscos. São extensas as nossas singularidades. Uma nação tão rica sob comandos tão pobres.
Fernando Henrique Cardoso não é o José Bonifácio, apesar da riqueza cultural, erudição, elegância, mas iniciou uma transformação considerável.
Privatizações necessárias, exemplaridade de conduta, flexibilidade ao tratar com a oposição. Quando indicou para vice, o 'esbelto', Marco Maciel (político pernambucano da velha guarda da Arena, PDS e crias), à essa altura no PFL, hoje, DEM, foi criticado pesadamente por quem, anos depois, indicaria um outro velho guarda de SP, capital, e que lhe aplicaria um 'ypon’ (golpe marcial, não Maciel, utilizado pelo judô e que concerne a vitória ao lutador que aplica esse movimento), chamado, Michel Temer.
O tucano, símbolo do partido criado em 1988, não tinha aonde ir, seguramente. Sabe, mas aprendeu novamente, que o Brasil é um país viciadamente de centro. Feito esse federalismo criado em cativeiro a partir do golpista Deodoro e que, infelizmente, quando cai desaba para extremos de um lado ou de outro buscando permanência longeva.
Voto dos letrados, dos analfabetos, dos delinquentes e de gente decente. Até fichas sujas votam. Não podem mais concorrer, mas conspiram, articulam, manobram votantes que votam. O Brasil é um oásis de polaridades explícitas e denegadas. 
FHC - que se considerava mais inteligente do que o próprio FHC, segundo o intelectual carioca, Millôr Fernandes - ficou mais 4 anos. Houve uma votação para aprovar e legitimar à reeleição. Um mensalão no tucanato? Certamente.
Os quatro primeiros anos foram muito bons e a arrogância, teimosia e falta de sorte fizeram do segundo mandato um fiasco. Até apagão houve! Racionamento de energia na marra por falta de planejamento. Incompetência mesmo. Falta de investimento no setor- logo, infraestrutura- trouxe perdas enormes para a indústria. A teimosia com a paridade do câmbio - indicada por opositores sérios tal como a economista de origem lusitana, Maria da Conceição Tavares- transformou complexos de vira-latas em complexo de dólares, euros, libras, enfim, os patrões ricos. Com a crise que atinge países emergentes na Ásia e na Rússia, início de 1999, o Real sofreu sua primeira desvalorização braba.
A morte de seu líder na Câmara Federal, presidente naquele momento e possível sucessor em 2002, Luís Eduardo Magalhães (filho de uma famosa oligarquia plutocrática baiana) e do seu líder de governo (uma espécie de super-ministro; super secretário|) conhecido como 'Serjão' pelo porte físico robusto e uma dose de truculência, deixaram-no completamente sozinho, isolado politicamente. Aliás, uma prática que se tornou usual no partido de FHC. Vejam como andam as coisas por lá.
Na solidão da secura do planalto e ao lado do cinismo de outros tucanos, o Presidente Cardoso vê, perplexo, seu antigo aliado e antecessor (nunca foram amigos ou próximos) , O Presidente Itamar Franco, assumir o governo de Minas Gerais e decretar uma moratória da dívida do seu estado. Entenda-se: devo e sei muito bem. E não pago. 
Advém, portanto esse calote e o país padece de credibilidade - conquistada arduamente-  diminuindo consideravelmente os investimentos internacionais. Justo no estado que tem uma das maiores mineradoras do mundo. A maior empresa de mercado de ferro do planeta: A Vale e o seu Rio Doce. Hoje, doente crônico. Entenda-se, o rio.
Desde que houve o terrível desastre numa das subsidiárias da Vale, a Samarco, há dois anos e meio. A Vale foi privatizada em 1997. E a operação de privatização foi considerada por muitos um desastre. ¹
Além de Itamar, o pacto por alternâncias no poder também atingia o PT com quem FHC, antes da vitória em 1994, firmara compromissos e acordos. O já falecido- e homem público sério, correto, inteligente-, Plínio de Arruda Sampaio, sempre relembrou o caso. Ele participara desses encontros e desencontros.
Ainda existe palavra dada?
A política brasileira é inteiramente personalista. Donde o sintoma patriarcalista - leia-se machista; de vocação transcendente.
Haverá então um salvador divino, uma formação transcendente, que resolverá tudo. Portanto, posso me coçar e me vitimizar à vontade-, sintoma esse, claramente, religioso.
FHC enfrentou as crises cambiais ocorridas na Rússia e nos tais tigres asiáticos, no final dos anos 90. A paridade cambial do real em relação ao dólar, sustentada pelo ministro de FHC, Gustavo Franco, custou caro. O tombo foi grande. 
Tempos depois, veio um onze de setembro nova-iorquino e que inicia uma nova área nos conflitos e na geopolítica mundial. Racionamento de energia no país visto que os devidos investimentos infra estruturais não foram realizados. Prejuízo para empresas, produção em queda. País mais empobrecido, população também. Aqueles 1% que detém mais de 50% da nossa riqueza, incluindo umas cinco famílias que recebem ou receberam dividendos astronômicos pagos por empresas (na casa de bilhão de reais), sempre se coçando. Mudam tão somente as moscas e a sua gula. Quase sempre insaciável. E o movimento canibalístico, deletério, prossegue.
Infraestrutura é algo desprezado irresponsavelmente - e poderíamos dizer propositadamente- pelas ditas elites políticas e financeiras do Brasil. Infraestrutura não aparece muito. Não 'paga' tão bons dividendos para classe dirigente. Dependendo do que seja, fica por baixo- não dos panos- mas do asfalto; das galerias pluviais; no saneamento básico que evita e previne doenças graves e crônicas; da gestão prudente que olha para o devir.
O então senador Fernando Henrique Cardoso redigiu projeto de lei em que propõe taxação de imposto, proporcional, às grandes fortunas do país. Atravessou todos os 8 anos do seu mandato e sequer foi posto em votação. Até hoje. E olhem que dois mil milionários brasileiros já fugiram para o exterior, desde a derrocada em 2103. Portugal e Estados Unidos têm sido os destinos mais procurados. São várias as razões. Desde tributações mais vantajosas- até para empreender no país escolhido- , mas sobretudo pela qualidade de vida a ser desfrutada. 
O mau republicano, Trump, de agora e sempre, não gosta de imigrante remediado. O que dizer dos mais pobres? Porém, em relação aos muito ricos, ele não só gosta como apoia. Oferece até uns vistos especiais, vantagens tributárias, etc.

1- No início da tarde, do dia 25 de janeiro, de 2019, a quebra da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), provoca a morte de mais de 300 pessoas e um dano ambiental imensurável. A Vale e sua direção novamente no banco dos réus.

Fernando Henrique/ Lula. 2002/2006.

Em 2002, houve eleições para Presidência. A disputa se concentrava novamente entre o PSDB paulista e o PT paulista. Eles se reportam às respectivas legendas como nacionais. Não é bem o que ocorre. Basta verificar a procedência política dos principais postulantes dessa disputa. Lula sempre; Serra, Alckmin alternando-se.
2002. Lula contra José Serra.

Lula da Silva: o eterno candidato petista ou aquele que orienta- para o partido- quem deve ser. Dessa vez contra o parlamentar paulistano. Ex exilado político nos anos chamados de chumbo, um bom ministro da saúde e péssimo aglutinador (não somente no PSDB) mas no parlamento. Nessa campanha, inclusive, quando ameaçaram - o mesmo centrão direitista que apoia o candidato do PSDB, Geraldo, 2018- lançar a candidatura de Roseana Sarney, filha de um dos piores presidentes e  que supõe ser um bom escritor, José Sarney, Serra se enfureceu e já que era membro da situação palaciana federal conseguiu provas e denunciou em cadeia nacional uma pequena fortuna em notas de real e dólares ( dinheiro não declarado e vultoso)  encontrados no escritório do marido da pretensa candidata e filha do ex-presidente. Quebrou a 'boa intenção' do clã. Contudo, arrumou uma baita confusão na sua candidatura em termos de apoio nacional. Sarney tinha ainda muitos poderes. Ajudou muito no projeto de reeleição de FHC. Sem a colaboração dele (por interesse pessoal do próprio ex-presidente, é claro) e de outros líderes das oligarquias políticas nacionais tais como: ACM, na Bahia; Jáder Barbalho, no Pará; Marco Maciel, PE; Jorge Bornhausen, SC, entre outros, não teria acontecido um segundo mandato para Fernando Henrique. A intenção de Sarney não era disputar eleição tendo a sua filha como candidata. O mau escritor pode não ser um mau personagem no trato com questões políticas. Muito pelo contrário. Sabia que não teria a menor chance de vitória. Vinda de um estado pequeno e pobre; num país muito machista; reputação do pai-mentor, em nível nacional, péssima; e uma candidata desconhecida da maior parte da população. E questionada, até por aliados, sobre se teria preparo adequado para o tamanho da função. A intenção do ex-presidente era que ela fosse convidada para ser a vice-presidente na chapa do candidato, agora inimigo, Serra.
Serra, por sua vez, não é ingênuo politicamente. Inteligente, astuto e inábil, sabia que aceitando Roseana, muito provavelmente, teria que se submeter a um tipo de pressão que lhe seria inconcebível e indesejado. A voz superegóica dos tucanos, na alta corte do tucanato, ecoou. Vices empossados têm tradição no Brasil. E a tradição hipocondríaca do tucano candidato poderia ser reforçada. Vai que tem um colapso? Uma conspiração? O pai da 'candidata' bem sabe o que é chegar à presidência pelo tombo fatal do titular da pasta.
Em dois mil e dois, um assassinato de político repercutiu com força no país. Era Janeiro e ainda esquentava o verão.
O prefeito de Santo André, pelo PT, Celso Daniel, fora sequestrado e poucos dias depois seu corpo aparece numa estrada rural, sem asfalto. Sem regalias ou considerações dignas. Dizem que foi uma boa pessoa. Houve comoção. Logo, vieram evidências envolvendo membros do partido dos trabalhadores. O prefeito morto tinha contatos questionáveis. Parece que resolveu dizer não à gula e sem vergonhice que ganhava força e envolvia uma máfia de transporte regional. Sabia da situação. Foi negligente, no mínimo.
Seu assassino o convidou para jantar em conhecida casa de carnes paulistana. O prefeito de Santo André foi vítima de 'um Sombra' - nome do mentor do crime e com quem jantava naquela noite. Na Alameda Santos, São Paulo. Santos por demais, diria um herege.
Um dos primeiros a chegar ao velório do prefeito, foi o então governador de SP, Geraldo Alckmin. Prefeito prestigiado, não? E da oposição? Deve ter sido o efeito dos raios solares do verão tropical. Ele acelera as moléculas.
Investigação truncada, prisões e desconfianças de que haveria algo extremamente grave envolvendo políticos graúdos do partido do assassinado no caso. 
O ex-deputado por SP e delegado, Robson Tuma, numa longa entrevista concedida à TV Cultura/SP, abriu o jogo, o verbo, língua solta. O que ele disse, num país sério, teria mudado muito o rumo de futuras eleições.
A família do falecido prefeito se exilou na França. Ameaças de morte. Mas não estavam presos? O atirador não morreu de morte matada? O mandante já não morreu? O que mais? Várias testemunhas morreram ou desapareceram nos meses e anos seguintes.

Lula: o guerreiro que veio de Pernambuco.

Saído de Garanhuns, uma pequena cidade no interior do estado de Pernambuco, onde o inverno é frio e seco, o ex-metalúrgico de origem muito pobre galgou muito mais do que poderia sonhar. Até mesmo quando ainda trabalhava- antes do acidente que lhe arrancou um dedo das mãos, nos tornos mecânicos, para logo depois se tornar o líder sindical mais importante da história do Brasil. Lula passou fome. Hoje, o país tem mais de 16 mil sindicatos. Só para entender, os Estados Unidos têm 130. Com cem milhões de habitantes a mais.
Uma linda história de vida e trajetória e que termina da forma mais constrangedora visto que o ex-presidente encontra-se preso, desde Maio de 2018, num presídio de Curitiba. Sob as mais diversas acusações. Seus defensores declaram que se trata de uma prisão política. Na minha opinião, acrescente-se à detenção por razões políticas outras tantas acusações contra o ex-mandatário. E poderia haver outras. 
Ainda assim, institutos de pesquisa eleitoral- desses que a gente pouco ou nada vê, mas sobretudo desconhece muitos dos seus métodos de averiguação- o apontavam como o favorito para o pleito presidencial de 2018 com quase 40 % das intenções de voto. Já que é considerado ficha suja- condenado em segunda instância -não poderá concorrer de direito e fato. Sua guarda pretoriana defende que ele só poderia ser preso se condenado em quarta instância, como prevê artigo constitucional. Existem diversas leituras e modos de entendimento jurídico sobre o caso. E o imbróglio prosseguiu.
Lula assumiu o posto de maior mandatário do país em janeiro de 2003. Dia nublado, no planalto. O ex-presidente, FHC, passou-lhe a faixa presidencial emocionado. Não era mentira. Anos depois, FHC afirma que sempre defendeu que certas reformas estruturais que não foram ou não puderam ser realizadas na sua gestão deveriam ser feitas por uma liderança mais à esquerda. Alguém comprometido - ao menos na trajetória dos discursos e contando com apenas um mandato parlamentar como deputado federal constituinte- com as reivindicações e necessidades, urgentes, da população mais humilde.  
Lula Ignácio era a figura perfeita. E ele iniciou muito bem o seu primeiro mandato. Do temor por atitudes mais radicais na sua gestão, mediante a tradição dos discursos inflamados, o que se viu foi alguém bastante hábil, diplomático. Na montagem do seu ministério, principalmente. Ainda que já inflacionado. O número de ministérios no fim do governo dos tucanos atingia o patamar de 16. Na época do PT, esse número chegou a quase 40.
Sabemos que os servidores públicos são excelentes cabos eleitorais. Mesmo que algumas pastas sejam inteiramente desnecessárias. Ninguém até hoje entende muito bem a função do ministério da Pesca, por exemplo. Nem menos um dos ocupantes dessa enigmática pasta. O hoje prefeito do Rio, o Pastor Marcelo Crivella.  O preço desse tipo de 'generosidade' é muito custoso aos cofres. Ainda mais quando se tem um número desmedido de funções comissionadas e que podem se perpetuar mediante reeleições futuras. O agrado aos parlamentares e prefeitos dos mais diversos cantos do país- o toma lá dá cá inescrupuloso, sem meritocracia alguma e propiciador de corrupções, porque o controle e fiscalização das pastas e aplicação de recursos se perde inteiramente - perpetuam um modo de se gerir as políticas públicas e cujos resultados bem sabemos e passamos a sentir. Apenas uma ressalva: toma lá dá cá tem a mesma idade da nossa civilização. É transa familiar. Tomar isso enquanto algo imoral, sujo, covarde é desconhecer as necessidades básicas e interesseiras de cada um; de cada setor. Ser humano, assim como qualquer ser vivo, tem seus interesses. Pergunte a uma bactéria ou a um vírus ou fungo que habitam nosso corpo aos trilhões? Autores da biologia contemporânea, a britânica Alanna Collen dentre elas, afirmam que somos apenas 10% humanos.
A inclusão social foi uma conquista extraordinária. Dezenas de milhões de compatriotas mudaram de vida. A gente trata a turma por classes sociais e então as classes sociais com as letras D ou Z tiveram um crescimento socioeconômico significativos. Já tinha ocorrido um grande avanço com o programa Comunidade Solidária e cuja preceptora era a figura pensante de Ruth Cardoso, ex - primeira dama do país, na gestão de seu marido, FHC. Mas o Bolsa Família ou o Programa Minha Casa Minha Vida, dentre outros, foram muito mais inclusivos. 
Houve um momento de muito orgulho e surpresa, até para os mais incrédulos, pelos resultados obtidos na primeira administração nacional do PT. É certo que receberam um país em condições muito melhores de governança do que os seus antecessores imediatos: Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Mas o início indicava que o país finalmente poderia, enfim, tornar-se uma nação para valer.
Nesse primeiro mandato de Lula houve uma clara preocupação com a estabilidade econômica. A instabilidade que poderia gerar alta de inflação, juros elevados, enfim, todo o desastre que ocorreu nos anos seguintes, e perdura até o momento, deveria ser evitado a todo custo. O cenário também era outro: ou seja, acontecia no mundo. Até que veio 2008, segundo semestre.
O presidente Barack Obama, recém-chegado à presidência, herda a loucura da política de créditos para quem não poderia pagar- ficou comprovado-  e as operações financeiras temerárias de alguns dos principais banqueiros de lá. O idolatrado JP.Morgan e outros enfiaram os EUA e por conseguinte o resto do mundo numa das mais gaves crises econômicas das últimas décadas. Por certo, a pior desse início de século 21. A quebradeira nas bolsas de investimentos do mundo chegou a ser comparada com a quebradeira de 1929. Houve mortes, crimes, chiliques. Tal e qual.
Não foi, Presidente Lula, apenas uma marolinha. Ainda bem que vossa excelência nunca se aventurou no mundo do surf. 

Lula/ Dilma . 2010/2013.

Mensalão, petrolão.
Lula faz questão de fazer a sucessora. Indica sua ex-ministra chefe da casa civil e ex ministra das Minas e Energia e ex presa política-torturada nos anos de horror, Dilma Rousseff. Mineira de nascimento, gaúcha por adoção, e de origem búlgara.
Segundo autores atentos, e por vezes desafetos, o 'Peron ' brasileiro conseguiu transferir seu carisma e conquistas sociais ( apesar do preço que se paga até hoje mediante os escândalos políticos e financeiros da sua segunda gestão) para um  chamado 'poste sem carisma'. Sim, porque poste carismático dá luz.
Carisma inexistente e experiência de gestão idem, além de frases e posturas adotadas que se tornaram motes para programas cômicos, ridicularias. E isso já tinha sido percebido quando ela exerceu o cargo de ministra chefe da casa civil. Nesse cargo, uma espécie de primeiro ministro no regime parlamentarista, uma certa falta de habilidade para o exercício da função era visível. Tinha um flagrante horror- quase fóbico- para mediação necessária que existe entre o Palácio do Planalto e os membros do Parlamento. Também se recusava a estabelecer uma agenda razoável envolvendo delegações e dirigentes estrangeiros.  
O pior é que esquecemos que vivemos num regime parlamentarista de fato. Porém, num presidencialismo de direito.
O mandato foi turbulento. A crise mundial deflagrada desde 2008 pelos 'meninos levados' de um liberalismo radical, cínico e covarde se revelou bem mais mortífera do que pela tal marolinha proclamada pelo seu antecessor. 
Não era difícil observar os devoradores de 'Wall Street' repensando posições e evocando até- pasmem- referências socioeconômicas marxistas ou marcuseanas durante o baque provocado ( esse, por certo, mais sofisticado). 
Para quem supõe que o mercado financeiro é capaz de resolver tudo, conclamar o Estado para dar um jeito no rombo deve ter sido humilhante. Mas o cinismo logo se resolveu. Vejam inclusive quem comanda o país deles, desde 2017.
                    Vencedor direto de um pleito indireto. Um personagem belicoso e bilionário (é quase simétrica essa transa, e que não gosta de apresentar o seu próprio imposto de renda), torna-se um ultraliberal, adotando uma política econômica tão protecionista que até companheiros seus, alguns radicais, do partido republicano estão assustados.
Dilma não só pedalou. Essa metáfora para decisões econômicas praticadas não era novidade irresponsável, temerária. Mas não foi só isso. O conjunto da obra incluía gastos demasiados, máquina inflada, dificuldades pessoais nas negociações com o Congresso Nacional e o surgimento de mais evidências e provas de corrupção envolvendo a cúpula do partido dos trabalhadores. Sobretudo, o chamado escândalo do Petrolão que devastou a Petrobrás influenciando para o enfraquecimento cada vez mais evidente de uma presidente que se revelava despreparada, incompetente para o cargo.
Fazendo um adendo ao que foi dito sobre práticas temerárias da política econômica, lembremos do  uso de precatórios - cobranças impostas pelo poder judiciário à União, Estados , Municípios, autarquias, para pagamento de dívidas ,etc. Algo que aconteceu em várias gestões do país. 
Transformavam esse pagamento das dívidas em emissão de títulos públicos atrelados aos valores do mercado financeiro. Isso foi proibido a partir da constituição de 1988. 
No episódio mais conhecido, Celso Pitta 'plus' Maluf (prefeito e ex-prefeitos à época, de SP) não tomaram conhecimento. Emitiram títulos à vontade, alguns falsos e outros superfaturados, além de não usarem o dinheiro arrecado para o bem-estar social, obras de infraestrutura, benfeitorias. Um prejuízo de 3 bilhões de reais ao município paulistano. Há mais de duas décadas atrás.
Em Pernambuco, o falecido ex-governador, Eduardo Campos, também usou dos precatórios para reverter, diminuir as dívidas do estado que se encontrava praticamente quebrado quando assumiu o governo. Contudo, por lá, ele teve êxito. Melhorou as finanças do Estado. Sem contar o prestígio que a família Campos detém na sua terra natal. E a mãe do ex-governador obteve, alguns anos depois , um cargo de chefia no Tribunal de Contas da União: ministra do tribunal. Eram aliados de Lula, até então. Ela foi indicada ao cargo por ele.

2013/2016. Epitáfio do previsível.

Em 2013, manifestações grandiosas ocorreram no país. Começou em SP e no Rio, e o mote para passeatas era o aumento de 20 centavos nas tarifas dos ônibus. Balela. O motivo era o descontentamento geral com os rumos que a política tomara. Era como se dissessem: ' Não queremos mais um país desse jeito'. Razões de sobra para se gritar. A manifestação que aconteceu em Junho (todas aliás se deram nesse mesmo mês) , na capital federal, foi a mais impactante. Ameaçaram invadir o Congresso, o Palácio do Planalto e agrediram o Palácio do Itamaraty, ou seja, atentaram contra um herói brasileiro: Oscar Niemeyer. Brasileiro não zela pelas suas joias. Abriram-se, pois, a tampa do esgoto e de lá saiu de tudo: ótimas e detestáveis posturas, ações ou ideias. Até que aloprados- desses que têm cabeça, rabo e patas- calcularam mal o tamanho do estrago e assassinaram um cinegrafista de televisão: um funcionário da Rede Bandeirantes de televisão. Se fosse um funcionário de emissora mais poderosa, creio que outras forças já estariam a desfilar seus blindados pelas ruas da capital fluminense.
Um ano depois, veio a Copa do Mundo de futebol. Conhecida tragicamente como sete contra um ou um passeio alemão. Logo em seguida, eleições. Rousseff concorre novamente e numa disputa cabeça contra cabeça vence o Senador por Minas, O neto do Dr. Tancredo.
Após a derrota, ele passa a desmerecer a vitória adversária e cria um precedente perigosíssimo que foi desacreditar as instituições responsáveis por apuração, pelo julgamento. Enfim, colocou um incêndio na lareira vasta do país tropical. Começava por aí o golpe oficial que se desencadearia um ano e meio depois com o apoio das mesmas instituições, colocadas irresponsavelmente, sob suspeição pelo senador que, três anos depois, quase foi cassado após ser flagrado em conversas telefônicas com empresário corrupto em tom e contexto delinquentes.
Hoje, 2018, ele concorre para deputado federal. O partido lhe negou a legenda para um outro mandato no senado federal. Alegaram risco de derrota - e logo para a Presidente cassada em 2016, e que concorre ao Senado- e lembraram-no que ele talvez precise de foro privilegiado por causa dos processos que podem bater à porta do seu gabinete.
A presidente cassada não perdeu os seus direitos políticos. Incrível, isso! O golpe que levou à sua destituição, colocou no seu lugar o vice, Sr. Temer, MDB. 
Político ardiloso, antigo jurista e bem considerado por essa função no estado natal, São Paulo. Professor e velho parlamentar. Já tinha presidido a Câmara dos Deputados. Indicado por Lula, duas vezes, para ser o 'melhor aliado' da presidente. Não a chamo nem a chamarei de 'presidenta' pois não conheço 'estudanta' nem tampouco 'presidento'.
Uma colocação pessoal: parece que a presidente fora eleita para não terminar o mandato. Isso ficou um tiquinho claro com o decorrer, ainda que breve, do seu mandato interrompido. Abriu-se a chacrinha do poder. A xepa da feira ainda está disponível.
A inabilidade política da presidente diante de um quadro gravíssimo, tanto econômico quanto político, empurraram essa sua tentativa de um segundo mandato direto para o fracasso.
As manifestações de 2013 aliadas ao poder crescente de um PMDB/MDB e que detém o maior número de prefeituras e parlamentares em todo o país reforçaram essa tese. A de que um golpe poderia ocorrer. Não um golpe nos moldes de 1964 com baionetas e tanques num clima mundial de uma guerra nada fria. Porém, através de outros mecanismos oficias. Ora: vejam o futebol com suas múltiplas câmeras e vídeo 'tapes' a olhar por nós e o que acontece tantas vezes? Nos gramados e fora deles. São muitas formações de poder articulando e articuladas o tempo inteiro.
A eleição do novo Presidente da Câmara, o conterrâneo e hoje ex deputado e presidiário, Eduardo Cunha, deu início às manobras para tomada do poder. A inconsequência do senador derrotado, nas eleições presidenciais de 2014, o Sr. Aécio Neves, botando chama alta no fogo já deflagrado, ao insinuar fraude eleitoral nesse pleito em que perdeu, foi outro fato relevante. 'Um terceiro turno'.. Era o que pregava cinicamente. Hoje, quatro anos depois, diz que foi algo para 'provocar', 'cutucar'. Atitude inconsequente, semelhante às malcriações dos pequenos mimados, mas bem distante de um político responsável, estimado. Como foi o seu avô.
Um patriota que deu a própria vida pelos seus nobres objetivos.  Mesmo que eu não concorde com aquele conservadorismo cristão irritante, paralisado, paralisante, dando a impressão de um titubear e não decidir com certa contundência necessária nos momentos mais delicados. Essa por exemplo: democrata cristão palaciano da plutocracia mineira brasileira. Partido Novo? Não. 
Quase tão antigo quanto os velhos hábitos patriarcalistas do Brasil. Somando-se a uma característica do brasileiro que é a de apostar nesse direito de considerar-se uma figura com poderes herdados perpetuando-se na chefia de governos. Uma oligarquia rica financeira e economicamente. Daquelas que misturam, confundem o que é da ordem pública com o que é privado. Isso se multiplicou para todas as camadas sociais. Não é difícil emporcalharmos a nossa própria cidade, sacanearmos os nossos vizinhos, desrespeitarmos acordos e protocolos firmados.... Seguimos atirando na nossa própria cara. Uma forma de 'self' deletério.
Em abril de 2016, após uma ladainha de medidas, de julgamentos, recursos, discursos, reuniões, comissões, brigas, a presidente foi afastada pelo período previsto na Lei. Uma votação realizada na Câmara Federal e que paralisou o Brasil, numa tarde/noite de Domingo. Um vexame. 
A postura dos parlamentares foi no mínimo constrangedora. Naquela noite, fez-se um silêncio ruidoso. Era como se todos- independentemente das posições políticas - estivéssemos derrotados. E no primeiro turno. E com direito a gol roubado. No último momento de uma tragédia encenada: sem volta. Para sempre.
Assumiu o seu vice, o descendente de libaneses, Michel Temer, e que já tinha lhe enviado umas missivas de mágoas e que se tornaram fofocas públicas.
Ele a avisara, fazia muito tempo, que não aceitaria aquela condição de coadjuvante. Sabia dos gravíssimos erros e das negligências cometidas pelo partido dos trabalhadores, nos 13 anos (número quase cabalístico) em que estiveram à frente do país. Até porque o PMDB é muito maior que o PT em termos de presença no país. Acrescente-se a isso a longevidade da legenda. Ah! Agora, golpearam uma letra. E que não se pense que foi por causa dos gastos e despesas ou decisão altruísta. Muito pelo contrário: temos, portanto, de retorno um cacoete, imitação proposital, do velho MDB. Sabemos, pois, que aquele MDB- dos tempos de Tancredo, Ulisses Guimarães, Pedro Simon, Teotônio Vilela, entre outros egrégios homens públicos- era bem mais eficiente e respeitável. A 'novidade' é puro oportunismo eleitoral, 'marketing' e enganação na PÁTRIA dos, digamos, 'distraídos' eleitores.
A decisão por afastar definitivamente- não da vida pública- mas da presidência- ocorreu alguns meses depois.
Após o encerramento dos primeiros jogos olímpicos realizados no país- e no continente-  e durante as Para Olimpíadas. Nada mais normal em se tratando de uma república deficiente.
O 'Centrão' de volta. Posição e grupo político que se notabilizou no período de Fernando Collor no poder. O Centrão se consistia no seu principal apoio político partidário. Geralmente reunia parlamentares ultraconservadores e posicionados mais à direita do suposto 'imperador' das Alagoas.
'O conservadorismo a serviço do atraso'. Frase do jornalista Elio Gaspari.

2017/2018. En-fim.

O ano das bisbilhotices e suas gravações premiadas. Escândalos e mais escândalos fazendo emergir de um pouco quase tudo. 
O governo passou a operar diretamente de presídios de segurança máxima. Delatores condenados dedurando quem os promoveu, ajudou, cumpliciou. Malas milionárias transitando, após a refeição, até modesta, numa pizzaria paulistana. Malas corrompidas. Houve outros milhões- modestos 53 milhões de reais- encontrados na casa de um tradicional político baiano. E bota tradição nisso. Está em cana. Até o presente momento. Mas que não se apoquente porque já encontraram uma outra bufunfa de mais de 100 milhões em ninhos de tucanos. Brasileiro perdoa?
Temer resistiu. Fitas promíscuas revelando seus encontros com um 'empresário' poderoso que subiu feito foguetão- matando boi- assustaram até quem não se assusta mais com o desenrolar das políticas nacionais e seus comandantes.
Uma intimidade invejável que o tal 'empresário ‘possuía’ com o atual presidente da república. Justo quando se indaga: ' Mas ele não é casado? Sim. E com uma bela, jovial e recatada esposa.' Dito por ela, inclusive.
Pulamos propositadamente as eleições de 2016. Um erro, por certo. E o trauma? Aqui na Guanabara o resultado foi desastroso. Talvez tenhamos hoje uma das prefeituras mais confusas (eufemismo proposital) da história. Eleições municipais são fundamentais. Influenciam decisivamente nas eleições gerais. Afinal, temos mais de 5 000 municípios.

2018. Prisões de caciques. Terra de índios?

Lula Preso. Lula livre? Ex governadores presos. 
No Rio, a cúpula do velhaco PMDB fluminense está detida. O ex-governador, Cabral, pegou uma pena que , se for cumprida, o manterá preso para sempre. Duvidamos, obviamente. Além desses empresários, advogados, médicos, secretários de governo e deputados também estão cumprindo pena. A lista é enorme. Muitos em regime domiciliar e vestindo adereços nada dignos nem tampouco confortáveis. Tornozeleiras eletrônicas são as preferidas do momento nada elegante ou virtuoso.
O ex-presidente Lula está detido desde maio de 2018, num presídio em Curitiba. Terra do egrégio juiz de primeira instância, Sérgio Moro. Uma espécie de herói para muitos brasileiros. O poderoso juiz da poderosa operação, Lava Jato.
Inimaginável que aquela liderança política, nascida em 1980, no ABC (hoje ABCD) , e vencedor com dezenas de milhões de votos, duas vezes consecutivas das eleições presidenciais, esteja encarcerado. Os defensores alegam ser o ex presidente um preso político. Recordemos que ele ao deixar o poder, ao menos oficialmente, possuía índices de aprovação relativos ao seu mandato e popularidade altíssimos.
Não foi por aquisição de imóvel de luxo, pago por empreiteira sem a vergonha de ser a oportunista voraz que sempre foi ou outros quitutes, algumas das razões de sua detenção. O conjunto da gula, do apetite exagerado, associado à negligência mediante a roubalheira extraordinária na Petrobrás, por exemplo, -e que ele sabia de sobejo- além da ambição desmedida pelo poder ( o plano do seu não amigo, ex-aliado, e temerário irresponsável, José Dirceu) despertaram a ira dos adversários e a indignação popular. O Brasil, sempre imprudente, mergulhou num poço fundo sem proteção adequada ou boas técnicas para sobrevivência mais apropriada.

Eleições. Outubro/18.

As eleições chegaram em outubro. A princípio e em princípio muitas especulações sobre candidatos e candidaturas. Muitas figuras se apresentaram, logo no início de uma conhecida pré-campanha, para em seguida desistirem. 
Uma ex-apresentadora do jornal televisivo mais popular também marcou presença. Ela inclusive foi a primeira mulher a dividir a bancada do telejornal com um colega jornalista. Sua campanha, 'infelizmente', naufragou antes mesmo de zarpar.
Campanha iniciada oficialmente em agosto, depois da Copa do Mundo de Futebol e dos festejos juninos, os candidatos se apresentaram. Alguns, como o favorito para vencer as eleições, o ex- militar do exército e deputado federal no seu sétimo mandato, o paulista de nascimento, mas radicado e adotado politicamente no Rio, Jair Bolsonaro, estavam em campanha há mais tempo. Se prestarmos atenção à ex-empresa privada (uma potência do setor petroquímico) onde o seu 'super-futuro-ministro' destacou-se nacionalmente, tornou-se, notoriamente, uma das maiores anunciantes das emissoras de televisão existentes no Brasil. Isso já se dá, há pelo menos 5 anos. 
Nos canais de televisão por assinatura, ela é a principal anunciante antes, durante e depois de eventos esportivos. Esses eventos esportivos, principalmente os jogos de futebol, sejam eles nacionais ou internacionais, na maioria das vezes, atraem muito mais espectadores do que os outros programas da rede. Eles se constituem nas maiores audiências da televisão brasileira. Duvidas? Pergunta lá? E como se portam os expectadores? 
A derrocada e a desmoralização da classe política que levou à bancarrota empresas, indústrias, comércio, autônomos, trabalhadores em geral, o mercado financeiro, logo, a maioria de nós, contribuiu decisivamente para candidaturas muito demagógicas, populistas e radicais. Especialistas as chamam de 'outsiders'. Nós as chamaremos de os 'Sem Noção' ou 'Oportunistas de Ocasião' e 'bem-intencionados'. Nesse momento, o Brasil tem quase 14 milhões de desempregados. Sem contar os outros milhões de subempregados. O que eles têm em comum? Uma pletora de infelicidade diária. 

O ex-presidente Lula -que é temido politicamente até os dias de hoje por todos os seus adversários- não conseguiu participar, oficialmente, da disputa presidencial. Oficialmente, porque oficiosamente, ele está comandando o jogo, há muito tempo, orientando seus companheiros, mexendo suas peças em busca de sobrevivência pessoal e política. O faz, desde Maio de 2018, trancado numa constrangedora e humilhante cela de cadeia, numa gélida Curitiba. 
Cidade onde reside o juiz federal, Sergio Moro, que o condenou. Dependendo de quem saia vitorioso na eleição presidencial, o juiz paranaense é cotado para ocupar algum cargo público no Executivo Federal ou até receber, futuramente, indicação para a Suprema Corte. Ele nega, frequente e contundentemente, que possa vir a ocupar algum cargo na esfera política.
Escolheu e ordenou quem seria o candidato do partido- seu aliado, ex-ministro da educação do PT e ex-prefeito de SP, Fernando Haddad. Ele teve tão somente três semanas para engatar a sua campanha. Chegou ao segundo turno das eleições em segundo lugar.

O Presidente eleito. ( 2018)

Jair Bolsonaro foi esfaqueado por um lunático, em Juiz de Fora. Nos braços dos seus seguranças desatentos, em frente à tradicional Loja Riachuelo, que pertence a um daqueles pré candidatos que desistiram, lá atrás, e conhecido como 'o homem do imposto único, Flávio Rocha. 
Quase morreu. Foi salvo por uma competente equipe médica local, para em seguida, transferir-se (ainda em estado grave) para um dos melhores hospitais do país, na capital paulistana. Quando a situação aperta, brasileiro com prestígio ou grana corre para os braços de um Albert Einstein de jaleco branco. 
Faz-se notar os acenos amigáveis e gentis que o ex-capitão do exército brasileiro, agora eleito presidente, para estadunidenses e israelenses. Estão sempre presentes nas suas manifestações públicas.
Levou fácil no primeiro turno. As pesquisas de opinião que são quase sempre manipuladas e manipuláveis, dependendo dos interesses de certos poderes, engoliram um ranário e não somente um 'sapo de barbas'. O que acontece nesses fenômenos? Inteligência e perspicácia eleitoral dos protagonistas eleitores? Mentiras e omissões- Quando respondem às perguntas dos pesquisadores sobre as preferências para o outubro cor de rosa- equivocam e alteram todo o quadro de previsibilidades recortadas. Logo, temos uma amostra. Tão somente isso. Sou a favor. As pesquisas podem manipular? Por que não as manipular de volta?
Por certo, existem orientações partidárias, regionais, religiosas, para que muitos assim se comportem. Mas existe a espontaneidade, no e do direito, de se estar menos apegado, súbdito às formações opressoras de cabresto, obedecendo ao seu desejo soberano. Catequese é prática cruel e opressiva. O recurso são as disponibilidades secundárias, mentais, de reversão do que lhe é imposto. 
Rosa é rosa. Azul é azul. Não são simétricas a nenhuma anatomia ou preferência de gozo. Pode ser também, 'goethianamente', uma luz na escuridão. Ou uma onda luminosa com comprimentos distintos e frequência x ou y.

O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, iniciou sua campanha há mais de um ano e a agressividade, sobretudo, contra minorias, gays, negros, índios e opositores diretos foi uma característica de sua postura. Na votação que proclamou o afastamento e pedido de impedimento da ex-presidente Dilma, vociferou no microfone do plenário da Câmara Federal homenageando torturadores (assassinos assim por reconhecer, em algumas situações) , diante do parlamento lotado e com transmissão televisiva , ao vivo, para todo o país. Repetiu o feito diante de dois jornalistas e que foram vitimados por essa atrocidade, numa entrevista para um canal de televisão por assinatura. Porém, há de se reconhecer que a sua campanha eleitoral foi muito inteligente, articulada, sobretudo, astuta. Obviamente, para o que pretende alcançar e a quem dirigir-se. Utilizaram com perspicácia a tecnologia das redes e mensagens.
Ferido quase de morte, na região do abdômen, ele convalesceu observando os seus adversários mais diretos na disputa eleitoral aumentarem e espalharem agressões, ataques, piadas jocosas e ofensas contra a sua campanha e pessoa, sem que esses se preocupassem que os seguidores e/ou pretensos apoiadores do deputado gravemente machucado. Esses adeptos ou correligionários passaram a se sentir do mesmo modo: esfaqueados. As imagens do atentado são bastante fortes. São horríveis, na verdade. Pequeno detalhe sobre o ataque: ele ocorreu na véspera do feriado de Independência do Brasil. Foi num 6 de setembro.
Quando você coloca o oponente nas cordas (numa comparação com algumas artes marciais disponíveis) , e ele já não está conseguindo mais se defender, se insistes com a surra ou massacre, pode haver reação mais agressiva contra ti ou punição rigorosa por essa atitude, digamos assim, inclemente. Isso existe em qualquer combate. Independente da arena em que ocorra.
Recentemente, uma pesquisa oriunda de importante centro internacional universitário declarou que a saúde mental global se agravou muito. Não só as comportamentais, mas as que atingem nossas formações primárias. Estão entre elas as chamadas doenças degenerativas. Envelhecemos e podemos votar. Podemos também disputar, concorrer. Sempre haverá um custo alto a ser pago.
Jair Messias Bolsonaro (a maioria dos eleitores, incluindo os seus, não sabiam desse 'apanágio') ganha a eleição presidencial no dia 28 de Outubro de 2018, no segundo turno.
 Teve 55 % dos votos válidos. Isso representou cerca de 10 milhões de votos a mais do que o seu adversário, o pólo oposto, do partido dos trabalhadores - que na minha opinião ajudou a criá-lo- Fernando Haddad, ex prefeito de São Paulo.
Um ex-capitão do exército e há 27 anos deputado federal- defensor, publicamente, de militares que estiveram envolvidos com torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos no país, nos anos 70, e cujo vice é um general, - vence eleições democráticas no Brasil. Após 35 anos, um militar do exército retorna ao comando político do país.
 Oitenta e um anos também se passaram desde o nascimento de um outro capitão, desertor do exército, Carlos Lamarca, e oitenta anos da morte de Lampião. O terror do cangaço, do sertão nordestino. Uma outra forma de capitão.
Lamarca voltou impressionado, repleto de encantos, após uma missão oficial no oriente médio e se impressionou com a miséria dos beduínos, dos pobres do deserto de lá. Foi fuzilado por ex-colegas de farda, no deserto baiano, em 1971. Dedurado por sertanejos. Homens simples do povo nordestino. Tinha a idade de Cristo. Trinta e três anos. Um outro Messias? Para alguns, sim.
Virgulino, o Lampião, e que gostava de corte e costura, foi fuzilado pelas tropas oficiais, no deserto de Sergipe. Foi dedurado pelo seu próprio coiteiro. Aquele que lhe abrigava e informava sobre os passos inimigos a cada região que o bando do cangaceiro aterrava. Foi barbaramente torturado pelas forças oficias. Não há notícia de qualquer discurso proferido em homenagem à tortura praticada. Em compensação, as cabeças degoladas de parte do bando do cangaceiro mais famoso- incluindo a de sua companheira, Maria Bonita- foram exibidas publicamente. Opinião pública que contempla. 



1-Simone Weil e sua filosofia.
2-Nova Psicanálise. Um pensamento para o século XXI.

Simone Weil viveu muito pouco, mas o fez intensamente. Morreu aos 34 anos, em Londres. Passou um tempo por NY. Exilada após lutar e denunciar o nazismo e o fascismo que varriam a Europa. Parisiense, de origem judaica, lutou na Guerra Civil Espanhola contra o 'generalíssimo' Franco. O ditador sanguinário que sobreviveu à pensante francesa 32 anos mais. Francisco Franco morreu em dezembro de 1975. Dois anos após aquele que o denunciou, artisticamente para o mundo, algumas das tantas barbaridades produzidas pelo 'franquismo’, através da sofrida Guernica. O malaguenho, Pablo Picasso. 
Simone surge como referência importante nesse texto pela fortuna que uma arrumação doméstica na biblioteca habitada por mofo e outros parasitas inconvenientes se fez necessária. Caindo da prateleira, despretensiosamente, o livro se mostrou. Ficou aquela vontade de dizer, parafraseando o romantismo de Lamartine, poeta francês, século 19 '... que o livro se abriu na página em que se morre'. Ou seria ‘.na página em que se ama?'
A filósofa experimentou os horrores da ascensão hitlerista na Europa e a partir daí inicia uma série de reflexões sobre política e representações partidárias. O que nos interessa é que ela, lá nos idos dos anos 30/40, século XX, questiona o conceito de partido político e cogita a sua supressão. Sua obra mais conhecida se chama justamente 'Pela supressão dos partidos políticos'.
No momento em que o Brasil inaugura uma cláusula de barreira partidária e que irá provocar a extinção de pelo menos dez ou quatorze partidos, nesse universo absurdo de 34 partidos que 'existem' aqui, quem sabe não conseguimos diminuir ainda mais essa partição toda (exagerada por demais e proposital) mitigando sem piedade (seria possível?) esse modo de 'articulação' política? De se guerrear politicamente com os poderes e suas formações, equivocadamente, mas de acordo com o modelo adotado, há séculos, chamadas de representações.
A confusão é proposital. O Brasil possui um sistema federativo de faz de conta, por exemplo. À época da Monarquia, antes da traição de Deodoro, Bonifácio de Andrade, homem de confiança do imperador, já temia por um poder central com tantos poderes, sobretudo, num país continental e com tantas diferenças culturais, sociais.
Weil relembra a herança anglo saxônica do conceito de partido político, mas acrescenta que no período do terror (chamado por muitos também como Revolução Francesa) existia considerável temor com a existência e consolidação desses partidos políticos.
Uma frase vinda de um pensador russo, século vinte, anos 20, Tomski, exemplifica essa preocupação: 'Um partido muito poderoso no poder e os outros na cadeia'. Tomski foi dirigente importante pelo lado bolchevique em oposição à ditadura stalinista posterior. Foi morto sob as ordens de Joseph Stálin.
Uma das críticas que a autora faz é que as disputas entre partidos quase sempre produzem um triunfo do que ela chama de 'paixão coletiva sobre a razão e a justiça'. E essas paixões, predominantemente de grupos específicos, partidários, sobre a vontade geral. Nada diferente do que Rousseau já tenha ensinado.  Algumas avaliações que ela dispõe acerca da ideia de justiça, verdade e bem público:
" Um partido político é uma máquina de produzir paixões coletivas.
Um partido político é uma organização construída de modo a exercer uma pressão coletiva sobre cada um dos seres humanos que são membros dele.
O fim primeiro ( e, em última análise, único) de todo partido político é seu próprio crescimento, sem limite.
Tendo em vista essa tríade de características, todo partido é totalitário, em potencial e aspiração. Se ele não o é expressamente, é apenas porque aqueles que o rodeia não o são menos do que ele. "

O partido político, segundo Simone, funciona tão somente para atender aos interesses específicos de um determinado grupo e concepção de bem público.
E ela continua em diversos momentos de seu livro esse autêntico libelo contra os partidos:
'A supressão dos partidos estenderia sua virtude de limpeza para bem além dos assuntos públicos. Pois o espírito de partido conseguiu contaminar tudo.' E acrescenta: '...a obrigação de se tomar partido, de se posicionar contra ou a favor, substituiu a obrigação de pensar. ...Trata-se de uma lepra... '
Sem a supressão desse mal, os partidos políticos, essa praga nos condenará à morte. É o sentido que ela indica.
Os partidos políticos, nesse período que ela retrata, eram totalitaristas. Tanto para o lado esquerdo quanto para o seu contrário direto. Fascismos, franquismos, stalinismos, hitlerismos.... Após a segunda guerra mundial, o macarthismo, nos EUA. Esse era o cenário com o qual se deparava e guerreava contra.
A autora não apresenta uma saída para a supressão dos partidos políticos. Ela prefere apostar na ideia de um compromisso estabelecido através da palavra dada. Contrapondo-se aos mais diversos conceitos do direito, defende a virtude de um direito natural evocando o mito de Sófocles, Antígona.
O Brasil na sua singularidade bipolar maníaco depressiva pretende insistir na manutenção desse modo radicalmente fractalizador, pulverizador de rostos e possíveis ideias, projetos, posturas mais ou menos contemporâneas.
Muitos autores do nosso tempo vislumbram um futuro comandado por corporações gigantes. Muitas unificações empresariais - conglomerados poderosos nos mais diversos ramos de atuação- exemplificam esse modo de funcionamento para frente. Uma chamada quarta revolução industrial cujo protagonismo virá da robótica, de um minimalismo quântico e seus computadores que poderão se rebelar...Resta saber quem serão os 'guardiães' desses novos vínculos culturais, interpessoais, hábitos, modelos educacionais futuros que derrogam os modelos anteriores, muitos deles ancorados num modelo estruturalista já superado. Guardião no sentido de um zelador - não é pessoa, nem tampouco um demiurgo- dessas novas corporações. Lembram daquela 'brincadeira' que indaga sobre a necessidade de se inventar uma instituição que pudesse tomar conta, zelar, pela ONU, por exemplo?
As decisões da ONU, sobretudo nos últimos tempos, não são do agrado da maioria, por certo. Uma ditadura de minorias cujos poderes econômicos, financeiros e bélicos se impõem sobre as demais formações estatais, governamentais.
Os viciados em Estado forte, grandioso, onipresente, tal qual a maioria das pessoas no Brasil e em outras partes do mundo, sofrerão o baque. A sociedade brasileira não foi criada por um movimento de massas. Diferentemente do que ocorreu na Inglaterra. Por aqui, O Estado é que nos apresentou as regras, as leis, o cardápio a ser seguido. Conforme todos sabem, mas denegam, os direitos políticos surgiram primeiro. Os direitos civis vieram depois. Ao menos, no Brasil. No mundo ocidental civilizado a ordenação foi outra. Até porque alguns desses direitos políticos foram 'conquistados' em períodos de governos autoritários, ditaduras, vigentes no país.

A política é o modo como os poderes se articulam, transam. É uma disputa de poderes, entre poderes e pelo poder. Do mesmo modo que não existem inocentes numa guerra, não existem intenções outras senão tentativas de imposição desses poderes de uma formação qualquer - seja ela pessoal, jurídica, estatal, privada, natural ou artificiosa- sobre outras formações. É assim que se guerreia no campo do haver. O tempo inteiro, constantemente, melhor dizendo: pulsionalmente. O tesão que rege essa nossa espécie e tudo o que há.
Somos tão somente as marionetes de uma agonística perene por poderes e suas dominações e consequências (no campo da medicina chama-se efeito colateral), no reino dos humanos.  Conforme nos indica a Nova Psicanálise.
Em tempos constantes de guerra e já que não vamos obter nenhuma simetria absoluta ou paz, uma espécie de sadomasoquismo pulsional indestrutível e estrutural, qual seria então a mais profícua das guerras?  Como nos situarmos melhor para travessias cada vez mais turbulentas onde a ordenação pode ser caótica? Não há resposta única para isso a não ser considerar cada situação, cada formação, a cada momento. A necessária consideração do aqui/agora enquanto travessia possível de um alucinado futuro.
                    Estamos numa nova era sem a hegemonia epistemológica clássica, cuja abordagem representacionista, estruturalista, mostram-se inteiramente superadas mediante a emergência de uma produção tecnológica tal que derrogou conhecimentos e pensamentos anteriores e hegemônicos. Tanto no campo religioso, quanto no campo científico/filosófico, etc. 
                    Na consideração do que a Nova Psicanálise chama de uma produção de performance genérica da nossa espécie , no desenrolar da história,  as referências anteriores e que foram geradoras de modelos de organização social e produtora do que também nos singulariza ( vínculos,  produção de próteses, criações) ou seja,  um matriarcado ( Chamado de Primeiro Império) ; um patriarcado ( Chamado de Segundo ) com o avanço obtido pela abstração simbólica desses dois impérios anteriores  , na verdade, a passagem de um para o outro, exemplarmente desenhado e praticado politicamente pelo pensamento cristão. Chamado de Terceiro Império ou Império do Filho.
O pensamento monoteísta indica um referente mais abstrato, acolhedor de outros saberes e práticas anteriores, ao inventar uma divindade, um transcendente que os chama e os adota enquanto filhos de um único Deus.  Não mais um Deus encarnado de ossos, vísceras ou vinculado à partido político ou empresa de comunicação.
                    As articulações dessa série infinita de linguagens (E tudo é da ordem da linguagem) e suas resultantes criativas, inventivas, múltiplas formas, e que nos levaram às condições em que estamos hoje, enquanto pessoas, transformam radicalmente nosso modo de se vincular; de pensar. Enfim, estar.
Pensamento único, certezas incontestáveis, paixões e amores que denegam o ódio, saberes que se supõem hegemônicos, portanto, opressivos ao agir sobre outros saberes, muito provavelmente, não se estabelecerão num futuro não muito distante.  Esse é o novo rosto do que esse pensamento chama de um Quarto Império. A possibilidade de varrer o passado (Aliás, o que é compatível numa análise), buscando assim uma ordenação que seja compatível com a contemporaneidade.  Movimento esse ainda mais abstrato do que os impérios judaico-cristãos mencionados.
Portanto, políticas a serem praticadas são da ordem de uma hiper consideração pelos agentes em jogo e passíveis de mapeamento ‘ad hoc’. Decisões e regras que podem se estender por bastante tempo até que a eficácia e pertinência da mesma esteja saturada, esgotada. Essa é a  ideia de tempo para esse teorema . O tempo da durabilidade de uma formação.
Como sustentar então a ideia de representação partidária?  Creio que será quase impossível.
Hoje, presenciamos, frequentemente, o ajuntamento de empresas dos mais diversos setores, bastante poderosas, conhecidas também como conglomerados, cada vez mais fortes, apátridas e dominadores de produções, novas invenções, prestações de serviços:  são os donos do novo mercado. Liberalismo de última instância?
Ações que produzam efeitos e que sejam passíveis de alternância no aqui/agora das mudanças. Esse é o pragmatismo político para os próximos tempos.

Carlos Henrique S.Dantas ( Carlucho. ) .
Segundo semestre de 2018/ Março de 2019.

Bibliografia:

 Revirão 2000/2001: ‘Arte da Fuga; Clínica da Razão Prática/ M.D. Magno, Rio de Janeiro,
Novamente Editora, 2003.
Velut Luna, A Clínica Geral Da Nova Psicanálise,; MD. Magno;Seminário 1994, Rio de Janeiro, Novamente Editora.
Pela Supressão Dos Partidos Políticos, Simone Weil, Ed Âyné, 2016.
Crise e Reivenção Da Política No Brasil, Fernando Henrique Cardoso, 1ªed, São Paulo, Companhia das Letras, 2018.
Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República, Paulo Schmidt, Editora Leya, 2016/2017.
10% Humanidade ; Como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da Mente, Allana Collen, Rio de Janeiro, Ed. Sextante, 2016.
A trajetória do Presidente/ Marcos Lisboa.

Nenhum comentário: