É LONGO para os padrões de uma certa turma e, sobretudo, a geração mais nova, mas a gente faz assim mesmo.
‘O Brasil não é (acrescento, euzinho, que se trata do plano esportivo) o país do futebol. E sim, o país do jogador de futebol’
Abel Ferreira. Técnico da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Copas e troças.
Em 1974, as impressões mais nítidas sobre a Copa sem Pelé. Eu queria ter visto o rei jogar. Somente através da televisão? Pouco importa.
Pelas narrativas e histórias descritas pelos cronistas, contistas, fantasistas, também pouco importava. Mas o rei preferiu não se expor. Estava com 33/34 anos e talvez tenha pensado em interromper sua carreira na seleção brasileira no auge. Tinha feito tudo. Até mesmo ser massacrado na Copa do Mundo de 1966. Arrebentado por patrícios portugueses e quase linchado pela opinião pública que, como todos sabem , estrutura-se como linchagem.
Lembro-me do jogo de estreia , 1974, no apto que mais se parecia com uma casa, Corte do Cantagalo em ‘CopaBacana’. Casa dos avós paternos do melhor amigo daquela infância. Colega de colégio. Colégio do qual jamais gostei. Iugoslávia, foi o adversário. O colégio não existe mais e a amizade não chegou nem ao menos aos acréscimos do jogo. A Iugoslávia também já era. Após a morte do presidente deles, um ditador, o Marechal Tito ( Herói na Segunda Guerra Mundial) o país balcã esfacelou. Surgiram outros países, guerras étnicas sanguinárias ocorreram bem no fim da década de 80, início dos anos 90.
Em algum momento das nossas vidas, meu amigo e eu mudamos de cidade e o vínculo foi desaparecendo. Não havia a tecnologia que existe hoje. Essa mesma que aproxima quem está longe e afasta aquele que se posiciona ao lado, bem próximo.
Retornando ao tema de 1966, há cerca de 12ou 13 anos, o craque português Eusébio morreu. Chegávamos em Portugal no exato dia do seu velório. Entre o aeroporto e o local para a última homenagem, cogitei passar por lá. Não fomos. Lembrei do Pelé, nas imagens e histórias contadas pelos contadores de história sobre futebol. Então, desisti. Eusébio, de alguma forma, foi negligente com o colega. Poderia ter sido um súdito mais solidário.
Em 1978, a Argentina estava escalada para ganhar aquela Copa. Não precisaria de empurrões nada republicanos, uma ditadura militar vigente em quase toda América do Sul, para vencer. Por uma única razão bastante palatável: o time era muito bom. Menotti, o comandante, foi um dos melhores treinadores que existiram. O Brasil terminou invicto o campeonato e na terceira posição. A última imagem da participação canarinho (detesto esse termo associado à seleção), em 1978, foi o Rivelino. O craque que inspirou Diego Maradona a jogar. Ele, à beira do gramado, tirando o agasalho e se preparando para entrar no jogo contra a Itália pela disputa do terceiro lugar. A Itália vencia por 1x0 e o Brasil revirou para 2x1. Ele, Roberto Rivelino, entrou em campo desautorizado pelo técnico, Claudio Coutinho. Rixa antiga do Fla de Coutinho e do Flu do Riva. Coutinho, campeão membro da comissão técnica de 1970, foi campeão do mundo com o Flamengo em 1981. Na verdade, ele fez a campanha toda no comando da equipe. Mas morreu afogado em Ipanema, duas semanas antes. Mergulhador, calculou mal a profundidade em que estava e ...
Coutinho foi responsável por inovações táticas importantes. Ele viu a Holanda, aquele carrossel, em 1974.
1982, foi a vez do meu Maracanazo (Expressão que os uruguaios cunharam após vencer a seleção brasileira, no Maracanã, final do Mundial de1950). A geração que acompanhei crescer nas suas carreiras respectivas: Sócrates, Zico, Júnior, Falcão, Leandro, Paulo Izidoro e de muitos que não estiveram por lá, porém mereceriam uma chance. Por exemplo: uma ausência injustificável nos jogos do time foi a do Roberto Dinamite. Roberto, em 1978, salvou a equipe na Copa da Argentina. Conhecidos da minha família, torcedores do Vasco assim como eles, numa tarde de Domingo, lá no longínquo ano de 1973, campeonato brasileiro, no imortal Maracanã, disseram por muito tempo que, quem por lá apareceu para assistir ao jogo Vasco x Santos a fim de apreciar o talento de Pelé e CIA, testemunharam o espetáculo explosivo do Dinamite. Acabou com o jogo. Vasco 2x1 Pelé, Clodoaldo, Edu...
Campanha irretocável, jogos excelentes em todo o ciclo preparatório e apenas um empate para atingir a semifinal daquele Mundial de 1982. Vinte minutos para terminar a partida- jogo dificílimo contra uma Itália que, à época, trazia saborosas recordações de 4x 1, na final de 1970; 4 x1, de novo, no Bicentenário dos EUA , numa final de torneio importante; 2x1, a tal virada do Rivelino, Nelinho, Dinamite, Dirceu e Cia, pelo terceiro lugar na tal Copa do Tango- o empate em 2x2 nos classificava -, porém subestimamos o adversário e ignoramos o matador italiano, Paolo Rossi e que já fizera os 2 tentos da Azzurra. Livre como uma baleia jubarte (Baleia jubarte é livre? Quase foi extinta justo na década de 80!) cometeu o assassinato derradeiro:
O zagueiro brasileiro, Luizinho, estava na área adversária, pouco antes do terceiro gol de Rossi. O que fazia por lá? Fora a modificação equivocada por parte do nosso técnico, Telê Santana: Iniciou com a escalação de Toninho Cerezo, que não marcava ninguém, e deixou Paulo Izidoro, uma espécie de coringa, no banco. Um desastre. Percebi ali que somos nefelibatas e o lado obscuro da lua, recentemente visitado, já tinha sido descrito pelo Pink Floyd. O chão de abriu. Já dissera Freud que uma distinção possível entre o modo que se atravessa um luto ( Que pode durar para sempre) e um estado de melancolia é que no primeiro nota-se que existe um buraco no seu mundo; já na melancolia sente-se o buraco só que sem mundo. Quem já atravessou sabe o tamanho da pancada.
Quatro anos depois, foi novamente num México, o evento futebolístico. após um terremoto. O terremoto de 1985 quase destruiu o país e ameaçou a realização daquele mundial. Mais uma vez o senhor teimoso ,Telê Santana, no comando e a geração que me gerou enquanto apreciador e praticante amador do ‘esporte bretão’ se despedia dos mundiais. Invicto novamente, sem levar um único gol até às quartas de final, perde para o carrasco francês na disputa de penalidades, depois de 1x1 no tempo normal e 0x0 na prorrogação, e ‘au revoir’. ‘Au revoir encore une fois’ em 1990 contra a Argentina nas oitavas de final. Copa do Mundo da Itália.
1994! Desde 1970, sem o bálsamo de uma conquista de um mundial. Tecnicamente uma copa sofrível. E o calor do verão estadunidense agiu como um mau jogador. Um autêntico antijogo. Brasil campeão. Pela quarta vez. Percorri as ruas do Leblon e Ipanema sem hora para acabar, afinal 24 anos de espera e sabe-se lá. Dois dias se passaram e voando para Brasília a fim de visitar os meus pais que tinham adotado a capital federal para trabalho e vida, tivemos o pouso postergado por um inédito evento. Talvez só de 24 em 24 anos ele ocorra? A seleção brasileira, tetracampeã, acabara de pousar com o Romário, enquanto o avião taxiava, exibindo da cabine do piloto a taça conquistada. O público em êxtase, no aeroporto internacional aguardava. Passaram a destruir o aeroporto. Vandalismo cívico. O avião no qual estava, e não continha nenhuma taça de campeão do mundo a bordo, teve dar voltas no ar, quase piruetas, à espreita da liberação da pista. Em segurança... O caminho para o endereço dos meus pais e que costumava levar 15 ou 20 minutos até o aeroporto precisou de uma hora e meia. Foi o maior engarrafamento da história da capital federal. Plano Real em alta, FHC na pista e o Brasil acreditava...
Quatro anos mais tarde, 1998, França como sede (País lindo), e um vice campeonato. Campanha muito boa.
O único senão é que a partir de 1994, surgem jogadores no Brasil quase intocáveis e contratos milionários firmados entre empresas privadas, atletas e os dirigentes que mandam na abominável CBF. Além do que, nossos atletas são assediados como nunca pelo mercado europeu (O mais forte do futebol) enfraquecendo assim o nosso futebol local.
Em 2002, o último campeonato. Copa da rachadinha: Japão e Coréia do Sul sediando. A seleção brasileira com retrospecto sofrível nas eliminatórias surpreende e ganha da Alemanha por 2x0 na decisão final. Rivaldo, para mim, foi o grande nome daquele mundial. Ronaldo ‘Barriga’ e Ronaldinho ‘Dentuço’ foram os outros 2 destaques. Esse campeonato exigiu da nossa gente um esforço hercúleo por causa do fuso horário. Muitos jogos terminavam na madrugada ou começavam bem cedo. A decisão acabou ainda pela manhã. Cervejinha às 8 ou 9 horas da manhã? Um prelúdio para o que viria como bloco de carnaval nos anos 2000 que brotavam. Presidente FHC, que não sabia distinguir uma bola de futebol de campo daquela do Futsal, sortudo. O famigerado pé quente. Era ministro da fazenda em 1994, presidente vice em 1998 e novamente campeão, em 2002.
A secura faz muito mal à saúde. Desidrata, mata. Vamos nos permitir então uma pequena digressão?
Faz pouco mais de um ano, 2025 (Eliminatórias para essa Copa de anteontem) o time verde e amarelo tomou um cacete de 5x1 para Argentina, campeã em 2022. Ao final do jogo, em Buenos Aires, o time argentino junto com a torcida pediu um minuto de silêncio. Qualquer desavisado iria supor que homenageavam algum personagem importante, de lá, que morrera. Luzes apagadas, mais de 80 mil presentes no estádio, e o coro: ‘ Um minuto de silêncio porque o Brasil está morto’. E eles não disseram a seleção canarinho está morta. O Brasil está morto. Acertaram, exageraram... Não. Isso é coisa do futebol. Entre torcidas. ‘Cosa de los hinchas’.
Em 2006, a melhor seleção, tecnicamente falando, desde 1982. Aquela mesma do funeral no Sarriá, 1982. Tinham faturado tudo nos anos anteriores e jogando um futebol de alto nível. O problema é que essa geração passou a se interessar muito mais pelos seus êxitos pessoais, individuais, uma gula por grana e holofote sem precedentes. Uma considerável contribuição para tudo isso vem de uma parte da mídia oficial. Não porque sejam ingênuos. Tão somente predominam os negócios e seus interesses. Corrupção? Má gestão? Imagina...
A partir do acréscimo das mídias sociais, da força invasiva, vulgar e imensurável das tecnologias, da internet, e o uso perverso, mal educado dessas ferramentas, isso se torna incontrolável. Vamos nos permitir um palavrão: ‘fodeu’ ou ‘fudeu’?
Jogadores de um esporte coletivo e que acreditam que o futebol se transformou num esporte individual. Um sintoma fortemente eclesiástico que sacraliza algumas pessoas. Culto à personalidades e outras tolices do mesmo tipo. E uma grana que suscita não somente inveja, mas o pior: ressentimento. Uma sociedade destruída por toda sorte de desmando e corrupção. Um processo civilizatório, infelizmente, perdido. Por muitas décadas. Não é forçação de barra, e se for é problema de quem escreve o texto, traçar um paralelo, fazer uma analogia entre realidades do país e a seleção amarelada que vai derretendo. Não que haja simetria entre competências das instituições encarregadas do comando do futebol e conquistas. Se fosse assim a Suíça ou a Suécia seriam campeãs volta e meia. A Inglaterra não ficaria 60 anos, agora pelo menos 63, sem conquistar o mundial. E realiza o campeonato nacional mais forte do mundo. E a dupla Havelange/ Genro Teixeira? Saudades?
Nas últimas Copas do Mundo, com exceção de 2010 porque havia um capitão de verdade no comando da equipe, Um Dunga, as outras participações foram tristes. Uma impostura no modo de se comportar e dos comandos débeis. Precariedade em termos de recursos mentais.
Dois mil e catorze e aquela humilhação dentro da própria casa, nossa terra, dinheiro a rodo gasto. Sem maiores comentários. Sete a um tem sete letras.
Depois de 2006, uma copa jogada no lixo, e a escumalha de 2014, previ que seriam uns 30 anos de seca. Torço para que esteja errado. Sedentos ,não? E não fiz nenhuma aposta. Viu Neymar?
Ver menos
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