Émile Zola tomou uma frase emprestada de seu amigo de juventude, Paul Cézanne. Colocou essa sentença num dos seus mais famosos romances, 'A OBRA', e sentou a paulada no chamado movimento impressionista nas artes plásticas.
Sanguessuga foi o quadro que nem Cézanne, nem Renoir , Monet ou Degas - amigos e alguns dos principais inventores desse estilo- jamais pintaram. Teria sido a oportunidade para oferecê-la em desagravo à tentativa de destruição. Quem sabe o escritor não havia intuído que aquilo poderia se tornar algo mais importante do que a sua 'Obra'?
Émile já estava consagrado e desprezava os seus outros amigos ou intelectuais que ainda não tivessem obtido sucesso. Leia-se: faturado uma grana, obtido prestígio junto à realeza e outras formas de poder. Ingrato. Edouard Manet - um outro egrégio da turma- pintou-lhe e aquilo roda o mundo.
A provocação, entretanto, suscitou naqueles que foram muito esculhambados pelo escrito de Zola uma reação profícua. Ao invés da desistência, prosseguiram e mudaram as coisas nesse modo de ver. Paul Cézanne sobretudo.
Naquela famosa frase em que se diz que quem não veio ao mundo para incomodar seria melhor que não tivesse vindo, o pincel varreu a região da Provence centenas de vezes. Quando Ambroise Vollard -que se tornou marchand de Paul e de outros - decidiu procurar aquela versão século XIX de anacoreta , sabia que ali estava um olhar transformador. Portanto, um certo mal estar de rebeldias não faz malcriação. Ele incomoda porque se rebela. Mas se rebela com estilo próprio, sutilezas, riquezas, criatividade e até - nos casos mais relevantes- criação de uma estilística nova. Fadiga em relação à mesmice. Picasso ficou abismado com uma pequena escultura de um busto de escravo africano , nas mãos de um Matisse rival. Ali, teve início o seu cubismo transformador. Mesmo que não tenha sido a sua fase mais admirada. Para mim, por exemplo.
Somos uma espécie viciada. Adoramos hábitos que triunfaram. Fazer cocô, xixi. Beber água senão o rim apodrece. Ingerir carboidratos, glicose e proteínas para o boneco não perecer. Do ponto de vista de outras articulações, gostamos de manter certa rotina burocrática, cultural. A cor tal para menininhas e a outra para os menininhos. Imagine se isso cabe na mente de um desses caras citados anteriormente? Esse baile de cores disponíveis ou um ponto de luz na escuridão ( diria um Goethe diante do chamado vermelho) limitado à cegueira voluntária de um aspecto cultural esclerosado.
Aquilo já caducou, mas mantemos. Medo do desconhecido? Conversa fiada. Impossível temer o que não se conhece. Uma ex-mulher, por exemplo, não teme o que não conheceu, durante anos, ( Isso é século passado, pois hoje os casamentos duram até a troca dos presentes nas melhores lojas do ramo, após a festinha) no ex-marido. Sabe muito bem do que se trata. Ao menos deveria, caso contrário, surgirá o personagem todo engravatado e com aquele terno cinematográfico, carregando seu judicialismo pincelado de juízos valorados pela convenção cultural que a estabeleceu. Ou seja: borrou a tela. E o personagem mediando as transas, as negociações, os conflitos, aos quais nos recusamos pegá-los pelas rédeas pertinentes a cada situação e com mãos próprias. O genérico é inimigo das singularidades, das idiossincrasias. Genérico é neo-etologia. " Bom dia, Dr. Cachorro? Como vai a Senhora sua mãe, a Dona Cachorra?"
O excesso de judicialismo que nos submetemos é a comprovação da doença mental que assola a contemporaneidade. O mínimo de verdades que não se suporta- diria uma mente nietzschiana que sempre insiste em retornar porque não há outra saída-.
Onde? Como? O quê? Esse EU que, é tanta coisa e nada além, mente? Aqui e agora? Ficção? Realismo?
Ficamos à beira da estrada coberta por um vendaval de nome Mistral. Vem dos Alpes Suíços. Pontual, furioso e pode dar pinceladas por até 12 dias e atingir os 120 km/h.Temperatura descendo à menos 15 graus centígrados. As lavandas fugiram, esconderam-se dos nossos cavaletes à postos. " Não, senhor. Escafederam-se foi desse vento infernal'- disse aquela senhora que caminhava solitária pela encosta pintada de terracota, em Gordes, Provence. E ela gritou alto na nossa direção, enquanto agarrava sua sacola com as mãos: ' 'Il ya a pas de touristique ici, pendant l'hiver, monsieur' ( Não há turista por aqui no inverno, senhor!). Pobre senhora com calafrios! Ela ignorava que aventureiros-brasileiros-farofeiros formam uma tríade quase inacreditável. Surrealismo?
O hospício que foi habitado por Van Gogh , por último, em Les Baux, foi visitado. Mas Aix en Provence - um algoritmo que movimenta impressões- e pátria de Cézanne, escapou do olhar. Fica para uma outra, Paul. À bientôt.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Assis e um Brasil; José. Um terceiro moldado de barro.
Assis Brasil foi diplomata e pensador político brasileiro. Nascido no sul, foi ministro do conterrâneo, Getúlio Vargas. Perdeu a única filha, atingida por um raio. Quatro anos depois, morreria de tristeza. Utilizando um termo bem apropriado para época, o político nascido no século XIX, 'morreu de desgosto'.
O Brasil recebe a descarga de 50 milhões de raios por ano. Somos recordistas na arte de eletrocutar pessoas ou rebanhos e também provocar inúmeros danos materiais. Nos últimos 20 anos, morreram mais brasileiros vitimados por essa demasiada excitação no interior das nuvens do que as que morreram por causa dos deslizamentos de terra ou enxurradas.
Assis Brasil escrevia bem. Tinha um texto apurado. Pensava a política enquanto ferramenta para mediações diplomáticas na destribuição dos poderes. Sem nunca se esquecer das benesses sociais. Para ele, o Estado deve servir a sociedade e não o contrário. Infelizmente, o que se observa é a prática patrimonialista e patriarcalista viciadas.
O homem que carregava o país em nome próprio pode ao menos se despedir, sepultar, reconhecer de fato e direito a dolorosa perda da filha.
No caso das enxurradas no Estado do Rio, em Janeiro de 2011, mais de duzentas criaturas e os seus próximos não puderam fazer o mesmo. Sumiram. Levadas pela água, pelo barro, pela lama, desapareceram. Não é tão simples. Existiram e sumiram de fato e direito. De direito, contudo, ainda permanecem.
Essa prática mórbida data de períodos arbitrários onde o próprio Estado exercia papel de fuzilaria e massacre das oposições, de certas diferenças. Independente de ideologias. Se corrermos com a história no mundo, encontraremos essas praticagem em ambas as extremidades. Tanto à direita quanto à esquerda.
Um outro personagem, Armando Nogueira, jornalista esportivo, botafoguense, e que sabia escrever tão bem numa época em que o futebol podia inspirar belos textos, nasceu no Acre e se mudou para o Rio. Aqui despontou. Venceu a vida. Notabilizou-se. O que é bem mais relevante do que a vulgaridade da fama.
Numa manhã- mas poderia também ser à noite- avisaram-no que ele fora declarado morto, lá na sua longínqua terra. Decidiu averiguar. Avião tomado, rumou, Vivinho de Nogueira, para se declarar como tal. Parece que não conseguiu. Diante do funcionário estatal- burocrático reificado feito estátua- apresentou-se. Mostrou documentos com foto colorida e até em preto e branco ( homenagem ao clube esportivo de sua adoração). Carregou uma testemunha. Nada. O cidadão insistia em lhe dizer: ' O senhor está morto'. Causa mortis: acidente aéreo. Armando imitava passarinhos. Era também aviador.
Por mais que pareça espantoso, a fidelidade ao enunciado primeiro, ou seja, o documento inicial que por alguma tentativa de linchamento ( sabemos que a inveja é uma merda, mas o ressentimento pode ser merda maior) poderia decidir sobre a morte de um insistente ser vivo, era extraordinariamente delirante. Vejamos que práticas fundamentalistas são bem mais antigas e com diversas nuances, credos e ofícios.
José da Silva Matarazzo Gates de Alcântara III era um homem. Logo, pode ser mais um personagem. Diante desse fato, ao menos. nenhum outro escrivão causou maiores estragos. Esse outro nasceu num bom lugar, numa hora errada. Surgiu na região das montanhas do Estado Fluminense que só sabe celebrar o Oceano. E por isso se tornara um terceiro qualquer. Na linhagem de alguns Pedros, da cidade vizinha. Seu pai não o queria. Sua mamãe, Teresa, o adorava. Contrariado, o pai fugiu com a melhor das piores amigas da mãe de José III. Abandonou aquela senhorita e outras cinco crianças na sua cidade, uma Teresa-Pólis. Reproduzem assim mesmo: aos montes. Até mesmo um Papa confessou para milhões que pareciam coelhinhos...de Páscoa.
Crescido, Matarazzo José Gates caiu do mundo. Destemido, dispensou mediações para poder caminhar com pernas tão suas. Foi criticado. Chamaram-no de arrogante. Como ousa dispensar mediações numa terra que só se dedica a essa prática? Na política profissional recebe o nome de pistolão. Mandou às favas aquele ritual dominical e também os festejos que encerram mais uma voltinha do planeta na cinturinha de uma estrela que cospe fogo e da sua própria. Transações. Não quis filhos. Pensou que poderia amaldiçoá-los com a sua singular maldição. Além do que, adorava as mulheres e seu corpo original de fábrica. Decidiu ser ninguém. E a lama odienta varrendo, limpando....E aquela chuvarada? Pegou-lhe de frente, de lado, rabo de arraia. Um cachorro foi visto se afogando. Sua dona escapou, pois coleira estava frouxa. Houve gente que torceu mais pelo cachorro do que pela mulher. Eram mulheres, na maioria.
Parece então que esse Silva enrustido virou, sobretudo ou finalmente, ninguém. Esculpido e eternizado pelo barro. Escombros. Será que Caminhas de mãos dadas, seresta a cantarolar supostas arrogâncias, agora, de Marianas?
O Brasil recebe a descarga de 50 milhões de raios por ano. Somos recordistas na arte de eletrocutar pessoas ou rebanhos e também provocar inúmeros danos materiais. Nos últimos 20 anos, morreram mais brasileiros vitimados por essa demasiada excitação no interior das nuvens do que as que morreram por causa dos deslizamentos de terra ou enxurradas.
Assis Brasil escrevia bem. Tinha um texto apurado. Pensava a política enquanto ferramenta para mediações diplomáticas na destribuição dos poderes. Sem nunca se esquecer das benesses sociais. Para ele, o Estado deve servir a sociedade e não o contrário. Infelizmente, o que se observa é a prática patrimonialista e patriarcalista viciadas.
O homem que carregava o país em nome próprio pode ao menos se despedir, sepultar, reconhecer de fato e direito a dolorosa perda da filha.
No caso das enxurradas no Estado do Rio, em Janeiro de 2011, mais de duzentas criaturas e os seus próximos não puderam fazer o mesmo. Sumiram. Levadas pela água, pelo barro, pela lama, desapareceram. Não é tão simples. Existiram e sumiram de fato e direito. De direito, contudo, ainda permanecem.
Essa prática mórbida data de períodos arbitrários onde o próprio Estado exercia papel de fuzilaria e massacre das oposições, de certas diferenças. Independente de ideologias. Se corrermos com a história no mundo, encontraremos essas praticagem em ambas as extremidades. Tanto à direita quanto à esquerda.
Um outro personagem, Armando Nogueira, jornalista esportivo, botafoguense, e que sabia escrever tão bem numa época em que o futebol podia inspirar belos textos, nasceu no Acre e se mudou para o Rio. Aqui despontou. Venceu a vida. Notabilizou-se. O que é bem mais relevante do que a vulgaridade da fama.
Numa manhã- mas poderia também ser à noite- avisaram-no que ele fora declarado morto, lá na sua longínqua terra. Decidiu averiguar. Avião tomado, rumou, Vivinho de Nogueira, para se declarar como tal. Parece que não conseguiu. Diante do funcionário estatal- burocrático reificado feito estátua- apresentou-se. Mostrou documentos com foto colorida e até em preto e branco ( homenagem ao clube esportivo de sua adoração). Carregou uma testemunha. Nada. O cidadão insistia em lhe dizer: ' O senhor está morto'. Causa mortis: acidente aéreo. Armando imitava passarinhos. Era também aviador.
Por mais que pareça espantoso, a fidelidade ao enunciado primeiro, ou seja, o documento inicial que por alguma tentativa de linchamento ( sabemos que a inveja é uma merda, mas o ressentimento pode ser merda maior) poderia decidir sobre a morte de um insistente ser vivo, era extraordinariamente delirante. Vejamos que práticas fundamentalistas são bem mais antigas e com diversas nuances, credos e ofícios.
José da Silva Matarazzo Gates de Alcântara III era um homem. Logo, pode ser mais um personagem. Diante desse fato, ao menos. nenhum outro escrivão causou maiores estragos. Esse outro nasceu num bom lugar, numa hora errada. Surgiu na região das montanhas do Estado Fluminense que só sabe celebrar o Oceano. E por isso se tornara um terceiro qualquer. Na linhagem de alguns Pedros, da cidade vizinha. Seu pai não o queria. Sua mamãe, Teresa, o adorava. Contrariado, o pai fugiu com a melhor das piores amigas da mãe de José III. Abandonou aquela senhorita e outras cinco crianças na sua cidade, uma Teresa-Pólis. Reproduzem assim mesmo: aos montes. Até mesmo um Papa confessou para milhões que pareciam coelhinhos...de Páscoa.
Crescido, Matarazzo José Gates caiu do mundo. Destemido, dispensou mediações para poder caminhar com pernas tão suas. Foi criticado. Chamaram-no de arrogante. Como ousa dispensar mediações numa terra que só se dedica a essa prática? Na política profissional recebe o nome de pistolão. Mandou às favas aquele ritual dominical e também os festejos que encerram mais uma voltinha do planeta na cinturinha de uma estrela que cospe fogo e da sua própria. Transações. Não quis filhos. Pensou que poderia amaldiçoá-los com a sua singular maldição. Além do que, adorava as mulheres e seu corpo original de fábrica. Decidiu ser ninguém. E a lama odienta varrendo, limpando....E aquela chuvarada? Pegou-lhe de frente, de lado, rabo de arraia. Um cachorro foi visto se afogando. Sua dona escapou, pois coleira estava frouxa. Houve gente que torceu mais pelo cachorro do que pela mulher. Eram mulheres, na maioria.
Parece então que esse Silva enrustido virou, sobretudo ou finalmente, ninguém. Esculpido e eternizado pelo barro. Escombros. Será que Caminhas de mãos dadas, seresta a cantarolar supostas arrogâncias, agora, de Marianas?
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Arteiros/Artistas
'Passei alguns anos tentando pintar como Rafael, mas a vida toda tentando pintar como uma criança'. ( Pablo Picasso)
Influenciado pelo pós-impressionista, Cézanne; pela obra do grande amigo, Braque; pelo infantilismo de um então pintor desconhecido, Henry Rousseau; e finalmente pela rivalidade profícua que alimentava com Matisse, surgiu Picasso e suas mil e uma possibilidades. Através do amódio por Matisse, ele inicia sua trajetória em direção ao cubismo.
Matisse lhe escondia o que fazia. Numa tarde parisiense - terra escolhida pelo espanhol furioso- na casa da amiga de ambos, Gertrude Stein, o francês lhe esconde por entre suas próprias mãos, a pequena escultura de um busto que retratava as feições de um homem africano. Picasso quase que lhe arranca das mãos a pequena peça, pois Matisse se recusava a lhe mostrar, e começa a contemplá-la. Epifania? Essa peça lhe muda o rumo. De uma quase certeza, inerte segundo ele, passa a se guiar por sensações, descobertas, incertezas e inconformismos.
Inconformado com as formas tão previsíveis, simétricas, passa a decompô-las, fragmentá-las. Ao invés do bidimensional tão reconfortante, inclui diversas outras formas, infinitas possibilidades, mais dimensões. Atravessou praticamente todos os períodos da chamada artes plásticas. Não foi à toa que cutucou o brio de colegas como Modigliani, o próprio Matisse, e um Marcel Duchamp que lhe botou na frente e por trás um penico. As articulações que daquele penico emergissem - nossas considerações, certos olhares- comprovariam que era de obra de arte se tratava. Essa conversa vai longe...Há mais ou menos 5 anos, escapando da festa pagã movida por bebuns e colombinas e seus grossos gogós, estivemos em São Paulo para uma suposta exposição num novo centro cultural, antiga sede do Detran da capital do estado. Saíram os automóveis e suas multas e entraram pinturas e esculturas. Infelizmente, não avisaram aos mantenedores e patrocinadores do local que as obras expostas eram bem mais importantes do que uma presença opressiva de uma centena de seguranças para quase nenhuma testemunha. Muitas obras não estavam disponíveis para serem vistas pelo público. Uma produção burocrática confundiu as cores, texturas. Mas havia ao menos uma que se destacava: uma escultura enorme, toda de bronze, enorme, e que repousava na entrada prinicipal. Marília Martins se fazia presente. Sempre mandou às favas qualquer tentativa de institucionalizar qualquer protocolo que não combinasse com tal ato opressivo. Logo, ela, Marília. Embaixatriz brasileira e também ex- amante de Marcel Duchamp.
Quando se está numa exposição é preciso que se tenha alguma informação mínima sobre a trajetória daquele ou daquela artista. Caso contrário, simplesmente, não se conseguirá entender nada e algo como ' eu faria melhor' ou 'esse fulano é muito doido' continuarão a ressoar nas exibições mundo afora.
Um Eduardo Sued, nosso conterrâneo e que entra para o time dos nonagenários, por exemplo, tem um processo de abstração figurativa, geométrica, e minimalismos na sua obra e que são de uma sofisticação impressionantes. Numa das últimas mostras suas, no CCBB-Rio, todas aquelas telas enormes, vermelhas e retangulares em sua maioria, eram únicas e traziam um vermelho de cada. Para quem pode ver melhor, existiam outras cores presentes. Talvez várias delas.
Cézanne ou seu conterrâneo, René Magritte, são exemplos de pinturas que -segundo seus estudiosos- você só poderá contemplá-los com um olhar atravessado, melhor dizendo; aquele olhar que atravesse o quadro. Mesmo as inúmeras telas que o mestre de Aix-en-Provence fez de uma mesma série de montanhas e planícies da sua terra provençal possuem singularidades. Não se trata- equívoco tão comum- de perfeccionismo, e sim, que eles descobrem mais e mais formações a cada nova perspectiva. A cada nova pincelada.
Toda neura começa na infância. Isso é mais do que sabido. Porém, parece possível mesclar todas as cores em suas diferentes gerações. Deslocar, portanto, sintomas que borram nossa arte. Seria também isso poder, finalmente, pintar feito criança?
Influenciado pelo pós-impressionista, Cézanne; pela obra do grande amigo, Braque; pelo infantilismo de um então pintor desconhecido, Henry Rousseau; e finalmente pela rivalidade profícua que alimentava com Matisse, surgiu Picasso e suas mil e uma possibilidades. Através do amódio por Matisse, ele inicia sua trajetória em direção ao cubismo.
Matisse lhe escondia o que fazia. Numa tarde parisiense - terra escolhida pelo espanhol furioso- na casa da amiga de ambos, Gertrude Stein, o francês lhe esconde por entre suas próprias mãos, a pequena escultura de um busto que retratava as feições de um homem africano. Picasso quase que lhe arranca das mãos a pequena peça, pois Matisse se recusava a lhe mostrar, e começa a contemplá-la. Epifania? Essa peça lhe muda o rumo. De uma quase certeza, inerte segundo ele, passa a se guiar por sensações, descobertas, incertezas e inconformismos.
Inconformado com as formas tão previsíveis, simétricas, passa a decompô-las, fragmentá-las. Ao invés do bidimensional tão reconfortante, inclui diversas outras formas, infinitas possibilidades, mais dimensões. Atravessou praticamente todos os períodos da chamada artes plásticas. Não foi à toa que cutucou o brio de colegas como Modigliani, o próprio Matisse, e um Marcel Duchamp que lhe botou na frente e por trás um penico. As articulações que daquele penico emergissem - nossas considerações, certos olhares- comprovariam que era de obra de arte se tratava. Essa conversa vai longe...Há mais ou menos 5 anos, escapando da festa pagã movida por bebuns e colombinas e seus grossos gogós, estivemos em São Paulo para uma suposta exposição num novo centro cultural, antiga sede do Detran da capital do estado. Saíram os automóveis e suas multas e entraram pinturas e esculturas. Infelizmente, não avisaram aos mantenedores e patrocinadores do local que as obras expostas eram bem mais importantes do que uma presença opressiva de uma centena de seguranças para quase nenhuma testemunha. Muitas obras não estavam disponíveis para serem vistas pelo público. Uma produção burocrática confundiu as cores, texturas. Mas havia ao menos uma que se destacava: uma escultura enorme, toda de bronze, enorme, e que repousava na entrada prinicipal. Marília Martins se fazia presente. Sempre mandou às favas qualquer tentativa de institucionalizar qualquer protocolo que não combinasse com tal ato opressivo. Logo, ela, Marília. Embaixatriz brasileira e também ex- amante de Marcel Duchamp.
Quando se está numa exposição é preciso que se tenha alguma informação mínima sobre a trajetória daquele ou daquela artista. Caso contrário, simplesmente, não se conseguirá entender nada e algo como ' eu faria melhor' ou 'esse fulano é muito doido' continuarão a ressoar nas exibições mundo afora.
Um Eduardo Sued, nosso conterrâneo e que entra para o time dos nonagenários, por exemplo, tem um processo de abstração figurativa, geométrica, e minimalismos na sua obra e que são de uma sofisticação impressionantes. Numa das últimas mostras suas, no CCBB-Rio, todas aquelas telas enormes, vermelhas e retangulares em sua maioria, eram únicas e traziam um vermelho de cada. Para quem pode ver melhor, existiam outras cores presentes. Talvez várias delas.
Cézanne ou seu conterrâneo, René Magritte, são exemplos de pinturas que -segundo seus estudiosos- você só poderá contemplá-los com um olhar atravessado, melhor dizendo; aquele olhar que atravesse o quadro. Mesmo as inúmeras telas que o mestre de Aix-en-Provence fez de uma mesma série de montanhas e planícies da sua terra provençal possuem singularidades. Não se trata- equívoco tão comum- de perfeccionismo, e sim, que eles descobrem mais e mais formações a cada nova perspectiva. A cada nova pincelada.
Toda neura começa na infância. Isso é mais do que sabido. Porém, parece possível mesclar todas as cores em suas diferentes gerações. Deslocar, portanto, sintomas que borram nossa arte. Seria também isso poder, finalmente, pintar feito criança?
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Armando Rodolfo, enfim, foi ao teatro.
Armando Rodolfo estava no teatro pela primeira vez. Acompanhado de sua mãe que o tinha convidado para prestigiar a irmã que, por sua vez, exibia virtuosidades juntamente com a sua turma de sapateado. O cenário: um grande teatro em área nobre da cidade. E com a platéia alvoroçada.
'Tap Dance'- garoto. Irmã mais velha adora esse tipo de provocação. No século passado, o clã das irmãs utilizava o pejorativo 'pirralho' a fim de encerrar qualquer argumentação. Um nocaute. Portanto, 'pirralho' e 'garoto' são algumas das armas quase letais nessa batalha familiar intensificada no fim do ano com seus festejos desgastados, previsíveis. Por exemplo: um ano termina e um outro parece que tem que começar. Para quê tanto imperativo? Algo tão opressivo. Junte-se a isso um calor tórrido e pouco civilizado pelos lados mais rebaixados do Equador imaginário.
O garoto estava impossível. Mudou de lugar algumas dezenas de vezes e agindo assim supunha iniciar um balé sedutor na direção de sua mãe. Estaria suicida, o pequeno Armando? Ataques de ciúmes por causa do olhar amoroso, materno, desviado para sua irmã? Sim, pois sua mãe procurava- quase à beira de um ataque à Almodóvar-, e mesmo com as luzes apagadas e o espetáculo a começar, pelos teclados do abominável celular. Essa jovem senhora não respeitava as recomendações de manter o tenebroso telefone século 21 fora de cena. Imaginem!- teria olhado em voz alta e plena.- Se vou deixar de registrar esse momento inédito, único, da minha exibição (ôps), quero dizer: da performance da minha única e mais querida filha! Armando Rodolfo não gostou. Ela, ao perceber seu desapontamento, explica-lhe que colocara tudo no feminino. Portanto, a loucura estava bem posta. Utilizou o gênero mais apropriado.
Visto isso, O pirralho ( ôps), o garoto, aceita o armistício. Sabe que a mãe - bem maior e robusta do que ele- não está para firulas. Assustador, contudo, para os seus olhos de fantasia, pois a mãe leva tudo muito a sério. Ela crê fundamentalmente. Então, remexe os quadris, dança, goza frenética. Felizmente, poupara os saltos do sapato, tamanho 20cms, que tentavam acompanhar o ritmo dos 'tap dancers', enquanto ajustava a câmera do monstro portátil que, muito raramente, serve também para se dizer um singelo 'alô'.
Quando consegue ajustar a posição adequada para o tiro, seu filho a faz, outra vez, perder a compostura. Ele reconhecera o poder maior do outro, mas não se conformava. O que comprova sinal de inteligência. Não ia desafiá-la sem medir algumas consequências. Temerário, imprudente, ele pula, fingindo entusiasmo verdadeiro, para uma outra poltrona, e cuja distância para tal proeza exigia perícia. Porém, o movimento foi tão brusco que a fileira inteira parecia fazer uma onda. Daquelas que torcedores nos estádios de futebol fazem. Fingindo, tão bem, felicidades.
De repente, a compostura materna adentra com o pedido de falência, e a partir daí, o filho da mãe começa a gritar por um nome. Quase uma prece. Parece que era Marina, o dito nome de menina. O público, por sua vez, espanta-se. Alvoroçados desde o início, viravam as cabeças na direção do menino e quase o fuzilam munidos de batons, leques, celulares e outros quitutes.
' Estás louco?- pergunta um semideus assombrado que passara por aquele palco, décadas atrás. 'Decidir por provocar a cólera dessas senhoras? Mães e até as avós dessas meninas que dançam com as suas próprias pernas, num noite de estréia? Festa de estrelas? Continuas com tanto talento para o suicídio?'- prosseguiu o fantasma antes de sumir na coxia.'
O menino silenciou. Evocou um adágio, depois um noturno, mas vislumbrou mesmo a marcha fúnebre no horizonte de três poltronas à direita. Não ousava, ele mesmo, virar a cabeça para o lado. E se um torcicolo o tomasse de jeito e ficasse congelado como nas brincadeiras de outrora: 'estátua'! Aquela senhora o mataria ali mesmo. De um modo ou de um outro modo, ela o faria. E alegaria legítima defesa da sua honra. Crime doloso. Não há nenhum porquê para não assumir tal ato. Afinal, quem mandou cutucar certas loucuras milenares?
Permaneceu quieto, imóvel. Estaria vivo? Ah! Ainda respira. É possível ver uma lágrima se destacar na multidão. A lágrima sobe e desce. Muda de figurino. Metamorfoseada de riso, ela aplaude o derradeiro ato daquela dança. As abomináveis máquinas de tirar fotografias - dessas que fizeram ninho nos telefones onipresentes- disparam seus ataques de luzes e flashes.
Dizem que se passaram minutos. Pura ficção de algum contador dos tempos. Mas o que se sabe é que Armando Rodolfo exaltou como nunca todo o ciúme, a inveja, certo horror com amor, ressentimento, na direção da irmã Marina que, a essa altura, estava embevecida pelos tantos aplausos e gritinhos que a audiência lhes dirigia.
Foi então que o garoto DDA, DDT, Hiper-Polar ( síndrome de urso), Maníaco Depressivo, Hiperativo, ou seja, Contemporâneo, decidiu agir feito um homem precoce: virou lentamente a sua cabeça para o lado direito daquela fileira de poltronas que, massacradas pelos seus pulos, respiravam ofegantes. Uma eternidade esse vira-vira. E o mais espantoso foi o que presenciou.
Caída no chão, celular agarrado às mãos ( feito uma reza) estava sua mãe. Àquela....Simplesmente, desmaiara.
Armando Rodolfo se aproxima. Passa a mão no seu rosto e suplica-lhe que acorde. Ela abre os olhos, confere o celular. Aflita, mas agora, contente. Gravara tudo. Até mesmo a hora que antecedeu o seu piripaque. Os dois se abraçaram num dramalhão só. 'Filho! Tenho que lhe dizer algo.- diz a jovem senhora. Antes de quase morrer, avistei um fantasminha que mora nesse teatro, faz muitos anos. E ele me disse que você seria uma excelente bailarina (ôps), bailarino.'
O menino-pirrralho-garoto aprendeu na sua primeira ida ao teatro - e com o reforço da mãe da bailarina - que não se deve confiar em qualquer assombração. E como nos relembra Fernando Pessoa... 'Apesar de sermos os avatares da estupidez passada'.
'Tap Dance'- garoto. Irmã mais velha adora esse tipo de provocação. No século passado, o clã das irmãs utilizava o pejorativo 'pirralho' a fim de encerrar qualquer argumentação. Um nocaute. Portanto, 'pirralho' e 'garoto' são algumas das armas quase letais nessa batalha familiar intensificada no fim do ano com seus festejos desgastados, previsíveis. Por exemplo: um ano termina e um outro parece que tem que começar. Para quê tanto imperativo? Algo tão opressivo. Junte-se a isso um calor tórrido e pouco civilizado pelos lados mais rebaixados do Equador imaginário.
O garoto estava impossível. Mudou de lugar algumas dezenas de vezes e agindo assim supunha iniciar um balé sedutor na direção de sua mãe. Estaria suicida, o pequeno Armando? Ataques de ciúmes por causa do olhar amoroso, materno, desviado para sua irmã? Sim, pois sua mãe procurava- quase à beira de um ataque à Almodóvar-, e mesmo com as luzes apagadas e o espetáculo a começar, pelos teclados do abominável celular. Essa jovem senhora não respeitava as recomendações de manter o tenebroso telefone século 21 fora de cena. Imaginem!- teria olhado em voz alta e plena.- Se vou deixar de registrar esse momento inédito, único, da minha exibição (ôps), quero dizer: da performance da minha única e mais querida filha! Armando Rodolfo não gostou. Ela, ao perceber seu desapontamento, explica-lhe que colocara tudo no feminino. Portanto, a loucura estava bem posta. Utilizou o gênero mais apropriado.
Visto isso, O pirralho ( ôps), o garoto, aceita o armistício. Sabe que a mãe - bem maior e robusta do que ele- não está para firulas. Assustador, contudo, para os seus olhos de fantasia, pois a mãe leva tudo muito a sério. Ela crê fundamentalmente. Então, remexe os quadris, dança, goza frenética. Felizmente, poupara os saltos do sapato, tamanho 20cms, que tentavam acompanhar o ritmo dos 'tap dancers', enquanto ajustava a câmera do monstro portátil que, muito raramente, serve também para se dizer um singelo 'alô'.
Quando consegue ajustar a posição adequada para o tiro, seu filho a faz, outra vez, perder a compostura. Ele reconhecera o poder maior do outro, mas não se conformava. O que comprova sinal de inteligência. Não ia desafiá-la sem medir algumas consequências. Temerário, imprudente, ele pula, fingindo entusiasmo verdadeiro, para uma outra poltrona, e cuja distância para tal proeza exigia perícia. Porém, o movimento foi tão brusco que a fileira inteira parecia fazer uma onda. Daquelas que torcedores nos estádios de futebol fazem. Fingindo, tão bem, felicidades.
De repente, a compostura materna adentra com o pedido de falência, e a partir daí, o filho da mãe começa a gritar por um nome. Quase uma prece. Parece que era Marina, o dito nome de menina. O público, por sua vez, espanta-se. Alvoroçados desde o início, viravam as cabeças na direção do menino e quase o fuzilam munidos de batons, leques, celulares e outros quitutes.
' Estás louco?- pergunta um semideus assombrado que passara por aquele palco, décadas atrás. 'Decidir por provocar a cólera dessas senhoras? Mães e até as avós dessas meninas que dançam com as suas próprias pernas, num noite de estréia? Festa de estrelas? Continuas com tanto talento para o suicídio?'- prosseguiu o fantasma antes de sumir na coxia.'
O menino silenciou. Evocou um adágio, depois um noturno, mas vislumbrou mesmo a marcha fúnebre no horizonte de três poltronas à direita. Não ousava, ele mesmo, virar a cabeça para o lado. E se um torcicolo o tomasse de jeito e ficasse congelado como nas brincadeiras de outrora: 'estátua'! Aquela senhora o mataria ali mesmo. De um modo ou de um outro modo, ela o faria. E alegaria legítima defesa da sua honra. Crime doloso. Não há nenhum porquê para não assumir tal ato. Afinal, quem mandou cutucar certas loucuras milenares?
Permaneceu quieto, imóvel. Estaria vivo? Ah! Ainda respira. É possível ver uma lágrima se destacar na multidão. A lágrima sobe e desce. Muda de figurino. Metamorfoseada de riso, ela aplaude o derradeiro ato daquela dança. As abomináveis máquinas de tirar fotografias - dessas que fizeram ninho nos telefones onipresentes- disparam seus ataques de luzes e flashes.
Dizem que se passaram minutos. Pura ficção de algum contador dos tempos. Mas o que se sabe é que Armando Rodolfo exaltou como nunca todo o ciúme, a inveja, certo horror com amor, ressentimento, na direção da irmã Marina que, a essa altura, estava embevecida pelos tantos aplausos e gritinhos que a audiência lhes dirigia.
Foi então que o garoto DDA, DDT, Hiper-Polar ( síndrome de urso), Maníaco Depressivo, Hiperativo, ou seja, Contemporâneo, decidiu agir feito um homem precoce: virou lentamente a sua cabeça para o lado direito daquela fileira de poltronas que, massacradas pelos seus pulos, respiravam ofegantes. Uma eternidade esse vira-vira. E o mais espantoso foi o que presenciou.
Caída no chão, celular agarrado às mãos ( feito uma reza) estava sua mãe. Àquela....Simplesmente, desmaiara.
Armando Rodolfo se aproxima. Passa a mão no seu rosto e suplica-lhe que acorde. Ela abre os olhos, confere o celular. Aflita, mas agora, contente. Gravara tudo. Até mesmo a hora que antecedeu o seu piripaque. Os dois se abraçaram num dramalhão só. 'Filho! Tenho que lhe dizer algo.- diz a jovem senhora. Antes de quase morrer, avistei um fantasminha que mora nesse teatro, faz muitos anos. E ele me disse que você seria uma excelente bailarina (ôps), bailarino.'
O menino-pirrralho-garoto aprendeu na sua primeira ida ao teatro - e com o reforço da mãe da bailarina - que não se deve confiar em qualquer assombração. E como nos relembra Fernando Pessoa... 'Apesar de sermos os avatares da estupidez passada'.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Contudo, embora, entretanto. Isto é: ou seja. Locuções e mitos.
Esse título, nada usual, diz respeito à certas construções linguageiras- as 3 primeiras são chamadas conjunções gramaticais adversativas e as 2 seguintes são locuções que juntam duas frases ou palavras , normalmente, tentando retificá-las ou ratificá-las.
Nessa linha, o jornalista e autor gaúcho, Fausto Wolff, - empedernido brizolista e que morreu há poucos anos- era conhecido por seu texto preciso ( o que seria isso?) e por ser o mais hábil dos jornalistas/escritores a utilizar, por exemplo, o pronome que. Esteja ele na sua forma indefinida ou relativa.
Aprende-se que o brilhantismo de um texto, necessariamente, tem a ver com o estilo desenvolvido, encarnado, que alguém poderá dizer com palavrinhas. Deve ser esse o sentido do emprego do pronome que, por Fausto. Ele tinha brilho com o quê. E não somente com o que. Fausto foi um ensaísta, diretor de teatro e deixou vasta obra intelectual. Era machão dos pampas e ao mesmo tempo doce. Morreu no dia seguinte à morte de um outro celebrado machão, talvez o maior deles, Waldick Que, não era cachorro NÃO, Soriano. Waldick não se submetia à exames de próstata. Seu câncer começou por ali.
Nesse meu caso pessoal, tenho sérias questões- não tanto com as dedadas invasivas e impessoais às quais nos submetem os exames prostáticos-, mas com as conjunções, pois sou uma espécie de viciado. E aí, para mudar o foco, justifico com essas mencionadas locuções. Para aquilo que, provável/mente, ainda não fez sentido.
Outro vício incurável é a aplicação das reticências. Não irei nem ao menos reafirmar a sua função na escrita, já que temos como fonte de inspiração uma bela autora do teatro infantil francês e que declarou que, às vezes, ao se cansar muito, depois de horas de tela vazia, papel em branco, interrompe essa atividade para respirar um pouco e sapecar umas reticências. Disse ainda que tinha preguiça com a tal pontuação. Se acaso sofresse de asma, iria rever suas posições e pontuações.
Reticências seriam um mero capricho para evitar longos períodos, hiatos....Reticências. Suspensão.
Suspensão de sentido, emoção velada. Conjunções que tentam contrapor o sentido pregresso ou as locuções que procuram juntar palavras ou frases anteriores a fim de confirmá-las ou negá-las. Brincadeira de equivocar qualquer sentido ou qualquer falação. Para quê?
Eis que a forma pronominal -com a qual se divertia tanto o jornalista gaúcho, Fausto- reaparece. Uma curiosidade quase desproporcional à pretensão do texto. Existiria, por exemplo, QUE em alemão? Goethe sabia sobre esses quês tão endiabrados? Quase que fundamentais? Imperativos? Estariam indefinidos?
A relatividade proposta por um festejado conterrâneo, Einstein ( aquele mesmo que estirou a língua para o universo em expansão ), ajudaria nesse confusão de línguas e seus artifícios/artemanhas? Tempo e espaço se misturam. São ficcionais? Um texto fala sobre fatos verdadeiros ou fatos falsos? O que é a vida real e o que é a ficção? Se está sendo inventado, por que não é 'da vida real'? Só é considerado da chamada vida real o que já estava por aqui, antes dessa espécie gente estar? Portanto, passemos a saudar as árvores, os cachorros,a lama que muda a cor dos oceanos, mata, e assim por diante. Mas não haveria minha concepção de lama ou rio se o conceito/palavra assim não houvesse. Haveria outra coisa. Mas ambos, rios e lamas, estariam lá, desde sempre, a se supor antes da gente. Quem faz essa conta? Seria um demiurgo? Esses seres transcendentes apelidados de deuses? E quem faz a conta por eles? Esse recuo reflexivo provoca vertigens na entropia/neguentropia da expansão do universo. A Língua de Albert Einstein aponta para o infinito. E lembremos que o projeto dele, hoje, pode ser considerado um clássico. No contemporâneo temos os quantuns, os bits, q-bits e física feita de cordas.
Na nossa estada contemporânea, presencia-se essa confusão de mitos e ditos. Tudo parece que morreu e insiste em continuar. Mas como pode? Um desfile de mortos vivos. Talvez por isso que existam tantos filmes com zumbis. Uma nova festa de família? Já que o fim de ano está perto, o tema está posto: lado a lado com comilança, champanhe, saco de Noel e lorotas. Enganamos criancinhas, por séculos, e isso não é considerado assédio. Curioso.
Terminemos tão somente para prosseguir, 'claricianamente', ou seja ( UFA! Não se resiste) artemanhas de Clarice, fazendo um som mais ou menos assim. .......... Ou melhor,.;"?!~^{}
domingo, 22 de novembro de 2015
GOL DE CRIANÇA.
O pai ninava a criança numa guerra de gramados. Eram duas as
crianças. Uma já o imitava nas macaquices. Vestia a mesma roupa deselegante e entoava
os mesmos cânticos. Não é só um hino francês- agora na moda- que conclama
guerras e sangramentos. Muitos outros conclamam barbaridades também.
A criança ninada parecia conformada. Não se mexia. Estaria
morta? Não. Estava fugindo daquilo tudo, e bem ali, com as únicas armas que
dispunha. O pai, atento, olhava para ela a todo o momento. E aquela madame
gorduchinha, chamada de bola , seguia maltratada
por uns marmanjos – maus guerreiros- naquele domingo de céu emburrado. Seria
pelo péssimo espetáculo que se exibia? Não. O céu não perdia mais seu precioso
tempo com essas crendices.
Depois de todos esses Nãos que tal um substancial SIM? Sim!
O jogo com bola, senhorita de círculos, passou a não interessar tanto, mas sim -
olhem a afirmação de novo em campo- o que o maluco com as duas crianças por
ninar e educar poderia fazer se por um milagre a equipe pela qual rendia
homenagens fizesse um gol? Vencesse, finalmente, a partida?
Ele poderia arremessá-la para o alto ou para o lado. Poderia
lhe arrancar a cabeça. Esmagá-la com seu corpanzil de 100 quilos e ainda
arremessar o outro filho para o gramado. Lá, junto aos gladiadores que se debatem e se beijam
mediante o gozo da vitória, celebrariam. Poderia, poderia. Isso poderia também
virar uma paranoia daquelas. Tão frequentes nas políticas contemporâneas.
Nada disso, porém, aconteceu. A criança despertou e foi
colocada no seu colo de pai. Sentada, ereta. Clássica. Minutos depois, pouco
antes de o árbitro encerrar a batalha, ela, inadimplente criatura, bocejou
graciosidades de criança e mijou sem privacidades toda a cafonice do seu papai.
Foi a melhor jogada naquele fim de dia, fim de mundo.
A MENINA GRINGA
Virgínia tinha um metro e muito de altura. Pele clara, olhos
a lhes acompanhar. Em tempos de hoje, com essas exigências forçadas,
harmonizavam perfeições. Era uma menina
gringa. E pessoa gringa, naqueles mesmos tempos, eram bichos raros pelo simples
fato de que o Brasil sempre foi muito distante do velho mundo. Se bem que ela
não vinha de outro mundo tão velho. Além do mais, o modo de deslocamento dos
corpos de então tinha precariedades. As distâncias eram bem maiores; um
telefonema de saudades vindo da estranja trazia muitos ruídos juntos; sem
contar as tarifas – os famigerados interurbanos- que eram bastante caras. E os
postais? Retratos coloridos que viajavam de charrete. Muitos se perderam sem
deixar pistas (crime perfeito?) ou chegavam bem depois do retorno de quem
partiu brevemente.
Virgínia andava de patins. Bailava com seus pés feitos de
rodinhas pela única quadra de futebol de salão que existia naquela superquadra.
Segundo conspiradores, esse espaço foi construído mediante intervenção
estadunidense, a pátria da patinadora. E qual seria a razão que mobilizaria uma
embaixada para esse fim? Nunca ficou claro, mas parece que era uma simples política
de boa vizinhança. Afinal, o prédio da embaixada- lá eles apelidam essas construções
de blocos- ficava praticamente em frente.
Após as peladas de salão, a moça loira patinava seus encantos.
De tanto que o fez que um amigo se apaixonou. Desengonçado nos estudos e com as
pernas, esforçava-se com a língua....inglesa. Era o único saber em que se esmerava por
melhores resultados. Tinha intenção definida, alvo vislumbrado, arma apontada,
uma pequena guarda pretoriana de discos de vinil (coleção até invejável) e nada
mais. Ao que tudo indica não teve êxito.
A jovem patinadora, filha de um funcionário da CIA (cuja
sede fica no estado da Virgínia/EUA, e por isso o seu nome próprio), não
correspondeu ao cerco quase bélico do nosso companheiro iludido, ou melhor,
apaixonado. Talvez o aspecto belicoso é que tenha atrapalhado. Corria uma
ditadura militar por aqui- com todo o apoio norte-americano- e eles não queriam
financiar outras forças que não as suas. Todo brasileirinho que se aproximava
daquele edifício pertencente à embaixada deles era observado de perto pela
segurança. Quase hostis. Mas não estavam errados. Eles sabem muito bem o rabo
preso que têm.
Virgínia um dia sumiu. Isso mesmo: desapareceu, escafedeu-se.
Teria sido roteiro para algum sucesso premonitório de cinema Hollywood? Teria essa
bela jovem se tornado mais uma vítima do terror que certo regime impôs no
continente perdido, durante os anos 60, 70 e 80?
Os boquirrotos e boquirrotas garantem que não. Ela só
desapareceu por não dizer Adeus. Voltou para algum canto do planeta onde seu
papai seguia conspirando, bisbilhotando alheios.
Contudo, ainda resistem àqueles que sentem o som e as curvas
daquele deslizar, sem concorrência, daquelas pernas longas e estrangeiras. Nunca
uma conspiração foi tão adorável.
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