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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Certa noite com Tim Maia

Lá se vai o tempo. Há aproximadamente 20 e poucos anos, Tim Maia, cantor mais do que festejado pelas nossas bandas, fizera apresentação no ainda moribundo Teatro do Hotel Nacional. Aquele hotel que se posta imponente-decadente, diante da praia de São Conrado, e que respira por aparelhos licitatórios , há décadas. Virou escombro de sua própria história. Nesse seu palco desfilaram grandes personagens. Foi onde conheci, vivinho e a cores, a música de Miles Davis. As primeiras edições do saudoso festival de música, final de década de 80, ' Free Jazz Concert', ocorreram lá. Depois foi para o MAM ( Museu de Arte Moderna) e começou a ruir. A turma passou a considerar o cigarro, patrocinador do evento, o inimigo número 1 do planeta , para além dos pulmões e vias aéreas, o dinheiro minguou , desafinou e deu o último suspiro. Era início dos anos 2000. Não se conseguiu mais a grana nossa que dita o passo do mundo. Bem que tentaram, através de estratégias questionáveis, manter o evento. Aquilo virou uma espécie de carnaval fora de época. Os corredores do museu , que por certo jamais foram visitados pela maioria que ali gritava "Uuu! Galera!", ficavam apinhados. Importava tudo, menos o Jazz, o Blues....Hoje, temos as 'Flips' da vida.
Um pouco antes, fim dos anos 80, e ainda considerado vivo pela Rede Globo de televisão e que transformava aquele show, no hotel dodói por demais, em programa da casa, conheci o cantor da voz possante. Minha amiga, a quem adjetivo + querida e que tem linda e possante voz também, apresentava-se junto com outras cantoras ótimas, na banda do moço famoso. Após o show, houve um encontro festivo num importante hotel - ' in a very good shape until now'- do Leblon, zona sul da cidade patrimônio. Típico evento que detesto. Um cordão de aduladores em torno da celebridade midiática. Acho patética a postura de colonizados subservientes. Aqui farei uma pequena digressão - tão comum nas minhas notas- para dizer que me esforço , há pelo menos duas décadas, para mitigar o meu complexo de inferioridade em relação ao meu mestre e analista e  a quem considero um dos maiores poetas vivos. Portanto, tenho intimidade com esse sintoma vagabundo, safado! E o pior é que a manutenção do mesmo ainda busca por razões.....Ou seriam inadimplências insuperáveis? O que nós chamamos de impossibilidades modalizadas, regionais, visto que existem certas formações que se não forem desenvolvidas, estimuladas a tempo - sem contar as heranças genéticas somadas aos fatores epigenéticos -, jamais funcionarão da melhor maneira. É duro de escutar, mas é fato.
Então aquele senhor obeso, mal educado, grosseiro à medida da inconveniência, feio por demais, mas com aquele vozeirão que transformava canção para dores de amores em obra de arte, sentara-se à mesa do restaurante estrelado. Porém, cabe a pergunta: aprendeu ou ensinou para o Roberto, Rei, as canções que falam dos corações partidos? Foram parceiros de ofício e até amigos. Depois, os amores cantados se metamorfosearam em ódios. Nada mais comum. Daí que Fernando Pessoa já indicara o perigo desses amores todos.
Tim então cantou, ou melhor, vociferou para o garçom mais distante - afinal era motivo de exibição vocal- que lhe trouxesse umas garrafas do Whisky Bacana! Apareceram umas quatro ou cinco daquele malte que eu só tinha visto em festa de casamento de rico. Uma dessas garrafas era mais antiga do que a minha existência, à época. Quase lhe fiz deferência. O amigo que me acompanhava , levantou-se e a cumprimentou. Tim , o gente boa, quase o expulsou do recinto. "Que porra é essa? Será viado? Gostas de uma garrafinha, hein?" Simpático. A festa prossegue e mais e mais admiradores cercam a mesa. Tive a impressão de que tamanha comoção era pelo fato de que o nobre cantante tinha aparecido para trabalhar, já que tinha fama de não comparecer, vez ou outra, ao local de trabalho. Seriedade. Alguns goles depois, minha querida amiga se aproxima dos meus confusos ouvidos e alerta: " Sai fora , pois vai sobrar para vocês". Não entendi a princípio. Na expectativa de que ela fosse me encantar nos ouvidos, corpo todo, ela me intrigou com aquele alerta. Corneta avisando sobre possíveis temporais. Enebriado pela tolice de tiete, vi o rótulo dos tais escoceses egrégios a me piscar. Só faltava essa. Além da saudação, a bebida bacana exigia interlocução! Olhos esfregados, tudo piscava. Até o Tim. O amigo já estava íntimo. Cantarolava com os outros convivas. Um pouco depois, compreendido o sentido daquele recado, o tal alerta da tempestade por vir, restava então chamar, socorrer o amigo que se deslumbrara. O amigo também é alertado sobre o tamanho do prejuízo que aquela produção escocesa poderia desencadear. Não deu a mínima. Estava devidamente cooptado pelo vozeirão e suas tagarelices. Todavia, não se pestanejou. Porta de saída, a mais próxima à vista, e as escadas foram mapeadas uma a uma até o adeus final. Ufa! Sem olhar para trás. Vai que aquele malte bacana resolve tomar satisfações?
Dia seguinte, sem ressaca a cutucar, e de vagas lembranças. Dia chuvoso numa cidade que se metamorfoseia em pouca alegria. Ela tem essa sensação de que o sol lhe esnobara. Pergunte ao carioca-cidade porque essa pretensão, ou melhor, o porquê desse imperativo dirigido ao sol bacana , mas também cruel em certas épocas, por uma  presença contundente por demais a todo momento?
O telefone que se fazia de mudo, preguiçoso, logo será acordado. Imaginem uma onomatopeia de som de teclado de telefone antigo: número discado. Do lado de lá, sem nenhuma transcendência a ocorrer, a voz de desânimo a se esforçar a responder. Somente uma vogal se faz presente. Imaginem agora o som de um aaa quase natimorto. Diriam bastante depressivo esse alô de dia chuvoso. Perguntei-lhe então: " E o seu novo amigo, o Tim? Te deu motivo"?
O que foi respondido podemos até imaginar, já que o telefone desse lado de cá tremia, tremia. Sua voz ganhara vida, força! Filho daquilo, filho disso!E tanto amor fora proferido ao agora ex-ídolo. Também pudera: pagou praticamente toda a despesa daqueles escoceses, com saias feitas de vidro e a afetar
, com a sutileza de um murro, o nosso sistema nervoso central e outros comandos. Pagou com promessas, isto é, pagou com uns tais cheques pré-datados. Uma deliciosa e enlouquecida promessa a mais do mercado financeiro brasileiro. Negociou com o gerente do tal restaurante/bar que já estava acostumado com as 'maias' do Tim.
Quando morreu o Tim, voltava de uma prova para cargos públicos, e escutei a notícia no rádio. Era o ano de 1998. A primeira reação foi a lembrança do amigo. Estaria ele acompanhado de algum outro escocês a lhe consolar? A lhe dizer " Me dê motivo....( imaginem a música ).

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Eleições ainda mais.

Algumas notas a mais;

Eleição para prefeito no Rio sempre tem forte concorrência , para o postulante ao cargo, pois o carioca o vê como alguém que quer ser mais carioca do que ele. E como estar carioca é um estado sublime - para muitos-  , uma espécie de cartão de visitas, um achar-se tão belo quanto as praias, quanto ao Jardim Botânico ( Viva João VI ! ), quanto a Lagoa Rodrigo de Freitas ou o Aterro do Flamengo; achar-se tão exuberante quanto os monumentos todos, os centros culturais, os museus; tão grandioso quanto o Maracanã. O resto parece não sair bem na foto.
Os 18, 19% de certas intenções de votos nos candidatos novidades não são tão novidades. Sempre houve em algum momento. Recordemos o Bittar em 1998, a vitória de Erundina em São Paulo , no mesmo ano, o prezadíssimo Fernando Gabeira, mais recentemente. E o abominável Fernando Collor, codinome caçador de marajás, na campanha presidencial em 1989! Houve quem dissesse que essa vã caçada se converteria num suicídio ou num exercício erótico sado-masoquista. Sofremos os efeitos desse sexo , digamos, bizarro. E qual o sexo, qual a partição que não completa jamais, que não tem a sua faceta bizarra?
Há também aquele sintoma de quem -por razões somente pessoais- projetam frustrações ou realizações, enfim, sintomas das mais diversas ordens, até mesmo afetivas, na figura de quem está lá ou que candidata-se a estar. Se estou bem, o tal cara ou fulana valem até à pena. Se as coisas não estão lá tão bem ( aquele namorado/a que se mandou, aquele projeto que nunca acontece, aquele dinheiro curto, aquele não haver desejado que insiste em não haver, em não nos salvar ), o tal cara ou fulana não prestam. Não valem à pena.
O voto é sempre exercício inconsciente das ditas razões de cada um, e  que tem lá os seus corações bem pessoais.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um pouco de política em tempos de chiliques. Pré-maresia.

Há um artigo, que li  num blog  e que fora recomendado por um conhecido 'faceebokeiro partner' ( deve ser bem prestigiado, visto que foi mencionado também  por pessoas com certa influência na mídia ), tecendo opiniões , com dados bastante precisos, sobre as eleições municipais desse ano, aqui no Rio de Janeiro. Lúcido e bem escrito. Não concordo com o título, pois o considero um tanto quanto forte e passional - a não ser que o articulista, quem escreveu o  tal artigo, conheça muito sobre o personagem - candidato. Não deveríamos misturar também ficção cinematográfica - ainda que baseada em fatos reais - com uma possível governabilidade por parte dos personagens atores-candidatos. Quem se recorda das elites, sabe muito bem que as tropas estão bastante desfalcadas, desde 1964, quando a ditadura militar arrebentou com o sistema educacional no Brasil. Recentemente, matéria jornalística denunciou o assassinato de Anísio Teixeira, um dos maiores educadores do mundo, pelos gorilas do regime. Além do mais, uma coisa é a campanha que normalmente vem permeada de fanatismos e infantilismos - como se estivéssemos num ringue "sanguinolento" de lutas marciais ou na arquibancada do futebol-, e outra é a postura , o trabalho realizado, projetos propostos, os chamados programas de governo, etc. Não se faz distinção, muitas vezes, sobre o que se discute. Seriam todos sócios? O quê pode nos afetar de tal ordem, quando sabemos que o próprio eleitor brasileiro costuma virar as costas para o que acabou de apostar, de enfiar urna abaixo?
O voto obrigatório traz essa faceta de vários gumes e perigos. Ao mesmo tempo que mantém uma certa mobilização, gera malcriação, rebeldia tola. Figuras pensantes importantes tais como Raimundo Faoro , já falecido, ou um José Murilo de Carvalho, defendem a obrigatoriedade do voto, pois consideram que se houver a não obrigatoriedade, a desmobilização por parte do eleitorado será muito grande e ainda mais prejudicial ao jogo político. Há controvérsias. Acredito que num primeiro momento haveria um comparecimento maior do que o de costume , já que os que defendem a obrigatoriedade do voto diriam que a não obrigatoriedade é golpe de estado. Mais ou menos como o plebiscito, realizado no início dos anos noventa, sobre a escolha do sistema e forma de governos. Monarquia, Presidencialismo, Parlamentarismo....Estão lembrados? Ganhou a República Presidencialista ou seja: mantivemos tudo como antes, sem ao menos discutir com calma, prudência, todo processo de forma e sistema de governos. O que talvez resultasse numa reforma político-partidária necessária. Reforma essa que é evitada a todo custo por todos nós que estamos implicados no processo político enquanto sociedade civil. De preferência sem chiliques.
 Lembro-me da figura austera e cautelosa de Ulisses Guimarães e dos seus olhos azuis da cor de um oceano singular e que se tornou seu túmulo. E ele dizia que ao morrer, naquele caixão suposto onde estaria o seu corpo inerte, haveria por ali um homem contrariado. Não houve caixão e seria impossível estar contrariado àquele do qual se diz morto. Mortos não se contrariam mais. Contrariado, enquanto obviamente vivo, ficara ao ver as tolices que cercaram os debates - e o velho Ulisses quase sempre sereno para ficar se debatendo-  sobre o tal plebiscito. Houve quem quisesse votar - e o voto era por escrito à época - no rei Roberto Carlos ou na rainha Xuxa. Não me pareceu nenhum absurdo! Isso está na chamada alma das pessoas! E ainda sobrava um gol para o rei Pelé. As pessoas são inteligentes e possuem o rei ou a rainha que merecem. O raciocínio está perfeito. Se há obrigatoriedade de voto, também para plebiscitos, que votemos, portanto, no rei que mais gostamos, ora pá!
Os presidencialistas já diziam que o tal plebiscito era tentativa de golpe. Recorda-se de ACM, Maluf e outros arautos da democracia no Brasil a vociferar essas palavras de ordem! Tinha gente também à esquerda a proferir sacrilégios semelhantes. Os tais institutos de pesquisa , desses que dizem em quem a turma vai votar ( e no pior dos casos há um imperativo que diz "devem votar") , afirmavam que se  muitos políticos apoiassem a ideia Parlamentarista, teriam diminuídas as chances numa pretensa eleição futura. Resumindo: a política enquanto a arte da distribuição dos poderes tornar-se-á tão somente ( perdoe-me Hilda Hilst pela mesóclise. Deve ser inspiração de Janio Quadros ) o meu quinhão, a minha turma, os meus dividendos e ponto. O resto não tem uma tal ética, logo, não presta. Nada de maniqueísmos, e sim uma perversidade eleitoreira a mais. Tudo, infelizmente para muitos, mais do que normal.
Nos últimos anos, assistimos a uma onda, quase que um fetiche, de denúncias e apurações e prisões - um show protagonizado pelas polícias e incentivado por autoridades de primeiríssimo escalão -, de políticos, empresários, servidores públicos, envolvidos com as maracutaias centenárias, milenares. Sempre haverá maracutaias. Alguns praticantes contumazes dessa farra com o erário público alegarão que fazia parte do processo de gerenciamento dos interesses públicos. O que é da ordem pública já se misturou com os interesses privados para muitos. O Estado, policialesco  por excelência , desmoralizou-se inteiramente e diversas milícias se multiplicam fazendo concorrência desleal. Os que defendem a manuntenção de uma presença do Estado cada vez maior, apoiam-se  no fato de que uma política econômica um pouco mais liberal tenha fracassado, esquecendo-se porém da falência em diversos níveis e regiões da política assumidamente estatizante que certos países praticaram por décadas. Deixar que as pessoas resolvam e decidam seus rumos com uma presença mínima do estado ou permitir que esse mesmo estado comande e decida sobre quase tudo sobre a vida da população estão na mesma ordem de cegueira.
A ordem política para os próximos tempos é o da consideração 'ad doc', ou seja, o caso a caso e  a cada momento. Igualzinho o que se deve fazer num processo de análise. Nesse momento econômico em que o país está estacionado - feito formação neurótica a reclamar do vizinho, a quem supõe enxergar no próprio espelho- , em que a mandatária maior decide reduzir as tarifas da nossa energia - e brasileiro tem de sobra , tal como nos apontava  o poeta , então diplomata e irmão da escultora célebre, Paul Claudel, "muitos reflexos e pouca reflexão", assim se reportava ao povo brasileiro- , a partir de 2013 , senão a energia da casa, dos palácios, cairá de vez. Portanto, depois da gastança do governo anterior, desenvolvimentista por demais , agora seremos monetaristas a fim de preservar a nossa moeda, nossas reservas até.....a próxima crise. Aprendo com a Nova Psicanálise, do poeta MD.Magno, que temos que lembrar que a crise - na sua própria etiologia nos aponta para oportunidades- e que a economia é sempre libidinal. Freud estava certo.
Logo, não há  aquele que é de esquerda ou  direita ou de centro. Existem sim aquelas formações que estão mais à esquerda, mais à direita ou em cima do muro no momento. E isso não é o cinismo contemporâneo da ocultação permanente do que está em jogo. Ao contrário: é assumir que nenhuma postura é definitiva. Sobretudo, a priori. Pois aí teremos preconceitos e maniqueísmos terríveis. O tal artigo que li indicava esse movimento, mas a nomeação ficou comprometida. Chamar qualquer um de fascista é até fácil. Agora mesmo, uma professora universitária , no Norte do Brasil e que tem vínculos com movimentos de estudos raciais e é até praticante de cultos religiosos de origem africana, está sendo processada por discrimação. Alguém lhe barrou o caminho e a solução adotada foi chamar, aquele que lhe barrou o passo, de macaco.
É extremamente difícil abordarmos o que quer que haja sem preconceitos. Nesse próprio texto do tal blog, com dados importantes, uma das comentaristas do artigo, publicado no blog, insulta quem o escreveu. E aí vem uma outra e insulta quem insultou o insultado primeiro. O quê é isso? No mínimo, deveríamos suspeitar dos insultos aos próceres envolvidos: articulista, candidato, eleitor, militante.
O ressentimento, praga indestrutível da nossa falta de educação, da falta de análise dos sintomas de cada um, funciona como projeto de governo, enquanto visão e postura de mundo. Há partido político- e partido político muitas vezes inviabiliza A Política - que não se definiu jamais em termos teóricos, ou seja, através de referências ideativas mais consistentes e que norteassem suas ações. No Brasil, os partidos multiplicam-se feito cupins. São meras rivalidades regionais, desde o coronelismo que ainda perdura, que alimentam essa procriação promíscua. Fora, é claro, a piada sem graça. Um país com seguidores religiosos aos milhões ( maioria absoluta) possui dois partidos comunistas e outros tantos ditos socialistas. Possui também diversas legendas à direita sem qualquer referência  nítida sobre os seus projetos. É uma confusão proposital. E quem é que acompanha tudo isso? Lembro-me dos debates - horríveis e semelhantes a programas de e para calouros- com os candidatos à Presidência da República em 1989. Ao final do ringue, a empregada de uma tia disse que finalmente entendera a tal "reserva de mercado". Eram as compras feitas no supermercado e que ainda restavam. Perfeito. Não deveríamos confundir ignorância com burrice. A moça sacou direitinho.
Nos tempos do Império ou no início da República, existiram políticos que escreviam cartas, memorandos, destinados aos eleitores. Um dos mais célebres - e depois fiquei a saber que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apreciava muito o livro-, foi a coletânea de artigos de Bernardo Vieira de Vasconcelos intitulado " Carta aos eleitores da Província de Minas Gerais ". Ali, o político esclarece fatos e intrigas e projetos e o que fez/faz. Decente, corajoso, brilhante.
Quando se estuda alguns dos autores da política brasileira como Bernardo Vieira, Assis Brasil, José Bonifácio de Andrade (um gigante), Frei Caneca, Joaquim Nabuco, percebe-se que havia ali um pensamento político genuíno e ignorado por estudantes , inclusive das ditas ciências políticas em cursos de doutoramento. Fui testemunha enquanto ouvinte num desses. Preferem exclusivamente o Montesquieu , o Montaigne , a Hannah Arendt, o Carl Schmitt, o Maquiavel e outros egrégios pensantes da estranja. Vivinho da Silva, pode ser nome próprio, temos um FHC pensando o novo século, faz tempo. Um Darcy, Ribeiro de saudades, e tantos outros tão importantes como os citados acima.
O poder vem de baixo para cima também. Alguns ceguetas se recusam a enxergar. Não é só de cima para baixo que se institui, que se configuram os poderes, mas daqui para lá também. Feito audiência de programa televisivo. Quem hipnotiza quem? De onde vem a demanda? Ninguém tem esse poder absoluto. Há uma cumplicidade de todos. É preciso entender onde nos situamos nesse momento e qual será a nossa de agora? Caso contrário é somente confusão, paixão = cegueira, racismo, egocentrismo, narcisismo barato, perversidade. Tudo isso movido por crenças que não deixam de ter fundamentos religiosos. E aí cada um que prepare a sua cruz para aquele vizinho do apartamento ao lado. Cheios de amor.
Só não venham dizer que eles não sabiam o que faziam. E nós todos? Sabemos?

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Suicidados? A gente toda.

Artaud escreveu aquele belíssimo texto sobre um Van Gogh suicidado. Ele mesmo foi um suicidado. Poucos, muito menos aquele médico, conseguiram escutá-lo.
Um dia, apresentou-se para análise um rapaz diretor de teatro. Naquele momento, dirigia uma peça sobre o poeta/escritor francês, morto em 1948, aos 52 anos de idade.
Falava feito metralhadora que não permite nem ponto vírgula. Quanto mais umas vírgulas  a recuperar o fôlego. Já soube de gente que faz assim: " quando cansar coloco essas tais vírgulas".
O rapaz diretor era paciente terminal, pois à época não havia tratamento eficaz para o HIV. Era angústia transitando pelos palcos. Sabemos que a Aids tornou-se uma enfermidade crônica e que requer cuidados constantes. No início, existiam aqueles coquetéis insuportáveis, repletos de efeitos colaterais. Não que eles tenham desaparecido, esses 'side effects', com a invenção das novas drogas, mas houve considerável redução e melhoria, por conseguinte, da qualidade de vida das pessoas.
O drama maior era ter que compartilhar com as pessoas sobre a doença. Os pretensos candidatos a um romance, desaparecem. Opta-se então por esconder o que se tem, o que se carrega no sangue. Uma batalha de esconde-esconde, que de tão desgastante, fazia emergir sintomas colaterais, alguns graves, e que poderiam trazer as temíveis infecções oportunistas. E qual é a infecção que não é oportunista? Qualquer gripe é assim. O vírus entra e abre as portas para as bactérias, sempre presentes e à espreita, agirem.
O tal diretor, e ator deveras, sabia do que o aguardava. Vociferava , Artaudianamente, toda aquela dor, aquele "dead line" irrremediável. Irremediável para todos, mas ele não se via ilusoriamente tomado por certos saberes míticos que deslocam, nas nossas mentes, essa condenação, esse tesão de sumiço.
Aprendi que a Psicanálise é uma ferramenta, na verdade é um modo de pensar.
Ali, restava somente acompanhar os passos e que o já sabido fosse mais leve.
A nossa transferência, esse vínculo que se estabelece entre curador e curando e que sem o qual não haverá análise possível, chamou-me atenção pelo fato de que , frequentemente, a Pessoa que pode ou não exercer essa função analítica parecia não existir. Aquele olhar passava por cima, por baixo, por viés....
O adorador de Artauds atropelava pessoas. Considerava-as feito coisas tão somente. Logo, tinha conflitos com a direção das pessoas-atores. Não com o texto. Tudo era só articulação. Ele era um diretor do século passado, fim do século XIX talvez. Homem de ciência e suas manipulações de laboratórios, de pipetas....
Esse conflito com os atores-pessoas a serem dirigidas, trouxe-o ao consultório.
Um dia , deixei-o mais uma vez só. Para concluir assim, acreditei que  ao  catar uma água ou um café, no aposento ao lado, efetivava a solidão que já era imensurável, independente da presença física. Ao voltar, lá ainda estava: manuseando os brinquedinhos em cima daquela mesa. Aquelas coisinhas que a gente traz de viagem, para esquecer todo dia um pouco mais.
Agora, lembro-me desse moço que sumiu.
Soube que faleceu num ensaio teatral ( e qual é o ensaio que não é teatral?), em São Paulo, cidade natal. Tinha levado o seu poeta francês a passear perto da família. Pode ser bem perigoso, tratando-se sobretudo de um Artaud lúcido pois louco. E quem os teriam suicidado senão a gente toda?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma entrevista , uma lembrança.


Ouvindo a colega que revela ao mundo uma importante passagem na sua vida, um talento (desconhecido por alguns) , um outro personagem a mais , pode-se evocar 'recuerdos'. Histórias que se tocam, feito a nova tendência cinematográfica , que não é nem tão nova assim, se levarmos em conta produções realizadas a partir do final do século XX, onde diferentes histórias e seus respectivos personagens se intercalam, transam, misturam-se, num roteiro de aproximações.
Pois então, nossa amiga recordava momentos experimentados quando trabalhara numa importante companhia teatral carioca. Naquele tempo, início dos anos 60, essa companhia ,Teatro Tablado, era uma espécie de vanguarda na formação de jovens atores e sobretudo nas montagens de peças infantis. Maria Clara Machado, sua mentora, foi uma das figuras mais importantes da cena teatral brasileira. Seu pai, Aníbal, um intelectual de ponta.
A casa da família em Ipanema abrigava os famosos saraus. Aqueles encontros musicais que mesclavam música, teatro , literatura e que normalmente ocorriam aos Domingos. Escolha sábia , já que os Domingos foram feitos , ainda mais naqueles tempos, para melancolias. Até hoje, certos sons , alguns tons, nos dão arrepios , visto que remetem aos pesadelos escolares obrigatórios , verdadeiros imperativos de opressão a nos matar aos poucos no dia seguinte. Matava-se a criatividade, a disponibilidade para se fazer de outros modos. Aquele evento, o tal sarau, era um momento de suspensão das estupidezes presentes e vindouras. E nós por ali a espiar, da janela da sala de jantar, do terceiro andar, desse edifício que me habita e que se postava ao lado daquela casa.
E de um colo outrora amoroso, acolhedor, chamado mãe, o bebê que aqui posta lembranças era sacudido pelos sons e arranjos que subiam pelas paredes, pelos postes de luz, pelo cimento fresco da obra ao lado. Balançavam a criança ao som do sarau de Aníbal e sua Clara filha.
Esse período, o dos embalos do bebê aos domingos à tarde, era um pouco posterior ao ano celebrado e comunicado à imprensa - celebrado hoje, e daí a razão da reportagem televisiva , pois comemora-se os 50 anos do Teatro Tablado, agora em 2012- , já que a criança só apareceu em 1966.
A mãe amorosa , por sua vez, ensaiava em seu piano, marcado pelo romantismo de um Chopin, Bruckner , Liszt e um choro - não do bebê - , mas de Ernesto Nazareth ( som frequente nos saraus junto com Villa Lobos ), e portanto tentava se fazer escutar. Acho que ela queria dar uma passadinha por lá. Dizer uma Mazurka ou um Noturno, carregar um sonho de amor, sabe-se não. Jamais foi. Era tímida, escondendo arrogâncias. Tinha sido aluna dileta de Oriano de Almeida, célebre pianista. Paraense nascido, mas radicado a vida quase toda em Natal, e cuja fobia de avião atrapalhara a sua carreira. Venceu um festival para intérpretes de Chopin, em Varsóvia, terra do moço.
A mãe minha , aquela do colo amoroso, um pouco  depois, seguindo os passos do mestre , foi aluna , aqui no Rio, da não menos conhecida, Magdalena Tagliaferro. Oriano morreu há alguns anos, sob os ventos das dunas natalenses.
Sempre havia, desse modo, uma desculpa para não ousar um cadinho mais. Havia, por exemplo, uma formação diagnosticada como asma e que atrapalhava , mas que também era gozo bem prezado. Afinal, chamava atenção. Era um Noturno aterrorizador.
Não foram poucas as ocasiões que a vimos sufocar. Qual era o tom daquilo? O que se calava então? Sem resposta. Apenas elocubrações....
Na tal entrevista da televisão, que me atinge,  e iniciou essa conversa de agora, segundo o dizer da amiga, após saírem de um desses encontros memoráveis, santuário dos Machado, seguiam para um bar tipo Rock and Roll chamado Zeppelin. E assim o périplo Nazareth - Rock and Roll se fazia.
Anos depois, o Zeppelin também desapareceu. Não explodiu , nem tampouco houve sabotagem nos céus estadunidenses, igualzinho o dirigível. Virou foi samba.Tornou-se mulata. Oba! Oba! Houve quem gritasse assim. E era desse jeito que o lugar se dizia.
Tinha sargento e tudo a comandá-lo. Botafoguense, o sargento virava general no comando das suas musas ou ao guerrear pelos artistas da bola. Jairzinho - uma espécie rara de discípulo de Mané Garrincha, era um deles. Na Copa do Mundo de 1970, realizada no México, para além de Zeppelin , Jair tornar-se -ia furacão! Perguntem aos gringos da Inglaterra, da Itália, do Uruguai, o tamanho do estrago que os vendaval Jair provocou por lá.
Crescido então o bebê - sempre haverá controvérsias entretanto- o movimento samba-sarau despertava atenção dos transeuntes. Aquela mulatice toda. Aquele vai e volta dos artistas dos picadeiros diversos. Atraía gente dos mais diversos cantos.
 Um tio, certa noite, encantou-se. Seus olhos claros lembravam os do Chico famoso, o Buarque de Holanda. As mulheres adoravam, mas ele também era tímido. Feito a irmã que não foi à festa dos Machado. Eles, os irmãos, tinham esse tesão de espiar, de butucar de longe.
Os olhos sedutores desse parente tão próximo, e que vivia distante da gente, a ponto de não poder encontrá-lo a uns dois ou três passos de um simples querer, fixaram-se nas curvas daquela mulata definitivamente. Declarou, com firma reconhecida e tudo, que preferia aquelas curvas do que as curvas da estrada de Santos , tal como cantarolou o poeta-rei.
Ele as marcou implacavelmente feito zagueiro brabo que só Furacão-Jair sabia desgarrar-se.
Avisei o pai, chamado meu, sobre o que se passa. Esse pai invejoso  orientou o pequeno que cresceu de escutar saraus: " Vai lá é diz para ele que mamãe chama para jantar". 'Inocente',  missão cumprida. "Papai! Mamãe chama, na verdade quase clama, que o jantar está na mesa!Oba!Oba!Papai!"
O tio bonito-solteiro, perplexo, olhou-me boquiaberto. E ele a supor que o pequeno, ex-bebê, sobrinho preferido, era confiável. A musa, indignada, retirou-se. Para sempre. Saiu de acordo com os bons preceitos feministas que Millôr Fernandes sempre reconheceu: o movimento dos quadris. Um espetáculo!
Foi a primeira vez que vi um ídolo meu, de minha então breve história, ficar com cara , não de curva abençoada da mulata, mas com cara de bunda pelanca, necrosada pelo constrangimento, feito zagueiro caído, esparramado pelo chão. Dá-lhe Furacão!
A inveja, o ressentimento e o ciúme são formações muito perigosas .Ou ainda , sabiamente dita por um anônimo - esses todos a quem chamamos em algum momento de nós, em situação genial , afirmando portanto: 'o que os olhos não vêem , a paranóia inventa'.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Olimpíadas e Mensaleiros. Heroína e vilões?

Certos eventos são exemplares para se observar os comportamentos e sintomas praticamente incuráveis. Nesse momento,aqui na terrinha, dois eventos nos atingem nesse mar de ocultação cínica. O chamado julgamento do mensalão, um escândalo político em que se tentava comprar votos , obtenção de apoio político parlamentar para os projetos governamentais e os jogos de peteca e outros 'games' , realizados na capital britânica. Naquela metrópole cujo reino, não tão unido assim, se orgulhava da máxima-  relativa aos seus poderes intervencionistas, invasivos-  de ser o Império em que o sol jamais se põe. Todavia, depois da reincorporação de Hong Kong à China, a máxima poderá ser revista.
O primeiro esporte olímpico bretão é da ordem do cinismo cafajeste. Além do mais, transformam meritíssimos em celebridades cinematográficas. Jamais deixamos de ser aquelas crianças que querem se exibir a todo custo, a toda hora, nessa sociedade do espetáculo, assinaria embaixo Guy Debord,falecido em 1994, mas lembrando que o próprio pensador francês ao escrever sua obra também sobe no palco. O que chamo de eu, por exemplo, faz seu textinho burguês por aqui, agora, nesse palco chamado de blog. Vira-se tela de computador a tagarelar com o mundo.
 Assim sendo, a dita mídia televisiva é o canal exemplar para essa postura. Obviamente , acrescenta-se uma dose considerável de vulgata -  justamente por ser eficaz - o que se poderia acresentar , com o perdão da ironia, que a democracia alcançou o seu tento, o seu destino feito ônibus, para todos ,afinal. Julgamento para não haver julgamento, eis a questão.
Há , dentre os notáveis da magistratura, um prócer que advogou para gente interessada no não julgamento. Pesa sobre ele o fato de ser  amigo íntimo de um dos principais articulistas do lamentável episódio. Ah! Sua consorte ,dir-se-iam os doutos com as leis e mexericos, advogou em defesa para certos reús envolvidos também.
Faz vinte anos,  um outro importante magistrado, recusou participação própria por ser parente, ainda que distante, quarto grau, do acusado: o próprio Presidente da República , à época. Decisão, no mínimo, coerente, decente. Nesse caso de agora não se observa isso. O magistrado- rapaz  -  bastante jovem nessa função, o que não significa incapacidade para tal e que fora indicado ao cargo pelo Presidente, cuja gestão em certos aspectos é investigada-, recusa-se a não participar do jogo. Quer porque quer ajudar o ex-chefe-amigo.
O jogo portanto é bastante interessante e a paranóia está instalada desde sempre. Todos de olho uns nos outros e preocupadíssimos com o que cada um pensa sobre o que o outro magistrado fará, dirá ou sentenciará. Já aconteceu até bate boca. Sobe a audiência.
Depois que instalaram câmeras para transmitir cada sessão - Nossa ! Quanto interesse!-,  ao mundo interesseiro , a situação parece piorar. Já houve bisbilhoteiro da imprensa que flagrou troca de mensagens entre uma toga e outra. E se fosse uma declaração amorosa? Cabe recurso? Transitado em julgado?
Faz pouco tempo, já se aposentou , um outro notório notabilizou-se por escrever textos eróticos. Eróticos? Como assim? Pornografia para babacas ou erotismo para taradinhos? Já sentenciou, e não cabe recurso, um grande pensante- poeta - vivo da língua brasileira,em Seminário proferido nos anos 90, do século que morreu : século XX. O erotismo oculta as taras e a pornografia erotiza as babaquices? Ou seria justamente o contrário?
Com audiência bem mais significativa do que os jogos jurídicos, os jogos olímpicos nos trazem aquele sentimento ontológico de vira lata. Já dizia o centenário rodriguianismo de Nelson que o nosso espírito olímpico rosnava mais ou menos por aqueles canis. E ele terá razão para quase sempre. O desagradável fica por conta da ocultação, da falta de vergonha nossa . Nas mãos, nas pernas, no nado das borboletas - e a cada braçada um tornado pode se formar láááá .....nos confins do Timor Leste -, nos achismos de cada brasileiro-técnico.
Deve ser fácil, sem educação adequada, nutrição, condições técnicas e materiais,  o cidadão/ã chegar ao olimpo e ter que guerrear com as tropas poderosas, preparadas desde o berço para o combate. E mesmo para essas tropas que possuem a mesma configuração primária, biótica, de boneco mal acabado, as pressões culturais e também as pressões primárias da chamada natureza - entenda-se aqui o clima, o ambiente, o fuso horário, altitude ou não altitude- promovem alterações consideráveis no rendimento daquele organismo que , para alcançar objetivos maiores, deve funcionar feito relógio suiço ou de acordo com  a engenharia mecânica daquele carrinho popular de propriedade da família real semi-unida: o Rolls-Royce.
Felizmente que, e infelizmente para as nossas pretensões arrogantes enquanto filhos de um geneticismo que caducou faz tempo, pretensões essas relativas às previsões possíveis, sempre haverá um herói, uma heróina.
Agora a pouco, uma senhorita magrinha , quase esquelética e que me faz recordar algumas das imagens impactantes do seu país , acaba de vencer uma competição de resistência. Desbancou britânicas, japonesas, européias...E ela veio, parece que chegou correndo, da poderosa Etiópia. Atravessou o Tâmisa correndo sobre as águas geladas do 'caloroso' povo inglês. Houve e ouve-se, da masmorra daquela torre shakesperiana ao 'pub' moderninho londrino, uma ovação: quase histeria.'Milagre'! - teriam vociferado alguns ébrios musculosos. De outros cantos, mulheres desmaiaram, crianças atônitas, velhinhas de porre com o próximo chá. No meio do caminho, não havia mais uma rocha, e sim lenços a acenar-lhe com a direção a seguir. Houve também quem lhe desse água. Ela , desconfiada , hesitou. Água potável na sua terra é uma formação tão rara quanto o ouro que ela carrega no peito, sob metamorfose de medalha.
Bertold Brecht, em um dos seus mais conhecidos textos, A vida de Galileu Galilei, afirmara que pobre do país que necessita de heróis. Aprendi que ele estava errado.
Precisamos muito dos heróis. Em todos os campos , em todas as áreas do conhecimento. O heroísmo reverte as impossibilidades regionais, modais.O heroísmo é ato de criação. Heroísmos transformam aparentes tragédias em dramas, comédias, poemas.... Bertold Brecht, esse grande dramaturgo alemão, foi um deles.
O mal - e desculpem-me pelo mau jeito maniqueísta ,talvez por efeito do pagamento mensal ainda não depositado e olimpicamante ,com a pistola na mão, aguardado -, confunde-se com concentrações financeiras demasiadas, apoio político aos de sempre ( mesmo quando fantasiados de novidade justiceira ), e ignorância não reconhecida enquanto tal.
Amanhã, pularemos corda outra vez, E assim ,chegamos ao olimpo. De mentirinha, é bem verdade. Mas será , ao menos, ainda mais divertido.

terça-feira, 24 de julho de 2012

D'uma Argentina.

A primeira vez que nos vimos foi há pouco mais de vinte anos.Início da década dos anos 90,fim dos anos 80,de um século passado. Aqui faço uma pequena digressão ao acusar o desconforto que a realidade crua do conceito 'século passado' me proporciona.
Talvez por acreditar -feito tantos ,feito milhões, que o fim do século significaria fim de tudo.Crendice infantil.Infantilismo que custamos a abandonar.
O século passado é muita coisa e quase nada.Nasci por ali e o atravessei para um outro que o desconfigura ,e que o desconfigurará muito mais até o seu fim. Aí sim.Teremos um fim daquilo tudo,daquele conceito que vem junto com o século XX inteirinho. A tecnologia dos homens através das suas próteses engolirão vorazmente vários modos de existência que foram tão preservados por gente do tal século passado.
No século XX também foram desenvolvidas armas poderosas capazes de destruí-lo juntamente com quem      as criou. Apelidaram de cogumelo um oceano de sangue oriental que chamuscava horrores nossos.Tão íntimos que causaram aquele estranhamento esquisito. Igual ao crime do cinema recente,lá nos Estados Unidos da Disney-Metro-Universal,onde o personagem da história mágica para crianças-adulto aparece pessoalmente e faz girar sua metralhadora encantada.Ao fim do espetáculo ,o policial ,apavorado pela verdade,pergunta-lhe em fuga: " Who are you? ( Quem é você?)". E o anti-herói lhe respondeu:  'I'm the joker' ( Eu sou o coringa!).
Nesse século XX ,personagens como esses aterrorizavam nossas pretensões.Sempre se quis o automóvel mágico do herói de voz grossa,ladeado pelas mulheres-gato de então.Mulher-Gato é o cúmulo do pleonasmo! Se virasse coisa de realidade , os homens estariam liquidados para quase sempre.Para quase sempre já que alguma dentre elas - e isso já bastante século passado ,pois passa a excluir alguma coisa em termos de conjunto- entregará o ouro,ou melhor,o 'Batmóvel' aos 'Jokers' não menos redundantes.
Há de tudo isso um pouco na expectativa de se eternizar até mesmo um século inteiro.Pelo fato de que sem a gente presente ele não haveria,fazemos essas ilações.
E assim nos encontramos pela vez primeira ou derradeira - quem poderia supor jamais?- naquele aeroporto com 'olor' de conspiração. Tudo bem que a conspiração era ainda peça imaginada sob influência dos coringas de sempre,mas havia algo no 'aire'..
Era noite adentro e minha mãe fazia companhia. Nunca tinha saído do país Brasil e achava aquilo tudo fascinante e assustador. Não falava aquela língua curiosa - tão próxima em alguns verbetes e substantivos - e tão distante enquanto sonoridade. Aquela língua que tem que ser apontada para o céu da boca, a fim de que consigamos a compreensão necessária dos nossos 'nuevos' interlocutores.
Havia alguém para nos buscar no aeroporto.Era homem enviado por companhia contratada.Até então,e o vício persiste até hoje,sempre há alguém lá fora que fora contratado para nos buscar.Sou filho,neto,irmão,sobrinho de servidores públicos federais que insistem na tal estabilidade. Fiquei viciado por gente que apanha em aeroporto. Gente contratada,diga-se ,pois não quero parente ou amigo por lá.Senão serei obrigado a fazer o mesmo (a tal convenção social dos bons modos) e o aeroporto de minha cidade ,alcunha maravilhosa, transformou-se em local digno de escárnio,chacota,desrespeito.Não gosto nem um pouco de ter que estar ali  a não ser para partir ou partir de volta.Recalque acusado! Tive dois romances com  moças que residiam fora do Rio de Janeiro e o aeroporto era local de despedidas sofridas.Sofria com uma semana de antecedência.Os curiosos das questões relativas ao comportamento dos meninos-meninas chamavam isso de ansiedade. E eu lhes dizia que era uma forma de tesão desviada do tesão que movimentava aquilo tudo.Eles riam da gente."Arroubos de jovens"-classificavam.
De casa dos pais ,afastei-me aos 18 anos.Lembro-me do dia exato e de uma mãe aos prantos como se fosse perda irreversível.Ela era semi-irreversível,mas não perda absoluta. Aeroporto sempre foi sinônimo de saudade,de anteparo para irreversíveis de momento.
Essa senhora que pranteava naquele exato dia -do qual não me esqueço- apresentou-me as Recoletas,os Retiros, os Palermos e suas decantações,o tango e sua melancolia ,a imponência dos seus principais teatros, a soberba do seu mais humilde habitante ( nessa última estada,ocorrida há uma semana tão somente ,o habitante com moedas nas mãos vira-se para mim,plantado que estava diante de uma loja qualquer, e me diz ' Cúanta hipocresía'.), e todo o resto.
Percorreu-se muito desde então.Até os locais onde nos  refugiamos -chamam de Microcentro ,Puerto Madero-,quarteirões enormes são percorridos em largas avenidas -dentre elas a mais larga do mundo e que aniversaria em 9 de Julho- e outras ruas mais modestas.
O classicismo típico - valorizadíssimo por eles ,apesar de Borges- é um dos pontos que nos distingue.O brasileiro é maneirista,desde Camões.Depois vieram os Andrade,Mario e Oswald, Glauber,Guimarães Rosa,Augusto ,Um Anjo,Anísio.......Eles viram coisa barroca quando transam empresarialmente.E assim como aqui ,em terras macunaímicas, sacaneiam -se.Sacaneiam o próprio jeito que deram para reverter brilhantemente impossibilidades locais. O brasileiro faz o mesmo com o que batizou de jeitinho.Confunde flexibilidade,capacidade de suspender juízos e/ou convenções demarcadas,de jogar no aqui e agora da vida,com esculhambação.Nisso somos 'hermanos'. Uma outra diferença que nos marca é que o brasileiro,felizmente,não se leva tão a sério. Eles,'los hermanos', acreditam.
Desde aquela vez nos vimos ,pensei que poderia haver fusão.Depois, entendi que haveria ,aí sim, confusão demasiada.As diferenças que nos atraem são formações afrodisíacas.Temperamento, e esse tempero não se dissolve com qualquer feijoada ou 'chorizo', faz marca quase indelével. A confusão proposital entre as duas línguas oficiais e os seus sintomas indestrutíveis se incluem nessa transa latino-maneira.
E as 'chicas' ? Desafie o seu potencial para paciência: entre  numa loja para meninas -daquelas em que,sobretudo para  recém-enamorados,o infeliz  é torturado por ter que provar seu bem querer ao permanecer, pela eternidade, espremido,humilhado,esnobado por qualquer par de sapato reluzente-, e você presenciará os raios cortantes provenientes dos olhos das moças que vendem às moças que compram.Imagina-se que se por mais que ventura -quase um esporte radical - o tal evento ocorrer nas férias de verão,os modelitos desejados, e que se façam  mais que curtinhos, poderão descarrilar entraves diplomáticos graves.Uma guerra em que Malvina alguma - seja a da Ilha disputada ou a jovem rebelde nascida de um pai  Amado-Jorge  - gostaria de se omitir.
Ainda sobre aquela vez ,e que definitivamente já não sei mais se foi primeira ou agora-anteontem, o vento gélido do rio prateado nos empurrou avenidas e mais avenidas por detrás do 'coche viejo' daquele homem contratado para nos 'saludar'.
Sendo assim ,sempre se sonhará com  um automóvel velho,geralmente de cepa francesa,total século XX, e seu condutor impaciente caloroso,grosseiro de gentilezas, a nos esperar? Será que terei 'cambiado' realmente de século? Virou somente a folhinha do calendário?E o vento será aliado?E o rio? Continua rio.