Marcadores

domingo, 27 de novembro de 2011

Par ou ímpar.Vamos brincar de criança.

Aquelas mãos decididas pela aposta, iniciam a guerra.Par ou ímpar?-alguém com certa autoridade de ao menos perguntar,perguntou.
Um dedo assinala x o outro y.Não há a menor chance para o empate.Escolhas são fundamentais aqui.Não se tem tempo para postergações obsessivas e outros cacoetes estacionados.
Dos dois lados do campo,daquela escola secundária de precariedades, os meninos são escolhidos.Um a um.Você não.Não sabe jogar direito.Você sim.Vai jogar no plantel do Tempestade e do Coisa Ruim.Normalmente,os garotos que não estudavam e só gostavam de outros tesões que não os livros,praticavam esportes com afinco e confusões também.
Esforcei-me.Quase fiz curso para peladas eventuais a não ter que passar por aquele crivo quase sempre humilhante.Levava jeito.Praticara desde pequeno com primos e vizinhos.Salvei-me da expressão desolada que alguns colegas carregavam ao ficar por último....no tal "sorteio".
Comentei com pessoas sobre isso e os mais rodados pelo tempo me advertiam que era assim.A vida era assim.Você tem que mostrar certas competências se quiser prosseguir no jogo.E as crianças são perversas desde quase sempre também.
Quando Freud,no início do século XX ,anunciou o óbvio ,houve tentativas de linchamento.Ele acabara de dessacralizar a tal criancinha.
Pois bem...o jogo já começara e um amigo estava de fora.Ficara quase sempre de fora.Não levava jeito para esse tipo de pelada.Ainda por cima era chato.E feio .E o mais nocivo: um dos melhores alunos de toda história da tal escola.
Freud nos indicara também sobre um tal de Inconsciente.Se tivéssemos nos lembrado,entenderíamos o porquê daquela antipatia para sempre.
Queria ser diplomata,o tal chamado Cú de Ferro ou CDF.Sentava na primeira fila e terminava os testes antes dos demais.Virava-se para o lado,para trás e indagava do professor responsável:"Posso recolher"?
AH... Cú de Ferro....Cú de Ferro!Foi aí que vacilastes!Foi aí que assinaras a tua sentença de desprezo futebolístico perante seus outros colegas!Você era pedante,arrogante!E não era só no esporte bretão que não tinhas a menor habilidade,mas em todos!Lembra-se?Daquele jogo contra os meninos mais velhos e que se achavam donos da escola?Você pressionou autoridades competentes e forçou a sua escalação!Resultado: fostes para a zaga e entregou o ouro para a canalha adversária.
Queríamos o seu pescoço magro e comprido enquanto enfeite de fim de ano.Não lhe davam mais nem ao menos um bom dia sincero.Eu mesmo quis a sua alma.Um dia soubemos que estavas de cama,adoentado.Confesso-lhe, depois desses anos todos, que procuramos, junto à direção do colégio ,saber notícias suas. O diretor à época ,o primeiro capixaba que conhecera na vida, disse-nos que tudo ia muito bem.Silêncio naquele pátio decadente.Alguém chegara a perguntar:" Mas não tem como reverter para pior"?Levou o cartão vermelho.Pegou um gancho de uma semana.Impetramos recurso ,mas nada.Não se tinha contato político adequado por ocasião.Éramos amadores arrogantes.
Voltastes para a selva,isto é,para o convívio com os coleguinhas.
Inteligente,transformou-se em árbitro de quase todos os esportes praticados na escola.Era diligente.O levantador da partida de vôlei armava a jogada.Antes mesmo da preciosa atingir a altura adequada para o ataque,atravessar a muralha de braços e vontades adversárias,ele,o novo árbitro, já pulava no seu banquinho de autoridade.A cena patética sempre se repetia.Nunca errou um lance.Tornara-se um árbitro respeitado até por seus desafetos.E ficou popular.
Na eleição para o grêmio escolar foi o segundo colocado entre os 4 concorrentes.Ganhara poder.Juntava-se então às meninas.Elas reconhecem alguém que lhes faz companhia.Queriam poder.E era só o que o cú de ferro juvenil almejava:poder.E as meninas ,inteligentes ao menos, conquistaram prestigiosa companhia.
Durante o ano seguinte , ele comandou coisas por lá.Deixamos acontecer.Merecemos esse período sombrio,onde foi banido o par ou ímpar.
Houve até um concurso para formosuras. A eleita por simpatia,tornara-se um 'affair' do ex-rejeitado-feio.Ficara insuportável.O poder é um afrodisíaco maravilhoso e perturbador.
No seu aniversário, convidara os mais velhos e a direção e a sua camarilha. Soubemos pelo baixo clero."Ele não convidou nenhum membro do baixo clero?"-indaguei espantado. "Está emburrecendo.Ótimo!"-conclui esperançoso.
Tempos depois, a moça simpática partiu.Mudou-se para o estrangeiro e ,segundo colegas de partido,arrumou um outro poder por lá.Nunca mais a vimos.
O mancebo arruinou-se.Com frequência ,passou a ausentar-se.Tornou-se apagado.Suas notas decaíram.O baixo clero nos avisava sobre tudo.Aquela festa ainda espocava fogos de ressentimento,e o ressentimento é o mais deletério dos sentimentos.
A turma ressentida então organizava-se e escolhia os novos parceiros.Dessa vez a causa era periclitante.Fim de ano,perigo à vista,pois alguns correligionários ameaçavam tombar.Notas baixas,alertava o atento baixo clero.
'Eureka'!Retomemos o par ou ímpar democrático!!Urra,Urra!!
Mãos lançadas,imprevisibilidade no horizonte, escolhas abertas.
Dessa vez o critério também era claro.Os amigos que pudessem colaborar com o salvamento dos que estavam à deriva,teriam prioridade.
No meio da turba ,um rosto pálido surgia dos escombros.Era ele.O ex-feio-Cdf-árbitro-adulador de diretores e ruim de pelada.
Passou o tempo,minutos que não partiam.Um a um.Ele foi o último.
-Mas porque o último.Sou ruim de pelada ,mas sou menos ruim que muitos que aí estão.Além do mais ,sei apitar o jogo.- protestou com veemência.
- Você tem jogado muito mal com a Matemática,com a Física.....Lamentamos.
Decorridos muitos anos,e nenhuma notícia.Talvez tenha se tornado realmente um diplomata.Se bem que é preciso que se tenha aprendido a lidar com o clero mais baixinho.Nem que seja para atravessar com elegância mínima o par ou ímpar de qualquer pelada.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vinte anos essa tarde.

Vinte anos essa tarde.
Poderia ser o título de um filme.Aliás, adoraria saber produzir um roteiro para cinema.Quem sabe um dia não aprendo? O título ,porém, tenta falar sobre um momento fundamentalista: a discussão apaixonada.
A rua, cujo nome remete à certa pessoa de origem árabe,descia sob a companhia dos colegas de Universidade.Fim de ano,fim das aulas.
Nesses tempos de então ,tinha-se recesso veranil por um longo período.Universidades e  escolas em geral não eram creches para uma classe média sem rumo.
Fim de ano tinha cara e cheiro de fim de ano.Agora, há um massacre estético também.Poluem as ruas sem considerar aqueles que não aderem à festinha.É a chamada catequese disfarçada de democracia.
Já considerei o fato de obter conhecimentos aeromodelísticos e executar o meu "September eleven" particular ,nas águas de uma Lagoa famosa.Tolice.Seria pura tolice repetir aquilo que se condena,já que a Democracia ,em último nível, teria que provar do veneno que dera para Sócrates.Aquele grego que não gostava muito de escrever e que tinha como "Ghost Writer" o Dr.Platão.Agimos no' deixa pra lá'.... de agora.E esse agora perdura por milênios.Isso faz estrago.
A rua lá de cima ,escrita aqui,foi descida.Os seus passantes discutem posições.A menina defendia um autor que pouco conhecia e o menino fazia o mesmo.Ambos arrogantes.Ambos jovens.Ambos recém sáidos do forno,ou seja,recém saídos da Universidade.Todos.Ignorantes.E continua-se a descer e a ignorar outras riquezas ,outros conhecimentos.Até porque é impossível a todos todo o  conhecimento.Haja narcisismo!Haja pretensão de saber totalitário!E houve muita gente boa que fez disso sua arma principal.
E a catequese ali,do descer e subir rua, também se manifesta.Um tentando convencer o outro sobre o  seu achado.Que por certo é mentira,pois não fora dele ou dela,mas de um outro,provavelmente já morto e estrangeiro,tal achado,tal pensamento.Estamos no Brasil ó pá.Sabe-se bem que autoria por aqui é algo bastante condenável.Além do mais, não se deve ignorar que pensar é algo raríssimo.Repetir guloseimas é bem mais comum.
A discussão se acalorou em quase briga.Ela lindinha,ele metido."Mas será que você não percebe que isso é uma maneira cartesiana de considerar as coisas?"- dissera."Sim...mas estamos descendo e há uma esquerda e uma direita a se considerar"!- resposta."Será que não se pode abstrair um pouco?Curvar para perceber outras dimensões,outros espaços,outra estética?"-tropeçando no buraco abaixo.
 Olhamos para cima e enxergamos o dedo de outrem.Já era alguma coisa.Há pouco,algo foi olhado e o que se viu foi a imagem do dedo próprio.
De tropeços em tropeços ,viu-se o trem.Não era um trem.Era um ônibus.
A menina fugiu sorrindo entre o balanço dos cabelos,sedutoramente encaracolados, e a promessa de um novo embate.Não se conformara que as suas idéias eram boas,pertinentes ,mas somente idéias.
O menino,machinho,branquinho,machista,partiu contrariado,visto que não convencera àquela que tentara seduzir.
Entra-se no tal veículo.Desconfortável,ambos.Sentidos opostos e há direita,há esquerda.....O menino que, tentara entortar um pouco as coisas, põe as mãos no bolso.O que haveria de tão precioso naquele esconderijo de pano,próximo das cuecas?Uma chave.Sim,pois havia uma chave.Durante o caminho...Uma chave que presentificava uma idéia,uma lembrança.Fica-se triste.O mundo por vezes também se faz triste.A cidade mal iluminada,sem o sol dos humanos,apresenta rostos distintos e calados. Há quanto tempo não caímos na noite pra valer?Indagou um outro metido das ruas afora,o Sr.Poste.
Numa noite de início de século,milênio novo, a luz se foi.O carro foi acionado e as ruas continuavam por ali.Os olhos do veículo focavam o que podiam.Instinto de sobrevivência.O Sr.Poste perdera a soberba ,que vem a ser o pior dos pecados.Estava doente.Fatigado,apagou-se.Mas ainda restava aquela luz humana dos faróis do automóvel!Poucos se arriscaram a cair na noite.E era uma noite de araque ,já que ainda havia os tais olhos de metal a salvar o dia,ou melhor,a noite!E também tinham os ônibus com suas lentes gigantes.Deviam ser míopes.
Fomos ao encontro ,na noite-não noite , de alguém que lá não estaria.Não estava de fato.De direito sim.Imagina-se o que se pode ,ainda que se queira.Delírios,delírios!Quem pode evitá-los?Por acaso não há um dito mundo?Uma menina bendita e um menino metido?
E meteu-se na confusão da chave no bolso de pano.Lembramos dela?A tal chave era do tal carro com olhos para semi-noites.Escondera-se ali,quieta.Conspirava em silêncio de sabedoria.Devia ser mineira.
Olhos desolados e um pedido ao moço que acaricia dinheiro miúdo:' Vosmicê pode abrir aqui essa porta para eu poder retornar e encontrar o meu outro amor?'- disse-lhe a chave em suspiros.
Direita,esquerda,em frente,abaixo...Ufa!Namoro reencontrado!
Pouco depois,o telefone traz pra bem perto a voz do suposto embate: ' E aí?Reencontrou-se?Nada como um bom tropeço para poder acolher outros planos,outras idéias,outros poderes.Senão vira poste e se apaga de vez.'

domingo, 30 de outubro de 2011

Formas de gozo.

Como de costume ,o elevador desceu até o andar chamado de térreo.Porta aberta,degraus à frente a percorrer.Há uma escada de mármore e depois uma porta.Dobra-se à esquerda e chega-se a uma outra porta.Essa ,chamada de principal,olha para fora,olha para rua em frente.
Já é noite.Tudo passara rápido.É como se não houvesse tido dia.Virou-se a folhinha e pronto.Não há mais volta.Aquele data não se repetirá jamais.
Já é noite e há der se ter pressa,pois o filme vai começar.
O trajeto até o cinema tem a duração perto-longe.Há de se chegar a tempo.
Sem o hábito de dividir tesões cinematográficos,a companhia dos amigos é novidade.Se bem que cinema é para se fazer silêncio.Essa é a participação especial do tal espectador:entregar-se.
Filme tenso.Situações além do drama e que nos atingem.Fim de filme.Conversas e bebidas e comidas e promessas.E como se promete!Prometer é sustentar a ilusão de que o futuro é certo e garante coisas.
O falecido filósofo argelino-francês Louis Althusser já nos ensinara exemplarmente- ainda que tenha exagerado na massagem corporal de sua esposa - que o futuro leva muito tempo.
Diríamos então que ele ,o tal futuro,é quase mítico.
Futuros passados,retorna-se à casa de sempre.A mesma porta que se abre para o resto do mundo,fecha-se em seguida.Do lado de dentro, o mesmo sorriso desgrenhado daquele que conhecemos desde a vida toda.
O sorriso está pálido ,pois sente dor.O braço o incomoda.Diz que é uma tal de bursite e pergunta se ela poderia ser lá do Ceará?Não há resposta para isso.Deve-se consultar os 'sites' doutos que por aí passeiam na grande rede e descobrir a origem,a etiologia da tal bursite,etcterrá.
Um dia se passou e novamente já é noite. Janela aberta,noite quente.Aproxima-se o verão que,pelos lados da Guanabara, tem rosto de inferno.Vermelho,ardido feito coisa ruim.
Ouvem-se gemidos.Vem de cima.Há pouco se descobriu que algum tarado filmava pornografias com adolescentes. Alguma vizinha ,invejosa das meninas,colocou a boca pra fora daquela porta, que vê tudo para o lado de fora e chamou alguma autoridade em adolescentes,que não fosse aquele tarado lá,do sétimo andar,apartamento dos fundos...
O tal cara quase foi preso.Fugiu poucos minutos antes da chegada das tais autoridades.Foi preso depois no estrangeiro.Tarado importante.Filho de deputado...
Os gemidos deixaram saudades.Não se ouvia mais até que...Naquela noite tórrida,reapareceram intensamente.Invadiram o quarto e povoaram as fantasias da noite.
Dia seguinte,café da manhã.Coisa mais chata quando não se está em hotel estrelado.Aquele gosto de vida toda.Faz lembrar as festinhas familiares.Aqueles rituais obsessivos sem pimenta ou sal.Só veneno fruta e sucos,á direita.Alguma coisa da cozinha,dobre à esquerda.
O mesmo elevador,a mesma escada de mármore,o portão futriqueiro para rua à frente. Três porteiros,colegas daquele da bursite sem procedência definida, perplexos.
Todos se olharam e disseram :'Antônio morreu. Teve um infarto fulminante ,ontem de madrugada,aqui no prédio.Pediu socorro,gemeu forte ,alto,quase um orgasmo.Nada."
Antônio,sim,era cearense.Veio jovem para os cantos do Sudeste.Melhorar de vida era a meta.Conseguiu.Conhecíamos desde os primeiros gemidos de fralda.
Botafoguense e brasileiro.Adorava apreciar o vai e vem da rua que, a porta transparente que ficava sempre de butuca, lhe oferecia.Gozava de olhar,mas também gozava de dor.Tinha 70 anos.
Eram esses alguns dos gemidos que se escutavam naquela madrugada de janelas abertas para um não futuro.Ao menos para o velho e bom Antônio que morreu sem saber se 'a tal bursite' era conterrânea ou não.

domingo, 16 de outubro de 2011

Não jogue fora.Não há fora.

Não jogue fora ,pois não há fora.
Esse poderia ser um slogan da Psicanálise postulada por Magno Machado Dias,mas é a propaganda que uma grande empresa petrolífera costuma adotar quando se instala em um novo país.Atrás do tal slogan circula uma tentativa de se passar a imagem ,no caso da empresa,de que existe preocupação com o chamado meio ambiente. A companhia em questão já foi autuada diversas vezes por crimes ambientais.
Contudo,o que está interessando é o fato de que realmente não adianta jogar fora,pois o fora não existe.
O que seria jogar fora então?
O jogar fora pra valer,e aí pode-se incluir qualquer coisa que haja,seria o que há de mais trágico,ou seja,algo que não tem reversão possível.Por exemplo: quando escrevo esse texto não posso negar que ele não foi escrito,que não existiu.Posso apagá-lo,mas o que se fez foi feito.Uma vez no jogo,não há como escapar dele.Posso aderir mais ou menos,entrar -tal como dizemos por aí- de cabeça,denegá-lo,pois foi afirmado antes ,mas escapar do simples fato de que se há,não tem jeito.E isso é uma condenação dos diabos. A frase tão propagada por todos nós que, nos supomos vítimas de tudo o que nos atinge ,o famigerado ' Eu não pedi para nascer', é exemplar também. Não pediu? Tá bom. Mas pede para sobreviver.Senão não teria nem dito a bobagem de antes.
O homem macaco é assim.Ele está quase sempre em atraso.Todas as significações vem depois do já ocorrido,logo,tal como Magno ensina,todo processo curativo é precário.É o sentido da expressão 'Só Depois',ação tardia freudiana.Na verdade, não é uma mera expressão ,e sim um conceito fundamental em sua obra ( Nachtragichkeit em alemão).
Diferentemente daqueles que diante das angústias frequentes ( Alô? Tem gente aí?) se entopem de coisas ,o movimento botar pra fora é análogo ao que ocorre em processo de análise,de partição,isto é,caracteriza-se por ser um movimento de esvaziamento.É muito frequente as pessoas que se deixam afetar pelas perdas ,temores,angústias e outros sofrimentos perderem peso corporal.Existe uma canção do falecido e saudoso Gonzaguinha,morto num acidente de trânsito,há vinte anos,em que ele declara que o copo está cheio e não dá mais pra engolir.Senão, coração vai explodir. E o pior é que explode mesmo.
Passei parte da minha vida com o estômago virado e adquirindo novas técnicas de botar pra fora,o chamado vômito.Coisa bem histérica.
Certa tarde,há uns vinte anos também ,daí evocar a tragédia com Gonzaguinha,numa conversa com o meu analista ,disse-lhe que notava uma considerável mudança -para melhor no caso- desse sintoma, no mínimo, escatológico.Ele então me disse: " Mas é óbvio caríssimo.Você agora vomita nos meus ouvidos".Perfeito. Analista também foi feito pra isso. Logo, há de se pagar direito ,visto que lavagens auditivas ocasionam despesas.Faxina,detergente,cotonete....
Fui aos poucos me transformando num minimalista.A obra de Mondrian passa a me interessar.A obra de um Cortázar ou de um Rubem Fonseca e outros mestres dos textos mais curtos e precisos e desconcertantes invadem a minha vida.Magno foi o principal.
A limpeza conceitual que fez na teoria psicanalítica é brilhante.Obra de gênio.Infelizmente,já que somos brasileiros que adoram colonização estrangeira ,esse passo dado é alvo de muitas tentativas de linchamento.Só que o mundo está indo de fato aonde a teoria dele indica.Contemporâneo de si mesmo é obra para poucos.
Quando iniciei a minha análise,há vinte e alguns anos 'por supuesto', já tinha passado por uma terapia e até pelo consultório de um outro analista.Venho,portanto,de longe.Estou enfiado com isso desde 1985.A diferença é que no meu encontro em análise magniniana -que é um desencontro,uma desilusão necessárias- as mudanças tem como norte uma ação modificada.Um olhar diferente.Uma maneira de se portar que foi se formatando para um depois se formatar diferente e de novo.É um depois,pois continuo em atraso.E leva tempo e muitas vezes fracasso e repito o erro.Porém,reconheço-o e busco não repeti-lo.Reconheço minha vaidade,meus ressentimentos,invejas,estupidezes e também alguns acertos. Por exemplo? Arrependo-me de muitas coisas que fiz.Por quê ?Já que a maior parte delas foram realizadas por minha vontade?Excluindo a infância humilhante - criança é ser inferior e quase sempre humilhada quanto aos seus tesões e interesses,até porque se deixar muito solto sabemos a loucura que poderá advir- ,tive uma vidinha deveras convencional e bem negociada para um garoto da média-alta burguesia carioca zona sul (média-alta dependendo da cotação dos derivativos da bolsa de valores).
Fui exilado duas vezes.A primeira num colégio da altíssima burguesia patética de Ipanema,chamado Chapeuzinho Vermelho.Uma espécie de hospício bem comportado que,felizmente,não existe mais.A única formação que me traz recordações muito boas é a do meu antigo ,e primeiro,professor de educação física que reencontrei esse ano num evento social.Tornou-se um técnico de voleyball muito conhecido e campeão internacional.Era a melhor figura daquele sanatório infantil.Fora a minha professora de música - de lá mesmo da casa do lobo mau- que tocava várias sonatas de Chopin para os pequenos surdinhos de então.Eu reconhecia naquela música uma canção de ninar.
Minha mãe era pianista competente.Tinha estudado com Jacques Klein,talvez o maior pianista clássico brasileiro, e que morreu precocemente aos 52 anos de idade.Ela adorava os românticos.Chopin,Bruckner,Liszt... e que também morreram jovens,o primeiro e o último.Para nós ao menos,pois à época não se vivia tanto tempo .
O meu segundo exílio foi Brasília.Despachado para lá aos 10 anos de idade.Lembro-me do susto quer tive ao ver os prédios deitados,preguiçosos.Indaguei ao meu pai o porquê daquilo e ele me disse:" Foi assim pensado por Lucio Costa e por Niemeyer comuna e pronto"!
Talvez tenha sido a primeira experiência de não deslocamento possível que reconheço na minha vida.Já que fora planejada assim ,e por duas figuras tão eminentes,não se pode - não é nem que não se deva ,portanto é mais grave- sequer questionar. Era o típico servidor público, leal às delirações das repartições oficiais,o meu pai.,
Vivi por sete anos e meio na secura do planalto central -nessa época muito menos seco,mais frio no inverno e mais aconchegante nos vínculos pessoais-, e a vi desabrochar.Fomos adolescentes juntos.Agora,tornou-se adulta neurótica grave caminhando para decrepitude .Alguém precisa arrumar um geriatra e um neurologista para aquela cidade,antes que algum Roriz o faça.Imitam as grandes metrópoles brasileiras no que elas têm de pior.
Quando vibrei com a morte de minha escola primeira ,talvez estivesse mentindo,pois ainda falo aqui sobre ela.Creio que desejei pular aquele muro branco alto e visitar os meus amigos de infãncia.Quem sabe poderíamos formar um novo partido?E aquela mulher de 8 anos que não correspondeu aos meus galanteios com sorvete do Morais,que ficava quase em frente da minha boca-casa, em punho?
A casa ,avisaram-me ,já não era mais a mesma, fazia anos. Abandonada pelo tempo e pela despedida sem Adeus.Entrar lá é se entristecer demais.Tem até mendigo estudando,quero dizer,morando ali.
O que restou está na minha retina-memória.E eu ,por certo,ainda hei de sonhar que posso jogar pra fora o que é caminho, tão somente, de uma solidão da boca pra dentro.

domingo, 18 de setembro de 2011

Entre pipocas e balas.

Quisera fazer cinema.Desde pequeno se vai ao cinema.
Existe aquela liturgia de cinema.Pipoca,balinha e refrigerante são sujeitos de cinema.
Confesso que tentei driblar a tal liturgia e quase estraguei o filme.Sentia-me estranho,desconfortável naquela poltrona semi-vazia.Algo não funcionava.Concentração dispersa.Faltavam-me balinhas e pipocas .
Nunca mais tentei burlar o ritual.Só numa outra ocasião em que a sala do cinema presunçoso estava lotada,e o ingresso fora comprado nos acréscimos,a desgraça quase se repete.
Era um Sábado à noite.Lembro-me bem.Passados quase dez anos ,a companheira naquele dia eterniza-se para mim.
Sentamos numa fila conhecida como gargarejo.Horrível essa fila.Você fica com o seu pescoço numa posição de grau inclinado sei lá qual (45 º?) e se o filme for de ação ,movimentos de cena rápidos,corre-corre ,estás perdido.A não ser que o seu labirinto seja muito bem sinalizado.Caso contrário o mundo dará provas a ti que ele gira.
E graças a competência Copernicana e Galileana, a gravidade e outras forças nos mostram que alguns fatos existem e não precisam ser experimentados necessariamente.O desconforto desse gargarejo pode ser grande....Além da tontura pode haver censura,prisão e assassinato.
Contudo,havia outro desconforto.O filme em questão abordava tema e local que foram pesquisados por mim e pelo meu grupo de trabalho,durante um bom tempo.Quase sempre havia sol e nuvens a consolar por perto.
Tentativas em contactar o autor do livro , no qual foi baseado o filme, fracassaram.O autor estava em seu momento "deslumbramento pleno".Nem sei se pousou para fotografias eróticas,à época.Prometera conversa e não cumpriu.Queria retornar à casa de seus tempos de menino,onde haveria o nosso papo.A conversa então prometia,mas o efeito celebridade-vulgaridade interfiriu.
Mereço pois esse novo gargarejo!!
Nesse filme, porém, as bicicletas não voavam.Nos meus filmes idealizados de pipoca em pipoca as bicicletas são iguais aos ETs e alçam as alturas.
Já trabalhei com a falecida pantera Farrah Fawcett - aliás tivemos um 'affair' sigiloso- e dancei com Michael,o também morto Jackson.Participei de um motim com Brando e quis lhe falar do seu brilhante discurso para a patuleia em Julio Cesar,enquanto Marco Antônio.Teria sido proveitoso se não fosse a célebre arrogância Brandiana."Porra Brando,acorda,ou melhor,'Wake up man'!!"Você se acha tão brilhante e não passa de um miliquinho de merda - na frente do grande Julio César - e que vai se envolver com aquela cobra venenosa da Cleópatra.Logo ela,amiga de Michael,e que também morreu recentemente.E aqueles olhos hipnose-violeta....E você colocará tudo a perder!Começa por ali a decadência do maior dos impérios.Sou ocidental.Confesso ao chinês que resmunga.
O cinema e algumas de suas trilhas sonoras não me deixam sem afetação.
Taí um exercício analítico bem proveitoso.Aquilo lá é só um filme a mais.A incorporação dessa idéia pode nos salvar até no ou do próprio gargarejo.
Uma noite tentei.Simulei um pouco do exercício.Diante de um filme pesado,violento e excelente.Outro bom filme brasileiro.Amiga minha, e que aceitara o meu convite de ir às balas e pipocas ,levantou-se e foi ao banheiro.Estava nauseada.Afinal,flertara com Sartre por um longo tempo.Visto que demorava a retornar,levantei-me e fui lhe oferecer solidariedade de náuseas.Aproximei-me cuidadosamente da porta do banheiro das moças ,proibitivo porque desejado pelos homens, e lhe disse quase que num sussurro: " Calma.É só um filme a mais".
Após alguns segundos no meu relógio imaginário, a voz-resposta ressoa forte, quase uma soprano: " Vai tomar no c.....!!!!"
Depois dessa experiência,lembrei do artista genial que é Freud - gente como ele não morre- ao poder ouvir de um dos seus mestres,o hipnotista francês ,sem olhos violeta de Cleópatra,Charcot, ensinar-lhe sobre a magia do cinema da vida:'Teoria é muito bom,meu caro Sigmund, o que não impede que as coisas existam".
Feito a gravidade e o mundo.Girando entre pipocas e balas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mamãe está cozinhando

Um colega me lembrava sobre as confusões que a nossa prezada língua pode nos pregar.
A gente se esquece disso ,pois supomos que podemos nos comunicar pra valer.
Não sei tampouco se é vício de catequese antiga - com o perdão da redundância- ,mas a vontade enebriante de tentar convencer os outros de que aquilo sobre o qual estamos falando é também para valer,cega.
Queremos ganhar todas as discussões. Quando falo a um paciente,tenho que ter cuidado.Ele pode não ter noção alguma do que está sendo dito.E eu ,por aventura , e só por aventura de arrogância,tenho alguma?Aí,o moço silencia e eu acho que ele entendeu algo.Será?
A convenção estabelecida por nossa gente mais antiga de que aquilo que se diz é correlato biunívoco do que se vê é truque bem bolado.Mas é truque.
Temos que ter mais cuidado.
Indagava pois se aquilo que eu supunha enxergar era aquilo mesmo.
'Vocês tem que entender que isso é muito importante.Essa coisa esverdeada aqui ,bem aqui,diante do que chamo meus olhos,é verde mesmo'?
Nenhuma resposta me fora convincente,já que todos os que foram indagados olhavam-me como se estivesse lhes perguntando algo da ordem do absurdo.Repetia,repetia e nada.
Mas nada é o que mesmo?
Alguma resposta me fora dada.O fato da tal resposta não corresponder às expectativas minhas não quer dizer que estejam errados ,aqueles que de algum modo me escutaram.
Essa arrogância de reatividade é o que nos destrói.Juntamente com as vinculações amorosas de cepa cristã. E que nos fora dessas reações todas?
É extremamente difícil permanecer com certa frequência numa posição de menos afetação narcisista ,ou seja, numa postura onde os nossos gostos,nossos interesses,os nossos valores não interfiram.No pior dos casos, isso tudo que foi arrolado acima não só interfere como predomina.É o sintoma hegemônico.
E aí não consigo sequer sustentar a conversa sobre se aquilo lá que eu supunha enxergar era mesmo esverdeado.
Uma criança é uma formação inferior e que passa quase toda sua infância sendo humilhada.E é fácil entender isso,até porque os seus tesões,suas vontades,podem ser perigosas,deletérias para ela mesmo.Daí a tal repressão constante.Dependendo da frequência e da intensidade leva a todo tipo de neurose que bem sabemos.
Noutro momento,talvez mediado por mais uma confusão de línguas,o garoto me dizia entre sorrisos nostálgicos e sadismo peculiar, de quem ainda mantém um infantilismo indestrutível:' Tive uma infância muito feliz'.
Mas como?
Infância feliz?Isso existe?
Claro que sim.Se ele a disse ,ocorreu.
O fato das minhas recordações de pequeno mesclarem belezas e horrores não quer dizer que a de outrem não tenha uma média mais satisfatória!
Quando pequeno lembro,por exemplo,de viagens prazerosas e de partidas também bastante dolorosas.E as dores existiam pelo fato de que uma inadimplência de criança tem menores poderes.Tem lá os seus poderes,mas são pequenos em algumas regiões.Tal como podem ser gigantesco,os tais poderes inadimplentes, em outras.
Depois,os poderes vão crescendo e aí não vale mais culpabilizar somente outrem pela estupidez nossa de cada dia.Se bem que existe a variável fortuna ou sorte.Incidentes...
Mudei de cidade menino,sem querer.Frequentei igrejas ,do mesmo modo.Apaixonei-me pela primeira vez - fora aquela senhora mamãe - aos 14 anos.Não fui correspondido. E logo aquela filha da puta que me pediu ajuda ,num campo de futebol de salão,daquela superquadra da capital horrenda,com o meu skate exibido.Ela de patins e eu ,Romeo, de skate exibido.Não usava sutiã e pude ver os seus peitos.Lindos!!!Dias de banheiro ocupado por tempo indeterminado."Mamãe! Carlucho não sai mais do banheiro!!!!!!!!!!!!!!!!'- minha irmã única tendo ataques pelos corredores.
Minha irmã nunca gostou da minha nova paixão.Imitava o seu andar. E ela,a do andar imitado,tinha uma cadela Dálmata que se chamava Bianca.
A cadela ao menos gostava de mim.Abanava aquele rabo sempre que me via.Mas o rabo abanado que eu queria era outro.
Numa noite de Domingo (lembremos que o Domingo ,por causa do sintoma religioso pavoroso é a ocasião perfeita para se ficar deprimido), ficamos a conversar no parquinho recém inaugurado.Eu ,ela e um gorducho mais velho que se fazia de importante.Era o maconheiro oficial do pedaço.Péssimo aluno na escola,sua maior ambição era se tornar o maior maconheiro de todos os pedaços.Nunca mais soube dele.Aliás,dela e daquele repertório todo também não.
Aquela cadela certamente morreu. E aí não resta dúvida alguma sobre o que ocorreu e o que se pode presenciar e até predizer.A cadela,passados 30 anos ,morreu.
Os cachorros são assim.São mais simples e sabemos mais ou menos quando morrerão.Não criamos expectativas maiores acerca.Sabemos que muito provavelmente atravessaremos esse luto. A não ser que.....
Aquele coisa esverdeada,aquele carro verde,dentro do qual a moça que me encantei aos 14 anos voltava da escola ,todos os dias, a uma hora da tarde, era mesmo verde? Ou era só paixão e erro?
Ei!Mamãe está cozinhando!Tá bom ....Já vou! Quer ajuda?Não sei cozinhar.Não!!Você não entende! Ela caiu na panela e está realmente cozinhando!!!!Venha rápido,pois sempre será tarde e a gente não vai se entender ,por certo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tarde demais.

Meu nome é tarde demais.Aprendi que tudo é tarde demais.Quando achei que pensava, já era tarde.O tal pensamento não servia . E se fosse algo tão grave ,urgente?Tarde demais.
Então eis que me vi sendo um intensivista!Daqueles que trabalham enlouquecidos por atrasos demais.Quando chegam ali,os pacientes não deram conta que fora tarde demais para eles.
O lugar é triste feito velhice.
Na maca ao lado de uma parenta minha,uma senhora tremia.Nunca a vira antes.Olhei-a com pena.Na verdade ,tinha ódio dela.'Levante-se daí agora porra!!!Você já foi uma mulher, cacete!Vamos reagir agora,rápido!'! Acho que a minha expressão facial,encolerizada,assutou-a,mas acalmou-se um bocadinho.
Voltei meu rosto para aquela porta de entrada do semi-cemitério e a doutora pré-morte me olhou sem me ver.Tinha uma expressão cinzenta.Seu olho atravessava o meu.Quase apanhei o crachá disponível, à mesa sonhada, a lhe dar uma identidade.Seu nome era feito sorvete famoso: sem nome.
Certo dia,lá se vão duas décadas, disseram-me que parecia olhar de analista."O quê?Aquele troço sem vida?"
Isso faz parte de uma certa mitologia ridícula que insiste em permear o campo freudiano.Freud não era um boçal.Muito pelo contrário.Foi o maior gênio do seu tempo.Mesmo que algumas tolices foucaultianas tenham tentado lhe impor rótulos de confecionário,o tempo lhe dá razão.Cada vez mais.
Desisti a tempo desse intensivismo todo.
Não desisti contudo de pensar em outras tarefas.Olho para a destreza do meu dentista e fico perplexo,pois no seu lugar,mataria um.
Dizem então que é talento.OK,talento.Ta-len-to.Tar-de de-mais.Vamos bem.
Talento já foi bem definido por saudoso artista egrégio.Ele disse que o tal lento funciona bem para iniciar as coisas.Sem ele,você poderá jamais exercer certas funções.Com ele você poderá prosseguir.E essa sequência - e que inclui inúmeras formações outras,elementos,etc- é que importa.Sequência que significa seriedade.Fazer série.
Freud deixou claro que a significação do que quer que haja é só depois.MD.Magno,um dos seus mais caros discípulos,enfiou a estaca na ilusão de algumas denegações: ' É tarde demais'.
A primeira reação de um ex-pretenso intensivista é desistir.Misto de melancolia,depressão,covardia.
Já na segunda há um gesto de resignação.Vem de fábrica, tal incompetência.
Por certo, cachorro não padece disso.Tem tudo no lugar.Seu etograma é definido desde sempre.Seu cio é cíclico.O nosso é permanente,sem trégua.Não se sai de férias.Para-se um pouquinho,descansa-se um pouquinho e prossegue-se.E quando se prossegue,percebe-se que o descanso já chegou atrasado.
É assim sim.
No filme,'Longa jornada noite adentro',de Sidney Lumet, 'Too Late' ou tarde demais é misto de anjo-demônio, herói-vagabundo,amoroso-agressivo ,culpado-relaxado e assim por diante.Tudo no seu tempo,ou seja, tarde demais.
Ah! A velhinha do CTI se salvou.A minha tia não.