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domingo, 24 de abril de 2011

A porta do vento

Giuseppe Tornatore é um dos cineastas mais importantes do nosso tempo.Desde Cinema Paradiso,realizado há mais de 20 anos e que lhe deu um Oscar,ele persiste com a sua poesia de imagens.
A porta do vento(Baaría) é o seu último filme.Realizado há 2 anos,mostra-nos a história de um pequeno e sua família e seus amores e seus entraves e suas guerras,numa Sicília dos anos 30 até ontem.Desde Mussolini e seus facistas de então até o Sr.Berlusconi e os fascistas contemporâneos.
Os Italianos são engraçados quando não são patéticos.Aquele dramalhão todo,aquela gritaria familiar - e que parece exportada para América Latina inteira- são um retrato meticuloso do que por lá se pode encontrar.
Minha primeira ida à Itália aconteceu recentemente.Calcei as suas botas e visitei alguns lugares.Partindo da capital,exuberante, onde o Inconsciente se apresenta nos monumentos a céu aberto - você sai de uma avenida de ontem e chega ao Coliseu ou às termas romanas -aos encantos florentinos - potência política e artística por séculos-ou ao Sul e os seus contrastes e hospitalidade;Itália é sinônimo de encantamento perpétuo.
É por isso que acho que não estava tão longe de casa assim.Sobretudo ao Sul- e me parece que Tornatore vem de lá- somos muito próximos.Sem falar da língua latina que nos envolve.Os rostos são parecidos.As angústias se aproximam.Os velhos também são bem velhos.
Não é à toa que São Paulo é a maior capital de italianos fora da própria Itália.E a maluquice católica nos atingiu em cheio também.
Tornatore costura tudo isso e nos traz à retina 2 atores - uma atriz e um ator - muito bons,além de belos.A moça,bem jovem, lembra Sofia Loren.Aquele rosto de quem não faz outra coisa a não ser nos seduzir a todo momento.Ela quer nos convencer de coisa alguma, e não conseguimos a sublime indiferença diante daquilo que é nada.Tomamos partido.Viramos socialistas,comunistas.Por que não Sofia Lorenistas e suas discípulas?
As crianças-personagens parecem nascidas num ambiente cinematográfico,tamanha a espontaneidade ,a desenvoltura com que trabalham.Obra de bom diretor.E ainda temos a Mônica Belucci....Ufa!
O que quero dizer - e não faço crítica ,pois sou somente um voyeur cinematográfico- é que calcei aquelas botas e corri por aqueles cantos com direção incerta.O meu GPS tinha às vezes 5.ooo anos e não se perdia. E se por aventura se perdesse,pronto!Perdeu-se.E daí?
Tudo não passa de sonho no corre corre desvairado das nossas pernas curtas.As botas por fim nos protegem do pisar cruel de uma lembrança que carrega 10mil anos em apenas uma vidinha de pernas curtas.Que sopre o vento.Bate-se mais uma porta.

domingo, 10 de abril de 2011

Na Escola.Tintas e armas.

Numa escola do Rio, um moço que, permanecia paradinho na sua própria infância,abriu fogo contra adolescentes e depois atirou contra o próprio corpo.Ali ele estudou por anos.Morava no mesmo bairro,um dos mais quentes da cidade, e não gostava muito - pelo que relatam aqueles que o conheceram- do convívio com gente.A não ser para lhes dar uns tecos. O cenário para o horror ,instalado após o fuzilamento que tirou a vida de 12 adolescentes, prossegue. A quantidade de tolices e imprudências que se diz na persuasiva e abominável mídia é de estarrecer. Inventaram o trauma "a priori" e foi reaberto o arquivo de xingamentos nosográficos - aqueles manuais psiquiátricos ,repleto de casuísticas e que pouco esclarece - a fim de se estabelecer uma certa lógica para o evento.Esquizofrenia foi termo- e até já foi conceito decente- apareceu à beça.É simples assim: não sabe o que é ou como funciona aquele processo,aquele sistema,aquela complexidade toda,sapeque um Esquizo tal que o pessoal do mundo se acalma.Os tais Esquizos não.Eles sapecam suas armas.E elas podem ser diversas,mesmo quando miseráveis. Por esses lados dos trópicos, já foram fuziladas crianças que dormiam na porta de uma igreja,famílias inteiras chacinadas,maníacos nos parques a estuprar mocinhas que só queriam uma sacanagenzinha na Floresta e por aí vamos.... Somos um país muito violento.Para se ter uma idéia,nos Estados Unidos ,onde as armas podem ser compradas livremente em quase todo o país, ocorrem 15 mil mortes anuais ,em média, por armas de fogo. No Brasil,onde é proibida a venda das mesmas,ocorreram 50 mil mortes violentas no ano passado.A maioria atinge jovens e até crianças.Política de extermínio? Certamente que não...... Alguns afirmam que há uma guerra civil por aqui.Não.É pior.Numa guerra civil existem áreas demarcadas de conflito.Nossa área de conflito é a cidade toda.Certa vez, retornando da Cidade De Deus, antes da fama da God City e bem depois de Agostinho, ao chegar no Leblon ,bairro nobre,quase fomos assaltados violentamente,uma colega e eu.Quase rezei ateísticamente,só com fé portanto,ao Santo João Ubaldo Ribeiro,que por lá reside maravilhas. A Cidade de Deus não tem bom retrospecto em termos de segurança,civilidade,desenvolvimento e quetais.Porém,nunca fomos molestados por lá.Vez ou outra uma metralhadora entoa canto próprio,mas nada é mais normal. O tal moço entrou e fuzilou os seus colegas que ele jamais viu.Mas ele se lembrava mesmo assim.Um gordinho lhe implorou para que não o matasse.Foi atendido.Gordinho,viado,gente feia,careca e outros tais eu poupo!!Parece que gritou algo semelhante.O Maluco então - como muitos de nós- era racista!! Uma imagem me congela.Era uma avó.Ela serenamente está em choque.Perdera a neta no tal atentado.Achei que a tal senhora,cujas rugas e marcas na face apresentam tempos de sofrimento,tivesse acabado de chegar de um terremoto japonês,tamanha a sua sutileza. Ela responde às perguntas de sempre,pois o roteiro caducamente se repete.Diz que Deus sabe.Só não disse o que ele sabe.Aguardei pelo segredo jamais revelado,afinal o Tal Deus proclamado é onisciente.Seria sádico?Seria racista?Teria ele perdoado o tal matador?Era esse o seu destino,o seu desígnio?E se Deus não gosta de criança?Ou então está morrendo de medo dessa gente que somos nós e resolveu sequestrar as criancinhas com ele? Deus pode ser pedófilo?"Mamãe !!-eu gritava; Por que a terra treme tanto e as co isas caem e morrem e se quebram e não voltam e se sofre e se vive?'. Mamãe me achava esquisito desde sempre.Nessa hora eu virava filho só do meu pai. "Responde lá para o seu filho que ele hoje está inquieto"- dizia mamãe ao papai inábil. Um dia fui para escola.Não queria.Coloquei o termômetro no forno e entrei para o livro dos recordes: 60 graus.Mamãe disse que eu estava morto.E eu vivinho...Passei a ficar com raiva dela.Fui para o colégio ,mas lhe avisei: "continuo vivo e parto para guerra.Nem você poderá me deter,pois me enganou o tempo todo.Se quem me trouxe foi uma marginal de uma cegonha sem rosto ,nome ou endereço conhecido,e não você,estamos rompidos".A moça riu.Nunca vi uma cegonha sorrir tão lindamente. Cheguei no colégio e apontei a minha arma.Pronto. Misturei todas as cores nos copos possíveis com os pincéis trocados.Guerra,guerra,guerra santa! A sala vazia a espera dos alunos para a aula de artes.Já que é arte,fiz a minha.Sacanearam-me na semana anterior em que o termômetro foi um aliado fiel e menos estabanado.Faltei sim e não nego.Só por isso tiraram o meu lugar na mesa acolhedora.E ali estava aquela moça linda com nome de flor: Maria Rosa.Uma das primeiras punhetas e paixões.Era essa a ordem afetiva? O irmão da Rosa ,talvez um Lírio,tournou-se cumplice em outras peraltices.Queria me aproximar dela e não dele.Ele não desconfiou e ficamos amigos.Convidou-me para o seu aniversário.Uma casa adorável na rua Nascimento Silva,em Ipanema,bairro bacana,até nasci bem perto.E estou careca e esse meu ex-amigo é gay!! Faz tempo inclusive que por lá só se adoram os edifícios.Uma pena. Chegando na festa , eu a vi com outro.Quase morri,quase os matei.Na verdade,eu os matei.Senão não estaria aqui escrevendo sorrindo sobre isso.E eles? Acho que se casaram e são infelizes,graças a Deus. Ninguém me escutou.Agora estão -onde nem a vovó consegue ainda me dizer-, arrumando as cores que mal enxergam.

domingo, 3 de abril de 2011

Gota d'água.(Em tempos de Tsunamis)

Uma Gota D'água foi tema de redação num vestibular.Um aluno,bastante inspirado ( e sabe-se lá o que isso significa) ,deslocando a ansiedade que lhe ,por certo acometia,respondeu: ' E nela eu me afoguei". Recebeu a nota zero. Nunca entendi muito bem os critérios de avaliação da turma que julga certos concursos.Parâmetros pouco flexíveis.E eu ia quebrando a cara em todos eles. Na época do meu vestibular,e aquilo foi horível,pois ofertei poderes demasiados a essa babaquice tipicamente brasileira,sofri à beça.Na tal da família minha a cobrança sobre esses fatos eram cruéis.A gente adoecia,passava mal,sentia-se estúpido mediante alguma fracasso.Era quase uma humilhação.Se bem que sempre existiram aqueles menos doentes,capazes de um desvio pra lá ,acolá.Admiro essas pessoas. No primeiro exame,em que a febre alta me perseguiu em todas as avaliações,lembro-me da reação do meu pai diante do resultado não desejado:balançava a cabeça em sinal de reprovação,e não quis muito papo.Minha irmã que,experimentara algo semelhante,acompanhou-me ao clube ,à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas.Lá,permanecemos sentados e eu fiquei um longo tempo olhando aquela gota d'água imensa. Frequentara à beira daquela lagoa desde sempre.Fui moleque travesso de calça curta e sonhos longos.Jogava pedras ao longe para não machucar. Uns gatos desgarrados nos seduziam - a mim e aos outros pirralhos- e lá íamos nós atrás da caça.Jamais tocamos num bichano qualquer ,mas o sem jeito,a pouca prática - expressão maravilhosa cunhada de uma loteria humana que ganhei na vida- de alguns fedelhos,fez com que um incidentezinho ocorresse: um garoto caiu na gota d'água.Escândalo. A deslumbrada da mamãezinha dele teve um ataque ,não ficou somente à beira ,e eu fui responsabilizado pelo fato.Era tido como o chefe do bando,ou seja, era bastante importante para o meu meio-metro. Lembro-me dele todo ensopado,o tal garoto. E ele estava feliz e me agradecia com os olhos azuis.Enquanto isso a senhora minha mãe me passava uma descompustura pública e prometia a ela mesma que não me levaria mais a nenhuma festa."Você não sabe se comportar"- dizia mamãe.Momentos de felicidade que existiram em dias de festa. Não fora preciso tal promessa existir,já que um ano depois fomos exilados no Planalto Central para uma temporada que parecia não ter mais fim. Tudo isso me acossava naquela tarde de céu límpido e águas serenas de um verão carioca,fim de tarde,na verdade,fim de mundo para mim.O mundo havia terminado pela segunda ou terceira vez .E agora?O quê fazer com esse mundo que terminara novamente? Aquela gota d'água inteira na minha frente e eu sem me afogar com o mínimo de elegância.Afinal,tinha mamãe na parada! Não sabia nadar direito e o passo adiante não vinha.Se bem que...o que faço mesmo direito? Há gente tão pretensiosa no mundo que cursa até.... o Direito. Eu que sempre fui "maladroit",uma espécie de Mr.Bean carioca,cursei faculdades erradas.E na errância, a gente até acerta.Ainda que sem querer.É a tal da sorte,fortuna,paranormalidade,magia,lá sei. Creio que dei meia volta ,ao lado da irmã, e retornei.Um papel ,agora tela em branco, aguardava-me.Rabisquei algumas coisas,outras letras,mesmo troço.A gota d'água e eu somos coisa só.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Meu primo primeiro,primeiro primo.

Meu primeiro primo ficou grisalho e usava bigode.Estava deitado no seu último leito e o surdo do ritmista da escola de samba ressoava em algum canto ,naquele Domingo nublado,garoa à espreita,São Paulo,orgulho do Brasil, a pulsar.E eu ali a sepultar o meu primeiro primo.
Algo terrível me dizia que ele,cuja doença fora descoberta há 2 meses,não completaria o reinado de momo ,nesse 2011.Reinado que veio tarde,em Março,quase no fim de sua estação favorita.Estação favorita para o tal do carnaval,uma festa que ,muitos distraídos ,esquecem-se que é de cepa religiosa.
E eu tinha razão.Essas coisas que identificamos porque nos afeta de algum modo,até por experiência ou no pior dos casos um mero delírio, e que não sabemos bem nomear ou definir melhor as suas formas,a quem finalmente podemos dizer ....intuições.Ele está morto!E está presente ,o que chamamos de carne e osso,pois eu ainda passo a mão no seu rosto frio e nos seus cabelos ,sempre impecáveis.E é só por isso que insisto em dizer que ele permanece em carne e osso para mim,ao menos.
Seu caixão é simples justo porque foi um príncipe.Um príncipe que, tal qual algumas monarquias,recusou-se a mudar de lado,a reconhecer novos tempos,novas tecnologias,novos vínculos. Transformou as ferramentas de conhecimento ,as quais dispunha ,em crença,sacralizando-as.Elas passaram a não apertar as porcas do armário que ,na cozinha pequena e repleta de delícias,pois tornara-se um bom cozinheiro,insistia em não abrir e fechar -como se diria?-, corretamente.
Meu primo primeiro era muito religioso,católico.E eu um ateu.Ateu? Será que isso é pra valer?
Aprendi com o meu mestre que infelizmente não vivemos sem uma ideologia qualquer.Nossas metapsicologias,ou seja, nossas teorias,tais como ele enfatiza,são os nossos olhares e percepções e intuições e saberes sobre as coisas que aqui hão!Contudo,elas somente são ferramentas, isto é, a nossa visão de mundo, aquela teoria sobre algo.Aplica-se ou não.Serve ou não.E tem prazo de validade.E pode nunca funcionar.Ou porque estava errada ou porque estava certa,na hora errada.Já aconteceu muito,desde sempre, e gente maravilhosa foi parar na fogueira.'But"....fogueira não é São João?Festa Junina...
Meu primo se crismou aos 60 anos ,aliás aniversaria em Junho,e eu nem fiz a primeira comunhão ( Graças ao generoso Deus!!).
Ele me levava ao cinema na matinê ,fosse no falecido Cinema Pax,em Ipanema,quando estava de passagem nas suas incontáveis visitas ao Rio,fosse no Gazeta,Gazetão ,Gazetinha,na Avenida Paulista,no prédio da Tv Gazeta,em São Paulo.O famoso 'PlayCenter ,um parque que veio concorrer com o Tivoli Parque Carioca,os encantos de Sampa....Eram muitos os brinquedos.
Crescidos,viajamos.Jantávamos naqueles restaurantes que ele bem conhecia.Visitávamos exposições lá e aqui.Ele adorava passear no Centro Antigo da cidade maravilha.Algo que prezo muitíssimo também.De preferência sem muito calor a nos acompanhar...
Seu primeiro e derradeiro bigode grisalho me guia aos cartões postais.Sim,os cartões postais.Eles chegavam de todos os cantos do mundo,desde 1971, quando iniciou,ainda muito jovem, os seus périplos mundinho a dentro,mundinho de fora.Não havia "computers or cell phones" e eles chegavam.E a gente podia tocá-los e nos encantávamos com as suas aventuras.Viajei muito sem sair do Brasil,naqueles tempos de cartões postais do primo andarilho.E era um orgulho pra gente."Imagina! Acho que gritei para minha mãe,uma espécie de segunda mãe para ele,que o maluco está na União Soviética e a KGB pede identificação no saguão do hotel para aquele moço solitário do Brasil"!!!AhAhAhAh!!! Seria o Putnin a lhe exigir documentos?E a radiação em forma de veneno ,não lhe fora ofertada?Primo de sorte!!
E as viagens eram assim:solitárias quase sempre.Mas quando retornava,ao descrevê-las ,voltávamos a passear e a sonhar.
As perdas foram doídas e creio que não superadas.Os pais,a minha mãe que ,era sua tia querida,uma amiga que desistira de viver e aquele trabalho da vida toda.Doenças séria foram curadas,mas ....existem outras formações que esquecemos de computar.Estão recalcadas ,mas em potência.Recalque não é morte.Mas pode levar pra lá ....que não há.
Na última vez que nos vimos,foi naquela tradicional Pizzaria, nada mais Paulistano,da Pamplona,nos Jardins de Sampa.Faz dois anos e ele estava triste e cansado. Do quê?Da aposentadoria quase mortal? De tédio? De sabedoria no seio da estupidez?Daquela obra naquela cozinha?Continuava elegante e barrigudinho.E tinha um humor refinado.
Frequentador assíduo da Sala São Paulo e de seus concertos maravilhosos,comentara sobre o recital da semana passada."Ontem,disse-nos,não houve porque estamos na folia de momo".
Não haverá folia de momo hoje.Tampouco recitais.
Ao meu lado,fitando aquele rosto tão nosso ,está um Argentino, gente ótima ,que,na nossa infância,desafiara-me para um duelo.Ele,Argentino recém chegado,era arrogante.Parece até pleonasmo......Duelamos na sala da casa da tia da vida toda,ainda bem viva aos 94anos,do meu primo primeiro.Tínhamos oito anos de idade,o rapaz que falava castelhano e yo.
Meu primo se formara em Direito ,na USP.Foi um dos melhores alunos da sua turma.Era o dia da sua festa de formatura.E do meu duelo particular.
Então,antes que as digressões me atrapalhem mais ainda, relembro o Brasil-Argentina primeiro de minha vida.E eu insisto em chamá-lo de Frederico.Mas é Federico! '!Meu nome é Federico,seu agora careca!"Imaginei um "nuevo" duelo por vir.
E o meu primeiro Brasil e Argentina foi o último a lhe falar e rir,à beira da cama de um Hospital,numa cidade com nome de outro santo: dessa vez Santo André.Tornaram-se bons amigos.E parece que com o tal Santo também.Fora diplomata na alma e havia se crismado,há pouco tempo.Dizem que apreciam esses gestos, lá no reino deles.
Inicio agora o meu pranto derradeiro à memória do meu primo primeiro,primeiro primo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Escurinho de cinema

Admirável mundo novo e sua gente que desafia opressões climáticas,desgastes da célula -preguiçosa para se mover, e que quando se move traz a morte como convidada-e que persiste.
Ali se deslocavam sorrisos cansados.Em cada ruga uma travessia de décadas.Quantos filmes já assistiram? "Ah! A mocinha me lembra a Audrey Hepburn"- disse uma dessas pessoas.Eles resistem ao Home Theater doméstico bravamente.
Nada substitui aquela pipoca deliciosa e aquele maldito barulho de saco de pipoca.
A sala torna-se breu e imagina-se o ruído do rolo projetor.Nada.O rolo está de acústica nova.Virou modernidade da tecnologia.
Começa o filme e a gente passa a fazer parte daquela história ,daquele delírio.E a gente sabe.E a gente gosta.E a gente faz questão de se iludir por umas 2 horas.O que é bem melhor do que a ilusão diária de décadas.
E eu que conheci Audrey e suas maravilhas penso saber logo o fim da história.Contudo, o cara que dirige o tal filme é bom condutor.E os atores não sabem.Eles,simplesmente, fazem.
Acabou,luz acesa.Silêncio.Cada platéia,um personagem."Será que ela morreu no fim"?
A mesma senhora,rejuvenecida depois de mais uma travessia,indaga.
Pouco importa.Semana que vem a gente inventa outro.Cada um que invente o seu.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Napolitanas

Napolitanas
Abri a janela e do alto daquele prédio,recém modelado, avistava as pessoas estrangeiras que se moviam.
Na cidade napolitana ,cuja má fama por vezes não lhe faz justiça ,os pedestres se movimentam caoticamente tal qual gente de toda parte.
Fazia frio. Gosto do frio. Considero o inverno,sem maiores exageros térmicos ,uma estação de pessoas civilizadas. E nós brasileiros mantemos um bom hábito,mesmo no inverno, que é o de nos banharmos cotidianamente. Brasileiro é bom de banho. Herança de índio. Não gosta muito de lavar as mãos,mas as partes mais abaixo recebem sempre atenção devida.
O pior nesses momentos gelados é cruzar com alguns estrangeiros do leste europeu que parecem chegados de uma era glacial e com eles a carregar o odor de alguns dias ou semanas sem se banhar. Todos tão elegantes em seus trajes pesados e fétidos. E aquela língua que eu nem sei ao certo se vem do Leste ou Oeste,mas que agride os meus ouvidos. Seria porque aquilo ressoa mal,esquisito?Ou porque a desconheço? Narcisismo ofendido?Não. Acho-a feia mesmo. E não é tampouco por não ser uma língua latina,pois gosto do inglês. Considero aquilo abrupto,gélido e seco feito as tundras que lhes cercam.
Mas o estrangeiro aqui sou eu e eles,que estão ali embaixo da sacada do quarto do meu hotel,já perceberam. Reparo nos olhares que lançam sobre a minha carne, e mesmo tentando seduzi-los ao pronunciar frases em seu idioma ,não os convenci. Sou estrangeiro. Além do que ,eles mantém um dialeto próprio,singular,do qual se orgulham. O resto do país não.
Na condição de estrangeiro me deixo captar por aquele senhor já idoso que anda cabisbaixo,casaco pesado a vestir,falando para o ninguém. E o ninguém até que tentou lhe responder,mas ele ,passos apressados ,apesar do tempo percorrido,prosseguiu. Estaria triste?O que faria daqui a pouco?O que teria feito desde então?
Atravessei o oceano por cima e agora desejo saber sobre a vida de um senhor andarilho que passa. Era um senhor grisalho,cabisbaixo. Esqueci de alguma coisa por relatar?Sim. O senhor em questão carregava um jornal amassado e um guarda chuva .E para quê?Faz sol,apesar do frio, e a temperatura está agradabilíssima. Vai ver que ouviu algo no noticiário matinal e se previne para o fim do dia, para o fim do mundo. É comum que funcionários da aeronáutica italiana discorram sobre o clima nos canais televisivos. E sempre fardados. Deve ser fetiche de telespectadora. Porém, a imagem do moço fardado a contar histórias sobre nuvens e frentes quentes e frias impressiona a quem se acostumou a ver belas mocinhas e suas saias ensolaradas a fantasiar meteorologias. Somos carnavalescos.
Esse senhor pode ser um homem sábio e sabe muito bem sobre os perigos climáticos,sobre os chiliques de um vulcão. O Vesuvio ,ali bem pertinho,não morreu ainda.
Agora,eu o perdi de vista. Teria virado pedra feito seus antepassados em Pompéia? Mas quem garante que ele tem antecedências em Pompéia? Quem garante que ele não é tão estrangeiro quanto eu?Será que ele virou algum Deus?
Ah!Lá está o desgraçado. Bem na esquina onde repousa um Café chamado ...Brasil. Quis o haver e alguns dos seus caprichos que diante do hotel existisse um Café chamado Brasil. Só de pirraça não passei sequer na porta,mas ele há e o velho também. E continua ali. Olhando para os lados e torturando ainda mais aquele pedaço de jornal,agora um trapo. Bebe alguma coisa e gesticula. O ninguém,que é quase tudo o que está a sua volta, parece lhe dar alguma atenção. Pouco importa.
Sumiu de novo. Agora, acho que para sempre .Cansou até mesmo de mim e desse voyeurismo impertinente. Não o vejo mais. Talvez para nunca mais. E isso é o que ele pode me apontar ao sumir e reaparecer : nunca mais. E não há nenhuma melancolia nisso. Só o fato de que nunca mais.
No Café Brasileiro,esteja ele onde estiver, peço uma bebida e gesticulo com nada nas mãos. Peço numa língua brasileira ou seria brasiliana? Não. É brasileira. E todos os zé-ninguéns que, são todos os outros além de mim, encaram-me com o mesmo olhar de outrora. Com o mesmo olhar do velho observado e que agora finalmente diz: estrangeiro.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Festa pecaminosa

E a festa pecaminosa se aproxima.Todos na expectativa pela gula, pela soberba -contar vantagem sobre aquele parente que se fudeu ao longo do ano- ,pela mulher do próximo ,pela bebedeira sem fim.O ritual obsessivo dos cristãos não acaba e jamais acabará.Talvez daqui a umas 10 gerações quando essa mal-dita espécie estiver devidamente substituída ,e olha o arsenio aí, prometendo outras formas de vida, a festinha mude de ritmo.Certa vez,movido pela falta de análise , cujo nome é resistência e que presentifica imposturas,cheguei ao baile natalino. Casa arrumada, convidados vestidos com certa elegância - apesar do calor africano - e no primeiro contato familiar um míssil fora disparado.Bum!Bum!Solidariedade bélica.
Refeito do primeiro tiro ,estou sentado à beira de um abismo ,salvo contudo pela bebida que desloca formações deletérias na minha mente. Resolvo provocar. ' Pessoal: tenho uma "ótima" notícia para lhes dar.Ganhei na loteria!'
Antes que outro artefato explosivo me fosse lançado, percebi os olhares que mesclavam horror e ódio.Ali estava o espírito natalino de uma verdadeira família católica.O fato que enobrece tal reação ,houve.Chama-se sinceridade das ações.Os gestos ,olhares, sorrisos tristes,lábios trêmulos.De repente, uma voz murmurante:"Que mer.....ou melhor ,que bom para você".
Fiquei amedrontado, pois a tal voz estava ao lado e segurava um copo de whisky que balançava em crise de pânico na minha direção.Será que é porque eu não prometi nenhum presentinho?
Passados intermináveis dez minutos ,confessei-lhes."Gente ....eu estava brincando".
Risos, alegria, juras de amor e todos os sentimentos mais odientos emergiram contundente-mentes.
Naquele momento ,pude então constatar o quanto eu era querido pela nobre família, na noite de mais um Natal!De preferência ,ainda pobre.