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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

E pois.

Falaria sobre fatos engraçados. Até uma hora atrás, falaríamos sobre fatos divertidos. Especificamente sobre aquela aventura em terras baianas onde estive há quase trinta anos. Curioso. Nunca mais voltamos. Ao menos eu e certos personagens.
Você passa o dedo pelo teclado e as palavras que saem deles não agradam. O diabo de uma censura que resiste e não se apercebe que ela deveria vir de outrem. Sim. Escreve-se algo e a turma que perderá seu tempo, gastará sua vista, já cansada, um pouco mais. 'Escreva nem que seja ao menos uma frase'- avisam os mestres dessa arte. Que tal uma interjeição? Shi!!! Que tal uma palavra? Mer-da! Sentimento quase que cotidiano na nossa guerra civil urbana.
Justamente esse fato é que me irrita, entristece e outras porcarias por sentir. É uma falência cultural, postural, política. Quanto mais se adianta, emerge uma nova tecnologia jamais experimentada, os bichinhos, que também somos, assumem os poderes. Tornam-se hegemônicos. Estamos à beira de um colapso social. E o cinismo contemporâneo regozija-se em ter visto e fingir que não viu. Esse movimento de afastamento da consciência do que está posto , mas rejeitado radicalmente, em psicanálise tem o nome de recalque. Nós recalcamos desde sempre o que nos singulariza enquanto espécie. O desamparo radical, o abismo sem pára-quedas, aterroriza. Óbvio. Mas essa experiência de quase fim pode ser libertadora. É o nosso bem querer. O nosso desejo nuclear.  Ao menos, segundo aqueles sábios que se arriscam mais. Arriscar-se. Sim.
Escrever é se arriscar. E o que não seria? Viver é um risco supremo. Já dizia o Guimarães Rosa que é muito perigoso.
Noutro dia, eu fui caminhar num Domingo com sol entre nuvens. Isso significa que o sol é assediado por essas formações que, ao nosso ver, choram vez ou outra de tristeza - ou seria alegria?- pela presença dessa estrela soberana. Tentam portanto evitar a presença de outras formações. Tampar-lhe a visão. Eventualmente, conseguem. Em certos hemisférios estacionam por tempo longevo. Agora, por exemplo, no inverno europeu ou estadunidense, o astro rei tem aparecido por menos tempo. Porém, quando retorna, as pessoas se infantilizam um pouco mais e brincam como se não fosse haver um dia outro. Pulam, gritam, bebem, namoram, respiram. Presenciei uma única vez esse evento e fiquei despeitado a cerca daquela euforia. Eles se divertiam diante do drible, do chega pra lá, que o esquentadinho dera naquelas pretensas nuvens. Reinava sozinho. Um aristocrata sem mediações. Soberania é isso.
E nos estados de exceção é que surge, disponibiliza-se, para essa nossa espécie a possibilidade de emergência de um soberano. Não foi somente um controverso Carl Schmitt  que declarou que nos estados de exceção. o soberano se revela. Por esses lados banhados de Atlântico houve gente que indicou o mesmo sentido. Contudo, santinho de casa não faz milagre. Seria de um milagre que precisamos? Reverter um semi-impossível?
O Rio de Janeiro se despede do seu mais recente baile carnavalesco- na Ilha Fiscal- com seus reis barrigudos, figuras até simpáticas, um imperador derrubado por um milico traidor, covarde e dispensado pela amante e uma bipolaridade sem mediação. O NOME DISSO; SURTO.
Sobre o último baile da tal ilha, trataremos em breve. São muitos personagens dessa Velhaca Nova República.















terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O Nono andar.

Faz onze anos que fora iniciado um esboço de texto. Ele se chamaria 'O Nono Andar'.
O nono andar se torna um personagem então. Tem vida própria. Protagonizando um semi-horror que vem a ser aquela sala enorme com dois boxes um pouco mais privativos onde algumas pessoas realizavam tratamento quimioterápico. Câncer. Um ataque histérico de certas células que passam a se reproduzir descontroladamente ocasionando tumores que podem se espalhar pelo corpo todo ou não. Os que não sofrem a famigerada metástase podem ser operados ou tratados radio ( queimação) ou quimioterapicamente ( Uma bomba química). Essa última pode provocar efeitos colaterais terríveis dependendo do tipo, região ou intensidade do câncer. As causas dessa desgraça, que já foi tratada como ' aquela doença', nunca foram bem esclarecidas. Existem fatores que facilitam, desencadeiam, com maior facilidade, mas que no fundo, até mesmo das pesquisas mais avançadas, a incógnita permanece. Um importante pesquisador estadunidense e oncologista publicou um livro, faz uns dois anos, em que declara que em última instância não se sabe ao certo o que desencadeia esse descontrole celular.
Tabaco, álcool, outras drogas ditas pesadas, certos elementos químicos ( mercúrio que vem a ser um metal líquido, por exemplo), raios ultra-violetas em certos horários e períodos do ano,  formam um clichê mundial no caso desses  agentes considerados cancerígenos. Radiação nuclear, radiação gama sobretudo, costuma ser fatal para o nosso organismo em caso de extrema exposição, etc. Lembremos daquela exposição a um elemento químico denominado Cloreto de Césio 137, em Goiânia, nos anos 80, ao qual foram submetidos moradores da cidade que manusearam ou tiveram contato com alguém que o tenha feito, provocando a morte, oficial, de 4 pessoas e que contaminou centenas. A cápsula estava acondicionada com segurança num invólucro de chumbo e era utilizado para bombear, através de um maquinário específico e seguro, radiações específicas que visam destruir as células doentes, cancerígenas, sem destruir as células normais ou saudáveis. O mais curioso é que aqui a ideia de saúde corresponde à normalidade....Isso daria uma tese sem fim. O que se sabe é que algum bisbilhoteiro resolveu manipular aquilo que fora descartado num lixão, num ferro velho, e ao abrir a cápsula se deparou com um brilho lindo, um espetáculo aos olhos. Logo, vamos tentar revender isso. Pode-se ganhar uma grana? Claro que sim. E quanto custará? Nesse caso, pagou -se com a vida ou com lesões graves e permanentes. Por exemplo, houve pessoas que sofreram amputações de seus membros. Durante muito tempo, esse caso permaneceu escondido.
O país saltava fora de uma ditadura militar que perdurara por vinte e um anos pulando para dentro de  uma ditadura civil ( apelidada de Nova República) e cujos preceptores eram velhos senhores de outrora. E no que tudo isso nos ajuda na condução da história que tentará ser pega por algum caminho, nos parágrafos que nascerão abaixo? Retirando essa explanação, muito pouco. Comecemos de novo sem retornar ao preâmbulo acima.
As sessões às quais a senhora minha mãe submetia-se a cada quinze dias ocupavam um pequeno boxe naquele nono andar que era destinado às sessões de quimioterapia. Confesso-lhes que não olhava para os pacientes outros. Lembro-me entretanto daquele rapaz que surgia vez ou outra na vã tentativa de entreter os pacientes. Motivo? Era sobrevivente de um câncer muito agressivo. Tinha realizado o tratamento naquela sala, no nono andar. Onde ele se encontra agora? Não se faz a menor ideia.
Quinzenalmente, íamos para guerra. Sim, uma batalha. As sessões duravam até 6 horas. Aquele pinga pinga de bombas químicas e uma ilusão reconfortante a ilusionar. Ela, a paciente. fingia que se iludia. Logo, dedicava-se ao máximo. Nunca faltava e éramos muito pontuais. Na hora marcada, sentávamos na sala de espera. Além do mais, realizava todos os exames solicitados por sua santidade o médico cuidador.
Passados 5 meses, a primeira reação grave.
Vamos à cena: cinco horas se passaram após o início da quimioterapia. Quase sempre éramos os últimos a deixar aquele terrível lugar. Digo terrível visto que a minha irmã e eu já sabíamos o prognóstico. Se tudo corresse bem, teria um ano de vida.
Essa cena se mistura com a do dia anterior ou o momento da sentença fatal.
Os dois irmãos sentados diante do oncologista. Ele manuseava uma página após a outra e nos entregava. Não dizia coisa alguma e evitava nos olhar. Tive vontade de interromper esse ritual semi-macabro e indagá-lo: ' O que isso tudo aqui espalhado pela mesa significa? Já temos um parecer bastante grave que nos foi apontado pelo clínico geral dela''.
Não houve coragem. Minha irmã teve: 'Quanto tempo'?  'Se tudo correr bem, um ano no máximo'.
O Real... AH! O tal do real... Sabem o quê significa? Um tijolaço na cara. Isto é: o beijo que não houve; o gol perdido; o erro do cálculo; o brinquedo que não veio; a chuva num dia de sol; a traição; a reprovação; a rejeição. A solidão absoluta.
Saímos da sala com tudo isso no corpo. Descemos até a garagem do edifício por onde circularia por quase cinco meses. Antes de chegar à rua principal, uma espiadela naquela lanchonete vagabunda  logo mali na esquina onde um sanduíche foi comido algumas vezes. Nenhuma saudade.
Estávamos então naquele carro branco e nele 'passeamos' pela orla de Copacabana onde ficava a tal clínica. Se consigo acompanhar a mim mesmo, utilizo a expressão 'tal´' motivado por um desconforto ainda presente. Fomos e voltamos diversas vezes em direção ao Leme e retornávamos na direção Ipanema. Aquela praia estava sem graça, sem boça. O telefone tocou e a amiga de vida toda da minha irmã telefonava para lhe dar apoio. Confesso que também não curto essa expressão ' amiga de vida toda. Assim como um 'beijo no coração, o níver do fulano...Porém esse capricho é meu e todo meu. 
Bem, o telefonema funcionou. Foi um reconforto. Decidimos parar numa loja de departamentos a fim de comprar um daqueles aparelhos que ajudam a melhorar a respiração. Nebulizador. Sim, é esse o nome. Simplesmente, pensei: Ela sempre foi muito alérgica. Como vai suportar a esse massacre químico no seu corpo? E os enjoos? Tão propagados e perversos. Conseguimos o aparelho e um medicamento- através da indicação de uma prezada e competente amiga, visto que para o 'Sir. Oncologista não faria diferença- que lhe trouxe um conforto extraordinário. Não sentiu nenhum enjoo ou náusea. E aquele filho da puta dizendo que ' Tanto faz...' Faça o mesmo com a sua filha, seu escroto! É isso. Tem que ser com a filha! Até porque é meio caretão, cara de CDF, pau pequeno. Risos de histeria. Preconceito?
 Desculpem-me. A sensação ao se descrever  essa guerra confirma o conceito freudiano da não temporalidade do inconsciente. Foi ontem. Foi agora.
Foram seis meses. Sem nenhuma esperança. Situação irreversível. Não lhe foi dito nada. 
Certo dia, ergueu um pouco o corpo da cama abruptamente e me perguntou: ' Filho. Quanto tempo?'
Nada respondi. Numa noite chuvosa, na verdade uma tromba d'água, típica do verão, o noticiário mencionava a morte do irmão de uma amiga de longa data. A causa dessa morte: um câncer de pâncreas. O mesmo órgão onde a metástase surgiu. Fatal.
Numa linda manhã de verão, nuvens de férias, fim de Janeiro, a guerra foi vencida. Pela doença. 
O nono é andar é aquele pesadelo que nunca te esquece. 








sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Que carnaval bacana!

Que carnaval bacana! 
Sabem o que é isso? Efeito inconsciente após a realização de uma colonoscopia, hoje, à tarde.
O problema não é o exame. É o pré-exame. A tal preparação. Dieta desde a antevéspera e uma diarreia que deve ser provocada no dia da tortura. Vai para o trono ou não vai? Vai e como.
Ao menos, não houve aquela pergunta : 'O Sr está feliz?' A noite foi agradável? Não se preocupe. O exame é tranquilo'. Exame tranquilo com o c....dos outros é biscoito globo num fim de tarde de sol do mês de Maio. E com aquele mate gelado à beira mar. Aquele paraíso chamado biquínis....
Pois, carnaval bacana foi o que emergiu, o que foi desrecalcado, enquanto era conduzido para uma sala de repouso pós penetrações, ou melhor, procedimentos médicos. O inconsciente é sempre presente. Ainda mais quando tocamos em partes mais baixas.
Melhor mesmo - eu lhe agradeço 'facebookianamente' , Dona Mônica, pelo apoio de sempre-, é assistir, ao lado da melhor companheira e após toda essa invasão maior de privacidade, a um programa chamado 'As verdadeiras Mulheres assassinas'😨.Em seguida, ' Sogras perigosas'😵😱.
Episódios baseados em fatos que aconteceram pra valer. Igual ao abominável exame. E todo esse 'pacote' apresentado num mesmo canal chamado ID.Esse último , 'Sogras Perigosas', deve ser ficção. Não é possível! Ao menos, os fatos ocorreram no distante EUA.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Savana Carioca. 23 de Outubro de 2017.😡😨

A Savana Carioca. 23 de Outubro de 2017.😡😨
Sempre que vejo aqueles jipes, que são muito conhecidos de quem faz safari nos países africanos, fico a me perguntar o que pretendem com isso no Rio? Que tipo de 'bicho' acham que encontrarão por lá? Olho para o rosto daqueles desavisados
e ou idiotas e me pergunto: de onde vêm? Sabem para onde vão? O que pretendem? Viajar para colocar foto em rede social , nessa vulgata global? Eu boto quando volto.. Quando boto. Sabe-se lá.Os turistas se atiram assim num país e numa cidade violenta como o Rio?! Em qualquer ponto da cidade, ouvem-se relatos, causos. Contudo, alguns lugares superam bastante os outros. Transformaram-se nisso. E faz décadas. Um traficante VP- seria VIP, daqueles que estão sempre naquela mesma festa, naquele mesmo camarote?-, elogiou muito um ex-governador caudilho e sentou a bordoada num ex-governador, hoje presidiário. Ponto para quem? Ser muito elogiado por um marginal com folha corrida de 10GB traz voto ou não?
Curioso, pois sempre que viajo me informo. Tem roteiro, GPS, mapinha século 20 também serve, língua oficial , moeda oficial ,interesses ( nem que seja ficar plantado num café observando o ir e vir do gringo mais próximo, etc...)
Detesto favela. Acho feia, fedida, perigosa ( aqui no Rio a maioria é ) , opressiva ( para quem mora e não tem nada a ver com a criminalidade que ali prospera e para quem passa por lá ) . Trabalhei em favela. Conheço por dentro. Não só de fotografia sub- self. Fomos ameaçados lá. O trabalho teria um futuro até muito bom. Dizendo melhor: fomos expulsos. Inclusive houve intimidações feitas pela polícia e seu inestimável camburão. Bem no dia seguinte à exibição, pela televisão viciada, de um espancamento sofrido por moradores. Os algozes eram oficias fardados. Desceram a porrada com os seus cassetetes e outros apetrechos. Chocou a sociedade. Incrível, não? Chocava-se com porrada. 'Progredimos'.
A guerra na Rocinha já faz parte do 'turismo' oficial da ex-Guanabara e suas canalhices e desmandos.
Nesse caso penúltimo, mescle um motorista italiano - que pensa que conhece a cidade-, um dono de empresa de turismo também italiano e sua digníssima esposa 'brazuca', uma guia irresponsável ou desesperada por grana e 3 turistas espanhóis - duas mulheres- 'desavisados'.
Visitariam alguns dos seus restaurantes e lojinhas. Debaixo de chuva. E de uma chuva de balas igualmente.
Pelo nosso lado e a bem saber - apesar da global douta ignorância- , esperar o quê de uma polícia que mais mata e que mais morre? Seria a mais eficiente? Atirar nos pneus? Admoestar os ocupantes que 'furaram' o bloqueio, com o carro caro e bonito, que eles deveriam sair calmamente do veículo com as mãos para o alto e que teriam direito a um dos profissionais que mais lucram com tudo isso, ou seja, o tal do advogado/a? Arriscariam um 'portunhol'? Chamar o 'Spider Man' ou o maneirista Zé Carioca?
A senhora morreu. Tinha 67 anos. Nasceu no mesmo ano em que nascera o Maracanã. Ela era 3 meses mais antiga. Espanhola. A favor ou contra a separação catalã? Nunca saberemos.
Um tiro pelas costas. 'Ela foi lá para se divertir'. - resmunga a jornalista que está 'exilada' em NY.
Será que essa jornalista frequentava o Queens, NY, nos anos 70/80? Para se divertir? Que tal então uma temporada em Clichy-sous-Bois, Paris?
Cada um supõe saber o que faz ou até mesmo o que quer. E são libérrimos para isso. Até para estupidezes.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Economia Nobel

O Prêmio Nobe,l normalmente, ratifica a dominação - quase um monopólio- das universidades estadunidenses. 
Aqui no Brasil, faz muito tempo, que uma Psicóloga - não me recordo se ela é daqui ou de SP - faz um trabalho em que considera as questões econômicas - ou razões econômicas, tal como prefere o ganhador desse ano do Nobel- do ponto de vista das emoções, do comportamento, etc. Aliás, isso é muito antigo. 
Desde Freud. Economia Libidinal. Lacan fez diversos apontamentos sobre isso nos seus seminários. E MD Magno também já discorreu em seu teorema sobre o tema exaustivamente. E só para apontar alguns do campo que me concerne.. Tem mais gente. E aqui, na nossa Economia.
Desafio esses cidadãos da estranja ( Vejam a pretensão desse bacharel brazuca aqui) a compreender as 'razões econômicas ' do Brasil/ Brazil. Na área das economias , o troço é século 20.
Esse pesquisador estadunidense teve a competência de considerar as peras e as maçãs- tão saborosas- na sua explanação para o entendimento de um número maior de pessoas. Sua linguagem parece acessível. Não se enclausurou no hermetismo acadêmico. Até porque, assim/assado, o livro venderá mais.😎E que não se considere, o livro dele, enquanto uma cafonice de auto -ajuda econômica. Não é. Dinheiro diz muito sobre o sintoma de cada um. Há quem diga que compra até amor verdadeiro.
O tema é ótimo, mas não é original. 😴OEconomi

sábado, 23 de setembro de 2017

Cena pré e pós carioca

Avenida Vieira Souto, tarde de sexta.
Uma equipe filmava um capítulo de novela em que uma das personagens é menino/menina. Ela estava por ali. Sentada aguardando a chamada para cena. Bisbilhoteiros fuçavam a cena com seus abomináveis celulares. Passei correndo, malcriado. A ciclovia me acenava como se dissesse: ' Venha amigo velo. Você me usa e abusa desde a adolescência.' Diligente, obedeci. AS balas histéricas cantavam soltas na Rocinha.
Chego ao Arpoador onde frequentei por treze anos o espaço que batizei como 'Flintstones Fitness'. Uma academia de musculação feita de pedras e rochas e pedritas e freds e wilmas e o quê não foi e nunca será. Como avisa uma outra canção.
Não frequento mais os pesos porque arrebentei a coluna no ano passado por conta da brutalidade do material em questão.
Fico pendurado naquelas barras, paralelas que, gentilmente, espalharam-se pela orla toda. Feitas de material que não corrói. Que resiste à força da maresia e bebedeiras, melhor dizendo: ressaca do oceano próximo.
Antes de me retirar, um DOG alemão faz uma saudação. Dog Alemão é aquela mistura de cachorro com cavalo. Enorme, lindo e bobalhão. Adoro. Em seguida, uma senhora com o canto da boca um pouco torto para esquerda se aproxima. Tem os olhos arregalados e um sotaque turístico. 'Moço, por favor. Posso chegar a Copacabana seguindo por aqui?'
'Não, disse-lhe. Por aqui só se for a nado. E mesmo assim teria que transpor as pedras e rochas ( atravessaria portanto a Flintstones Fitness) , arrumando assim um outro problema. Terias que invadir aquele espaço ali e que pertence ao exército. Ao famoso e conspirador, Forte de Copacabana.'
Mostrei-lhe o sentido apropriado a seguir.
'A senhora está de férias?'
'Sou aposentada. Trouxe os meus sobrinhos para o Rock in Rio. Eles se mandaram para o festival e eu resolvi passear. Tenho 70 anos. Sou viúva.'
'Boa caminhada. Boa jornada, Seja bem vinda'.
Ela ajeitou, com muito esforço, a boca torta e fugiu feliz.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sebastião Favelizado.

As barricadas em chamas me fazem lembrar os tempos em que trabalhamos numa comunidade chamada Costa Barros. Já deve ter virado bairro. Ao menos, Barros Filho, é bairro. Ali, pertinho da última estação da linha 2 do metrô, Estação da Pavuna. Não são, definitiva e factualmente, paraísos turísticos. E por lá se vão mais de 20 anos. Era uma comunidade sitiada. A mesma condição que também se estende, há décadas, ao resto da cidade. Toques de recolher, cemitérios clandestinos, grades horrorosas 'resguardando' prédios, cancelas determinando o vai e vem sexual dos veículos e seus condutores, nos condomínios menos antigos, enfim, uma paranoia que, para além de uma possível metodologia de segurança, tornou-se doença grave. Patologia incorporada.
Relembrando também que já se foi jovem, temerário. Partidário dos movimentos denegatórios da mente. Você viu, percebeu algo mas não quer enxergar. Como ensina o mestre, recusa-se a ver. Não quer agir de uma forma outra que não aquela que nos seja mais conveniente, menos desconfortável ( ainda que esse desconforto fosse necessário para haver entendimento e nova postura possível). Promove-se então um novo recalque. Um modo de manter fechadinho, trancado aquela formação que lhe trouxe, da qual fora afetado. Só que existe um problema. Está trancado, inconsciente, mas não desapareceu. Não adianta fingir que não houve, que não há . Esse é o aspecto tragicômico da nossa própria existência . Uma vez escrito, está posto. Você até apaga esse texto. Você pode ignorar o texto, lixar-se para ele ( o mais frequente) , curtir, etc e outros. Mas ele houve. E restará enquanto rascunho, na sua forma original, ou melhor : sintoma.
Quando Magno afirma, dentre outras tantas postulações e correções- que um sintoma nos remete ao SIM, a essa afirmatividade radical e indelével, sendo nomeado é simples de se entender, e difícil de operar. Diante da afirmatividade permanente do tesão humano e sua vontade de levá-lo ao extremo ( inconsciente que se manifesta. Um desejo 'nirvânico' de zerar esse querer) . E como não há passagem para um ouro mundo, ou seja, uma transcendência requerida , ele escapa. derrapa, quebra a fuça. Surge, manifesta-se, permanece enquanto um sintoma qualquer , ou seja,: os conhecidos e estranhos, atos falhos, chistes , sonhos, uma patologia qualquer, um ato criativo. Pronto. Apresentou mais um heterônimo nessa multiplicidade que se é enquanto Pessoas. Não somente Um Fernando.
O quanto que já se viu e compreendeu sobre o sintoma Rio de Janeiro e sua decadência pós 64 e perda da condição de capital federal ? Uma sequência de governos atabalhoados, porque não chamá-los a termo: péssimas gestões. Muitas desonestas inclusive. Houve até uma Doença de Chagas que deixou herança biliardária para seus estoicos. Configurou-se um dos maiores latifúndios urbanos do mundo.Curioso que a presença federal no Estado é grandiosa. Universidade, hospitais, servidores públicos da União que somados ( até meados dos anos 2000) formavam um contingente maior que o número de servidores da capital do planalto central. E isso nos atrapalha muito mais do que ajuda.
Oitocentas e cinquenta favelas que confinam cerca de um milhão e meio de cidadãos ( sem cidadania).
E outros cinco ou seis milhões, cinicamente, manipulados e manipulando denegações.Uma roleta russa.
Houve ainda a derradeira fusão-saideira do Estado do Velho Rio e uma Baía a naufragar Guanabaras.
Vilanias de um Sebastião Glorificado.