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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Economia Nobel

O Prêmio Nobe,l normalmente, ratifica a dominação - quase um monopólio- das universidades estadunidenses. 
Aqui no Brasil, faz muito tempo, que uma Psicóloga - não me recordo se ela é daqui ou de SP - faz um trabalho em que considera as questões econômicas - ou razões econômicas, tal como prefere o ganhador desse ano do Nobel- do ponto de vista das emoções, do comportamento, etc. Aliás, isso é muito antigo. 
Desde Freud. Economia Libidinal. Lacan fez diversos apontamentos sobre isso nos seus seminários. E MD Magno também já discorreu em seu teorema sobre o tema exaustivamente. E só para apontar alguns do campo que me concerne.. Tem mais gente. E aqui, na nossa Economia.
Desafio esses cidadãos da estranja ( Vejam a pretensão desse bacharel brazuca aqui) a compreender as 'razões econômicas ' do Brasil/ Brazil. Na área das economias , o troço é século 20.
Esse pesquisador estadunidense teve a competência de considerar as peras e as maçãs- tão saborosas- na sua explanação para o entendimento de um número maior de pessoas. Sua linguagem parece acessível. Não se enclausurou no hermetismo acadêmico. Até porque, assim/assado, o livro venderá mais.😎E que não se considere, o livro dele, enquanto uma cafonice de auto -ajuda econômica. Não é. Dinheiro diz muito sobre o sintoma de cada um. Há quem diga que compra até amor verdadeiro.
O tema é ótimo, mas não é original. 😴OEconomi

sábado, 23 de setembro de 2017

Cena pré e pós carioca

Avenida Vieira Souto, tarde de sexta.
Uma equipe filmava um capítulo de novela em que uma das personagens é menino/menina. Ela estava por ali. Sentada aguardando a chamada para cena. Bisbilhoteiros fuçavam a cena com seus abomináveis celulares. Passei correndo, malcriado. A ciclovia me acenava como se dissesse: ' Venha amigo velo. Você me usa e abusa desde a adolescência.' Diligente, obedeci. AS balas histéricas cantavam soltas na Rocinha.
Chego ao Arpoador onde frequentei por treze anos o espaço que batizei como 'Flintstones Fitness'. Uma academia de musculação feita de pedras e rochas e pedritas e freds e wilmas e o quê não foi e nunca será. Como avisa uma outra canção.
Não frequento mais os pesos porque arrebentei a coluna no ano passado por conta da brutalidade do material em questão.
Fico pendurado naquelas barras, paralelas que, gentilmente, espalharam-se pela orla toda. Feitas de material que não corrói. Que resiste à força da maresia e bebedeiras, melhor dizendo: ressaca do oceano próximo.
Antes de me retirar, um DOG alemão faz uma saudação. Dog Alemão é aquela mistura de cachorro com cavalo. Enorme, lindo e bobalhão. Adoro. Em seguida, uma senhora com o canto da boca um pouco torto para esquerda se aproxima. Tem os olhos arregalados e um sotaque turístico. 'Moço, por favor. Posso chegar a Copacabana seguindo por aqui?'
'Não, disse-lhe. Por aqui só se for a nado. E mesmo assim teria que transpor as pedras e rochas ( atravessaria portanto a Flintstones Fitness) , arrumando assim um outro problema. Terias que invadir aquele espaço ali e que pertence ao exército. Ao famoso e conspirador, Forte de Copacabana.'
Mostrei-lhe o sentido apropriado a seguir.
'A senhora está de férias?'
'Sou aposentada. Trouxe os meus sobrinhos para o Rock in Rio. Eles se mandaram para o festival e eu resolvi passear. Tenho 70 anos. Sou viúva.'
'Boa caminhada. Boa jornada, Seja bem vinda'.
Ela ajeitou, com muito esforço, a boca torta e fugiu feliz.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sebastião Favelizado.

As barricadas em chamas me fazem lembrar os tempos em que trabalhamos numa comunidade chamada Costa Barros. Já deve ter virado bairro. Ao menos, Barros Filho, é bairro. Ali, pertinho da última estação da linha 2 do metrô, Estação da Pavuna. Não são, definitiva e factualmente, paraísos turísticos. E por lá se vão mais de 20 anos. Era uma comunidade sitiada. A mesma condição que também se estende, há décadas, ao resto da cidade. Toques de recolher, cemitérios clandestinos, grades horrorosas 'resguardando' prédios, cancelas determinando o vai e vem sexual dos veículos e seus condutores, nos condomínios menos antigos, enfim, uma paranoia que, para além de uma possível metodologia de segurança, tornou-se doença grave. Patologia incorporada.
Relembrando também que já se foi jovem, temerário. Partidário dos movimentos denegatórios da mente. Você viu, percebeu algo mas não quer enxergar. Como ensina o mestre, recusa-se a ver. Não quer agir de uma forma outra que não aquela que nos seja mais conveniente, menos desconfortável ( ainda que esse desconforto fosse necessário para haver entendimento e nova postura possível). Promove-se então um novo recalque. Um modo de manter fechadinho, trancado aquela formação que lhe trouxe, da qual fora afetado. Só que existe um problema. Está trancado, inconsciente, mas não desapareceu. Não adianta fingir que não houve, que não há . Esse é o aspecto tragicômico da nossa própria existência . Uma vez escrito, está posto. Você até apaga esse texto. Você pode ignorar o texto, lixar-se para ele ( o mais frequente) , curtir, etc e outros. Mas ele houve. E restará enquanto rascunho, na sua forma original, ou melhor : sintoma.
Quando Magno afirma, dentre outras tantas postulações e correções- que um sintoma nos remete ao SIM, a essa afirmatividade radical e indelével, sendo nomeado é simples de se entender, e difícil de operar. Diante da afirmatividade permanente do tesão humano e sua vontade de levá-lo ao extremo ( inconsciente que se manifesta. Um desejo 'nirvânico' de zerar esse querer) . E como não há passagem para um ouro mundo, ou seja, uma transcendência requerida , ele escapa. derrapa, quebra a fuça. Surge, manifesta-se, permanece enquanto um sintoma qualquer , ou seja,: os conhecidos e estranhos, atos falhos, chistes , sonhos, uma patologia qualquer, um ato criativo. Pronto. Apresentou mais um heterônimo nessa multiplicidade que se é enquanto Pessoas. Não somente Um Fernando.
O quanto que já se viu e compreendeu sobre o sintoma Rio de Janeiro e sua decadência pós 64 e perda da condição de capital federal ? Uma sequência de governos atabalhoados, porque não chamá-los a termo: péssimas gestões. Muitas desonestas inclusive. Houve até uma Doença de Chagas que deixou herança biliardária para seus estoicos. Configurou-se um dos maiores latifúndios urbanos do mundo.Curioso que a presença federal no Estado é grandiosa. Universidade, hospitais, servidores públicos da União que somados ( até meados dos anos 2000) formavam um contingente maior que o número de servidores da capital do planalto central. E isso nos atrapalha muito mais do que ajuda.
Oitocentas e cinquenta favelas que confinam cerca de um milhão e meio de cidadãos ( sem cidadania).
E outros cinco ou seis milhões, cinicamente, manipulados e manipulando denegações.Uma roleta russa.
Houve ainda a derradeira fusão-saideira do Estado do Velho Rio e uma Baía a naufragar Guanabaras.
Vilanias de um Sebastião Glorificado.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Gato de Schrödinger

Nenhum texto alternativo automático disponível.

O filme do Selton

Selton Mello acaba de realizar o seu filme. Ele chamou de 'O filme da minha vida'. Nesse caso, da vida dele. Filme bom. Sobretudo, tão belo. Linda fotografia, trilha sonora preciosa e atores muito bons. É a versão Cinema Paradiso de Selton. 
Bacana. Fez até lembrar os bons filmes argentinos. 
Vida longa ao Selton. As letrinhas subindo e a pequena mas atenta platéia permanecendo na sala escura.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chatices.

O que levaria a um encontro a mais? Era a quinta vez que se retornava ao mesmo médico para investigar umas sensações desconfortáveis no chamado tubo digestivo. Esse, ao contrário daquele outro do texto anterior, foi indicado.
Desde a primeira vez, ele não se levantou da cadeira. Um copo d'água à direita,sempre cheio, ao lado do computador. Curioso. Ele consulta o computador mas tem as suas fichinhas. Vai que a luz nos falta?
Seco. Olhos contundentes e um esboço de sorriso. Irritante. Completamente irritante.
' O senhor evacua normalmente? O senhor sente peso no estômago? O senhor ...'
O  desejo de lhe mandar à merda é colossal. O problema é que o seu desejo não tem maiores poderes do que isso, ou seja: desejar. Mandá-lo à merda significava embarcar sozinho nesse mar de odores não muito agradáveis. O desgraçado permaneceria por ali. Impávido na sua cadeira. AH! Há uma secretária que, nessas cinco consultas, e com espaço de tempo considerável entre uma e outra, sempre estava com uma incômoda coriza. Percebendo o olhar que lhe dirigia, respondeu com aquele ar burocrático de secretária: ' Alergia'. Depois, fingiu sorrir. O mesmo não sorriso do homem de gelo. Seria um pacto? Transferência amorosa-odienta entre criador e a abominável criatura?
O fato é que da primeira vez que estivemos juntos, ele pediu uns exames. Exames invasivos. Daqueles que você precisa fazer dieta, ficar desidratado, quase morrer e voltar com imagens que só o Dr. Gelo poderia decifrar. E não é que a gente retorna ao local do crime? Como se diz nas séries televisivas. Só que por esses lados, o sangue jorra, o pus fede, as excreções são excreções e que também são secreções. E esse médico- ótimo diagnóstico e sério-, homem de gelo, continua não se levantando para, digamos assim, saudar o próximo infeliz. E ele é bem chato. Feito esse texto. Deu pra sentir?

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Entranhas de baixo.

Um incômodo. Vindo de baixo. Permanecer numa certa posição estava se tornando impossível.
Resiste-se. Após uma inspeção cuidadosa e tendo aquele espelho íntimo para refletir o que não se consegue enxergar, a suspeita parecia se confirmar.
Fazia alguns meses que Ariobaldo utilizava um medicamento que poderia levar à constrangedora constipação. 'Mas como isso pode ocorrer? Por que comigo?' Frase típica do vitimizado patético.
O intestino sempre funcionara bem. Às vezes, até demais. Isso era motivo de orgulho. Nas eventuais consultas médicas vinha sempre aquela pergunta : ' O senhor evacua bem'. Constrangimento que normalmente era quebrado por aquela outra pergunta: ' O senhor bebe?- indagou o homem de branco. Sim. Aceito- respondeu Ariobaldo'. Afinal, não se deve recusar uma oferta como essa. Muitos considerariam falta de bons modos.
Constatado que o interior da bunda estava adoentado, aplica-se o procedimento caseiro na primeira tentativa de salvar o único traseiro que se tem. Pomada da vovó que passou para mamãe e que ainda funciona bravamente. Briosa, tinhosa, destemida. A pomada segurou o desconforto. Um alívio.
Prudentemente,  a bunda decide procurar pelo especialista. Estranhamente- ou seria preconceituosamente?- existem especialistas nessas partes menos pudicas. Mas será que haveria algum desses ou dessas com horário disponível mediante a urgência do caso? E se houvesse tão somente um horário disponível com uma doutora? Uma mulher?Como seria? Exibir a bunda e suas entranhas para uma desconhecida? E ela terá que manuseá-la... O narrador não consegue  imaginar. Ariobaldo muito menos.
Vejamos o preconceito. Por que não uma senhorita?
A questão é que o preconceito não pertence tão somente ao digníssimo proprietário do traseiro adoentado, mas esse modo de existir dessa espécie humana estranha chamada cultura.
Proctologista menina é coisa muito rara.  Já perceberam?
Livro na mão -- aquele com a lista dos médicos e laboratórios credenciados- dois nomes se exibem. E agora, Ariobaldo? A quem recorrer ? Não há recomendação. Par ou ímpar? Adedanha ? Lembram do joguinho? Maçã , jaca ou salada de frutas ou mista? Não era assim?
Os dois indicados para a manipulação das entranhas possuíam consultório próximos à residência do traseiro enfermo. Já que não havia nenhuma referência pregressa acerca dos doutores, o primeiro lhe conquistou. O segundo viria depois- óbvio- do primeiro. Como quem vem ... ôpa. Essa letra é do Chico Buarque. Meninas, senhoritas, mulheres, Atenas e um Buarque de Holanda. Conheceria, o Chico, alguma proctologista? Ou guardara o segredo para si? Poder-se -ia chamar Geni? Mesóclise. Não, Ariobaldo. Mesóclise não é o nome de uma proctologista grega e médica do Holanda. Vá estudar um pouco.
Decidido então. O primeiro da lista conquistara as partes íntimas de Ariobaldo.
Roupa escolhida no armário com esmero e a solidariedade da companheira. Perfume. Sim, perfume.
É preciso aparentar -mediante tantos personagens presentes- uma aparição perfumada, cheirosa.
A caminhada até o'matadouro' é curta. Talvez uns 400 metros. O prédio lhe era familiar. Naquele mesmo endereço, outros especialistas foram consultados. Menos mal. Essa familiaridade trazia algum conforto. Quarto andar? Pode ser. Era o quarto andar e o consultório não combinava com nenhum outro quarto visitado. Secretária muito simpática. Uma senhora. Um bom sinal. Será que o acompanha há muito tempo? Melhor não perguntar. Apesar da curiosidade, o cu de Ariobaldo ansiava por outras medidas. Os minutos passavam, passavam e nenhum sinal que o cu avariado fosse receber a devida atenção pelo tal doutor. Xiiiii! A sala começa a se encher. E agora? Qual o artifício para iniciar uma conversa com esses novos colegas tendo como tema principal essa região, no mínimo, constrangedora? Para um primeiro encontro- ainda que um 'blind date'- seria um pouco demasiado. Não acham?
Elucubrações à parte, esse senhor grisalho sentado ao lado do que parece ser a sua esposa deve ter experiências de sobra. E ele está bem! Sorriso de dentaduras e uma expressão serena. Mas.. Por que está sentado meio de lado feito barco à deriva? Xiiiiii...
Antes do pânico se instalar, a senhora secretária chama pelo nome de Ariobaldo: ' Pode entrar, Sr.'
É. A idade chegara. Um outro doutor havia lhe dito que após os 50 anos a validade expira. Os tais cinquenta e um não estavam ofertando uma boa ideia. Pode entrar senhor.... Esse chamamento de 'senhor' ainda ressoava enquanto se dirigia ao médico.
Jaleco branco, barba da moda. Voz grossa. Um certo tremor nas mãos... Seria doença? Estaria nervoso? Conversam. Não se trata de um papo. É uma anamnese entre o Doutor e aquele Senhor. Vocês bem sabem. A fim de se conhecerem um pouco melhor. É uma DR clínica.
Fim da entrevista. Uma maca lhe é apontada. 'Deite-se assim, assado'- disse-lhe. Kama Sutra? Não. Bem pior. De repente, aquele dedo por entre luvas e técnicas penetra fundo. Porém, é preciso que se diga: o cara é profissional.
Passado o primeiro trauma para os iniciados, ele já estava de volta à mesa de trabalho. Rapidinha.
'É... Uma hemorroida. Externa. A bem dizer'. Ariobaldo ficou intrigado. O que seria, por exemplo, uma hemorroida a mal dizer, doutor L.?
'Hemorroida? Que horror! Tanta pereba para se ter e essa 'óida'  com esse nome, aparência e local detestável. E como dói.Mas doutor? O que seria uma hemorroida a mal dizer? Insiste. Afinal de contas, o rabo é meu. - suplicou-lhe.'
Olhos negros, fixos, a barba da moda entre os dedos que lhe fazia carícias e o seguidor de Hipócrates ressuscita a frase de um personagem famoso de Melville, o Bartleby. Aquele escriturário.
'Melhor não'.