No seu livro mais conhecido, A Rebelião das Massas, escrito na segunda metade dos anos 40, século XX, o espanhol José Ortega y Gasset, dentre outras importantes considerações, cunha - palavra cujo nome próprio em território brasileiro ressoa turbulências- uma pérola de letrinhas em que afirma: 'Conversando com estátuas'.
Conversar com certas estátuas, no caso do intelectual Gasset, era hábito seu quando visitava outros países e por lá não tinha vínculo com outras estátuas de carne e osso. Essa formação primária tão frágil e quase patética. O nosso corpo. Moldado de cabeça, afetos, e cujo tronco e os outros membros são decantações resultantes a sustentar o resto da carcaça.
Não se sabe se por deliberação antisocial ou por distanciamento entre línguas estrangeiras- apesar que informes dão conta de que o escritor era poliglota- , ele quase não mantinha contato com locais. Portanto, estabelecia falações, monólogos sem réplicas com essas celébres esculturas.
Quando visitava Portugal, por exemplo, cumprimentava de Pombal a Pessoa. Na França, Itália ou na imperial Áustria era um orgia de dizeres proferidos aos bonecos, muitos deles, feitos de bronze. Diante da sua erudição comentava-se que bonecos mais exaltados teriam tentado alguma réplica. Até com contundência. Porém, incapacitados pelo peso da fantasia e o tempo a corroer, desistiam. Restava o silêncio e uma biografia bastante consistente a se argumentar.
Diante disso, tenta-se fazer o mesmo , por aqui, antiga Guanabara, nas localidades vizinhas e seus arredores. A mais recente peça bronzeada a se exibir está postada próxima ao oceano e suas arrebentações. Puseram-lhe uma luz particular cuidando assim da sua integridade física de estátua. Ganhou o nome de Tom Jobim. Também já houve relatos de que o teriam confundido com um outro alguém. Ali por perto, talvez um quilômetro e pouco de distância, caminhando-se para o Centro, Carlos Drummond já virou Santos Dumont - o maior pássaro brasileiro- e Dorival Caymmi se tornou o Tio Barnabé das fantasias de Monteiro Lobato e o seu planeta feito de sítio. Pintado de amarelo. Por um bendito pica-pau. Nada que não possa ser esclarecido com o tempo. Resta saber qual?
O aqui e o agora dependem sempre de um mínimo de interlocução para que os personagens em transa conversem. Os que estão fora dessa transação, obviamente, existem também. Não se pode dizer que não estando aqui, não existem lá fora (entenda-se que o fora nada tem a ver com posições transcendentes; outro mundo). Todavia, não estão nessa transa de agora. Talvez por isso a necessidade dessa consideração. Dessa fala - ainda que equivocada- sobre o fato abordado. Alguém será interlocutor para que se possa, inclusive, chamar-se de alguém. Esse narcisimo de alteridades que nos compõem. Além do mais, ninguém fala sozinho. Nem mesmo com estátuas.
Ao se reportar às formas de concreto, José não tinha só uma pedra ou um pedaço de bronze em seu caminho. Tinha uma constelação inteira feita de saberes a lhe invectivar, para o resto da vida. José, além do brilho intelectual, era também muito destemido.
O que foi demasiadamente desagradável, no iniciar desse périplo, é que muitas dessas obras estavam degradas e tiveram suas partes íntimas violadas. Arrancam-lhes os braços, as pernas, o nariz, violam o animal que fora aliado na conquista, naquela batalha e assim adiante. A alma, enfim, se acaso houvesse de fato: início e fim. Duas ilusões da nossa existência. Os óculos do escritor..... Pois é: como se atrevem a roubar os óculos do escritor que não poderá de outra maneira escrever de punho próprio as suas histórias? Nossas histórias. Ainda que se confunda o Pelé com o Edson, não deveríamos pintar com boçalidades borradas a história de quem construiu histórias, tornando-se monumento. No Brasil, de agora e outrora, o que é de domínio público está para ser violado, apropriado ilegalmente. Tornado instrumento público das minhas perversidades mais recônditas. E o malfazejo responderá ao ser indagado/a sobre seus atos: ´Porque sim. Porque assim o quis.'
Ortega y Gasset discorre sobre uma época pós-segunda grande guerra. Guerra essa que para muitos comentadores foi uma extensão da primeira e que ainda não acabou. E não haverá como ter fim. Os inúmeros mortos e feridos compondo uma mescla de ressentimento, mágoa, ódio - para que tanto amor?- entre os sobreviventes e herdeiros dessa incivilidade. O pensante espanhol ainda teve que se haver com aquela guerra civil sanguinária entre toureiros e toureiros e que Picasso a pincelou de Guernica. Ele morre, nosso José, em 1955, e escapou da ditadura do Generalíssimo Franco ( torcedor do Real Madri). O desgraçado do ditador fascínora ( redundância) só morrerá nos anos 70.
Ele também faz críticas duras a certos aspectos democráticos e aponta a falação sem propósito e a degradação da formação do homem como algo bastante preocupante. Imagine se ele estivesse por aqui e agora, nessa contemporaneidade que flerta com ideais medievais. E do pior período da idade média. Pois ela durou uns 4 séculos mais ou menos.
O mundo cresceu muito. Tem gente demais pra todo lado. E a formação humana se deteriora. Quando olho para alguns dos meus tão prezados hábitos, assusto-me. Acho tão medíocre que um cachorro se aproxima e faz saudação. Parece reconhecer um par. Tenta-se estabelecer uma conversa com semelhantes e o susto e o desânimo comparecem nessa resultante de solidão. O momento é pleno de reatividades. O quanto de meu corpo tomado de sintomas mal editados se expressam. Temos opiniões sobre quase tudo sem ter havido a preocupação primeira de se estudar primeiro. E o politicamente correto? Insuportável no falso modernismo movido a malcriações, falta de educação e que confunde rebeldia profícua , feito a de Ortega y Gasset e seus amigos agora estátuas com delirações anarquistas e outras piadas sem graça. O tal modernismo, se houvesse, teria um mundo de analistas, artistas de fato, de poetas com a vida. Eventualmente um verso.
Numa manhã, supomos que era dia e deveras cedo, afinal não se faz outra coisa, Millôr Fernandes lembrava que ateísmo de verdade era para quem gozava de boa saúde. Acrescento que, além da saúde, as finanças também devem estar tranquilas a garantir certos consumos burgueses deliciosos para o meu tesão pulsional. Não é mesmo companheiro comunista a denegar a reserva cambial do capital inconsciente? Ou não há gente? Freud já apontara que Marx era um brilhante economista , mas que não entendia nada de gente. Sonhava com mercados fechadinhos, estados gulosos, obesos mórbidos, opressores, demasiadamente reguladores, perdulários, com suas mais valias do ponto de vista do patrão- ele próprio e seu casamento com moça rica, próspera- guerras de classes ( como se já não tivéssemos tantas batalhas desde sempre, independente do sistema e forma de governos. Ora! Nunca ouvistes falar em família? ) , e outras posições que insistem na afirmação que somos todos iguais. Não somos! Somos bem diferentes e ainda bem. Temos heranças genéticas e a epigenética comparecendo o tempo todo e modificando a expressão de certos genes. A tal ideia de sobredeterminação freudiana e um velho Lamarck revisitado, depois de desmoralizado pelo triunfo Darwinista. Cada um de nós tem nome próprio. E nasceu único. Quando se casa, faz-se dois e não um.
Faz muito tempo, escrevi um texto e que fora apresentado num evento insitucional onde contrapunha o mais valia marxista e o conceito de mais gozar e sua onda de significantes lacaniano. Elogiaram aquilo. Uma saudosa colega, psicanalista e professora de arte e filosofia da PUC/RIO, telefonou-me e brindamos. Não serve mais para nada. Não faz gol nesse século que se está e o que virá. Serviu. Teria servido mais em outra época. E já foi muito. Ideias, teorias, assim como remédios, comida, certos vínculos, produções artísticas e tudo o que ficou de fora dessa pequena lista ( aquela estátua lá do início acaba de nos estirar o dedo) são datadas. Tem a tarja preta a informar: prazo de validade tal. Passou do prazo, vira veneno. Porque não surtirá efeito. Só sugestão, esperança. Logo, ilusão.
Quando se escuta pela primeira ou enésima vez essa expressão 'datada' apavora-se. Nossa obsessividade tão cara, chacoalha forte. Garantia zero em última instância. Toda ciência só pode ser exata sob suspeição e quando encaminhada para depois, pra frente. Lembram do herói estruturalista, Descartes? O que melhor se retira daquela enciclopédia é que somos capazes e devemos sempre .... suspeitar. A dúvida nos compõem também. É o anti-narcisismo dos profetas, dos oráculos, dos que acham que tem a boa solução para o buraco fundo do mundo, das almas mais honestas e cínicas. Portanto, militante do reino das desilusões - com muito humor e pé nas nuvens- não esperemos por popularidade ou multidão a lhe cortejar. Aliás, multidão não faz singularidade. É uma manada de abestalhados chacoalhando. Nunca me viram num estádio de futebol a chacoalhar? Será que posso abrir mão disso, um dia? Certas festas e carnavais já se foram.
Não sei a quantas anda a nossa indestrutível infância, mas por aqui e agora, envelhece-se. Por enquanto, numa boa. O mundo se estreita para qualidades maiores. Papo de estátuas?
quarta-feira, 27 de abril de 2016
sexta-feira, 18 de março de 2016
Desvio de FINALIDADE funcional.
Diante de tanto desatino.Desvio de finalidade? Tesão. Ainda acho que um Moro reelege Luís Inácio. E Francisco , The Pope, elege Trump. Os protestantes , a grande maioria nos EUA, agradecem.
Quando Alan Turing e mais posteriormente Bill Gates, Steve Jobs , produziram artefatos que mudam nossos modos de interagir ou nos destruir , a privacidade passou a viajar para o beleléu. Daria no que deu. Sobretudo, na república das bananas.
Décadas depois, o analista de sistemas, Edward ...Snowden, estadunidense que, andou divulgando assuntos secretos e paga um preço enorme por essa rebeldia adorável e imprudente, alertou as autoridades que tiveram ligações telefônicas bisbilhotadas que deveriam se comunicar por criptografia. Ele fica espantado porque não o fizeram. Ainda bem. E anda mal. Se eu posso desconhecer a lei ou sou inimputável , transito por uma certa legalidade até que me provem o contrário . Acontece que eu não posso não conhecer os dispositivos legais. Não me é dado esse direito.
Quando Alan Turing e mais posteriormente Bill Gates, Steve Jobs , produziram artefatos que mudam nossos modos de interagir ou nos destruir , a privacidade passou a viajar para o beleléu. Daria no que deu. Sobretudo, na república das bananas.
Décadas depois, o analista de sistemas, Edward ...Snowden, estadunidense que, andou divulgando assuntos secretos e paga um preço enorme por essa rebeldia adorável e imprudente, alertou as autoridades que tiveram ligações telefônicas bisbilhotadas que deveriam se comunicar por criptografia. Ele fica espantado porque não o fizeram. Ainda bem. E anda mal. Se eu posso desconhecer a lei ou sou inimputável , transito por uma certa legalidade até que me provem o contrário . Acontece que eu não posso não conhecer os dispositivos legais. Não me é dado esse direito.
A tenista Russa ( país tido como o inimigo do Ocidente no momento), Maria Sharapova, não sabia sobre a mudança de uma substância que, de permitida, passou, em Janeiro último, a ser proibida. Depois de anos de carreira, daquela formosura toda e daquele gemido mais potente do que um ACE e nenhuma irregularidade séria ( a não ser a beleza), na sua trajetória, vai tomar um gancho. A medida foi tomada apenas um mês após a mudança da regra. A complexidade dos assuntos jurídicos- porque a nossa espécie é essa confusão mesmo- levam a uma discussão interminável. Não sou especialista em leis. A única lei que me habita é a que diz que eu desejo o impossível sempre. Chama=se pulsão ou tesão. E ela não se realiza de fato, mas há de direito. Essa pulsão sofre de desvios de FINALIDADE mediante a sua não execução de última instância. Conhecemos um pouco sobre gente. É uma pretensão. Igual a toda gente. Com a palavra , The brazilian version of Snowden:
Ver maisquarta-feira, 16 de março de 2016
Suicídio?Terceiro Mandato? Golpe de mestre?
Suicídio?Terceiro Mandato? Golpe de mestre?
Num 16 de Maio de 1990, O ex Presidente , hoje senador e colecionador de Ferraris e outros quitutes, Fernando Collor , juntamente com a sua ministra histérica do dinheiro público, Zélia Cardoso, confiscavam a grana da gente, dos aposentados., dos vivos. Até mesmo a indelével, inefável, caderneta de poupança foi em parte para o beleléu - que nem um Médici abrutalhado (para dizer o mínimo) - ,ousou fazê-lo. No dia em que desceu a rampa MAIS poderosa do país- sem perder a pose imperial- era o ÚLTIMO dia do prazo para devolução do capital tungado. Muitos não se aperceberam. Para o candidato derrotado em 1989, Lula da Silva, não era golpe , e sim, impedimento legal, constitucional, etc e tal. O mundo fica dando voltas... Em Março de 1964 - eu nem era nascido- Jango desafiava a direita empresarial -agrária-católica- brasileira. Certas viagens, medidas temerárias , mas necessárias, provocações inconsequentes e uma guerra quente- fria não existe- abastecendo a parana estadunidense e soviética que navegava pelo globo. Qual foi o crime de Jango? Imprudência, incompetência, arrogância? Isso derruba? JK teve os direitos políticos tungados, também, por que mesmo?
Assistam ao documentário do filho do ex deputado, Flavio Tavares, e que nasceu no exílio, no caso o México de Frida Kahlo, sobre certas operações dos EUA com relação ao Brasil e a declaração de guerra que JFK fez ao nosso país ao convidar o ex-presidente Jango para conhecer as instalações onde se armazenavam algumas bombas nucleares do país do PLUTO-TRUMP. Ou seria Pateta-Trump? Fora um porta aviões ancorado com seu armamento apontado para uma praia de Santos. A expressão de constrangimento e medo no rosto de Jango é nossa também. A não ser para ...deixa solto. JFK não pode assistir ao término precipitado do ex-presidente brasileiro. 'Suicidou-se' - não é assim que querem fazer crer leeoswaldianamente?- um ano e meio antes.
O que me irrita e entristece profundamente é a constatação do fracasso , da degradação, de uma sociedade civil. De um modo deteriorado e boçal de se fazer política. E sem política não há transa entre poderes, não há civilidade. Anarquia é impossível e nada profícuo. Caso houvesse. O mínimo de arquia necessária para quem só pensa em AVANÇAR o sinal fechado. E o tempo todo.
O famigerado estado brasileiro não permanecia mais de uma década sem impedimentos, renúncias, suicídios ( Bala no Peito Mãe Gentil. Pá Pá Rá Pá Pá!!!) , golpes de estado. Agora, somam-se 24.
Faz menos de 2 anos, que certos personagens foram eleitos ou reeleitos. Presidenta, o ex-aliado que preside a câmara federal ( ao cair na porrada com esse elemento re-inicia seu calvário), o Deputado que toma TARJA PRETA com Cachaça e assina ... Sem saber? E sabem quem os elege? Talvez os milhares de votos ou os milhões- no caso dos mais gulosos- brotaram de uma urna sem dono, certamente emprestada?
Collor reduziu ministérios ( uma medida importante no controle dos gastos públicos e para uma gestão mais eficiente, mas perigosa na transa entre os poderes políticos); tungou o capital e não tinha partido político ou estado federativo forte que o apoiasse. Seu encosto partidário desbotava gradativamente. Ele enfureceu o congresso que é muito sensível a quem não tenta barganhar por reeleição ( Governo do PSDB) ou mensalidades metalúrgicas a garantí-lo . A GENI- apelido posto e assumido pelo PMDB- que o diga. Quando Collor decretou seu semi-plano Marshall, alguém que conheço tanto, acompanhava uma reunião na CNI ( confederação nacional das indústrias) e presenciou um quase-infarto e essa declaração de importante dirigente das indústrias do estado mais poderoso da união: 'Antigamente a gente resolvia na bala. Não importa que TENHA sido um aliado.' Futuro anterior.
O homem do kARATÊ já estava com destino traçado. Era só esperar o momento para o tropeço final. Subestimou a tecnologia que surgia e os dados da Receita Federal lhe apresentaram uma realidade preto no branco. Fora uma ex- cunhada bem gostosa, bonita. Aquelas pernas exibidadas felizes e matreiras. Aquele irmão com jeito de marido enganado...Aquele PC.. Era um 386.Pentium. Era o self de uma época.
Ela se casou -depois que ficou viúva, a bem dizer- com o dono da empresa do meu primeiro aparelho de som: um Gradiente. E em 1988, ano da constituição que muitos tentaram impugnar e que hoje os MANTÉM, um ex-deputado, líder partidário com carisma, liderança, conhecimento do jogo político interno e talento para comunicação com as massas inquestionável, teria dito: " Ladrão quando é pobre , no Brasil, vai para cadeia. É FATO. Quando é rico, vira MINISTRO. " Lembram da Mãe Diná? Dinah? Dirá?
Num 16 de Maio de 1990, O ex Presidente , hoje senador e colecionador de Ferraris e outros quitutes, Fernando Collor , juntamente com a sua ministra histérica do dinheiro público, Zélia Cardoso, confiscavam a grana da gente, dos aposentados., dos vivos. Até mesmo a indelével, inefável, caderneta de poupança foi em parte para o beleléu - que nem um Médici abrutalhado (para dizer o mínimo) - ,ousou fazê-lo. No dia em que desceu a rampa MAIS poderosa do país- sem perder a pose imperial- era o ÚLTIMO dia do prazo para devolução do capital tungado. Muitos não se aperceberam. Para o candidato derrotado em 1989, Lula da Silva, não era golpe , e sim, impedimento legal, constitucional, etc e tal. O mundo fica dando voltas... Em Março de 1964 - eu nem era nascido- Jango desafiava a direita empresarial -agrária-católica- brasileira. Certas viagens, medidas temerárias , mas necessárias, provocações inconsequentes e uma guerra quente- fria não existe- abastecendo a parana estadunidense e soviética que navegava pelo globo. Qual foi o crime de Jango? Imprudência, incompetência, arrogância? Isso derruba? JK teve os direitos políticos tungados, também, por que mesmo?
Assistam ao documentário do filho do ex deputado, Flavio Tavares, e que nasceu no exílio, no caso o México de Frida Kahlo, sobre certas operações dos EUA com relação ao Brasil e a declaração de guerra que JFK fez ao nosso país ao convidar o ex-presidente Jango para conhecer as instalações onde se armazenavam algumas bombas nucleares do país do PLUTO-TRUMP. Ou seria Pateta-Trump? Fora um porta aviões ancorado com seu armamento apontado para uma praia de Santos. A expressão de constrangimento e medo no rosto de Jango é nossa também. A não ser para ...deixa solto. JFK não pode assistir ao término precipitado do ex-presidente brasileiro. 'Suicidou-se' - não é assim que querem fazer crer leeoswaldianamente?- um ano e meio antes.
O que me irrita e entristece profundamente é a constatação do fracasso , da degradação, de uma sociedade civil. De um modo deteriorado e boçal de se fazer política. E sem política não há transa entre poderes, não há civilidade. Anarquia é impossível e nada profícuo. Caso houvesse. O mínimo de arquia necessária para quem só pensa em AVANÇAR o sinal fechado. E o tempo todo.
O famigerado estado brasileiro não permanecia mais de uma década sem impedimentos, renúncias, suicídios ( Bala no Peito Mãe Gentil. Pá Pá Rá Pá Pá!!!) , golpes de estado. Agora, somam-se 24.
Faz menos de 2 anos, que certos personagens foram eleitos ou reeleitos. Presidenta, o ex-aliado que preside a câmara federal ( ao cair na porrada com esse elemento re-inicia seu calvário), o Deputado que toma TARJA PRETA com Cachaça e assina ... Sem saber? E sabem quem os elege? Talvez os milhares de votos ou os milhões- no caso dos mais gulosos- brotaram de uma urna sem dono, certamente emprestada?
Collor reduziu ministérios ( uma medida importante no controle dos gastos públicos e para uma gestão mais eficiente, mas perigosa na transa entre os poderes políticos); tungou o capital e não tinha partido político ou estado federativo forte que o apoiasse. Seu encosto partidário desbotava gradativamente. Ele enfureceu o congresso que é muito sensível a quem não tenta barganhar por reeleição ( Governo do PSDB) ou mensalidades metalúrgicas a garantí-lo . A GENI- apelido posto e assumido pelo PMDB- que o diga. Quando Collor decretou seu semi-plano Marshall, alguém que conheço tanto, acompanhava uma reunião na CNI ( confederação nacional das indústrias) e presenciou um quase-infarto e essa declaração de importante dirigente das indústrias do estado mais poderoso da união: 'Antigamente a gente resolvia na bala. Não importa que TENHA sido um aliado.' Futuro anterior.
O homem do kARATÊ já estava com destino traçado. Era só esperar o momento para o tropeço final. Subestimou a tecnologia que surgia e os dados da Receita Federal lhe apresentaram uma realidade preto no branco. Fora uma ex- cunhada bem gostosa, bonita. Aquelas pernas exibidadas felizes e matreiras. Aquele irmão com jeito de marido enganado...Aquele PC.. Era um 386.Pentium. Era o self de uma época.
Ela se casou -depois que ficou viúva, a bem dizer- com o dono da empresa do meu primeiro aparelho de som: um Gradiente. E em 1988, ano da constituição que muitos tentaram impugnar e que hoje os MANTÉM, um ex-deputado, líder partidário com carisma, liderança, conhecimento do jogo político interno e talento para comunicação com as massas inquestionável, teria dito: " Ladrão quando é pobre , no Brasil, vai para cadeia. É FATO. Quando é rico, vira MINISTRO. " Lembram da Mãe Diná? Dinah? Dirá?
quarta-feira, 2 de março de 2016
Dançar à beira do abismo. Então tá.
Dançar à beira do abismo traz uma certa controvérsia em relação ao autor/a dessa frase. Já disseram que ela foi plantada nos grotões do Nordeste brasileiro, mas também creditam a tal sentença a um observador inglês.
Observadores estrangeiros fazem muito sucesso por aqui. Isso não é novidade, visto que temos aquela característica em aceitar sem maiores quastionamentos qualquer saber advindo de fora, e por tabela destruir alguma produção caseira que ainda não tenha feito sucesso nas terras, mantendo o GPS ligado, do tal comentador inglês.
Pegando a versão que parece ter vindo do longínquo sertão nordestino, a frase que baila em torno de precipícios fora acompanhada da suspensão imediata dos festejos carnavalescos em diversos municípios do Estado do Ceará. As cidades, dezenas delas, estavam com dificuldades financeiras sérias e os mais diversos serviços públicos e pagamentos dos servidores paralisados ou atrasados.
O comentador inglês deve bem saber que do ponto de vista da produção em série, uma seriação, o nosso Brasil estatal desenvolve, faz muitos anos, um binarismo em que se escreve populismo-corrupção. Não são sinônimos ou simétricos. É uma resultante e que se põe em prática enquanto forma e sistema de gestão governamental. Independente de ideologia ou inscrição partidária. Uma espécie de metástase cancerosa crônica. Existirão aqueles que vão chamar essa nosologia descrita como um neologismo , mas o fato existe. É óbvio. E não só no nível da fala ou escrita.
Estaríamos suicidas? O quanto de loucura - não que o ato de querer por ponto final na sua vida seja ato tresloucado necessariamente- está governando os nossos vínculos, nossas atitudes, nossos poderes?
O fato de não haver a experiência de morte coloca essa espécie - e aqui nesse caso, uma gente brasileira- com enorme tesão para provocar a sua destruição? Desafiando perigos que podem se tornar irreversíveis? Temerários? Infantis? Mito? E não seria mito tão pouco supor que amanhã haverá pelo simples fato de que se deseja que haja?
Alguns intelectuais discutindo o futuro político existencial do Brasil se perguntavam qual seria o messias- o ser transcendental - a emergir enquanto uma 'salvação' ( as aspas são do texto) para questões tão importantes. Messias tem que ter essa pegada transcendente, caso contrário, toma posse como santo do pau oco. A conversa entre os ditos pensantes não foi presenciada por quem tecla essas letrinhas, mas relatada. Parece que falavam seriedades. Mas é um tanto estranho que um grupo de pensantes possa evocar justamente aquilo que creio ser um dos maiores problemas que norteiam as mentes quase todas e que diz respeito a certas crenças e as suas vicissitudes. Então porque não elegemos, em novo plebiscito, um Rei? Aquele primeiro plebiscito no início dos anos 90 foi de araque. Precipitação de um Ulisses - nosso senhor democracia e os seus olhos da cor do oceano que lhe serviu de túmulo- que parecia antever o próprio fim.
São muitos os reis que dividem o imaginário poderoso do nosso povo. Rei do bacalhau, da canção, rainha dos baixinhos, rei do futebol, da putaria, da cara dura. E assim vivemos uma semi-monarquia popular de fato, mas não de direito. Portanto, somos uma galera que aprecia os fatos...mas não tanto. Se nos é conveniente ou ao menos o for para a nossa patota envolvida tanto melhor. Caso contrário, guilhotina neles.
Nessa mesma época, após rodopios dançantes e confiscos de capital diante do buraco fundo Collorido, um conhecido e respeitado sociólogo teve o nome flagrado na lista de doações de um poderoso contraventor do indelével jogo dos bichos carioca ( assim mesmo no plural. A lista de bicharada é extensa) . A patota aliada disse que tratava-se de um erro político. Porém, tinham dito anteriormente - pouco antes da divulgação da lista completa dos beneficiados e ao saber que um adversário político estava na lista- que esse adversário era um anti-ético e calhorda. Pertencia a uma coligação política tida como reacionária, ultrapassada. E olha que esse 'reaça' havia recebido bem menos da bufunfa. Logo, concluímos que o erro político foi ter sido descoberto enquanto mais um contemplado. E a ideia de ética fica também comprometida e ao sabor do tamanho da sacanagem praticada e dos interesses e seus poderes para decidir. Onde? Localmente ou Global? Todos os humanos nascem iguais e por isso... "Sorry", mas não nascem e não são iguais. Brad Pitt- Bradley para poucos- tem a constituição fenotípica que tem e eu não. A genética e a epigenética foram mais generosas com o estadunidense de Oklahoma. Fora todas as outras formações que podem nos ferrar a vida. Imaginem a criança nascida em ambiente hostil das comunidades miseráveis do Brasil ou as novas crianças afegãs, sírias ou as sobrinhas de Donald Trump? Qual seria a canção de ninar possível? Um Brahms' Lullabye com arranjos explosivos, 'wagnerianos', amputações, sangue no teclado, canalhice racista republicana? Para não se esquecer, não há recordação se o dinheiro-contravenção foi devolvido. A causa era nobre.
À beira do abismo só cabe quem se atreve. E de atrevimento em atrevimento rodopia a canção dessa pátria amada mãe deveras gentil.
Observadores estrangeiros fazem muito sucesso por aqui. Isso não é novidade, visto que temos aquela característica em aceitar sem maiores quastionamentos qualquer saber advindo de fora, e por tabela destruir alguma produção caseira que ainda não tenha feito sucesso nas terras, mantendo o GPS ligado, do tal comentador inglês.
Pegando a versão que parece ter vindo do longínquo sertão nordestino, a frase que baila em torno de precipícios fora acompanhada da suspensão imediata dos festejos carnavalescos em diversos municípios do Estado do Ceará. As cidades, dezenas delas, estavam com dificuldades financeiras sérias e os mais diversos serviços públicos e pagamentos dos servidores paralisados ou atrasados.
O comentador inglês deve bem saber que do ponto de vista da produção em série, uma seriação, o nosso Brasil estatal desenvolve, faz muitos anos, um binarismo em que se escreve populismo-corrupção. Não são sinônimos ou simétricos. É uma resultante e que se põe em prática enquanto forma e sistema de gestão governamental. Independente de ideologia ou inscrição partidária. Uma espécie de metástase cancerosa crônica. Existirão aqueles que vão chamar essa nosologia descrita como um neologismo , mas o fato existe. É óbvio. E não só no nível da fala ou escrita.
Estaríamos suicidas? O quanto de loucura - não que o ato de querer por ponto final na sua vida seja ato tresloucado necessariamente- está governando os nossos vínculos, nossas atitudes, nossos poderes?
O fato de não haver a experiência de morte coloca essa espécie - e aqui nesse caso, uma gente brasileira- com enorme tesão para provocar a sua destruição? Desafiando perigos que podem se tornar irreversíveis? Temerários? Infantis? Mito? E não seria mito tão pouco supor que amanhã haverá pelo simples fato de que se deseja que haja?
Alguns intelectuais discutindo o futuro político existencial do Brasil se perguntavam qual seria o messias- o ser transcendental - a emergir enquanto uma 'salvação' ( as aspas são do texto) para questões tão importantes. Messias tem que ter essa pegada transcendente, caso contrário, toma posse como santo do pau oco. A conversa entre os ditos pensantes não foi presenciada por quem tecla essas letrinhas, mas relatada. Parece que falavam seriedades. Mas é um tanto estranho que um grupo de pensantes possa evocar justamente aquilo que creio ser um dos maiores problemas que norteiam as mentes quase todas e que diz respeito a certas crenças e as suas vicissitudes. Então porque não elegemos, em novo plebiscito, um Rei? Aquele primeiro plebiscito no início dos anos 90 foi de araque. Precipitação de um Ulisses - nosso senhor democracia e os seus olhos da cor do oceano que lhe serviu de túmulo- que parecia antever o próprio fim.
São muitos os reis que dividem o imaginário poderoso do nosso povo. Rei do bacalhau, da canção, rainha dos baixinhos, rei do futebol, da putaria, da cara dura. E assim vivemos uma semi-monarquia popular de fato, mas não de direito. Portanto, somos uma galera que aprecia os fatos...mas não tanto. Se nos é conveniente ou ao menos o for para a nossa patota envolvida tanto melhor. Caso contrário, guilhotina neles.
Nessa mesma época, após rodopios dançantes e confiscos de capital diante do buraco fundo Collorido, um conhecido e respeitado sociólogo teve o nome flagrado na lista de doações de um poderoso contraventor do indelével jogo dos bichos carioca ( assim mesmo no plural. A lista de bicharada é extensa) . A patota aliada disse que tratava-se de um erro político. Porém, tinham dito anteriormente - pouco antes da divulgação da lista completa dos beneficiados e ao saber que um adversário político estava na lista- que esse adversário era um anti-ético e calhorda. Pertencia a uma coligação política tida como reacionária, ultrapassada. E olha que esse 'reaça' havia recebido bem menos da bufunfa. Logo, concluímos que o erro político foi ter sido descoberto enquanto mais um contemplado. E a ideia de ética fica também comprometida e ao sabor do tamanho da sacanagem praticada e dos interesses e seus poderes para decidir. Onde? Localmente ou Global? Todos os humanos nascem iguais e por isso... "Sorry", mas não nascem e não são iguais. Brad Pitt- Bradley para poucos- tem a constituição fenotípica que tem e eu não. A genética e a epigenética foram mais generosas com o estadunidense de Oklahoma. Fora todas as outras formações que podem nos ferrar a vida. Imaginem a criança nascida em ambiente hostil das comunidades miseráveis do Brasil ou as novas crianças afegãs, sírias ou as sobrinhas de Donald Trump? Qual seria a canção de ninar possível? Um Brahms' Lullabye com arranjos explosivos, 'wagnerianos', amputações, sangue no teclado, canalhice racista republicana? Para não se esquecer, não há recordação se o dinheiro-contravenção foi devolvido. A causa era nobre.
À beira do abismo só cabe quem se atreve. E de atrevimento em atrevimento rodopia a canção dessa pátria amada mãe deveras gentil.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
ATÉ BREVE , PAUL. IMPRESSÕES DO IMPRESSIONISTA.
Émile Zola tomou uma frase emprestada de seu amigo de juventude, Paul Cézanne. Colocou essa sentença num dos seus mais famosos romances, 'A OBRA', e sentou a paulada no chamado movimento impressionista nas artes plásticas.
Sanguessuga foi o quadro que nem Cézanne, nem Renoir , Monet ou Degas - amigos e alguns dos principais inventores desse estilo- jamais pintaram. Teria sido a oportunidade para oferecê-la em desagravo à tentativa de destruição. Quem sabe o escritor não havia intuído que aquilo poderia se tornar algo mais importante do que a sua 'Obra'?
Émile já estava consagrado e desprezava os seus outros amigos ou intelectuais que ainda não tivessem obtido sucesso. Leia-se: faturado uma grana, obtido prestígio junto à realeza e outras formas de poder. Ingrato. Edouard Manet - um outro egrégio da turma- pintou-lhe e aquilo roda o mundo.
A provocação, entretanto, suscitou naqueles que foram muito esculhambados pelo escrito de Zola uma reação profícua. Ao invés da desistência, prosseguiram e mudaram as coisas nesse modo de ver. Paul Cézanne sobretudo.
Naquela famosa frase em que se diz que quem não veio ao mundo para incomodar seria melhor que não tivesse vindo, o pincel varreu a região da Provence centenas de vezes. Quando Ambroise Vollard -que se tornou marchand de Paul e de outros - decidiu procurar aquela versão século XIX de anacoreta , sabia que ali estava um olhar transformador. Portanto, um certo mal estar de rebeldias não faz malcriação. Ele incomoda porque se rebela. Mas se rebela com estilo próprio, sutilezas, riquezas, criatividade e até - nos casos mais relevantes- criação de uma estilística nova. Fadiga em relação à mesmice. Picasso ficou abismado com uma pequena escultura de um busto de escravo africano , nas mãos de um Matisse rival. Ali, teve início o seu cubismo transformador. Mesmo que não tenha sido a sua fase mais admirada. Para mim, por exemplo.
Somos uma espécie viciada. Adoramos hábitos que triunfaram. Fazer cocô, xixi. Beber água senão o rim apodrece. Ingerir carboidratos, glicose e proteínas para o boneco não perecer. Do ponto de vista de outras articulações, gostamos de manter certa rotina burocrática, cultural. A cor tal para menininhas e a outra para os menininhos. Imagine se isso cabe na mente de um desses caras citados anteriormente? Esse baile de cores disponíveis ou um ponto de luz na escuridão ( diria um Goethe diante do chamado vermelho) limitado à cegueira voluntária de um aspecto cultural esclerosado.
Aquilo já caducou, mas mantemos. Medo do desconhecido? Conversa fiada. Impossível temer o que não se conhece. Uma ex-mulher, por exemplo, não teme o que não conheceu, durante anos, ( Isso é século passado, pois hoje os casamentos duram até a troca dos presentes nas melhores lojas do ramo, após a festinha) no ex-marido. Sabe muito bem do que se trata. Ao menos deveria, caso contrário, surgirá o personagem todo engravatado e com aquele terno cinematográfico, carregando seu judicialismo pincelado de juízos valorados pela convenção cultural que a estabeleceu. Ou seja: borrou a tela. E o personagem mediando as transas, as negociações, os conflitos, aos quais nos recusamos pegá-los pelas rédeas pertinentes a cada situação e com mãos próprias. O genérico é inimigo das singularidades, das idiossincrasias. Genérico é neo-etologia. " Bom dia, Dr. Cachorro? Como vai a Senhora sua mãe, a Dona Cachorra?"
O excesso de judicialismo que nos submetemos é a comprovação da doença mental que assola a contemporaneidade. O mínimo de verdades que não se suporta- diria uma mente nietzschiana que sempre insiste em retornar porque não há outra saída-.
Onde? Como? O quê? Esse EU que, é tanta coisa e nada além, mente? Aqui e agora? Ficção? Realismo?
Ficamos à beira da estrada coberta por um vendaval de nome Mistral. Vem dos Alpes Suíços. Pontual, furioso e pode dar pinceladas por até 12 dias e atingir os 120 km/h.Temperatura descendo à menos 15 graus centígrados. As lavandas fugiram, esconderam-se dos nossos cavaletes à postos. " Não, senhor. Escafederam-se foi desse vento infernal'- disse aquela senhora que caminhava solitária pela encosta pintada de terracota, em Gordes, Provence. E ela gritou alto na nossa direção, enquanto agarrava sua sacola com as mãos: ' 'Il ya a pas de touristique ici, pendant l'hiver, monsieur' ( Não há turista por aqui no inverno, senhor!). Pobre senhora com calafrios! Ela ignorava que aventureiros-brasileiros-farofeiros formam uma tríade quase inacreditável. Surrealismo?
O hospício que foi habitado por Van Gogh , por último, em Les Baux, foi visitado. Mas Aix en Provence - um algoritmo que movimenta impressões- e pátria de Cézanne, escapou do olhar. Fica para uma outra, Paul. À bientôt.
Sanguessuga foi o quadro que nem Cézanne, nem Renoir , Monet ou Degas - amigos e alguns dos principais inventores desse estilo- jamais pintaram. Teria sido a oportunidade para oferecê-la em desagravo à tentativa de destruição. Quem sabe o escritor não havia intuído que aquilo poderia se tornar algo mais importante do que a sua 'Obra'?
Émile já estava consagrado e desprezava os seus outros amigos ou intelectuais que ainda não tivessem obtido sucesso. Leia-se: faturado uma grana, obtido prestígio junto à realeza e outras formas de poder. Ingrato. Edouard Manet - um outro egrégio da turma- pintou-lhe e aquilo roda o mundo.
A provocação, entretanto, suscitou naqueles que foram muito esculhambados pelo escrito de Zola uma reação profícua. Ao invés da desistência, prosseguiram e mudaram as coisas nesse modo de ver. Paul Cézanne sobretudo.
Naquela famosa frase em que se diz que quem não veio ao mundo para incomodar seria melhor que não tivesse vindo, o pincel varreu a região da Provence centenas de vezes. Quando Ambroise Vollard -que se tornou marchand de Paul e de outros - decidiu procurar aquela versão século XIX de anacoreta , sabia que ali estava um olhar transformador. Portanto, um certo mal estar de rebeldias não faz malcriação. Ele incomoda porque se rebela. Mas se rebela com estilo próprio, sutilezas, riquezas, criatividade e até - nos casos mais relevantes- criação de uma estilística nova. Fadiga em relação à mesmice. Picasso ficou abismado com uma pequena escultura de um busto de escravo africano , nas mãos de um Matisse rival. Ali, teve início o seu cubismo transformador. Mesmo que não tenha sido a sua fase mais admirada. Para mim, por exemplo.
Somos uma espécie viciada. Adoramos hábitos que triunfaram. Fazer cocô, xixi. Beber água senão o rim apodrece. Ingerir carboidratos, glicose e proteínas para o boneco não perecer. Do ponto de vista de outras articulações, gostamos de manter certa rotina burocrática, cultural. A cor tal para menininhas e a outra para os menininhos. Imagine se isso cabe na mente de um desses caras citados anteriormente? Esse baile de cores disponíveis ou um ponto de luz na escuridão ( diria um Goethe diante do chamado vermelho) limitado à cegueira voluntária de um aspecto cultural esclerosado.
Aquilo já caducou, mas mantemos. Medo do desconhecido? Conversa fiada. Impossível temer o que não se conhece. Uma ex-mulher, por exemplo, não teme o que não conheceu, durante anos, ( Isso é século passado, pois hoje os casamentos duram até a troca dos presentes nas melhores lojas do ramo, após a festinha) no ex-marido. Sabe muito bem do que se trata. Ao menos deveria, caso contrário, surgirá o personagem todo engravatado e com aquele terno cinematográfico, carregando seu judicialismo pincelado de juízos valorados pela convenção cultural que a estabeleceu. Ou seja: borrou a tela. E o personagem mediando as transas, as negociações, os conflitos, aos quais nos recusamos pegá-los pelas rédeas pertinentes a cada situação e com mãos próprias. O genérico é inimigo das singularidades, das idiossincrasias. Genérico é neo-etologia. " Bom dia, Dr. Cachorro? Como vai a Senhora sua mãe, a Dona Cachorra?"
O excesso de judicialismo que nos submetemos é a comprovação da doença mental que assola a contemporaneidade. O mínimo de verdades que não se suporta- diria uma mente nietzschiana que sempre insiste em retornar porque não há outra saída-.
Onde? Como? O quê? Esse EU que, é tanta coisa e nada além, mente? Aqui e agora? Ficção? Realismo?
Ficamos à beira da estrada coberta por um vendaval de nome Mistral. Vem dos Alpes Suíços. Pontual, furioso e pode dar pinceladas por até 12 dias e atingir os 120 km/h.Temperatura descendo à menos 15 graus centígrados. As lavandas fugiram, esconderam-se dos nossos cavaletes à postos. " Não, senhor. Escafederam-se foi desse vento infernal'- disse aquela senhora que caminhava solitária pela encosta pintada de terracota, em Gordes, Provence. E ela gritou alto na nossa direção, enquanto agarrava sua sacola com as mãos: ' 'Il ya a pas de touristique ici, pendant l'hiver, monsieur' ( Não há turista por aqui no inverno, senhor!). Pobre senhora com calafrios! Ela ignorava que aventureiros-brasileiros-farofeiros formam uma tríade quase inacreditável. Surrealismo?
O hospício que foi habitado por Van Gogh , por último, em Les Baux, foi visitado. Mas Aix en Provence - um algoritmo que movimenta impressões- e pátria de Cézanne, escapou do olhar. Fica para uma outra, Paul. À bientôt.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Assis e um Brasil; José. Um terceiro moldado de barro.
Assis Brasil foi diplomata e pensador político brasileiro. Nascido no sul, foi ministro do conterrâneo, Getúlio Vargas. Perdeu a única filha, atingida por um raio. Quatro anos depois, morreria de tristeza. Utilizando um termo bem apropriado para época, o político nascido no século XIX, 'morreu de desgosto'.
O Brasil recebe a descarga de 50 milhões de raios por ano. Somos recordistas na arte de eletrocutar pessoas ou rebanhos e também provocar inúmeros danos materiais. Nos últimos 20 anos, morreram mais brasileiros vitimados por essa demasiada excitação no interior das nuvens do que as que morreram por causa dos deslizamentos de terra ou enxurradas.
Assis Brasil escrevia bem. Tinha um texto apurado. Pensava a política enquanto ferramenta para mediações diplomáticas na destribuição dos poderes. Sem nunca se esquecer das benesses sociais. Para ele, o Estado deve servir a sociedade e não o contrário. Infelizmente, o que se observa é a prática patrimonialista e patriarcalista viciadas.
O homem que carregava o país em nome próprio pode ao menos se despedir, sepultar, reconhecer de fato e direito a dolorosa perda da filha.
No caso das enxurradas no Estado do Rio, em Janeiro de 2011, mais de duzentas criaturas e os seus próximos não puderam fazer o mesmo. Sumiram. Levadas pela água, pelo barro, pela lama, desapareceram. Não é tão simples. Existiram e sumiram de fato e direito. De direito, contudo, ainda permanecem.
Essa prática mórbida data de períodos arbitrários onde o próprio Estado exercia papel de fuzilaria e massacre das oposições, de certas diferenças. Independente de ideologias. Se corrermos com a história no mundo, encontraremos essas praticagem em ambas as extremidades. Tanto à direita quanto à esquerda.
Um outro personagem, Armando Nogueira, jornalista esportivo, botafoguense, e que sabia escrever tão bem numa época em que o futebol podia inspirar belos textos, nasceu no Acre e se mudou para o Rio. Aqui despontou. Venceu a vida. Notabilizou-se. O que é bem mais relevante do que a vulgaridade da fama.
Numa manhã- mas poderia também ser à noite- avisaram-no que ele fora declarado morto, lá na sua longínqua terra. Decidiu averiguar. Avião tomado, rumou, Vivinho de Nogueira, para se declarar como tal. Parece que não conseguiu. Diante do funcionário estatal- burocrático reificado feito estátua- apresentou-se. Mostrou documentos com foto colorida e até em preto e branco ( homenagem ao clube esportivo de sua adoração). Carregou uma testemunha. Nada. O cidadão insistia em lhe dizer: ' O senhor está morto'. Causa mortis: acidente aéreo. Armando imitava passarinhos. Era também aviador.
Por mais que pareça espantoso, a fidelidade ao enunciado primeiro, ou seja, o documento inicial que por alguma tentativa de linchamento ( sabemos que a inveja é uma merda, mas o ressentimento pode ser merda maior) poderia decidir sobre a morte de um insistente ser vivo, era extraordinariamente delirante. Vejamos que práticas fundamentalistas são bem mais antigas e com diversas nuances, credos e ofícios.
José da Silva Matarazzo Gates de Alcântara III era um homem. Logo, pode ser mais um personagem. Diante desse fato, ao menos. nenhum outro escrivão causou maiores estragos. Esse outro nasceu num bom lugar, numa hora errada. Surgiu na região das montanhas do Estado Fluminense que só sabe celebrar o Oceano. E por isso se tornara um terceiro qualquer. Na linhagem de alguns Pedros, da cidade vizinha. Seu pai não o queria. Sua mamãe, Teresa, o adorava. Contrariado, o pai fugiu com a melhor das piores amigas da mãe de José III. Abandonou aquela senhorita e outras cinco crianças na sua cidade, uma Teresa-Pólis. Reproduzem assim mesmo: aos montes. Até mesmo um Papa confessou para milhões que pareciam coelhinhos...de Páscoa.
Crescido, Matarazzo José Gates caiu do mundo. Destemido, dispensou mediações para poder caminhar com pernas tão suas. Foi criticado. Chamaram-no de arrogante. Como ousa dispensar mediações numa terra que só se dedica a essa prática? Na política profissional recebe o nome de pistolão. Mandou às favas aquele ritual dominical e também os festejos que encerram mais uma voltinha do planeta na cinturinha de uma estrela que cospe fogo e da sua própria. Transações. Não quis filhos. Pensou que poderia amaldiçoá-los com a sua singular maldição. Além do que, adorava as mulheres e seu corpo original de fábrica. Decidiu ser ninguém. E a lama odienta varrendo, limpando....E aquela chuvarada? Pegou-lhe de frente, de lado, rabo de arraia. Um cachorro foi visto se afogando. Sua dona escapou, pois coleira estava frouxa. Houve gente que torceu mais pelo cachorro do que pela mulher. Eram mulheres, na maioria.
Parece então que esse Silva enrustido virou, sobretudo ou finalmente, ninguém. Esculpido e eternizado pelo barro. Escombros. Será que Caminhas de mãos dadas, seresta a cantarolar supostas arrogâncias, agora, de Marianas?
O Brasil recebe a descarga de 50 milhões de raios por ano. Somos recordistas na arte de eletrocutar pessoas ou rebanhos e também provocar inúmeros danos materiais. Nos últimos 20 anos, morreram mais brasileiros vitimados por essa demasiada excitação no interior das nuvens do que as que morreram por causa dos deslizamentos de terra ou enxurradas.
Assis Brasil escrevia bem. Tinha um texto apurado. Pensava a política enquanto ferramenta para mediações diplomáticas na destribuição dos poderes. Sem nunca se esquecer das benesses sociais. Para ele, o Estado deve servir a sociedade e não o contrário. Infelizmente, o que se observa é a prática patrimonialista e patriarcalista viciadas.
O homem que carregava o país em nome próprio pode ao menos se despedir, sepultar, reconhecer de fato e direito a dolorosa perda da filha.
No caso das enxurradas no Estado do Rio, em Janeiro de 2011, mais de duzentas criaturas e os seus próximos não puderam fazer o mesmo. Sumiram. Levadas pela água, pelo barro, pela lama, desapareceram. Não é tão simples. Existiram e sumiram de fato e direito. De direito, contudo, ainda permanecem.
Essa prática mórbida data de períodos arbitrários onde o próprio Estado exercia papel de fuzilaria e massacre das oposições, de certas diferenças. Independente de ideologias. Se corrermos com a história no mundo, encontraremos essas praticagem em ambas as extremidades. Tanto à direita quanto à esquerda.
Um outro personagem, Armando Nogueira, jornalista esportivo, botafoguense, e que sabia escrever tão bem numa época em que o futebol podia inspirar belos textos, nasceu no Acre e se mudou para o Rio. Aqui despontou. Venceu a vida. Notabilizou-se. O que é bem mais relevante do que a vulgaridade da fama.
Numa manhã- mas poderia também ser à noite- avisaram-no que ele fora declarado morto, lá na sua longínqua terra. Decidiu averiguar. Avião tomado, rumou, Vivinho de Nogueira, para se declarar como tal. Parece que não conseguiu. Diante do funcionário estatal- burocrático reificado feito estátua- apresentou-se. Mostrou documentos com foto colorida e até em preto e branco ( homenagem ao clube esportivo de sua adoração). Carregou uma testemunha. Nada. O cidadão insistia em lhe dizer: ' O senhor está morto'. Causa mortis: acidente aéreo. Armando imitava passarinhos. Era também aviador.
Por mais que pareça espantoso, a fidelidade ao enunciado primeiro, ou seja, o documento inicial que por alguma tentativa de linchamento ( sabemos que a inveja é uma merda, mas o ressentimento pode ser merda maior) poderia decidir sobre a morte de um insistente ser vivo, era extraordinariamente delirante. Vejamos que práticas fundamentalistas são bem mais antigas e com diversas nuances, credos e ofícios.
José da Silva Matarazzo Gates de Alcântara III era um homem. Logo, pode ser mais um personagem. Diante desse fato, ao menos. nenhum outro escrivão causou maiores estragos. Esse outro nasceu num bom lugar, numa hora errada. Surgiu na região das montanhas do Estado Fluminense que só sabe celebrar o Oceano. E por isso se tornara um terceiro qualquer. Na linhagem de alguns Pedros, da cidade vizinha. Seu pai não o queria. Sua mamãe, Teresa, o adorava. Contrariado, o pai fugiu com a melhor das piores amigas da mãe de José III. Abandonou aquela senhorita e outras cinco crianças na sua cidade, uma Teresa-Pólis. Reproduzem assim mesmo: aos montes. Até mesmo um Papa confessou para milhões que pareciam coelhinhos...de Páscoa.
Crescido, Matarazzo José Gates caiu do mundo. Destemido, dispensou mediações para poder caminhar com pernas tão suas. Foi criticado. Chamaram-no de arrogante. Como ousa dispensar mediações numa terra que só se dedica a essa prática? Na política profissional recebe o nome de pistolão. Mandou às favas aquele ritual dominical e também os festejos que encerram mais uma voltinha do planeta na cinturinha de uma estrela que cospe fogo e da sua própria. Transações. Não quis filhos. Pensou que poderia amaldiçoá-los com a sua singular maldição. Além do que, adorava as mulheres e seu corpo original de fábrica. Decidiu ser ninguém. E a lama odienta varrendo, limpando....E aquela chuvarada? Pegou-lhe de frente, de lado, rabo de arraia. Um cachorro foi visto se afogando. Sua dona escapou, pois coleira estava frouxa. Houve gente que torceu mais pelo cachorro do que pela mulher. Eram mulheres, na maioria.
Parece então que esse Silva enrustido virou, sobretudo ou finalmente, ninguém. Esculpido e eternizado pelo barro. Escombros. Será que Caminhas de mãos dadas, seresta a cantarolar supostas arrogâncias, agora, de Marianas?
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Arteiros/Artistas
'Passei alguns anos tentando pintar como Rafael, mas a vida toda tentando pintar como uma criança'. ( Pablo Picasso)
Influenciado pelo pós-impressionista, Cézanne; pela obra do grande amigo, Braque; pelo infantilismo de um então pintor desconhecido, Henry Rousseau; e finalmente pela rivalidade profícua que alimentava com Matisse, surgiu Picasso e suas mil e uma possibilidades. Através do amódio por Matisse, ele inicia sua trajetória em direção ao cubismo.
Matisse lhe escondia o que fazia. Numa tarde parisiense - terra escolhida pelo espanhol furioso- na casa da amiga de ambos, Gertrude Stein, o francês lhe esconde por entre suas próprias mãos, a pequena escultura de um busto que retratava as feições de um homem africano. Picasso quase que lhe arranca das mãos a pequena peça, pois Matisse se recusava a lhe mostrar, e começa a contemplá-la. Epifania? Essa peça lhe muda o rumo. De uma quase certeza, inerte segundo ele, passa a se guiar por sensações, descobertas, incertezas e inconformismos.
Inconformado com as formas tão previsíveis, simétricas, passa a decompô-las, fragmentá-las. Ao invés do bidimensional tão reconfortante, inclui diversas outras formas, infinitas possibilidades, mais dimensões. Atravessou praticamente todos os períodos da chamada artes plásticas. Não foi à toa que cutucou o brio de colegas como Modigliani, o próprio Matisse, e um Marcel Duchamp que lhe botou na frente e por trás um penico. As articulações que daquele penico emergissem - nossas considerações, certos olhares- comprovariam que era de obra de arte se tratava. Essa conversa vai longe...Há mais ou menos 5 anos, escapando da festa pagã movida por bebuns e colombinas e seus grossos gogós, estivemos em São Paulo para uma suposta exposição num novo centro cultural, antiga sede do Detran da capital do estado. Saíram os automóveis e suas multas e entraram pinturas e esculturas. Infelizmente, não avisaram aos mantenedores e patrocinadores do local que as obras expostas eram bem mais importantes do que uma presença opressiva de uma centena de seguranças para quase nenhuma testemunha. Muitas obras não estavam disponíveis para serem vistas pelo público. Uma produção burocrática confundiu as cores, texturas. Mas havia ao menos uma que se destacava: uma escultura enorme, toda de bronze, enorme, e que repousava na entrada prinicipal. Marília Martins se fazia presente. Sempre mandou às favas qualquer tentativa de institucionalizar qualquer protocolo que não combinasse com tal ato opressivo. Logo, ela, Marília. Embaixatriz brasileira e também ex- amante de Marcel Duchamp.
Quando se está numa exposição é preciso que se tenha alguma informação mínima sobre a trajetória daquele ou daquela artista. Caso contrário, simplesmente, não se conseguirá entender nada e algo como ' eu faria melhor' ou 'esse fulano é muito doido' continuarão a ressoar nas exibições mundo afora.
Um Eduardo Sued, nosso conterrâneo e que entra para o time dos nonagenários, por exemplo, tem um processo de abstração figurativa, geométrica, e minimalismos na sua obra e que são de uma sofisticação impressionantes. Numa das últimas mostras suas, no CCBB-Rio, todas aquelas telas enormes, vermelhas e retangulares em sua maioria, eram únicas e traziam um vermelho de cada. Para quem pode ver melhor, existiam outras cores presentes. Talvez várias delas.
Cézanne ou seu conterrâneo, René Magritte, são exemplos de pinturas que -segundo seus estudiosos- você só poderá contemplá-los com um olhar atravessado, melhor dizendo; aquele olhar que atravesse o quadro. Mesmo as inúmeras telas que o mestre de Aix-en-Provence fez de uma mesma série de montanhas e planícies da sua terra provençal possuem singularidades. Não se trata- equívoco tão comum- de perfeccionismo, e sim, que eles descobrem mais e mais formações a cada nova perspectiva. A cada nova pincelada.
Toda neura começa na infância. Isso é mais do que sabido. Porém, parece possível mesclar todas as cores em suas diferentes gerações. Deslocar, portanto, sintomas que borram nossa arte. Seria também isso poder, finalmente, pintar feito criança?
Influenciado pelo pós-impressionista, Cézanne; pela obra do grande amigo, Braque; pelo infantilismo de um então pintor desconhecido, Henry Rousseau; e finalmente pela rivalidade profícua que alimentava com Matisse, surgiu Picasso e suas mil e uma possibilidades. Através do amódio por Matisse, ele inicia sua trajetória em direção ao cubismo.
Matisse lhe escondia o que fazia. Numa tarde parisiense - terra escolhida pelo espanhol furioso- na casa da amiga de ambos, Gertrude Stein, o francês lhe esconde por entre suas próprias mãos, a pequena escultura de um busto que retratava as feições de um homem africano. Picasso quase que lhe arranca das mãos a pequena peça, pois Matisse se recusava a lhe mostrar, e começa a contemplá-la. Epifania? Essa peça lhe muda o rumo. De uma quase certeza, inerte segundo ele, passa a se guiar por sensações, descobertas, incertezas e inconformismos.
Inconformado com as formas tão previsíveis, simétricas, passa a decompô-las, fragmentá-las. Ao invés do bidimensional tão reconfortante, inclui diversas outras formas, infinitas possibilidades, mais dimensões. Atravessou praticamente todos os períodos da chamada artes plásticas. Não foi à toa que cutucou o brio de colegas como Modigliani, o próprio Matisse, e um Marcel Duchamp que lhe botou na frente e por trás um penico. As articulações que daquele penico emergissem - nossas considerações, certos olhares- comprovariam que era de obra de arte se tratava. Essa conversa vai longe...Há mais ou menos 5 anos, escapando da festa pagã movida por bebuns e colombinas e seus grossos gogós, estivemos em São Paulo para uma suposta exposição num novo centro cultural, antiga sede do Detran da capital do estado. Saíram os automóveis e suas multas e entraram pinturas e esculturas. Infelizmente, não avisaram aos mantenedores e patrocinadores do local que as obras expostas eram bem mais importantes do que uma presença opressiva de uma centena de seguranças para quase nenhuma testemunha. Muitas obras não estavam disponíveis para serem vistas pelo público. Uma produção burocrática confundiu as cores, texturas. Mas havia ao menos uma que se destacava: uma escultura enorme, toda de bronze, enorme, e que repousava na entrada prinicipal. Marília Martins se fazia presente. Sempre mandou às favas qualquer tentativa de institucionalizar qualquer protocolo que não combinasse com tal ato opressivo. Logo, ela, Marília. Embaixatriz brasileira e também ex- amante de Marcel Duchamp.
Quando se está numa exposição é preciso que se tenha alguma informação mínima sobre a trajetória daquele ou daquela artista. Caso contrário, simplesmente, não se conseguirá entender nada e algo como ' eu faria melhor' ou 'esse fulano é muito doido' continuarão a ressoar nas exibições mundo afora.
Um Eduardo Sued, nosso conterrâneo e que entra para o time dos nonagenários, por exemplo, tem um processo de abstração figurativa, geométrica, e minimalismos na sua obra e que são de uma sofisticação impressionantes. Numa das últimas mostras suas, no CCBB-Rio, todas aquelas telas enormes, vermelhas e retangulares em sua maioria, eram únicas e traziam um vermelho de cada. Para quem pode ver melhor, existiam outras cores presentes. Talvez várias delas.
Cézanne ou seu conterrâneo, René Magritte, são exemplos de pinturas que -segundo seus estudiosos- você só poderá contemplá-los com um olhar atravessado, melhor dizendo; aquele olhar que atravesse o quadro. Mesmo as inúmeras telas que o mestre de Aix-en-Provence fez de uma mesma série de montanhas e planícies da sua terra provençal possuem singularidades. Não se trata- equívoco tão comum- de perfeccionismo, e sim, que eles descobrem mais e mais formações a cada nova perspectiva. A cada nova pincelada.
Toda neura começa na infância. Isso é mais do que sabido. Porém, parece possível mesclar todas as cores em suas diferentes gerações. Deslocar, portanto, sintomas que borram nossa arte. Seria também isso poder, finalmente, pintar feito criança?
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