Abaixe-se caso contrário vai levar bala!
Catatônico, permaneceu em pé naquela esquina contemplando o bandido com pinta de pobre- tinha fisionomia e pele muito maltratadas- correr e se jogar dentro do automóvel desbotado. Um veículo velho e velhaco ( só se prestava para ações violentas e criminosas), e cuja cor desbotara de tanta vergonha, infâmia. Nos últimos anos, havia trocado de dono tantas vezes que submetia-se a qualquer comando. Tornara-se escravo definitivo. Uma espécie de moribundo de lata com carnes à mostra. Suas entranhas se espalhavam dentre painéis, relógios, pedais e outros comandos analógicos. Vida digital só em sonhos até então. Todavia, havia uma sonoplastia particular. Advinda de um bravo rádio am/fm que presentificava pedaços do mundo aos ocupantes fugidios. Sucessos musicais dos anos 70 e suas patéticas recordações reverberavam sem parar. Mas o som que ali ressoa mais alto também era bem outro. Era um bang-bang faroeste mal feito. Esses dois ocupantes fugitivos, meliantes oficiais na concepção pequeno-burguesa e seus códigos de conduta, decidiram trocar tiros com o segurança do supermercado do bairro afamado. Balas desorientadas espocavam pelos ares. Fachadas de edifícios eram autografadas pela pólvora assassina. Pânico de um Deus Pã sem humor. Não era a primeira vez. A lata velha, codinome do carro, também era resultante de roubo armado e tiros certeiros. Imaginem! Aquele monte de formações, cheias de tétano e outras pragas, sendo capaz de causar tantos problemas e cobiças! E quando decidia pela birra, pelo choramingar infantil da teimosia, a fingir-se de morto em plena turbulência da via expressa da cidade, e cuja ordenação cotidiana é o caos?
Justo nesse Sábado ensolarado- o que acirra os tesões na Guanabara ( dia nublado é sinônimo de brochura para alguns)- a lata velha não fez qualquer malcriação. Ficou ali: paralisada, feito neurótico que se mete a tagarelar letrinhas e a tela - metáfora para folha- reluzindo o vazio. Vazio nesse caso é alucinado na cor branca ou colorida dependendo da proteção de tela-folha que o freguês cibernético optar.
Na mesma esquina, esquina contrária a dos espectadores congelados e no interior das vísceras da carroça metálica, escondia-se o motorista, profissão bandida, com um revólver numa das mãos. A outra mão segurava o volante com tamanha força e fé que quase o partiu em dois. Dava para notar o tremor, ainda que tentasse disfarçar. Tremia tudo. Desde o para-choque até o último fio de cabelo. E sobre um último fio de cabelo existem aqueles outros que negociariam, colocariam até no prego, a mamãezinha querida.
Nesse fato criminoso que se descreve não havia mais papo. Era guerra mesmo. Uma guerra péssima, covarde, pois não existia área demarcada, alvos específicos, comunicação prévia. Enfim, a baixaria belicosa oficial. Não há inocente numa guerra, bem sabemos. São todos culpados, já que inocentes também os são. Quando se pede paz, - algo que jamais houve na história dos homens e outros bichinhos- não pedimos pela pacificação certa. Qual seria então a guerra menos ruim, a mais profícua por haver? De guerra não se escapa. Supor uma paz é supor que uma entidade transcendente , perfumado permanentemente de Nirvana número 5, governará os nossos desejos e sonhos. Os tais destinos que são fantasias deliciosas da turma da Emília. Aquela da obra de sonhos de um Lobato, O Monteiro. Delirava um som de pirlimpimpim com olhinhos cerrados- estaria em êxtase a bonequinha de pano?- e o mundo revirava em coisas maravilhosas! E maravilhosas para cada um, o que daria um trabalho louco. Talvez por isso demore tanto. Ou seria a vetusta entidade transcendental um alemão bem pragmático e mais ágil com o que fazer com os fatos, que insistem em ocorrer, no desenrolar do tempo? Caminhar dos sonhos, esse tal de tempo.
Emília não estava presente pessoalmente ( garantem alguns) , mas os que se faziam presentes, naquela esquina do bairro zona sul carioca, clamaram pelos seus milagres fantasiosos. É que num certo momento seguinte, o comparsa daquele treme-treme, e que permanecia ao volante da lata velha, corre em disparada - mais ágil que o próprio veículo- com sua arma em punho e tiros para o além. Acaba de balear o tal segurança do mercado onde roubaram quinquilharias. Não se disse que eram pobres? Tanto estardalhaço por tão pouco! Se ainda fosse um carro forte ou o banco todo!
Seu rosto crispado por uma única ruga odienta exprime o que se chamará num só depois de dor. Fora atingido por uma bala certeira vinda da arma do segurança que desmaiou na soleira da porta da lojinha que consertava as bicicletas de Pedrinhos e Emílias. A lojinha, falecida pouco depois do tiro que atingiu o segurança vizinho, revirou em algo mais snobe. Nunca mais Pedrinhos e Emílias foram vistos por lá.
Cambaleando dolorosamente, o velocista assaltante jogou-se dentro do carro desbotado , mas tinhoso. Ronco forte, bravo combatente, saiu arrancado com seus dois inconsequentes cidadãos brasileiros. Teriam sido heróis? Desistiram de limpar as latrinas dos nossos banheiros?
Brasileiro, sobretudo da média e alta burguesia, somente aceita limpar latrinas estrangeiras. Tudo lá fora. Dizem que pagam direitinho ao brejeiro cidadão.
E quanto ao brejeiro cidadão que paralisado permaneceu - dizem que ainda está por ali feito assombração a escorar pilastras que escaparam ilesas das balas tresloucadas- vislumbrando cada efeito especial, feito espectador hipnotizado, na sala escura do tradicional cinema do bairro e que exibe as mais diversas entranhas, estranjas ou locais, logo ali em frente? Aquele mesmo do outro lado de uma outra esquina, agora esquina terceira? Ao menos nesse texto é da terceira que se fala. As outras duas ficaram para trás. Como se a lata-velha avançasse em marcha ré, o bandido caísse ferido de tanto amor, o segurança tivesse atirado com balas de verduras e frutas, o supermercado fosse mini e incluísse a Cuca, o Tio Barnabé, a Dona Benta e os quitutes da Tia Nastácia.
Numa próxima vez, se houver, não esperes pelo pirlimpimpim de Emílias. Certas balas dessa vida, além das guloseimas para todas as idades e pica-paus , foram feitas para matar.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Rapidinhas num táxi.
O carro amarelo exibe a sua fumaça escura pela redondeza Guanabara. Aliás, Guanabara ficara para trás após golpe sórdido de milico ignorante que quis, num certo dia 31 do mês em que nasci, imperador absoluto se tornar. Onde estavas?
Há tempos atrás, alguns carros pretos, os temíveis veículos oficiais, traziam senhores taciturnos com seus ternos estranhos. Os carros da cor preta eram raros no país, idos dos anos 70/80, porque podiam ser confundidos com os tais oficiais. Compunham desse modo uma formalidade pretensiosa, o tal tipo palaciano, na sua pretensa limusine. Diziam-se autoridades, de autoria falsa, naquela cidade em que todo mundo, apenas por estar ali, acha-se tão importante. "Com quem pensas que está falando"?- "arroganteia" o pretenso egrégio cidadão. Afirmou categórico, a voz sem hesitações, sobre o verbo 'arrogantear' e que sequer existe na norma culta. Mas existe no mundo. E o mundo era só ele. Não se trata pois de um egoísta, importante virtude, mas sim de um egocêntrico incurável. Suas preferências, seus tesões, pretendem governar o mundo. Não só o que supõe seu, mas o daqueles que ele supõe serem outros. Isso faz grande confusão entre mundos iguais.
Os outros até então eram feitos de assombrações. Igual a um filme de terror que esconde a melancolia que nos aguarda lá na frente. Tanto para vivos quanto para assombrados. Os outros, aqui entre todos, são parentes. Feitos da mesma matéria, de uma mesma pulsão.
O cidadão que conduz aquela fumaça de um automóvel balança caminhos à beira do oceano. Dobrou à esquerda, depois à direita. Arrumou o corpanzil e se lançou rumo ao destino que lhe fora indicado: uma zona central. Seu brinquedo de metal está cansado, velho. E quase todo velho é triste. Conduz nos ombros uma eternidade de manobras.
Sua suspensão começa a ranger quando inicia qualquer novo movimento. Corpanzil para lá e para cá. E recomeça a dança. "Seu rolamento está gasto"- uma voz quebra o silêncio da tal corrida. Ele finge não ouvir. Não quer mais escutar, pois está bastante cansado para obviedades. Por isso não ouve. Afinal, obviedades existem para não serem escutadas.
Sua suspensão começa a ranger quando inicia qualquer novo movimento. Corpanzil para lá e para cá. E recomeça a dança. "Seu rolamento está gasto"- uma voz quebra o silêncio da tal corrida. Ele finge não ouvir. Não quer mais escutar, pois está bastante cansado para obviedades. Por isso não ouve. Afinal, obviedades existem para não serem escutadas.
Bem próximo ao local da despedida, um outro semelhante dá-lhe uma bronca. Solta aquele xingamento-buzina de advertência. É um grito rouco, irritado. Todavia, perfeitamente audível mesmo com as intimidades, as tais janelas, fechadas. Tanto que os faróis, olhos de vidro que enxergam ao longe o que a escuridão guarda só para ela ( seria a escuridão um egocentrismo mal visto?), arregalam perplexidades uns para os outros. Resmungam combustões, gases, e claro, mais e mais fumaça. Contudo, perplexos! Já que ninguém quer reconhecer que se pode errar. Até porque não se faz outra coisa no vai e vem desses quadris de ferro, de lata. Oxidações?
No interior daquele carro da cor da prata, modelo ultrapassado mas eficaz, e que resmungara primeiro, esconde-se uma senhora. Irritada, triste, e no comando da máquina. Tem os cabelos claros e o seu farol está baixo. Aonde iria? Onde estavas quando sonhávamos que a cidade Guanabara não havia envelhecido tanto? Apesar desse oceano camaleão, já que oscila por entre cores, e que refresca o dorso nu, feito de pedra, cimento, vastos matagais e gente. E essa gente toda, inclusive suas águas Guanabaras, sacralizam suas curvas e a proclamam de cidade. Sob a benção do anjo-mau, aquele menino serelepe crivado de flechas e amódio, conhecido Sebastião: cidade tesão.
Ponto final. Ficarás onde?Logo ali, seu moço. Numa distância incalculável, mas que há. Feito de arrogâncias e seus " arroganteios ".
Ponto final. Ficarás onde?Logo ali, seu moço. Numa distância incalculável, mas que há. Feito de arrogâncias e seus " arroganteios ".
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
O futebol e um pai. Uma noite de pelada.
Noite gelada com a garoa paulistana e o Ataliba, ponta direita do Juventus, clube de cepa italiana do também italiano bairro do Bexiga, na capital do Estado soberano, entrará em campo. O Juventus é chamado pelos seus destemidos admiradores ( hoje seriam seguidores?), e cujo sado-masoquismo é exemplar, de 'O Moleque Travesso'. Tudo por causa das travessuras que costuma aprontar para os adversários mais poderosos, ricos, tradicionais e, curiosamente, populares. Isso mesmo. No país da fartura, os times que costumam triunfar são os mais populares. Os times que conquistam os títulos são os que seduzem a maior parte da platéia. E essa titulação torna-se um caminho sem volta. Conquistou, recebeu o diploma, no caso o troféu, está conquistado. Portanto, as equipes mais modestas, menos poderosas, costumam ser desprezadas. E tem gente que ainda crê na fidedignidade de um voto de pobreza, por exemplo. Mas qual ? De que pobreza falamos? No futebol, não funciona muito. Agora mesmo um mancebo, que arrancara as amígdalas infectadas, fugiu para exibir seus dotes de boleiro bom de bola na estranja. Declarou que desde muito pequenino sonhara em jogar no time mais famoso da Catalunha - que vem a ser aquela região européia e que também tem os seus sonhos, no caso específico, uma separação litigiosa do resto do que chamam de Espanha-, ao invés de sustentar o onírico tesão em jogar no próprio time brasileiro que o fez atleta de alto nível e pelo qual conquistou títulos internacionais e à seleção canarinho chegou. Esse clube paulista, bronzeado pelo porto famoso, faz-se aristocrático, visto que abrigou um rei e uma corte inteira. Tendo sido o clube mais vitorioso do futebol nacional e mundial, à época. Acontece também que naquele período não havia internet, facebooks, satélites poderosos, enfim, essa disponibilidade para se conectar com o resto do mundo todo, formando uma rede global imensurável. Esse mundo que se avizinhou um bocadinho mais. Em compensação, havia futebol de alto nível. Uma distância enorme para o nível das peladas hojendía. Contudo, e com tudo isso, mas apesar disso, o jovem não se fez cooptar pela trajetória da instituição centenária. Preferiu se mandar.
E essa distância também se apresenta no tal ritmo com que a bola rola na cadência do artista que a empurra para frente, para o lado, até mesmo para trás. E há de se ter cuidado já que existe a tática do fogo amigo: o gol contra. O futebol parece acelerar no compasso dos bits e q-bits quânticos. E as pernas desajeitadas não acertam o passo. Os mais hábeis sobrevivem e faturam. Futebol mais cadenciado é coisa artesanal, advertem especialistas. A correria é que dá o ritmo do desacerto e do descompasso. Feito cotidiano de cidade grande. Reparem no vai e vem - não dos quadris abençoados das mulheres- mas no trânsito debilóide das ruas e que evidencia o nível de falta de civilidade daquelas pernas mecânicas e seus robôs falantes.
Que não se pense que esses algoritmos teclados, digitados aqui e agora, sejam ressentimentos saudosistas nem tampouco aquele papo de que foi melhor assim ou do outro jeito, naquele tempo lá para trás É tão somente uma falação de quem para frente, vez e sempre, espanta-se ao enxergar que para lá existe aquele jogador, aquela jogada à beira do abismo avizinhando-se. Gingando feito Mané e suas habilidosas pernas tortas sem a menor cerimônia. Invasão sem reversão. E é quase impossível não se afetar pela abominável saudade. O andamento do jogo tem essa conotação meio trágica, isto é, não é possível começar do zero. Não há não inscrição ou tábula rasa no nosso jogo humano. Não dá para afirmar que a pelada que já começara - e começou faz muito tempo- não começou, não houve. Passar o filme ao contrário, fingindo que a cena mais triste não fora triste assim. Pode-se apagar ( esquecer na lembrança), mas a sua havência enquanto cena , fato triste, será impossível de apagar supondo que não houve então. O quê? Um fato chamado triste. Seria injusto?!Vociferou alguém contra o árbitro do jogo. Queremos justiça! Mas qual? E o árbitro está de preto ou tem uma auréola encantada a lhe enfeitar a existência? Teria carnaval? No reino do Rei Pelé havia folia de sobra.
Será que o expectador na sua tentativa juvenil, pois iludida, em mudar o resultado do que não tem mais jeito de ser jogado, esqueceu das possíveis estratégias traçadas? Da regra do jogo?. Aquele acabou. Agora, partiremos para outros possíveis.
Quando naquela noite gelada da capital paulistana, meu pai e eu, contemplávamos Ataliba e seus comparsas atacarem uma Ponte Preta , num Pacaembu Machadista, o que se via? Estávamos abrigados pelas capas plásticas e pelo calor que os torcedores do time do Rei (Eram ao menos dez mil torcedores vindos da baixada santista), a desejar o pior para o moleque travesso, cepa italiana, Ataliba a comandar sua guarda pretoriana. Nesse finalzinho dos anos 70, governo de João Valentão Figueiredo ( 'Eu prendo, arrebento') , os campeonatos de peladas no Brasil implicavam com as imposições gregorianas e o seu tempo, o seu calendário opressivo. O Paulistão de 1978, por exemplo, terminou no meio do ano de 1979! E assim adiante. Nesse torneio, O Santos F.C precisava que o moleque travesso não cometesse diabruras contra a Ponte campinense. A Ponte não tinha mais chances no campeonato e o Juventus poderia adiar o sonho do ainda não nascido, Neymar JR, em conquistar um troféu importante, após a era Pelé. Ataliba e sua correria e destreza poderiam ser empecilhos determinantes. A torcida juventina cabia nas tribunas sociais. O resto era preto e branco com ares de aristocracia em busca do trono fugidio. Conseguiram. A Ponte desportiva venceu e Ataliba chorou a lágrima sem volta. Mas não se deu tão mal assim. Foi contratado pelos Gaviões e sua Fidelidade, no ano seguinte, e por lá ganhou prestígio, dinheiro e titulações em forma de troféus. Fez parte da nobre geração do rei da dialética e seus calcanhares desconcertantes de um outro grego célebre, O Aquiles, e que platonicamente defendia democracias contra o tal João, cada vez menos valentão: O Dr. Sócrates.
Apito final. O resultado agrada aos dez mil abnegados torcedores que não se importaram com a garoa persistente e a temperatura que despenca nesse pré-início de inverno. E o inverno era frio nessa época, pasmem. Orientava melhor a carcaça e suas vicissitudes. Mesmo que Sampa conserve o hábito secular de transitar por diversas temperaturas e variados climas ao longo de um mesmo dia, durante o inverno havia frio.
Gazeta esportiva nas mãos, fim de jogo, carrocinha com lanche na esquina à espreita, rádio de pilha e os comentários sobre um outro jogo a tagarelar pelas ondas do tal aparelho radiofônico. Mas seria realmente um outro jogo na fala dos doutos comentaristas? Claro, que sim. Afinal, cada jogo, um jogo. Nelson Rodrigues já defendia a causa até para se preservar das críticas sobre a sua notória miopia. João, esse sim valentão, Saldanha , preservava-se por sua vez dos torpedos que lhe eram endereçados mediante a sua fama de mitômano. Eram dois jogos nas tardes de Domingo do Maracanã. Aqui já entramos na ponte aérea da licença poética chamada digressão. Logo, havia o teatro de Nelson e a guerra do João Valentão.
Um pergunta, antes da prorrogação e dos pênaltis para o jogo que virá , ecoa pelas marquises da alma.Quem sabe um singelo esclarecimento tático? O porquê dessa rememoração esportiva tão específica, tão nítida, na retina das lembranças?
Talvez para evocar, reviver, um tipo de pai, quase herói, e que se banhara em águas de garoa gélida tendo ao seu lado o filho que torcia candidamente: por ele.
Apito final. O resultado agrada aos dez mil abnegados torcedores que não se importaram com a garoa persistente e a temperatura que despenca nesse pré-início de inverno. E o inverno era frio nessa época, pasmem. Orientava melhor a carcaça e suas vicissitudes. Mesmo que Sampa conserve o hábito secular de transitar por diversas temperaturas e variados climas ao longo de um mesmo dia, durante o inverno havia frio.
Gazeta esportiva nas mãos, fim de jogo, carrocinha com lanche na esquina à espreita, rádio de pilha e os comentários sobre um outro jogo a tagarelar pelas ondas do tal aparelho radiofônico. Mas seria realmente um outro jogo na fala dos doutos comentaristas? Claro, que sim. Afinal, cada jogo, um jogo. Nelson Rodrigues já defendia a causa até para se preservar das críticas sobre a sua notória miopia. João, esse sim valentão, Saldanha , preservava-se por sua vez dos torpedos que lhe eram endereçados mediante a sua fama de mitômano. Eram dois jogos nas tardes de Domingo do Maracanã. Aqui já entramos na ponte aérea da licença poética chamada digressão. Logo, havia o teatro de Nelson e a guerra do João Valentão.
Um pergunta, antes da prorrogação e dos pênaltis para o jogo que virá , ecoa pelas marquises da alma.Quem sabe um singelo esclarecimento tático? O porquê dessa rememoração esportiva tão específica, tão nítida, na retina das lembranças?
Talvez para evocar, reviver, um tipo de pai, quase herói, e que se banhara em águas de garoa gélida tendo ao seu lado o filho que torcia candidamente: por ele.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O Inverno, os ursos. Idades médias?
O final do livro de Daniel Bezerra e Carlos Orsi, intitulado 'Pura Picaretagem', Ed Leya, 2013, termina com uma bela citação do escritor e jornalista, Carlos Orsi: ' A compreensão filosófica do lugar do homem no universo enquanto um animal feito de poeira de estrelas, irmão das árvores, dos sapos e das bactérias, habitando a periferia de uma galáxia igual a bilhões de outras , tentando, como uma criança que cata conchas na praia e pondera o mar, entender a imensidão'.
Esse livro apresenta algumas das principais teorias em torno da Física, da Matemática, enfim, do que se pretende dizer - pra valer- sobre a mecânica quântica. O que há de sério, consistente, brilhante e as picaretagens ( que passeiam por todos os cantos do saber), e que os dois autores chamam de misticismo quântico. Outros apelidos também se presentificam tais como: cura quântica, ativismo quântico, trepada quântica...Essa é por minha conta de abuso. A ressalva é que nessa transa as resultantes tornar-se-ão somente nuvens e poeiras. Daqui a pouco, por suposto, haverá a manifestação quântica. Um vazio cheio de energia, feito vácuo, onde elétrons-manifestantes poderão ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Inventarão a posição exata de um elétron mascarado, repleto de disposição. E viva a nossa insignificância quântica de macaco tagarela!
A frase mencionada e que encerra esse livro afeta os nossos sentidos e a história infantil dos que habitam as cidades banhadas pelo oceano, por exemplo. No nosso caso, o Atlântico. Nesse caso, as crianças ribeirinhas das megalópoles sem rumo contavam conchas sob castelos de areia a construir. E o oceano, numa generosidade ímpar, a partilhar cumplicidades. Não prolongava suas ondas, cuja extensão e velocidade são imponderáveis, para além da preservação do palácio que nascia. E eles seriam construídos, mas também seriam derrubados, pois nem mesmo a onda que arrebenta na areia mais próxima delibera sobre o seu destino de onda a morrer na areia! Existem as tais probabilidades. E somente elas: possibilidades. Quantas possibilidades seriam? Impossível saber. E quando se sabe é num depois que já não é mais o que havia começado e sabido. O futuro é somente uma possibilidade presente. E só se sabe sobre o que sabemos, ou seja, sobre aquilo que se fica sabendo. Frase apontada no livro citado. E como diz o pensador e psicanalista brasileiro , MD.Magno: ' Tudo que há é da ordem do conhecimento. Não há mistério algum. O que há é ignorância'. Não devemos confundir as duas coisas.
Resta saber qual? Do que se trata, em que nível, como se constitui....Isso é que é produção de saber, conhecimento. Considerar até não dar mais. E então falamos feito tagarelas macacos. E o falar pode ser uma canção, um som, um grito, uma dança, um silêncio alto. 'Grita baixo'! Alguém pediu ao desafinado com o coração a sair pela boca. E quem não tem o coração à boca feito elétron desvairado, seja saramandista ou bolebolense? E qual a criança que não foi cineasta por um único dia na areia com as ondas incontáveis, banhando as tais conchas, sua imensidão diante de um único ano que já ficara para trás? E a onda se esborrachando contente, espumando alegrias! Um único e isolado ano tão somente. Um sonho de permanência. Um filme. O passado presente.
Faz certo tempo ( mas que tempo é esse afinal?) que um ano a menos era demasiado para quem tinha tão poucas rotações e translações a oferecer, a construir mais um castelo que cairá em seguida. Tão logo a extensão do comprimento das ondas e suas frequências instáveis e pouco mapeáveis oscilarem um tanto a mais. As ondas então sofreriam da bipolaridade estrutural humana, segundo algum místico quântico. Aquele tipo que transou quanticamente, utilizando acessórios subatômicos, produzindo orgasmos absolutos, tomados por poeiras, milhões de estrelas, meninas e meninos feito nuvens! Uau! Quanta energia! Quanta tolice! E ela , a tolice, seja macro ou micro, faz muito sucesso. Quase um 'Hit Parade' quântico.
A bipolaridade faz parte da nossa estrutura psíquica. O que pode caracterizar algo, que xingaremos de doença, diz respeito também às intensidades, a uma certa frequência em que essas afecções psíquicas se apresentam, configuram-se. Quantum , quantidade.Se oscila demais, feito onda desvairada, haverá estragos. Mudar de posição, desconfigurar o que sempre esteve configurado, saltar de um sintoma para outro, desrecalcar com prudência o que permanece escondido ou em potência, mas forçando passagem e expressando-se por via dos próprios sintomas, exige mestria, análise. Não confundir com os ursos polares, já que essas formações paquidérmicas costumam ser lentas, gélidas, ferozes, mesmo quando sorriem (e sorrir é uma arte). Furiosos, sim! Apesar e por causa daquela beleza toda. Um vandalismo de beleza. Além do mais, esses ultra-polares mantém aquele cochilo tradicional ( uma 'siesta' hispânica que atingiu os pólos) e que perdura por meses, um mandato inteiro, sobretudo, durante o período invernal, sem contas a prestar. Um quantum mínimo de parana . Um quantum máximo de cinismo. Abandono de emprego? Daquela formação tão fofa e vestida de branco? Indumentária simples, passos bem marcados, diligentemente estudados. Caçador astuto.
O trabalho só recomeçará quando o frio intenso cessar. Temos a nossa preguiça sagrada. Aí é só comer, beber, dormir, rezar.... Fazer voto de pobreza. Quem sabe até habitar um palácio de césares com toda aquela riqueza de procedência suspeita? Bem mais consistente, na sua pujança para menos, do que os palácios de areia, de nossa infância que nunca cessa. Menos afortunado, entretanto, por sua postura tirânica. Negada, mas preservada há milênios. Diríamos que faz parte do seu etograma originário. Esses tais ursos que habitam diversos pólos. São como deuses para outros animais. Chamar-se-iam de carismáticos! O que é muito mal definido. Talvez algum místico quântico consiga defini-lo melhor. Aquela energia, aquela crença que é capaz de mover uma montanha ali outra acolá. Jamais se viu, mas eles garantem que há. E se garantem é porque há! Feito um delírio qualquer, afinal, foi dito. E tantos acreditam. Por quê? Porque querem. Cada um com o seu cada um, visto que seria profícuo- para iniciar conversa- relembrar que existem delírios e delírios. Uma teoria dita científica também é delirante. Resta saber como? Se tem pegas de realidade, consistência de argumentos, inteligibilidade, essas coisas da tresloucada razão.
Se não há a possibilidade de se apresentar aquilo que é nomeado, barbaramente, enquanto verdade, exatidão, precisão, façamos então do erro, do equívoco, da barbárie já dita, um instrumento de validação para qualquer conhecimento? Para qualquer saber? Tomar ciência sobre os fatos - ofício do prestigiado cientista- há de seguir por essa via?
Os momentos presentes - de volta a um passado tão distante e que não se apaga, juntando-se à promessa de um futuro que é só um devir feito de poeiras e estrelas e conchas- balançam os castelos erguidos nas areias dos sonhos dos meninos. Quem sabe não vira cinema? Dois elétrons brilhando, ao mesmo tempo, na escuridão do cinema 3D. E aqueles óculos.....Por enquanto, um saco. Ao menos, óculos. Secundariza um bocado a nossa exaurida cegueira.
Esse livro apresenta algumas das principais teorias em torno da Física, da Matemática, enfim, do que se pretende dizer - pra valer- sobre a mecânica quântica. O que há de sério, consistente, brilhante e as picaretagens ( que passeiam por todos os cantos do saber), e que os dois autores chamam de misticismo quântico. Outros apelidos também se presentificam tais como: cura quântica, ativismo quântico, trepada quântica...Essa é por minha conta de abuso. A ressalva é que nessa transa as resultantes tornar-se-ão somente nuvens e poeiras. Daqui a pouco, por suposto, haverá a manifestação quântica. Um vazio cheio de energia, feito vácuo, onde elétrons-manifestantes poderão ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Inventarão a posição exata de um elétron mascarado, repleto de disposição. E viva a nossa insignificância quântica de macaco tagarela!
A frase mencionada e que encerra esse livro afeta os nossos sentidos e a história infantil dos que habitam as cidades banhadas pelo oceano, por exemplo. No nosso caso, o Atlântico. Nesse caso, as crianças ribeirinhas das megalópoles sem rumo contavam conchas sob castelos de areia a construir. E o oceano, numa generosidade ímpar, a partilhar cumplicidades. Não prolongava suas ondas, cuja extensão e velocidade são imponderáveis, para além da preservação do palácio que nascia. E eles seriam construídos, mas também seriam derrubados, pois nem mesmo a onda que arrebenta na areia mais próxima delibera sobre o seu destino de onda a morrer na areia! Existem as tais probabilidades. E somente elas: possibilidades. Quantas possibilidades seriam? Impossível saber. E quando se sabe é num depois que já não é mais o que havia começado e sabido. O futuro é somente uma possibilidade presente. E só se sabe sobre o que sabemos, ou seja, sobre aquilo que se fica sabendo. Frase apontada no livro citado. E como diz o pensador e psicanalista brasileiro , MD.Magno: ' Tudo que há é da ordem do conhecimento. Não há mistério algum. O que há é ignorância'. Não devemos confundir as duas coisas.
Resta saber qual? Do que se trata, em que nível, como se constitui....Isso é que é produção de saber, conhecimento. Considerar até não dar mais. E então falamos feito tagarelas macacos. E o falar pode ser uma canção, um som, um grito, uma dança, um silêncio alto. 'Grita baixo'! Alguém pediu ao desafinado com o coração a sair pela boca. E quem não tem o coração à boca feito elétron desvairado, seja saramandista ou bolebolense? E qual a criança que não foi cineasta por um único dia na areia com as ondas incontáveis, banhando as tais conchas, sua imensidão diante de um único ano que já ficara para trás? E a onda se esborrachando contente, espumando alegrias! Um único e isolado ano tão somente. Um sonho de permanência. Um filme. O passado presente.
Faz certo tempo ( mas que tempo é esse afinal?) que um ano a menos era demasiado para quem tinha tão poucas rotações e translações a oferecer, a construir mais um castelo que cairá em seguida. Tão logo a extensão do comprimento das ondas e suas frequências instáveis e pouco mapeáveis oscilarem um tanto a mais. As ondas então sofreriam da bipolaridade estrutural humana, segundo algum místico quântico. Aquele tipo que transou quanticamente, utilizando acessórios subatômicos, produzindo orgasmos absolutos, tomados por poeiras, milhões de estrelas, meninas e meninos feito nuvens! Uau! Quanta energia! Quanta tolice! E ela , a tolice, seja macro ou micro, faz muito sucesso. Quase um 'Hit Parade' quântico.
A bipolaridade faz parte da nossa estrutura psíquica. O que pode caracterizar algo, que xingaremos de doença, diz respeito também às intensidades, a uma certa frequência em que essas afecções psíquicas se apresentam, configuram-se. Quantum , quantidade.Se oscila demais, feito onda desvairada, haverá estragos. Mudar de posição, desconfigurar o que sempre esteve configurado, saltar de um sintoma para outro, desrecalcar com prudência o que permanece escondido ou em potência, mas forçando passagem e expressando-se por via dos próprios sintomas, exige mestria, análise. Não confundir com os ursos polares, já que essas formações paquidérmicas costumam ser lentas, gélidas, ferozes, mesmo quando sorriem (e sorrir é uma arte). Furiosos, sim! Apesar e por causa daquela beleza toda. Um vandalismo de beleza. Além do mais, esses ultra-polares mantém aquele cochilo tradicional ( uma 'siesta' hispânica que atingiu os pólos) e que perdura por meses, um mandato inteiro, sobretudo, durante o período invernal, sem contas a prestar. Um quantum mínimo de parana . Um quantum máximo de cinismo. Abandono de emprego? Daquela formação tão fofa e vestida de branco? Indumentária simples, passos bem marcados, diligentemente estudados. Caçador astuto.
O trabalho só recomeçará quando o frio intenso cessar. Temos a nossa preguiça sagrada. Aí é só comer, beber, dormir, rezar.... Fazer voto de pobreza. Quem sabe até habitar um palácio de césares com toda aquela riqueza de procedência suspeita? Bem mais consistente, na sua pujança para menos, do que os palácios de areia, de nossa infância que nunca cessa. Menos afortunado, entretanto, por sua postura tirânica. Negada, mas preservada há milênios. Diríamos que faz parte do seu etograma originário. Esses tais ursos que habitam diversos pólos. São como deuses para outros animais. Chamar-se-iam de carismáticos! O que é muito mal definido. Talvez algum místico quântico consiga defini-lo melhor. Aquela energia, aquela crença que é capaz de mover uma montanha ali outra acolá. Jamais se viu, mas eles garantem que há. E se garantem é porque há! Feito um delírio qualquer, afinal, foi dito. E tantos acreditam. Por quê? Porque querem. Cada um com o seu cada um, visto que seria profícuo- para iniciar conversa- relembrar que existem delírios e delírios. Uma teoria dita científica também é delirante. Resta saber como? Se tem pegas de realidade, consistência de argumentos, inteligibilidade, essas coisas da tresloucada razão.
Se não há a possibilidade de se apresentar aquilo que é nomeado, barbaramente, enquanto verdade, exatidão, precisão, façamos então do erro, do equívoco, da barbárie já dita, um instrumento de validação para qualquer conhecimento? Para qualquer saber? Tomar ciência sobre os fatos - ofício do prestigiado cientista- há de seguir por essa via?
Os momentos presentes - de volta a um passado tão distante e que não se apaga, juntando-se à promessa de um futuro que é só um devir feito de poeiras e estrelas e conchas- balançam os castelos erguidos nas areias dos sonhos dos meninos. Quem sabe não vira cinema? Dois elétrons brilhando, ao mesmo tempo, na escuridão do cinema 3D. E aqueles óculos.....Por enquanto, um saco. Ao menos, óculos. Secundariza um bocado a nossa exaurida cegueira.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
A vidente ( Mãe Valéria traz o amor de volta) e o aristocrata ninguém.
Mãe Valéria é o nome dado a uma suposta senhora que adivinha , prevê fatos futuros. Mãe Valéria não sabe que o futuro é uma espécie de presente postergado. Aliás, viu-se o rosto de Mãe Valéria, uma entidade que pode ser nome artístico para crenças e seus orixás , e ele era belo. O fato é que Mãe Valéria há e por muitas esquinas do Rio de Janeiro seus acólitos se encarregam da distribuição de farto material século XX -aqueles papeizinhos meio sujos, desbotados, cor de nada- para todos os transeuntes existentes e necessitados de algum préstimo, normalmente algum milagre de cepa amorosa. Pois um ponto forte da magia valeriana é trazer de volta o amor perdido em poucos dias, uma semana no máximo. Apesar do material propagandístico ser de quinta categoria, Valéria, A Mãe, tem a pressa das conexões cibernéticas. Seus discípulos mais otimistas ou adeptos radicais de um certo ufanismo, cercado de mistérios, tratam-na como um ser ultra pragmático.
Essas criaturas devotas passam horas a fio debaixo de trovoadas, picaretagens ou calor de estufa, a servir e serem servidos pelos poderes paranormais da senhora ( que também pode ser senhor. Dependendo da crença) . Eles acreditam, eles se alienam intensamente. Costumam se apelidar de fanáticos. E esse fanatismo pode não ser específico das adivinhações de fundo amoroso-odioso no sentido dos romances que envolvem casais independente do sexo próprio. Ele se junta a qualquer outro conteúdo, qualquer outra formação. Pode ser encontrado na política, nas religiões, nas instituições psicanalíticas, nos grupos musicais, teatrais ( sobretudo no teatro burguês e seus reis), nos embates esportivos, na famigerada família...E por aí nos perdemos.
O mais interessante é que os fanáticos creem que as Mães Valérias têm o poder. Na verdade, somente elas o possuem. Eles que ali apostaram suas fichas, suas crenças, suas expectativas, seus corpos à chuva e ao sol e ao ridículo, mas ainda à sua alienação paralisante, nada tem a ver com o jogo. Seus poderes não contam. Pior: pensam que não existem. Uma alienação mais confortável.
Desde o início que para nós, crianças humanas, repleta de limitações e impotências, as divindades com suas magias e farsas ( posteriormente denominadas de ciências e suas penicilinas tão boas ou a suas lobotomias más) instalam-se feito hardware no cérebro dos pequenos. O duplo salvação/salvador constitui uma das mais duras, até porque alucinada, e maléficas formações que invadem a mente infantil via cultura psicotizante. A brincadeira de fazer de conta- em não se esquecer que a vida não transcende a ela mesma- torna-se fato bruto feito pedra dura que não se comporta. No máximo, um furo feito por água que não descansa. Logo, as pedras e as águas também têm os seus poderes.
A alienação infantil é trajetória necessária, indelével. Elas não possuem outra chance de saída. Está inscrito no seu etograma. Portanto, nascemos escravos. Millôr Fernandes já dizia que o tal homem nascia original e morria um plágio. O que muitas vezes parece rebeldia - e a sociedade nos mostra nesses tempos de caminhadas que pode ser até possível - desloca-se tão somente para uma outra forma de servidão. Uma outra alienação. Daí que o macaco original pode ser mais ....original. Millorianamente falando.
E quem disse isso foi Millôr. Foi um alguém que produziu de verdade.Isolou-se e estava sempre por perto a dez mil anos pra frente. Não era nenhum anacoreta ou anti-social , e sim alguém que sacou que isso aqui é só isso aqui e é melhor a gente se apressar pois pode não haver mais tempo. Duro, não? Duríssimo e levíssimo. Millôr foi também um dos melhores cômicos que já houve por esses nossos cantos.Por isso também os poderes que serão apossados ou não para não se fingir que a base, o chão, desse lado deveras inadimplente nada tem a ver com o palácio e suas torres magnânimas que nos apedrejaram de volta há pouco. Aliás, qual foi o palácio que não apedreja e acaricia de volta? Molière, trezentos e trinta anos de sua morte agora, frequentou diversos. E como produziu....E tinha humor à vera. Quase à guilhotina. Caso contrário, como suportar a sua hipocondria? E aqueles reis meio fedidos, sujos feito o papelzinho da bruxa contemporânea? Cada alguém tem a bruxinha que merece. Contemplemos aquela lambisgoia de passarela meio sem bunda ( seria um sobrenome de família?) a desfilar?! E ela festeja trinta e três e não trezentos e trinta!! Molière está mais jovial.
Teria sido jogada de volta aquela pedra furada pelo pingo de água - que já afogara um poeta- feito objeto amoroso que a vidente para sonâmbulos promete também devolver, em uma semana? Trezentos e trinta anos é tempo demasiado até mesmo para as pedras. Há de se dar razão - e quem não a tem- aos alienados fanáticos que a adjetivaram de pragmática. John Dewey, aquele estadunidense tão genialmente pragmático, William James, um dos precursores da Psicologia, poderão até perdoar. Quem jamais não apelou para "bruxices" e outras crendices na vã tentativa (pragmaticamente?) de gozar definitivamente com o duplo salvador/salvação?
Naquele palácio apedrejado/apedrejador sobrou o espelho - ainda que côncavo/convexo- a refletir a turba nossa de cada dia. É que disseram certa vez a um rei, enamorado que estava de uma Mãe Valéria daquelas bandas mais orientais, que o espelho que retratava a corte em êxtase, visto que o pintor cansara das tantas pinceladas, refletia uma arte definitivamente ocidental. O pintor limitou-se a descerrar o pano que encobria o imenso espelho e a turba, fingindo-se aristocrática, espelhava de euforia .
Dizem até que não houve quem se recusasse ( podem até ser os ufanistas meio juvenis de várias idades, aqueles do início, sabe-se lá?), a proclamar otimismos naquele palácio. Palácio esse mais oriental ou até mesmo de um planalto central? Ou ainda, o palácio de um Tiradentes inconfidente? O fato é que não houve quem não deixasse de reconhecer no sorriso desbotado, mesmo que aristocraticamente extasiado, um ninguém no meio da multidão. E como fazia barulho!! Apesar do silêncio.
Essas criaturas devotas passam horas a fio debaixo de trovoadas, picaretagens ou calor de estufa, a servir e serem servidos pelos poderes paranormais da senhora ( que também pode ser senhor. Dependendo da crença) . Eles acreditam, eles se alienam intensamente. Costumam se apelidar de fanáticos. E esse fanatismo pode não ser específico das adivinhações de fundo amoroso-odioso no sentido dos romances que envolvem casais independente do sexo próprio. Ele se junta a qualquer outro conteúdo, qualquer outra formação. Pode ser encontrado na política, nas religiões, nas instituições psicanalíticas, nos grupos musicais, teatrais ( sobretudo no teatro burguês e seus reis), nos embates esportivos, na famigerada família...E por aí nos perdemos.
O mais interessante é que os fanáticos creem que as Mães Valérias têm o poder. Na verdade, somente elas o possuem. Eles que ali apostaram suas fichas, suas crenças, suas expectativas, seus corpos à chuva e ao sol e ao ridículo, mas ainda à sua alienação paralisante, nada tem a ver com o jogo. Seus poderes não contam. Pior: pensam que não existem. Uma alienação mais confortável.
Desde o início que para nós, crianças humanas, repleta de limitações e impotências, as divindades com suas magias e farsas ( posteriormente denominadas de ciências e suas penicilinas tão boas ou a suas lobotomias más) instalam-se feito hardware no cérebro dos pequenos. O duplo salvação/salvador constitui uma das mais duras, até porque alucinada, e maléficas formações que invadem a mente infantil via cultura psicotizante. A brincadeira de fazer de conta- em não se esquecer que a vida não transcende a ela mesma- torna-se fato bruto feito pedra dura que não se comporta. No máximo, um furo feito por água que não descansa. Logo, as pedras e as águas também têm os seus poderes.
A alienação infantil é trajetória necessária, indelével. Elas não possuem outra chance de saída. Está inscrito no seu etograma. Portanto, nascemos escravos. Millôr Fernandes já dizia que o tal homem nascia original e morria um plágio. O que muitas vezes parece rebeldia - e a sociedade nos mostra nesses tempos de caminhadas que pode ser até possível - desloca-se tão somente para uma outra forma de servidão. Uma outra alienação. Daí que o macaco original pode ser mais ....original. Millorianamente falando.
E quem disse isso foi Millôr. Foi um alguém que produziu de verdade.Isolou-se e estava sempre por perto a dez mil anos pra frente. Não era nenhum anacoreta ou anti-social , e sim alguém que sacou que isso aqui é só isso aqui e é melhor a gente se apressar pois pode não haver mais tempo. Duro, não? Duríssimo e levíssimo. Millôr foi também um dos melhores cômicos que já houve por esses nossos cantos.Por isso também os poderes que serão apossados ou não para não se fingir que a base, o chão, desse lado deveras inadimplente nada tem a ver com o palácio e suas torres magnânimas que nos apedrejaram de volta há pouco. Aliás, qual foi o palácio que não apedreja e acaricia de volta? Molière, trezentos e trinta anos de sua morte agora, frequentou diversos. E como produziu....E tinha humor à vera. Quase à guilhotina. Caso contrário, como suportar a sua hipocondria? E aqueles reis meio fedidos, sujos feito o papelzinho da bruxa contemporânea? Cada alguém tem a bruxinha que merece. Contemplemos aquela lambisgoia de passarela meio sem bunda ( seria um sobrenome de família?) a desfilar?! E ela festeja trinta e três e não trezentos e trinta!! Molière está mais jovial.
Teria sido jogada de volta aquela pedra furada pelo pingo de água - que já afogara um poeta- feito objeto amoroso que a vidente para sonâmbulos promete também devolver, em uma semana? Trezentos e trinta anos é tempo demasiado até mesmo para as pedras. Há de se dar razão - e quem não a tem- aos alienados fanáticos que a adjetivaram de pragmática. John Dewey, aquele estadunidense tão genialmente pragmático, William James, um dos precursores da Psicologia, poderão até perdoar. Quem jamais não apelou para "bruxices" e outras crendices na vã tentativa (pragmaticamente?) de gozar definitivamente com o duplo salvador/salvação?
Naquele palácio apedrejado/apedrejador sobrou o espelho - ainda que côncavo/convexo- a refletir a turba nossa de cada dia. É que disseram certa vez a um rei, enamorado que estava de uma Mãe Valéria daquelas bandas mais orientais, que o espelho que retratava a corte em êxtase, visto que o pintor cansara das tantas pinceladas, refletia uma arte definitivamente ocidental. O pintor limitou-se a descerrar o pano que encobria o imenso espelho e a turba, fingindo-se aristocrática, espelhava de euforia .
Dizem até que não houve quem se recusasse ( podem até ser os ufanistas meio juvenis de várias idades, aqueles do início, sabe-se lá?), a proclamar otimismos naquele palácio. Palácio esse mais oriental ou até mesmo de um planalto central? Ou ainda, o palácio de um Tiradentes inconfidente? O fato é que não houve quem não deixasse de reconhecer no sorriso desbotado, mesmo que aristocraticamente extasiado, um ninguém no meio da multidão. E como fazia barulho!! Apesar do silêncio.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
A moça-velha.
Residia numa cidade do interior do Estado de São Paulo, fazia muito tempo. Mudara-se para lá na vã tentativa de se encontrar com Deus. Botara na cabeça oca que seria freira, não tanto por convicção religiosa, mas para disfarçar a humilhação de ter sido abandonada pelo noivo bem mais velho que ela. Naquele outro mundo, anos 40/50 do século passado, era comum nas famílias burguesas brasileiras que, com toda sintomática patrimonialista, mazombista, religiosa reinantes, os pais dirigissem os vínculos afetivos dos filhotes, sobretudo das filhas. Eles, os senhorios caras de pau, poderiam ter as suas amantes, frequentar os seus bataclãs, exercer seu machismo, despotismo, sem problemas e com bastante arrogância. Podiam arrogar-se até porque contavam com o apoio de boa parte das....mulheres. Afinal, eram tratadas - e algumas se consideram até hoje- como seres inferiores aos destemidos e estúpidos machos.
Portanto, era hábito arrumar marido, o chamado bom partido ( resta saber para quem?) , para filhas meio desesperadas e sem projetos outros. Sem projeto a libido fica doidinha. Aquilo força para lá, para cá, vai para frente, regride, estaciona, mas não cessa. Não deixa de aporrinhar. Meninas casadoiras. Muito arriscado esse ofício. Até hojendía.
A velha- moça que se mudara de mala sem cuia para uma cidade desconhecida - curioso é que ficou até o fim com sotaque de caipira- fracassou no seu encontro marcado com Deus. Mesmo agora, depois de morta, não mandou recado ou apareceu 'in loco' para contar sobre esse goooooooooozo divino!
Criou tantos problemas no convento, para onde se mudara decidida a se vingar do ex- noivo fujão, que foi expulsa. Existem muitas versões sobre o que se passou. Nenhuma é digna de se crer, pois só havia uma testemunha: a velha-moça tomada de ressentimentos. E alguém movido só por ressentimentos não se faz confiável. Feito a que tem a língua solta ou o seu oposto a língua presa.
A vingança teria sido a transa divina se possível houvesse. E amaldiçoaria por tabela o senhor que escapara a tempo. Palavra de algumas testemunhas familiares. 'Muy amigas'? 'Por supuesto que sí'!
Por essa e por muitas outras - mesmo que a maior parte delas jamais foi compreendida racionalmente pela própria- tentara voltar à casa dos pais. Foi recusada. Dizem que é porque o pai, religioso da boca para fora, não aceitara a decisão da filha - a sexta criança de um primeiro casamento que terminou com a morte da esposa, mãe das seis filhas, no parto dessa última pretensa freira- de se tornar, segundo ele, uma beata. É curioso que certos frequentadores de templos religiosos o façam sem muita fé. Regozijam-se ao afirmar que são católicos ou crentes, porém, não praticantes. O que seria uma fé praticante?
O destino em dado momento não poderia ter sido outro, pois pode-se imaginar o peso para uma criança, diante das cinco irmãs mais velhas e de um pai pouco democrático, pelo fato do seu nascimento ter causado a morte da própria mãe de todas. Barra pesadíssima! Jamais superou isso. Há outras tantas testemunhas.
Corajosamente, teve que se virar. Tornou-se uma professora primária. Um dos ofícios mais nobres que existem. Era também adepta dos esportes futebolísticos e torcia para um clube- dos mais antigos do Brasil- e que tem como mascote uma macaca. Frequentava estádios e palanques ( tradição familiar). Sindicalizada, perambulou por alguns partidos políticos e protagonizou episódios polêmicos e arriscados. Num deles, ofendeu o candidato à prefeitura da cidade. Noutro, atirou uma bandeira do partido que apoiava na direção do candidato adversário. Gritou palavras de ordens, leia-se, palavrões. E odiava um certo político barbado. Sindicalizado feito ela. Era uma incoerência de gestos, falas, discursos, opiniões. Aliás, língua solta, opinava sobre tudo. Nada mais brasileiro. O problema é que se recusava em não aprender a escutar. Daí a língua solta.
Rompeu com a política, afinal, ninguém lhe ofereceu emprego melhor. Nada mais brasileiro também.
Suas transas pessoais se esgotavam então. Aposentadoria, os estádios e palanques, perdas familiares, fofocas a menos. Mediando tudo através da televisão ( o que pode ser uma péssima aposentadoria) , indignava-se, incomodava-se ao ver o casal bonito, jovial, aquele garotão com aquela garotona ( duas garotonas ou dois garotões então, levariam-na ao pronto socorro!), beijando-se, beijo apaixonado, línguas soltas pela sensualidade, no faz de conta da teledramaturgia. " São umas putas essas atrizes'!- exaltava-se. Teria se permitido finalmente um orgasmo ? Quase diviiiiiiiiiiiiiiino?! Parece que não. Nem ao menos na realidade das virtualidades.
Morreu só. Até aí feito todos. Inclusive brasileiras, brasileiros. Imagina-se que no seu enterro compareceram políticos ofendidos, colegas professores, ex-craques de futebol, a macaca mascote, as testemunhas parentes, o fantasma de um pai. Quase um Deus.
Talvez uma única rosa sobre o túmulo- comprado e pago em prestações custosas- e um dizer, seu epitáfio: " Aqui tenta descansar aquela velha-moça que viveu oitenta e tantos anos sem jamais namorar, jamais beijar".
Portanto, era hábito arrumar marido, o chamado bom partido ( resta saber para quem?) , para filhas meio desesperadas e sem projetos outros. Sem projeto a libido fica doidinha. Aquilo força para lá, para cá, vai para frente, regride, estaciona, mas não cessa. Não deixa de aporrinhar. Meninas casadoiras. Muito arriscado esse ofício. Até hojendía.
A velha- moça que se mudara de mala sem cuia para uma cidade desconhecida - curioso é que ficou até o fim com sotaque de caipira- fracassou no seu encontro marcado com Deus. Mesmo agora, depois de morta, não mandou recado ou apareceu 'in loco' para contar sobre esse goooooooooozo divino!
Criou tantos problemas no convento, para onde se mudara decidida a se vingar do ex- noivo fujão, que foi expulsa. Existem muitas versões sobre o que se passou. Nenhuma é digna de se crer, pois só havia uma testemunha: a velha-moça tomada de ressentimentos. E alguém movido só por ressentimentos não se faz confiável. Feito a que tem a língua solta ou o seu oposto a língua presa.
A vingança teria sido a transa divina se possível houvesse. E amaldiçoaria por tabela o senhor que escapara a tempo. Palavra de algumas testemunhas familiares. 'Muy amigas'? 'Por supuesto que sí'!
Por essa e por muitas outras - mesmo que a maior parte delas jamais foi compreendida racionalmente pela própria- tentara voltar à casa dos pais. Foi recusada. Dizem que é porque o pai, religioso da boca para fora, não aceitara a decisão da filha - a sexta criança de um primeiro casamento que terminou com a morte da esposa, mãe das seis filhas, no parto dessa última pretensa freira- de se tornar, segundo ele, uma beata. É curioso que certos frequentadores de templos religiosos o façam sem muita fé. Regozijam-se ao afirmar que são católicos ou crentes, porém, não praticantes. O que seria uma fé praticante?
O destino em dado momento não poderia ter sido outro, pois pode-se imaginar o peso para uma criança, diante das cinco irmãs mais velhas e de um pai pouco democrático, pelo fato do seu nascimento ter causado a morte da própria mãe de todas. Barra pesadíssima! Jamais superou isso. Há outras tantas testemunhas.
Corajosamente, teve que se virar. Tornou-se uma professora primária. Um dos ofícios mais nobres que existem. Era também adepta dos esportes futebolísticos e torcia para um clube- dos mais antigos do Brasil- e que tem como mascote uma macaca. Frequentava estádios e palanques ( tradição familiar). Sindicalizada, perambulou por alguns partidos políticos e protagonizou episódios polêmicos e arriscados. Num deles, ofendeu o candidato à prefeitura da cidade. Noutro, atirou uma bandeira do partido que apoiava na direção do candidato adversário. Gritou palavras de ordens, leia-se, palavrões. E odiava um certo político barbado. Sindicalizado feito ela. Era uma incoerência de gestos, falas, discursos, opiniões. Aliás, língua solta, opinava sobre tudo. Nada mais brasileiro. O problema é que se recusava em não aprender a escutar. Daí a língua solta.
Rompeu com a política, afinal, ninguém lhe ofereceu emprego melhor. Nada mais brasileiro também.
Suas transas pessoais se esgotavam então. Aposentadoria, os estádios e palanques, perdas familiares, fofocas a menos. Mediando tudo através da televisão ( o que pode ser uma péssima aposentadoria) , indignava-se, incomodava-se ao ver o casal bonito, jovial, aquele garotão com aquela garotona ( duas garotonas ou dois garotões então, levariam-na ao pronto socorro!), beijando-se, beijo apaixonado, línguas soltas pela sensualidade, no faz de conta da teledramaturgia. " São umas putas essas atrizes'!- exaltava-se. Teria se permitido finalmente um orgasmo ? Quase diviiiiiiiiiiiiiiino?! Parece que não. Nem ao menos na realidade das virtualidades.
Morreu só. Até aí feito todos. Inclusive brasileiras, brasileiros. Imagina-se que no seu enterro compareceram políticos ofendidos, colegas professores, ex-craques de futebol, a macaca mascote, as testemunhas parentes, o fantasma de um pai. Quase um Deus.
Talvez uma única rosa sobre o túmulo- comprado e pago em prestações custosas- e um dizer, seu epitáfio: " Aqui tenta descansar aquela velha-moça que viveu oitenta e tantos anos sem jamais namorar, jamais beijar".
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Roniquito manifesta-se.
Boa noite. Meu nome é Ronald de Chevalier. Daqui a pouco, Roniquito.
Era dessa forma que um dos economistas e boêmios mais brilhantes, ruidosos e temidos da Zona Sul carioca, anos 60/70, apresentava-se.
Ronald era um economista com muitas erudições.Conhecia muito bem a obra de Shakespeare, diversas óperas, brasileiros ilustres - tão importantes quanto o escritor e mentor de Hamlet- , e gostava muito das mulheres. Homem, portanto, de muitas virtudes. Todos nós - exceto os misóginos invejosos- gostamos muito das mulheres. Independente do que se queira fazer juntinho ou não.
A mudança do personagem - Ronald para Roniquito- deve-se ao efeito etílico e suas doses gloriosas - e nem eram tantas assim segundo testemunhas menos enebriadas- daquele whisky parceiro e depois cruel. Ronald então tornar-se-ia Roniquito em pouco tempo. Uma mistura explosiva, uma metamorfose pós bebedeira de Ronald 'plus' faniquito.
Faniquito por sua vez era uma expressão muito usada naqueles tempos de Píer Posto Nove - aquela faixa de areia de Ipanema - e que há muito tempo já ganhara sinônimos mais cultuados tais como chilique, piti, ataque histérico, etc. Já a expressão, mais até que uma referência geográfica, Pier Posto Nove ( aquela turma), era um deboche que Luis Sérgio Person, cineasta, roteirista, ator e gozador dos mais sérios, fazia com a turma do Pasquim ( Revista produzida por importantes intelectuais e que foi uma marca da resistência à ditadura). Millôr Fernandes, o mais novo proprietário vitalício de um nobre trecho entre pedras e o oceano do Arpoador carioca, adorava essa sacanagem vinda de Sampa , através de Person. Achava-o brilhante sem perder o charme. Porque existem aqueles que são brilhantes, mas acham-se ainda mais brilhantes do que eles mesmos. Tudo bem que essa postura até evidencia as nossas múltiplas personalidades. porém há de se ter cuidados pessoais. Uma questão séria e talvez resultante dessa multiplicidade pessoal toda é saber quem vai fazer a prova, defender a tese, assinar a lista de presença, comparecer à festa ou às manifestações. E com que roupa se vai? A corte, seja a do Planalto Central quanto outras tantas espalhadas pelo país, está bem peladinha. Apesar das pelancas.
Ironias e seriedade à parte, Ronald Roniquito era tudo isso: Person, Millôr, Glauber, Jaguar..Esse último declara que caberia aos psicanalistas desvendarem esse singular mistério que é o fato de todos eles, exceto Person, Millôr, Glauber, nessa lista nobre e saudosa, ainda sentirem muita falta de quem os esculhambava com frequência. Roniquito tinha isso de ruim e bom: era deveras etilicamente sincero e ao mesmo tempo mal educado. Esculhambava na frente do cliente. Era o mais inconveniente dos inconvenientes de ocasião. O que o salvava era a inteligência, a erudição, a generosidade - quando estava menos tocado pelo fogo- enfim, argumentos de autoridade. Certa vez, dentre as inúmeras performances, avistou e auscultou Paulo Francis com seu estetoscópio único, metamorfoseado de vodka , declarar admiração profunda por Pasolini e o seu Teorema. O já festejado jornalista/escritor acabara de assistir ao filme do cineasta e gênio italiano ( cuja morte brutal nos anos 70 sempre foi um mistério), e num dos bares visitados por aquela turma toda debulhava-se em elogios. Ao passar rumo ao banheiro do bar pé sujo carioca, ou seja, um local feio, apertado, sujo, mas acolhedor nos seus mistérios de banheiro boteco Rio de Janeiro, não escapou da provocação ferina de Roniquito que se encontrava na mesa em frente da derradeira porta, anti-sala do fedor: " Quer dizer que finalmente, Paulo Francis, o senhor nos confessa o seu homossexualismo!" Não se sabe se Francis e o seu corpanzil lhe reponderam com uma bofetada - o que muitas vezes se passara na vida de Ronald/Roniquito- mas o estrago já estava feito.
E eis que esse personagem fantástico,Roniquito, retorna mediante o recém falecimento de sua irmã, não menos notável, Scarlet Moon de Chevalier. E nesses momentos onde bússolas bêbadas insistem na direção errada, ele pode ser uma companhia bastante pertinente. Gás lacrimogêneo na veia ou como afirma baiano célebre aquele 'spray' de pimenta. Tempero local, na boa terra.
Sentaram-se pois Roniquito e outros tantos nesse mesmo outro bar, no centro da cidade, ex-maravilha. A mesa oferece lugares a mais, entretanto, o ainda Ronald não quer mais ninguém. E já tinham tantos presentes! Todos eram testemunhas cautelosas diante da previsível transformação por vir. Porém, ele também está cansado, de saco cheio, feito o barulho que vem de fora. Ensurdecem bombas, gritos, hinos, faniquitos sob forma de homenagem, uns passos, muitos passos. São milhares de passos! Aonde vão? Seria em qualquer lugar? Um lugar bom, quem sabe? A vodka já marcava presença, a fala mistura russo com brasileiro, alguns quitutes bem gordurosos adentravam o ambiente sem a menor cerimônia e o comício tomava rumo incerto. Tudo será permitido exceto o politicamente correto. Até porque não se sabe o que é ou será (seria?) correto? Nunca se saberá por certo. A não ser em cada mesa, com a sua guloseima adorada, com a sua bebida parceira, naquele momento único de incorretos.Graças a Deus! E mesmo assim há de se ter suspeita. "Tem gente na parada, porra! Vamos acordar de fato, sonâmbulos!
Roniquito vai despertando de um sono profundo. Aos poucos.
- Morri faz tempo e as coisas não mudam. Quero dizer, os nossos fetiches sado-masoquistas com fisionomia religiosa de saída e chegada. Sabe quem vai resolver essa crise, esse faniquito, para os mandatários elitistas ( nossos vizinhos ou sócios)? O bicho papão Argentino! Chegará todo paramentado com a sua guarda pretoriana e alguns dos soldados em lua de mel. Colocarão música sacra, provavelmente Haendel, ou se melhor gosto tiverem, Bach, O Sebastião abençoado. Subirão aos céus e eu lhes mostrarei, mesmo marginalizado por eu mesmo, um não-caminho. É profecia minha. De lá para cá. O que já é novidade! Ao menos uma canção diferente.
Imaginem que a soberania parece ter desaparecido no mundinho dos terráqueos. Naquele tempo, em que vivi, ainda havia uma ou outra dando sopa. Na porrada, bem verdade, pois os milicos não eram fáceis. São treinados para matar e possuem aquela hierarquia curiosa de um ficar sacaneando o outro desde lá de cima. Deve ser do céu que o mais graduado expele para baixo. E o que está mais embaixo não pode jogar para cima de ninguém. Mas funciona de algum modo. No nosso caso específico, uma situação grave de exceção, de governança, ou a moça- ex-guerrilha- toma decisões mais pontuais ou a casa pode cair. E pode cair sim. Quem garante que sim ou não? Só pelo fato do meu querer - e o meu querer de última extração não consegue nem atingir o seu alvo, e não conseguiu, mesmo e apesar, sobretudo, depois de morto- não querer por não querer? Ficou confuso? Pergunte às crianças que sempre querem ganhar todos os jogos, todas as vantagens. E não estão erradas ou certas. É assim que a máquina humana funciona, engrena. É capital, voraz. O negócio, as mediações, ou seja, fazer política, devem ser balanceadas, mapeadas, discutidas à exaustão. Para dar início a um longo papo entre sociedade e instituições.
De última extração? Que tal tratarmos cada linha que se escreve, cada caminhada, como se fosse a derradeira? Já imaginastes o Marcel Proust ( aquele gênio francês) dando voltas nos rascunhos de sua Procura? Uma boa tradução brasileira para sua obra, em 7 volumes? Escreveria pelos lençóis adentro. Travesseiros rabiscados e que valeriam uma fortuna hoje! A Celeste, sua cúmplice-governanta, teria tido muito mais trabalho. Mas o faria com prazer! Escreveu de certo modo, juntinho, aquela maravilhosa chatice. Lá do inferno- pois o céu é um saco de melancolias e lamentações- ainda não os vi. Tem que se fazer teste rigoroso para uma ascese desse nível. Não recebem qualquer um. Feito governador por esses lados. E nós, babacas outros, acreditando em representação. Para quem? Como? Imagine se alguém iria se indispor a me representar? Com que roupa? Essa mania em supor que pode haver no haver correspondência biunívoca, isto é, ponto a ponto, uma simetria absoluta entre a gente ( Há gente?), atrapalha muito. Aquela coisa que poderia nos completar: aquele menino, aquela moça, aquele cachorro quente......Um belo teatro isso sim. Aí pode-se conversar melhor. Contar uma história....
Então nos faz supor que o saco cheio a 20 centavos era muito arriscado. E os arrogantes - e pelo que se tem visto não podiam se arrogar tanto já que engoliram tanta mosca, abusaram-, a crer na representação, no ponto a ponto, no Papai Noel...Esse já vi.!Muda de nível toda hora. É de uma infidelidade partidária e no matrimônio assustadoras! Cara de pau, ô canalha! Ilude tanto crianças quanto assombrações. No Natal de Hum mil novecentos e noventa e nove fui punido severamente pois lhe chutei o saco vermelho. E ele, que me deixou sequelas equivocantes , reagiu e soltou a mão. Tomei uma porrada do Papai Noel!!! Constrangedor, no mínimo. ' Mas, muito bem feito'!- gritara uma beata com as mãos cheias de dízimos sacralizados.Olhava-me com tamanho ódio que quase me apaixonei. Ela tinha as suas razões.
E quem não as tem , não é mesmo? Estamos tão orientados, pelo que vejo na continuação de certos modos de vida, de pensar, que nos perdemos todo dia. E eu que sempre fui - com o reforço pela ponta direita, que ainda havia no futebol, do álcool-, tresloucado, mas não burro, permiti a invasão de um aparente nonsense , como se fosse possível não haver sentido; uma desrazão lúcida.
Façamos então um plebiscito para decidir democraticamente o que é ter razão, o que é verdade, certo ou errado Ou seja: uma suposta maioria e os seus votos válidos contra uma verdadeira maioria e seus votos de oposição, votos em branco, anulados ou não presentes. A tal da abstenção. E isso num pleito que é obrigatório e aplica sanções para quem não justificar o saco cheio, ou melhor , a ausência. Faz sentido os 20 centavos? Fará sentido mais um fracasso? Esse teatro burguês está enganando muita gente. Olha mais uma bomba de efeito boçal sendo atirada em qualquer coisa! Bum! Bum! Estupidez bélica.
Plebiscitos custam caro e o tempo pode não ser suficiente. Lembram do velho Ulisses Guimarães? Não o conheci por essas bandas e parece que o cadáver jamais apareceu. Será que é por isso que não o vemos vagando, flutuando? Seu túmulo foi um oceano inteiro. Seu crime foi a precipitação. Uma outra forma de arrogância. Além do que, esquecera que o Brasil é Brasil. Antecipou o plebiscito sobre forma e sistema de governo pois tinha, desde o tempo de MDB, fetiche em se tornar primeiro-ministro. Troço mais sem graça. Por que não uma sodomia científica feito Pasolini, feito o Marquês De Sade? Na região da Provence, França, o aristocrata francês e seus castelos assombram crianças e outros fantasmas até hoje. Ele nunca escondeu. Mais descente que o Noel. Bum! Bum! Pacíficos se organizam diante das tropas inibidas, envergonhadas. E isso é um perigo! Tropas também são treinadas para ferir, matar.Qual será a artificialização adequada para os rapazes belicosos descarregarem sua guerra interna e constante? Feito a de todo mundo.
Uma televisão acaba de mostrar fatos que não constituem novela patética. Saiu do ar. Por quê? Muitos falam mal , mas não trocam de sinal. Vejam! A moça está nua! O rapaz também! Agora são muitos! Seria um estupro? Pasolini liga e desliga a câmera. Posso vê-lo com clareza! Minha visão periférica contempla gritos novos: terceira, quarta, ndimensões, 'games' interativos, paridades entre parentes de fato, vínculos afetivos dissolvidos pelo simples querer e excesso no saco ( Até do Noel!). Cada um na sua. O mito do egoísta não é mau sinal. O problema é quando seu sintoma se fundamenta enquanto olhar e ação para o mundo. Cegueira, perversidade....Algumas das vicissitudes dessa postura velha. Fala-se então de egocentrismo. E aí não haverá parceria, associação.
A emissora oficial também liga e desliga seus interesses. Sempre foram palacianos! Independente se quem está com o diário oficial no colo está na extrema esquerda ou na extrema direita. Mao Tsé -Tung ou Ronald Reagan? O que importa é SOMENTE o nosso lucro. O Estado a nosso serviço. A sociedade civil - e sem ela não há possibilidade de conversa, existência de nação, estado de direito- a serviço do bem estar do Estado a nosso favor. Tudo invertido! E quando a sociedade se rebela - e ainda bem senão SOMENTE daremos bom dia para o professor doutor Sr. cachorro- essa minoria, muito competente em antecipar algumas vontades e chiliques da massa, entra em pânico. Feito a tropa inibida, acanhada. Imaginem que os cães da Polícia usam fraldas nesse momento. A cavalaria pretende indiferenciar o gás lacrimogêneo. O garboso garanhão usa colírio especial. Seu hormônio passa no teste enquanto antidepressivo. E dizem que é ótimo! Olha o cavalinho todo animado! Quatro patinhas que ressoam somente três. Seu trote exuberante.
De repente, o silêncio. O ambiente boteco fica sob suspeita. Reacionários com a cara coberta - mostre a sua careta ainda que feia- surgem sem humor. Não conseguem rir das mesmas piadas. São da turma da parana também. Enxergam conspiração em tudo. Papo de vitimizado. E diante disso permaneço paralisado. Somos tão maravilhosos que o mundo não nos entendeu. Pra que mudar hábitos tão seculares? Ainda que fósseis. A luz piscou e voltou. Não era Paolo. Seria iluminação de Rousseffs? A Presidência da República no Brasil detém muitos poderes. Efeito de um federalismo de mentirinha. Desde a Independência. Farroupilhas, Balaiadas, Cabanagem, Conselheiro, o Antônio.....
O copo, estetoscópio mimético de Roniquito, que carrega uma cervejinha ao invés de vodka ( tempos de nacionalismo) mexe-se. Sozinho, faz aquele som que parece do além. -" E aí moço? Já fechamos. A coisa ficou feia , mas agora está uma beleza. Olha só aquelas mulheres ali fora. Loiras, morenas, negras, gordas
, magrelas, sem partido'.- diz o garçom que botava mesa sobre mesa. Sem partido?- Indaguei. Então estão disponíveis?- insisti. O garçom sorriu riso largo, bonito, poucos dentes. Perguntei-lhe em perplexidade:
-Mas e os amigos de Roniquito, ilustríssimo?-prossegui.
-Amigos e Roniquito? Por aqui, pelo pouco que sei, por tudo que vi, SOMENTE o Sr. e o seu sonho profundo.
Era dessa forma que um dos economistas e boêmios mais brilhantes, ruidosos e temidos da Zona Sul carioca, anos 60/70, apresentava-se.
Ronald era um economista com muitas erudições.Conhecia muito bem a obra de Shakespeare, diversas óperas, brasileiros ilustres - tão importantes quanto o escritor e mentor de Hamlet- , e gostava muito das mulheres. Homem, portanto, de muitas virtudes. Todos nós - exceto os misóginos invejosos- gostamos muito das mulheres. Independente do que se queira fazer juntinho ou não.
A mudança do personagem - Ronald para Roniquito- deve-se ao efeito etílico e suas doses gloriosas - e nem eram tantas assim segundo testemunhas menos enebriadas- daquele whisky parceiro e depois cruel. Ronald então tornar-se-ia Roniquito em pouco tempo. Uma mistura explosiva, uma metamorfose pós bebedeira de Ronald 'plus' faniquito.
Faniquito por sua vez era uma expressão muito usada naqueles tempos de Píer Posto Nove - aquela faixa de areia de Ipanema - e que há muito tempo já ganhara sinônimos mais cultuados tais como chilique, piti, ataque histérico, etc. Já a expressão, mais até que uma referência geográfica, Pier Posto Nove ( aquela turma), era um deboche que Luis Sérgio Person, cineasta, roteirista, ator e gozador dos mais sérios, fazia com a turma do Pasquim ( Revista produzida por importantes intelectuais e que foi uma marca da resistência à ditadura). Millôr Fernandes, o mais novo proprietário vitalício de um nobre trecho entre pedras e o oceano do Arpoador carioca, adorava essa sacanagem vinda de Sampa , através de Person. Achava-o brilhante sem perder o charme. Porque existem aqueles que são brilhantes, mas acham-se ainda mais brilhantes do que eles mesmos. Tudo bem que essa postura até evidencia as nossas múltiplas personalidades. porém há de se ter cuidados pessoais. Uma questão séria e talvez resultante dessa multiplicidade pessoal toda é saber quem vai fazer a prova, defender a tese, assinar a lista de presença, comparecer à festa ou às manifestações. E com que roupa se vai? A corte, seja a do Planalto Central quanto outras tantas espalhadas pelo país, está bem peladinha. Apesar das pelancas.
Ironias e seriedade à parte, Ronald Roniquito era tudo isso: Person, Millôr, Glauber, Jaguar..Esse último declara que caberia aos psicanalistas desvendarem esse singular mistério que é o fato de todos eles, exceto Person, Millôr, Glauber, nessa lista nobre e saudosa, ainda sentirem muita falta de quem os esculhambava com frequência. Roniquito tinha isso de ruim e bom: era deveras etilicamente sincero e ao mesmo tempo mal educado. Esculhambava na frente do cliente. Era o mais inconveniente dos inconvenientes de ocasião. O que o salvava era a inteligência, a erudição, a generosidade - quando estava menos tocado pelo fogo- enfim, argumentos de autoridade. Certa vez, dentre as inúmeras performances, avistou e auscultou Paulo Francis com seu estetoscópio único, metamorfoseado de vodka , declarar admiração profunda por Pasolini e o seu Teorema. O já festejado jornalista/escritor acabara de assistir ao filme do cineasta e gênio italiano ( cuja morte brutal nos anos 70 sempre foi um mistério), e num dos bares visitados por aquela turma toda debulhava-se em elogios. Ao passar rumo ao banheiro do bar pé sujo carioca, ou seja, um local feio, apertado, sujo, mas acolhedor nos seus mistérios de banheiro boteco Rio de Janeiro, não escapou da provocação ferina de Roniquito que se encontrava na mesa em frente da derradeira porta, anti-sala do fedor: " Quer dizer que finalmente, Paulo Francis, o senhor nos confessa o seu homossexualismo!" Não se sabe se Francis e o seu corpanzil lhe reponderam com uma bofetada - o que muitas vezes se passara na vida de Ronald/Roniquito- mas o estrago já estava feito.
E eis que esse personagem fantástico,Roniquito, retorna mediante o recém falecimento de sua irmã, não menos notável, Scarlet Moon de Chevalier. E nesses momentos onde bússolas bêbadas insistem na direção errada, ele pode ser uma companhia bastante pertinente. Gás lacrimogêneo na veia ou como afirma baiano célebre aquele 'spray' de pimenta. Tempero local, na boa terra.
Sentaram-se pois Roniquito e outros tantos nesse mesmo outro bar, no centro da cidade, ex-maravilha. A mesa oferece lugares a mais, entretanto, o ainda Ronald não quer mais ninguém. E já tinham tantos presentes! Todos eram testemunhas cautelosas diante da previsível transformação por vir. Porém, ele também está cansado, de saco cheio, feito o barulho que vem de fora. Ensurdecem bombas, gritos, hinos, faniquitos sob forma de homenagem, uns passos, muitos passos. São milhares de passos! Aonde vão? Seria em qualquer lugar? Um lugar bom, quem sabe? A vodka já marcava presença, a fala mistura russo com brasileiro, alguns quitutes bem gordurosos adentravam o ambiente sem a menor cerimônia e o comício tomava rumo incerto. Tudo será permitido exceto o politicamente correto. Até porque não se sabe o que é ou será (seria?) correto? Nunca se saberá por certo. A não ser em cada mesa, com a sua guloseima adorada, com a sua bebida parceira, naquele momento único de incorretos.Graças a Deus! E mesmo assim há de se ter suspeita. "Tem gente na parada, porra! Vamos acordar de fato, sonâmbulos!
Roniquito vai despertando de um sono profundo. Aos poucos.
- Morri faz tempo e as coisas não mudam. Quero dizer, os nossos fetiches sado-masoquistas com fisionomia religiosa de saída e chegada. Sabe quem vai resolver essa crise, esse faniquito, para os mandatários elitistas ( nossos vizinhos ou sócios)? O bicho papão Argentino! Chegará todo paramentado com a sua guarda pretoriana e alguns dos soldados em lua de mel. Colocarão música sacra, provavelmente Haendel, ou se melhor gosto tiverem, Bach, O Sebastião abençoado. Subirão aos céus e eu lhes mostrarei, mesmo marginalizado por eu mesmo, um não-caminho. É profecia minha. De lá para cá. O que já é novidade! Ao menos uma canção diferente.
Imaginem que a soberania parece ter desaparecido no mundinho dos terráqueos. Naquele tempo, em que vivi, ainda havia uma ou outra dando sopa. Na porrada, bem verdade, pois os milicos não eram fáceis. São treinados para matar e possuem aquela hierarquia curiosa de um ficar sacaneando o outro desde lá de cima. Deve ser do céu que o mais graduado expele para baixo. E o que está mais embaixo não pode jogar para cima de ninguém. Mas funciona de algum modo. No nosso caso específico, uma situação grave de exceção, de governança, ou a moça- ex-guerrilha- toma decisões mais pontuais ou a casa pode cair. E pode cair sim. Quem garante que sim ou não? Só pelo fato do meu querer - e o meu querer de última extração não consegue nem atingir o seu alvo, e não conseguiu, mesmo e apesar, sobretudo, depois de morto- não querer por não querer? Ficou confuso? Pergunte às crianças que sempre querem ganhar todos os jogos, todas as vantagens. E não estão erradas ou certas. É assim que a máquina humana funciona, engrena. É capital, voraz. O negócio, as mediações, ou seja, fazer política, devem ser balanceadas, mapeadas, discutidas à exaustão. Para dar início a um longo papo entre sociedade e instituições.
De última extração? Que tal tratarmos cada linha que se escreve, cada caminhada, como se fosse a derradeira? Já imaginastes o Marcel Proust ( aquele gênio francês) dando voltas nos rascunhos de sua Procura? Uma boa tradução brasileira para sua obra, em 7 volumes? Escreveria pelos lençóis adentro. Travesseiros rabiscados e que valeriam uma fortuna hoje! A Celeste, sua cúmplice-governanta, teria tido muito mais trabalho. Mas o faria com prazer! Escreveu de certo modo, juntinho, aquela maravilhosa chatice. Lá do inferno- pois o céu é um saco de melancolias e lamentações- ainda não os vi. Tem que se fazer teste rigoroso para uma ascese desse nível. Não recebem qualquer um. Feito governador por esses lados. E nós, babacas outros, acreditando em representação. Para quem? Como? Imagine se alguém iria se indispor a me representar? Com que roupa? Essa mania em supor que pode haver no haver correspondência biunívoca, isto é, ponto a ponto, uma simetria absoluta entre a gente ( Há gente?), atrapalha muito. Aquela coisa que poderia nos completar: aquele menino, aquela moça, aquele cachorro quente......Um belo teatro isso sim. Aí pode-se conversar melhor. Contar uma história....
Então nos faz supor que o saco cheio a 20 centavos era muito arriscado. E os arrogantes - e pelo que se tem visto não podiam se arrogar tanto já que engoliram tanta mosca, abusaram-, a crer na representação, no ponto a ponto, no Papai Noel...Esse já vi.!Muda de nível toda hora. É de uma infidelidade partidária e no matrimônio assustadoras! Cara de pau, ô canalha! Ilude tanto crianças quanto assombrações. No Natal de Hum mil novecentos e noventa e nove fui punido severamente pois lhe chutei o saco vermelho. E ele, que me deixou sequelas equivocantes , reagiu e soltou a mão. Tomei uma porrada do Papai Noel!!! Constrangedor, no mínimo. ' Mas, muito bem feito'!- gritara uma beata com as mãos cheias de dízimos sacralizados.Olhava-me com tamanho ódio que quase me apaixonei. Ela tinha as suas razões.
E quem não as tem , não é mesmo? Estamos tão orientados, pelo que vejo na continuação de certos modos de vida, de pensar, que nos perdemos todo dia. E eu que sempre fui - com o reforço pela ponta direita, que ainda havia no futebol, do álcool-, tresloucado, mas não burro, permiti a invasão de um aparente nonsense , como se fosse possível não haver sentido; uma desrazão lúcida.
Façamos então um plebiscito para decidir democraticamente o que é ter razão, o que é verdade, certo ou errado Ou seja: uma suposta maioria e os seus votos válidos contra uma verdadeira maioria e seus votos de oposição, votos em branco, anulados ou não presentes. A tal da abstenção. E isso num pleito que é obrigatório e aplica sanções para quem não justificar o saco cheio, ou melhor , a ausência. Faz sentido os 20 centavos? Fará sentido mais um fracasso? Esse teatro burguês está enganando muita gente. Olha mais uma bomba de efeito boçal sendo atirada em qualquer coisa! Bum! Bum! Estupidez bélica.
Plebiscitos custam caro e o tempo pode não ser suficiente. Lembram do velho Ulisses Guimarães? Não o conheci por essas bandas e parece que o cadáver jamais apareceu. Será que é por isso que não o vemos vagando, flutuando? Seu túmulo foi um oceano inteiro. Seu crime foi a precipitação. Uma outra forma de arrogância. Além do que, esquecera que o Brasil é Brasil. Antecipou o plebiscito sobre forma e sistema de governo pois tinha, desde o tempo de MDB, fetiche em se tornar primeiro-ministro. Troço mais sem graça. Por que não uma sodomia científica feito Pasolini, feito o Marquês De Sade? Na região da Provence, França, o aristocrata francês e seus castelos assombram crianças e outros fantasmas até hoje. Ele nunca escondeu. Mais descente que o Noel. Bum! Bum! Pacíficos se organizam diante das tropas inibidas, envergonhadas. E isso é um perigo! Tropas também são treinadas para ferir, matar.Qual será a artificialização adequada para os rapazes belicosos descarregarem sua guerra interna e constante? Feito a de todo mundo.
Uma televisão acaba de mostrar fatos que não constituem novela patética. Saiu do ar. Por quê? Muitos falam mal , mas não trocam de sinal. Vejam! A moça está nua! O rapaz também! Agora são muitos! Seria um estupro? Pasolini liga e desliga a câmera. Posso vê-lo com clareza! Minha visão periférica contempla gritos novos: terceira, quarta, ndimensões, 'games' interativos, paridades entre parentes de fato, vínculos afetivos dissolvidos pelo simples querer e excesso no saco ( Até do Noel!). Cada um na sua. O mito do egoísta não é mau sinal. O problema é quando seu sintoma se fundamenta enquanto olhar e ação para o mundo. Cegueira, perversidade....Algumas das vicissitudes dessa postura velha. Fala-se então de egocentrismo. E aí não haverá parceria, associação.
A emissora oficial também liga e desliga seus interesses. Sempre foram palacianos! Independente se quem está com o diário oficial no colo está na extrema esquerda ou na extrema direita. Mao Tsé -Tung ou Ronald Reagan? O que importa é SOMENTE o nosso lucro. O Estado a nosso serviço. A sociedade civil - e sem ela não há possibilidade de conversa, existência de nação, estado de direito- a serviço do bem estar do Estado a nosso favor. Tudo invertido! E quando a sociedade se rebela - e ainda bem senão SOMENTE daremos bom dia para o professor doutor Sr. cachorro- essa minoria, muito competente em antecipar algumas vontades e chiliques da massa, entra em pânico. Feito a tropa inibida, acanhada. Imaginem que os cães da Polícia usam fraldas nesse momento. A cavalaria pretende indiferenciar o gás lacrimogêneo. O garboso garanhão usa colírio especial. Seu hormônio passa no teste enquanto antidepressivo. E dizem que é ótimo! Olha o cavalinho todo animado! Quatro patinhas que ressoam somente três. Seu trote exuberante.
De repente, o silêncio. O ambiente boteco fica sob suspeita. Reacionários com a cara coberta - mostre a sua careta ainda que feia- surgem sem humor. Não conseguem rir das mesmas piadas. São da turma da parana também. Enxergam conspiração em tudo. Papo de vitimizado. E diante disso permaneço paralisado. Somos tão maravilhosos que o mundo não nos entendeu. Pra que mudar hábitos tão seculares? Ainda que fósseis. A luz piscou e voltou. Não era Paolo. Seria iluminação de Rousseffs? A Presidência da República no Brasil detém muitos poderes. Efeito de um federalismo de mentirinha. Desde a Independência. Farroupilhas, Balaiadas, Cabanagem, Conselheiro, o Antônio.....
O copo, estetoscópio mimético de Roniquito, que carrega uma cervejinha ao invés de vodka ( tempos de nacionalismo) mexe-se. Sozinho, faz aquele som que parece do além. -" E aí moço? Já fechamos. A coisa ficou feia , mas agora está uma beleza. Olha só aquelas mulheres ali fora. Loiras, morenas, negras, gordas
, magrelas, sem partido'.- diz o garçom que botava mesa sobre mesa. Sem partido?- Indaguei. Então estão disponíveis?- insisti. O garçom sorriu riso largo, bonito, poucos dentes. Perguntei-lhe em perplexidade:
-Mas e os amigos de Roniquito, ilustríssimo?-prossegui.
-Amigos e Roniquito? Por aqui, pelo pouco que sei, por tudo que vi, SOMENTE o Sr. e o seu sonho profundo.
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