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domingo, 18 de setembro de 2011

Entre pipocas e balas.

Quisera fazer cinema.Desde pequeno se vai ao cinema.
Existe aquela liturgia de cinema.Pipoca,balinha e refrigerante são sujeitos de cinema.
Confesso que tentei driblar a tal liturgia e quase estraguei o filme.Sentia-me estranho,desconfortável naquela poltrona semi-vazia.Algo não funcionava.Concentração dispersa.Faltavam-me balinhas e pipocas .
Nunca mais tentei burlar o ritual.Só numa outra ocasião em que a sala do cinema presunçoso estava lotada,e o ingresso fora comprado nos acréscimos,a desgraça quase se repete.
Era um Sábado à noite.Lembro-me bem.Passados quase dez anos ,a companheira naquele dia eterniza-se para mim.
Sentamos numa fila conhecida como gargarejo.Horrível essa fila.Você fica com o seu pescoço numa posição de grau inclinado sei lá qual (45 º?) e se o filme for de ação ,movimentos de cena rápidos,corre-corre ,estás perdido.A não ser que o seu labirinto seja muito bem sinalizado.Caso contrário o mundo dará provas a ti que ele gira.
E graças a competência Copernicana e Galileana, a gravidade e outras forças nos mostram que alguns fatos existem e não precisam ser experimentados necessariamente.O desconforto desse gargarejo pode ser grande....Além da tontura pode haver censura,prisão e assassinato.
Contudo,havia outro desconforto.O filme em questão abordava tema e local que foram pesquisados por mim e pelo meu grupo de trabalho,durante um bom tempo.Quase sempre havia sol e nuvens a consolar por perto.
Tentativas em contactar o autor do livro , no qual foi baseado o filme, fracassaram.O autor estava em seu momento "deslumbramento pleno".Nem sei se pousou para fotografias eróticas,à época.Prometera conversa e não cumpriu.Queria retornar à casa de seus tempos de menino,onde haveria o nosso papo.A conversa então prometia,mas o efeito celebridade-vulgaridade interfiriu.
Mereço pois esse novo gargarejo!!
Nesse filme, porém, as bicicletas não voavam.Nos meus filmes idealizados de pipoca em pipoca as bicicletas são iguais aos ETs e alçam as alturas.
Já trabalhei com a falecida pantera Farrah Fawcett - aliás tivemos um 'affair' sigiloso- e dancei com Michael,o também morto Jackson.Participei de um motim com Brando e quis lhe falar do seu brilhante discurso para a patuleia em Julio Cesar,enquanto Marco Antônio.Teria sido proveitoso se não fosse a célebre arrogância Brandiana."Porra Brando,acorda,ou melhor,'Wake up man'!!"Você se acha tão brilhante e não passa de um miliquinho de merda - na frente do grande Julio César - e que vai se envolver com aquela cobra venenosa da Cleópatra.Logo ela,amiga de Michael,e que também morreu recentemente.E aqueles olhos hipnose-violeta....E você colocará tudo a perder!Começa por ali a decadência do maior dos impérios.Sou ocidental.Confesso ao chinês que resmunga.
O cinema e algumas de suas trilhas sonoras não me deixam sem afetação.
Taí um exercício analítico bem proveitoso.Aquilo lá é só um filme a mais.A incorporação dessa idéia pode nos salvar até no ou do próprio gargarejo.
Uma noite tentei.Simulei um pouco do exercício.Diante de um filme pesado,violento e excelente.Outro bom filme brasileiro.Amiga minha, e que aceitara o meu convite de ir às balas e pipocas ,levantou-se e foi ao banheiro.Estava nauseada.Afinal,flertara com Sartre por um longo tempo.Visto que demorava a retornar,levantei-me e fui lhe oferecer solidariedade de náuseas.Aproximei-me cuidadosamente da porta do banheiro das moças ,proibitivo porque desejado pelos homens, e lhe disse quase que num sussurro: " Calma.É só um filme a mais".
Após alguns segundos no meu relógio imaginário, a voz-resposta ressoa forte, quase uma soprano: " Vai tomar no c.....!!!!"
Depois dessa experiência,lembrei do artista genial que é Freud - gente como ele não morre- ao poder ouvir de um dos seus mestres,o hipnotista francês ,sem olhos violeta de Cleópatra,Charcot, ensinar-lhe sobre a magia do cinema da vida:'Teoria é muito bom,meu caro Sigmund, o que não impede que as coisas existam".
Feito a gravidade e o mundo.Girando entre pipocas e balas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mamãe está cozinhando

Um colega me lembrava sobre as confusões que a nossa prezada língua pode nos pregar.
A gente se esquece disso ,pois supomos que podemos nos comunicar pra valer.
Não sei tampouco se é vício de catequese antiga - com o perdão da redundância- ,mas a vontade enebriante de tentar convencer os outros de que aquilo sobre o qual estamos falando é também para valer,cega.
Queremos ganhar todas as discussões. Quando falo a um paciente,tenho que ter cuidado.Ele pode não ter noção alguma do que está sendo dito.E eu ,por aventura , e só por aventura de arrogância,tenho alguma?Aí,o moço silencia e eu acho que ele entendeu algo.Será?
A convenção estabelecida por nossa gente mais antiga de que aquilo que se diz é correlato biunívoco do que se vê é truque bem bolado.Mas é truque.
Temos que ter mais cuidado.
Indagava pois se aquilo que eu supunha enxergar era aquilo mesmo.
'Vocês tem que entender que isso é muito importante.Essa coisa esverdeada aqui ,bem aqui,diante do que chamo meus olhos,é verde mesmo'?
Nenhuma resposta me fora convincente,já que todos os que foram indagados olhavam-me como se estivesse lhes perguntando algo da ordem do absurdo.Repetia,repetia e nada.
Mas nada é o que mesmo?
Alguma resposta me fora dada.O fato da tal resposta não corresponder às expectativas minhas não quer dizer que estejam errados ,aqueles que de algum modo me escutaram.
Essa arrogância de reatividade é o que nos destrói.Juntamente com as vinculações amorosas de cepa cristã. E que nos fora dessas reações todas?
É extremamente difícil permanecer com certa frequência numa posição de menos afetação narcisista ,ou seja, numa postura onde os nossos gostos,nossos interesses,os nossos valores não interfiram.No pior dos casos, isso tudo que foi arrolado acima não só interfere como predomina.É o sintoma hegemônico.
E aí não consigo sequer sustentar a conversa sobre se aquilo lá que eu supunha enxergar era mesmo esverdeado.
Uma criança é uma formação inferior e que passa quase toda sua infância sendo humilhada.E é fácil entender isso,até porque os seus tesões,suas vontades,podem ser perigosas,deletérias para ela mesmo.Daí a tal repressão constante.Dependendo da frequência e da intensidade leva a todo tipo de neurose que bem sabemos.
Noutro momento,talvez mediado por mais uma confusão de línguas,o garoto me dizia entre sorrisos nostálgicos e sadismo peculiar, de quem ainda mantém um infantilismo indestrutível:' Tive uma infância muito feliz'.
Mas como?
Infância feliz?Isso existe?
Claro que sim.Se ele a disse ,ocorreu.
O fato das minhas recordações de pequeno mesclarem belezas e horrores não quer dizer que a de outrem não tenha uma média mais satisfatória!
Quando pequeno lembro,por exemplo,de viagens prazerosas e de partidas também bastante dolorosas.E as dores existiam pelo fato de que uma inadimplência de criança tem menores poderes.Tem lá os seus poderes,mas são pequenos em algumas regiões.Tal como podem ser gigantesco,os tais poderes inadimplentes, em outras.
Depois,os poderes vão crescendo e aí não vale mais culpabilizar somente outrem pela estupidez nossa de cada dia.Se bem que existe a variável fortuna ou sorte.Incidentes...
Mudei de cidade menino,sem querer.Frequentei igrejas ,do mesmo modo.Apaixonei-me pela primeira vez - fora aquela senhora mamãe - aos 14 anos.Não fui correspondido. E logo aquela filha da puta que me pediu ajuda ,num campo de futebol de salão,daquela superquadra da capital horrenda,com o meu skate exibido.Ela de patins e eu ,Romeo, de skate exibido.Não usava sutiã e pude ver os seus peitos.Lindos!!!Dias de banheiro ocupado por tempo indeterminado."Mamãe! Carlucho não sai mais do banheiro!!!!!!!!!!!!!!!!'- minha irmã única tendo ataques pelos corredores.
Minha irmã nunca gostou da minha nova paixão.Imitava o seu andar. E ela,a do andar imitado,tinha uma cadela Dálmata que se chamava Bianca.
A cadela ao menos gostava de mim.Abanava aquele rabo sempre que me via.Mas o rabo abanado que eu queria era outro.
Numa noite de Domingo (lembremos que o Domingo ,por causa do sintoma religioso pavoroso é a ocasião perfeita para se ficar deprimido), ficamos a conversar no parquinho recém inaugurado.Eu ,ela e um gorducho mais velho que se fazia de importante.Era o maconheiro oficial do pedaço.Péssimo aluno na escola,sua maior ambição era se tornar o maior maconheiro de todos os pedaços.Nunca mais soube dele.Aliás,dela e daquele repertório todo também não.
Aquela cadela certamente morreu. E aí não resta dúvida alguma sobre o que ocorreu e o que se pode presenciar e até predizer.A cadela,passados 30 anos ,morreu.
Os cachorros são assim.São mais simples e sabemos mais ou menos quando morrerão.Não criamos expectativas maiores acerca.Sabemos que muito provavelmente atravessaremos esse luto. A não ser que.....
Aquele coisa esverdeada,aquele carro verde,dentro do qual a moça que me encantei aos 14 anos voltava da escola ,todos os dias, a uma hora da tarde, era mesmo verde? Ou era só paixão e erro?
Ei!Mamãe está cozinhando!Tá bom ....Já vou! Quer ajuda?Não sei cozinhar.Não!!Você não entende! Ela caiu na panela e está realmente cozinhando!!!!Venha rápido,pois sempre será tarde e a gente não vai se entender ,por certo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tarde demais.

Meu nome é tarde demais.Aprendi que tudo é tarde demais.Quando achei que pensava, já era tarde.O tal pensamento não servia . E se fosse algo tão grave ,urgente?Tarde demais.
Então eis que me vi sendo um intensivista!Daqueles que trabalham enlouquecidos por atrasos demais.Quando chegam ali,os pacientes não deram conta que fora tarde demais para eles.
O lugar é triste feito velhice.
Na maca ao lado de uma parenta minha,uma senhora tremia.Nunca a vira antes.Olhei-a com pena.Na verdade ,tinha ódio dela.'Levante-se daí agora porra!!!Você já foi uma mulher, cacete!Vamos reagir agora,rápido!'! Acho que a minha expressão facial,encolerizada,assutou-a,mas acalmou-se um bocadinho.
Voltei meu rosto para aquela porta de entrada do semi-cemitério e a doutora pré-morte me olhou sem me ver.Tinha uma expressão cinzenta.Seu olho atravessava o meu.Quase apanhei o crachá disponível, à mesa sonhada, a lhe dar uma identidade.Seu nome era feito sorvete famoso: sem nome.
Certo dia,lá se vão duas décadas, disseram-me que parecia olhar de analista."O quê?Aquele troço sem vida?"
Isso faz parte de uma certa mitologia ridícula que insiste em permear o campo freudiano.Freud não era um boçal.Muito pelo contrário.Foi o maior gênio do seu tempo.Mesmo que algumas tolices foucaultianas tenham tentado lhe impor rótulos de confecionário,o tempo lhe dá razão.Cada vez mais.
Desisti a tempo desse intensivismo todo.
Não desisti contudo de pensar em outras tarefas.Olho para a destreza do meu dentista e fico perplexo,pois no seu lugar,mataria um.
Dizem então que é talento.OK,talento.Ta-len-to.Tar-de de-mais.Vamos bem.
Talento já foi bem definido por saudoso artista egrégio.Ele disse que o tal lento funciona bem para iniciar as coisas.Sem ele,você poderá jamais exercer certas funções.Com ele você poderá prosseguir.E essa sequência - e que inclui inúmeras formações outras,elementos,etc- é que importa.Sequência que significa seriedade.Fazer série.
Freud deixou claro que a significação do que quer que haja é só depois.MD.Magno,um dos seus mais caros discípulos,enfiou a estaca na ilusão de algumas denegações: ' É tarde demais'.
A primeira reação de um ex-pretenso intensivista é desistir.Misto de melancolia,depressão,covardia.
Já na segunda há um gesto de resignação.Vem de fábrica, tal incompetência.
Por certo, cachorro não padece disso.Tem tudo no lugar.Seu etograma é definido desde sempre.Seu cio é cíclico.O nosso é permanente,sem trégua.Não se sai de férias.Para-se um pouquinho,descansa-se um pouquinho e prossegue-se.E quando se prossegue,percebe-se que o descanso já chegou atrasado.
É assim sim.
No filme,'Longa jornada noite adentro',de Sidney Lumet, 'Too Late' ou tarde demais é misto de anjo-demônio, herói-vagabundo,amoroso-agressivo ,culpado-relaxado e assim por diante.Tudo no seu tempo,ou seja, tarde demais.
Ah! A velhinha do CTI se salvou.A minha tia não.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Onde você está?

Onde você está? Essa é a pergunta de agora.Substituiu o famigerado alô.Ninguém mais diz alô!!!.Quem é?Quem está falando?!Por obséquio,o fulano está?Essa é do tempo do sr.meu pai.Cansei de observá-lo a dizer obséquios afora.Tudo era obséquio.Um dia lhe perguntei: 'E aí papai?Como está o seu amigo obséquio?'Papai não me respondeu.Na verdade,ele me disse depois:"Por favor não me perturbe com suas chatices".Papai não estava de bom humor.Quem sabe obséquios a mais ou de menos,faltaram-lhe.
O telefone traz ,além da saudade cumpliciada, uma ansiedade que pode até matar.Aquele chamado que insiste em não acontecer.Você esperou,esperou e ...nada.Não houve retorno.Jamais haverá aquele retorno.Talvez se houvesse tido um distanciamento menos doentio do que saudades mal ditas, a expectativa se diluiria tal qual um toque na tecla mais próxima.
Distanciar-se é também perceber o quanto somos tolos e ingênuos a maior parte do tempo.Um telefone dito ocupado não é desfeita alguma.Ele só está dando bola para outro telefone.Quanta pretensão.E o tempo em que havia telefonista para fazer chamadas?E o tal do interurbano?Caríssimo!Minha mãe a viajar pelo mundo e esse mundo era um outro planeta.Era muito mais distante.Tinha medo ao viajar e pela viagem alheia.
Entretanto, há de se ter certa nostalgia dos tempos em que éramos tão somente tolos e babacas.Agora,há um narcisismo barato que,mediado pela mídia, modula comportamentos cada vez mais estúpidos, fascistas.
E a turma se recusa a distanciar-se um pouquinho.Olhar de lado,espiar mineiramente,suspeitar vez ou outra.Parece até que a famigerada democracia fez com uma rede de esgoto fosse despejada para todos os lados e direções ,sem muita contenção. Afinal,foram décadas de cala a boca.
Elegemos um papai ditador.Sim,elegemos!Ninguém se apodera sozinho.Esvaziamentos e boicotes anteriores nos enfiaram naquele hospício fardado.Nasci ,sem conhecer telefone algum,sob a égide do cajado assassino.E o mundo era aquilo lá,mas tinham coisas gostosas também.
Já acreditei até em televisão.Punha fé que o mundo todo estava ali.O mundo tão somente uma novela.E me apaixonei também.E depositava dinheiro ganho sem esforço num cofrinho ridículo e pretensioso,tal qual o seu mantenedor. Educação financeira em cabeça de incauto é isso.
As economias não foram suficientes para enamorar-me da diva televisiva.Quando consegui alguma grana relevante,ela não estava mais.Tornara-se outro personagem.Claro,seu idiota crescido!Ela mudava de lado,de pele,de sentido,frequentemente.E isso é o que nos assusta!
Confundimos flexibilidade,distanciamento,lucidez,criação,rebeldia,serenidade,reflexão,angústia e o que mais nos faz gente com maluquice.Até mesmo telefone que, não responde ou que avisa que aquele/aquela não estão no momento,corre risco de morte,de corte,de silêncio prolongado.' O coitado ficou mudo de repente'!Risco de se haver vivo.
Folheando a minha agenda de páginas saudosas,amareladas pelo tempo,descubro outras vidas de outros mesmos personagens.Com eles conversei por telefones a fio.Ouço cada voz como se fosse a primeira chamada.De minha mãe escuto uma sonoridade onomatopéica -e sei lá o que isso quer dizer- de alegria por falarmos.Restou esse som.
- Onde estás?Aonde fostes?
Falações que se movem.Só falações....

domingo, 24 de julho de 2011

Telefonei mais de uma vez mais.

Tentei.Liguei algumas vezes.Liguei algumas vezes porque não obtive resposta desejada.Resposta desejada?Que diabo-santo é esse?É tão somente o que você ,feito qualquer criança,quer aqui e agora e quero mesmo e pronto!
Já se iludiu,portanto está errado.Querer a resposta certa é no mínimo subestimar o que virá do lado de lá.Já antecipou resultado incerto.E todo resultado a priori estará incerto.Estará,realmente,errado.O resultado certo,mais ou menos aproximado do que se diz CERTO ,virá depois.Logo,estamos sempre em atraso com relação às tais ditas certezas.
Certezas...Ah! As tais certezas imprudentes que já levaram mentes brilhantes a crer até mesmo no número primo,nas razões do número de ouro de Fibonacci ,enfim,a Matemática discorrendo sobre as razões do haver.E todos caímos perigosamente nessas armadilhas da vida.São os tais narcisismos nossos.Infantis,por certo.
Quem ,afinal,não transformou hipóteses teóricas em saberes absolutos sobre a tal existência?Ainda que fosse ,tal tolice tão frequente,sobre a nossa existência,tão insignificante quase sempre,seria mais compreensível.A questão é que quando - quero agora ,desse meu jeito e pronto- toda essa tolice narcísica decide se estender ao resto do mundo....Aí a conversa acaba.Vira fascismo travestido de preocupação para com os outros.Catequeses....coisas dessa ordem.
Desisti algumas poucas vezes em continuar meu gesto de discar o tal telefone.Trabalhei,li alguma coisa,mas algo me pertubava.Afinal, em sete anos,jamais a tal funcionária me dera um cano.
Combináramos que por lá passaria para o almoço semanal.Prestaria o meu serviço de tanto tempo,isto é,pagar as contas,supervisionar as despesas,levar a grana para a sobrevivência da tia velha e desfrutar do almoço ,sempre preparado com esmero.
Há o tal "redial" no telefone.Usei-o novamente.Nada.Pensei:'Há merda no mundo'.Novidade!
Liguei para vizinha amiga a lhe pedir um favor.Pedi na verdade um obséquio.Que é um favor antigo.Retornei a ligação e ouvi de uma voz preocupada que nada acontecia naquele meu apartamento,herança familiar.
Decidi, pragmaticamente,ir ao local.Coração preocupado ,mas decidido.Há de se fazer o que se tem que fazer.E é agora e pronto.E do meu jeito.A espada está fincada nas minhas costas no momento.
Telefonei mais uma vez mais.Uma voz ligeiramente grogue respondeu coisas ininteligíveis.
Entendi que algo grave havia acontecido.Corri em busca de socorro.Arrombamos aquela porta sem alarde.Entrei primeiro do que as testemunhas que havia convocado." O senhor fez muito bem - disse-me o chaveiro arrombador.Há um ano atrás ,aqui mesmo na rua ,uma moça que trabalhava para uma senhora idosa,ao perceber que ela tinha morrido,ficou desesperada e tomou uns remédios para ver se apagava a si mesma também.Acordou quatro dias depois com os gritos dos parentes que estranharam a falta de notícias da idosa". Quase lhe agradeci pelo incentivo.
A cena era triste,patética.A cuidadora já não podia mais cuidar.Estava caída no chão.Suja,torta,balbuciando troços ininteligíveis.Ao seu lado ,uma idosa,minha tia ,em choque.
Um Acidente vascular cerebral a derrubara.Logo ela que cuidava.Mas havia o histórico familiar.A mãe,a avó ,por exemplo,também sofreram o mesmo mal.Fora a obesidade,a pressão alta,o sedentarismo de uma vida toda....E tudo isso porque era jovem.Somente 50 anos.Os jovens quase sempre são arrogantes.Fazem coro com Dali,um Salvador: 'Quem morre são os outros'.
Estavam ali, há doze horas, sem conseguir gritar por socorro.
Pragmaticamente,agimos eu e minha mulher,passo a passo.Fizemos o que tinha que ser feito.
Passados mais de um mês do ocorrido,escrevo essas memórias.Menos de duas semanas depois do episódio pavoroso,minha tinha,90 anos,não resistiu à mais essa provação.Morreu em casa,na sua morada-cadeira de um -expressão cunhada de um fato cômico- 'warm room'.
A que lhe cuidou por vários anos, morreu na semana seguinte à sua morte.
Inicio um novo momento em minha vida.Foram mais de duas décadas.Mais da metade do que vivi.Contudo, prossigo inquieto mediante telefones que se recusam a não manter o trato,o combinado.
Melhor resolver isso.E não culparei a companhia telefônica.

domingo, 3 de julho de 2011

Dizem que Roque Santeiro.

O último capítulo de uma novela brasileira do chamado horário nobre costuma mobilizar parte do país.Tempos em que dvds,computadores e outros apetrechos tecnológicos não estavam presentes no mesmo horário.A televisão à cabo também era plano futuro.Logo,milhões de patrícios divertiam-se diante do brinquedinho de hipnotizar que fora introduzido, aqui nos trópicos,no fim dos anos 60.
No início dos anos 80,uma novela censurada pelos "milicos doutos"chamada Roque Santeiro foi ao ar.O falecido escritor imortal - e que já morreu- Dias Gomes,e um outro menos conhecido então, e hoje já consagrado,Aguinaldo Silva, seus autores.Dias fora casado com uma novelista ,a mais famosa do Brasil, Janete Claire,também falecida,no início dos anos 80.
Não vi a novela toda,mas espiava vez ou outra o Zé das Medalhas,o Sinhozinho Malta,a Viúva Porcina que eram alguns dos personagens protagonistas.
O país vivia um trauma recente,nesse 1985/86,que fora a morte do primeiro presidente civil em 20 anos,ainda que eleito indiretamente.Curiosamente a idéia dessa rememoração também passa pela rua próxima da minha existência,Prudente de Morais,nome do primeiro presidente civil do Brasil.Mas aquele presidente eleito por um colégio suspeito,não tomou posse ,morreu e virou uma espécie de santo mineiro.
Retornando à tal novela, o seu derradeiro capítulo ocorreu numa sexta-feira de Fevereiro ou Março de 1986.Chovia muito enquanto Sinhozinhos e Porcinas ensaiavam o adeus final.Dilúvio na cidade maravilha e ruas já alagadas.Roteiro,afortunadamente, mais do que conhecido.
Tinha-se até a impressão de que o céu pranteava pelo fim dos heróis televisivos.
Naquela noite ,fui ao bar que frequentava,pois precisava de uma coragem etílica para o meu encontro,talvez derradeiro.Fazia duas semanas que conhecera uma morena lindíssima e que era menina -propaganda de um automóvel ,na praia do Leblon.A fábrica do automóvel patrocinava à época um campeonato de natação, na tal praia.
Parei o carro,sonado, e vi a morena que um amigo de então falara-me sobre.E ele não havia mentido.A moça era realmente belíssima.
Muito bem: telefones trocados,conversa amena,tesão em alta.Esperei duas décadas- chamadas semanas- a conseguir uma vaga na sua agenda.E a data em questão foi a fatídica sexta-feira do último capítulo.
Mesmo reconhecendo a concorrência quase impossível de ser transposta,arrisquei.A bela moça topou.No início ,tive a impressão de que não se lembrava de mim,depois pude vivenciar que não era uma questão de memória fraca.Não se lembrava mesmo.Assim assim corri o risco.Quem sabe não era mais uma maluquete dessas que, de tão solicitadas,já reconhecem que não sabem o que querem ao certo.
Duas doses caprichadas de caipirinha e fui desbravar os rios que cruzariam o meu caminho.O bar lotado com gente embaixo de toldos protetores contra chuva e chatos,parecia torcer por mim.Depois,entendi também que não era para mim,e sim para o Medalha ou o Sinhozinho do último capítulo, os tais gritos e sussurros.
Entrei no meu limitado carro e parti.Esse meu carro de então tinha fobia à chuva e friagens.Certa vez,na garagem familiar não acordava de jeito algum.Chamei socorro que tinha nome de herói:Touring. O socorro chegou e me disse:" Aqui ,por ficar próximo da praia,tem vento,friagem...Seria bom aquecê-lo.".
Surrealismos automotivos à parte,confiei nisso que não sabemos bem definir,a tal intuição,e não atendi ao mimo do ébrio mecânico.
Avançamos poças a fio.Passei uma ,duas,Praça da Bandeira Tijucana à frente,quarta poça,dez mil...AiAi!Cheguei.
Endereço na mão,rua escura,prédio austero.Interfonei.Olhei para o carro e ele lá estava:parado,pois cumpliciava cada momento.Naquele instante, perdoei todas as suas falhas de outrora.
Uma voz envelhecida respondeu:"Suba que a Ângela não está,mas volta logo".
Tremi e pensei:Como não está?!Será que tens idéia do esforço que fiz para cruzar rios e poças e praças e angústias e sonhos e tesões!!!Porra!!!Subirei mesmo assim".
O carro concordava comigo e ensaiou um buzinaço.Tive que acalmá-lo.
Porta aberta e a velhinha sorridente me convidou para o último capítulo."Venha ,venha!Sinhozinho e Porcina estão finalmente se entendendo!"
Sentei minha bunda naquele sofá velho,careta e austero.E lá estavam os tais personagens a rir da minha cara de babaca.
Esperei um tempo eterno.Aquele troço acabou,lágrimas rolaram,sonoplastia de fim de festa e eu e a velha ali...feitos dois babacas!
"Ela já vem -disse-me vovó.Foi ver o último capítulo na casa dos primos".
Na casa dos primos!!!!Caralho!Tem sempre uns primos na minha vida!E por certo são vascaínos!!!
A velhinha percebeu o horror que se apoderava de mim e ofereceu-me um café.Recusei,pois naquele momento um saco de vômito ou mais uma caipirinha seriam apropriados.
Quando pensei no suicídio ,pulando daquele segundo andar de prédio austero,a porta se abriu e a deusa surgiu vestida de branco.Mais parecia uma assombração!
E com o rosto com jeito de assombração ,olhou-me espantada e indagou:"Você por aqui?"
Antes que eu a mandasse tomar naquele lugar,peguei-a pelas lindas mãos e lhe falei simplesmente:vamos,por favor.Hoje, poderá ser o meu último dia.
Bravamente,carro morro acima ,estrada da Usina,agora morro abaixo,chegamos no bar-restaurante monarquista,Barra da Tijuca,face a face com a casa do pecado.Havia um motel que fora estrategicamente construído ao lado do tal restaurante que se chamava Vice-Rei.
Ex-amigo é que me alertara.Construa o clima e depois aproveite.Já que era mais velho,bonitão,experiente,acatei sua sugestão libidinosa.
Pedi aquele vinho branco horroroso,alemão,que podia matar até uma barata , e umas comidinhas.A deusa em frente.E eu ali,tentando agradá-la.Menti como nunca!Era o máximo naquele momento.Parecia até um nosso ex-presidente que ,segundo um grande pensador brasileiro,achava-se mais inteligente que ele mesmo.
Ela sorria,mexia nos cabelos.Tentei beijá-la,mas ela não deixou.Ficou corada na face.Pensei então:É tímida tadinha.Tenho que agir com prudência.
Conta fechada,carro aquecido,musiquinha no tocas-fitas de bandeja e .....nada.Traído de novo.
O carro não pegou ,nada de motel.Nada de nada.
O gênio da computação me atende de novo.Touring!Sistema de socorro mecânico eficiente à época.
Desolado,quase morto,ao lado do boçal ,douto em motores e fracassos, e da deusa, morro acima ,morro abaixo novamente.O elemento perfumado de graxa me pergunta:" Aonde vamos?".Não lhe respondi. Ele então perguntou:" Assistiram ao último capítulo da novela?".Quase o fuzilei com os olhos.
A mocinha quase muda ,decidiu posicionar-se:"Você poderia me levar para Tijuca,rua tal,casa da vovó".
Chegando lá,olhei para aquela beldade e senti o adeus do último capítulo.
O tal elemento condutor arriscou : " Para onde agora?"
Conheces o vão central da Ponte Rio-Niterói?
Tenho certeza que aquele veneno de quadris mágicos era uma assombração de verdades.Tal qual Roque Santeiro.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Um trem para uma estrela.

O metrô do Rio de Janeiro recebe um público diferente ,nas noites de Sábado.Ao que tudo indica , aos Domingos e feriados também.
Uma das características que podemos observar nos ditos sintomas esquizofrênicos é a extrema dificuldade em se lidar com a quantidade enorme de formações,de coisas ,que se apresentam e a quase impossibilidade em distinguir os seus diferentes níveis,as suas pertinências.São dados ditos de realidade ou não?Mas qual realidade,se as nossas fantasias são o que há de mais real?Nada tão real quanto o virtual!Esses caracteres digitados aqui são materiais também.Posso sentir os seus odores.
Não conseguir distinguir os níveis faz com que o esquizo se perca o tempo todo.E tudo o que há para ele é pura concretude.Não há deslocamento possível.É o que Magno Machado Dias chama dos diferentes níveis de reificação.Aquilo deixa de ser tão somente um teatro,uma metáfora construída e passa a ser concreto demais.Não se considera o fato de que foi produzido,articulado,mas que é um dado natural,espontâneo.Se você disser para o esquizo que fulano é uma mala,pode ocorrer que ele queira colocar algumas roupas dentro do tal fulano e carregá-lo para um aeroporto mais próximo.Mala é tão somente aquele objeto de carregar e portar coisas...até em viagens não muito distantes
.A labilidade que caracteriza qualquer língua ,e que nos faz modificá-la frequentemente,visto que não existe siginficante capaz de dizer tudo,de encerrar o papo e pronto!Não existe.Ainda bem
.Esse talvez seja o exemplo dado por um poeta.Ele estende as possibilidades de se dar sentido ao que quer que haja ,retirando-o,equivocando-o,através dos atos poéticos que não são somente palavras e verbetes.
Lacan sacou- assim como o gênio de Freud - que atrávés da língua ,do que chamou linguagem- e linguagem não se restringe à falação,poderíamos acessar o material do desejo nosso,recalcado e tornardo inconsciente,inacessível.A não ser através de algumas pegadinhas tais como: atos falhos,tropeços ou os sonhos tão confusos ou ainda sintomas mais diversos.E tudo tão diverso e confuso porque misturados feito festa de arromba.Feito esse texto.Feito esse trem de metrô.E quanto mais misturado e mais íntimo e mais desnudo mais um sonho que,por certo ,tornar-se-á pesadelo.
O problema é que Lacan- gênio do seu tempo e num país que afortunadamente respeita isso- estruturou demais o que é tão distendido.Ele fora leal a um certo freudismo e a filosofia que o cercava ( Hegel sobretudo e sua pretensão em dar conta de toda a história).E obviamente ,foi fidelíssimo aos linguistas de então.
E tampouco não é problema de personalidade múltipla,pois somos múltiplos.Estando esquizo ou não.De manhã tem até remela sonolenta.Já no decorrer do dia....
No decorrer do dia, pode-se pegar o metrô e contemplar essas novas cores,essa gente nova que eu ignorei por arrogância ou por receio.Sim,receio.Estou ficando velho.Igual a todo mundo.Igual a esse neném de saia curta que desfila venenos ,abraçada ao namorado com pinta de que não tem agenda de papel.De que não sabe que dia foi ontem.E eu sou de ontem também.E faço o que ele ainda faz e com algumas semanas à frente.E tenho agenda de papel. Pronto,falei.E adoro essa expressão que fora cunhada de uma princesa.Mas estou, rodrigueanamente e de fato,envelhecendo.E tem neném que subestimei,pois não respondia com outros significantes àquela solicitação que lhe fizera.E qual fora a solicitação?Um pedido para uma contradança?Uma salada mista?Quer dizer...Quem tem mais primaveras a contar beija-flores sabe o que significa salada mista!
Neném maldito.E cresceu e está linda!Filha da Puta!Aonde foi que cresceste?Quem foi o seu pediatra pederasta?
Todas as imagens e sons reunidos naquele trem moderno e cafona.E essa gente toda agasalhada pelo frio que vem lá de fora.Alguns dormem.Façamos silêncio,por favor.Mais uma estação.Mais uma leva de gente.Aquela outra parece sorrir para mim.Não.Ela é cega e se apóia numa bengala imaginária,porque real.E Lacan,João Maria,tinha razão.E nós também.Todo mundo tem um pouco de razão nessa maluquice cujo coração não se entende.
PIui,Piui,Piui....Onamatopéia do meu trem particular. E ele chega ao destino desejado.Desembarco e quase me perco.Porém,cheguei a salvo.Pragmático ,instalei-me.
O trem para àquela estrela cumpriu seu papel de trem.Êta trem bom!Taí a mineirice nossa deslocando dos trilhos os trens da falação.
E os sons de agora não me confundem ,encantam-me.Posso escutá-los um a um.E não me perco.Salvou-me novamente.