Marcadores

domingo, 15 de maio de 2011

Vida de obituário

Olhei para mais um obituário.Ali,procurei por ex-pessoas.Sim,figuras que não estão mais disponíveis.Estiveram e não estão mais.Contudo,existiram um dia.E isso é irreversível,assim como o seu não haver mais.
Aos 15 anos,preparava-me para o primeiro carnaval adulto-matinê.Adulto já que iria sem papai ou mamãe por perto.Matinê porque era vespertina a tal festinha de pula-pula.Na noite anteiror à festa, olhei pela janela e vi o amigo tirando o pó do automóvel recém chegado de presente.
Era um rapaz enorme ,bonito,péssimo jogador de futebol e generoso.Tinha uma daquelas bicicletas que os operários dessa época também possuíam.Chamavam-na de barra forte.Pilotei a barra forte algumas vezes e isso me orgulhava. Fingia que não entendia a generosidade do amigo barra forte para comigo.Sim,fingia.Era sabido na vizinhança- que se chamava superquadra- que ele tinha uma queda pela minha única irmã.Na verdade,o que o motivava ainda mais era a rivalidade, intencionalmente sustentada , com o amigo mais próximo.Grandão feito ele e que se enamorara da moça em questão por algum tempo.Tempos de cuba libre,Bee Gees,calça de jeans de botõezinhos,tênis americano,camisa Hang ten,revista POP de surf, Waimea e sonhos.
Os norte americanos que, viviam bem próximos a nós ,estavam com o estoque de narcisismo e arrogância nas alturas.Sacaneavam os vietnamitas e se ferraram no fim.Tomamos as dores da turma asiática e partimos para o confronto.Resultado: um ianque com a testa aberta mediante pedra perdida.Festa dos brazucas de calça curta.
Enquanto divagava sobre esse tempo,nessa altura se passaram cinco anos,ou seja,uma eternidade para quem ainda contava somente 15, meu amigo sumiu de vista.O carro estava sem pó e brilhava solitário.Lembro-me daquela imensa antena de rádio amador no pára-choque traseiro do veículo que ,levava o nome da cidade-capital.E ele se gabava por causa da antena.Dizia que se comunicava com o mundo afora.Algo inédito para o momento.O mundo afora era muito afora.Tudo era distante à beça.Gringo era gringo de verdade.Não tinha isso de globalizar por não sei o quê!Chinês e todo o bando comunista fechadinhos dentro e afora.
Quando meus pais viajavam para o exterior,faziam mais que viajar.Aventuravam-se no tal mundo afora.Interurbano caríssimo e sussurros saudosos.Eram tempos de mundo a descobrir.Segredos resguardados.Tínhamos medo!Será que voltam?Perguntávamos frequentemente.O cartão postal surgia com uma marquinha arredondada a lhe fazer quase que uma marca cenográfica.Tinha sido lágrima antes de se tornar mancha amarelada.
Na Itália,minha mãe chega no dia em que um Papa morre.Ela ficou acenando lenço branco e sussurrando que queria ver o santo-moço de qualquer jeito.Viajara de tão longe....Vinda lá do mundo afora e o sonho postergado.Quanto azar.
Anoiteceu.A expectativa aumentava com a idéia de um dia seguinte festivo.Vi televisão antes de sonhar.Era verão no resto do país,mas por ali a temperatura era primaveril.
Uma cigarra berrou alto.Talvez o companheiro tenha partido para outros bailes.A vida da cigarra é muito breve e ela procura aproveitar cada segundo ,pois será o último mesmo.E o último segundo já se foi.
Amanheço. Minha mãe aos prantos ,esconde o rosto.Minha irmã acaba de receber o telefonema que me diz que, nunca mais aquela cigarra e seu berro aflito se farão presentes.Na madrugada,agora eternizada, o pó,o brilho,a antena gigante,daquele carro-presente,do amigo gentil,sumiram para sempre.
Entardeci.No cemitério,primeira visita minha, não entendo.Vejo o horror na dor das três irmãs do amigo morto.O parceiro de aventura,com o braço imobilizado por um gesso,tenta se manter vivo.Sobrevivera ao acidente.
Meu primeiro carnaval considerado,nunca houve.Ao invés de marchinhas,o Grupo de Música Estadunidense Alan Parsons Project e o seu 'Time".Tempos de vitrola.
Folhear o obituário é lembrar de Lamartine. O poeta francês nos alertou que o livro da existência não se pode ler duas vezes.
A barra-forte-bicicleta foi doada.O amigo fez testamento,aos 19 anos.
Manipular o obituário de hoje,trouxe-me o seu sorriso de volta.O carro botou a poeira lá pra frente,mundo afora.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Tempo não pára.

O que tenta fazer alguém que escreve?Descrever coisas,acontecimentos,inventar invencionices,fantasiar,mentir,corromper,catequizar,tão somente sonhar com letrinhas?
Por que será que a literatura entrou em franca decadência nos últimos tempos,salvo raras exceções?Que tipo de poema se escreve por esses dias?Noutro dia rimava-se tumba com bunda e achei divertido tal ousadia literária.Seria um poeta? Seria uma praga?Seria um hacker invadindo nossos sistemas sensíveis?Imaginem o Sr.Marcel Proust ,com alergia e tudo, a descrever num laço de fita,de uma certa madame francesa,toda alma que se preza? E ele o fez.Ainda que chato- desculpem-me os Proustianos convictos,e a mais ilustre das Proustianas para mim ,infelizmente, já não há mais- ele conseguiu.Se não o tivesse feito,morreria sufocado.Ainda que rico e em Paris.
Já na Paris do hemisfério sul,pura pretensão carioca, um grupo de meninos e meninas se encontram.Reencontram-se depois de décadas.Atravessaram parte de um sonho sem compartilhar intimidades.Vez ou outra trombavam em algum Alasca do Globo a dizer tão somente Adeus,até mais...."How are you,darling'?
Os meninos e meninas cresceram desde então e geraram outros meninos e meninas que também crescem.Até quando vai essa maturidade toda?Fruto maduro costuma cair.Faz parte da vida dos tais frutos.
Eles estão no recreio agora. Há uma lista que conclama pela presença.Quem não está,também está.Incrível!Onisciência explícita.Meninos e meninas permitem-se sonhar sem culpa.
Tudo o que importa é não esquecer de mais uma lembrança.De qual época?De agora.Foi ontem que eles disseram o penúltimo até logo.
A posteridade efetivou-se em mais um flash da máquina moderna que traz uma ruga desgarrada mais para perto da nossa dita realidade.E o tempo ,tão consagrado, não somente não pára,mas parece - até que presentifiquem ao contrário- que ele também não existe.

domingo, 24 de abril de 2011

A porta do vento

Giuseppe Tornatore é um dos cineastas mais importantes do nosso tempo.Desde Cinema Paradiso,realizado há mais de 20 anos e que lhe deu um Oscar,ele persiste com a sua poesia de imagens.
A porta do vento(Baaría) é o seu último filme.Realizado há 2 anos,mostra-nos a história de um pequeno e sua família e seus amores e seus entraves e suas guerras,numa Sicília dos anos 30 até ontem.Desde Mussolini e seus facistas de então até o Sr.Berlusconi e os fascistas contemporâneos.
Os Italianos são engraçados quando não são patéticos.Aquele dramalhão todo,aquela gritaria familiar - e que parece exportada para América Latina inteira- são um retrato meticuloso do que por lá se pode encontrar.
Minha primeira ida à Itália aconteceu recentemente.Calcei as suas botas e visitei alguns lugares.Partindo da capital,exuberante, onde o Inconsciente se apresenta nos monumentos a céu aberto - você sai de uma avenida de ontem e chega ao Coliseu ou às termas romanas -aos encantos florentinos - potência política e artística por séculos-ou ao Sul e os seus contrastes e hospitalidade;Itália é sinônimo de encantamento perpétuo.
É por isso que acho que não estava tão longe de casa assim.Sobretudo ao Sul- e me parece que Tornatore vem de lá- somos muito próximos.Sem falar da língua latina que nos envolve.Os rostos são parecidos.As angústias se aproximam.Os velhos também são bem velhos.
Não é à toa que São Paulo é a maior capital de italianos fora da própria Itália.E a maluquice católica nos atingiu em cheio também.
Tornatore costura tudo isso e nos traz à retina 2 atores - uma atriz e um ator - muito bons,além de belos.A moça,bem jovem, lembra Sofia Loren.Aquele rosto de quem não faz outra coisa a não ser nos seduzir a todo momento.Ela quer nos convencer de coisa alguma, e não conseguimos a sublime indiferença diante daquilo que é nada.Tomamos partido.Viramos socialistas,comunistas.Por que não Sofia Lorenistas e suas discípulas?
As crianças-personagens parecem nascidas num ambiente cinematográfico,tamanha a espontaneidade ,a desenvoltura com que trabalham.Obra de bom diretor.E ainda temos a Mônica Belucci....Ufa!
O que quero dizer - e não faço crítica ,pois sou somente um voyeur cinematográfico- é que calcei aquelas botas e corri por aqueles cantos com direção incerta.O meu GPS tinha às vezes 5.ooo anos e não se perdia. E se por aventura se perdesse,pronto!Perdeu-se.E daí?
Tudo não passa de sonho no corre corre desvairado das nossas pernas curtas.As botas por fim nos protegem do pisar cruel de uma lembrança que carrega 10mil anos em apenas uma vidinha de pernas curtas.Que sopre o vento.Bate-se mais uma porta.

domingo, 10 de abril de 2011

Na Escola.Tintas e armas.

Numa escola do Rio, um moço que, permanecia paradinho na sua própria infância,abriu fogo contra adolescentes e depois atirou contra o próprio corpo.Ali ele estudou por anos.Morava no mesmo bairro,um dos mais quentes da cidade, e não gostava muito - pelo que relatam aqueles que o conheceram- do convívio com gente.A não ser para lhes dar uns tecos. O cenário para o horror ,instalado após o fuzilamento que tirou a vida de 12 adolescentes, prossegue. A quantidade de tolices e imprudências que se diz na persuasiva e abominável mídia é de estarrecer. Inventaram o trauma "a priori" e foi reaberto o arquivo de xingamentos nosográficos - aqueles manuais psiquiátricos ,repleto de casuísticas e que pouco esclarece - a fim de se estabelecer uma certa lógica para o evento.Esquizofrenia foi termo- e até já foi conceito decente- apareceu à beça.É simples assim: não sabe o que é ou como funciona aquele processo,aquele sistema,aquela complexidade toda,sapeque um Esquizo tal que o pessoal do mundo se acalma.Os tais Esquizos não.Eles sapecam suas armas.E elas podem ser diversas,mesmo quando miseráveis. Por esses lados dos trópicos, já foram fuziladas crianças que dormiam na porta de uma igreja,famílias inteiras chacinadas,maníacos nos parques a estuprar mocinhas que só queriam uma sacanagenzinha na Floresta e por aí vamos.... Somos um país muito violento.Para se ter uma idéia,nos Estados Unidos ,onde as armas podem ser compradas livremente em quase todo o país, ocorrem 15 mil mortes anuais ,em média, por armas de fogo. No Brasil,onde é proibida a venda das mesmas,ocorreram 50 mil mortes violentas no ano passado.A maioria atinge jovens e até crianças.Política de extermínio? Certamente que não...... Alguns afirmam que há uma guerra civil por aqui.Não.É pior.Numa guerra civil existem áreas demarcadas de conflito.Nossa área de conflito é a cidade toda.Certa vez, retornando da Cidade De Deus, antes da fama da God City e bem depois de Agostinho, ao chegar no Leblon ,bairro nobre,quase fomos assaltados violentamente,uma colega e eu.Quase rezei ateísticamente,só com fé portanto,ao Santo João Ubaldo Ribeiro,que por lá reside maravilhas. A Cidade de Deus não tem bom retrospecto em termos de segurança,civilidade,desenvolvimento e quetais.Porém,nunca fomos molestados por lá.Vez ou outra uma metralhadora entoa canto próprio,mas nada é mais normal. O tal moço entrou e fuzilou os seus colegas que ele jamais viu.Mas ele se lembrava mesmo assim.Um gordinho lhe implorou para que não o matasse.Foi atendido.Gordinho,viado,gente feia,careca e outros tais eu poupo!!Parece que gritou algo semelhante.O Maluco então - como muitos de nós- era racista!! Uma imagem me congela.Era uma avó.Ela serenamente está em choque.Perdera a neta no tal atentado.Achei que a tal senhora,cujas rugas e marcas na face apresentam tempos de sofrimento,tivesse acabado de chegar de um terremoto japonês,tamanha a sua sutileza. Ela responde às perguntas de sempre,pois o roteiro caducamente se repete.Diz que Deus sabe.Só não disse o que ele sabe.Aguardei pelo segredo jamais revelado,afinal o Tal Deus proclamado é onisciente.Seria sádico?Seria racista?Teria ele perdoado o tal matador?Era esse o seu destino,o seu desígnio?E se Deus não gosta de criança?Ou então está morrendo de medo dessa gente que somos nós e resolveu sequestrar as criancinhas com ele? Deus pode ser pedófilo?"Mamãe !!-eu gritava; Por que a terra treme tanto e as co isas caem e morrem e se quebram e não voltam e se sofre e se vive?'. Mamãe me achava esquisito desde sempre.Nessa hora eu virava filho só do meu pai. "Responde lá para o seu filho que ele hoje está inquieto"- dizia mamãe ao papai inábil. Um dia fui para escola.Não queria.Coloquei o termômetro no forno e entrei para o livro dos recordes: 60 graus.Mamãe disse que eu estava morto.E eu vivinho...Passei a ficar com raiva dela.Fui para o colégio ,mas lhe avisei: "continuo vivo e parto para guerra.Nem você poderá me deter,pois me enganou o tempo todo.Se quem me trouxe foi uma marginal de uma cegonha sem rosto ,nome ou endereço conhecido,e não você,estamos rompidos".A moça riu.Nunca vi uma cegonha sorrir tão lindamente. Cheguei no colégio e apontei a minha arma.Pronto. Misturei todas as cores nos copos possíveis com os pincéis trocados.Guerra,guerra,guerra santa! A sala vazia a espera dos alunos para a aula de artes.Já que é arte,fiz a minha.Sacanearam-me na semana anterior em que o termômetro foi um aliado fiel e menos estabanado.Faltei sim e não nego.Só por isso tiraram o meu lugar na mesa acolhedora.E ali estava aquela moça linda com nome de flor: Maria Rosa.Uma das primeiras punhetas e paixões.Era essa a ordem afetiva? O irmão da Rosa ,talvez um Lírio,tournou-se cumplice em outras peraltices.Queria me aproximar dela e não dele.Ele não desconfiou e ficamos amigos.Convidou-me para o seu aniversário.Uma casa adorável na rua Nascimento Silva,em Ipanema,bairro bacana,até nasci bem perto.E estou careca e esse meu ex-amigo é gay!! Faz tempo inclusive que por lá só se adoram os edifícios.Uma pena. Chegando na festa , eu a vi com outro.Quase morri,quase os matei.Na verdade,eu os matei.Senão não estaria aqui escrevendo sorrindo sobre isso.E eles? Acho que se casaram e são infelizes,graças a Deus. Ninguém me escutou.Agora estão -onde nem a vovó consegue ainda me dizer-, arrumando as cores que mal enxergam.

domingo, 3 de abril de 2011

Gota d'água.(Em tempos de Tsunamis)

Uma Gota D'água foi tema de redação num vestibular.Um aluno,bastante inspirado ( e sabe-se lá o que isso significa) ,deslocando a ansiedade que lhe ,por certo acometia,respondeu: ' E nela eu me afoguei". Recebeu a nota zero. Nunca entendi muito bem os critérios de avaliação da turma que julga certos concursos.Parâmetros pouco flexíveis.E eu ia quebrando a cara em todos eles. Na época do meu vestibular,e aquilo foi horível,pois ofertei poderes demasiados a essa babaquice tipicamente brasileira,sofri à beça.Na tal da família minha a cobrança sobre esses fatos eram cruéis.A gente adoecia,passava mal,sentia-se estúpido mediante alguma fracasso.Era quase uma humilhação.Se bem que sempre existiram aqueles menos doentes,capazes de um desvio pra lá ,acolá.Admiro essas pessoas. No primeiro exame,em que a febre alta me perseguiu em todas as avaliações,lembro-me da reação do meu pai diante do resultado não desejado:balançava a cabeça em sinal de reprovação,e não quis muito papo.Minha irmã que,experimentara algo semelhante,acompanhou-me ao clube ,à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas.Lá,permanecemos sentados e eu fiquei um longo tempo olhando aquela gota d'água imensa. Frequentara à beira daquela lagoa desde sempre.Fui moleque travesso de calça curta e sonhos longos.Jogava pedras ao longe para não machucar. Uns gatos desgarrados nos seduziam - a mim e aos outros pirralhos- e lá íamos nós atrás da caça.Jamais tocamos num bichano qualquer ,mas o sem jeito,a pouca prática - expressão maravilhosa cunhada de uma loteria humana que ganhei na vida- de alguns fedelhos,fez com que um incidentezinho ocorresse: um garoto caiu na gota d'água.Escândalo. A deslumbrada da mamãezinha dele teve um ataque ,não ficou somente à beira ,e eu fui responsabilizado pelo fato.Era tido como o chefe do bando,ou seja, era bastante importante para o meu meio-metro. Lembro-me dele todo ensopado,o tal garoto. E ele estava feliz e me agradecia com os olhos azuis.Enquanto isso a senhora minha mãe me passava uma descompustura pública e prometia a ela mesma que não me levaria mais a nenhuma festa."Você não sabe se comportar"- dizia mamãe.Momentos de felicidade que existiram em dias de festa. Não fora preciso tal promessa existir,já que um ano depois fomos exilados no Planalto Central para uma temporada que parecia não ter mais fim. Tudo isso me acossava naquela tarde de céu límpido e águas serenas de um verão carioca,fim de tarde,na verdade,fim de mundo para mim.O mundo havia terminado pela segunda ou terceira vez .E agora?O quê fazer com esse mundo que terminara novamente? Aquela gota d'água inteira na minha frente e eu sem me afogar com o mínimo de elegância.Afinal,tinha mamãe na parada! Não sabia nadar direito e o passo adiante não vinha.Se bem que...o que faço mesmo direito? Há gente tão pretensiosa no mundo que cursa até.... o Direito. Eu que sempre fui "maladroit",uma espécie de Mr.Bean carioca,cursei faculdades erradas.E na errância, a gente até acerta.Ainda que sem querer.É a tal da sorte,fortuna,paranormalidade,magia,lá sei. Creio que dei meia volta ,ao lado da irmã, e retornei.Um papel ,agora tela em branco, aguardava-me.Rabisquei algumas coisas,outras letras,mesmo troço.A gota d'água e eu somos coisa só.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Meu primo primeiro,primeiro primo.

Meu primeiro primo ficou grisalho e usava bigode.Estava deitado no seu último leito e o surdo do ritmista da escola de samba ressoava em algum canto ,naquele Domingo nublado,garoa à espreita,São Paulo,orgulho do Brasil, a pulsar.E eu ali a sepultar o meu primeiro primo.
Algo terrível me dizia que ele,cuja doença fora descoberta há 2 meses,não completaria o reinado de momo ,nesse 2011.Reinado que veio tarde,em Março,quase no fim de sua estação favorita.Estação favorita para o tal do carnaval,uma festa que ,muitos distraídos ,esquecem-se que é de cepa religiosa.
E eu tinha razão.Essas coisas que identificamos porque nos afeta de algum modo,até por experiência ou no pior dos casos um mero delírio, e que não sabemos bem nomear ou definir melhor as suas formas,a quem finalmente podemos dizer ....intuições.Ele está morto!E está presente ,o que chamamos de carne e osso,pois eu ainda passo a mão no seu rosto frio e nos seus cabelos ,sempre impecáveis.E é só por isso que insisto em dizer que ele permanece em carne e osso para mim,ao menos.
Seu caixão é simples justo porque foi um príncipe.Um príncipe que, tal qual algumas monarquias,recusou-se a mudar de lado,a reconhecer novos tempos,novas tecnologias,novos vínculos. Transformou as ferramentas de conhecimento ,as quais dispunha ,em crença,sacralizando-as.Elas passaram a não apertar as porcas do armário que ,na cozinha pequena e repleta de delícias,pois tornara-se um bom cozinheiro,insistia em não abrir e fechar -como se diria?-, corretamente.
Meu primo primeiro era muito religioso,católico.E eu um ateu.Ateu? Será que isso é pra valer?
Aprendi com o meu mestre que infelizmente não vivemos sem uma ideologia qualquer.Nossas metapsicologias,ou seja, nossas teorias,tais como ele enfatiza,são os nossos olhares e percepções e intuições e saberes sobre as coisas que aqui hão!Contudo,elas somente são ferramentas, isto é, a nossa visão de mundo, aquela teoria sobre algo.Aplica-se ou não.Serve ou não.E tem prazo de validade.E pode nunca funcionar.Ou porque estava errada ou porque estava certa,na hora errada.Já aconteceu muito,desde sempre, e gente maravilhosa foi parar na fogueira.'But"....fogueira não é São João?Festa Junina...
Meu primo se crismou aos 60 anos ,aliás aniversaria em Junho,e eu nem fiz a primeira comunhão ( Graças ao generoso Deus!!).
Ele me levava ao cinema na matinê ,fosse no falecido Cinema Pax,em Ipanema,quando estava de passagem nas suas incontáveis visitas ao Rio,fosse no Gazeta,Gazetão ,Gazetinha,na Avenida Paulista,no prédio da Tv Gazeta,em São Paulo.O famoso 'PlayCenter ,um parque que veio concorrer com o Tivoli Parque Carioca,os encantos de Sampa....Eram muitos os brinquedos.
Crescidos,viajamos.Jantávamos naqueles restaurantes que ele bem conhecia.Visitávamos exposições lá e aqui.Ele adorava passear no Centro Antigo da cidade maravilha.Algo que prezo muitíssimo também.De preferência sem muito calor a nos acompanhar...
Seu primeiro e derradeiro bigode grisalho me guia aos cartões postais.Sim,os cartões postais.Eles chegavam de todos os cantos do mundo,desde 1971, quando iniciou,ainda muito jovem, os seus périplos mundinho a dentro,mundinho de fora.Não havia "computers or cell phones" e eles chegavam.E a gente podia tocá-los e nos encantávamos com as suas aventuras.Viajei muito sem sair do Brasil,naqueles tempos de cartões postais do primo andarilho.E era um orgulho pra gente."Imagina! Acho que gritei para minha mãe,uma espécie de segunda mãe para ele,que o maluco está na União Soviética e a KGB pede identificação no saguão do hotel para aquele moço solitário do Brasil"!!!AhAhAhAh!!! Seria o Putnin a lhe exigir documentos?E a radiação em forma de veneno ,não lhe fora ofertada?Primo de sorte!!
E as viagens eram assim:solitárias quase sempre.Mas quando retornava,ao descrevê-las ,voltávamos a passear e a sonhar.
As perdas foram doídas e creio que não superadas.Os pais,a minha mãe que ,era sua tia querida,uma amiga que desistira de viver e aquele trabalho da vida toda.Doenças séria foram curadas,mas ....existem outras formações que esquecemos de computar.Estão recalcadas ,mas em potência.Recalque não é morte.Mas pode levar pra lá ....que não há.
Na última vez que nos vimos,foi naquela tradicional Pizzaria, nada mais Paulistano,da Pamplona,nos Jardins de Sampa.Faz dois anos e ele estava triste e cansado. Do quê?Da aposentadoria quase mortal? De tédio? De sabedoria no seio da estupidez?Daquela obra naquela cozinha?Continuava elegante e barrigudinho.E tinha um humor refinado.
Frequentador assíduo da Sala São Paulo e de seus concertos maravilhosos,comentara sobre o recital da semana passada."Ontem,disse-nos,não houve porque estamos na folia de momo".
Não haverá folia de momo hoje.Tampouco recitais.
Ao meu lado,fitando aquele rosto tão nosso ,está um Argentino, gente ótima ,que,na nossa infância,desafiara-me para um duelo.Ele,Argentino recém chegado,era arrogante.Parece até pleonasmo......Duelamos na sala da casa da tia da vida toda,ainda bem viva aos 94anos,do meu primo primeiro.Tínhamos oito anos de idade,o rapaz que falava castelhano e yo.
Meu primo se formara em Direito ,na USP.Foi um dos melhores alunos da sua turma.Era o dia da sua festa de formatura.E do meu duelo particular.
Então,antes que as digressões me atrapalhem mais ainda, relembro o Brasil-Argentina primeiro de minha vida.E eu insisto em chamá-lo de Frederico.Mas é Federico! '!Meu nome é Federico,seu agora careca!"Imaginei um "nuevo" duelo por vir.
E o meu primeiro Brasil e Argentina foi o último a lhe falar e rir,à beira da cama de um Hospital,numa cidade com nome de outro santo: dessa vez Santo André.Tornaram-se bons amigos.E parece que com o tal Santo também.Fora diplomata na alma e havia se crismado,há pouco tempo.Dizem que apreciam esses gestos, lá no reino deles.
Inicio agora o meu pranto derradeiro à memória do meu primo primeiro,primeiro primo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Escurinho de cinema

Admirável mundo novo e sua gente que desafia opressões climáticas,desgastes da célula -preguiçosa para se mover, e que quando se move traz a morte como convidada-e que persiste.
Ali se deslocavam sorrisos cansados.Em cada ruga uma travessia de décadas.Quantos filmes já assistiram? "Ah! A mocinha me lembra a Audrey Hepburn"- disse uma dessas pessoas.Eles resistem ao Home Theater doméstico bravamente.
Nada substitui aquela pipoca deliciosa e aquele maldito barulho de saco de pipoca.
A sala torna-se breu e imagina-se o ruído do rolo projetor.Nada.O rolo está de acústica nova.Virou modernidade da tecnologia.
Começa o filme e a gente passa a fazer parte daquela história ,daquele delírio.E a gente sabe.E a gente gosta.E a gente faz questão de se iludir por umas 2 horas.O que é bem melhor do que a ilusão diária de décadas.
E eu que conheci Audrey e suas maravilhas penso saber logo o fim da história.Contudo, o cara que dirige o tal filme é bom condutor.E os atores não sabem.Eles,simplesmente, fazem.
Acabou,luz acesa.Silêncio.Cada platéia,um personagem."Será que ela morreu no fim"?
A mesma senhora,rejuvenecida depois de mais uma travessia,indaga.
Pouco importa.Semana que vem a gente inventa outro.Cada um que invente o seu.