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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Escurinho de cinema

Admirável mundo novo e sua gente que desafia opressões climáticas,desgastes da célula -preguiçosa para se mover, e que quando se move traz a morte como convidada-e que persiste.
Ali se deslocavam sorrisos cansados.Em cada ruga uma travessia de décadas.Quantos filmes já assistiram? "Ah! A mocinha me lembra a Audrey Hepburn"- disse uma dessas pessoas.Eles resistem ao Home Theater doméstico bravamente.
Nada substitui aquela pipoca deliciosa e aquele maldito barulho de saco de pipoca.
A sala torna-se breu e imagina-se o ruído do rolo projetor.Nada.O rolo está de acústica nova.Virou modernidade da tecnologia.
Começa o filme e a gente passa a fazer parte daquela história ,daquele delírio.E a gente sabe.E a gente gosta.E a gente faz questão de se iludir por umas 2 horas.O que é bem melhor do que a ilusão diária de décadas.
E eu que conheci Audrey e suas maravilhas penso saber logo o fim da história.Contudo, o cara que dirige o tal filme é bom condutor.E os atores não sabem.Eles,simplesmente, fazem.
Acabou,luz acesa.Silêncio.Cada platéia,um personagem."Será que ela morreu no fim"?
A mesma senhora,rejuvenecida depois de mais uma travessia,indaga.
Pouco importa.Semana que vem a gente inventa outro.Cada um que invente o seu.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Napolitanas

Napolitanas
Abri a janela e do alto daquele prédio,recém modelado, avistava as pessoas estrangeiras que se moviam.
Na cidade napolitana ,cuja má fama por vezes não lhe faz justiça ,os pedestres se movimentam caoticamente tal qual gente de toda parte.
Fazia frio. Gosto do frio. Considero o inverno,sem maiores exageros térmicos ,uma estação de pessoas civilizadas. E nós brasileiros mantemos um bom hábito,mesmo no inverno, que é o de nos banharmos cotidianamente. Brasileiro é bom de banho. Herança de índio. Não gosta muito de lavar as mãos,mas as partes mais abaixo recebem sempre atenção devida.
O pior nesses momentos gelados é cruzar com alguns estrangeiros do leste europeu que parecem chegados de uma era glacial e com eles a carregar o odor de alguns dias ou semanas sem se banhar. Todos tão elegantes em seus trajes pesados e fétidos. E aquela língua que eu nem sei ao certo se vem do Leste ou Oeste,mas que agride os meus ouvidos. Seria porque aquilo ressoa mal,esquisito?Ou porque a desconheço? Narcisismo ofendido?Não. Acho-a feia mesmo. E não é tampouco por não ser uma língua latina,pois gosto do inglês. Considero aquilo abrupto,gélido e seco feito as tundras que lhes cercam.
Mas o estrangeiro aqui sou eu e eles,que estão ali embaixo da sacada do quarto do meu hotel,já perceberam. Reparo nos olhares que lançam sobre a minha carne, e mesmo tentando seduzi-los ao pronunciar frases em seu idioma ,não os convenci. Sou estrangeiro. Além do que ,eles mantém um dialeto próprio,singular,do qual se orgulham. O resto do país não.
Na condição de estrangeiro me deixo captar por aquele senhor já idoso que anda cabisbaixo,casaco pesado a vestir,falando para o ninguém. E o ninguém até que tentou lhe responder,mas ele ,passos apressados ,apesar do tempo percorrido,prosseguiu. Estaria triste?O que faria daqui a pouco?O que teria feito desde então?
Atravessei o oceano por cima e agora desejo saber sobre a vida de um senhor andarilho que passa. Era um senhor grisalho,cabisbaixo. Esqueci de alguma coisa por relatar?Sim. O senhor em questão carregava um jornal amassado e um guarda chuva .E para quê?Faz sol,apesar do frio, e a temperatura está agradabilíssima. Vai ver que ouviu algo no noticiário matinal e se previne para o fim do dia, para o fim do mundo. É comum que funcionários da aeronáutica italiana discorram sobre o clima nos canais televisivos. E sempre fardados. Deve ser fetiche de telespectadora. Porém, a imagem do moço fardado a contar histórias sobre nuvens e frentes quentes e frias impressiona a quem se acostumou a ver belas mocinhas e suas saias ensolaradas a fantasiar meteorologias. Somos carnavalescos.
Esse senhor pode ser um homem sábio e sabe muito bem sobre os perigos climáticos,sobre os chiliques de um vulcão. O Vesuvio ,ali bem pertinho,não morreu ainda.
Agora,eu o perdi de vista. Teria virado pedra feito seus antepassados em Pompéia? Mas quem garante que ele tem antecedências em Pompéia? Quem garante que ele não é tão estrangeiro quanto eu?Será que ele virou algum Deus?
Ah!Lá está o desgraçado. Bem na esquina onde repousa um Café chamado ...Brasil. Quis o haver e alguns dos seus caprichos que diante do hotel existisse um Café chamado Brasil. Só de pirraça não passei sequer na porta,mas ele há e o velho também. E continua ali. Olhando para os lados e torturando ainda mais aquele pedaço de jornal,agora um trapo. Bebe alguma coisa e gesticula. O ninguém,que é quase tudo o que está a sua volta, parece lhe dar alguma atenção. Pouco importa.
Sumiu de novo. Agora, acho que para sempre .Cansou até mesmo de mim e desse voyeurismo impertinente. Não o vejo mais. Talvez para nunca mais. E isso é o que ele pode me apontar ao sumir e reaparecer : nunca mais. E não há nenhuma melancolia nisso. Só o fato de que nunca mais.
No Café Brasileiro,esteja ele onde estiver, peço uma bebida e gesticulo com nada nas mãos. Peço numa língua brasileira ou seria brasiliana? Não. É brasileira. E todos os zé-ninguéns que, são todos os outros além de mim, encaram-me com o mesmo olhar de outrora. Com o mesmo olhar do velho observado e que agora finalmente diz: estrangeiro.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Festa pecaminosa

E a festa pecaminosa se aproxima.Todos na expectativa pela gula, pela soberba -contar vantagem sobre aquele parente que se fudeu ao longo do ano- ,pela mulher do próximo ,pela bebedeira sem fim.O ritual obsessivo dos cristãos não acaba e jamais acabará.Talvez daqui a umas 10 gerações quando essa mal-dita espécie estiver devidamente substituída ,e olha o arsenio aí, prometendo outras formas de vida, a festinha mude de ritmo.Certa vez,movido pela falta de análise , cujo nome é resistência e que presentifica imposturas,cheguei ao baile natalino. Casa arrumada, convidados vestidos com certa elegância - apesar do calor africano - e no primeiro contato familiar um míssil fora disparado.Bum!Bum!Solidariedade bélica.
Refeito do primeiro tiro ,estou sentado à beira de um abismo ,salvo contudo pela bebida que desloca formações deletérias na minha mente. Resolvo provocar. ' Pessoal: tenho uma "ótima" notícia para lhes dar.Ganhei na loteria!'
Antes que outro artefato explosivo me fosse lançado, percebi os olhares que mesclavam horror e ódio.Ali estava o espírito natalino de uma verdadeira família católica.O fato que enobrece tal reação ,houve.Chama-se sinceridade das ações.Os gestos ,olhares, sorrisos tristes,lábios trêmulos.De repente, uma voz murmurante:"Que mer.....ou melhor ,que bom para você".
Fiquei amedrontado, pois a tal voz estava ao lado e segurava um copo de whisky que balançava em crise de pânico na minha direção.Será que é porque eu não prometi nenhum presentinho?
Passados intermináveis dez minutos ,confessei-lhes."Gente ....eu estava brincando".
Risos, alegria, juras de amor e todos os sentimentos mais odientos emergiram contundente-mentes.
Naquele momento ,pude então constatar o quanto eu era querido pela nobre família, na noite de mais um Natal!De preferência ,ainda pobre.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Escritor sem público

Esse foi o título de um artigo de um ,parece-me , sociólogo Russo, publicado recentemente no jornal Folha de São Paulo.
O pensador Russo advertia para alguns aspectos ,na verdade alguns entraves, que faz com que os bons romancistas não consigam faturar mercadologicamente e os autores de 'best sellers' clamam, por outro lado, por algum reconhecimento de excelência nas costumeiras asneiras que escrevem.
O artigo é longo e a solução que ele encaminha é visivelmente marxista.Aliás, estão novamente na moda.Basta ver o prestígio de um Balman.
O que me chamou atenção foi que o texto surgiu a partir da declaração de uma poeta ,creio que também Russa e cujo nome não me recordo, declarando não gostar de prosas, pois elas sempre são marcadas por duas sentenças: " Oi , você está bem?".E ...'Você aceita uma xícara de café?'.
O autor então fica irritado e se pergunta se ela não gosta de café ou quem sabe é dotada de certa preguiça para textos mais longos.Se bem que existem poemas que mais parecem inspirações para operetas de tão extensos.
Eu,por exemplo, faz tempo, prefiro os textos mais curtos,mais enxutos.
Lembro-me do sacrifício que fiz para atravessar a obra de Marcel Proust.Genial,mas chato à beça.
Tudo bem que o laço de fita do vestido de Madame Verduran,uma das principais figuras proustianas, descrito em dez ,quinze páginas, condensa o livro quase todo,mas há de se estar realmente cooptado pelo estilo do autor.Senão, você desiste.Afinal, são sete volumes.
Recordo-me entretanto que foi aquela primeira cena, a do beijo de boa noite que, a mãe ocupada ao entreter os convidados que chegavam à casa,esquecera de dar em seu filho.É uma das primeiras passagens do primeiro volume, 'O Caminho de Swan" , e que me marcara de tal ordem que escrevi um artigo ,bem lacaniano à época, e que fora apresentado num simpósio de Psicanálise.O título do artigo era o "Beijo de amor".Título esse do qual não me orgulho muito.
Para quem iniciava um processo analítico , e que perdura até hoje quiçá para sempre, separações entre mãezinhas e suas crianças são munição bem calibrada para investigações,para varreduras.Infelizmente,é assim.Somos muito bichos para separações elegantes.
Minha morreu há quatro anos e eu estou tomado por suas aparições nos meus delírios oníricos.Ainda forneço muito poder a essa transa.Lamentável.
Se eu gosto de café?Sim.Passei alguns anos sem tomá-lo ,pois tenho temperamento - coisa que outros mamíferos também tem, agitado e acreditava que ficaria ainda mais insuportável, quer dizer, agitado ,com doses de cafeína diárias. Hoje, sou fã da cafeína.Estou envelhecendo.
Outrora na Etiópia, creio que ainda é importante produtordo fruto, beber café equivaleria a fumar um baseado, hoje em dia.Bebia-se café escondidinho...Século XIX se não me equivoco.
Pode parecer tolice ,mas ainda aguardo pelo meu texto.Aquele romance ou texto para teatro ou para se jogar no lixo ,isto é, na rede, na 'Web', que comecei e não prossegui.Rejeitei o fato de que a censura vem de fora. Fico antecipando-a eu mesmo.
Aonde foram os ditos escritores?Será que os poetas tornaram-se 'hackers' ,tal como indagou um colega meu?
Os chamados clássicos ainda sobreviverão?Quem se presta a ler ,por exemplo, 'A Divina Comédia' ou a obra difícil, devo lembrar, de James Joyce? Proust então....E o nosso Guimarães Rosa, uma espécie de Joyce brasileiro?Euclides, engenheiro literato, e seu árido e maravilhoso,não menos difícil de percorrer, 'Os Sertões'?
A última vez que falaram de Euclides da Cunha, na grande mídia, foi para encenar na TV os seus derradeiros dias de corno e assassinato sofrido pelas mãos de um sargento qualquer.Não creio que Anna da Cunha ,mulher de Euclides, fosse tão bela quanto a atriz que a interpreta, a belíssima Vera Fischer. E o Dilermando era tão somente um gaiato sargento bonitinho sedutor.Ficou famoso!Matou um herói!E foi absolvido pelas cortes supremas.Claro e também obscuro, até porque quem não é ou terá sido um escritor sem público?Escritores,pensadores, artistas todos , o mundo enfim, sempre estão a formar públicos. Depois, pode-se mudar de turma ou de autor.
Será que alguém vai ler isso?
Eu acabo para continuar.

domingo, 21 de novembro de 2010

Um anjo revelador

"O anjo exterminador" de Luís Buñuel é uma beleza de fotografia do que a nossa tão prezada neura de cada dia engendra,produz,multiplica.Multiplicai-vos, ó Cordeiros de Deus!!
E eles se multiplicam e invadem o edifício sagrado onde pastam seus súditos.Essa é a cena final do filme que fora lançado no início dos anos sessenta.
Buñuel genialmente, assim como alguns dos chamados surrealistas importantes, retrata com sutileza ímpar a nossa paralisia cerebral.
Tudo se passa numa festa ,da alta burguesia,onde se encontram importantes figuras com diferentes atividades profissionais.Por profissão leia-se também aquela senhora que organiza jantares, aquele vagabundo profissional que cafetiza a própria irmã ( o tesão dela por ele é visível) dentre outros egrégios cidadãos.
Jantam divinamente.Os empregados, movidos por uma ansiedade curiosa, saem bem antes da festa acabar, exceto um: aquele que vos serve.A bebida cara e preciosa continua a circular e as seduções e provocações ditam o ritmo do baile.
De repente, alguém toca uma bela música no piano branco e a partir daí todos são reféns uns dos outros e de si mesmos.Na verdade, sempre estiveram reféns.
Recusam-se a sair alegando não conseguir.Passam-se dias,semanas e a degradação e muito do comportamento animal que nos compete emerge: assassinato, traições,conspirações, roubo...Também existem os mais nobres,apesar de raros, tais como a consideração, a generosidade,....E emerge ali,naquele belo salão ,daquela bela casa, com aqueles convivas ,alguns até eruditos.
E porque não saem da casa? Da mesma forma como entraram,ou seja, por aquela imensa e bela porta principal ou até - mesmo que isso custasse uma certa ferida narcísica para gente tão ilustre- pela porta dos fundos?
O culpado passa a ser o dono da casa ,afinal, quem mandou convidar para aquele teatro efetivo aquele bando de animais?O sujeito é um cavalheiro e corno também o é ( Na verdade está ,já que o filme um dia acaba).Sua digníssima senhora mantém um romance com amigo bem próximo.
É mais ou menos o que ocorre numa análise ,onde o analista é sempre o culpado pelo analisando estar em análise.Ele só se esquece, ele ,o analisando, que foi ele mesmo quem procurou o analista.
De onde não se quer sair?Por que tanta recusa?
A exemplaridade do filme é relembrar que estamos condenados a uma não saída radical.O simples fato de buscarmos o que não há e nunca haverá - chamemos isso de transcendência , Nirvana, Paz Absoluta,Gozo Absoluto,completude, etc - nos prende às ferragens do haver. Porém, ali a descrição é também a da baixaria dos vínculos afetivos, da recusa em deslocar alguns comportamentos, hábitos, conceitos, enfim , de sair do lugar em que se pasta faz tempo.Por isso a presença daqueles animaizinhos no "casting".
Ele encerra o filme repetindo o aprisionamento ,dessa vez após uma missa ,numa igreja católica.
A igreja,qualquer uma, certamente é uma formação extremamente recalcante,opressiva ,reacionária,mas não há imperativo algum, ao menos no Ocidente em tempos pós inquisições, que faça com que não se possa dizer não a tudo de nefasto que ela apregoa e mudar de partido.
Quem faz aquele bando de gente rememorar a posição em que se encontrava ,antes da paralisia, após a bela música tocada no piano ,daquela bela casa,daquele belo jantar,daqueles convidados , foi a moça que ,segundo as boas falas, era virgem.Intocada em certo ponto,mas não é daquele pontinho embaixo que se trata, ela pode se distanciar um pouco da estupidez vigente e apontar uma saída.Ela na verdade não era virgem, ela era tão somente e solitariamente alguém mais disponível para olhar o que não se queria ver, a tal obviedade.Recalque demais estupidifica,paralisa, adoece,mata.Não produz,por exemplo, uma obra como a de Buñuel.
Então uma virgem que transa diz: quanto mais cedo inicio um processo de análise mais portas se oferecerão ao meu périplo de retornar sempre para dentro e para dentro e para dentro.Logo, tornei-me uma saída.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Paranóias urbanas

Quando saio à rua de minha cidade louca,armado de atenções paranóicas, recuo o passo ainda seguinte, escutando o silêncio de certas oitavas.Acho que uma sirene acaba de passar.E ela prossegue sem que eu jamais a alcance.

domingo, 24 de outubro de 2010

Calças curtas e bicicletas

Brasília foi uma cidade de quintais abertos.E por isso éramos de um voyeurismo escancarado.Os jardins mais belos das casas ,banhadas à distância por um Lago Artificial -como se todos os outros lagos não o fossem para nós,espécie que nomeia tais coisas-; éramos também adolescentes bem arrogantes - o que não é nenhuma novidade - invadindo garagens militares para afrontar os milicos e garantir presença. Cenas de uma época remota....
O comboio começava a se armar a partir de uma ideia sobre coisa alguma.Chegava um depois o outro depois mais outro e assim por diante.As bicicletas e as calças curtas então se posicionavam para o ataque. Na frente,preparado para levar chumbo,entenda-se uma boa bronca, ia o mais velho,mais alto,mais forte e destemido comandante.E era um comandante pra valer,pois alguns generais refestelam-se somente em observar, dos seus gabinetes confortáveis , a sua tropa ser dizimada.
Invadíamos as garagens dos blocos da Marinha Brasileira pela porta de saída - o que representava perigo iminente - e saíamos apressados pela entrada contrária.Era o máximo!
Vingávamos a nós mesmos e aos outros que ,sem alternativa, viam-se obrigados à humilhação de ter o corpo inteiro emporcalhado por ovos podres que os filhos dos marinheiros de alta patente reservavam aos filhos de civis que habitavam a mesma superquadra candanga.Eram meados dos anos 70 e o poder servia só para oprimir quem não fosse da mesma patota.
Pouco a pouco nos tornamos todos camaradas.Alguns até eram conterrâneos.Porém,sempre suspeitávamos de que algo muito sério poderia nos atacar repentinamente.Certa vez, distraído pela comodidade confortável, escapei por pouco do massacre dos ovos podres.Sabia que correra enorme perigo,mas consegui.Ufa! Retornei com a minha integridade física preservada à casa que até hoje resiste. Lá encontrei mãe amorosa que ao saber do acontecido ,exclamou: 'esses meninos são meninos selvagens.Você não deve se envolver com eles'.
Minha mãe sempre me pareceu alguém que não nascera nesse planeta ou ao menos nesse país que resiste em se tornar uma nação de fato.Ela era doce e elegante.E também firme quando necessário.É ,sentenciado pelo Rei Roberto, a saudade que eu gosto- apesar e por causa da dor de sua ausência- de ter.
Contrariando-a entretanto ,segui a vida com os meninos selvagens que me ensinaram truques ótimos para sobrevivência posterior.
Quando o segundo amor me atingiu,eu já era um menino selvagem.Pouco graduado ,pois não fui selvagem o suficiente para que aquela cobra encantadora que, trazia o cheiro da maresia da nossa mesma terra,O Rio de Janeiro,não menos selvagem, se deixasse envenenar ....por mim ,é claro.
Anos depois, já de volta à pátria carioca, reencontrei-a numa noite de lua.E qual é a noite que não tem lua?É isso que dá querer fazer prosa bonita sem saber....Bem, novamente: reencontrei-a -aquela tal menina veneno- numa discoteca.E foi sem a menor emoção,mas com muita alegria que pude constatar a baranga em que ela havia se transformado!!Que baranga!! Fiquei numa euforia tal - agora sim,depois de reparar bem naquele troço em que aquela desgraçada que se enroscou com o meu maior rival de bicicletices,havia se metamorfoseado - que quase larguei o meu carro para alugar uma "bike" e pedalar até a lua mais próxima.Seria minguante?Teria minguado?
Passados 30 anos em cinco minutos e aqueles mesmos prédios com aquelas garagens,agora lacradas por grades inteligentes, e sem a mesma vida,sem as mesmas cores,sem os mesmos comandantes de calças curtas e suas viaturas com correntes ,guidons e selins,num silêncio que mais parece toque de recolher, incompatível com as falações livres do agora, e a constatação que se recusa a partir: por que Domingo ainda se parece tanto com Domingo?