Esse foi o título de um artigo de um ,parece-me , sociólogo Russo, publicado recentemente no jornal Folha de São Paulo.
O pensador Russo advertia para alguns aspectos ,na verdade alguns entraves, que faz com que os bons romancistas não consigam faturar mercadologicamente e os autores de 'best sellers' clamam, por outro lado, por algum reconhecimento de excelência nas costumeiras asneiras que escrevem.
O artigo é longo e a solução que ele encaminha é visivelmente marxista.Aliás, estão novamente na moda.Basta ver o prestígio de um Balman.
O que me chamou atenção foi que o texto surgiu a partir da declaração de uma poeta ,creio que também Russa e cujo nome não me recordo, declarando não gostar de prosas, pois elas sempre são marcadas por duas sentenças: " Oi , você está bem?".E ...'Você aceita uma xícara de café?'.
O autor então fica irritado e se pergunta se ela não gosta de café ou quem sabe é dotada de certa preguiça para textos mais longos.Se bem que existem poemas que mais parecem inspirações para operetas de tão extensos.
Eu,por exemplo, faz tempo, prefiro os textos mais curtos,mais enxutos.
Lembro-me do sacrifício que fiz para atravessar a obra de Marcel Proust.Genial,mas chato à beça.
Tudo bem que o laço de fita do vestido de Madame Verduran,uma das principais figuras proustianas, descrito em dez ,quinze páginas, condensa o livro quase todo,mas há de se estar realmente cooptado pelo estilo do autor.Senão, você desiste.Afinal, são sete volumes.
Recordo-me entretanto que foi aquela primeira cena, a do beijo de boa noite que, a mãe ocupada ao entreter os convidados que chegavam à casa,esquecera de dar em seu filho.É uma das primeiras passagens do primeiro volume, 'O Caminho de Swan" , e que me marcara de tal ordem que escrevi um artigo ,bem lacaniano à época, e que fora apresentado num simpósio de Psicanálise.O título do artigo era o "Beijo de amor".Título esse do qual não me orgulho muito.
Para quem iniciava um processo analítico , e que perdura até hoje quiçá para sempre, separações entre mãezinhas e suas crianças são munição bem calibrada para investigações,para varreduras.Infelizmente,é assim.Somos muito bichos para separações elegantes.
Minha morreu há quatro anos e eu estou tomado por suas aparições nos meus delírios oníricos.Ainda forneço muito poder a essa transa.Lamentável.
Se eu gosto de café?Sim.Passei alguns anos sem tomá-lo ,pois tenho temperamento - coisa que outros mamíferos também tem, agitado e acreditava que ficaria ainda mais insuportável, quer dizer, agitado ,com doses de cafeína diárias. Hoje, sou fã da cafeína.Estou envelhecendo.
Outrora na Etiópia, creio que ainda é importante produtordo fruto, beber café equivaleria a fumar um baseado, hoje em dia.Bebia-se café escondidinho...Século XIX se não me equivoco.
Pode parecer tolice ,mas ainda aguardo pelo meu texto.Aquele romance ou texto para teatro ou para se jogar no lixo ,isto é, na rede, na 'Web', que comecei e não prossegui.Rejeitei o fato de que a censura vem de fora. Fico antecipando-a eu mesmo.
Aonde foram os ditos escritores?Será que os poetas tornaram-se 'hackers' ,tal como indagou um colega meu?
Os chamados clássicos ainda sobreviverão?Quem se presta a ler ,por exemplo, 'A Divina Comédia' ou a obra difícil, devo lembrar, de James Joyce? Proust então....E o nosso Guimarães Rosa, uma espécie de Joyce brasileiro?Euclides, engenheiro literato, e seu árido e maravilhoso,não menos difícil de percorrer, 'Os Sertões'?
A última vez que falaram de Euclides da Cunha, na grande mídia, foi para encenar na TV os seus derradeiros dias de corno e assassinato sofrido pelas mãos de um sargento qualquer.Não creio que Anna da Cunha ,mulher de Euclides, fosse tão bela quanto a atriz que a interpreta, a belíssima Vera Fischer. E o Dilermando era tão somente um gaiato sargento bonitinho sedutor.Ficou famoso!Matou um herói!E foi absolvido pelas cortes supremas.Claro e também obscuro, até porque quem não é ou terá sido um escritor sem público?Escritores,pensadores, artistas todos , o mundo enfim, sempre estão a formar públicos. Depois, pode-se mudar de turma ou de autor.
Será que alguém vai ler isso?
Eu acabo para continuar.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
Um anjo revelador
"O anjo exterminador" de Luís Buñuel é uma beleza de fotografia do que a nossa tão prezada neura de cada dia engendra,produz,multiplica.Multiplicai-vos, ó Cordeiros de Deus!!
E eles se multiplicam e invadem o edifício sagrado onde pastam seus súditos.Essa é a cena final do filme que fora lançado no início dos anos sessenta.
Buñuel genialmente, assim como alguns dos chamados surrealistas importantes, retrata com sutileza ímpar a nossa paralisia cerebral.
Tudo se passa numa festa ,da alta burguesia,onde se encontram importantes figuras com diferentes atividades profissionais.Por profissão leia-se também aquela senhora que organiza jantares, aquele vagabundo profissional que cafetiza a própria irmã ( o tesão dela por ele é visível) dentre outros egrégios cidadãos.
Jantam divinamente.Os empregados, movidos por uma ansiedade curiosa, saem bem antes da festa acabar, exceto um: aquele que vos serve.A bebida cara e preciosa continua a circular e as seduções e provocações ditam o ritmo do baile.
De repente, alguém toca uma bela música no piano branco e a partir daí todos são reféns uns dos outros e de si mesmos.Na verdade, sempre estiveram reféns.
Recusam-se a sair alegando não conseguir.Passam-se dias,semanas e a degradação e muito do comportamento animal que nos compete emerge: assassinato, traições,conspirações, roubo...Também existem os mais nobres,apesar de raros, tais como a consideração, a generosidade,....E emerge ali,naquele belo salão ,daquela bela casa, com aqueles convivas ,alguns até eruditos.
E porque não saem da casa? Da mesma forma como entraram,ou seja, por aquela imensa e bela porta principal ou até - mesmo que isso custasse uma certa ferida narcísica para gente tão ilustre- pela porta dos fundos?
O culpado passa a ser o dono da casa ,afinal, quem mandou convidar para aquele teatro efetivo aquele bando de animais?O sujeito é um cavalheiro e corno também o é ( Na verdade está ,já que o filme um dia acaba).Sua digníssima senhora mantém um romance com amigo bem próximo.
É mais ou menos o que ocorre numa análise ,onde o analista é sempre o culpado pelo analisando estar em análise.Ele só se esquece, ele ,o analisando, que foi ele mesmo quem procurou o analista.
De onde não se quer sair?Por que tanta recusa?
A exemplaridade do filme é relembrar que estamos condenados a uma não saída radical.O simples fato de buscarmos o que não há e nunca haverá - chamemos isso de transcendência , Nirvana, Paz Absoluta,Gozo Absoluto,completude, etc - nos prende às ferragens do haver. Porém, ali a descrição é também a da baixaria dos vínculos afetivos, da recusa em deslocar alguns comportamentos, hábitos, conceitos, enfim , de sair do lugar em que se pasta faz tempo.Por isso a presença daqueles animaizinhos no "casting".
Ele encerra o filme repetindo o aprisionamento ,dessa vez após uma missa ,numa igreja católica.
A igreja,qualquer uma, certamente é uma formação extremamente recalcante,opressiva ,reacionária,mas não há imperativo algum, ao menos no Ocidente em tempos pós inquisições, que faça com que não se possa dizer não a tudo de nefasto que ela apregoa e mudar de partido.
Quem faz aquele bando de gente rememorar a posição em que se encontrava ,antes da paralisia, após a bela música tocada no piano ,daquela bela casa,daquele belo jantar,daqueles convidados , foi a moça que ,segundo as boas falas, era virgem.Intocada em certo ponto,mas não é daquele pontinho embaixo que se trata, ela pode se distanciar um pouco da estupidez vigente e apontar uma saída.Ela na verdade não era virgem, ela era tão somente e solitariamente alguém mais disponível para olhar o que não se queria ver, a tal obviedade.Recalque demais estupidifica,paralisa, adoece,mata.Não produz,por exemplo, uma obra como a de Buñuel.
Então uma virgem que transa diz: quanto mais cedo inicio um processo de análise mais portas se oferecerão ao meu périplo de retornar sempre para dentro e para dentro e para dentro.Logo, tornei-me uma saída.
E eles se multiplicam e invadem o edifício sagrado onde pastam seus súditos.Essa é a cena final do filme que fora lançado no início dos anos sessenta.
Buñuel genialmente, assim como alguns dos chamados surrealistas importantes, retrata com sutileza ímpar a nossa paralisia cerebral.
Tudo se passa numa festa ,da alta burguesia,onde se encontram importantes figuras com diferentes atividades profissionais.Por profissão leia-se também aquela senhora que organiza jantares, aquele vagabundo profissional que cafetiza a própria irmã ( o tesão dela por ele é visível) dentre outros egrégios cidadãos.
Jantam divinamente.Os empregados, movidos por uma ansiedade curiosa, saem bem antes da festa acabar, exceto um: aquele que vos serve.A bebida cara e preciosa continua a circular e as seduções e provocações ditam o ritmo do baile.
De repente, alguém toca uma bela música no piano branco e a partir daí todos são reféns uns dos outros e de si mesmos.Na verdade, sempre estiveram reféns.
Recusam-se a sair alegando não conseguir.Passam-se dias,semanas e a degradação e muito do comportamento animal que nos compete emerge: assassinato, traições,conspirações, roubo...Também existem os mais nobres,apesar de raros, tais como a consideração, a generosidade,....E emerge ali,naquele belo salão ,daquela bela casa, com aqueles convivas ,alguns até eruditos.
E porque não saem da casa? Da mesma forma como entraram,ou seja, por aquela imensa e bela porta principal ou até - mesmo que isso custasse uma certa ferida narcísica para gente tão ilustre- pela porta dos fundos?
O culpado passa a ser o dono da casa ,afinal, quem mandou convidar para aquele teatro efetivo aquele bando de animais?O sujeito é um cavalheiro e corno também o é ( Na verdade está ,já que o filme um dia acaba).Sua digníssima senhora mantém um romance com amigo bem próximo.
É mais ou menos o que ocorre numa análise ,onde o analista é sempre o culpado pelo analisando estar em análise.Ele só se esquece, ele ,o analisando, que foi ele mesmo quem procurou o analista.
De onde não se quer sair?Por que tanta recusa?
A exemplaridade do filme é relembrar que estamos condenados a uma não saída radical.O simples fato de buscarmos o que não há e nunca haverá - chamemos isso de transcendência , Nirvana, Paz Absoluta,Gozo Absoluto,completude, etc - nos prende às ferragens do haver. Porém, ali a descrição é também a da baixaria dos vínculos afetivos, da recusa em deslocar alguns comportamentos, hábitos, conceitos, enfim , de sair do lugar em que se pasta faz tempo.Por isso a presença daqueles animaizinhos no "casting".
Ele encerra o filme repetindo o aprisionamento ,dessa vez após uma missa ,numa igreja católica.
A igreja,qualquer uma, certamente é uma formação extremamente recalcante,opressiva ,reacionária,mas não há imperativo algum, ao menos no Ocidente em tempos pós inquisições, que faça com que não se possa dizer não a tudo de nefasto que ela apregoa e mudar de partido.
Quem faz aquele bando de gente rememorar a posição em que se encontrava ,antes da paralisia, após a bela música tocada no piano ,daquela bela casa,daquele belo jantar,daqueles convidados , foi a moça que ,segundo as boas falas, era virgem.Intocada em certo ponto,mas não é daquele pontinho embaixo que se trata, ela pode se distanciar um pouco da estupidez vigente e apontar uma saída.Ela na verdade não era virgem, ela era tão somente e solitariamente alguém mais disponível para olhar o que não se queria ver, a tal obviedade.Recalque demais estupidifica,paralisa, adoece,mata.Não produz,por exemplo, uma obra como a de Buñuel.
Então uma virgem que transa diz: quanto mais cedo inicio um processo de análise mais portas se oferecerão ao meu périplo de retornar sempre para dentro e para dentro e para dentro.Logo, tornei-me uma saída.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Paranóias urbanas
Quando saio à rua de minha cidade louca,armado de atenções paranóicas, recuo o passo ainda seguinte, escutando o silêncio de certas oitavas.Acho que uma sirene acaba de passar.E ela prossegue sem que eu jamais a alcance.
domingo, 24 de outubro de 2010
Calças curtas e bicicletas
Brasília foi uma cidade de quintais abertos.E por isso éramos de um voyeurismo escancarado.Os jardins mais belos das casas ,banhadas à distância por um Lago Artificial -como se todos os outros lagos não o fossem para nós,espécie que nomeia tais coisas-; éramos também adolescentes bem arrogantes - o que não é nenhuma novidade - invadindo garagens militares para afrontar os milicos e garantir presença. Cenas de uma época remota....
O comboio começava a se armar a partir de uma ideia sobre coisa alguma.Chegava um depois o outro depois mais outro e assim por diante.As bicicletas e as calças curtas então se posicionavam para o ataque. Na frente,preparado para levar chumbo,entenda-se uma boa bronca, ia o mais velho,mais alto,mais forte e destemido comandante.E era um comandante pra valer,pois alguns generais refestelam-se somente em observar, dos seus gabinetes confortáveis , a sua tropa ser dizimada.
Invadíamos as garagens dos blocos da Marinha Brasileira pela porta de saída - o que representava perigo iminente - e saíamos apressados pela entrada contrária.Era o máximo!
Vingávamos a nós mesmos e aos outros que ,sem alternativa, viam-se obrigados à humilhação de ter o corpo inteiro emporcalhado por ovos podres que os filhos dos marinheiros de alta patente reservavam aos filhos de civis que habitavam a mesma superquadra candanga.Eram meados dos anos 70 e o poder servia só para oprimir quem não fosse da mesma patota.
Pouco a pouco nos tornamos todos camaradas.Alguns até eram conterrâneos.Porém,sempre suspeitávamos de que algo muito sério poderia nos atacar repentinamente.Certa vez, distraído pela comodidade confortável, escapei por pouco do massacre dos ovos podres.Sabia que correra enorme perigo,mas consegui.Ufa! Retornei com a minha integridade física preservada à casa que até hoje resiste. Lá encontrei mãe amorosa que ao saber do acontecido ,exclamou: 'esses meninos são meninos selvagens.Você não deve se envolver com eles'.
Minha mãe sempre me pareceu alguém que não nascera nesse planeta ou ao menos nesse país que resiste em se tornar uma nação de fato.Ela era doce e elegante.E também firme quando necessário.É ,sentenciado pelo Rei Roberto, a saudade que eu gosto- apesar e por causa da dor de sua ausência- de ter.
Contrariando-a entretanto ,segui a vida com os meninos selvagens que me ensinaram truques ótimos para sobrevivência posterior.
Quando o segundo amor me atingiu,eu já era um menino selvagem.Pouco graduado ,pois não fui selvagem o suficiente para que aquela cobra encantadora que, trazia o cheiro da maresia da nossa mesma terra,O Rio de Janeiro,não menos selvagem, se deixasse envenenar ....por mim ,é claro.
Anos depois, já de volta à pátria carioca, reencontrei-a numa noite de lua.E qual é a noite que não tem lua?É isso que dá querer fazer prosa bonita sem saber....Bem, novamente: reencontrei-a -aquela tal menina veneno- numa discoteca.E foi sem a menor emoção,mas com muita alegria que pude constatar a baranga em que ela havia se transformado!!Que baranga!! Fiquei numa euforia tal - agora sim,depois de reparar bem naquele troço em que aquela desgraçada que se enroscou com o meu maior rival de bicicletices,havia se metamorfoseado - que quase larguei o meu carro para alugar uma "bike" e pedalar até a lua mais próxima.Seria minguante?Teria minguado?
Passados 30 anos em cinco minutos e aqueles mesmos prédios com aquelas garagens,agora lacradas por grades inteligentes, e sem a mesma vida,sem as mesmas cores,sem os mesmos comandantes de calças curtas e suas viaturas com correntes ,guidons e selins,num silêncio que mais parece toque de recolher, incompatível com as falações livres do agora, e a constatação que se recusa a partir: por que Domingo ainda se parece tanto com Domingo?
O comboio começava a se armar a partir de uma ideia sobre coisa alguma.Chegava um depois o outro depois mais outro e assim por diante.As bicicletas e as calças curtas então se posicionavam para o ataque. Na frente,preparado para levar chumbo,entenda-se uma boa bronca, ia o mais velho,mais alto,mais forte e destemido comandante.E era um comandante pra valer,pois alguns generais refestelam-se somente em observar, dos seus gabinetes confortáveis , a sua tropa ser dizimada.
Invadíamos as garagens dos blocos da Marinha Brasileira pela porta de saída - o que representava perigo iminente - e saíamos apressados pela entrada contrária.Era o máximo!
Vingávamos a nós mesmos e aos outros que ,sem alternativa, viam-se obrigados à humilhação de ter o corpo inteiro emporcalhado por ovos podres que os filhos dos marinheiros de alta patente reservavam aos filhos de civis que habitavam a mesma superquadra candanga.Eram meados dos anos 70 e o poder servia só para oprimir quem não fosse da mesma patota.
Pouco a pouco nos tornamos todos camaradas.Alguns até eram conterrâneos.Porém,sempre suspeitávamos de que algo muito sério poderia nos atacar repentinamente.Certa vez, distraído pela comodidade confortável, escapei por pouco do massacre dos ovos podres.Sabia que correra enorme perigo,mas consegui.Ufa! Retornei com a minha integridade física preservada à casa que até hoje resiste. Lá encontrei mãe amorosa que ao saber do acontecido ,exclamou: 'esses meninos são meninos selvagens.Você não deve se envolver com eles'.
Minha mãe sempre me pareceu alguém que não nascera nesse planeta ou ao menos nesse país que resiste em se tornar uma nação de fato.Ela era doce e elegante.E também firme quando necessário.É ,sentenciado pelo Rei Roberto, a saudade que eu gosto- apesar e por causa da dor de sua ausência- de ter.
Contrariando-a entretanto ,segui a vida com os meninos selvagens que me ensinaram truques ótimos para sobrevivência posterior.
Quando o segundo amor me atingiu,eu já era um menino selvagem.Pouco graduado ,pois não fui selvagem o suficiente para que aquela cobra encantadora que, trazia o cheiro da maresia da nossa mesma terra,O Rio de Janeiro,não menos selvagem, se deixasse envenenar ....por mim ,é claro.
Anos depois, já de volta à pátria carioca, reencontrei-a numa noite de lua.E qual é a noite que não tem lua?É isso que dá querer fazer prosa bonita sem saber....Bem, novamente: reencontrei-a -aquela tal menina veneno- numa discoteca.E foi sem a menor emoção,mas com muita alegria que pude constatar a baranga em que ela havia se transformado!!Que baranga!! Fiquei numa euforia tal - agora sim,depois de reparar bem naquele troço em que aquela desgraçada que se enroscou com o meu maior rival de bicicletices,havia se metamorfoseado - que quase larguei o meu carro para alugar uma "bike" e pedalar até a lua mais próxima.Seria minguante?Teria minguado?
Passados 30 anos em cinco minutos e aqueles mesmos prédios com aquelas garagens,agora lacradas por grades inteligentes, e sem a mesma vida,sem as mesmas cores,sem os mesmos comandantes de calças curtas e suas viaturas com correntes ,guidons e selins,num silêncio que mais parece toque de recolher, incompatível com as falações livres do agora, e a constatação que se recusa a partir: por que Domingo ainda se parece tanto com Domingo?
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Os novos amigos.
Tenho novos amigo que não sabem o meu nome.São amigos de outros cantos, de outros mesmos mundos.
No início, olhávamos uns para os outros desconfiados.Prontos para o ataque dos machos bárbaros.Pouco a pouco, nos aproximamos, sentimos o cheiro da pele suada, feito pugilistas que pugnam por um nocaute certeiro.Esgueira-se para lá ,mais para baixo, outro lado visitado e vínculos se estabelecem empaticamente.Seria assim mesmo? Claro que não.O vínculo é de pura simpatia.
Empatia tão somente seria pedir muito,já que há rivalidade no ar. Basta um cão novo surgir e exibir-se gaudioso que os outros rosnam a céu aberto. Se vier de muito longe então...Por exemplo: um andarilho de um outro país que fala língua esquisita - e a nossa por certo não é - e o rosnar sobe de tom.
Esse canto de amigos novos tem síndico e tudo.E ele , o nosso síndico , regozija-se intensamente pela função.Talvez seja o único síndico feliz que haja.Além de ser o único que quando ralha com qualquer um outro da matilha é atendido prontamente.Ele é um tanto ranheta ,mas é um ótimo síndico.
Deixei de lado a minha identidade e parti para uma conversa onde o que vale é o que acontece ali,de três até cinco vezes por semana,se calor estiver ou a chuva como companhia a nos refrescar e também a afugentar.
E cada um tem o seu trabalho,tem a sua vidinha,seus dramas,seus vícios,suas vagabundagens,suas ambições e aquele oceano para compartilhar escopicamente ,feito sonho de menino que queria um dia ser forte e se exibir em outros cantos dos mesmos mundos.
No início, olhávamos uns para os outros desconfiados.Prontos para o ataque dos machos bárbaros.Pouco a pouco, nos aproximamos, sentimos o cheiro da pele suada, feito pugilistas que pugnam por um nocaute certeiro.Esgueira-se para lá ,mais para baixo, outro lado visitado e vínculos se estabelecem empaticamente.Seria assim mesmo? Claro que não.O vínculo é de pura simpatia.
Empatia tão somente seria pedir muito,já que há rivalidade no ar. Basta um cão novo surgir e exibir-se gaudioso que os outros rosnam a céu aberto. Se vier de muito longe então...Por exemplo: um andarilho de um outro país que fala língua esquisita - e a nossa por certo não é - e o rosnar sobe de tom.
Esse canto de amigos novos tem síndico e tudo.E ele , o nosso síndico , regozija-se intensamente pela função.Talvez seja o único síndico feliz que haja.Além de ser o único que quando ralha com qualquer um outro da matilha é atendido prontamente.Ele é um tanto ranheta ,mas é um ótimo síndico.
Deixei de lado a minha identidade e parti para uma conversa onde o que vale é o que acontece ali,de três até cinco vezes por semana,se calor estiver ou a chuva como companhia a nos refrescar e também a afugentar.
E cada um tem o seu trabalho,tem a sua vidinha,seus dramas,seus vícios,suas vagabundagens,suas ambições e aquele oceano para compartilhar escopicamente ,feito sonho de menino que queria um dia ser forte e se exibir em outros cantos dos mesmos mundos.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Fotografias erradas
A quem pode interessar a alienação subserviente que se constata?
Quando se é bem jovenzinho o reino das ilusões é hegemônico.Com o passar do tempo é como se essa ilusão permanecesse por inércia,mas a lucidez ,dolorida quase sempre ,que a desilusão nos traz ,ao menos para quem acompanha o teatro da vida, torna-se ela sim hegemônica.
Você supostamente atravessou diversos processos,experimentou-os ,logo não cai tão facilmente noutras armadilhas.Digo outras ,pois não serão mais as mesmas por mais semelhantes ,análogas ou coisa próxima do que tenham um dia sido.Na minha ignorância acadêmica ,recordo Heráclito ,famoso pré-socrático mobilista ,e o seu mergulho que não era nunca o mesmo.'Um mesmo homem jamais se banha duas vezes no mesmo rio"- teria dito enquanto nadava.
A propagada experiência - e aqui revelo preferência pela idéia das experimentações ,sem ser positivista ou algo semelhante,mas o termo maturidade me irrita pelo simples fato de que o fruto quando maduro cai de podre- nos conduz a um distanciamento mais sereno,menos pré-conceituoso diante dos acontecimentos.Você já mapeou algumas-poucas na verdade- encruzilhadas e sacou que a fronteira não está mais lá.Não só se deslocou ,mas parece ter desaparecido de vez.É como se certas fundações não tivessem sido tão fundamentais assim.Um grande teatro repleto de possibilidades.É o que há.É o que certa caminhada nos apresenta.
Décadas atrás, e aí o tempo já nos dá essa autoridade de argumento´,ao menos enquanto trajetória percorrida,o futuro demorava mesmo muito tempo. Uma profecia do filósofo marxista Althusser.
'Now' , ele deixou de ser uma elocubração mítica e se aproxima.Afinal, caminha-se para frente.
Em outra certa ocasião, o hiper-democrata Michel Foucault, declarara o seu horror pela carteira de identidade.Considerava esse troço ,com a fotografia sempre errada ,algo muito invasivo.
Fico a vislumbrar esse tão importante pensador francês, se vivo estivesse , a conviver com celulares apitando em todos os bolsos, de quaisquer nacionalidade.A telefonia da loucura,sua clínica.
Resgatando Foucault ,lembrei-me portanto que esgueirar-se é preciso.Tornar-se eficazmente invisível,apesar das tentações que qualquer furor exibicionista possa nos suscitar.E somos espontaneamente exibidos,desde quando éramos,há poucos minutos-horas ,jovenzinhos.E também espontaneamente vinculados a um conceito Deus,confundido com algumas carteiras de identidade e suas fotografias erradas.
Quando se é bem jovenzinho o reino das ilusões é hegemônico.Com o passar do tempo é como se essa ilusão permanecesse por inércia,mas a lucidez ,dolorida quase sempre ,que a desilusão nos traz ,ao menos para quem acompanha o teatro da vida, torna-se ela sim hegemônica.
Você supostamente atravessou diversos processos,experimentou-os ,logo não cai tão facilmente noutras armadilhas.Digo outras ,pois não serão mais as mesmas por mais semelhantes ,análogas ou coisa próxima do que tenham um dia sido.Na minha ignorância acadêmica ,recordo Heráclito ,famoso pré-socrático mobilista ,e o seu mergulho que não era nunca o mesmo.'Um mesmo homem jamais se banha duas vezes no mesmo rio"- teria dito enquanto nadava.
A propagada experiência - e aqui revelo preferência pela idéia das experimentações ,sem ser positivista ou algo semelhante,mas o termo maturidade me irrita pelo simples fato de que o fruto quando maduro cai de podre- nos conduz a um distanciamento mais sereno,menos pré-conceituoso diante dos acontecimentos.Você já mapeou algumas-poucas na verdade- encruzilhadas e sacou que a fronteira não está mais lá.Não só se deslocou ,mas parece ter desaparecido de vez.É como se certas fundações não tivessem sido tão fundamentais assim.Um grande teatro repleto de possibilidades.É o que há.É o que certa caminhada nos apresenta.
Décadas atrás, e aí o tempo já nos dá essa autoridade de argumento´,ao menos enquanto trajetória percorrida,o futuro demorava mesmo muito tempo. Uma profecia do filósofo marxista Althusser.
'Now' , ele deixou de ser uma elocubração mítica e se aproxima.Afinal, caminha-se para frente.
Em outra certa ocasião, o hiper-democrata Michel Foucault, declarara o seu horror pela carteira de identidade.Considerava esse troço ,com a fotografia sempre errada ,algo muito invasivo.
Fico a vislumbrar esse tão importante pensador francês, se vivo estivesse , a conviver com celulares apitando em todos os bolsos, de quaisquer nacionalidade.A telefonia da loucura,sua clínica.
Resgatando Foucault ,lembrei-me portanto que esgueirar-se é preciso.Tornar-se eficazmente invisível,apesar das tentações que qualquer furor exibicionista possa nos suscitar.E somos espontaneamente exibidos,desde quando éramos,há poucos minutos-horas ,jovenzinhos.E também espontaneamente vinculados a um conceito Deus,confundido com algumas carteiras de identidade e suas fotografias erradas.
domingo, 19 de setembro de 2010
Digressões narcísicas ou papo de Psicótico?
Será que a gente consegue se livrar de um certo narcisismo baixo?
Observo alguns comentários exemplares sobre preferências eleitoreiras e ele se mostra.Ele quem? O tal narcisismo.O cara não somente aposta ,mas faz defesas apaixonadas de si - é claro- projetadas lá no candidato escolhido.O outro não presta.
Faz algum tempo que não escrevo nada aqui nesse espaço. Ando narcisicamente -não há escapatória disso- dizendo abobrinhas numa ferramenta chamada facebook.É uma gracinha internética onde postamos escritos, imagens ,gemidos ,através de uma limitação de caracteres.O troço é bem curtinho.Quatrocentos e poucos caracteres no maximo.E tem coisa mais curtinha ainda.
Entretanto, ele também é ótimo pois falar algo através de um número reduzido de letras ou palavras ou sons ou imagens é uma beleza.
Fui educado num sistema religioso - católico- em que longos sermões eram valorizadíssimos. Além do mais, as obras literárias também eram muito extensas.Imaginem hoje um jovem atravessando a obra de Proust?Aqueles sete volumes em que ,vez ou outra, o grande Marcel leva páginas a fio descrevendo o laço de fita da roupa de uma personagem?Se você não se atentar para o fato de que naquele laço de fita há a condensação de todos os personagens e por conseguinte toda a história ,adeus ao livro.
Será que dois gênios conseguem ser amigos?Conseguem pelo menos conversar?Não concordar genialmente?
Não preciso convencer ninguém de que ele está enganado.O que posso saber sobre o engano alheio?Para além ou aquém de uma visão minha que é pojada de sintoma?Quando avalio,avalio de que lugar?
Isso é fundamental pois os nossos preconceitos já tomaram o poder faz tempo.
Um dia imaginei uma conversa ,seria melhor escrevê-la,fingi-la ao menos, entre criaturas,ditas humanas, que desconfiam.Não recorrem a nenhum argumento de autoridade ,como por exemplo,enfiar o Proust na conversa.Tão somente,escutavam e argumentavam.Ninguém teria razão e todos teriam.
O problema é que queremos sempre ganhar as discussões.E é normal esse querer.
Queremos o poder. Poder é bom.Impotência é triste...até mesmo nas partes baixas.Se bem que as novas tecnologias trazem diversas possibilidades.Sobretudo para os que acreditam demais nas próprias piroquinhas.
Odiamos a crítica também, porque toda crítica é destrutiva.Ela implica em descontinuidade,mesmo quando nos considera uma maravilha.E aí se localiza também o cinismo sobre ética. É parecido o movimento.
Se alguém não tem uma conduta que a nossa turma concorde ou aplauda ,não é ético.Mas se esse alguém é ou esteve próximo da gente ,pode ter sido tão somente um erro político.
Lidar com a tal crítica é semelhante. Se foi elogiosa , vira propaganda para o espetáculo.Se foi contundente no seu não apreço pelo mesmo espetáculo, quem a fez geralmente não presta.
Certa vez, uma famosa atriz brasileira ao receber um troféu,por causa da sua atuação numa telenovela,dedicou corajosamente o troféu a uma colega que, disputara o mesmo prêmio com ela. Ela dedicou; ela não lhe deu o prêmio.
Meu mestre traduziu aquele volume enorme e maravilhoso ,escrito por Freud no início do século passado, chamado "O Mal Estar na Cultura" , para 'A vida é uma Merda'. E freudianamente sabemos que ouro e merda são o mesmo. A variação se dá em termos de odor.
Argumento de autoridade posto sobre o papel monitor: encerro esse troço que escrevo sem concluir quase nada. O que é ótimo,pois implica na continuidade dessa falação que não cessa.Ainda que, através de parcos caracteres.Quantos foram mesmo?
Observo alguns comentários exemplares sobre preferências eleitoreiras e ele se mostra.Ele quem? O tal narcisismo.O cara não somente aposta ,mas faz defesas apaixonadas de si - é claro- projetadas lá no candidato escolhido.O outro não presta.
Faz algum tempo que não escrevo nada aqui nesse espaço. Ando narcisicamente -não há escapatória disso- dizendo abobrinhas numa ferramenta chamada facebook.É uma gracinha internética onde postamos escritos, imagens ,gemidos ,através de uma limitação de caracteres.O troço é bem curtinho.Quatrocentos e poucos caracteres no maximo.E tem coisa mais curtinha ainda.
Entretanto, ele também é ótimo pois falar algo através de um número reduzido de letras ou palavras ou sons ou imagens é uma beleza.
Fui educado num sistema religioso - católico- em que longos sermões eram valorizadíssimos. Além do mais, as obras literárias também eram muito extensas.Imaginem hoje um jovem atravessando a obra de Proust?Aqueles sete volumes em que ,vez ou outra, o grande Marcel leva páginas a fio descrevendo o laço de fita da roupa de uma personagem?Se você não se atentar para o fato de que naquele laço de fita há a condensação de todos os personagens e por conseguinte toda a história ,adeus ao livro.
Será que dois gênios conseguem ser amigos?Conseguem pelo menos conversar?Não concordar genialmente?
Não preciso convencer ninguém de que ele está enganado.O que posso saber sobre o engano alheio?Para além ou aquém de uma visão minha que é pojada de sintoma?Quando avalio,avalio de que lugar?
Isso é fundamental pois os nossos preconceitos já tomaram o poder faz tempo.
Um dia imaginei uma conversa ,seria melhor escrevê-la,fingi-la ao menos, entre criaturas,ditas humanas, que desconfiam.Não recorrem a nenhum argumento de autoridade ,como por exemplo,enfiar o Proust na conversa.Tão somente,escutavam e argumentavam.Ninguém teria razão e todos teriam.
O problema é que queremos sempre ganhar as discussões.E é normal esse querer.
Queremos o poder. Poder é bom.Impotência é triste...até mesmo nas partes baixas.Se bem que as novas tecnologias trazem diversas possibilidades.Sobretudo para os que acreditam demais nas próprias piroquinhas.
Odiamos a crítica também, porque toda crítica é destrutiva.Ela implica em descontinuidade,mesmo quando nos considera uma maravilha.E aí se localiza também o cinismo sobre ética. É parecido o movimento.
Se alguém não tem uma conduta que a nossa turma concorde ou aplauda ,não é ético.Mas se esse alguém é ou esteve próximo da gente ,pode ter sido tão somente um erro político.
Lidar com a tal crítica é semelhante. Se foi elogiosa , vira propaganda para o espetáculo.Se foi contundente no seu não apreço pelo mesmo espetáculo, quem a fez geralmente não presta.
Certa vez, uma famosa atriz brasileira ao receber um troféu,por causa da sua atuação numa telenovela,dedicou corajosamente o troféu a uma colega que, disputara o mesmo prêmio com ela. Ela dedicou; ela não lhe deu o prêmio.
Meu mestre traduziu aquele volume enorme e maravilhoso ,escrito por Freud no início do século passado, chamado "O Mal Estar na Cultura" , para 'A vida é uma Merda'. E freudianamente sabemos que ouro e merda são o mesmo. A variação se dá em termos de odor.
Argumento de autoridade posto sobre o papel monitor: encerro esse troço que escrevo sem concluir quase nada. O que é ótimo,pois implica na continuidade dessa falação que não cessa.Ainda que, através de parcos caracteres.Quantos foram mesmo?
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